Autor: Eduardo Melo

  • Lição 7 – Editora Betel – Jacó no vau de Jaboque

    Texto Áureo

    “Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um homem, até que a alva subiu”. Gn 32.24

    Verdade Aplicada

    Buscar em Deus a mudança ra­dical de nossa vida, é a decisão mais sábia que devemos tomar.

    Objetivos da Lição

    ?      Ensinar que os planos dos homens sem Deus nada valem;

    ?      Mostrar que Deus quer nos ensinar a depender dele; e

    ?      Demonstrar o valor que é ser tocado pelo Senhor.

    Textos de Referência

    Gn 32.24 Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um varão, até que a alva subia.

    Gn 32.26 E disse: Deixa-me ir, porque já a alva subiu. Porém ele disse: Não te deixarei ir, se me não abençoares.

    Gn 32.27 E disse-lhe: Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó.

    Gn 32.28 Então, disse: Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel, pois, como príncipe, lutaste com Deus e com os ho­mens e prevaleceste.

    Gn 32.30 E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva.

    Gn 32.32 Por isso, os filhos de Israel não comem o nervo encolhido, que está sobre a jun­tura da coxa, até o dia de hoje, porquanto ele tocara a juntura da coxa de Jacó no nervo en­colhido.

     

    O Drama de Jacó e Esaú

    Jacó Teme a Esaú e Prepara-se para o Encontro

    Continuando Jacó o caminho de casa, como vimos na lição 06, Jacó teria de atravessar o território de Esaú, e não pensava que poderia evitar esse encontro. Haveria de tomar a rota comum, e não desviaria caminho para o deserto. Havia comunidades ao longo dessa rota. Daí o seu dilema. Jacó traçou planos de acordo com a razão humana, e esperou que sucedesse o melhor. Recebeu outra visita angelical que preparou a sua mente para a viagem e para o encontro, mas seu temor não parece ter sido aliviado por causa disso. Enviou mensageiros que preparassem o caminho. Mas eis que Esaú, com quatrocentos homens (um verdadeiro exército, para a época), estava vindo ao seu encontro. Ao ouvir isso, Jacó ficou angustiado. Seus pecados o estavam alcançando de novo. O que um homem semear, isso haverá de colher. Ele deve­ria ter-se descontraído, porém. Esaú não era homem que pudesse manter uma inimizade por mais de vinte anos. De fato, assim como as dificuldades de Jacó com Labão tinham terminado com tristes despedidas de membros de uma mesma família, assim seu encontro com Esaú terminaria como uma daquelas felizes reuniões familiares. A bênção do Senhor acompanhava a Jacó por onde quer que ele fosse. Senhor, concede-nos tal graça!

    32.1

    Anjos de Deus lhe saíram a encontrá-lo. Admiramo-nos das vezes em que os anjos acompanharam Jacó. Eu mesmo levo a sério a realidade desses seres invisíveis. Há muitas evidências em prol da existência dos anjos. Provavelmente, na época de Jacó, eles não eram considerados seres imateriais, mas certamente eram tidos como seres de outra dimensão. Não são uma variedade diferente de seres humanos, nem mesmo aparentados.

    Seja como for, os anjos sempre estavam prontos a proteger Jacó, a fim de tranquilizar lhe a mente e infundir-lhe senso de segurança. Ele estava de volta para casa. Coisa alguma poderia impedi-lo ou prejudicá-lo ao longo do caminho. Ver Sl 91.11,12 quanto às grandes promessas associadas aos seres angelicais. Eles são espíritos ministradores (Hb 1.14). Ver as seguintes referências às atividades dos anjos no Gênesis, até este ponto: 16.7,9-11; 19.1; 21.17; 22.11,15; 24.7,8,12 ss.,40; 31.11. Ver também Gn 32.24. Jacó passou por muitas experiências místicas, com ou sem a presença visível de anjos. Conside­remos a sua experiência em Betel (Gn 28.12 ss.), acompanhada por anjos. Ao que parece, todas as grandes mudanças em sua vida foram ajudadas pelo ministério angelical. De quanto carecemos da manifestação da presença divina para ajudar-nos! Não basta ler a Bíblia e orar. Precisamos do toque místico, mormente em períodos de crise e de decisão. Oh, Senhor, confere-nos tal graça!

    “Neste ponto, o mundo invisível de Deus tocou abertamente no mundo visível de Jacó” (Allen P. Ross, in loc.).

    32.2

    Maanaim. No hebraico significa acampamento duplo. Esse foi o nome dado ao lugar quando Jacó, ao retornar de Padã-Arã, teve um encontro com anjos. Ao vê-los, Jacó exclamou: “Este é o acampamento de Deus”. Literalmente, a palavra significa “dois exércitos”. Talvez fossem compostos pelo grupo humano, que Jacó encabeçava, e pelo grupo dos anjos. Ou, talvez, o número dos anjos fosse tão grande que eles pareciam ser não um só, mas dois exércitos. O propósito do relato foi mostrar quão bem Jacó estava sendo acompanhado. Muito poder acompanhava Jacó. Ele mesmo avan­çava em fraqueza e temor. Esaú em breve haveria de encontrar-se com ele, levando-o a temer. Mas Deus estava controlando a situação. Jacó não sofreria dano, pois estava destinado a voltar para casa e iniciar ali uma nova missão. O Pacto Abraâmico garantia a sua segurança e o cumprimento de mais cinquenta anos de vida, prenhes de propósito. Assim também, os propósitos de Deus garantem a nossa vida e guiam-nos de um drama para outro. Jacó ainda tinha mais de um terço de sua vida para viver. Sua volta à Terra Prometida estava garantida.

    “Quão frequentemente os anjos são mencionados na história da vida de Jacó! Anjos no sonho-visão da escada, em Betel; o sonho de um anjo que lhe dissera para deixar o território de Labão; anjos agora, que lhe saíram ao encontro, no caminho; a memória de um anjo quando, finalmente, ele impôs as mãos sobre os filhos de José, e disse: ‘O Anjo que me tem livrado de todo mal abençoe estes rapazes’ (Gn 48.16)” (Walter Russell Bowie, in loc).

    O nome Maanaim foi posteriormente dado a uma cidade que veio a pertencer à tribo de Gade. Ver II Sm 2.8; 17.24; I Rs 4.14.

    32.3

    Enviou mensageiros… a Esaú. Quando Jacó enganou seu pai, Isaque, e furtou a bênção (e então já havia arrebatado o direito de primogenitura), estava tratando somente com uma pessoa. Mas agora Esaú avançava contra ele à testa de um pequeno exército de quatrocentos homens. Jacó tinha muita razão para temer; mas ao mesmo tempo, nada tinha para temer, visto que todas as coisas estavam cooperando em conjunto para o seu bem. Antigos atritos tinham desapa­recido. Esaú estava avançando de coração e de braços abertos. E assim, pode­mos dar graças, pois muitos de nossos piores temores na realidade nada repre­sentam, Deus já tomou conta das coisas. Os mensageiros nem tiveram tempo de entregar a mensagem reconciliadora de Jacó. Mas Deus já havia reconciliado os dois irmãos, um com o outro.

    Terra de Seir. Essa palavra significa peludo, cabeludo. Provavelmente havia ali muita vegetação, embora não mais atualmente. Seir ficava a muitos quilômetros de Maanaim, mas parece que Esaú, já por vários dias, avançava para onde estava Jacó; e assim, quando os mensageiros partiram, ele já não estava muito longe. Esse lugar ficava ao sul do mar Morto, e estendia-se até o golfo da Arábia (I Rs 9.26). Era um nome alternativo para Edom.

    Edom. Essa pala­vra significa vermelho, uma alusão ao repasto vermelho que Jacó vendeu a Esaú, em troca do direito de primogenitura. Essa alcunha foi dada a Esaú (Gn 25.30) e passou dele para a terra em que fora habitar. Tornou-se um nome alternativo para Seir e para a Iduméia, além de designar a terra e seus habitantes, os descenden­tes de Esaú (Gn 25.20, 21, 30 e 32.3), ou, coletivamente, todos os idumeus (Nm 20.18,20,21; Am 1.6,11; Ml 1.4).

    32.4

    Uma Breve História. Os mensageiros foram enviados para contar a Esaú uma breve história da vida e dos atos de Jacó, desde que se tinham visto pela última vez, cerca de vinte anos antes. A linha central do recado dizia: “Sê amigá­vel para comigo”, ou seja, Jacó buscava as boas graças de seu irmão gêmeo (vs. 5). Era um apelo em favor de paz e de boas relações.

    Jacó, o homem de muitas experiências místicas, homem de destino e de poder, o vaso central, em sua geração, do Pacto Abraâmico, por outra parte, era também aquele homem que havia cometido certos erros que ainda o perseguiam. Esse homem teria de sofrer as consequências de sua insensatez anterior. Ele havia defraudado seu irmão e, então, se afastara para uma distância segura de sua vítima. O passado, contudo, não poderia ser esquecido. Ele teria de se encontrar consigo mesmo, o “eu” que ele deixara para trás fazia muitos anos. A lei da colheita segundo a semeadura é muito poderosa. Mas Esaú, o irmão defraudado, mostrou-se moral­mente superior a Jacó, e deixara de odiar. Agora, só queria ver de novo o seu amado irmão gêmeo. A graça de Deus estava atuando em seu coração.

    Como peregrino morei. Jacó não havia residido com Labão de forma per­manente. Fora ali apenas um peregrino. Agora estava voltando para casa. Os patriarcas de Israel foram peregrinos e forasteiros na terra (Hb 11.13). Jacó parece ter transmitido a ideia de que já havia sofrido o bastante às mãos de Labão, pelo que, por assim dizer, já havia pago a sua dívida. Isso posto, muito apreciaria se recebesse um tratamento bondoso às mãos de Esaú. Todos acaba­mos pagando as nossas dívidas, de uma maneira ou de outra.

    32.5

    Volto Rico. Trabalhei muito; enriqueci; tenho vivido bem. Talvez isso indicas­se que ele presentearia Esaú, a fim de suavizar a indignação deste. E acabou dando-lhe mesmo presentes (vss. 14 e 15). Seus presentes foram deveras gene­rosos, mesmo porque seu temor era grande. Algumas vezes, os presentes são peitas disfarçadas, o que por certo ocorreu nesta ocasião.

    Jacó não merecia a amizade de seu irmão, mas tinha esperança de poder comprá-lo. Bens materiais serviriam para corrigir as contas? Esaú também havia enriquecido, e por que se importaria com coisas materiais? Só queria oferecer perdão a seu irmão, como também acenar-lhe com a paz. A graça de Deus estava atuando.

    32.6

    Quatrocentos homens com ele. Fracassara a missão dos mensageiros enviados por Jacó. Esaú passara por eles com pressa, aparentemente de testa franzida, decidido a fazer o mal. A única informação que os mensageiros puderam captar fora que Esaú se encaminhava na direção de Jacó, com um pequeno exército de quatrocentos homens. Talvez ele tenha reunido tal força sem saber o que poderia esperar da parte de Jacó. Afinal, Jacó nunca fora conhecido como homem de negociações justas. Talvez Jacó estivesse atacando com um poderoso batalhão armado. Qual não deve ter sido a surpresa de Esaú ao averiguar que Jacó estava acompanhado somente de mulheres e crianças! (Gn 33.2).

    “. . .uma consciência culpada não precisa de acusador. Mais cedo ou mais tarde, ela dirá a verdade” (Adam Clarke, in loc.).

    32.7

    Teve medo e se perturbou. Jacó trazia muitos bens, mas não estava equi­pado para a guerra. Por outra parte, Esaú parecia bem munido para guerrear. Conforme costumavam dizer os gregos quando as circunstâncias eram impossí­veis de contornar: “Lança tudo ao cuidado dos deuses, e ora”. E foi isso que Jacó fez.

    A divisão de sua gente em dois grupos teve o propósito de diminuir as perdas e o derramamento de sangue. Enquanto um grupo fosse massacrado, o outro tentaria escapar. Jacó preparou-se para o pior, ao mesmo tempo que Deus o tinha preparado para receber o melhor. É grandioso quando Deus age além e acima do que esperamos.

    “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quan­to pedimos, ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós. . . (Ef 3.20).

    A angústia de Jacó era grande, apesar da visão dos anjos que ele tinha recebido. Deus o tinha encorajado, mas ele estava muito aflito, pois sua fé era fraca. Ele era um quadro do crente comum, conforme sucede à maioria de nós. E então, cada vez que Deus nos dá uma grande vitória, isso nos surpreende de novo.

    32.8

    Minimizando as Perdas. Jacó havia virtualmente abandonado a esperança de paz e amor. Agora só procurava diminuir as perdas inevitáveis. Um de seus grupos talvez fosse massacrado, mas, enquanto isso, o outro grupo teria a oportu­nidade de escapar. Ele se havia olvidado do amor de Deus, o qual pode (e ocasionalmente assim realmente faz) mudar o coração dos homens. Estamos sempre em dificuldades e apertos, quando deixamos de lado o amor de Deus. A intenção de Jacó era apenas aplacar; mas Deus já havia aplicado o Seu amor. “Fogem os perversos, sem que ninguém os persiga” (Pv 28.1).

    Na mente de Jacó, todos os quatrocentos homens de Esaú vinham de espa­da desembainhada na mão. Na mente divina, entretanto, todos vinham de cora­ção amistoso e de braços abertos, acolhedores. Eles eram uma comissão de boas-vindas, e não um exército destruidor.

    A Aflita Oração de Jacó (32.9-12)

    32.9

    Deus de meu pai. Jacó havia traçado os seus planos, e esperava salvar parte de seu grupo. Na sua oração, porém, seu alvo foi mais alto do que isso. Todavia, esse alvo mais elevado só poderia ser atingido mediante o poder divino. Deus já havia feito o trabalho, mas como não sabia disso, Jacó orava insistentemente para que houvesse algum acontecimento especial. Ele teria de esperar até o dia seguinte, a fim de ver o resultado de suas orações, pois ainda teria de passar-se uma noite (vs. 13). Quanto à fórmula por muitas vezes repetida, “Deus de Abraão e de Isaque”, à qual foi acrescentado mais tarde o nome de “Jacó”. O acúmulo de nomes patriarcais, atrelados ao nome de Deus, compunha uma fórmula de monoteísmo e de poder. Era o Deus de Israel, conforme passou a ser chamado mais tarde. Esse acúmulo também emprestava apoio tradicional à nova fé, que se ia formando.

    Deus dera ordens a Jacó para que retomasse à sua terra. E Jacó estava obedecendo. Portanto, Jacó estava recebendo a proteção divina, em face de sua obediência. Ademais, como poderia ter cumprimento o Pacto Abraâmico, se Jacó e seus filhos fossem dizimados em campo aberto? Ver Gn 31.13 quanto à ordem divina que lhe fora dada: “volta para a terra de tua parentela”.

    “A oração de Jacó… foi notável por sua combinação de grande intensidade com simplicidade de termos. Depois de dirigir-se a Deus como o Elohim de seus pais, ele se aproximou mais Dele, chamando-0 de Yahweh, o qual lhe havia ordenado pessoalmente que voltasse ao lugar onde nascera (Gn 31.13)” (Ellicott, in loc.).

    E te farei bem. Deus daria proteção a Jacó, abençoando-o e conferindo-lhe poder, a fim de que fosse o elo que levasse avante a cadeia do Pacto Abraâmico, até que a nação de Israel se tornasse uma realidade. Uma vez mais, pois, é enfatizada a providência de Deus, algo que é tão conspícuo no livro de Gênesis.

    32.10

    Sou indigno. A maioria das orações pode ser iniciada por uma confissão de indignidade, pois essa é a condição humana geral. A Jacó já havia sido conferida, por repetidas vezes, a misericórdia divina, de mescla com alguma revelação da verdade. Grande propósito divino estava atuando em sua vida. Ele tinha visto muita coisa; esperava ver mais ainda, e, especificamente, a presença protetora de Deus, naquele instante, para que tudo não viesse a perder-se desnecessariamente.

    O homem espiritual reconhece essas coisas. Quão frequentemente oramos, baseando nossas petições sobre as bênçãos passadas e sobre o poder já experi­mentado! Como foi o passado, tal será o futuro! Jacó tinha tido ricas experiências. Agora, orava fervorosamente, pedindo forças espirituais e a intervenção divina na sua presente emergência.

    Atravessei este Jordão. Isso tinha acontecido cerca de vinte anos antes. Jacó reconheceu que, naquela ocasião, embora não tivesse companhia humana, Deus estivera com ele. E agora, considerasse Deus como ele se tornara dois grupos de pessoas e de animais. “É tudo devido à Tua bênção, ó Senhor. Não permitas que agora tudo se acabe!”

    “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça…” (Ef 3.8). Mas, a despeito de sua indignidade, Jacó recebeu uma grande bênção. Tal como lhe acontecera no passado, assim continuaria a ser no futuro!

    32.11

    Livra-me… e as mães com os filhos. Em sua mente, Jacó imaginava a pior de todas as cenas: as mães impotentes a quererem salvar freneticamente seus filhinhos preciosos, do bronze sem misericórdia das armas de guerra.

    “. . .Salmã destruiu Bete-Arbel no dia da guerra: as mães ali foram despedaçadas com seus filhos” (Os 10.14). Essa é a pior possibilidade em uma guerra — as mães e seus filhos sofrendo às mãos de homens ímpios e desarrazoados. O ódio é capaz de liberar a pior crueldade, a destruição inútil de famílias, em meio à barbárie e à selvageria.

    32.12

    O Pacto Abraâmico, aqui relembrado por Jacó, conferia-lhe esperança na­quela hora. Ver Gn 28.3,4,14 e 31.3 quanto aos elementos reiterados, no que se aplicavam a Jacó. Quanto à metáfora da areia do mar, ver Gn 22.17 (a promes­sa feita a Abraão), que aqui Jacó reivindica com uma promessa feita a ele mes­mo. Em Gn 22.17, exponho o acúmulo de metáforas sobre a multiplicação que poderia ser esperada em resultado daquele pacto. Ver as notas sobre esse pacto, em Gn 15.18. Ora, não poderia haver tal multiplicação dos descendentes de Abraão se agora Jacó e seus filhos fossem mortos. Jacó aplicou essa lógica em sua oração. A fidelidade de Deus faz-nos atravessar as horas mais terríveis.

    32.13

    Tendo passado ali aquela noite. Jacó prepara-se para o encontro com Esaú, confiando em Deus e nos seus presentes, que haveria de dar a seu irmão no dia seguinte. Era um presente deveras generoso. Mas é melhor perder alguma propriedade do que perder a vida. Esaú havia ameaçado matá-lo (Gn 27.41), e agora parecia estar prestes a poder executar a ameaça. No entanto, outra noite haveria de intervir, antes do fatídico encontro (ver o vs. 21).

    Onde Jacó Passou a Noite? Por certo, em Maanaim (vs. 1). “O presente que o homem faz alarga-lhe o caminho…(Pv 18.16).

    32.14,15

    Um Magnífico Presente. Quinhentos e oitenta animais devem ter formado uma dádiva impressionante. Eram os melhores animais para alimentação, vestes e viagens. Animais domesticados formavam um aspecto importante das riquezas na antiguidade. E aquele que tivesse uma bela esposa e alguns animais conside­rava-se feliz. Jacó mostrou-se realmente generoso. A generosidade era uma ma­neira de alguém preservar a própria vida. No dizer de Adam Clarke (in ioc.), foi um “presente principesco”. Os animais presenteados poderiam ter sustentado uma família durante muito tempo, servindo de virtual pensão vitalícia para um criador de gado. O leite de camela era considerado uma delícia pelos habitantes de todas aquelas regiões. Uma camela produz leite continuamente durante muitos anos. Plínio explana que esse leite era misturado com três partes de água, tornando-se uma bebida muito saudável e saborosa (Hist. Nat. lib. xi cap. 41).

    O Princípio Moral. Os erros praticados contra alguém precisam ser corrigidos por meio de restituição, sempre que isso estiver ao nosso alcance. E aquele que assim não o fizer, não terá o direito de invocar a misericórdia divina, chegado o momento de necessidade. A restituição pode e deve ser um ato que demonstre um arrependimento genuíno. Ver Ef 4.28.

    Presentes

    Mais bem-aventurado é dar que receber. (As 20.35)

    O que há de mais importante, em qualquer relacionamento, não é o que se obtém, mas o que se dá. (Eleanor Roosevelt)

    Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra. (Mt 7.9)

    O amor é o melhor de todos os presentes.

    32.16

    Os Três Rebanhos. Ver os versículos imediatamente anteriores, quanto ao número e às espécies desses rebanhos. Há várias razões pelas quais os animais podem ser divididos em três rebanhos:

    1º      Seria mais fácil guiar os animais separados, do que se estivessem misturados uns com os outros.

    2º      Separados assim, formariam um presente mais impressionante, devido à sua boa ordem.

    3º      Acima de tudo, isso fazia parte de uma tática da parte de Jacó. Se Esaú continuasse irado, depois de falar com os servos de Jacó (divididos em sucessi­vos grupos), sua ira teria mais oportunidade de esfriar. Um esquema assim por certo teria abrandado um homem como Labão, que ficaria ocupado em contar os animais, na esperança de receber mais ainda. Esaú, porém, não era desse tipo (Gn 33.9). Antes, ele disse: ‘Tenho o bastante; não quero os teus animais.”

    Deixai espaço entre rebanho e rebanho. Isso faria com que os animais dessem a impressão de ser mais do que quinhentos e oitenta. Assim, a ira de Esaú iria abater-se cada vez mais.

    32.17,18

    Perguntas e Respostas. Por sua vez, a mesma coisa iria acontecendo aos líderes de cada rebanho. Haveria saudações; haveria perguntas acerca da razão daquele rebanho; haveria reafirmações do fato de que Esaú era o senhor de Jacó. Isso iria desgastando a indignação de Esaú. Depois das três séries de animais, viriam as mulheres com seus filhos, Raquel, e, finalmente, o próprio Jacó. Por essa altura, o caminho estaria preparado para o reencontro dos dois irmãos. “A ironia de tudo é que todas aquelas precauções eram desnecessárias” (Walter Russell Bowie, in Ioc.).

    32.19

    O terceiro sentido provável de os animais terem sido divididos em três reba­nhos é que estes devem ter sido formados, o máximo possível, pela mesma espécie de animais. Ver o vs. 16 quanto às razões possíveis dessa divisão dos rebanhos. Os três rebanhos atuariam como uma introdução à chegada de Jacó (Gn 33.2,3). Mas antes dele mesmo, as mulheres e as crianças deveriam apare­cer. Em seguida, Raquel, a esposa favorita, cuja vida Jacó queria preservar o máximo possível (Gn 33.2).

    32.20

    Jacó vem vindo atrás de nós. Em outras palavras, Jacó não estava tentan­do evitar o encontro com Esaú. Ele estava chegando. Que Esaú tivesse paciên­cia. Mas antes que houvesse seu encontro com Esaú, Jacó ainda teria de passar por outra poderosa experiência espiritual: a luta com o anjo. E isso haveria de alterar seu nome de Jacó (suplantador) para Israel (Deus Luta, ou Príncipe de Deus). Esaú haveria de encontrar um novo homem. Jacó, pois, haveria de prevalecer, apesar de seus truques e de suas manipulações. O melhor de tudo é que ele seria transformado mais ainda em conhecimento e em progresso espiritual. Jacó seria humilhado e castigado, antes que seu passivo pudesse ser eliminado. Esaú, homem superior a Jacó quanto a vários aspectos, haveria de esquecer-se do passado. E então, haveria unidade e harmonia.

    Eu o aplacarei com o presente. Jacó confiava em seus presentes a fim de aplacar a Esaú. Somente depois disso apareceria diante dele. Esperava ver um sorriso naquele rosto, o que lhe daria a entender que tudo estava bem. Mas tudo aconteceu melhor do que ele esperava. Ambos se atiraram um nos braços do outro, chorando comovidos. O amor fraternal mostrou ser mais forte do que o ódio. O hebraico diz aqui, literalmente, “eu cobrirei o rosto dele”, uma expressão idiomática de difícil tradução. Não apareceriam as rugas de indignação no rosto de Esaú; o presente haveria de encobri-las, alterando a sua fisionomia. O amor cobre “multidão de pecados” (Tg 5.20).

    32.21

    Ficou aquela noite no acampamento. Isso mostra que a apresentação dos presentes a Esaú tomou um dia inteiro. Veio outra noite. Ver o vs. 13 quanto à primeira noite, desde que o reencontro começara a ser preparado, Jacó tinha-se instalado perto do ribeiro do Jaboque, conforme vemos no vs. 22. Ele não sabia ainda, mas nesse local ele passaria por outra grande experiência espiritual. O Anjo do Senhor o guiava, passo a passo. Oh, Senhor, concede-nos tal graça!

    32.22

    As Preciosas Poucas Vidas. O círculo íntimo de Jacó, aqueles que lhe eram mais chegados, consistia em Lia, Raquel, as duas concubinas, Bila e Zilpa, e os seus onze filhos. Eram esses que faziam parte de sua família imediata, que estavam ao seu lado o tempo todo. Diná sem dúvida também estava presente, embora ela não seja especificamente mencionada. Isso posto, as preciosas pou­cas vidas totalizavam dezessete pessoas, incluindo Jacó. Cada homem tem seu círculo mais interior, e aí o amor doméstico deve manifestar-se mais forte.

    O vau de Jaboque. Ou seja, o lugar onde o ribeiro podia ser atravessado. Esse ribeiro, quase um filete de água, descia dos montes da Arábia, passava perto da fronteira com os amonitas, regava a cidade de Rabá, e, então, passava entre Filadélfia e Gerasa, e, finalmen­te, desembocava no rio Jordão, perto do lago ou mar da Galiléia, que ficava a quase cinco quilômetros dali, mais para o sul. Atualmente esse ribeiro chama-se wady Zerqa, nome que significa “torrente azul”. Posteriormente, formou a fronteira entre as tribos de Manassés e Gade. No hebraico, o nome desse rio significa fluir fora ou fluir adiante.

    Jacó tinha tido a sua Betel; mas agora teria o seu Jaboque, lugares associa­dos a significativas experiências espirituais que lhe haviam transformado a vida. A transformação espiritual é um processo gradual e eterno. Ninguém chega a atin­gir, nesta vida, todo o seu potencial, mas estará sempre avançando nessa dire­ção.

    32.23

    E fê-los passar o ribeiro. Do outro lado, o destino esperava por Jacó. O encontro fatídico com Esaú não poderia ser evitado. Jacó enviou à sua frente tudo quanto lhe era precioso. E, então, ele mesmo avançou. Confiando em Deus e nos seus presentes a Esaú, ele prosseguiu, o coração batendo forte, mas com espe­rança. Ansioso, mas sem desesperar. Havia feito tudo quanto podia, de acordo com a razão. E confiava em que Deus faria o resto.

    Jacó tinha enviado suas esposas e rebanhos para a segurança, para o alto da serra ao sul. O profundo vale estava destinado a ser o palco de seu conflito solitário. Naquele ponto, a ravina tem entre 6,5 e 9,5 km de largura.

    32.24

    Ficando ele só; e lutava. Para outros, foram momentos seguros. Mas Jacó tinha ficado sozinho. E, de súbito, viu-se mergulhado em outra profunda experiên­cia espiritual. Oséias 12.4 mostra-nos que sua luta não foi apenas física, mas também espiritual. Como é óbvio, o vs. 26 deste capítulo indica a mesma coisa. Jacó pediu uma bênção antes de permitir que o “homem” se fosse. O vs. 28 mostra-nos que o homem era divino, e lemos no vs. 30: “Vi a Deus face a face”.

    A Identidade do Homem. Alguns eruditos creem que temos aí uma aparição do Logos, no Antigo Testamento, o qual, séculos depois, manifestar-se-ia como Jesus de Nazaré, em uma fusão da natureza divina com a natureza humana. Mas quase todos os estudiosos concordam em que esteve envolvido um anjo do Senhor. Notemos que em Gn 18.2 os três homens foram logo identificados como anjos (Gn 19.1). A experiência de Jacó incluiu vários encontros com anjos. Quanto a encontros com anjos, no livro de Gênesis, até este ponto, ver 16.7,9-11; 19.1; 21.17; 22.11; 24.7; 28.12 ss.; 31.11; 32.1.

    A Luta às Margens do Jaboque. No hebraico, “luta” (abaK) e “Jaboque” têm sons similares. Parece que abak deriva-se do termo hebraico que significa poeira, porquanto os lutadores logo se veem envolvidos em uma nuvem de poeira. Na Grécia, os lutadores passavam pó no corpo.

    Corporal ou Não-corporal? Os críticos dizem que todo o incidente foi apenas alegórico ou mitológico. Alguns eruditos conservadores debatem-se em torno da ideia de como um anjo pode assumir corpo físico, mesmo temporariamente, ou fingir ter um corpo que pode ser tocado e parece sólido. Nos tempos de Jacó, isso não constituía problema, já que os anjos não eram, provavelmente, concebidos como seres imateriais, embora fossem vistos como seres de outra dimensão, não sendo outra ordem de seres humanos. Apesar de haver muita evidência em favor de seres imateriais, e de esses seres poderem assumir corpo sólido, ou nos fazerem pensar que eles possuem corpos sólidos, restam ainda muitos mistérios em torno da questão, tal como há mistérios que circundam a própria vida. Logo, é inútil indagarmos quanto a essa questão. Simplesmente não sabemos como re­solver tais problemas. Há um intercâmbio de energia e de matéria, sendo provável que essa realidade esteja por trás de tais fenômenos de uma maneira que não sabemos explicar.

    Os intérpretes judeus explicavam de forma variegada este texto: Foi uma visão (Maimônides); foi um fantasma (Josefo); foi tudo imaginário ou um anjo (Targum de Jônatas, que chama esse anjo de Miguel).

    32.25

    Vendo este que não podia com ele. Jacó era forte demais, e o anjo não conseguia prevalecer sobre ele, motivo pelo que lhe infligiu uma injúria física. Algum golpe mais violento deixou-o capenga, embora a natureza do golpe não seja determinado no texto. Poderia um homem continuar a lutar, com o osso da coxa fora de sua junta? Nesse caso, havia muita coragem em Jacó. Ellicott opinou que se tratava de uma luxação. Mas a despeito de seu tendão fora de lugar, ele continuava lutando. Ele não somente continuou lutando, mas também prevaleceu. Lembremo-nos de que isso tinha não somente um aspecto físico, mas também um aspecto espiritual. Assim, Jacó estava sendo transformado, e obteria uma bênção especial, acompanhada pela mudança de seu nome. Ele prevaleceu con­tra um anjo; mas não demoraria a prostrar-se até o chão, por sete vezes, diante de seu irmão, Esaú (Gn 33.3)!

    Embora incapacitado, ele continuou lutando. Isso mostrava a determinação de Jacó. A perseverança é o mais importante elemento no sucesso em qualquer atividade. Mas por trás da perseverança deve haver entusiasmo. No grego, essa palavra significa, literalmente, “estar cheio de Deus”.

    32.26

    Já rompeu o dia. Um novo dia estava raiando na vida de Jacó, um dia muito abençoado, ou, talvez, o mais abençoado de sua vida. A luta se prolongara por boa parte da noite; Jacó estava chegando à vitória; o alvorecer trouxe-lhe o triunfo. O lutador celeste desejou ir-se embora, mas Jacó era forte demais para ele, e só lhe permitiria ir-se se lhe desse uma bênção divina. Desse modo ficamos sabendo que Jacó acabou por entender que nada havia de ordinário naquela luta. Ele estava envolvido em outra poderosa experiência mística. Ao romper a alva, surgiu também um novo Jacó, agora chamado Israel. Ele ainda tinha temores. Haveria de prostrar-se diante de Esaú. Mas um grande marco espiritual havia sido atingido. O passado ficara no passado.

    “Na combinação de bem e de mal que havia em Jacó, havia dois fatores de nobreza que o salvavam. O primeiro desses fatores era a consciência de que a vida tem um significado divino... e o segundo era a sua… determinação” (Walter Russell Bowie, in loc.).

    É provável que o texto dê a entender que Jacó, para enfrentar essa luta, recebeu uma força sobre-humana. Foi-lhe permitido ultrapassar as suas próprias forças, uma provisão divina,

    A pessoa derrotada precisava ceder diante das exigências da pessoa vitorio­sa. Isso assegurou a bênção pedida por Jacó. Ele havia conseguido um extraordi­nário triunfo, por ter vencido um extraordinário adversário.

    32.27

    Jacó. Esse fora seu nome, até aquele instante. Tal nome o havia caracterizado no passado. Ele havia sido o enganador, o astuto manipulador, o suplantador. Esse era o Jacó natural e carnal. Ele tinha sido um homem superficial, que ignorava a espiritualidade mais elevada, ao mesmo tempo que cultivava sua natureza mais baixa. Até ali ele tinha ignorado o impacto de seus pecados. Tinha prosperado materialmen­te, e até havia obtido alguma espiritualidade, mas continuava a ser apenas Jacó. “O agarrador de calcanhares fora apanhado” (Allen P. Ross, in loc.). Desse modo, fora envolvido em uma transação divina, e recebeu uma nova expressão de vida.

    32.28

    Israel. O novo nome de Jacó. Os antigos, com frequência, mudavam de nome quando havia alguma profunda mudança na vida, ou quando esperavam que houvesse tal mudança. No livro de Gênesis já vimos os casos de Abrão (nome mudado para Abraão, ver Gn 17.5) e de Sarai (nome mudado para Sara, ver Gn 17.15).

    Israel. É admirável o grande número de possíveis sentidos que os intérpretes dão a esse nome. Apresento abaixo apenas uma amostra:

    1.      “Deus luta”. Essa é a etimologia popular, que também pode indicar o verdadei­ro sentido do nome.

    2.      “Deus governa”.

    3.      “Aquele que luta com Deus” (Os 12.3,4).

    4.      “Aquele que prevalece com Deus” (Os 12.3, de acordo com outra interpreta­ção).

    5.      “Príncipe de Deus”. Ver o termo hebraico sar (como se vê no nome de Sara), que significa “príncipe”.

    6.      Por extensão, “príncipe de Deus que tem poder diante de Deus”.

    7.      “Príncipe que prevalece diante de Deus”.

    Todos esses nomes têm aplicações espirituais e morais. Se os estudiosos do idioma hebraico não nos podem fornecer uma resposta única, pelo menos fica claro um ponto: o fraco Jacó tornou-se o poderoso Israel, aquele que lutara com um ser angelical e vencera, mediante um poder miraculoso; agora era um príncipe de Deus que poderia prevalecer diante de Deus e dos homens; tinha lutado contra disparidades impossíveis e tinha vencido. Deus lutaria por meio dele na futura nação de Deus, e essa nação venceria. O Messias viria ao mundo por intermédio dele, a fim de abençoar todas as nações, em consonância com o Pacto Abraâmico. Por meio desse pacto, todos os povos haverão de ter poder diante de Deus e de prevalecer.

    O novo nome indica aquela transformação em nós que nos torna capazes de atingir toda a nossa potencialidade espiritual, para sermos conformados segundo a imagem de Cristo de uma maneira especial e ímpar. Isso faz de nós aquilo que poderemos vir a ser espiritualmente, o que nos confere tremendas potencialidades.

    O crente torna-se participante da natureza divina (II Pd 1.4).

    “Os ideais que embalamos, os propósitos que mantemos, a capacidade que sentimos de atingir qualquer coisa mais excelente do que já pudemos atingir — todas essas coisas estão contidas naquele novo homem escrito sobre a pedra branca que todo homem tem o privilégio de usar sobre o seu peito” (Charles R. Brown, em seu livro, “What Is Your Name?” referindo-se ao trecho de Ap 2.17).

    32.29

    0 Poder dos Nomes. Uma antiga superstição diz que há uma espécie de poder mágico nos nomes próprios. Até hoje, os exorcistas parecem obter maior êxito se conseguirem fazer o demônio proferir (e revelar) o seu nome. Parece que isso ajuda no exorcismo. Se isso pode ser exagerado, e se não sabemos o que Jacó tinha exatamente em sua mente, pelo menos neste versículo há provas de uma verdade eterna. Deus tem muitos nomes. Cada nome revela ou um atributo de Deus, ou alguma obra especial ou operação do Ser divino. Jacó pensava que poderia obter maior poder se soubesse o nome daquele ser divino (o anjo, ver o vs. 24), obtendo grandes bênçãos, eficiência e poder em sua vida. Talvez até, em outras ocasiões, pudesse ter maior poder em suas orações ou encantamentos, mediante o uso desse nome. Os nomes eram concebidos como essência da personalidade e do caráter de uma pessoa, e não meros rótulos de pessoas.

    O poder divino apossara-se de Jacó, e Jacó apoderara-se do poder divino. Agora, queria saber como deveria chamar esse poder. Queria preservá-lo e usá-lo. A Bíblia conta a história de como Deus vai sendo descoberto pelo homem. As experiências místicas trazem até nós a presença divina. Há poder nessa presen­ça. Precisamos estudar a Bíblia e orar, mas também precisamos de experiências pessoais com Deus. Aquele que tem essas experiências está em vantagem em relação ao que só tem argumentos.

    Reversão da Idolatria. O anjo não revelou o Seu nome, tal como, em outra ocasião, o mesmo Ser recusou-se a dizer Seu nome a Manoá (Jz 13.18). Agora Jacó tornara-se Israel, e estava progredindo espiritualmente. Ele conhecia Elohim e Yahweh. Isso lhe bastava. Alguns pensam que não deveria ser-lhe revelado o nome de um anjo, o que poderia acrescentar um falso deus à sua teologia. Bastava-lhe saber que tinha lutado com o anjo e tinha vencido um poder divino, e que esse poder o havia abençoado. O anjo era divino, mas não Deus. Outros pensam que o nome do anjo não lhe foi revelado para que Jacó não pudesse dispor do poder de um anjo. Cf. Êx 3.13,14 e Jz 13.17.

    32.30

    Peniel. Esse termo hebraico signi­fica “face de Deus” (ou “forma de Deus”). No Antigo Testamento, figura como nome de duas pessoas e de uma cidade. O local é o que aparece no presente texto. A sua localização exata ainda não foi identificada. Ficava em algum ponto a leste do rio Jordão, não longe de Sucote (Gn 33.17 e Jz 8.5,8). Posteriormen­te, foi edificada uma cidade com esse nome (Jz 8.8; I Rs 12.25). Alguns afirmam que ficava a seis quilômetros e meio de Maanaim.

    Jacó temia ver o rosto de Esaú, mas acabou vendo a face de Deus, por meio do anjo que lhe trouxe inesperada bênção e vitória. Esse tipo de visão era tido como potencialmente fatal, e, no entanto, Jacó recebeu permissão de viver e também de crescer espiritualmente em resultado da experiência. Ver Gn 16.13 e Êx 33.20 quanto a algo similar. Ver também Gn 28.19; 31.47 e 32.2. Ninguém jamais poderá ver Deus em sua verdadeira essência (Jo 1.18), mas Ele tem sido visto de maneiras secundárias, figuradas e visionárias.

    Penuel é uma forma alternativa do nome. Ele deixou o lugar onde lutara com Deus. Agora era Israel, e não mais Jacó. Alguns estudiosos pensam que foi nesse ponto que Jacó se converteu. Ele era um novo homem a caminho de um novo lar. Mas antes disso teria de encontrar-se com Esaú. Deus, porém, também cuidaria disso. Agora Jacó estava aleijado, e andava capengando. A marca da luta tinha ficado nele. Alguns supõem que Jacó tenha ficado permanentemente aleijado como lembrete. Talvez, mas não dispomos de informações sobre o assunto. Con­tava-se na família de meu pai (que trabalhava em uma estrada de ferro) a história de um empregado da estrada de ferro que vivia longe de Deus. Em um acidente, ele perdeu uma perna. Isso transformou a sua vida, e acabou produzindo a sua conversão. Seu aleijão tornou-se um lembrete permanente de sua “vitória”.

    32.31

    “Após o toque deformador, a luta de Jacó tomou uma nova direção. Agora aleijado em suas forças naturais, tornou-se ousado na fé” (Allen P. Ross, in loc.).

    32.32

    O nervo do quadril. Para os judeus tornou-se proibido comer dessa parte de um animal, porque ali o Anjo do Senhor tocara em Jacó e o deixara aleijado. Assim, essa parte do corpo sempre foi considerada um tanto sagrada; e esse sentimento foi transferido até para os animais que servissem de alimento. A proibição celebrava a experiência de Jacó, que era considerada uma importante experiência para Israel; pois a Israel é que Deus se tinha manifestado, tornando-o um Príncipe de Deus. Essa porção dos animais tornou-se um memorial da pre­sença divina. “O que seria esse nervo, nem judeu e nem cristão são capazes de dizer, e isso nada acrescenta ao nosso conhecimento e nem a uma verdadeira compreensão do texto, além de multiplicar conjecturas” (Adam Clarke, in loc.). Esse erudito pensa que a parte que foi injuriada foi a virilha. A Vulgata diz que o nervo encolheu, o que é refletido em algumas traduções. Provavelmente isso indica que houve uma injúria permanente no caso de Jacó. Mas a Septuaginta diz aqui “amortecido”, o que talvez indique uma injúria temporária.

    Uma Espécie de Ordenança. No caso de Abraão, Deus impôs a circuncisão. No caso de Israel, certa parte do corpo de animais a serem consumidos foi vedada na alimentação, porquanto Deus havia infligido outro tipo de operação física em Jacó, por assim dizer.

    John Gill pensa que a questão inteira envolve apenas uma superstição, além de informar-nos que na Mishna todo um capítulo foi dedicado a tratar da questão, proibindo que certa parte de um animal morto fosse comida. Em certos círculos houve tanto exagero quanto à questão que os judeus se negavam a comer qualquer nervo da parte posterior do corpo de um animal, visto ser difícil identificar exatamente qual nervo estaria envolvido. Outros chegaram ao extremo de comer qualquer porção dos quartos traseiros de um animal, e não apenas os nervos daquela porção.

    Bibliografia R. N. Champlin

    (mais…)

  • Lição 6 – Editora Betel – Jacó retorna à sua terra

    Texto Áureo

    “Então tomou Jacó uma pedra, e erigiu-a por coluna”. Gn 31.45

    Verdade Aplicada

    A vontade de Deus é perfeita, boa e agradável.

    Objetivos da Lição

    ?      Demonstrar que Deus é sobe­rano em seus atos;

    ?      Ensinar que Deus protege os seus em todas as situações;

    ?      Mostrar o testemunho de Jacó.

    Textos de Referência

    Gn 31.17 Então, se levantou Jacó, pondo os seus filhos e as suas mulheres sobre os ca­melos,

    Gn 31.18 E levou todo o seu gado e toda a sua fazenda que havia adquirido, o gado que possuía, que alcançara em Padã-Arã, para ir a Isaque, seu pai, à terra de Canaã.

    Gn 31.19 E, havendo Labão ido a tosquiar as suas ovelhas, furtou Raquel os ídolos que seu pai tinha.

    Gn 31.22 E, no terceiro dia, foi anunciado a Labão que Jacó tinha fugido.

    Gn 31.24 Veio, porém, Deus a Labão, o arameu, em sonhos, de noite, e disse-lhe: Guarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem mal.

    Jacó Separa-se de Labão (31:1-55)

    Esta passagem é primordialmente pro­duto da fonte Israelita do Norte (ênfase em sonhos e anjos, uso do nome Elohim para a divindade), depois de uma intro­dução proveniente da narrativa Judia, nos versículos 1-3. A maioria dos erudi­tos críticos atribui o versículo 2 ao escri­tor da fonte Israelita do Norte, porque ele parece dar uma explicação diferente para a decisão, de Jacó, de partir. No versículo 1, somos informados de que era devido aos filhos de Labão, enquanto, no versículo 2, de que era por causa do próprio Labão. Estilisticamente, não há argumentos convincentes para uma mu­dança de fonte. O escritor da fonte Judia facilmente poderia ter atribuído o desassossego de Jacó à atitude mutável de Labão, tanto quanto à de seus filhos. As seções da fonte Israelita do Norte jamais mencionam os filhos de Labão, e alguns expositores chegam à conclusão, devido a isso, de que a opinião da fonte era que ele não tinha nenhum filho varão, só filhas (Skinner). Isto colocaria essa fonte em conflito com o material da fonte Judia, a não ser que se interprete “filhos” como parentes (cf. Speiser). Todavia, o silêncio da fonte Israelita do Norte, a respeito do assunto, pode não significar, necessaria­mente, falta de conhecimento. Os filhos de Labão podiam estar incluídos entre os parentes (v. 23). A referência a Padã-Arã, no versículo 18, geralmente é identi­ficada com a fonte Sacerdotal, visto que nenhuma das fontes populares emprega este nome comumente. Ela é, provavel­mente, editorial, e não de outra fonte.

    O pacto entre Jacó e Labão (v. 43-54) é geralmente considerado como uma com­ posição de materiais das fontes Judia e Israelita do Norte, visto que dois símbo­los são estabelecidos: uma coluna e um montão de pedras, e duas explicações são dadas para o nome “Galeede”. A versão da fonte Israelita do Norte diz que Jacó levantou tanto as pedras quanto a co­luna (v. 45 e 46), e o suposto relato da fonte Judia atribui ambos os atos a Labão (v. 51). Isto leva a uma intricada especulação a respeito de como isso pode ter acontecido, se as narrativas da “co­luna” e do “montão” estavam original­mente separadas (von Rad, Speiser). É melhor considerar esta perícope como uma coerente continuação da narrativa da fonte Israelita do Norte. Jacó e Labão erigiram os monumentos, referindo-se cada um deles, em seus discursos, à parte que havia desempenhado no processo. Visto que ambos participaram da ereção, cada um deles deu nome aos monumen­tos. Num ato final de boa vontade, Labão consentiu em usar o nome dado por Jacó.

    Ordens de Marcha de Jacó (31:1-16)

    Tendo visto que havia perdido o favor de Labão e de seus filhos, Jacó estava pronto para ouvir a direção de Deus para voltar ao lar. A ordem de Deus era oposta à dada a Abraão. Abraão recebe­ra instruções para abandonar a sua terra e a sua parentela; Jacó devia voltar à sua. Assim mesmo, cada geração precisa sa­ber qual é a vontade de Deus para a sua situação em particular.

    Dez vezes mudou o meu salário. Esta é uma expressão figurada de um número grande, indefinido. Por esta declaração ficamos sabendo que Labão revisara muitas vezes o acordo feito com Jacó. Respeitando o aspecto do acordo que lhe era favorável, Labão sempre conservava as ovelhas brancas e as cabras escuras. Algumas vezes, contudo, ele limitava a parte de Jacó apenas às listradas ou às malhadas. Não obstante, cada vez os animais se multiplicavam a favor de Jacó.

    Os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e malhados. Não fora a esperteza de Jacó a responsável pela multiplicação prolífica da espécie de animais que lhe cabia. Deus providen­ciara para que os animais certos se aca­salassem.

    Levanta os teus olhos e vê. Von Rad considera esta expressão, bem como todo o versículo 12, como uma “inserção inep­ta”, feita por um editor posterior, pri­mordialmente porque ela interrompe a declaração de Deus a respeito de si mes­mo. De acordo com a analogia de outras teofanias, o Eis-me aqui da resposta de Jacó devia ser seguido imediatamente por Eu sou o Deus de Betel. Essa alteração de forma é simplesmente uma maneira pela qual o hebraico expressa ênfase. Deus queria que Jacó visse o que estava acontecendo, antes de dirigir a sua aten­ção para si próprio.

    Eu sou o Deus de Betel, onde é literal­mente “Eu sou o Deus Betel, onde”. Obviamente, o texto sofreu durante a transmissão, visto que “onde” não tem um antecedente apropriado. Seguindo a LXX e outras versões antigas, a maioria dos intérpretes concorda com a RSV.

    A reação das esposas de Jacó, ao dis­curso dele, nos versículos 5 a 13, expres­sa tanto a amargura delas contra o seu pai quanto a sua lealdade a Jacó. Se ele estava pensando em partir sem elas, po­dia esquecê-lo. O pai delas as havia ven­dido a ele, e elas também eram proprie­dade dele. Se ele queria partir, elas estavam com ele entusiasticamente.

    A Partida Secreta (31:17-24)

    Jacó escolheu a hora adequada para viajar. Labão e seus filhos estavam ocupados com a tosquia das ovelhas, a três dias de caminho dele.

    Raquel furtou os ídolos que perten­ciam a seu pai. Como observa Speiser, a tradução “furtou” é um pouco forte para a situação. A posse dos deuses do lar ou familiares (heb., teraphim, coisas iner­tes, um termo pejorativo) era prova legal do direito de herança. Visto que Raquel cria que a propriedade devia ser deles, ela se “apropriou” do que considerava ser seu de direito. Isto não fez com que o ato se tornasse menos errado. Os terafins eram estatuetas, algumas vezes em forma humana, talvez de tamanho de um homem (I Sm 19:13,16), embora aqui fossem suficientemente pequenas para Raquel carregá-las e se assentar sobre elas (v. 34).

    Labão, o arameu. Este termo é usado a respeito de Labão, Betuel (28:5) e Jacó (Dt 26:5). No versículo 47, Labão até falou em aramaico. “No entanto, os arameus, como tais, não têm verificação in­dependente, a não ser a partir dos últi­mos séculos do segundo milênio” (Spei­ser, p. 246). Os escritores estavam usan­do uma designação posterior para essas pessoas de época mais remota, ou os arameus estavam em cena muito antes do que geralmente se presume.

    Jacó iludiu a Labão. O hebraico diz, literalmente: “E Jacó furtava o coração de Labão” (cf. II Sm 15:6). Furtar o coração era roubar a mente, remover de outrem a consciência da realidade, enga­nar a outrem, fazê-lo parecer estúpido.

    Seguiu atrás de Jacó jornada de sete dias. A distância entre Harã e Gileade é de cerca de quinhentos e sessenta qui­lômetros. Não é provável que Jacó pudes­se ter chegado tão longe em dez dias, visto que os rebanhos avançavam tão vagarosamente. A palavra “sete” pode ser figurativa. Ela é frequentemente usa­da para designar um período completo de tempo.

    Guarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem mal. Ou Labão não obedeceu à direção de Deus e, assim mesmo, re­preendeu Jacó, o que não é provável, ou “nem bem nem mal” tinha um significa­do diferente do que se possa supor. A proibição de Deus significava que Labão não devia acusar Jacó de nenhuma ação má, quer fosse verdade quer não. Ele não devia dizer-lhe para voltar para casa nem devia eximir-se de vê-lo. No encontro, ele teve todo o cuidado de não acusar Jacó de pecado. Ele simplesmente pediu-lhe para responder a uma série de interrogações a respeito de delitos aparentes!

    A Inquirição de Labão (31:25-35)

    Jacó tinha armado a sua tenda na montanha. Era de se esperar que aqui se achasse o nome da região, talvez Mizpá (31:49), mas, com base na dupla repeti­ção dessa palavra em 31:54, Speiser con­jectura que era um lugar chamado de “Elevação”.

    Armou também Labão com os seus irmãos a sua tenda. O hebraico diz lite­ralmente: “Labão armou os seus ir­mãos”! Obviamente, se requer uma cor­reção textual aqui; ’chlw (tendas) deve ser interpretação em lugar de ’chyw (pa­rentes).

    Que me iludiste. A mesma expressão idiomática, encontrada no versículo 20, pode ser traduzida como “que me fizes­te parecer estúpido”.

    Com alegria e com cânticos. Esta é a única referência do Velho Testamento a esse costume em despedidas. Labão, in­dignado, estava fazendo os papéis in­congruentes de “pai ferido a vingador aturdido” (Kidner). Ele descreveu mi­nuciosamente o antigo costume, mas Jacó sabia que esse não seria o tipo de despedida que Labão teria preparado, se lhe tivesse contado seus planos com antecedência.

    Respondeu-lhe Jacó: Porque tive medo. Labão estivera fazendo perguntas em sucessão tão rápida que Jacó estava apenas começando a responder à sua pri­meira pergunta, a saber, porque ele o fizera parecer tão estúpido, quando La­bão lhe perguntara a respeito dos terafins. Então Jacó respondeu a respeito desse assunto. Labão chamou os terafins de seus “deuses”. Raquel não mos­trou a mesma consideração para com eles, pois sentar-se sobre eles na sua “im­pureza” era o insulto máximo (cf. Lv 15:19 e ss.).

    Com quem achares os teus deuses, po­rém, esse não viverá. Aqui o suspense aumenta. Sem o saber, Jacó estava arris­cando a vida de Raquel, a esposa que mais amava. Mais uma vez esta fonte está retratando Jacó como homem ínte­gro, que não imagina que alguém em sua família pudesse ter roubado algo de La­bão.

    Na albarda do camelo. Speiser traduz a palavra hebraica como “almofadas”, enquanto Driver faz sua versão como “liteira” ou “howdah” (palanquim). Era uma sela especial para mulheres, que podia ser usada como uma espécie de cadeira quando elas estavam nas tendas. Embora ela usualmente tivesse uma co­berta tecida, quando usada em viagem, não é provável que Raquel estivesse sen­tada em um palanquim coberto, quando estava em sua tenda, pois senão ela certa­mente seria suspeita de engano. Se a albarda tinha uma coberta, ela havia sido tirada.

    O incômodo das mulheres. Raquel de­clarou que estava em seu período mens­trual, declaração que podia ser verda­deira.

    A Resposta Irada de Jacó (31:36-42)

    Este discurso é uma obra-prima literá­ria. Pois finalmente Jacó podia defender a sua inocência de qualquer culpa, e o fez com grande eloquência. Toda a frustra­ção represada de vinte anos se abateu espumejante.

    Nesta passagem vemos a vida difícil do pastor (“o Trabalho das minhas mãos”, v. 42), bem como Labão havia maltrata­do Jacó (“a minha aflição”). Era da responsabilidade do pastor providenciar para que os rebanhos tivessem crias sem abortos e que fossem protegidos de animais selvagens e de ladrões humanos. Ele cuidara dos animais durante os opressi­vos dias quentes e as noites miseravel­mente frias, enquanto o seu sono lhe “fugia” dos olhos (v. 40). Algumas vezes o pastor tinha dificuldades para ficar acordado durante a sua vigília; Jacó, por causa do calor e do frio, não podia dor­mir quando queria!

    Labão tornara a sorte dura de Jacó ainda mais difícil, não lhe permitindo comer os cordeiros do rebanho, forçan­do-o a dar contas de todas as perdas e mudando o seu salário repetidamente (“dez vezes”).

    O versículo 42 expressa claramente que o Deus de Isaque e o Deus de Abraão eram o mesmo Deus, pois o verbo “não fora” está no singular, re­querendo um sujeito simples, e não com­posto. Obviamente, Jacó adorava o mes­mo Deus que eles adoravam, pois está se referindo a ele nesta passagem. Nomes diferentes para o mesmo Deus eram usa­dos pelos patriarcas (cf. Sl 18:2 e Ap 15:3, onde termos diferentes são usados para designar o mesmo Deus único). O significado do título Temor de Isaque é obscuro, pois ocorre apenas neste capí­tulo. Speiser o traduz como “o Terrível de Isaque” e relaciona este título com o de “Provação de Isaque”, quando Abraão estava para sacrificá-lo sobre a montanha (Gn 22). Albright sugeriu que significa “Parente”, visto que pala­vras cognatas, em outras línguas do Ori­ente Próximo, têm este significado. Na verdade, esta expressão descreve com exatidão o estilo de vida religiosa de Isaque. Enoque andou “com” Deus (em comunhão íntima), Abraão “diante” de Deus (consciente de sua presença), e Isaque, como servo obediente.

    Hoje me mandarias embora vazio. Jacó disse que Labão teria prevalecido, se Deus não interviesse. Ele deu a Deus o crédito de toda a sua prosperidade, não porque Deus reconhecesse os seus atribu­tos morais, mas porque se apiedara de Jacó em sua aflição.

    O Pacto em Mizpá (31:43-55)

    Tudo o que vês é meu. De início, o leitor é inclinado a sentir simpatia por Labão. O lucro de Jacó fora o prejuízo de Labão, inteiramente. Embora ele não pudesse mais reter a sua descendência, restava uma última responsabilidade: assegurar-se de que ela receberia um tratamento condigno da parte de um homem em quem ele não confiava. Ele insistiu que fizessem um pacto, tendo Deus como testemunha, entre ele e Jacó, garantindo às suas filhas um tratamento condigno.

    Os nomes que Labão e Jacó deram ao lugar do pacto significam a mesma coisa: “montão do testemunho”; Labão usou a língua aramaica, sua língua nativa, e Jacó, o hebraico. Finalmente Labão con­cordou em chamá-lo pelo nome que Jacó lhe dera (Galeede, daí Gileade?), pois queria que tanto Jacó quanto os seus descendentes compreendessem clara­mente o que ele significava. O aspecto mais interessante do pacto é que por ele Jacó deu garantias a Labão, enquanto Labão não garantiu nada. Era fácil fazer um acordo com Jacó. Visto que Labão realmente era o perdedor, este foi para ele um procedimento que salvou as aparências.

    O fato de terem comido depois de terem colocado as pedras (v. 46) e outra vez mais tarde (v. 54) não indica, aqui, duas fontes. Simplesmente significa que eles primeiramente fizeram um acordo amigável com uma refeição social, e de­pois o selaram, mais tarde, no mesmo dia, com uma refeição sacrificial.

    E também Mizpá. A RSV acrescenta “coluna” neste verso. O texto recebido diz: “Portanto ele o chamou de Galeede e Mizpá.” Em outras palavras, Labão deu a “ele” dois nomes. Aparentemente, Jacó e Labão. erigiram uma coluna de pedra (msbh, massebah) e amontoaram pedras ao redor dela, para proteção futura; La­bão deu ao monumento acabado o nome de Galeede e Mizpá (msph), um jogo de palavras com msbh. Ao invés de ser evi­dência de duas narrativas, a coluna e o montão foram combinados em uma só designação, Mizpá, na forma de um obe­lisco completo. O nome Galeede confir­mou o pacto entre os dois homens. Mizpá (torre de vigia) enfatizou a garantia de sua validade futura.

    A famosa “bênção de Mizpá” não foi uma expressão de boa vontade da parte de Labão, mas uma declaração que di­zia, de fato: “Possa Deus conservar você honesto enquanto eu não estou lá para vê-lo.” Ele estava lendo a sua própria desonestidade no comportamento de Jacó. Contudo, isto não significa que as suas palavras não podem ser usadas, hoje em dia, em sentido positivo. A expressão de Labão pode ter uma conotação bem diferente da que ele pretendia. As pala­vras expressando desconfiança em um contexto podem, em outro, ser legitima­mente usadas para pronunciar uma bênção. Temos visto que frequentemente, em Gênesis, as gerações posteriores encon­traram, nas palavras, algum significado que não era aparente a princípio, mas que estava ali para ser discernido em época diferente.

    Este montão é hoje testemunha. Quan­do Labão começou esta declaração, ela soava como se ele estivesse querendo dizer que ele e Jacó não cruzariam aquela linha jamais. Bem no fim da sentença ele acrescentou: “para mal.”

    O Deus do pai deles é expressão con­siderada, por muitos eruditos, como edi­torial (cf. Speiser, von Rad). Visto que ela não aparece na LXX, é considerada como tentativa de explicar a menção do Deus de Abraão e do Deus de Naor. A frase explicativa declara que eles são o mesmo Deus, o Deus de Tera. Esta opi­nião é baseada no fato de que julgue está no plural. Costumeiramente, quando é caracterizado o Deus de Israel, o subs­tantivo plural ’Elohim usa um verbo no singular (cf. Gn 1:1). Algumas vezes, no entanto, quando ’EIohim se refere ao Deus de Israel, é regido por um verbo no plural (cf. 1:26: “Façamos o homem”). Alega a opinião politeísta que tanto La­bão quanto Jacó invocaram o Deus indi­vidual de seus respectivos pais, para tes­temunhar o pacto. Se este fosse o sentido da passagem, por que precisaria o escri­tor mencionar especificamente que Jacó invocou o Temor de seu pai Isaque, mas omitiu o fato de que Labão invocou o seu Deus? A expressão o Deus do pai deles, quer editorial, quer não, afirma que eles serviam ao mesmo Deus. Desta forma, ela precisa ser levada a sério. Este é outro exemplo de concordância gramatical en­tre ’Elohim e o seu verbo, sem implica­ções teológicas especiais. Se a expressão é editorial, ela foi inserida porque era ne­cessária para impedir uma interpretação politeísta. Abraão jamais teria desejado conseguir esposa para Isaque na família de Naor só porque eles eram parentes. Eles adoravam o mesmo Deus.

    Labão… os abençoou. Deve-se notar que ele não abençoou Jacó. Ele não esta­va qualificado nem inclinado a fazê-lo.

    Bibliografia Clyde T. Francisco

    (mais…)

  • Lição 9: Dízimos e ofertas

    Dizimar e ofertar nada mais é que reconhecer o senhorio de Deus sobre os bens materiais sob administração do homem.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo de pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido alvo de distorções da “teologia da prosperidade”, estudaremos hoje a doutrina bíblica dos dízimos e ofertas.

    – Ao contrário do que ensinam os “teólogos da prosperidade”, dízimos e ofertas não são ingressos para uma vida regalada, nem instrumentos de barganha para com Deus.

    I – O ENSINO BÍBLICO A RESPEITO DOS BENS MATERIAIS

    – Para que possamos entender o que a Bíblia diz a respeito da conduta do ser humano frente aos bens materiais é imperioso verificarmos a própria declaração primeira da revelação de Deus ao homem. Em Gn.1:1, a Bíblia deixa claro que Deus criou os céus e a terra, o que repete em Gn.1:31-2:3. Assim, tanto no início quanto no término do relato da criação, a Palavra não deixa qualquer dúvida de que Deus é o Senhor do Universo, ou seja, o dono de tudo.

    – Assim, não deve causar espanto a declaração do salmista (Sl.24:1), segundo a qual “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam”. Com efeito, por ter criado o mundo e tudo o que nele há, Deus é o legítimo dono de todas as coisas.

    – Se isto é assim, o homem é apenas um administrador da criação. Com efeito, ao criar o homem e a mulher, Deus concedeu a eles o domínio sobre toda a criação (Gn.1:26,28), domínio este que não representa senhorio, mas uma autoridade, uma autorização para administrar a criação terrena (observemos que no mandato dado ao ser humano por Deus não se incluem as criações celestiais. É por isso que o salmista afirma que o homem foi feito pouco menor do que os anjos – Sl.8:5).

    – Partindo deste pressuposto, não pode o homem achar-se dono de coisa alguma sobre esta terra e deveria comportar-se desta maneira, ou seja, plenamente consciente de que é apenas um administrador daquilo que Deus lhe deu. É exatamente esta a consciência do cristão, a de que é apenas um mordomo, um despenseiro de Deus ( I Co.4:1,2; Tt.1:7; I Pe.4:10).

    – Assim, se temos a capacidade, dada por Deus, de sujeitarmos à nossa vontade os bens existentes na natureza (e bem, aqui, é tudo o que pode suprir as nossas necessidades e nos trazer alguma utilidade) e isto é o princípio da propriedade (por isso o jurista alemão Windscheid conceituava propriedade como a sujeição absoluta de algo à vontade de uma pessoa), ao mesmo tempo devemos observar que a propriedade não é um fim em si mesma, mas tem a função de, por meio desta sujeição, tornarmo-nos um instrumento da vontade divina.

    – É, por isso, que a propriedade deve ser considerada como um direito natural, um direito inerente à pessoa humana, devendo ser respeitada e garantida, não tendo cabimento nem qualquer respaldo bíblico qualquer iniciativa que tenda a suprimi-la dos indivíduos, mesmo se o fizer em nome de uma suposta igualdade social (como o fizeram os comunistas marxista-leninistas no século XX), por ser algo contrário à ordem estabelecida por Deus ao gênero humano, mas, ao mesmo tempo, não se pode conceber uma propriedade que não tenha por objetivo a realização da vontade divina na humanidade. Assim, tão contrário à Bíblia como a supressão da propriedade privada é a sua exacerbação, a busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas e de posses em detrimento do próximo e da sociedade.

    OBS: “…O capitalismo, como princípio básico, sem os seus abusos, concorda com os ideais do cristianismo. O conceito de propriedade privada era uma das vigas mestras do judaísmo. Cada família contava com a sua propriedade particular, protegidas pelas leis da herança. O ideal era e continua sendo que cada homem tenha a sua própria vinha e a sua própria figueira ( I Rs.4:25; Mq.4:4). Porém, é deveras instrutivo ver como a legislação mosaica também defendia os direitos dos pobres. De acordo com o cristianismo, o conceito de propriedade privada não somente é exposto como normal, mas, igualmente, como meio de proteger o indivíduo de medidas ditatoriais do Estado (…)O Novo Testamento, naturalmente, combate os típicos abusos do capitalismo, como a desconsideração pelos direitos do indivíduo e a escravização dos mais pobres pelos ricos, mediante medidas econômicas.(…)Adam Smith, que tinha um ponto de vista otimista da natureza humana, supunha que, – finalmente, surgiria do mercado livre uma espécie de harmonia automática, visto que o homem seria essencialmente bom em sua natureza, a qual controlaria os seus interesses pessoais. Mas o cristianismo ensina que isso só começa a ser curado com a conversão espiritual. Esse preceito, pois, volta-se tanto contra os abusos do capitalismo como contra o ateísmo do comunismo, sistema este que supõe que o mundo é governado por princípios econômicos, e não por princípios espirituais.” (CHAMPLIN, R.N. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, p.646).

    – Assim, ao mesmo tempo em que a Palavra de Deus garante a cada ser humano a possibilidade de sujeitar bens de acordo com a sua vontade e de deles usufruir para a satisfação de suas necessidades, também estabelece que o objetivo do homem e da mulher não deve ser o acúmulo de riquezas para si ou a sua exaltação por causa dos bens que tenha a seu dispor, mas que tudo isto seja um instrumento para que a glória de Deus se manifeste na administração destes bens que lhe forem confiados por Deus, o único e verdadeiro dono de todas as coisas.

    – Entretanto, o homem sem Deus e, consequentemente, sem uma dimensão da eternidade, tem sua vista obscurecida pelas coisas temporais e passageiras e, portanto, acaba se deixando dominar pela avareza, pelo desejo de acumulação de riquezas, que é uma insensatez total, como deixou bem claro Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21), “porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”(Lc.12:15).

    – Lamentavelmente, não são poucos os que acabam se perdendo na caminhada para o céu por causa dos bens materiais e por causa do dinheiro. A Bíblia revela que a ganância pelas coisas, que a avareza tem sido um obstáculo para muitos alcançarem a salvação, como nos casos do mancebo de qualidade (Mt.19:22; Lc.18:23), de Judas Iscariotes (Lc.22:3-6; Jo.12:4-6), de Ananias e Safira (At.5:1-5,8-10),  de Simão (At.8:18-23) e de muitos outros, como afirmou Paulo em sua carta a Timóteo (I Tm.6:9,10).

    – O dinheiro não é um mal em si.  A riqueza é uma bênção de Deus, tanto que Deus a concedeu a Salomão (I Rs.3:13), mas, e aqui está um caso típico, não podemos pôr nas riquezas o nosso coração (Mt.6:19-21). Devemos, sempre, buscar servir a Deus e Lhe agradar. Esta deve ser a intenção do cristão. Se Deus nos conceder a riqueza, que nós a usemos para agradar a Deus. Se nos der a pobreza, que nós a usemos para agradar a Deus.

    O importante é que não façamos dos bens materiais o objetivo e a intenção de nossas vidas. Quem passa a viver em função dos bens materiais, quem passa a pôr o seu coração nos tesouros desta vida, passa a ser um avarento, um ganancioso e, como tal, será um idólatra (Cl.3:5) e, assim, está fora do reino dos céus (Ap.22:15).

    – Neste ponto, devemos, pois, contrariar ensinamentos a respeito da “opção pelos pobres”, que tem sido o mote da teologia católico-romana, principalmente após o Concílio Vaticano II, com especial ressonância na Igreja Romana da América Latina. Em momento algum, na Bíblia Sagrada, Deus manifesta Sua opção em favor dos pobres, em detrimento aos ricos. A Bíblia, aliás, expressamente, afirma que Deus fez tanto o pobre quanto o rico (Pv.22:2) e seria injusto caso preferisse um ao outro, se ambos são obra de Suas mãos.

    – Buscam os idealizadores desta “opção pelos pobres” fundamentação na passagem do mancebo de qualidade em que Jesus afirma que dificilmente um rico entrará no reino dos céus (Mt.19:212-26). Tal afirmação de Jesus é uma constatação, porquanto a existência de riquezas, diante da natureza pecaminosa do homem, faz com que o ser humano seja mais facilmente enganado pela sensação de autossuficiência, que conduz à perdição eterna, mas, em momento algum, revela que Deus tenha feito uma opção pelos pobres em detrimento dos ricos. Tanto assim é que a Bíblia está repleta de homens que gozavam de confortável situação financeira e que serviam a Deus, como são exemplos, para ficar só no ministério de Jesus, José de Arimateia, Nicodemos e as mulheres que acompanhavam o Mestre e que, diz a Bíblia, serviam-nos com suas fazendas, ou seja, com seus recursos financeiros.

    – A Bíblia nos mostra que a aquisição de bens materiais é uma necessidade para o homem depois da sua queda, pois deverá, do seu trabalho, obter o seu sustento (Gn.3:19). Deste modo, a obtenção dos meios necessários para a nossa sobrevivência deve vir do trabalho. É por isso que Paulo, numa afirmação dura, mas que é a verdade nua e crua, disse que “se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (II Ts.3:10), máxima que foi, inclusive, incorporada em várias Constituições de países comunistas no século XX, mas que traduz um princípio bíblico.

    – Portanto, a primeira fonte de aquisição de bens materiais deve ser o trabalho, devendo, pois, o cristão valorizar o trabalho e buscá-lo como forma de sustento seu e de sua família. É, aliás, este traço da ética cristã que foi objeto de estudo do sociólogo alemão Max Weber, que, em seu livro, “A Ética Protestante e o Capitalismo”, que foi considerado um dos principais livros do século XX (foi considerado a maior obra de ciências humanas daquele século), entendeu que, graças a este valor dado pelos cristãos ao trabalho, em virtude do que diz a seu respeito a Bíblia Sagrada, que foi possível o surgimento dos países desenvolvidos da Europa Ocidental (Inglaterra, França, Holanda e Alemanha, fundamentalmente) e, posteriormente, a grandeza dos Estados Unidos da América.

    – Assim, o cristão deve, sempre, dignificar o trabalho, valorizá-lo e, através dele, obter o seu sustento, levantando-se contra toda estrutura sócio-econômica que venha a desprestigiar o trabalho. Neste passo, é dever de todo cristão incentivar e estimular o aumento da oferta de emprego, bem como resistir a toda prática que vise a supressão de postos de trabalho sem a devida compensação. As políticas compensatórias, ademais, não devem ser de cunho meramente assistencialista, mas devem sempre ser tais que incentivem e estimulem a busca de novos empregos, ainda que se tenha de preparar convenientemente o desempregado.

    – Neste ponto, aliás, como a busca pelos bens materiais deve ser com vistas à satisfação de Deus e não a uma incessante corrida pelo prazer, pelo luxo e pela autossuficiência, temos que há uma clara distinção entre a ética cristã e a ética do capitalismo. O capitalismo é um sistema econômico em que se busca, sempre, o máximo lucro com o menor custo, com o aumento incessante da produção e do consumo. Dentro da lógica do capitalismo, é preciso sempre produzir cada vez mais, com o maior lucro e com a redução crescente dos custos. A ética cristã, entretanto, é bem diversa: não há que se buscar o máximo lucro, mas, bem ao contrário, deve-se buscar o suficiente para se ter uma vida digna, uma vida sossegada, mas sem a “febre do ouro” que tem dominado o mundo de hoje. Diz o sábio Salomão que devemos, sempre, buscar a “porção acostumada de cada dia” (Pv.30:8,9) e ninguém melhor do que Salomão para nos afirmar que a posse de riquezas em demasia não representa bem algum para a alma humana…

    – Não se está aqui afirmando que o cristão não deve procurar uma melhoria de vida, um melhor emprego, capacitar-se para obter melhores posições, ou seja, em absoluto se nega ao servo de Deus a busca de melhores oportunidades, um progresso maior, até porque o filho de Deus não é cauda, mas cabeça (Dt.28:13), mas se está afirmando, isto sim, que não devemos colocar como alvos únicos e exclusivos de nossas vidas uma prosperidade material, como objetivo as benesses desta vida (Pv.27:24). Nunca nos esqueçamos que, se cremos em Cristo só para esta vida, seremos os mais miseráveis de todos os homens! (I Co.15:19).

    – Quando o homem tenta progredir na vida material tendo consciência de que existe uma dimensão eterna, de que é mero administrador do que Deus lhe confiou, ele jamais se comporta de forma nociva ao seu semelhante, jamais busca usar de todos os métodos, lícitos ou não, visando à acumulação de riquezas, pois tem pleno conhecimento de que nu saiu do ventre de sua mãe e de que nu terminará a sua existência (Jó 1:21; I Tm.6:7). Como dizem as Escrituras, aqueles que se envolvem na ilusão das riquezas, trazem para si somente males e problemas, já nesta vida, que dirá quando se encontrar com o reto e supremo Juiz de toda a terra (Pv.28:22; I Tm.6:9; Hb.9:27).

    – Dentro desta perspectiva, o cristão deve, consciente de que o que tem amealhado de bens materiais, é para ser um instrumento de satisfação da vontade divina, administrar o seu patrimônio de forma a obter este agrado de Deus, fazendo-o conforme a Sua Palavra.

    – Em virtude deste ensino bíblico a respeito dos bens materiais, vemos claramente que os propagadores do evangelho da prosperidade esquecem-se de dizer aos seus ouvintes  que, em vindo a prosperidade material solicitada, o “novo rico” não será um senhor de riquezas, não será sequer o proprietário de todos os bens que o Senhor lhe conceder.

    – A mensagem do evangelho da prosperidade faz questão de alardear que Deus tem obrigação de nos dar bens e uma vida regalada, pois ” é o dono de toda prata e de todo o ouro” e que nós somos ” filhos do rei”, o que, em parte, é uma realidade e uma verdade constante das Escrituras, mas não dizem que, quando ganharmos toda esta prosperidade, o Senhor continua sendo Senhor, continua sendo o ” dono de todo o ouro e de toda a prata”, assim como, também, continua sendo o ” Rei dos reis” e ” Senhor dos senhores”, ou seja, ao contrário do que querem fazer crer os evangelistas da prosperidade, ser rico, ser próspero materialmente não é um privilégio ou um direito do cristão, mas, muito mais do que isto, é uma obrigação a mais que o servo do Senhor assume diante do seu Deus. Quem tem riquezas, passa a ser mordomo destas mesmas riquezas diante do Senhor e, como tal, assume muitas outras obrigações que, se pobre fosse, não teria diante de Deus.

    OBS: A partir desta ideia é que se desenvolveu o conceito da ” função social da propriedade”, concebida a partir da doutrina social católica e que encontrou sua expressão jurídica nos ensinos do jurista francês Léon Duguit e que se encontra, hoje, em todas as constituições e legislações dos países, inclusive na Constituição da República Federativa do Brasil. Em nosso país, a propriedade só é considerada direito se atender à sua função social, ou seja, se cumprir com os objetivos maiores a respeito da circulação de bens e de riquezas em nossa sociedade.

    – Já os judeus, na sua compreensão ainda parcial da revelação divina, tinham obtido esta concepção. Diz o enciclopedista judeu Nathan Ausubel que os judeus acreditavam que “…se a pobreza existia, era principalmente a sociedade que deveria ser responsabilizada, uma vez que permitia a opressão dos pobres e fracos. Esta situação era tida como uma violação da lei natural, e a prática difundida da benevolência servia, meramente, como forma de expiação e aprimoramento. Quando o salmista cantava: ‘ A terra é do Senhor e tudo o que nela se encontra’, o princípio daquele direito estava claramente indicado. O mesmo princípio adquiriu força de lei no texto das Escrituras: ‘ Minha é a prata e meu é o ouro, disse o Senhor das Hostes’.

    E., obviamente, uma vez que Deus havia dado a terra com ‘ todas as suas riquezas’ – a prata e o ouro – somente aos ricos e poderosos, os Sábios deduziam daí que Deus tinha uma dívida material para com os pobres que tinham sido deixados de mãos vazias. Por consequência, fazer com que essa dívida fosse paga aos pobres pelos ricos constituía um ato de ‘ justiça’ e, portanto, de ‘ virtude’ [ daí porque da palavra hebraica para caridade, a saber, ‘ tzedakah’, que tem este duplo significado de justiça e de virtude – observação nossa]. Além disso, acreditavam que quando Deus havia dado a riqueza aos abastados, não as havia entregue em caráter definitivo, nem como recompensa por suas ações ou por qualquer mérito especial.

    Era somente para que a retivessem em custódia para os pobres! Os ricos seriam, assim, meros agentes fiscais de Deus, por assim dizer, em favor dos pobres! Estender a tzedakah aos pobres ‘ com todo o coração’ tinha, portanto, a significação intrínseca de um ato de ‘ virtude’. Daí ter-se desenvolvido o axioma que, se os ricos fossem realmente honestos e tementes a Deus, distribuiriam prazerosamente a riqueza que retinham em custódia de Deus, entre os inúmeros credores de Deus – os pobres, os doentes, os desamparados, os necessitados etc.…” (Caridade. In: JUDAICA, v.5, p.114).

    – Como se pode verificar, portanto, a prosperidade material traz ao homem uma nova obrigação, qual seja, a de repartir com o próximo esta sua prosperidade, de maneira a que haja uma melhor distribuição de renda e sejam amenizadas as necessidades do outro. A prosperidade que tem sido pregada por aí é para que alguém viva de forma regalada e despreocupada, desfrutando de um “paraíso terrestre”, algo que apenas revela o grau de egoísmo e de amor do dinheiro destes pretensos ” filhos de Deus conscientes de seus direitos”.  Na verdade, como ensinou o grande reformador João Calvino, “…não há um caminho mais direto (à gratidão)  do que o de tirarmos nossos olhos da vida presente e meditar na imortalidade do céu. Disto se deriva(…) que devemos aprender a suportar a pobreza quieta e pacientemente, e desfrutar a abundância com moderação. Aquele que nos ordena a que usemos este mundo como se não o usássemos, não somente nos proíbe toda falta de moderação em comer e beber, nos prazeres indecorosos e excessivos, na ambição, no orgulho e na fastuosidade em nosso lar, como também em cada cuidado e afeto que faça diminuir nosso nível espiritual ou que ameace destruir nossa devoção.…” (A verdadeira vida cristã, p.73).

    – Nada é mais contrário ao cumprimento da mordomia da prosperidade do que o cristão abençoado pelo Senhor passar a ostentar sua riqueza e a viver regaladamente, esquecido dos mais necessitados e da moderação, que deve acompanhar, como qualidade, o verdadeiro e sincero servo do Senhor. Assim, a prosperidade, antes de ser um privilégio para o cristão, é antes uma nova obrigação, pois a posse de riquezas torna o seu detentor como responsável direto para a melhoria das condições de vida dos menos afortunados. Na história do rico e Lázaro, vemos como o Senhor prestou muita atenção à forma como o rico tratou o pobre mendigo Lázaro durante a sua existência! (Lc.16:19-21,25).

    – Se quisermos ser prósperos materialmente, podemos pedi-lo a Deus que, segundo a Sua vontade (pois não tem qualquer obrigação de enriquecer materialmente quem quer que seja), poderá nos conceder esta bênção, mas, lembremo-nos de que, uma vez tornados ricos, assumiremos a mordomia da prosperidade e deveremos responder diante de Deus pelo uso que fizermos das riquezas que angariarmos.

    II – O SIGNIFICADO DO DÍZIMO NA BÍBLIA

    – Dízimo é palavra portuguesa que traduz palavras hebraicas e gregas das Escrituras cujo significado é o de “décima parte”, “um décimo”.  Dízimo, portanto, segundo a origem da palavra, quer dizer a décima parte, um décimo de algo. Assim, se dividirmos uma laranja em dez partes, cada uma delas será um dízimo da laranja.

    – O dízimo é um ato pelo qual alguém entrega a melhor porção de seu patrimônio para Deus, a fim de ser destinado ao sustento daqueles que estão envolvidos no trabalho do Senhor, como reconhecimento de que Deus é o Senhor de todas as coisas, em agradecimento por Deus ter provido o sustento daquele que está a dizimar, bem como um ato de fidelidade e testemunho do compromisso que existe no relacionamento entre Deus e aquele que está a fazer a oferta.

    – O dízimo, portanto, apresenta-se como um ato pelo qual o homem reconhece que não é dono de coisa alguma que amealhou com o seu trabalho. É por isso que o dízimo é uma demonstração material, um ato efetivo e concreto de mordomia, pois, embora tenha angariado os recursos que chegam à sua mão com seu suor, o homem, ao entregar a décima parte na obra de Deus, diz, com este gesto, que está a reconhecer que do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Sl.24:1).

    – O dízimo, também, é um ato de gratidão a Deus, de agradecimento pela concessão dos meios pelos quais se podem amealhar os recursos financeiros necessários à nossa sobrevivência. Quando dizimamos, estamos agradecendo a Deus, porque Lhe devolvemos a décima parte do que Ele nos deu, para que a Sua obra, que, como uma atividade feita entre os homens, depende de recursos financeiros para a sua manutenção, possa ser realizada. Deus tem escolhido homens e mulheres para que se dediquem ao reino de Deus, para que se envolvam com as tarefas destinadas à salvação e aperfeiçoamento espiritual das vidas e, por causa deste envolvimento, tais pessoas não têm condições de obter, para si, um sustento, de efetuar um trabalho material que lhes possa proporcionar o pão de cada dia. Quando dizimamos, estamos permitindo que estas pessoas possam continuar atendendo ao chamado do Senhor e supram as suas necessidades. Demonstramos estar agradecidos a Deus quando mantemos o sustento daqueles que por Ele foram chamados para dedicação integral à obra do Senhor.

    – O dízimo também é um ato de fidelidade e de compromisso com Deus, pois, à medida que separamos parte do nosso patrimônio para o sustento da obra do Senhor, com certeza estamos demonstrando que não somos indiferentes à obra de Deus, damos uma prova concreta de que estamos comprometidos e envolvidos com os planos e propósitos de Deus para a humanidade. A fé sem obras é morta (Tg.2:17) e, quando dizimamos, estamos praticando uma atitude que mostra que temos uma verdadeira fé, revelamos que amamos a Deus. Não somos indiferentes, como eram os homens dos dias do profeta Malaquias.

    – O dízimo, também, é uma demonstração de honestidade, um indicador de moralidade. Com efeito, ao dizimarmos, reconhecemos, como dissemos, a soberania de Deus sobre todas as coisas, bem assim a propriedade divina sobre os bens materiais. Quando dizimamos, estamos devolvendo a Deus o que Lhe pertence, não retendo aquilo que não é nosso, mas é devido ao Senhor.

    – Visto o que o dízimo é, devemos, agora, observar o que o dízimo não é. O dízimo não é um investimento, como muitos têm pregado por aí. Verdade é que Deus tem prometido bênção de abastança para os dizimistas (Ml.3:10), mas isto não quer dizer que devemos dizimar visando obter maiores lucros, como se o dízimo fosse uma aplicação financeira ou um investimento de grande retorno.

    – Os teólogos da prosperidade têm, muitas vezes, dito que o dízimo ou “o sacrifício” (nome como muitos têm denominado a contribuição bem superior à décima parte, envolvendo, não poucas vezes, todo o patrimônio de alguém, ” o seu tudo” , como dizem) é o caminho mais rápido e eficaz para a riqueza e para a ampla prosperidade material. Não devemos dizimar para nos tornarmos mais ricos, mais prósperos, mas devemos dizimar em gratidão a Deus, em reconhecimento à sua soberania. Dízimo não é investimento, nem um modo santo de se canalizar a ganância, algo que é próprio dos mais miseráveis de todos os homens (I Co.15:19).

    – A bênção da abastança não é o acúmulo de riquezas, mas, sim, a suficiência, a vida digna e razoável sobre a face da Terra, o necessário para a sobrevivência, a “porção acostumada de Agur” (Pv.30:8), algo que o apóstolo Paulo reiterará ao falar da fidelidade nas contribuições, em II Co.8:14,15. Por isso, aliás, o mesmo profeta Malaquias fala da repreensão do devorador (Ml.3:11), ou seja, de todo fator que venha a trazer carência e necessidade aquém do mínimo necessário, como vem, por exemplo, nos dias de Joel (Jl.1).

    – Dízimo não é uma fonte de obrigações para Deus. Muitos acham que, dizimando, criam para Deus obrigações. Assim, entregam seus dízimos porque, assim, Deus estaria obrigado a lhes dar bênçãos de prosperidade material, de saúde ou, até mesmo, de salvação. Pensam que o dízimo vincula Deus a seus caprichos, desejos e aspirações. Pensam até que o dízimo é o caminho para sua salvação. Para estes que assim pensam, podemos fazer uma pequena ilustração. Digamos que sejamos donos de dez bolas e que as confiemos a uma criança nossa conhecida, mandando que ela tome conta delas para nós. Pouco tempo depois, a criança vem e nos entrega uma das dez bolas, e nós a recebemos. Por um acaso, surgiu, aqui, alguma obrigação de nossa parte em relação à criança por causa da nossa bola que ela nos devolveu?  Logicamente que não! Assim ocorre com Deus. Deus recebe de volta algo que Lhe pertence. Estaria Ele, então, obrigado a nos fazer algo que queiramos por causa desta devolução? Deus prometeu dar aos dizimistas a bênção da maior abastança e, com relação a isto, há um dever divino, não em relação a nós ou por causa da nossa vontade, mas em virtude de Seu próprio caráter moral. Maior abastança não significa outra coisa senão ter além do necessário, além do suprimento das necessidades. Vimos, aliás, que, quando isto ocorre, passamos a ter uma obrigação a mais da parte de Deus, qual seja, a de socorrer os necessitados. Assim, ter tantas bênçãos que não tenhamos onde guardá-las (como diz tanto o texto da NVI de Ml.3:8 quanto a própria tradução inglesa do rei Tiago), não é viver regaladamente e no luxo, como propalam os teólogos da prosperidade, mas assumir o encargo de auxiliar os menos afortunados.

    – Dízimo, também, não é meio de salvação. Todo salvo é dizimista, mas nem todo dizimista é salvo. Querer dizer que, com a entrega do dízimo, estaremos dando passo importante para a nossa salvação é o mesmo que dizer que, pelas obras, nós seremos salvos, é ressuscitar o odioso conceito da doutrina das indulgências que fez com que Deus levantasse homens como Martinho Lutero para recuperar a santidade e a biblicidade na Sua Igreja. O dizimista é alguém que compreende que o Senhor é o dono de todas as coisas, mas não é, por isso, alguém que deixe Deus governar a sua própria vida.

    – O próprio Jesus mostrou que não se pode fazer qualquer oferta a Deus sem que, antes, não se esteja em santidade (Mt.5:23,24). Esta é a maior demonstração de que nada podemos oferecer ao Senhor se não estivermos em comunhão com o Senhor, amando a Deus, cumprindo Seus mandamentos (Jo.14:23; 15:14) e, simultaneamente, amando ao próximo (I Jo.4:20,21).

    – Dízimo não é um meio de enriquecimento de inescrupulosos e mercenários da fé. Muitos têm se aproveitado da doutrina do dízimo para amealharem riquezas e fazer do evangelho um negócio rentável e cada vez mais crescente. Esta possibilidade não passou despercebida do Senhor que, em Sua Palavra, já nos primórdios da fé cristã, já advertia os crentes que muitos seriam feitos negócio com palavras fingidas de pessoas inescrupulosas (II Pe.2:3). Antes mesmo de nossa dispensação, o profeta Ezequiel já indicara a existência de pastores infiéis, que têm como objetivo tão somente explorar as ovelhas (Ez.34:4). Todavia, não é por causa destes que devemos de deixar o nosso compromisso diante de Deus. Façamos a nossa parte, que é entregar os dízimos na casa do tesouro (Ml.3:10), ou seja, na nossa igreja local. Este dízimo é santo (Lv.27:32) e pertence a Deus, Que, certamente, tratará com aqueles que o tiverem a incumbência de administrá-lo, pois, além de perderem sua condição de pastores (Ez.34:9,10), melhor lhes fora, diz Jesus, que lhes pusessem ao pescoço uma mó de atafona e fosse lançado ao mar (Lc.17:1).

    – O dízimo, pelo que verificamos, na Bíblia Sagrada, é muito mais do que uma despesa ou um tributo de dez por cento do que ganhamos, é muito mais do que uma simples cláusula contábil. Deus não precisa do nosso dinheiro para sustentar a Sua obra, pois é o dono de todo ouro e de toda a prata (Ag.2:8), mas é através do dízimo que revelamos aquilo que está dentro de nosso homem interior, o conceito que temos de Deus e de nós mesmos, se nos consideramos mordomos do Senhor ou “donos dos nossos próprios narizes”.

    III – O DÍZIMO E A OFERTA NA BÍBLIA

    – Pelo que podemos deduzir das Escrituras Sagradas, desde os primórdios da civilização, ainda na primeira geração de homens após a queda do Éden, havia o costume de se cultuar a Deus com a apresentação de produtos do trabalho humano, como demonstração de gratidão e de reconhecimento da soberania de Deus sobre todas as coisas. Assim, vemos Caim e Abel, os dois filhos mais velhos do primeiro casal, apresentando ofertas ao Senhor, num gesto que se infere fosse costumeiro e resultado do ensino dos pais a estes filhos. Entendemos, desta forma, que o primeiro casal tinha plena consciência de que Deus era o dono de todas as coisas e que o resultado do trabalho humano, que Deus dissera que seria penoso, era fruto da misericórdia divina que, apesar do pecado, não tinha deixado de amparar o homem.

    – De pronto, pois, observamos que a oferta era apenas uma demonstração material de reconhecimento da soberania divina. Não se procurava agradar a Deus com bens, pois Deus, sendo o dono de todas as coisas, não precisava de qualquer bem que lhe seja trazido pelo homem, até porque o bem que, eventualmente, for trazido não é do homem, mas já é do Senhor (I Cr.29:11-14; Sl.24:1). Deus Se agrada do gesto de gratidão e reconhecimento, do que está no coração do homem, não do que está sendo apresentado em termos materiais. Tanto assim é que, ao indagar Caim sobre sua oferta, Deus diz que ele deveria ter feito bem, ou seja, não como um mero formalismo, não como um mero ritual, mas como algo espontâneo e que proviesse do fundo da alma, pois, somente neste caso é que haverá aceitação por parte do Senhor (Gn.4:7). No Novo Testamento, este Deus que não muda nem n’Ele há sombra de variação (Tg.1:17), torna a nos ensinar que Ele ama àquele que dá com alegria (II Co.9:7).

    – Este gesto de reconhecimento da soberania divina através da entrega de uma parcela do produto auferido pelo trabalho, portanto, vem desde o início da história da humanidade e é encontrado, mais tarde, entre os povos do Oriente Próximo. Abraão, diz-nos a Bíblia, deu o dízimo de tudo a Melquisedeque, por reconhecer nele um sacerdote de Deus (Gn.14:20). Isto nos mostra, claramente, que o dízimo era um costume comum aos povos daquela época, pois, não só Abraão deu o dízimo a Melquisedeque, como este o recebeu, o que prova que se tratava de algo público e notório naquela época. Aliás, este costume é relatado pelo historiador grego Heródoto, conhecido como o “pai da História”, em sua obra “História”, em mais de uma passagem, com relação a diferentes povos.

    – Pelo que se pode observar, portanto, o gesto de se dar parte do produto auferido pelo trabalho para a obra de Deus é algo que acompanha a própria história humana, tendo sido fixado o percentual de dez por cento como patamar mínimo de tal contribuição, daí porque ter sido tal parcela sido denominada de “dízimo”.

    – O dízimo, observado que era por Abraão (o que, certamente, mostra que se tratava de prática já existente entre os caldeus que, por sua vez, eram os sucessores diretos da comunidade humana única pós-diluviana), passou a seus descendentes, de modo que vemos, logo em seguida, notícia de que Jacó também conhecia esta prática, tanto que a prometeu (Gn.28:22).

    – Este pequeno relato histórico faz-se necessário porque há muitos que, hodiernamente, afirmam que o dízimo é um dispositivo previsto na lei de Moisés e que, portanto, não é algo que deva ser observado pela Igreja, que vive a dispensação da graça. Criticam as denominações evangélicas que adotam o dízimo, chegando, mesmo, a chamá-los de “judaizantes”, quando não de mercenários. No entanto, pelo que podemos verificar, não só pelas próprias Escrituras, como também na própria história da humanidade, o dízimo é uma instituição que já existia bem antes da lei de Moisés e que não está circunscrita ao povo judeu, o que faz cair por terra todas estas argumentações que são trazidas, às vezes, por pessoas bem-intencionadas, que querem impedir qualquer conotação materialista ao evangelho, mas que, no mais das vezes, apenas se afiguram como justificativas de pessoas que, tal qual nos dias de Malaquias, querem dar vestes teológicas à sua falta de amor a Deus

    – Quando Moisés incluiu o dízimo na lei, por determinação divina, nada mais fez senão incorporar no código legal organizado uma prática que já era costumeira e adotada não só pelos israelitas, como por todos os povos então existentes. Como o dízimo, e isto nos mostram tanto Abraão quanto Jacó, tinha como finalidade a manutenção da obra de Deus, era preciso reconhecer a sua prática e destiná-la para o sustento da tribo de Levi e, dentre os seus membros, aos sacerdotes, já que estes não poderiam se dedicar senão ao serviço do Senhor.

    – A primeira referência que a lei de Moisés faz aos dízimos encontra-se, precisamente, no livro de Levítico, onde estão as normas a respeito dos sacerdotes. O dízimo é tratado no final do livro, a partir do versículo 30 do capítulo 27. Isto é importante porque mostra que, embora Deus não tenha deixado de prever o sustento dos sacerdotes, que estavam envolvidos no culto a Deus, não deveriam pôr o sustento material como prioridade em suas vidas. Deus não deixa de cuidar do assunto, de providenciar os meios, antes de encerrar o código de normas e condutas do sacerdote, mas não coloca isto como algo que deva estar em primeiro lugar. Primeiro deveria vir o dever dos sacerdotes, seu serviço diante de Deus. Depois, o cuidado com o seu sustento.

    – Lamentavelmente, muitos ministros têm cedido ao espírito materialista que impera nos nossos dias, buscando, antes de tudo, ocupar-se de como se sustentar, de como angariar meios para a sua sobrevivência, para só depois se ocupar do seu trabalho diante de Deus. O obreiro é digno do seu salário, mas devemos cuidar das coisas na mesma forma como Deus a estabelece em Sua Palavra.

    – Segundo a norma dada no livro de Levítico, o dízimo de tudo deveria ser separado ao Senhor, pois lhe era santo. A destinação do dízimo, entretanto, encontra-se no livro de Números (Nm.18:20-32). O destino do dízimo deveria ser a tribo de Levi, pois a sua herança no meio do povo de Israel seriam, precisamente, os dízimos das demais tribos (Nm.18:21). Mas, ao mesmo tempo em que os levitas eram os beneficiários dos dízimos, também deveriam dizimar (Nm.18:26), pois também eles eram mordomos e tinham de reconhecer a soberania divina. Os dízimos dos dízimos eram destinados ao sumo sacerdote (Nm.18:28).

    – Os dízimos eram, como se pode observar, destinados ao sustento dos levitas e dos sacerdotes. Esta é a destinação do dízimo segundo as Escrituras. Abraão já o havia dado para um sacerdote e, agora, Moisés determina que os dízimos tenham como finalidade o sustento da tribo separada para o serviço do Senhor, ou seja, a destinação dada pela lei mosaica não é uma inovação instituída por Moisés, não se trata de criação do legislador, nem de uma ordem divina circunscrita à dispensação da lei, mas, antes, é uma característica inerente à própria instituição do dízimo. Assim como dízimo é a décima parte, assim é destinado para o sustento daqueles que, por estarem envolvidos com as coisas de Deus, não têm condições para exercer um trabalho mediante o qual obtenham o próprio sustento.

    – Em Dt.12:5-12, quando Moisés está a repetir a lei à geração que adentraria na Terra Prometida, torna a dizer que o local apropriado para a entrega dos dízimos era a casa do Senhor, reforçando, portanto, a finalidade de tal instituição.

    – Mas, além de o dízimo ser determinado quanto à quantidade e quanto à finalidade, também era determinado quanto à qualidade. Dizia a lei de Moisés que se deveria oferecer “o melhor” (Nm.18:32), ” do melhor deles, a sua santa parte” (Nm.18:29). Bem ao contrário do que acontecia nos dias do profeta Malaquias, a lei prescrevia que somente poderemos demonstrar reconhecimento da soberania de Deus se a porção que separarmos para a obra do Senhor for a melhor, a de primeira qualidade. Não é outro o sentido, aliás, quando se diz que as “primícias da terra” devem ser levadas à presença do Senhor, “primícias” (Nm.18:12), aqui querendo dizer não só os primeiros frutos na ordem de aparecimento, como também na ordem da qualidade (Pv.3:9).

    – Em o Novo Testamento, Jesus sancionou a prática do dízimo. Na sua duríssima crítica aos fariseus, um dos poucos pontos que Jesus aprovou em sua conduta foi, exatamente, o de serem rigorosos no dízimo. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt.23:23).

    – Como se percebe nas declarações de Jesus, o fato de os fariseus dizimarem até mesmo o que era utilizado no tempero de suas comidas, é considerado algo louvável, algo que não deveria ser omitido, que não deveria ser desprezado. Jesus disse que os fariseus deveriam ser tão preocupados com o juízo, a misericórdia e a fé como eram com o dízimo destas mínimas coisas, mas, em momento algum, disse que o dízimo deveria ser omitido, mas, bem ao contrário, afirmou que o dízimo não poderia estar ausente na conduta de um verdadeiro servo de Deus.

    – Assim, não tem qualquer respaldo bíblico o ensinamento que muitos propalam de que o dízimo não pertence à dispensação da Igreja, que não se encontra entre as condutas que devam ser observadas pelos salvos. Jesus disse que não devemos omitir o dízimo e, portanto, se não podemos omitir, devemos praticá-lo. O dízimo faz parte da conduta que Jesus espera de Seus servos.

    – Mas, dizem os adversários do dízimo, que não há qualquer passagem bíblica do Novo Testamento que mostre que os discípulos ou os cristãos, em geral, estivessem dizimando. Dizem eles que há somente registro de coletas, de ofertas alçadas, citando, à saciedade, exemplos vários extraídos não só de Atos dos Apóstolos mas das epístolas paulinas. Assim, dizem estes, o dízimo teria sido abolido por Jesus, pela graça e agora persistiriam apenas as ofertas alçadas ou coletas.

    – Tal entendimento, porém, não se sustenta. Em primeiro lugar, o dízimo,  como vimos, não poderia ter sido abolido pela graça se o próprio Jesus disse que não deveria ser omitido pelos Seus servos. Em segundo lugar, o dízimo somente poderia ser abolido pela graça se tivesse sido uma criação da lei, assim como o sábado, cuja instituição se deve aos dez mandamentos recebidos no Sinai e como sinal entre Deus e Israel. Todavia, como já observamos antes, o dízimo já era uma instituição conhecida e praticada por vários povos antes mesmo da formação da nação israelita.

    – Em terceiro lugar, um pensamento desta natureza decorre do fato de se achar que dízimos e ofertas alçadas são conceitos diversos, diferentes, opostos até. Assim, dízimo seria uma espécie de contribuição, ou seja, a obrigatória porção de um décimo do que se ganha, enquanto que oferta alçada seria uma contribuição voluntária, independente e algo além dos dez por cento. Este conceito, entretanto, não tem, também, respaldo bíblico.

    – Quando vemos a instituição do dízimo na lei de Moisés, percebemos que os dízimos eram entregues em forma de oferta alçada (Nm.18:24). Oferta alçada (que a versão NVI e outras versões bíblicas traduzem por “contribuição”) é um gênero que abrange os dízimos e outras contribuições feitas para o sustento dos sacerdotes. Aliás, os rabinos judeus identificam na lei vinte e duas formas diferentes de contribuição para o sustento dos sacerdotes e levitas, dentre as quais se encontra o dízimo. Assim, quando a Bíblia fala em ofertas alçadas na igreja, não está excluindo os dízimos, pois os dízimos são espécies de ofertas alçadas, cuja característica é a voluntariedade (Ex.25:2,3; 35:5,21,22,24,29;36:3).

    – Em quarto lugar, diz-se que o dízimo seria uma contribuição obrigatória e que, na dispensação da graça, já não vivemos mais a obrigatoriedade, não estamos debaixo do legalismo, mas tudo se faz voluntariamente e por amor. O dízimo, entretanto, como já vimos, não é uma obrigação, mas, tanto quanto as demais contribuições, uma contribuição voluntária, resultado de uma vida de amor a Deus, um ato de gratidão e de reconhecimento da soberania divina.

    – O dízimo é entregue por quem, voluntariamente e com alegria, crê em Deus e reconhece que Ele é Senhor. Não se trata de obrigação alguma, mas, antes, é um gesto de desprendimento, de compromisso para com a obra de Deus. Quem dizima, fixa em, pelo menos, dez por cento o valor com que deve contribuir para a obra de Deus, reconhecendo plenamente o senhorio de Deus sobre a sua vida. Quem não dizima, ainda que contribua, se ficar aquém do valor mínimo com que contribuíram os homens de Deus no passado, como pode dizer que está debaixo da graça de Deus, graça esta que, agora, se revelou plenamente na pessoa de Jesus Cristo? Poderia um servo de Deus na dispensação mais ampla da história da humanidade estar contribuindo menos para a obra de Deus do que os homens das antigas alianças?

    – O dízimo é o primeiro gesto de administração de bens de um cristão fiel, pois, como vimos, é algo que deve ser prioritário, tanto na quantidade quanto na qualidade. O dízimo deve corresponder a dez por cento do ganho do cristão, entendido este como o ganho bruto e não o líquido, como alguns têm defendido. Com efeito, quando declaramos nossa renda ao Governo, declaramos que recebemos aquilo que efetivamente ganhamos, que é o bruto e não o líquido. Ora, se para o Governo, dizemos que nossa renda é nosso ganho bruto, por que o cálculo do dízimo se faria sobre o líquido?

    – O dízimo deve ser entregue na igreja local da qual fazemos parte. Não se trata de dinheiro que tenha outra finalidade senão a de dar o sustento para as pessoas que estão envolvidas integralmente com a obra do Senhor. A obra do Senhor é feita por intermédio da igreja local, que é a agência do reino de Deus aqui na terra. Se somos membros de uma igreja local, ali devemos entregar nossos dízimos, pois é ali que cultuamos a Deus. A Bíblia não estabelece outro lugar senão este para entregarmos os dízimos. Entre os judeus, os dízimos deveriam ser levados a Jerusalém, para o templo, e apenas se permitia que, diante do fato de ser custoso o transporte dos bens até lá, se pudesse convertê-los em dinheiro ou levá-los a cada três anos ao templo, devendo ficar armazenados enquanto não se completasse o período.

    – Não se constitui em dízimo, portanto, a contribuição que se dê a este título para obras assistenciais, para outras igrejas locais às quais não pertencemos, para sustento de obreiros ou quaisquer outras pessoas que estejam “vivendo da obra”. Tais contribuições são ofertas, são contribuições, mas não são dízimo. Não temos o direito, como mordomo, de darmos destinação diversa aos dízimos senão a que foi estabelecida pelo Senhor. Se somos mordomos, somos servos e, portanto, devemos tão somente obedecer ao Senhor e isto implica em não termos o poder de dizermos para onde vai o dízimo, pois ele não é nosso, mas, sim, do Senhor.

    – Constitui-se, também, em atitude que não tem qualquer respaldo bíblico o uso do dízimo como forma de pressão ou retaliação junto ao ministério da igreja local onde servimos a Deus. Muitas pessoas acham que, por entregarem fartos dízimos, que representam boa parte da arrecadação da igreja local, têm o direito de opinar ou de estabelecer as diretrizes para o ministério da igreja local. Na verdade, há, mesmo, ministros do Evangelho que dão satisfações ou procuram agradar um determinado grupo na igreja local por causa do papel que eles representam no sustento seu e da obra do Senhor.

    – Todas estas atitudes são amplamente reprovadas pelas Escrituras, que não admitem a acepção de pessoas e tratam aos que assim procedem como pecadores (Tg.2:1-9). Os dons divinos não se adquirem nem se exercem por dinheiro (At.8:18-23). Na igreja, cuidamos de vidas, de almas e não de cifrões ou de quantias. O dinheiro é necessário, no mundo em que vivemos, para que a obra de Deus se possa realizar, não porque Deus disto precise para cumprir o Seu propósito, mas para o próprio aperfeiçoamento dos santos, para o crescimento espiritual dos crentes e, sobretudo, para a glória de Deus.


    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

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  • Lição 8: O Perigo de Querer Barganhar com Deus

    No seu relacionamento com Deus, Deus não deixa de ser Deus e o homem, de ser homem.

    INTRODUÇÃO

    – Na continuidade no estudo de pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido distorcidos pela teologia da prosperidade, estudaremos hoje a “teologia da barganha” ou “lei da reciprocidade”.

    – Jamais Deus e homem se relacionam numa relação de “toma-lá-dá-cá”, uma das muitas mentiras da teologia da prosperidade.

    I – A SOBERANIA DIVINA

    – Na sequência de nosso estudo neste segundo bloco do trimestre letivo, em que estamos a analisar alguns pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido particularmente distorcidos pelos “teólogos da prosperidade”, estudaremos a questão da chamada “teologia da barganha” ou “lei da reciprocidade”, um dos pontos fundamentais de todo o raciocínio deste falso ensino.

    – Para iniciarmos o estudo deste tema, que tanto prejuízo tem causado aos crentes hodiernos, é preciso, antes de mais nada, rememorarmos o que a Bíblia Sagrada ensina a respeito da soberania divina. O que as Escrituras dizem sobre Deus?

    – A Bíblia nos ensina que Deus é um Ser distinto daqueles que Ele criou. Deus não Se confunde com a Sua criação, ao contrário do que ensinam, equivocadamente, os chamados “panteístas”, aqueles que confundem Deus com a natureza, pensadores, aliás, que estão muito em voga nos nossos dias, principalmente entre os adeptos da Nova Era.

    – Que Deus não Se confunde com a criação vemos logo no primeiro versículo do livro do Gênesis, que nos informa que “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn.1:1). Ao assim descrever o processo da criação, as Escrituras mostram que Deus é distinto dos “céus e a terra”, ou seja, da criação, seja dos seres celestiais, seja dos seres terrenos. Céus e terra tiveram princípio, mas Deus já era desde sempre. Céus e terra foram criados, Deus é o Criador.

    – A esta circunstância os teólogos costumam denominar de “transcendência” de Deus, ou seja, Deus está além da Sua criação, é maior do que ela. A palavra “transcendência” vem do latim “transcendere”, cujo significado é “cruzar a fronteira”. “…Uma das ideias básicas é que a deidade que o indivíduo busca está muito acima do inquiridor. A superioridade e independência do Ser divino é contrastada com a humilde posição do inquiridor, confinado a esta esfera terrestre.…” (CHAMPLIN, R.N. Transcendente, transcendência, transcendentais. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.6, p.474).

    – Esta transcendência divina é muito bem explicitada pelo profeta Isaías que traz uma mensagem divina que mostra como Deus está além do que criou, “in verbis”: “Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos, diz o Senhor, porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos (Is.55:8,9).”

    – O próprio Jesus, em uma de suas múltiplas declarações em que afirma ser Deus, também mostrou que estava além de Seus discípulos, quando, por exemplo, lavou os pés de Seus discípulos. Naquela oportunidade, assim Se manifestou Nosso Senhor: “O que Eu faço não o sabe tu agora, mas tu o saberás depois” (Jo.13:7).

    – Como Deus não Se confunde com a Sua criação, temos que Deus e a criação se relacionam entre si, e, neste relacionamento, há, de pronto, uma assimetria, ou seja, o relacionamento entre Deus e Sua criação não é uma relação de igual para igual, mas um relacionamento onde Deus mantém uma posição superior que jamais pode ser alcançada pelas criaturas. Tanto assim é que, no relacionamento com sua criação, Deus revela a nós algumas qualidades que mostram, claramente, que jamais a criação, mesmo a coroa da criação terrena, que é o homem, pode chegar aos pés do Senhor. Senão vejamos.

    – A primeira dessas qualidades é a onipotência. No relato da criação, vemos que Deus do nada fez tudo, algo que ninguém jamais poderia nem poderá fazer. Deus tem todo o poder, daí porque um de Seus nomes é “Todo-Poderoso” (“ ‘El Shaddai” – ??????- Gn.17:1; 28:3; Jó 5:17; 6:4,14), nome, aliás, que é abundante no livro de Jó, considerado o mais antigo livro das Escrituras. A propósito, “’El-Shaddai” é um título divino característico da época dos patriarcas (Ex.6:3).

    – A onipotência de Deus ensina-nos que Ele tem todo o poder, ou seja, não existe ser mais poderoso do que Ele. Daí porque ter o Senhor, por boca do profeta Isaías, ter afirmado: “operando eu, quem impedirá?” (Is.43:13 “in fine”) ou ter o apóstolo Paulo, ao verificar esta verdade bíblica, ter indagado: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm.8:31), bem como o apóstolo João ter ressaltado que “Filhinhos, sois de Deus e já os tendes vencido, porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo.” (I Jo.4:4).

    – A onipotência de Deus ensina-nos que todo o poder pertence a Deus (Sl.62:11). Um dos graves equívocos do ser humano é tentar construir estruturas de poder fora de Deus. Em Babel, a rebeldia se iniciou quando Ninrode começou a irrogar o poder para si (Gn.10:8). O orgulho, a soberba e a arrogância do homem, que o levam a se achar poderoso e a querer a glória para si, ao invés de reconhecer a onipotência de Deus e a glória que só a Ele é devida, tem sido a principal causa de derrota e fracasso na vida de tantas pessoas. Que Deus nos guarde de assim agirmos, correndo o risco de virarmos animais (Dn.4:30-37), como Nabucodonosor ou sermos comidos de bicho como Herodes (At.12:21-23).

    – A segunda dessas qualidades é a onisciência. Deus conhece e sabe todas as coisas (Sl.139:1-6; I Jo.3:20), nada se Lhe pode ocultar  (Sl.38:9; 139:15,23,24; Mt.6:6). Porque Deus sabe todas as coisas, é ele a fonte de toda a ciência, conhecimento e sabedoria, razão pela qual jamais as manifestações do conhecimento humano, quando verdadeiras, se chocarão com a Palavra de Deus, pois Deus é o próprio autor do conhecimento, da ciência e da sabedoria.

    – A onisciência de Deus, aliada à Sua eternidade, faz-nos conceber a presciência de Deus, ou seja, Deus já sabe, de antemão, o que irá acontecer, porque, para Deus, não há tempo, sempre é presente, um eterno presente. Assim, Deus conhece o futuro, pois, para Ele, passado, presente e futuro são uma só coisa. Por isso, pode nos revelar, como nos revelou, as coisas que ainda iriam acontecer, na dimensão dos homens.

    – A onisciência de Deus traz-nos a necessidade de termos um comportamento distinto dos homens que não conhecem a Deus. Como Deus sabe todas as coisas e conhece tanto o passado, quanto o presente e o futuro, algo que não temos sequer condição de saber, pois nem sempre avaliamos bem o passado (e a memória pode trair-nos, fazendo-nos esquecer aspectos importantes e relevantes deste passado), muitas vezes ficamos atônitos com relação ao presente, sem saber o que fazer e o futuro a nós escapa totalmente, precisamos confiar n’Ele e, nas adversidades e momentos difíceis da vida, lembrar que Deus, e só Ele, sabe todas as coisas. Se bem avaliarmos a onisciência divina, certamente que poderemos marchar na dura caminhada pelo deserto desta vida certos de que, onde quer que as circunstâncias nos levem, a direção e orientação parte de quem sabe todas as coisas e que prometeu que somente nos daria o melhor (Rm.8:27-30).

    – A terceira qualidade ressaltada pelas Escrituras no relacionamento entre Deus e as Suas criaturas é a onipresença, ou seja, Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? Diz o Senhor. Porventura não encho Eu os céus e a terra? Diz o Senhor” (Jr.23:24).

    – Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. Esta presença de Deus é total, pois, como diz a referência que transcrevemos, Ele enche os céus e a terra. Na verdade, como afirmou Salomão na oração que fez para a dedicação do templo, nem mesmo os céus e a terra O podem conter (I Rs.8:27).

    – Esta presença de Deus, porém, não se dá com o mesmo propósito. Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas com diferentes propósitos e finalidades. Assim, por exemplo, Sua presença em Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, assim como no mundo antediluviano, tinha como propósito a verificação do abuso dos limites do pecado, com a determinação de destruição daqueles impenitentes. Já no que se refere ao povo de Israel, como testemunhou Moisés, a presença de Deus tinha o propósito de fazer o povo descansar (Ex.33:14). A presença de Deus é sempre uma bênção para aquele que dirige os seus caminhos segundo a vontade do Senhor (II Rs.3:14; 5:16; 13:23; II Cr.27:6). Seu objetivo, ao mostrar a Sua presença, é mostrar a Sua força aos Seus servos (II Cr.16:9) bem como criar oportunidades para que os que não O conhecem, venham a fazê-lo (At.17:27; Rm.10:6-8).

    – A quarta qualidade ressaltada nas Escrituras no relacionamento entre Deus e Suas criaturas é a Sua fidelidade. Deus é fiel (Dt.7:9; Is.49:7; I Co.1:9; 10:13; I Ts.5:2; II Ts.3:3;  I Pe.4:19; I Jo.1:9; Ap.19:11). A fidelidade de Deus garante-nos que Ele cumpre todos os compromissos assumidos com o homem, que é leal em seus pactos e alianças. Ele vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12). Se o homem falhar, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm.2:13).

    – A quinta qualidade divina em relação a Sua criação é o amor. Deus é amor (I Jo.4:8 “in fine”) e, por isso, Suas ações em relação ao homem sempre foram de amor. Todo o plano da salvação do homem é decorrência deste amor sem igual, sem qualquer comparação (Jo.3:16). O amor divino não é apenas um sentimento, mas um sentimento acompanhado de ações concretas e atitudes reais. Por isso, ao amar o mundo, enviou o Filho para que pudéssemos ter a vida eterna. Por isso, o Filho Se humanizou e morreu em nosso lugar. Por isso, Deus Se fez carne e preço para o pagamento dos nossos pecados e a nossa redenção. Isto é o verdadeiro amor, um amor de gestos, de atitudes, não de palavras ou sentimentos que não ultrapassam o campo das emoções (I Jo.3:18,19).

    – A sexta qualidade divina em relação a Sua criação é a justiça. Deus não somente é amor, mas, também, é justiça. Como já dissemos, uma das maneiras de Deus Se revelar ao homem é por intermédio da consciência, este tribunal que Deus pôs em cada um de nós para nos dizer o que é o certo e o que é o errado, o que é o bem e o que é o mal. Ora, ao estipular o que é o certo e o que é o errado, Deus, também, determinou o que é o justo e o que é o injusto e, como Ser Supremo, assumiu a única posição que Lhe cabe, qual seja, a de justo juiz (Sl.9:8; 50:6; Jr.11:20; II Tm.4:8). Deus é justiça, ou seja, tem de dar a cada um o que é seu (Gn.18:25; Jó 8:3;Sl.31:1; 35:24).

    – Muitos não conseguem entender como Deus pode ser amor e justiça ao mesmo tempo, porque, equivocadamente, acham que ter amor é “ser bonzinho”, é perdoar sempre e invariavelmente, sem jamais aplicar um castigo ou uma penalidade e, muito menos, lançar uma condenação eterna. Para estes, se Deus é amor, todos serão salvos ao final, todos alcançarão a bem-aventurança de viver eternamente ao lado do Senhor. Entretanto, não é isto que nos mostra a Bíblia Sagrada. Deus é amor, e isto provou ao pagar o preço dos nossos pecados, humanizando-Se, morrendo por nós. No entanto, exatamente porque tomou esta atitude radical, a de Se fazer homem para nos salvar, é que, por justiça, deve condenar a tantos quantos se neguem a obedecer-Lhe e a desfrutarem deste amor.

    – Deus, Que não muda, afirmara que, em dando o livre-arbítrio ao homem, faria com que este respondesse pelos seus atos. Assim, todos quantos recusarem o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário terão de responder perante o justo juiz, que tem levado adiante a Sua misericórdia e a Sua verdade. Tendo vindo morrer por nós, tendo levantado um povo para pregar esta boa-nova e tendo enviado a Pessoa do Espírito Santo para convencer os pecadores, Deus mostra que a Sua iniciativa é de amor, que adiante d’Ele vão a misericórdia e a verdade. No entanto, dias chegarão, e estão muito próximos, em que esta oportunidade se findará e em que chegará o momento do acerto de contas, o instante do juízo e da justiça, em que cada um responderá pela opção que fez. Misericórdia e verdade foram à frente, mas a base do trono de Deus é de justiça e de juízo (Sl.89:14; 96:13). Aproveitemos, enquanto é tempo, o ano aceitável do Senhor, antes que chegue o dia da vingança do nosso Deus!

    – A sétima qualidade de Deus em relação à Sua criação é a verdade. Deus é a verdade (Dt.32:4; Jr.10:10). “Verdade”, em hebraico,  é “ ‘emet” (???), cujo significado é o de garantia futura de imutabilidade, de invariabilidade. Ao Se afirmar como a Verdade, Deus mostra aos seres criados que Ele não muda e que o que prometeu, fará. Temos, assim, na Verdade, a demonstração, a um só tempo, da imutabilidade e da fidelidade divinas. Ora, a máxima demonstração da verdade para o homem está na Bíblia Sagrada, na Palavra de Deus, que é a verdade (Jo.17:17). As Escrituras são a suprema garantia que Deus dá ao homem de que é um ser verdadeiro. Por ser a Verdade, Deus abomina a mentira e só é mentiroso aquele que se apartou do Senhor. Daí porque o primeiro ser a se apartar d’Ele, ou seja, o diabo, ser chamado de o pai da mentira, precisamente porque não há verdade nele (Jo.8:44).

    – Pelo que vemos de todas estas qualidades reveladas pelas Escrituras no relacionamento de Deus com a Sua criação, em especial com o homem, não há como vermos uma relação de igualdade entre Deus e o homem, pois se Deus é portador de todo o poder (onipotência), sabe todas as coisas (onisciência), está presente em todos os lugares (onipresença), é fiel (fidelidade), é amor, justiça e verdade, como o homem poderia igualar-se a Ele num relacionamento?

    II – A SALVAÇÃO DO HOMEM TEM ORIGEM EM DEUS

    – Uma das demonstrações desta assimetria no relacionamento entre Deus e o homem está na própria salvação do ser humano.  O homem, ao se envolver com o pecado, entrou em um verdadeiro “beco sem saída”. Ao pecar, tornou-se servo do pecado (Jo.8:34), dominado totalmente por ele (Gn.4:7), sem condição alguma de modificar esta situação.

    – Entretanto, a história não terminou com esta tragédia. Bem ao contrário, a Bíblia Sagrada nos ensina que, mesmo antes da fundação do mundo, dentro de Sua presciência, Deus já havia elaborado um plano para retirar o homem desta situação tão delicada (Ef.1:4; Ap.13:8), a demonstrar, de pronto, que Deus é bem superior ao homem, haja vista que já havia arquitetado a salvação humana antes mesmo que o homem fosse criado.

    – Este plano, já existente mesmo antes da criação do mundo, foi revelado ao homem no dia mesmo de sua queda, quando o Senhor anunciou que haveria de surgir alguém da semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente e tornaria a criar inimizade entre o homem e o mal e, consequentemente, amizade, comunhão entre Deus e o homem (Gn.3:15). Vemos, pois, claramente, que a salvação é algo que sua origem em Deus, que o homem não poderia, por si só, alcançar meios para restaurar a sua comunhão original com o seu Criador. Deus, pelo Seu grande amor, providenciou um plano para trazer o homem de volta ao convívio com Ele.

    – Este plano de Deus para a salvação do homem, revelado à humanidade no momento mesmo da aplicação da penalidade pela prática do pecado, foi sendo executado desde então. O primeiro gesto deste plano foi a proibição de o homem ter acesso à árvore da vida por causa do pecado (Gn.3:22), acompanhado da expulsão do Éden (Gn.3:23). Com estas medidas, Deus impediu que o homem, a exemplo dos anjos pecadores, vivesse numa dimensão eterna, condenado à inevitável e sempiterna separação de Deus, possibilitando ao homem que, mediante o arrependimento enquanto estivesse na dimensão terrena, pudesse desfrutar de uma eternidade com o Senhor.

    – Percebemos, assim, que, o que, à primeira vista, pareceu ser uma crueldade da parte de Deus, foi a manifestação da Sua infinita misericórdia, porquanto, caso o homem ingressasse na dimensão eterna como um pecador, não teria como se salvar, igualando-se, neste ponto, ao diabo e seus anjos, que não podem ser perdoados por causa de seus pecados, vez que habitam a dimensão eterna.

    – A partir de então, o Senhor iniciou a execução de Seu plano que alcançou o seu ápice quando da própria encarnação do Deus Filho, momento que as Escrituras denominam de “a plenitude dos tempos” (Gl.4:4), instante em que Deus cumpre a Sua promessa de providenciar, da semente da mulher, o único e suficiente Salvador, Jesus, o Seu próprio Filho (Mt.1:21; Lc.2:11; Jo.3:16,17; At.4:12). Eis a razão pela qual a Bíblia, mais de uma vez, diz que Deus é o Deus da nossa salvação (I Cr.16:35; Sl.24:5; 51:14), bem como que a salvação d’Ele provém (Sl.3:8; 37:39; 62:1).

    – A salvação, uma vez mais se mostra, foi obtida por intermédio da iniciativa divina. Não só Deus enviou o Seu Filho, como a obra da salvação somente se consumou porque o Filho deu a Sua vida pela humanidade (Jo.10:15-18). A salvação foi consumada na cruz do Calvário, quando Jesus morreu por nós (Jo.19:30;Cl.1:20; Ef.2:13,16). Como diz o poeta sacro: “O meu perdão foi consumado lá na cruz” (primeira estrofe do hino 397 da Harpa Cristã).

    – As Escrituras mostram que Deus é a fonte, a base da nossa salvação. Em diversas passagens, o Senhor é identificado como a “rocha” ou o “rochedo” da salvação, expressão que não apenas revela que Deus dá livramentos aos homens, mas que também n’Ele se encontra o mais importante livramento de que carece o homem depois que pecou: o livramento do domínio do pecado sobre a sua vida (Dt.32:15; II Sm.22:47; Sl.18:46; 62:2,6; 89:26).

    – O homem não tem condições de salvar-se a si próprio. Esta é uma das grandes verdades anunciadas pela doutrina bíblica (Sl.146:3). A Bíblia diz que Deus, ao contemplar os homens desde os céus, não viu justo algum (Sl.14:2,3) e aqueles que, por sua justiça, pudessem, de algum modo, achar graça aos olhos do Senhor, somente o fariam para si mesmos, sem condição alguma de transmitir sua justiça aos demais seres humanos (Ez.14:13-20). Por isso, se a salvação não viesse por intermédio de Deus jamais o homem poderia ter esperança de voltar a ter um convívio eterno com o seu Criador.

    – Mas, precisamente porque a salvação tem origem em Deus, podemos buscá-la e ter a certeza de que seus efeitos são permanentes e duradouros.

    – Notamos, portanto, que, ao contrário do que falam os “teólogos da prosperidade”, a salvação é uma ação que tem iniciativa e consumação em Deus, motivo pelo qual o homem não pode reivindicar quaisquer “direitos legais” decorrentes desta salvação, pois ela é resultado exclusivo do amor de Deus.

    – Por ter origem e consumação em Deus, a salvação revela os atributos divinos, atributos estes que são intransferíveis ao ser humano, como já tivemos ocasião de observar. Destarte, no instante em que o homem se entrega a Cristo Jesus, alcançando a salvação, não está tomando posse de quaisquer “direitos legais”, como ensinam os “teólogos da prosperidade”, mas, sim, passando a desfrutar de um “favor imerecido”, ou seja, da “graça” de Deus.

    – A salvação, por ter origem em Deus, é um ato de amor (Jo.3:16). A salvação é a maior demonstração do amor de Deus ao homem. Há, mesmo, quem diga que Deus permitiu o pecado para revelar este que é um dos Seus principais atributos, que não se revelaria sem que houvesse o pecado. Sem adentrarmos nesta discussão, que está além do que podemos compreender, o certo é que, através da salvação, Deus revela o Seu grande amor para com o homem, este amor incondicional e incompreensível, que se encontra muito além do nosso entendimento. O fato é que Deus nos ama tanto que Se fez homem para pagar o preço dos nossos pecados e nos salvar, para que vivamos com Ele eternamente.

    – A salvação, por ter origem em Deus, é uma manifestação da graça de Deus (Tt.2:11). Deus, por intermédio da salvação, mostra que oferece ao homem um “favor imerecido”, a “graça”. A salvação não vem ao homem porque o homem a mereça (e reside aqui uma das grandes dificuldades dos homens em compreenderem a salvação, pois sempre associam a salvação a algum mérito, o que, evidentemente, está completamente fora dos padrões bíblicos e da revelação divina sobre o assunto), mas porque Deus quis favorecer o homem, por ser um Deus de graça, que foi manifestada em Jesus Cristo (I Co.1:4).

    – O apóstolo Paulo é bem claro ao mostrar que a salvação vem pela graça de Deus (Ef.2:5,8), ou seja, por um favor imerecido de Deus, precisamente para que o homem não se gloriasse, achando que fosse algo que, efetivamente, não é, pois não passa de um miserável pecador (Rm.7:24), cuja justiça não passa de trapos de imundícia (Is.64:6).

    – A propósito, o apóstolo, em suas epístolas, sempre faz questão de mostrar, antes de mais nada, que nosso relacionamento com Deus decorre de Sua graça e de Sua paz (Rm.1:7; I Co.1:3; II Co.1:2; Gl.1:3; Ef.1:2; Fp.1:2; Gl.1:2; Cl.1:2; I Ts.1:1; II Ts.1:2; Fm.3) ou, então, de Sua graça, de Sua paz e de Sua misericórdia (I Tm.1:2; II Tm.1:2; Tt.1:4). Não se está diante de um mero estilo retórico, mas, sim, de uma consciência do apóstolo de que o relacionamento entre Deus e os salvos em Cristo Jesus decorre, primeiramente, da graça do Senhor, trata-se de um “favor imerecido” que nos leva a ter comunhão com Deus, visto que a paz nada mais é que esta completude que se estabelece entre Deus e o homem com a retirada dos pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz do Calvário.

    – Ora, se a salvação oferecida ao homem é resultado da graça de Deus, quando ela é apropriada por aquele que crê em Jesus, continua sendo um “favor imerecido”, não há qualquer modificação em sua essência, até porque, por ter origem em Deus, a salvação é eterna (Is.45:17; Hb.5:9), ou seja, não sujeita a qualquer modificação ao longo do tempo.

    – Portanto, dizer-se que, uma vez salvo, o homem passa a ter “direitos legais” em relação a Deus, que pode “obrigar Deus”, é um contrassenso, visto que a salvação é um “favor imerecido” e, portanto, o homem não assume qualquer posição que lhe permita exigir seja o que for do Senhor, já que está a desfrutar de um “favor imerecido”.

    – A salvação mostra que a deidade do Senhor em todo o Seu esplendor e não é porque nos entregamos ao Senhor Jesus que Ele deixará de ser Deus e de ter todos os atributos que só Ele possui. O fato de ter estabelecido uma aliança com o homem não o faz menos Deus, nem faz com que o homem seja menos homem. A aliança realizada, fruto de Sua iniciativa e por Ele próprio consumada, apenas reafirma a assimetria que existe entre Deus e o homem.

    – A salvação, feita pela graça de Deus, diz-nos o apóstolo, vem “por meio da fé” (Ef.2:8). Ora, quem é o autor e consumador da fé? É o próprio Senhor Jesus (Hb.12:2), que, inclusive, transmite esta fé a cada homem (Rm.10:17), por intermédio da Palavra, que é o próprio Cristo (Jo.1:1; Ap.19:13). Assim, a própria fé é um dom de Deus (Ef.2:8), que nos permite entrar em aliança com Ele, aliança esta feita em Seu sangue vertido na cruz do Calvário por nós (I Co.11:25).

    – Notamos, pois, que o Senhor tudo fez para dar condições para que fôssemos salvos, revelando, uma vez mais, a nossa absoluta incapacidade de tomar parte neste processo e o Seu grande amor, que faz com que queira que nós sejamos salvos e venhamos ao conhecimento da verdade (I Tm.2:4).

    – Diante desta realidade, vemos que ao homem restou, tão somente, crer em Jesus, arrepender-se de seus pecados para alcançar a graça divina, mantendo-se obediente e fiel ao compromisso que assumir de seguir a Cristo até aquele dia. A salvação é um processo onde o homem participa tão somente com o arrependimento, a conversão e a santificação contínua até o dia do arrebatamento da Igreja, quando, com a glorificação, ficará para sempre livre de pecar.

    III – A FALSIDADE DA LEI DA RECIPROCIDADE E A IMPOSSIBILIDADE DE UMA BARGANHA COM DEUS

    – Temos visto que Deus é soberano, Seus atributos com relação à Sua criação mostram que Ele está além das Suas criaturas e que jamais estas poderão a Ele se igualar. Temos visto, também, que, no processo da salvação do homem, Deus igualmente manifesta a Sua soberania, tendo, por Seu amor, permitido ao homem que se salvasse, salvação que é um “favor imerecido” pelo qual o homem volta a ter comunhão com Deus, apropriando-se de uma fé que é dom de Deus, num processo onde tão somente se arrepende dos pecados, converte-se e se mantém separado do pecado até a sua passagem para a dimensão eterna.

    – Dentro deste quadro, é intuitivo até que se perceba que, uma vez salvo, o homem não se apresenta em condição de exigir coisa alguma de Deus. Recebendo a fé vinda pela Palavra de Deus, crendo em Jesus e se arrependendo dos seus pecados, passando a ter uma nova direção e orientação na sua vida, mantendo-se separado do pecado, em comunhão com o Senhor, o homem tem condições de chegar aos céus.

    – Dentro desta realidade, vemos que a relação estabelecida entre Deus e o homem salvo por Cristo Jesus continua sendo uma relação entre Senhor e servo, entre Criador e criatura. No entanto, por causa do perdão dos pecados, o Senhor demonstra todo o Seu amor para o salvo, preparando-o para ir aos céus para com Ele viver para sempre, mas, enquanto isto não ocorre, capacitando-o para ser, aqui na Terra, luz do mundo, sal da terra e instrumento para a salvação de outros seres humanos.

    – Já no tempo da lei, o Senhor mostrava o que pedia ao povo de Deus, “in verbis”: “Agora, pois, ó Israel, que é o que o Senhor, teu Deus, pede de ti, senão que temas o Senhor, teu Deus, e que andes em todos os Seus caminhos, e O ames, e sirvas o Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor e os Seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt.10:12,13).

    – O primeiro ponto que observamos é que o Senhor pede e não exige, como poderia fazê-lo, por ser o Senhor, o Soberano, o dono de todas as coisas (Sl.24:1). Fá-lo porque deu ao homem o livre-arbítrio e, portanto, tudo depende da vontade do homem em servi-l’O, ou não. Certamente que os homens responderão pelos seus atos, mas Deus não força qualquer homem a servi-l’O, pois, como é imutável, não iria Se arrepender de ter feito o homem com livre-arbítrio.

    – Ora, se Deus não força o homem a servi-l’O, sendo o Senhor, como pode o homem “forçar” Deus a tomar esta ou aquela atitude? Notemos aqui como não tem qualquer cabimento a teoria de que o homem, por ser salvo, “toma posse das promessas de Deus” e, por isso, pode “exigir” que Deus faça isto ou aquilo. Se Deus que é Deus não exige, como pode fazê-lo o homem mortal em relação ao Senhor? Resta-nos aqui tão somente lembrar as palavras do profeta Isaías: “Ai daquele que contende com o seu Criador, caco entre outros cacos de barro! Porventura, dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?” (Is.45:9).

    – O segundo ponto que observamos é que o primeiro pedido do Senhor era para que Israel temesse a Deus. “Temer” aqui não é “ter medo”, mas, sim, “considerar”, “ter reverência”, “obediência”. De pronto, vemos que o fato de Israel ter de “temer a Deus”, mostra que Deus continua sendo o Senhor, pois somente se reverencia alguém que está em uma posição superior a sua. É conhecida, em nosso direito civil, a figura do “temor reverencial” que é “…o receio de desgostar ascendente ou pessoa a quem se deve obediência e respeito…”(DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. 9. ed. rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil, p.154).

    – Ora, “temer a Deus” é, portanto, “o receio de desgostar a Deus”, o que, de pronto, leva-nos à conclusão de que, em nosso relacionamento com o Senhor, relacionamento somente possível diante da salvação, nunca podemos de deixar de levar em consideração a vontade do Senhor, o que, de pronto, elimina toda e qualquer possibilidade de “exigirmos” ou “determinarmos” algo a Deus, uma vez que tais comportamentos desconsideram a vontade do Senhor, demonstram que são condutas de quem não teme ao Senhor.

    – Alguém pode, porém, dizer que esta exigência de “temor a Deus” era na época da lei e que, agora, estamos na graça, quando não mais vigoraria tal situação. Ledo engano, porém. A exigência do temor a Deus persiste incólume na nova aliança. Em At.2:43, notamos que uma das características de todo crente na igreja de Jerusalém era, precisamente, o temor, característica presente também nas igrejas que iam surgindo na Judeia, Galileia e Samaria (At.9:31).

    – O apóstolo Paulo afirma, ainda, que, em sua evangelização, sabia que se deve temor a Deus (II Co.5:11), bem como ensina que um dos meios de santificação, esta necessária atitude humana para chegar aos céus, é o temor ao Senhor (II Co.7:1). O apóstolo Pedro não discrepa deste entendimento, dizendo que os crentes devem “andar em temor durante o tempo da sua peregrinação” (I Pe.1:17). Vemos, pois, que o temor prossegue sendo uma atitude indispensável para a Igreja, o povo de Deus da atual dispensação.

    – O terceiro ponto que observamos é que o segundo pedido do Senhor ao Seu povo é para que Seu povo “ande nos Seus caminhos”, ou seja, que seguisse os Seus mandamentos, que foram dados a Israel por Moisés. Hoje em dia, devemos seguir os passos de Cristo Jesus, seguir as Suas pisadas (I Pe.2:21). Aliás, o mandamento deixado pelo Senhor é bem explícito a respeito: “Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo.15:12). Nosso exemplo, nosso padrão de conduta é o Senhor Jesus e devemos andar como Ele andou (I Jo.2:6).

    – E como Jesus andou neste mundo? Exigindo algo do Pai ou fazendo a Sua vontade? Evidentemente que fazendo a vontade do Pai (Jo.5:30; 6:38). Aliás, Cristo chegou a afirmar que a Sua comida era fazer a vontade do Pai (Jo.4:34), indicando que a sobrevivência espiritual de alguém é fazer a vontade de Deus.

    – Portanto, ensinar que se deve desconsiderar a vontade de Deus em nossas atitudes sobre a face da Terra nada mais é que ensinar que não devemos andar como Jesus andou, que não devemos andar em Seus caminhos, em outras palavras, trata-se de um ensino que visa nos distanciar de Deus, tornarmo-nos desagradáveis a Ele!

    – O quarto ponto que observamos é que o terceiro pedido do Senhor ao Seu povo é que O amassem. Ora, amar a Deus, explicou-nos o Senhor Jesus, é guardar a Palavra de Deus (Jo.14:23,24). “Vós sereis Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando” (Jo.15:14), disse o Senhor. Somente demonstraremos amor para com Deus se Lhe formos obedientes e, para tanto, precisamos ouvir a Sua voz, não endurecendo os nossos corações, tentando ao Senhor (Sl.95:7,8; Hb.3:15).

    – Os “teólogos da prosperidade”, entretanto, ensinam exatamente o oposto. Vivem insuflando seus ouvintes a “pôr Deus contra a parede”, a “se revoltarem”, “não aceitarem”, “reivindicarem seus direitos diante de Deus”, ou seja, conclamam o povo a falar diante de Deus, apresentar suas queixas, sem se importar com o que Deus está a dizer. Não é isto, precisamente, fazer como fez Israel em Massá e Meribá, lugares onde os israelitas tentaram a Deus, provocaram-n’O e com Ele contenderam (Ex.17:7), episódio que os fez perder o desfrute da promessa de Abraão e terem de se submeter à lei, que não propicia salvação a homem algum (Gl.3:11)?

    – Quando o homem sai de sua posição de servo e beneficiário da graça de Deus para tentar “conversar de igual para igual” com o Senhor, “exigindo-Lhe direitos”, entra num caminho extremamente perigoso, pois assume uma postura de rebeldia e de dureza de coração diante do Senhor e o resultado é que assina a sua própria sentença de morte, visto que, se formos raciocinar em “termos legais”, estaremos irremediavelmente perdidos, vez que não temos quaisquer “direitos” diante do Senhor.

    – A aliança que o Senhor firmou conosco é uma aliança em que recebemos, imerecidamente, o Seu favor, temos nossos pecados perdoados e a garantia da vida eterna, mas na qual devemos nos submeter à Sua vontade, “amando-O porque Ele nos amou primeiro” (I Jo.4:19). Se existe alguma reciprocidade no relacionamento entre Deus e o homem, esta reciprocidade é o amor e, como Deus nos amou, e prova isto quando Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores (Rm.5:8), também devemos amá-l’O e amar a Deus é guardar a Sua Palavra.

    – Ora, se amar a Deus é guardar a Palavra de Deus, é esconder a Sua Palavra em nossos corações para que não pequemos contra Ele (Sl.119:11), não há qualquer lugar para que nossa vontade produza “palavras inspiradas” aos quais vinculemos o Senhor, como ensinam os “teólogos da confissão positiva”. A Palavra de Deus está dada, não pode ser diminuída nem ampliada (Ap.22:18,19), é a testemunha de Cristo Jesus (Jo.5:39), as Escrituras que nos foram reveladas e que devem ser cridas em sua inteireza, sem quaisquer artifícios hermenêuticos, pois são o próprio Jesus, a completa revelação divina ao homem (Hb.1:1-3).

    – O quinto ponto que observamos neste pedido do Senhor ao Seu povo é que eles deveriam servi-l’O, com toda a sua alma e com todo o seu coração, para guardar os mandamentos do Senhor e os Seus estatutos ordenados para o bem do próprio povo. Vemos, de pronto, aqui que o Senhor deixa bem claro que os israelitas permaneciam servos, apesar de serem o povo de Deus.

    – Tal situação não se alterou com a graça. Muitos gostam de mencionar a expressão de Jesus aos Seus discípulos, segundo a qual não os chamaria mais de servos, mas, sim, de amigos, pois tudo quanto de Seu Pai havia ouvido, tinha-os feito conhecer (Jo.15:15). O fato de termos nos tornado amigos de Cristo, não significa que deixemos de ser Seus servos, porém.

    – A primeira pessoa que é chamada de amigo de Deus nas Escrituras é Abraão (Is.41:8), assim chamado precisamente porque Deus não quis ocultar dele o que faria com as cidades da planície (Gn.18:19). No entanto, o fato de Abraão ser amigo de Deus não fez com que deixasse de ser servo de Deus e o diálogo mantido com o Senhor na intercessão pelos habitantes daquelas cidades mostra como Abraão não deixou da sua condição de servo, apesar de ser amigo do Senhor (Gn.18:23-33). Como se não bastasse isso, o episódio do sacrifício de Isaque mostra claramente como Abraão era temente a Deus e pronto a obedecer-Lhe (Gn.22:12).

    – Na própria passagem em que Jesus disse que passaria a chamar os Seus discípulos de amigos, vemos que o Senhor não deixou de considerá-los Seus servos, pois, em seguida, diz que os havia escolhido e nomeado para que fossem e dessem fruto permanente (Jo.15:16), tendo ainda lhes mandado que se amassem uns aos outros (Jo.15:17), bem como os lembrado que, como servos, não poderiam pretender sofrer menos que o Senhor no mundo (Jo.15:18-20), a confirmar, pois, que eles se mantinham servos, apesar da intimidade de serem chamados de amigos.

    – Os escritores do Novo Testamento, mesmo, fazem questão de mostrar que são servos de Cristo Jesus em seus escritos (Rm.1:1; Fp.1:1; Tt.1:1; Tg.1:1; II Pe.1:1; Jd.1:1; Ap.1:1), tendo o apóstolo Paulo mostrado, mais de uma vez, que o salvo em Cristo Jesus deve, antes de mais nada, ser servo de Deus (I Co.7:22; Gl.1:10; Cl.4:12; II Tm.2:24), tendo o próprio Pedro nos ensinado que, se somos vencidos por Deus, somos servos d’Ele, mas, se formos vencidos pela corrupção, dela seremos servos (II Pe.2:19).

    – Ora, se somos servos, e a palavra grega para “servo” é “doulos” (??????), cujo significado é “escravo”, temos a conclusão de que quem é salvo por Cristo Jesus não tem vontade própria, faz apenas o que lhe for mandado pelo Senhor, é “propriedade de Cristo”, a Ele pertence, não é de si mesmo (I Co.6:19,20).

    – Diante de um tal quadro, vemos que o relacionamento entre Deus e o homem não elimina, em absoluto, a circunstância de que Deus é o Senhor e que o homem, Seu servo; que Deus manda, e o homem, obedece; que Deus determina, e o homem, acata; que Deus abençoa porque quer e o homem é abençoado, sem merecer e na medida que Deus o quiser.

    – Por isso o serviço desejado por Deus a Israel e que se estende à Igreja, que também é formada de servos, é um serviço “com toda a alma e com todo o coração”, ou seja, trata-se de um serviço que envolve todo o homem interior, pois “alma e coração” são expressões que indicam a alma e o espírito, ou seja, toda a sensibilidade, vontade, intelecto, fé e consciência do ser humano.

    – Desta maneira, não há como o homem querer relacionar-se com Deus impondo ao Senhor os seus sentimentos, a sua vontade, o seu intelecto, a sua fé e a sua consciência. Tudo deve ser exercido segundo os parâmetros e as ordens estabelecidas pelo Senhor, uma verdadeira submissão.

    – Estaria, pois, o Senhor escravizando ao homem? Não se teria, pois, uma situação igual àquela que o homem que vive no pecado? Não, não e não! Por primeiro, o homem se submete a Deus voluntariamente, não há qualquer imposição, tudo decorre da vontade humana em se render a Deus. “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mc.8:34b), bem ao contrário do que ocorre na vida pecaminosa, que se manifesta à revelia da vontade do homem: “…eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço, não o aprovo, pois o que quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso faço” (Rm.7:14b,15).

    – Por segundo, este serviço voluntário, livre, com toda alma e coração, para guardar os mandamentos do Senhor e Seus estatutos, traz o bem ao homem, é “para teu bem”, ao contrário do pecado, que é “para morte”: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.

    Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim(…).Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:18-20,24).

    – Portanto, quando passamos a servir a Deus com toda a alma e com todo o coração, fazemo-lo para o nosso bem. E que bem é este? Paulo responde: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm.6:23). Este bem é a “vida eterna”.

    – Deus assume um compromisso com todos os que recebem a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador: a vida eterna. Tudo, pois, que acontece na vida dos salvos nesta Terra contribui para este bem (Rm.8:28). Assim, ainda que haja tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo ou espada, nada disto poderá nos separar do amor de Cristo (Rm.8:35).

    – Destarte, o que vincula Deus ao homem é o compromisso de dar a vida eterna a todos quantos receberem a Cristo Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador, vida eterna esta que será alcançada por todos aqueles que atenderem ao pedido do Senhor e, deste modo, forem tementes a Deus, andarem em todos os Seus caminhos, O amarem e O servirem com todo o seu coração e com toda a sua alma. Em outras palavras: a vida eterna será dada a todos quantos se arrependerem de seus pecados, se converterem de seus maus caminhos e se santificarem até o fim.

    – Como a relação com Deus se mantém assimétrica, mesmo diante da salvação, estamos diante de um verdadeiro “contrato de adesão”, cujas principais características, segundo o grande jurista brasileiro Orlando Gomes (1909-1988) são três: a) a uniformidade, que consiste no intento do predisponente de obter, de número indeterminado de aderentes, a aceitação passiva das mesmas condições, de sorte que seja invariável o conteúdo de todas as relações contratuais; b) a predeterminação, por uma das partes, das cláusulas dos contratos a serem estipulados em série; c) a rigidez das cláusulas, impossibilitando a flexibilidade no cumprimento das avenças (Contratos, 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1996. pp.118/9).

    – Se as grandes empresas neste mundo, devido a seu poderio econômico, impõem aos consumidores a sua vontade, estabelecendo “contratos” conforme a sua vontade, por que Deus, que é onipotente, haveria de Se diminuir diante do homem quando com Ele firmasse uma aliança, aliança esta estabelecida por obra exclusiva do próprio Deus, que propiciou a salvação ao homem sem que o homem merecesse ou sequer fizesse algo além de arrepender-se, converter-se e se manter separado do pecado?

    – Este é o grande equívoco da chamada “lei da reciprocidade”, segundo a qual, uma vez que Deus prometeu bênçãos para o homem ao estabelecer com ele uma aliança, tem de cumprir o que prometeu. Como diz Edir Macedo: “…O ditado popular de que ‘promessa é dívida’ se aplica também para Deus. Tudo aquilo que Ele promete em Sua palavra é uma dívida que tem para com você(…)” (Vida com abundância, p.36 apud GONÇALVES, Edson Poujeaux. A teologia da prosperidade, p.10. Disponível em: http://www.slideshare.net/goiano/teolprosperidade Acesso em 04 jan. 2012).

    – Nesta ideia de reciprocidade, Deus e o homem estão no mesmo nível, o que, evidentemente, não é a realidade. Deus está muito acima do homem e as promessas que faz ao homem são resultado da Sua graça, ou seja, são favores imerecidos que são dados ao homem. Mas, sendo Deus fiel, uma vez tendo prometido, não terá inevitavelmente de cumprir o que prometeu?

    – Sem dúvida alguma, já vimos inclusive neste estudo, que um dos atributos de Deus no Seu relacionamento com a criação é a Sua fidelidade, que faz com que Ele cumpra o que prometeu. Este cumprimento, porém, independe do homem, decorre da própria natureza divina e, portanto, o homem não precisa “cobrar” ou “exigir” tal cumprimento, visto que ele virá inevitavelmente.

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, está demonstrando falta de confiança em Deus, ou seja, mostra que não tem mais fé em Deus e, sem fé, é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus, creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam (Hb.11:6).

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, está deixando de ser um mero servo, que não tem vontade própria, mas que passa a querer questionar o Criador, como se um caco pudesse interpelar o oleiro! Deus é fiel e assim Se revelou aos homens, de modo que devemos, ante Suas promessas, tão somente “esperar com paciência no Senhor” (Sl.40:1), mantendo com o Senhor um relacionamento contínuo, um diálogo aberto, próprio de quem tem intimidade com Deus, por meio da chamada “oração incessante”, que foi aconselhada pelo Senhor Jesus e por Seus apóstolos (Mt.7:7; Lc.11:9; 18:1-8; Ef.6:18; I Ts.5:17), oração que nunca pode desconsiderar que a vontade a ser seguida é sempre a de Deus, não a nossa (Mt.6:10; 26:42; Lc.22:42).

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, esquece-se de que existe para servir a Deus e não o contrário. Deus não é como os deuses dos gentios que, sendo portadores das mesmas paixões e pecados humanos, apenas têm mais poder e podem, a seu bel-prazer, trazer benefícios a este ou aquele que reclama a sua “proteção”, o seu “poder”.

    OBS: Como dizia o filósofo grego Xenófanes (±570-528 a.C.): “Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm” (apud CLEMENTE de Alexandria. Tapeçarias, V, 110. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural. 5.ed., p.36). Neste pensamento, o filósofo grego mostra que os deuses dos gentios eram projeções dos homens, eram seres humanos a quem se dava o poder da imortalidade, mas havia uma essência igual entre homens e deuses, a refletir que o pensamento gentílico era o de igualar homens e deuses, precisamente o que faz a “teologia da prosperidade”.

    – A chamada “lei da reciprocidade” é completamente alheia à verdade bíblica, visto que, se Deus nos tratasse conforme nós O tratamos, estaríamos irremediavelmente perdidos, visto que apenas mereceríamos a condenação eterna. Por Deus ser amor, Ele manifestou tanto a Sua graça como a Sua misericórdia e, assim, recebemos a salvação, precisamente porque Deus não nos tratou segundo o que merecíamos. Como diz o salmista: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos retribuiu segundo as nossas iniquidades” (Sl.103:10).

    – Não é à toa que, como já vimos supra, o apóstolo Paulo, no início de suas epístolas, fazia questão de frisar aos salvos em Cristo Jesus que o relacionamento com Deus era decorrente da graça, da paz e da misericórdia que vinham da parte de Deus e de Cristo. Não há como falarmos em o nosso relacionamento com o Senhor, por Cristo Jesus, se não for a partir da graça, pelo qual nós recebemos de Deus o que não merecemos; da paz, pela qual nós temos comunhão com Deus e pela misericórdia, pela qual nós não recebemos o que merecemos.

    OBS: “…Irmãos, fará mal qualquer um de nós que usar a linguagem do mérito diante de Deus, pois mérito algum temos e, se tivéssemos algum, não precisaríamos orar. Foi bem observado por um antigo teólogo, que o homem que pleiteia seu próprio mérito não ora, mas cobra o seu crédito. Se eu peço a alguém que me pague sua dívida, eu não sou alguém que pede, mas alguém que está a exigir os seus direitos. A oração de um homem que pensa que tem méritos é como se estivesse a entregar uma letra ao Senhor: ele não está apresentando um pedido, mas emitindo uma cobrança. O mérito, com efeito, diz: “Pague-me  o que você deve”. Pouco um homem deste obterá de Deus, pois se o Senhor apenas pagar para nós o que Ele nos deve, o lugar além de tormento será nossa rápida herança. Se durante a vida aqui nós recebermos não mais do que nós merecemos, nós seremos rejeitados e abandonados. O mais vil dos mendicantes obterá mais do que estes banidos. Até mesmo a vida, ela própria, é um presente do Criador, ‘De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um da punição dos seus pecados’. Vamos nos manter numa posição de inferioridade tanto quanto podemos, pois nós ainda temos de reconhecer que ‘As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as Suas misericórdias não têm fim’. Qualquer outra atitude que não a de humildade seria muito mal-vinda e presunçosa na presença do Altíssimo.…” (SPURGEON, Charles Haddon. Humildade: a amiga do orante. Disponível em: http://bible.org/seriespage/humility-friend-prayer-no-1787 Acesso em 11 set. 2010) (tradução nossa de texto original em inglês) (destaque original).

    – Nosso relacionamento com Deus é pautado por estes três parâmetros: a graça, a paz e a misericórdia. Se formos invocar uma “lei de reciprocidade”, se formos “exigir” “direitos legais” junto a Deus, como ensinam os “teólogos da prosperidade”, estaremos abrindo mão destes três elementos dentro dos quais Deus Se relaciona conosco.

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar “favores imerecidos”, o que poderemos receber d’Ele? Nada, absolutamente coisa alguma, pois nada merecemos!

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar a Sua paz, obtida pela fé que Ele gratuitamente nos deu, o que poderemos receber d’Ele? Nada, absolutamente coisa alguma, pois sem a fé que nos é dada pela Palavra, jamais poderemos ser justificados e não teremos como ter comunhão com Deus e Deus não ouve a pecadores (Is.59:2; Jo.9:31).

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar a Sua misericórdia, o que poderemos receber d’Ele? A sentença de morte, pois o que merecemos é isto. Sem a misericórdia divina, seremos consumidos (Lm.3:22,23)! Se alguém tiver alguma dúvida, é só contemplar os juízos divinos ao longo da história da humanidade, como o dilúvio e a destruição das cidades da planície (Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim).

    – Então, como podemos deixar de lado a graça, a paz e a misericórdia do Senhor para entabularmos com Ele um relacionamento baseado na “lei da reciprocidade”, num “toma-lá-dá-cá”, numa barganha, como defendem os “teólogos da prosperidade”? Isto não é senão jogar fora a oferta salvadora do Senhor?

    – A palavra “barganha” significa “fazer troca de mercadorias”, “comerciar”. Assim, para que se possa barganhar algo, é preciso que ambas as partes tenham algo a oferecer, tenham “mercadorias”.

    – Todavia, quando vemos o que a Bíblia diz a respeito de Deus, afirma-nos que tudo é d’Ele (Sl.24:1), inclusive os seres humanos. Assim, o que pode o homem oferecer a Deus. Mas, quando olhamos a Bíblia Sagrada, podemos perguntar, como o salmista: “Que darei eu ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?” (Sl.116:12).

    – O próprio salmista responde: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Pagarei os meus votos ao Senhor, agora, na presença de todo o Seu povo” (Sl.116:13,14). Ou seja: o salmista chegou à conclusão de que nada tinha a oferecer a Deus, já que tudo é d’Ele e, por isso, se contentaria em servir ao Senhor, apropriando-se da salvação (o que, como já vimos, é se arrepender dos pecados, converter-se e se manter em santidade até o fim) e cumprindo tudo quanto houvesse se comprometido a fazer diante do povo de Deus, de forma incondicional e sem esperar qualquer retribuição.

    – Segundo a “teologia da prosperidade”, Deus, ao ter feito promessas aos homens, é “obrigado” a cumpri-las, pois tais promessas teriam gerado “direitos”, que poderiam ser “cobrados” junto a Deus. Assim, segundo estes falsos ensinadores, o homem teria algo, sim, a saber: as “promessas de Deus”.

    – Entretanto, é princípio basilar do direito que só se podem exigir direitos da outra parte quando não se tem cumprido os seus. Então, como pode o homem cobrar algo de Deus se não tem cumprido a sua parte na aliança? O homem jamais cumpriu os pactos celebrados com Deus, não tem condição de fazê-lo por si só. Como, pois, poderia cobrar algo de Deus?

    – Mas, dizem os “teólogos da prosperidade”, que, quando o homem dá dízimos, ofertas, cumpre votos financeiros, está em condições de “exigir” aspromessas de Deus. MS, perguntemos: de quem é o ouro e a prata? De Deus ou dos homens? A Bíblia nos responde: de Deus (Ag.2:8). Se damos algo a Deus, isto, como nos ensina Davi, só é possível porque, antes, Deus no-lo deu (I Cr.29:10-14). Então, quando alguém faz estas coisas, não está dando coisa alguma a Deus, porque não lhe pertence, mais, sim, ao Senhor e, por isso, como poderá cobrar algo em troca?

    – Mas, há ainda uma outra coisa, já analisada no estudo deste trimestre: muitas das propaladas “promessas de Deus” simplesmente inexistem para os que são salvos em Cristo Jesus. O bem prometido pelo Senhor, como já tivemos ocasião de ver neste próprio estudo, é a vida eterna, dom que é gratuito, ou seja, que não exige coisa alguma em troca. As riquezas, a imunidade às doenças não fazem parte destas “promessas” de que seriam os crentes titulares.

    – Pelo que se observa, portanto, o raciocínio da “lei da reciprocidade” e da “teologia da barganha” é completamente antibíblico. Parte-se de uma inexistente situação de igualdade entre Deus e o homem; de uma inexistente situação de “legalidade”, abrindo-se mão da graça, paz e misericórdia de Deus; da inexistente condição de o homem poder cumprir, por si só, a sua parte na aliança firmada com o Senhor e de inexistentes promessas de riquezas materiais e imunidade a doenças para se defender um “toma-lá-dá-cá”. Um verdadeiro “imbroglio” “sem pé nem cabeça”, cuja única finalidade é enriquecer alguns que, esperta e malandramente, têm amealhado fortunas com estes falsos ensinos.

    – Jamais nos esqueçamos de que o nosso relacionamento com Deus é fruto da Sua graça, paz e misericórdia e de que o que Deus nos promete é o “nosso bem”, ou seja, a “vida eterna”. Isto Ele certamente cumprirá, devendo nós, ante a nossa total impotência, tão somente nos apropriar da fé que Ele nos deu pela Sua Palavra, crermos em Cristo Jesus, arrependermo-nos de nossos pecados, convertermo-nos de nossos maus caminhos e nos mantermos em santidade, temendo ao Senhor, até o dia em que Ele nos levará para os céus, pois, quem perseverar até o fim será salvo (Mt.24:13). Esta é a nossa parte na aliança. Estamos dispostos a permanecer fiéis até o fim?

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

    (mais…)

  • LIÇÃO 7 – “TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE”

    Deus nos fortalece não para sermos super-homens, mas para tudo suportarmos até nossa ida para o céu.

    INTRODUÇÃO

    – Na continuidade do estudo dos falsos ensinos da teologia da prosperidade e sua refutação bíblica, analisaremos o triunfalismo, que tem na expressão retirada do contexto da epístola de Paulo aos filipenses que dá título a esta lição um dos principais bordões.
    – As palavras de Paulo nada têm que ver com o triunfalismo propalado pelos teólogos da prosperidade, mas, vistas no contexto, ensina-nos que o salvo sabe tudo suportar, inclusive e em especial as adversidades, na sua jornada terrena para o céu.

    I – O TRIUNFALISMO E SEU FALSO PRESSUPOSTO

    – Um dos mais funestos efeitos da teologia da prosperidade e a sua forma de execução é o “triunfalismo”, que é um comportamento de sutileza típica: aproveitando-se das circunstâncias que estão ao redor do crente, o adversário levanta homens e mulheres que geram expectativas de um “paraíso na terra”, desviando os olhares do povo daquilo que é relevante e permanente: a vida eterna.

    – Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa,  a palavra “triunfalismo” surgiu em nosso idioma em 1965, com o significado de “atitude, crença ou doutrina de que determinado credo religioso é superior a todos os outros”. Mas, em 1980, adquiriu novo significado, a saber, “atitude excessivamente triunfante; sentimento exagerado de triunfo”. Já na própria história da palavra, vemos como é recente a sua infiltração no meio do povo de Deus e como se teve uma distorção dos corretos ensinos provenientes das Escrituras Sagradas.

    – A palavra “triunfalismo” advém de “triunfo”, palavra de origem latina, “triumphus”, que era o nome que recebia “a entrada solene em Roma de um general vitorioso”, e que, por extensão, passou a significar “vitória”. Em Roma, além da entrada solene em Roma, era costumeiro construir “arcos do triunfo”, ou seja, “…um tipo de monumento introduzido pela arquitetura romana originalmente utilizado como um símbolo da vitória em uma determinada batalha. Cada arco do triunfo romano, portanto, remete-se a uma batalha e a um imperador específicos na história romana e sua memória era celebrada através desta construção.…” (WIKIPEDIA. Arco do triunfo.  http://72.14.203.104/search?q=cache:qJ8-DhbWAdgJ:pt.wikipedia.org/wiki/Arco_do_Triunfo+%22arco+do+triunfo%22&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=1  Acesso em 26 abr. 2006).

    – Ao falarmos em “triunfalismo”, portanto, estamos nos referindo a “uma atitude excessivamente triunfante”, a um “sentimento exagerado de triunfo” que tem tomado conta da vida de muitos crentes, que, insuflados por pregadores de um falso evangelho, evangelho este baseado na “teologia da prosperidade”, passam a se considerar “supercrentes”, pessoas que se encontram acima das dificuldades e das adversidades da vida e que, portanto, confundem vida espiritual com prosperidade material e imunidade aos males desta vida.

    – O “triunfalismo” é uma atitude típica dos chamados “movimentos da fé” ou “teologia da prosperidade”. Como já tivemos ocasião de observar neste trimestre, esta falsa doutrina parte da noção de que, na criação do homem, Deus entregou ao homem o domínio sobre a criação terrena, dando-lhe, pois, “direitos” que ele pode reivindicar diante da Divindade. Tanto assim é que, quando do episódio da queda, o que teria havido seria um “legítimo direito” do homem em transferir a Satanás o domínio desta mesma terra. Evidentemente que Deus não iria permitir isto e, por isso, teria elaborado o plano da salvação do homem, a fim de que o homem pudesse, legalmente, reaver o que havia transferido ao diabo.

    – Como Jesus veio ao mundo e cumpriu este desejo do Senhor, o homem que aceita a salvação teria retornado a esta qualidade de “detentor de direitos” diante de Deus e, por isso, não há que se falar em adversidades, dificuldades ou quaisquer outros problemas para o salvo, uma vez que ele tornou a ter os “direitos” que lhe advieram pela “nova criação”. É a partir deste conceito, pois, que surge, no bojo da “teologia da prosperidade”, um triunfalismo, vez que o salvo se sente um “mais do que vencedor”, alguém que “triunfou sobre o diabo” e que, por isso, não tem mais que “pagar coisa alguma ao diabo”, que tem, simplesmente, de “fazer o diabo desaparecer da sua vida, dos seus bens, da sua família e da sua saúde”.

    – Não obstante, não é isso que dizem as Escrituras Sagradas. Relembrando o que já estudamos, vemos que, em primeiro lugar, o homem não é portador de qualquer “direito” diante de Deus. Quando da criação, Deus fez o homem um simples “mordomo”: o domínio sobre a criação terrena não significa, em absoluto, propriedade, mas, sim, poder de administração. Tanto assim é que o homem foi feito “imagem e semelhança de Deus”, ou seja, embora tivesse pontos de contacto com o Senhor, não fora equiparado a Ele, o que, a propósito, é reconhecido pelo próprio Satanás que, valendo-se desta diferença entre Deus e os homens, levou o primeiro casal a desejar ser igual a Deus (cf. Gn.3:5).

    – Ao se verificar o texto de Gn.1:26, vemos que, no hebraico, o verbo utilizado para designar o “domínio” do homem é “radah”(???), ou seja, “governar”, “dar regras”, que, na versão grega da Septuaginta é “archétosan” (?????????), que também significa “governar”, “administrar”. Não bastasse este significado, o texto bíblico mostra claramente que Deus mantém o controle de toda a situação, seja porque, encontramos Deus ordenando ao homem (Gn.2:15-17), seja porque a narrativa bíblica demonstra que o homem só exerce suas faculdades mais excelentes, entre as quais, a de dar nome aos demais seres (que é o símbolo de sua superioridade), sob os auspícios e a devida supervisão do Senhor (cf. Gn.2:19-23).

    – Como se ainda isto não fosse suficiente, as Escrituras são claras ao afirmar que, enquanto o homem tem o governo sobre a criação terrena, o reino, a soberania permanece sendo de Deus, o “dono”, o “proprietário”, ou seja, aquele que tem “poder absoluto sobre a coisa”, pois esta é a noção de propriedade. É o que se verifica no Sl.24:1; 47:8; 59:13; 93:1; 96:10; 97:1; 99:1; Is.52:7 e Ap.19:6, entre outras referências. Nestes trechos, aliás, os verbos são diversos, pois dão a ideia do domínio absoluto. É o verbo “reinar” que está em foco, que, em hebraico é “mashal”(???) e, em grego, “ebasileuein” (???????????).

    – O “triunfalismo”, portanto, perde já na sua base, pois todo o edifício que dá ao homem uma qualidade de “supercrente” parte do pressuposto de que ele é “detentor de direitos” diante de Deus e que, por isso, Deus é “obrigado” a praticar determinadas ações em favor dos “salvos”, por força dos “direitos” existentes no relacionamento entre Deus e a humanidade. Nada mais falso. Se é verdade que Deus nos resgatou do pecado e da perdição eterna, fê-lo porque é amoroso e tudo nos concede por “graça”, ou seja, “favor não merecido”, conceito bem diverso do de “direito”. Para nos utilizarmos da linguagem jurídica, tão ao gosto dos “triunfalistas”, a salvação do homem e as bênçãos decorrentes dela são fruto de uma “liberalidade” divina, não de uma “obrigação”.

    OBS: “Liberalidade”, como nos diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa é “ disposição daquele que, em seus atos ou em suas intenções, dá o que não tem obrigação de dar e sem esperanças de receber nada em troca”. (grifo nosso)

    – A ideia de “triunfo” por parte do ser humano é alheia ao texto bíblico. Na Versão Almeida Revista e Corrigida, a única vez em que aparece a palavra “triunfo” é no Sl.47:1, tradução esta, entretanto, que não é a melhor, vez que a palavra hebraica “rinnah”(???) significa “voz alta”, “clamor”, “alegria”, “júbilo”, sendo estas as palavras utilizadas pelas demais versões, a começar da Almeida Revista e Atualizada.

    – O verbo “triunfar” aparece em dois versículos da Versão Almeida Revista e Corrigida. A primeira vez, em Mt.12:20, quando o evangelista faz referência a uma profecia de Isaías, dizendo que o “servo do Senhor” (ou seja, o Messias) iria “triunfar em juízo”, palavra repetida pela Tradução Brasileira, mas que é tradução de “nikos” (?????), que significa “vitória”, tanto que a Versão Almeida Revista e Atualizada prefere utilizar a palavra “vencedor”. De qualquer maneira, quando se fala em “triunfo”, está-se referindo a Jesus, Ele, sim, o triunfante contra o mal e o pecado.

    – A segunda vez que se fala em “triunfar” na Versão Almeida Revista e Corrigida é no texto de II Co.2:14, um dos textos mais caros aos “triunfalistas”, onde temos o verbo grego “thriambeuonti” (????????????), cujo significado é, efetivamente, “triunfar”. Para que verifiquemos se, neste texto, encontramos base para o pensamento triunfalista, nada melhor que transcrevê-lo para uma devida análise de sua literalidade:

    E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar o cheiro do seu conhecimento.

    – Neste texto, é inegável que a ideia do triunfo está associada à imagem da entrada do general vitorioso em Roma. Temos, assim, a verdadeira reprodução, na Bíblia Sagrada, da cena que dá origem ao “triunfo”. Mas, então o crente pode se comportar como um verdadeiro “general vitorioso”, que entra na sua cidade orgulhoso de sua condição de vitória, pronto a desfrutar das benesses dela decorrentes, ou seja, dos “direitos” resultantes da sua vitória militar, o que, em Roma, quase sempre, significa concessão de poder e de autoridade?

    – A despeito de ter sido esta a interpretação dada pelos “triunfalistas”, o texto não nos autoriza a pensar desta maneira. O apóstolo Paulo, ao nos trazer a imagem do triunfo, está, sim, pondo o crente não na posição do general vitorioso, mas, ao contrário, o crente, diz Paulo, faz parte do “despojo” do vitorioso. Com efeito, quando o general ingressava em Roma, no seu “triunfo”, era seguido pelos bens e prisioneiros que eram capturados durante a guerra.

    OBS: Flávio Josefo dá-nos uma ideia de como isto se dava, quando descreveu o “triunfo” de Tito, o general que destruiu Jerusalém e o templo no ano 70. Diz o historiador judeu: “…O dia de pompa tão soberba chegou e não houve uma só pessoa naquela infinita multidão de povo, que enchia toda Roma, que não quisesse presenciá-la.(…). É impossível descrever a magnificência desse festejo triunfal.(…). Viam-se todas as espécies de vestuários de púrpura (…). Havia estátuas de deuses, das diversas nações, de tamanho surpreendente.(…). Havia ainda várias espécies de animais raros e estimados, pela sua qualidade(…). Nada, porém, causava tanta admiração aos espectadores do que as diversas representações, como grandes armações de três ou quatro andares.(…). Eram imagens de cenas da guerra, as mais notáveis representadas ao natural.(…). Sobre cada uma dessas cidades, estava representado aquele que as havia defendido e de que maneira havia sido aprisionado. Vinham em seguida vários navios; entre a grande quantidade de despojos, os mais notáveis, eram os que tinham sido feitos no templo de Jerusalém; a mesa de ouro, que pesava vários talentos, o candelabro de ouro, feito com tanta arte(…). Simão, filho de Gioras, que depois de ter tomado parte no desfile triunfal, entre os outros escravos,…” (JOSEFO, Flávio. Tradução de Vicente Pedroso. Guerra dos judeus contra os romanos VII, 16,17. In: História dos hebreus, v.3, p.197-8).

    – Ao dizer que Deus nos faz “triunfar em Cristo”, o apóstolo está nos dizendo que fazemos parte do “despojo” de Cristo, ou seja, somos o resultado da Sua vitória sobre o mal e o pecado, da Sua vitória sobre o adversário das nossas almas. O crente é um troféu que Cristo apresenta a Deus como prova da Sua vitória sobre o adversário das nossas almas. Daí porque a expressão da Versão Almeida Revista e Atualizada, qual seja, “nos conduz em triunfo” ou, na Nova Versão Internacional, “nos conduz vitoriosamente em Cristo”, ou seja, somos parte do espetáculo que Deus mostra a todo o universo para celebrar a vitória de Cristo sobre a morte e o inferno. Não é por outro motivo que o escritor aos hebreus nos traz a expressão que Cristo diz ao Pai: “Eis-Me aqui a Mim e aos filhos que Deus Me deu” (Hb.2:13 “in fine”), repetindo as palavras do profeta Isaías (Is.8:18a).

    – Destarte, também este texto, em absoluto, põe o salvo no lugar do “general vitorioso”, nem estabelece qualquer base para que “esmaguemos a cabeça da serpente”, “amarremos o diabo”, ou, muito menos, “exijamos os nossos direitos” diante de Deus, mas, tão somente serve para nos mostrar que o vitorioso é Cristo e que, graças à Sua vitória, fomos por Ele conquistados para desfrutar, na Sua companhia, da vida eterna na cidade celestial.

    II – A VIDA DE COMUNHÃO COM DEUS NÃO NOS IMPEDE DE TERMOS ADVERSIDADES NESTA VIDA

    – A base do “triunfalismo” é dizer que, a partir do momento em que o homem aceita a Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador, não é mais possível que o homem passe a ter problemas na vida sobre a face da Terra, pois a sua comunhão com Deus, a sua salvação lhe traz uma posição de “triunfo”, de vitória sobre o diabo. Portanto, é impossível que o salvo venha a sofrer enfermidades ou quaisquer outras necessidades, em especial, as relativas à vida econômico-financeira.

    – Este raciocínio é antiquíssimo, já se encontrava na teologia distorcida dos “amigos de Jó” e, conforme já foi visto neste trimestre, não representa um pensamento correto a respeito de Deus, como o denunciou o próprio Senhor em Sua conversa com Elifaz (Jó 42:7).

    – A salvação é a maior bênção que um mortal poderia receber. Ela é a solução para o problema insolúvel do homem, qual seja, a sua separação de seu Criador por causa do pecado. Sem condições de resolver esta questão, o homem estava irremediavelmente perdido, mas Deus, desde o instante em que sentenciou o homem pelo seu pecado, prometeu reverter o quadro, o que se deu na pessoa de Cristo Jesus.

    – Assim, a salvação é, sobretudo, uma bênção espiritual, tem a ver com o reatamento do relacionamento entre Deus e o homem e isto é o mais importante, pois a questão da eternidade é fundamental para o ser humano, que não foi criado para deixar de existir, mas cuja existência perdurará para sempre, na companhia de Deus, ou não.

    – Não é por outro motivo que a questão relativa à vida eterna tem de ser tratada prioritariamente pelo ser humano. As Escrituras não cessam de mostrá-lo ao longo de suas páginas. Desde Abel, a Bíblia não nos cansa de mostrar que o segredo da vitória do homem está em buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça (Mt.6:33). Segundo Jesus nos mostrou no sermão do monte, é este o fator distintivo entre os “gentios”, entendidos estes como os que não têm compromisso com Deus e os verdadeiros adoradores do Senhor.

    – Aceitando a Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador, ocorre o maior milagre que poderia acontecer, qual seja, o de passarmos da morte para a vida (Jo.5:24), de sair das trevas e ir para a luz (Jo.3:20,21), tornando-se novas criaturas (II Co.5:17; Gl.6:5), cuja posição, agora, é a de estar nos lugares celestiais em Cristo, onde é abençoado com toda a sorte de bênçãos espirituais(Ef.1:3).

    – Notamos, portanto, que, de pronto, a promessa de Deus que advém da salvação é a do desfrute de todas as bênçãos espirituais. Não há qualquer registro nas Escrituras de promessa de “todas as bênçãos materiais”, mas, sim, de “todas as bênçãos espirituais”. É esta a promessa dada por Deus e Ele vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12). As Escrituras, coerentemente, dão a devida importância e relevância para o aspecto espiritual, pois é isto que temos de buscar em primeiro lugar, isto é o que importa. Aliás, foi esta a ordem de Cristo: “Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará, porque a este o Pai, Deus, o selou” (Jo.6:27).

    – Não só o crente deveria se preocupar em ter uma vida espiritual abundante, cada vez mais crescente, como também deveria, em sua vigilância contínua, zelar, prioritariamente, também pelo seu bem-estar espiritual. É, também, orientação do Senhor: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer, no inferno, a alma e o corpo” (Mt.10:28). Como podemos verificar, a preocupação do cristão deve ser com a sua vida eterna, com o seu relacionamento com Deus, deixando todas as demais coisas, conquanto necessárias, num segundo plano.

    – Esta é a mesma conclusão que tiramos da vida do mais sábio homem que houve sobre a Terra, depois de Jesus. Salomão, no seu livro da velhice, o livro de Eclesiastes, com a autoridade que tem alguém que recebeu de Deus todas as bênçãos materiais possíveis, diz, ao término de sua pregação, que, diante de todas as bênçãos materiais recebidas, de tudo o que granjeou e desfrutou, chegava à conclusão seguinte: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os Seus mandamentos, porque este é o dever de todo o homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Ec.12:13,14). Ao verificar toda “a vida debaixo do sol”, que é o tema do livro de Eclesiastes, Salomão concluiu que tudo o que importa é o nosso relacionamento com Deus, o dever de todo o homem de obedecer-Lhe, pois é diante do Senhor que nos apresentaremos para prestar contas daquilo que fizemos nesta vida

    – Dentro desta perspectiva é que devemos entender que, sobre a face da Terra, a vida nos reserva tanto alegrias quanto tristezas, tanto dias bons quanto dias maus. Quando vemos o que a Bíblia diz a respeito disto, constatamos, para desmentido dos triunfalistas, que o justo não está livre de sofrer contratempos na vida, de ter problemas e dificuldades. As Escrituras, quando falam da adversidade, nunca excluem o justo dele. Senão

    vejamos:

    – No Sl.27:5, o salmista diz que, o dia da adversidade, será escondido no pavilhão de Deus, ou seja, além de o salmista admitir que sofrerá esta adversidade, ainda nos informa que esta adversidade tanto não é prova de que está sem Deus, que será o próprio Deus quem o acalantará durante este período difícil da sua vida. Nem se diga que se trata de um “derrotista”, de um “crente sem fé”, como costumam dizer os triunfalistas, pois quem escreveu este salmo foi Davi, um “homem segundo o coração de Deus”, um exemplo de guerreiro e de vencedor de batalhas e, como se isto não bastasse, num salmo em que se louva a falta de medo, em que se louva a coragem daquele que confia em Deus. Entretanto, a coragem, a fé em Deus não retiram o fato de que o justo passa, sim, por problemas e dificuldades e disto Davi dá testemunho na sua vida.

    – No Sl.35:5, o salmista não só fala que o justo passa por adversidade, como ainda que, por causa da adversidade, os seus inimigos se vangloriavam e festejavam. O salmista, apesar desta situação aflitiva e de confiar que ela será revertida, não deixa de mostrar que se encontra em comunhão com o Senhor, que se humilha e jejua na presença de Deus, não tendo, pois, perdido a sua salvação. Isto, porém, não impediu que houvesse a adversidade.

    – Em Ec.7:14, é dito que Deus fez tanto o dia da prosperidade, quanto o dia da adversidade e, com uma finalidade, a saber: “para que o homem nada ache que tenha de vir depois dele”. Assim, um dos motivos pelos quais Deus permite a todo ser humano passar por adversidades é para que entenda a efemeridade da existência sobre a Terra e o seu correto lugar na ordem do universo. O sábio, pois, faz questão de nos mostrar que esta sucessão de dias se dá a todo o ser humano, indistintamente, seja ele alguém que serve a Deus, seja ele alguém que não O serve.

    – Mas, dirá alguém, que, quando se fala em adversidade, temos o Sl.10:6, onde é dito que “Não serei abalado, porque nunca me verei na adversidade”. Tal pensamento, bem apropriado para os “triunfalistas” que, como veremos, são mestres na arte de retirar textos fora do contexto nas Escrituras para alicerçar seus conceitos, não resiste a uma análise superficial. Quem diz que nunca estará em adversidade, à moda dos triunfalistas? São os ímpios, como vemos a partir do Sl.10:2, onde é dito que “os ímpios, na sua arrogância, perseguem furiosamente o pobre”; no Sl.10:3, diz-se que “o ímpio gloria-se do desejo da sua alma”; no Sl. 10:4, “por causa do seu orgulho, (…) não investiga,…”; no Sl. 10:5, “os seus caminhos são sempre atormentadores”, para então, no versículo 6, dizer que “não será abalada, nunca se verá na adversidade”. Temos, pois, que o texto, tão do gosto dos triunfalistas, mostra-nos, bem ao contrário do que eles desejam, que a ideia de que não se passará jamais por adversidade é uma ideia típica de quem não serve a Deus, é a ideia típica do arrogante, do autossuficiente, daquele que “dispensa Deus” das suas vidas, do orgulhoso, do pecador.

    OBS: A Nova Versão Internacional apresenta um texto que bem traduz as pregações dos triunfalistas dos nossos dias: “…’Nada me abalará! Desgraça alguma me atingirá, nem a mim nem aos meus descendentes’…” (Sl.10:6).

    – O que verificamos, neste Salmo 10, é uma das muitas lições da Bíblia a respeito da evidência de que o justo, apesar de ser justo, nem por isso está livre de passar por adversidades. A “vida debaixo do sol” possui esta característica. Jesus disse aos discípulos que, no mundo, teriam aflições (Jo.16:33), ou seja, “thlipsis” (???????), cujo significado é “angústia”, “problema”, “tribulação”, “perseguição”, expressão que designava o ato de moer o grão para produção de farinha. Tal palavra foi dada aos discípulos, isto é, aos que serviam a Jesus. Esta foi a única garantia e certeza dada por Cristo aos Seus, sendo até uma das “bem-aventuranças” mencionadas no introito do sermão do monte, qual seja, a dos injuriados e perseguidos por causa do nome de Jesus (Mt.5:11,12), como vimos na lição anterior.

    – Como, então, dizer que o crente, se em comunhão com Deus, jamais sofrerá dificuldades? Como afirmar, com base nas Escrituras, que a vida do salvo é imune a qualquer tipo de problema, seja ele enfermidade, conflito familiar, injustiça, carência econômico-financeira, carência afetiva ou outras coisas mais?

    – No mesmo sermão do monte, Jesus fez questão de ensinar Seus discípulos de que as dificuldades ocorridas durante a “vida debaixo do sol” ou “vida debaixo do céu” (Ec.1:13) são de três origens, que tanto ocorrem para os sábios, que são os servos do Senhor, como para os insensatos, que são aqueles que não servem a Deus, a saber (Mt.7:25,27):

    a) dificuldades surgidas por ação direta de Deus, as chamadas provações divinas, que foram representadas pelo Senhor pela chuva, que vem do céu.

    b) dificuldades surgidas por ação direta das hostes espirituais da maldade, as chamadas tentações ou ações malignas, que foram representadas pelo

    Senhor pelos rios, que vêm de debaixo do solo, das regiões inferiores.

    c) dificuldades surgidas da aplicação da “lei da ceifa” (Gl.6:7), ou seja, consequências das atitudes dos próprios homens na sua convivência com o semelhante, que foram representadas pelo Senhor pelos ventos, que vêm dos lados e que, já dizemos agora, embora seja assunto da próxima lição, nada tem que ver com a suposta “lei da reciprocidade” propalada pelos teólogos da prosperidade.

    – Um dos graves erros dos “triunfalistas” está em repetir o gesto do ímpio do Salmo 10, que “não investiga”, ou seja, dentro da teoria “triunfalista”, todo e qualquer mal que sobrevém ao crente seria uma “obra de Satanás”, uma “obra demoníaca”, motivo por que se deve “determinar”, ou seja, na definição dada por R.R. Soares, “… não é ordenar a Deus e sim ao diabo que tire de nós suas garras e desapareça de nossas vidas, de nosso dinheiro e de nossas famílias.” (Curso Fé. Aula 1. Determinação. http://www.ongrace.com/cursofe/licoes.php?id=1 Acesso em 20 abr. 2006).

    – Contudo, Jesus nos ensina que nem sempre uma adversidade é resultado da obra do inimigo. Muito pelo contrário, muitas vezes estamos a padecer por causa de atitudes que nós mesmos tomamos ao longo de nossas vidas, esquecendo-se de que o controle de todas as coisas está nas mãos do Senhor, que não Se deixa escarnecer e que faz valer a Sua soberania, inclusive para que haja o cumprimento da Sua Palavra. Em outras oportunidades, o que está acontecendo nada mais é que uma provação divina, uma permissão divina de sofrimento ao justo para que, por meio desta tribulação, este Seu servo adquira paciência, experiência e esperança, tudo tendo em vista o seu crescimento espiritual (Rm.5:3,4).

    – Não podemos agir como os ímpios, mas, diante de uma dificuldade ou adversidade, proceder a uma investigação, a uma apuração dos fatos, como nos dá a entender o verbo hebraico “darash”(???). É preciso que, ante um problema, paremos e nos examinemos, verifiquemos qual é a causa, a razão de estarmos a passar por isso. Se não for encontrado um caminho mau em nós, após esta sondagem profunda, não só empreendida por nós, mas que encontre, também, a ajuda do Espírito de Deus (cf. Sl.139:23,24), então saberemos que se trata de uma prova divina e, como tal, devemos suportá-la, sabendo que tudo o que se passar será para o nosso bem (Rm.8:28).

    – Os “triunfalistas”, porém, trazem um outro conselho, verdadeiro conselho de ímpio (Sl.1:1), que deve ser evitado, que é o de “determinar”, “recusar”, “não aceitar” a dificuldade. Para tanto, como entendem que tudo o que sobrevier ao crente salvo será obra maligna, exigem que expulsemos o adversário e, “usando da fé”, repudiemos o maligno, usando a “autoridade” que tem o verdadeiro e genuíno crente. Tal situação somente valerá para as hipóteses em que se estiver diante de uma tentação, de uma obra maligna, quando, então, no nosso autoexame, recorrendo ao Senhor, teremos o livramento COMO e QUANDO o Senhor assim o desejar. Se, no entanto, tratar-se de aplicação da “lei da ceifa”, como podemos resistir ao Senhor e à soberania da Sua Palavra? (II Cr.20:6; At.11:17) De igual modo, como lutar contra a provação que nos é posta pelo próprio Deus?

    – “Enfrentar Deus”, “pôr Deus contra a parede”, como defendem os triunfalistas é um comportamento reprovável e absurdo. É a conduta que os ímpios, como nos mostra o Salmo 10, tomam, já que, “em sua presunção, o ímpio não O busca; não há lugar para Deus em nenhum dos seus planos.” (Sl.10:4 NVI). No entanto, como Deus é prioridade em nossos corações, como é Ele a nossa própria razão de viver, jamais poderemos agir como se não O levássemos em consideração. Todavia, é assim que os triunfalistas nos mandam agir, o que, não é preciso sequer dizermos, será a causa de nossa ruína, pois um tal proceder é pura rebelião, e, como sabemos, “…a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria…” (I Sm.15:23 “in medio”). Que Deus nos guarde, pois, porque, como sabemos, os feiticeiros e os idólatras ficarão do lado de fora da cidade santa (cf. Ap.21:8; 22:15).

    – Não fossem já estes conceitos que extraímos da Palavra do Senhor suficientes para demonstrar que a vida espiritual não significa, em absoluto, imunidade a dificuldades e adversidades ao longo da vida, o fato é que a Bíblia, também, nos dá muitos exemplos de homens e mulheres de Deus que, apesar de sua vida de comunhão com o Senhor, sofreram terrivelmente e não foram poupados de adversidades e de problemas na sua “vida debaixo do sol”.

    – É até interessante observar que, na galeria dos chamados “heróis da fé”, ou seja, o capítulo 11 da epístola aos Hebreus, que é como que um “desfile triunfal” dos servos de Deus, uma demonstração de que vale a pena ter fé em Deus, o escritor, a despeito de considerá-los homens e mulheres dignos de nota, verdadeiras testemunhas do Senhor que animam os crentes de todas as gerações a ter uma vida de comunhão com Deus (cf. Hb.12:1-3), não deixa de mostrar que este heroísmo, este triunfo não representou qualquer isenção, por parte de Deus, de dificuldades ou de tribulações, muitas das quais sem sequer a reversão do quadro desfavorável quando o servo do Senhor ainda em vida se encontrava.

    – Assim, a começar por Abel (um dos quais o quadro desfavorável não foi revertido, vez que, pela sua justiça, foi morto sem que tivesse sequer chance de “triunfar”), o escritor fala-nos de diversas personagens, os quais, como aduz ao término da exposição, “…experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb.11:36b-39). Onde, pois, a imunidade diante da adversidade de quem serve a Deus? Não eram todos estes “heróis da fé”? Não são todos estes “testemunhas” que servem de estímulo para nós? Por que, então, não “determinaram” e evitaram o mal sobre suas vidas? Temos, assim, a prova cabal de que a vida de comunhão com Deus jamais significou a impossibilidade de sofrer adversidades e problemas e, por vezes, até mesmo a morte sem que tivesse havido a suplantação da situação adversa.

    – Diante de tão explícito texto, não demoram os triunfalistas em alegar que o escritor aos hebreus está a narrar a situação “antes da morte de Cristo”, quando o “mundo ainda estava legalmente nas mãos de Satanás”. Nada mais falso. Estes homens e mulheres mencionados pelo escritor aos hebreus são os “heróis da fé”, ou seja, embora tenham vivido antes da realização da redenção pelo Senhor Jesus, nela creram e, por causa desta fé, são também santos e se encontram num estado de salvação igual ao nosso. Quem o diz é o próprio escritor, na continuação do texto do capítulo 11, “in verbis”: “Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados”. Como se percebe, tanto estes “heróis” quanto nós devemos ser “aperfeiçoados”, ou seja, gozamos da mesma condição espiritual.

    – Mas os triunfalistas prosseguem, dizendo que o texto nos fala de “alguma coisa melhor a nosso respeito” e esta “coisa melhor” seria a imunidade às “obras do mal”. Na nova aliança, dizem eles, não há que termos o mesmo sofrimento dos patriarcas e dos profetas, pois existe “alguma coisa melhor”. Não resta dúvida de que o escritor aos hebreus nos diz que existe “alguma coisa melhor”. Aliás, esta “alguma coisa melhor” é, precisamente, a mensagem de todo o livro, pois podemos resumir a mensagem crística de Hebreus nas palavras “Jesus é melhor”.

    – Esta “alguma coisa melhor” não é, para tristeza dos triunfalistas, a imunidade a provações ou dificuldades, mas o próprio Jesus. Como, na continuação do texto, mostra-nos o escritor da carta, os crentes, ao contrário dos “heróis da fé”, têm, além do testemunho dos próprios heróis, o exemplo de Jesus (Hb.12:2,3), que foi revelado à Igreja e que ainda não havia sido plenamente revelado aos santos do Antigo Testamento. Esta “alguma coisa melhor” é a possibilidade que temos de olhar para Jesus, que a nós foi revelado, algo que foi muito desejado, mas não alcançado por aqueles justos (Mt.13:17; Lc.10:24) e, diante deste olhar, nos mantermos firmes, apesar de todas as provações e dificuldades que venhamos a enfrentar. Provações e dificuldades? Sim, pois, também para tristeza dos triunfalistas, o escritor aos hebreus, ao falar do exemplo de Cristo, anima os crentes hebreus a resistir na fé apesar de todas as adversidades (Hb.12:4).

    – Por fim, para provarmos que as dificuldades e as adversidades não são coisas que caracterizaram o Antigo Testamento, como defendem os triunfalistas, basta mencionarmos as aflições e sofrimentos dos apóstolos e demais discípulos na igreja primitiva, como o martírio de Estêvão e de Tiago, sem falar nas diversas adversidades do ministério de Paulo (II Co.11:23-27). A conclusão só pode ser, pois, uma: a Bíblia nunca ensinou que o crente não sofre por ter fé em Deus.

    III – O CONTEXTO DA EXPRESSÃO “TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE”

    – Depois de termos visto que o “triunfalismo” não tem qualquer respaldo bíblico, resta-nos analisar este verdadeiro “mantra”, como bem salientou o comentarista, que se tornou o texto de Fp.4:13, o nosso texto áureo e de onde se extraiu o texto desta lição: “Posso todas as coisas n’Aquele que me fortalece”.

    – De forma sutil, os “triunfalistas” tomam este texto isoladamente e, com base nele, dizem que os crentes podem todas as coisas, que, estando em Jesus, são invulneráveis, não podem mais sofrer coisa alguma, removem todo e qualquer obstáculo.

    – Já pelo que vimos neste estudo, compreendemos que uma doutrina assim extraída de Fp.4:13 não tem qualquer fundamento, pois contrariaria toda a Bíblia Sagrada, sem falar que nenhuma doutrina pode ser constituída nas Escrituras com base em um único texto e, mais ainda, fora do contexto.

    – Este ensino que tanto tem perturbado a vida espiritual de milhões de crentes, no entanto, não se estriba sequer no versículo utilizado, pois o contexto do capítulo 4 de Filipenses antes infirma do que confirma o triunfalismo.

    – Por primeiro, lembremos que a carta que Paulo escreveu aos filipenses é uma das “epístolas da prisão”, ou seja, uma das cartas que o apóstolo escreveu quando se encontrava preso em Roma, a sua primeira prisão, Roma que era a etapa final de anos de encarceramento, como vemos registrado a partir do capítulo 21 do livro de Atos dos Apóstolos.

    – Assim, logo de início vemos que jamais o apóstolo Paulo, na condição de preso há anos em virtude do Evangelho, poderia dar um ensino de que nenhuma adversidade pode vir à vida do crente, se ele mesmo se encontrava preso por causa do Evangelho

    – Não bastasse isso, no limiar da carta que Paulo escreve aos filipenses, entendemos o motivo pelo qual o apóstolo escreveu aquela epístola: os filipenses estavam tristes e abalados na fé por causa desta prolongada prisão de Paulo. Paulo lhes escreve exatamente para que eles pudessem entender que o fato de Paulo estar passando por adversidade em nada retirava o poder do Evangelho e, mais ainda, não deveria ser motivo de tristeza mas de alegria.

    – Como, numa carta em que o apóstolo procura mostrar aos filipenses que a adversidade por que passava era motivo de alegria e não de tristeza, poderia o apóstolo ensinar que o crente não passa por dificuldades, e que, se houver adversidade, é porque há pecado? Um total contrassenso que só pode ser defendido por pessoas como os teólogos da prosperidade…

    – Assim é que o apóstolo afirma aos crentes de Filipos: “…E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do Evangelho…” (Fp.1:12), ou ainda, “…E muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões, ousam falar a Palavra mais confiadamente, sem temor.…” (Fp.1:14).

    – O apóstolo ainda mostra aos filipenses que, apesar de toda aquela adversidade ter contribuído para o bem da obra da Deus, o apóstolo não tinha também apego às coisas desta vida. Bem ao contrário do que prega a teologia da prosperidade, Paulo mostrou que a sua esperança não estava nesta vida, embora desejasse viver mais um pouco e tivesse a certeza de que isto iria ocorrer: “…Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne. E tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós para proveito vosso e gozo da fé.…” (Fp.1:21-25).

    – Paulo, pois, não estava “determinando” a sua libertação para “fazer a obra de Deus”. Não estava dizendo para o diabo retirar as suas cadeias, porque já era “salvo” e tinha “direitos” diante de Deus, mas, ao revés, entendia que Deus queria que ele fosse mantido preso, pois isto contribuía para o desenvolvimento da evangelização e que, embora seu desejo fosse ir para o céu, ainda importava que ficasse mais algum tempo fazendo a obra do Senhor sobre a face da Terra.

    – Nesta carta, o apóstolo deseja alegrar os filipenses, retirar-lhes daquela tristeza que a sua prisão lhes causava. Por isso, afirma àqueles crentes que “se regozijassem no Senhor” (Fp.3:1), regozijo que deveria ocorrer mesmo que Paulo fosse martirizado (Fp.2:17,18).

    – O apóstolo faz questão de mostrar aos crentes de Filipos que a vida cristã também envolve adversidades. Após ter mostrado aos filipenses que eles deveriam portar-se dignamente conforme o evangelho de Cristo (Fp.1:27), fez questão de lhes dizer que o crente é chamado tanto para crer em Jesus quanto para padecer por Ele (Fp.1:29). Sim, amados irmãos, o homem que falou que “tudo posso n’Aquele que me fortalece”, fez questão de deixar consignado que os salvos são chamados para sofrer por Jesus!

    OBS: Num sermão sobre Fp.4:13, assim se manifesta o príncipe dos pregadores britânicos do século XIX, Charles Haddon Spurgeon (1839-1892):

    “…’Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece’ Notemos que Paulo aqui quis dizer que ele poderia suportar todas as provações. Não importa quantos sofrimentos seus perseguidores pudessem infligir sobre ele, ele sentiu que era totalmente capaz, através da graça divina, para suportá-los; sem dúvida alguma, embora Paulo tivesse visto o interior de quase todas as prisões romanas, ele jamais soube o que era tremer em qualquer uma delas(…). ‘Eu posso suportar todas as coisas’, ele disse, ‘por causa de Cristo’. Ele esperava diariamente que ele poderia ser levado à morte, e a expectativa diária da morte é mais amarga que a própria morte (…). Todo filho de Deus, pela fé, pode dizer ‘Eu posso sofrer todas as coisas’…” (SPURGEON, Charles H. All-sufficiency magnified [Toda a suficiência exaltada, tradução nossa]. Disponível em: http://www.spurgeongems.org/vols4-6/chs346.pdf Acesso em 29 dez. 2011) (tradução nossa de texto em inglês) (destaques originais). Como é diferente a correta hermenêutica do texto de Fp.4:13 do que falam os teólogos da prosperidade…

    – Na carta, aliás, o apóstolo Paulo menciona um crente de Filipos, o que havia levado a ajuda financeira dos filipenses a Paulo (sim, além de preso, Paulo estava a passar dificuldades financeiras e vivia das ofertas que lhes eram enviadas, inclusive e, em especial, a dos crentes de Filipos – Fp.2:25), Epafrodito, que, apesar de ser crente e fiel, “…esteve doente e quase à morte” (Fp.2:27), sem que tivesse cometido algum pecado, a mostrar que o sofrimento faz parte da vida daqueles que servem a Deus.

    – É este o quadro da carta de Paulo aos filipenses, algo bem diferente, diametralmente oposto mesmo, ao que dizem os falsos pregadores da prosperidade, quando invocam o “tudo posso n’Aquele que me fortalece”. Mas em que contexto Paulo usa esta expressão no final da sua carta?

    – Quando o apóstolo já está concluindo a epístola, apresentando os agradecimentos e fazendo as suas considerações finais, diz que muito se regozijou no Senhor a lembrança dos filipenses a respeito dele e a oportunidade de demonstrá-lo atrás do envio de Epafrodito.

    – O apóstolo, porém, ao falar desta alegria, quis deixar claro que não estava feliz por causa das ofertas que havia recebido dos filipenses, porque “…já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas n’Aquele que me fortalece.” (Fp.4:11b-13).

    – Como se pode verificar, portanto, estas “todas as coisas” de que fala o apóstolo não é bênção sobre bênção, como dizem os triunfalistas, mas, sim, tanto abundância, quanto necessidade; tanto fartura, quanto fome. Paulo havia aprendido da parte de Deus a passar por todas as coisas e suportá-las. Paulo havia aprendido, inclusive, a passar fome, se isto fosse a vontade do Senhor.

    – Quando Paulo disse que “tudo podia n’Aquele que lhe fortalecia”, ele estava a dizer que, independentemente das circunstâncias, ele era capaz de suportar tudo por amor a Cristo, sabendo que “estar com Cristo é bem melhor”, de que devemos estar completamente desapegados das coisas passageiras desta vida.

    – O apóstolo Paulo estava a ensinar os crentes de Filipos de que eles deveriam esforçar-se para atingir um patamar na vida espiritual em que tudo o que se passasse nesta Terra seria indiferente. O crente deveria manter-se assentado “nas regiões celestiais em Cristo”, onde fora posto pelo próprio Senhor e ali desfrutar de “todas as bênçãos espirituais”, como escreveu aos efésios (Ef.1:3), também uma das chamadas “cartas da prisão”.

    – O apóstolo Paulo estava a ensinar os filipenses de que devemos aprender com Cristo e ser completamente desapegados de qualquer coisa desta vida, inclusive do nosso “eu”, vivendo para fazer a vontade de Deus, vivendo para Cristo Jesus, não permitindo que qualquer pensamento ou desejo venha a nos desvirtuar de nossa abnegação por Jesus.

    – Como isto é diferente do que ouvimos por aí a respeito de Fp.4:13. Paulo não estava aí exaltando o seu “eu”, nem tampouco dizendo aos crentes de Filipos que eles deveriam “arrebentar” tudo para fazer prevalecer os seus desejos, pois “nada pode segurar o crente”, mas, bem ao contrário, estava a demonstrar que o salvo deve se conformar à vontade de Deus e saber que isto é o que realmente importa na sua vida, mesmo que isto envolva necessidade, fome e abatimento.

    – Paulo exorta, não só os filipenses, mas a nós todos, visto que este texto passou a fazer parte das Escrituras, a termos o mesmo sentimento de Cristo Jesus que deixou a Sua glória para ser obediente até a morte e morte de cruz (Fp.2:5-8). Por isso, diz que não devemos atentar para o que é propriamente nosso, mas cada qual também para o que é dos outros (Fp.2:4), outros a serem sempre considerados superiores a nós (Fp.2:3).

    – O discurso triunfalista que se lastreia no texto fora de contexto de Fp.4:13, entretanto, quer nos levar ao egoísmo, ao individualismo, ao apego às coisas terrenas, é um ensino completamente distorcido do que ensina a Palavra de Deus. Fujamos disto, amados irmãos!

    – E, para encerrar, vemos que o apóstolo disse que os filipenses bem fizeram em ajudá-lo nas suas necessidades (Fp.4:14) e sua oração foi para que os filipenses tivessem supridas todas as suas necessidades por Deus, que o apóstolo admitiu ser um Deus rico (Fp.4:19).

    – Ora, se Deus é rico, por que o apóstolo Paulo não pediu que também enriquecesse os filipenses, diante de sua generosidade? Porque os filipenses, assim como o apóstolo, deveriam aprender a se contentar com o que tinham (Fp.4:11) e porque Deus, embora seja rico, dono do ouro e da prata (Ag.2:8), não tem o propósito de enriquecer os homens materialmente, mas, sim, de suprir-lhes as necessidades materiais com o suficiente, porque, ao contrário dos perdidos, inimigos da cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas (Fp.3:18,19), os salvos, assim como o apóstolo, tem a sua cidade nos céus donde esperam o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o seu corpo abatido para ser conforme o Seu corpo glorioso segundo o Seu eficaz poder de sujeitar também a Si todas as coisas (Fp.3:20,21). Fazemos parte deste grupo?

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco


    (mais…)

  • LIÇÃO 6 – A PROSPERIDADE DOS BEM-AVENTURADOS

    INTRODUÇÃO

    – Na continuidade do estudo a respeito de distorções sobre a noção bíblica de prosperidade, analisaremos o sermão das bem-aventuranças, o introito do sermão do monte, onde Jesus nos explica qual o significado da felicidade dos Seus discípulos.

    O sermão das bem-aventuranças mostra claramente que a prosperidade bíblica nunca se confundiu com bem-estar material.

    I – O DISCÍPULO DE JESUS É BEM-AVENTURADO

    – Na continuidade do estudo deste segundo bloco do trimestre letivo, em que se procura desfazer diversos ensinos distorcidos sobre a prosperidade bíblica à luz das Escrituras, analisaremos o que o Senhor Jesus entende por bem-aventurança, ou seja, por um estado maior que a felicidade.

    – Russell Norman Champlin conceitua as bem-aventuranças como promessas feitas aos discípulos fiéis do reino dos céus” (Bem-aventuranças. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, p.488). Segundo o mesmo teólogo, “…As bem-aventuranças mostram como seremos abençoados se fizermos disso a regra de nossas vidas. Os crentes seriam oprimidos pelo mundo…Mas os oprimidos haverão de obter, finalmente, a vitória, embora nunca sem uma clara lealdade ao seu Senhor…” (op.cit., pp.488-9).

    – A palavra “bem-aventurado” , usada com suas cognatas cerca de cinquenta vezes em o Novo Testamento, é tradução do grego “makarismós” (??????????), cujo significado é “felicidades”. Para os gregos antigos, ser “makários” (????????), i.e., “bem-aventurado”, era viver livre de sofrimentos e de preocupações, ideia pagã que foi completamente apropriada pela “teologia da prosperidade”.

    –  Por isso, os estudiosos entendem que a raiz da palavra grega esteja vinculada à ideia de “grande” e, por isso, usada como sinônimo de “rico”, no seu sentido predominantemente material, sendo, por vezes, aplicada aos deuses, como num contraste com a situação medíocre do ser humano.

    Os próprios judeus entendiam que a “bem-aventurança” era, principalmente, um estado de bem-estar material, ainda que como recompensa pela observância fiel da lei. Este significado, entretanto, era, talvez, fruto da influência das ideias da cultura helenística sobre os judeus, visto que, se formos verificar a utilização do termo no Antigo Testamento, a palavra hebraica “ ‘esher” (?????), não tenha esta conotação, mas apenas a de “quão feliz”, o que é, quase sempre, utilizada com um significado senão totalmente, predominantemente espiritual.

    – Tanto assim é que o professor judeu David Flusser (1917-2000), um dos grandes pesquisadores do cristianismo primitivo e suas origens judaicas, demonstrou que, entre os essênios (um das seitas judaicas existentes nos dias de Jesus), como mostram os Manuscritos do Mar Morto, a ideia de “bem-aventurança” era muito próxima a que Jesus apresentou no sermão do monte, ideia esta despida de conotações materialistas, mas embebidas de forte conotação social e espiritual.

    – Na abertura do sermão do monte, considerado um verdadeiro resumo da doutrina cristã, o Senhor Jesus apresenta as “bem-aventuranças”, ou seja, indica, de pronto, que o objetivo de Deus ao homem é proporcionar a este homem a “felicidade”. Deus quer que o homem seja feliz e a característica dos que resolvem obedecer-Lhe e viver em comunhão com Ele é a “felicidade”. Estas bem-aventuranças também são mencionadas em Lucas, no chamado “sermão da planície” (Lc.6:17-49).

    – Esta “felicidade” ou “mais que felicidade”, entretanto, não se apresenta, como entendiam alguns segmentos judaicos, influenciados pelas ideias pagãs, em um estado de bem-estar material. Conforme já tivemos ocasião de estudar neste trimestre, o Senhor Jesus mostrou, claramente, que os ricos não são as pessoas mais propícias à salvação, logo após o encontro com o “mancebo de qualidade”, tendo também mostrado, na parábola do rico insensato, que a vida de qualquer não consiste na abundância do que se possui.

    – No início deste Seu sermão, o Senhor Jesus mostra quem é “bem-aventurado”, ou seja, quais são as características daqueles que são os Seus discípulos, que têm recebida a “felicidade” que Deus quer dar aos que Lhe servem com fidelidade e obediência.

    As “bem-aventuranças” são nove qualidades, nove características que têm aqueles que servem a Cristo Jesus e não é nenhuma coincidência que o número de características seja o mesmo das qualidades que o apóstolo Paulo elenca como sendo “o fruto do Espírito” (Gl.5:22).

    O propósito primeiro de Deus para com o homem é a “frutificação” (Gn.1:28), expressão que não deve ser entendida como “reprodução biológica”, pois, se assim fosse, não haveria a expressão seguinte, “multiplicai”. A “frutificação” mencionada por Deus como primeiro propósito para o homem é a “frutificação espiritual”. Como “imagem e semelhança de Deus”, o homem deveria produzir “o fruto do Espírito”, cujas qualidades foram descritas pelo apóstolo Paulo

    – Cada uma das qualidades apresentadas pelo apóstolo como demonstração de que o Espírito Santo habita no servo de Cristo Jesus nada mais é que uma “bem-aventurança” mencionada pelo Senhor no sermão do monte. A comunhão com Deus, por meio de Cristo Jesus, que nos faz com que sejamos habitação do Espírito Santo (Jo.14:17), faz com que sejamos “bem-aventurados”, que apresentemos as características que nos permitem dizer que somos “discípulos de Jesus”, que somos “filhos e herdeiros de Deus” bem como “coerdeiros de Cristo” (Rm.8:17), porque “não mais andamos segundo a carne, mas segundo o espírito” (Rm.8:1 “in fine”).

    – Antes de apresentar o Seu ensino para os Seus discípulos, o Senhor Jesus quis identificar quem eram os Seus discípulos, quis mostrar a quem estava se dirigindo, para que não houvesse qualquer dúvida a respeito do que é ser cristão, do que é ser súdito do reino de Deus.

    – É importante aqui mostrar que muitos dos estudiosos das Escrituras entendem que o sermão do monte é destinado aos judeus, tratar-se-ia de uma descrição de que como serão os súditos de Israel no reino milenial de Cristo. Tal interpretação, profundamente escatológica, porém, como bem ensina Russell Norman Champlin, não pode impedir que haja a aplicação do texto à Igreja. “…Apesar de Jesus ter proferido essas palavras originalmente a Israel, não há que duvidar que ele queria que se aplicassem plenamente ao Novo Israel, a igreja. O evangelho de Mateus foi escrito quando a era cristã já tinha cinquenta anos e não tem sentido supor que não tencionava ser um documento inteiramente ‘cristão’. Os discípulos de Cristo devem aprender a apegar-se a ele, confiar nele e em suas palavras explicitamente. Não pode haver reservas na dedicação a ele e às suas palavras…” (op.cit., p.488).

    Ao fazer esta descrição das “bem-aventuranças”, o Senhor Jesus mostra-nos, com absoluta clareza, o que é ser “feliz”, “mais do que feliz”, o que é ser “abençoado” segundo o ponto-de-vista divino, o que, certamente, mostra quão distante das Escrituras estão os ensinos falsos da “teologia da prosperidade”.

    – As nove bem-aventuranças, assim como as nove qualidades do “fruto do Espírito” estão também umbilicalmente relacionadas com os “dois grandes mandamentos da lei”, que se resumiram no “mandamento novo” de Cristo, que são as diretrizes, as regras essenciais para que o homem mantenha comunhão com Deus.

    – Como de todos nós é sabido, ao ser indagado por um doutor da lei a respeito de quais seria o grande mandamento da lei, Jesus respondeu que o grande mandamento da lei era “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mt.22:37), acrescentando ainda que havia um segundo mandamento, semelhante àquele, a saber: “Amarás o próximo como a ti mesmo”, sendo que a lei dependeria destes dois mandamentos (Mt.22:38-40).

    – Dirigindo-Se aos Seus discípulos, porém, o Senhor Jesus lhes deu um novo mandamento, qual seja: “Que vos amei uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo.15:12), mandamento que sintetiza n’Ele e em Seu exemplo os dois grandes mandamentos da lei mosaica, pois, se amarmos uns aos outros como Jesus nos amou, estaremos amando a Deus de todo o nosso coração, e de toda a nossa alma, e de todo o nosso pensamento, como também o próximo a nós mesmos, pois foi assim que Jesus fez, visto que, pela vontade do Pai, deu a Sua vida pelos homens.

    – Neste novo mandamento, que sintetiza os dois grandes mandamentos da lei e, portanto, não é inovação alguma, mas a própria concretização da lei na pessoa de Cristo, o único ser humano que a cumpriu, temos três dimensões que são, precisamente, as três dimensões das bem-aventuranças ou das qualidades do fruto do Espírito, a saber:

    a) a dimensão vertical – o relacionamento entre Deus e o homem – a “bem-aventurança” é um novo patamar de um relacionamento entre Deus e o homem sem a separação proporcionada pelo pecado e que nos traz comunhão com o Senhor pelo sangue de Cristo.

    b) a dimensão horizontal – o relacionamento entre os homens – a “bem-aventurança” é um novo patamar de um relacionamento entre os homens que, libertos do pecado, podem amar o próximo e querer-lhe bem.

    c) a dimensão interna – o relacionamento do homem consigo mesmo – a “bem-aventurança” é um novo patamar do relacionamento do homem consigo mesmo, pois a mortificação da natureza pecaminosa permite que haja uma harmonia e equilíbrio entre corpo, alma e espírito.

    – Por isso, as “bem-aventuranças” podem, também, ser divididas em três grupos, conforme expressam os efeitos da salvação em Cristo Jesus seja no relacionamento com Deus, seja no relacionamento com os demais homens, seja no relacionamento consigo mesmo. Vejamos, pois, cada uma destas dimensões e as correspondentes “bem-aventuranças”.

    II – AS BEM-AVENTURANÇAS ATINENTES AO RELACIONAMENTO ENTRE DEUS E O HOMEM

    A primeira bem-aventurança, e por muitos considerada a primordial, é a “bem-aventurança dos pobres de espírito”. Disse o Senhor Jesus: “bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt.5:3), ou, na versão de Lucas: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lc.6:20 “in fine”)..

    – Esta bem-aventurança, ao falar em “pobre de espírito” (ou “humilde de espírito”), fala-nos da absoluta necessidade de se entender dependente de Deus, mera criatura, de se reconhecer fraco e incapaz de ter qualquer sucesso espiritual sem que se renda ao Senhor.

    OBS: Esta expressão “pobres de espírito”, segundo David Flusser, encontra um paralelo em um pergaminho essênio encontrado entre os Manuscritos do Mar Morto, que foi chamado de “Pergaminho de Ação de Graças”, onde o autor essênio agradece a Deus por ter permitido ao “de espírito contrito” vir a uma salvação de fonte eterna (Cfr. O judaísmo e as origens do Cristianismo, p.124).

    – “Ser pobre de espírito” é assumir a necessidade de Deus, é compreender que, por primeiro, o essencial da vida de alguém é o seu lado espiritual, que é eterno e que não está preso às coisas desta vida.  Ser “pobre de espírito” é reconhecer que se é criatura e que, como tal, há uma dependência total junto ao Criador. Ser “pobre de espírito” é reconhecer que se é “imagem e semelhança de Deus” e, como tal, não pode haver real existência sem que se esteja em comunhão com Deus, assim como a sombra não pode existir se não houver a luz.

    – Ser “pobre de espírito” é rejeitar a oferta satânica de independência em relação a Deus que fez com que o primeiro casal caísse em pecado (Gn.3:4,5), mesmo mal sofrido pelo próprio diabo, que quis ser maior do que Deus e, com isso, assinou a sua própria ruína (Is.14:14).

    – David Flusser, o professor judeu já mencionado, faz interessante estudo em que relaciona a expressão “pobre de espírito” a duas passagens bíblicas do livro do profeta Isaías, a saber, Is.61:1,2 e Is.66:2, a última das quais fala em “contritos de coração”, precisamente a mesma expressão que, numa passagem muito semelhante ao sermão das bem-aventuranças, é utilizada num pergaminho essênio encontrado entre os Manuscritos do Mar Morto.

    – Tem-se, pois, que, ser “pobre de espírito” é ter “o espírito contrito”, o “espírito quebrantado”, ser “contrito de coração”, o que significa que o “pobre de espírito” é aquele que admitiu a sua incapacidade, a sua pecaminosidade e clama pela misericórdia do Senhor, reconhece a sua necessidade de salvação e, deste modo, pede perdão pelos seus pecados.

    – Notamos, pois, que a primeira bem-aventurança tem a ver com o reconhecimento da necessidade espiritual, do reconhecimento da eternidade, da necessidade de prévio arrependimento dos pecados e pedido de perdão a Deus, algo que nada tem que ver, pois, com bem-estar material. Antes, pelo contrário, é o reconhecimento de que “as coisas desta vida” são passageiras, que o principal é o reconhecimento de que há uma eternidade e que, por causa do pecado, esta eternidade será vivida sem Deus se as coisas permanecerem do jeito que estão.

    – Para ser bem-aventurado, pois, é necessário que a pessoa se reconheça pecadora e incapaz de retirar o seu pecado e, assim, peça a Deus, que não despreza um espírito quebrantado e a um coração contrito (Sl.51:17), o perdão e aceita submeter-se à Sua vontade. Como é diferente esta atitude que o Senhor Jesus considera uma bem-aventurança, uma característica de Seus discípulos da arrogância e petulância ensinada pelos pregadores da confissão positiva…

    Esta bem-aventurança é correspondente à qualidade do amor, a primeira das qualidades que compõem o “fruto do Espírito” na descrição feita pelo apóstolo Paulo (Gl.5:22). Este amor, que é o amor de Deus derramado em nós pelo Espírito Santo quando nos entregamos a Cristo (Rm.5:1,5), faz com que passemos a ter uma conduta diferente dos demais homens, um comportamento distinto, pois passamos a guardar a Palavra de Deus, a cumprir e fazer a vontade do Senhor (Jo.14:23,24). Passamos a não ter vontade própria, passamos a agradar a Deus em todas as coisas, a fazer o que Ele quer e, por isso, podemos orar: Venha o Teu reino, seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu (Mt.6:10).

    – Ser “pobre de espírito” não é, portanto, nem ser rico nem pobre materialmente falando. Não há qualquer confusão entre “pobreza de espírito” e posse ou não de bens materiais. Trata-se de uma atitude de reconhecimento do pecado e submissão a Deus, nada mais, nada menos que isso. Por isso nem a pobreza material, nem a riqueza material são critérios para verificação se alguém é, ou não, discípulo de Jesus Cristo.

    – A versão de Lucas, preferida por aqueles que defendem uma “teologia da pobreza”, não apresenta a expressão “pobres de espírito”, mas, somente, “pobres”, o que faz com que alguns estudiosos entendam que o médico evangelista estaria dando ênfase ao caráter social da mensagem. David Flusser, entretanto, entende que houve apenas uma abreviação, o que, inclusive, parece ter sucedido também em relação à segunda bem-aventurança. Não se pode, porém, a partir dessa abreviação, retirar o sentido espiritual, até porque, quando vemos o paralelo da bem-aventurança com os “ais”, que somente são mencionados por Lucas, observamos que os “ricos” são aqueles que “já têm consolação” (Lc.6:24), ou seja, se está repetindo a mesma noção que o Senhor Jesus empregará ao falar da “riqueza” dos crentes de Laodiceia, ou seja, a sensação de independência em relação a Deus (Ap.3:17).

    A segunda bem-aventurança é a “bem-aventurança dos que choram” (Mt.5:4; Lc.6:21). Aqui não está o Senhor Jesus a falar de “choro de alegria”, pois completa a bem-aventurança dizendo que “eles serão consolados”, ou seja, trata-se, efetivamente, de um choro de tristeza, a mostrar que os discípulos de Cristo não estão imunes a situações adversas que os levem ao choro e ao lamento.

    – Na verdade, ao indicar esta segunda bem-aventurança, Jesus como que antecipa o que revelaria aos Seus discípulos nas últimas instruções, quando diria a ele que, no mundo, teriam eles aflições (Jo.16:33). Jesus não prometeu saúde, riqueza, alegrias a todos os Seus discípulos, pois muitos não teriam isto, mas, ao fazer uma promessa geral a todos os Seus servos, disse-lhes que teriam aflições, pois não há qualquer discípulo de Cristo que, nesta vida, não passe por aflições.

    – Jesus, ao dizer que “os que choram seriam bem-aventurados”, mostrou, de forma cabal, que a vida cristã sobre a face da Terra é uma vida cheia de tristezas e de adversidades, visto que o Seu discípulo estaria na contracorrente do mundo (Ef.2:1-3), lutando contra as hostes espirituais da maldade (Ef.6:12), numa batalha sem trégua até o dia em que, pela morte física ou pelo arrebatamento da Igreja, tivermos chegado ao fim e perseverado, concluindo o nosso processo de salvação (Mt.24:13).

    – David Flusser menciona que no já mencionado pergaminho essênio também está dito que “os que pranteiam teriam alegria eterna”, a indicar que, nos dias de Jesus, já havia a ideia de que o sofrimento nesta vida não é para comparar com o que está reservado àquele que resolve obedecer e viver em comunhão com o Senhor, como, aliás, declararia mais tarde o apóstolo Paulo (Rm.8:18).

    – Ao dizer que quem chora é bem-aventurado, o Senhor Jesus não está a defender um “sadismo divino” nem tampouco um “masoquismo cristão”, como, infelizmente, alguns incautos têm entendido ao longo da história da Igreja, tendo criado diversos rituais de autoflagelação e de sofrimento tolo e insensato. Deus não quer que ninguém sofra, mas o sofrimento é inevitável para o filho de Deus neste mundo de pecado que está no maligno (I Jo.5:19).

    A bem-aventurança não está no choro, mas, sim, no fato de que este choro, este lamento, esta tristeza é consolada por Deus, pois o discípulo de Cristo Jesus tem o Espírito Santo, o Consolador, tem em seu interior, por causa da salvação, o Deus de toda a consolação (II Co.1:3-5).

    – A tristeza, as tribulações, as adversidades podem nos abater, mas jamais nos destroem, visto que o Consolador está conosco e, apesar de tudo, somos consolados, não só para prosseguirmos em nossa jornada de fé, mas, também, para consolar os irmãos quando estiverem também passando por problemas. Aleluia!

    – A consolação divina, a companhia divina ao nosso lado, pois “Consolador” em grego é “Paráclito”, ou seja, aquele que está ao lado, permite que nós caminhemos ao longo de nossa vida, sem medo de errarmos, pois o Senhor nos orienta, nos conduz e, por isso, podemos chegar até onde Ele chegou em Sua peregrinação terrena, ou seja, até à direita do Pai (Ap.3:21).

    – Assim, já na segunda bem-aventurança, o Senhor Jesus mostra que o Evangelho não promete nem poderia jamais prometer que alguém vai “parar de sofrer”, mas promete que, em meio ao sofrimento, o Senhor estará conosco, não nos abandonará, não nos deixará. Como é diferente esta verdade bíblica daquilo que apregoam os falsos mestres da “teologia da prosperidade”…

    – De nada adianta, como diz o evangelista Lucas ao relatar o “ai” correspondente a esta bem-aventurança, ter motivos para risos e alegrias passageiras nesta vida se, na eternidade, houver lamentos e choros eternos (Lc.6:25), como vemos no caso do rico da história contada pelo Senhor a respeito do rico e de Lázaro (Lc.16:24,25).

    A segunda bem-aventurança está relacionada com a qualidade da alegria ou gozo, uma das nove qualidades indicadas pelo apóstolo Paulo para o “fruto do Espírito”. Todo discípulo de Jesus é alegre, ainda que esteja a padecer, por necessário, algumas provações ao longo de sua jornada terrestre (I Pe.1:6,7).

    – Esta alegria, portanto, é algo que vem de dentro para fora, é algo que nasce no espírito do discípulo de Cristo, nada tendo que ver com as circunstâncias externas, tampouco com a saúde física ou com a situação econômico-financeira. Fazer depender a nossa salvação destas circunstâncias externas é negar, completamente, a operação redentora operada por Cristo Jesus na vida de quem é salvo por Ele.

    A terceira bem-aventurança atinente ao relacionamento entre Deus e o homem é a “bem-aventurança dos mansos” (Mt.5:5), que não é mencionada por Lucas.  Por primeiro, é interessante notar que as palavras “pobre” e “manso” em hebraico são muito semelhantes (???- pobre e ??? – manso). Por segundo, é importante constatar que a tradição judaica diz que Moisés, o homem mais manso que houve sobre a Terra (Nm.12:3), teria adquirido esta mansidão ao se aproximar de Deus na nuvem da escuridade no monte Sinai (Ex.20:21), o que explica bem o sentido com que Jesus afirmou que era “manso e humilde de coração” e que as pessoas deveriam aprender com Ele esta mansidão (Mt.11:29), mais uma afirmação em que Jesus revelava a Sua deidade.

    – A mansidão, considerada aqui como uma humildade de coração, é uma atitude de submissão a Deus, de obediência ao Senhor, de espera em Deus, de renúncia a todos os instintos que nos levam a tomar atitudes baseadas única e exclusivamente na consideração do nosso “eu”, da nossa própria vontade. O “manso” aguarda, aquieta-se, pois sabe que só o Senhor é Deus (Sl.46:10).

    – A mansidão está, assim, relacionada com a atitude que o Senhor Jesus denominou de “negar-se a si mesmo”, a primeira providência que tem de tomar aquele que quer seguir ao Senhor (Mc.8:34; Lc.9:23). A abnegação, a negação de si mesmo é um traço característico de quem se diz discípulo do Senhor Jesus.

    – Moisés, o homem mais manso que houve sobre a Terra, não mais tomava providências por si só (com exceção do seu grande erro que o impediu de entrar na Terra Prometida), mas apesar de toda a dificuldade, de todas as situações extremamente embaraçosas por que passava, aguardava pacientemente a orientação divina, tendo, por causa disso, sido vitorioso sempre que ouviu a voz do Senhor. Assim, também, deve ser o discípulo de Cristo Jesus, alguém acostumado a ouvir a voz do Senhor, a ponto de conhecê-la muito bem (Jo.10:14,27).

    – Como isto é diferente do que ensinam os “teólogos da prosperidade” que, ao revés, estão sempre a ensinar que as pessoas devem dizer o que querem e que Deus é obrigado a atendê-las. Aqui, neste falso ensino, não seria o discípulo que ouviria a voz de Deus, mas Deus que teria de ouvir a voz do discípulo. Onde está a mansidão? Onde está a disposição de aguardar a revelação da vontade do Senhor?

    – Os “teólogos da prosperidade” gostam muito da segunda parte da bem-aventurança, ou seja, “a herança da terra”. Por primeiro, mais uma vez trazendo os estudos de David Flusser, tem-se que o significado de “terra” aqui é espiritual. Diz o estudioso: “…Jesus parafraseia as palavras do Sl.37:11 ‘eles herdarão a terra’(…) na maneira corrente do midrash (ou pesher) [comentários dos mestres da lei que explicavam as Escrituras para o povo, observação nossa] com “deles é o reino do céu”; de acordo com essa interpretação, a palavra ‘terra’ tem um sentido espiritual e simboliza a ‘terra’ da escatologia — a saber, o reino do céu…” (op.cit., p.127).

    – Por segundo, esta “herança da terra”, ainda que seja interpretada em sentido literal, primeiro exige de nós uma atitude de mansidão, ou seja, de abnegação. A herança da terra, necessariamente uma terra nova onde habite a justiça e não o pecado (II Pe.3:13), somente virá como consequência de uma vida de submissão à vontade de Deus, ou seja, uma vida completamente diferente da defendida pelos “teólogos da confissão positiva”.

    – Por terceiro, esta “herança da terra”, por ser de uma nova terra e não a presente, nada tem que ver com os tesouros materiais que os “teólogos da prosperidade” desejam para si, pois são “tesouros” da atual terra, que não é o objeto da promessa divina nem tampouco da bem-aventurança mencionada por Nosso Senhor. Como é diferente este falso evangelho da prosperidade do que encontramos na Bíblia Sagrada…

    – Esta bem-aventurança da mansidão está explicitamente mencionada pelo apóstolo Paulo como uma das qualidades do “fruto do Espírito” em Gl.5:22.

    III – AS BEM-AVENTURANÇAS ATINENTES AO RELACIONAMENTO ENTRE OS HOMENS

    – Vistas as bem-aventuranças atinentes ao relacionamento entre Deus e o homem, vejamos agora as que dizem respeito ao relacionamento entre os homens.

    A primeira bem-aventurança que diz respeito ao relacionamento entre os homens é a quinta bem-aventurança do sermão de Cristo, qual seja, a “bem-aventurança dos misericordiosos”. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt.5:7), disse Jesus no sermão do monte, não a tendo mencionado no “sermão da planície”.

    – A misericórdia é a ação de fazer bem. Deus é misericordioso, tanto que, apesar de nossos pecados, Ele não nos consome, porque nos quer fazer bem (Lm.3:22). Jesus andou fazendo bem enquanto esteve entre os homens (At.10:38) e, portanto, todos os filhos de Deus devem, também, fazer o bem (II Ts.3:13).

    – Somente pode fazer o bem quem tenha alcançado a salvação em Cristo Jesus e, arrependido de seus pecados, passa a ser uma “nova criatura” (II Co.5:17), passando a ser participante da natureza divina (II Pe.1:4), pois só Deus é bom e ninguém mais (Mt.19:17).

    – Deixar de fazer o bem é uma característica do ímpio (Sl.36:3), daquele que apostatou da fé (Jr.13:23). Por isso, quando o Senhor repreendeu o povo de Judá pela boca do profeta Isaías, mandou que eles aprendessem a fazer o bem (Is.1:17). Quem sabe fazer o bem e não o faz, diz Tiago, comete pecado (Tg.4:17).

    – Por isso, uma das características do discípulo de Cristo Jesus e a razão de ser de sua bem-aventurança é a prática do bem, o exercício da misericórdia, motivo por que uma das qualidades do “fruto do Espírito” é a bondade (Gl.5:22). Não nos esqueçamos, aliás, que um dos pontos que serão levados em conta pelo Senhor Jesus no julgamento, na separação entre “bodes” e “ovelhas” será, precisamente, a prática de boas obras (Mt.25:31-46).

    – Não foi por outro motivo que o apóstolo Paulo, trazendo à memória um ensino de Cristo que nem sequer constou dos Evangelhos, disse que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (At.20:35), expressão que disse quando se despedia dos efésios, falando da necessidade que temos de exercer as chamadas “obras de misericórdia”, onde se incluem a visita aos enfermos e aos encarcerados, como também a provisão aos famintos e sedentos, do ponto-de-vista material, como também o consolo, o aconselhamento, o conforto e a instrução, do ponto-de-vista espiritual.

    OBS: O Catecismo da Igreja Romana tem uma clássica disposição a respeito das chamadas “obras de misericórdia”, “in verbis”: “As obras de misericórdia são as ações caritativas pelas quais socorremos o próximo em suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar são obras de misericórdia espiritual, como também perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporal consistem sobretudo em dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos.…” (§ 2447 CIC).

    – Recentemente, em uma reportagem a respeito do trabalho voluntário, que tem crescido em nosso país, vimos que a grande maioria das pessoas prestadoras deste tipo de serviço afirmou que se sentem bem melhor no exercício da misericórdia do que os próprios beneficiários de seus serviços, a demonstrar que, mesmo entre os que não são salvos, há uma clara demonstração de que fazer o bem faz bem.

    – No entanto, quando observamos o discurso dos “pregadores de prosperidade”, notamos a grande ausência da beneficência. Até mesmo o famoso bordão “receba”, tão insistentemente repetido por tais falsos mestres, dá a mostra clara de que o que se ensina é diametralmente oposto ao que está nas Escrituras. A “teologia da prosperidade” incentiva tão somente o egoísmo, a avareza, as pessoas querem enriquecer para ter uma vida regalada, tratando os necessitados como o rico tratou o mendigo Lázaro, ou seja, com o mais absoluto desprezo. Fujamos disto, amados irmãos!

    Outra bem-aventurança atinente ao relacionamento entre os homens é a “bem-aventurança dos limpos de coração”. Diz Nosso Senhor que “os limpos de coração verão a Deus” (Mt.5:8). Esta bem-aventurança também não é mencionada no “sermão da planície”.

    – Ver a Deus é uma das grandes recompensas que terá o “bem-aventurado”. Como, de modo bíblico, afirma o Catecismo da Igreja Romana, “…A promessa de ver a Deus ultrapassa todas as bem-aventuranças. Na Escritura, ver é possuir. Aquele que vê a Deus obteve todos os bens que podemos imaginar.…” (§ 2548 CIC). Para “ver a Deus”, Jesus nos ensina que temos de ser “limpos de coração”.

    – Ser “limpo de coração” ou “puro de coração” é ter um coração sem qualquer mácula, qualquer mancha. É tornar-se inocente, o que somente é possível ante a purificação operada pelo sangue de Cristo Jesus, pelo perdão dos nossos pecados. Quando recebemos o perdão do Senhor, somos lavados no sangue do Cordeiro e, assim, passados a ser puros, a ser limpos de coração.

    – Quem é limpo de coração quer bem às demais pessoas. Não age mais com malícia nem engano, não quer o mal do próximo, mas lhe deseja o bem. Logo se percebe, portanto, que o “limpo de coração” é benigno, pois benignidade é querer bem a outrem. Quando somos salvos por Cristo, recebemos o amor de Deus e uma das características do amor divino é a benignidade (I Co.13:4), que não por outro motivo é uma das qualidades do “fruto do Espírito” (Gl.5:22).

    – Quem é “puro de coração”, portanto, não tem inveja, pois a inveja é o sentimento nascido do querer mal ao próximo, do desejar mal ao próximo, de ficar incomodado e descontente com o sucesso do outro. Ora, quando observamos os “pregadores da prosperidade”, vemos que um dos seus principais estímulos, um dos principais fatores que fazem mover o povo a crer em suas falsas promessas é a inveja. Através da prosperidade material dos ímpios, encontram eles o móvel para levar os seus incautos ouvintes a crer em suas lorotas.

    – A Bíblia seguidamente fala para que não tenhamos inveja da prosperidade material dos ímpios (Sl.37:1; Pv.3:31; 23:17; 24:19; Ec.4:4; Rm.13:13; Tg.3:16) e chama, mesmo, a presença deste sentimento de indício de desvio espiritual (Sl.73:2,3). Por isso, quem estimula a inveja, como afirma Tiago, é um agente do inimigo, pois a inveja é produto de perturbação maligna (Tg.3:14,16). Fujamos disto, amados irmãos!

    A terceira bem-aventurança que diz respeito ao relacionamento com o próximo é a “bem-aventurança dos pacificadores”, que Jesus chama de “filhos de Deus” (Mt.5:9). Jesus é o Príncipe da Paz (Is.9:6) e nos prometeu dar a verdadeira paz (Jo.14:27), o que começou a fazer já no domingo da ressurreição (Jo.20:21). Esta bem-aventurança também não é mencionada no “sermão da planície”.

    – Paz, entre os israelitas, como já temos visto neste trimestre, dentro do significado da palavra “shalom” (???), é um estado de integridade, ou seja, um estado em que a pessoa se sente completa, se sente amparada, se sente segura, se sente inteira, o que somente é possível quando o homem está em comunhão com o seu Criador.

    – Embora o sentido bíblico da paz seja o de integridade, o de completude, as Escrituras nos falam, de três ou quatro aspectos da paz. Como afirma Lewis Sperry Chafer, “…a paz é o oposto da ansiedade no coração ou da discórdia ou inimizade entre indivíduos e nações. Quatro aspectos da paz devem ser considerados: com Deus (Rm.5:1)(…), de Deus (Fp.4:7; Cl.3:15; cf. Hb.13:20) (…) No reino vindouro (Is.9:6,7)(…) Em um só corpo (Ef.2:14-18; Cl.1:20)…” (Teologia sistemática. t.4. v.7, p.197).

    – Quando somos salvos por Cristo, recebemos a paz com Deus e, por isso, passamos a ter comunhão com Ele, mas, também, passamos a ter a “paz de Deus”, mediante a qual nós podemos ser “pacificadores”, levando a paz aos que nos cercam. O salvo leva paz aos lugares que frequenta, a começar da igreja local onde congrega, pois ali todos devem viver em paz.

    – No entanto, os falsos pregadores da prosperidade estimulam e incentivam a divisão, a competição, pois, na ganância para se ganhar cada vez mais as coisas desta vida e no estímulo à inveja, não há como se proliferar, no meio do povo de Deus, o sentimento faccioso e o individualismo, a completa negação da paz de Cristo.

    A paz é apresentada explicitamente pelo apóstolo Paulo como uma das qualidades do fruto do Espírito (Gl.5:22). O verdadeiro e genuíno servo do Senhor Jesus tem paz e lev a paz aonde vai.

    IV – AS BEM-AVENTURANÇAS ATINENTES AO RELACIONAMENTO DO HOMEM CONSIGO MESMO

    – Por fim, temos as três últimas bem-aventuranças mencionadas pelo Senhor Jesus no sermão do monte e que dizem respeito ao relacionamento do homem consigo mesmo.

    A primeira delas, que é a quarta bem-aventurança do sermão do monte, é a “bem-aventurança dos que têm fome e sede de justiça” (Mt.5:6), mencionada em Lucas como “a bem-aventurança dos que têm fome” (Lc.6:21). Aqui o Senhor Jesus mostra que os Seus discípulos são aqueles que sabem suportar as carências, tendo esperança que, um dia, serão elas supridas por Deus, pois o Senhor diz que estes bem-aventurados “serão fartos”.

    – Cumpre observar que o Senhor Jesus mostra que os Seus discípulos têm necessidade de “justiça”, ou seja, não estão atrás de coisas desta vida, de coisas materiais, mas, sim, de coisas espirituais. Do que eles sentem falta? De dinheiro? De saúde? Não, não e não! Eles sentem falta de “justiça”. Por isso, a exemplo de Ló em Sodoma, os salvos se afligem dia após dia com as obras injustas dos pecadores (II Pe.2:7,8), pois quem tem o amor de Deus não folga com a injustiça (I Co.13:6).

    – O íntimo do salvo em Cristo Jesus, do discípulo de Nosso Senhor clama por justiça, alegra-se com a justiça, deseja a justiça. Não está interessado na posse de bens materiais, mas na realização da justiça.

    – David Flusser, já tantas vezes mencionado neste estudo, mostra que a expressão de Cristo nesta bem-aventurança faz alusão a uma antiga oração judaica, onde se diz: “Teu povo e Tua herança, que têm fome de Tua bondade, que têm sede de Tua graça e que almejam a Tua salvação, reconhecerão e saberão que ao Senhor, nosso Deus, pertencem a misericórdia e o perdão” (op.cit., p.142). Como se percebe, a fome é da “bondade de Deus”; a sede, da “graça de Deus”. O que o povo e a herança de Deus mais querem é a realização da bondade e da graça de Deus.

    – Ora, num mundo de pecado e sabemos que o pecado é iniquidade, ou seja, injustiça (I Jo.3:4), ter esta carência é, necessariamente, ter de ter fé e esperança de que um dia virão novos céus e nova terra onde habita a justiça (II Pe.3:13) e isto leva o cristão a ser comedido, equilibrado, a ter autocontrole, pois sabe que “não pode fazer justiça com as suas próprias mãos”, embora a anseie grandemente. Daí advém que a bem-aventurança da fome e sede de justiça nos remete à qualidade do “fruto do Espírito” denominada “temperança” (Gl.5:22).

    – Os pregadores da confissão positiva, no entanto, assim não agem nem pregam. Não estão interessados na justiça, mas no bem próprio, no seu bem-estar. Pouco importa que haja injustiça, se eles estiverem “por cima”, tudo bem. Eles folgam com o próprio bem, não se importam se a injustiça perdura, o importante é que “sejam cabeça, não cauda”.

    – A “teologia da prosperidade” não prega a “temperança”, muito pelo contrário, são insaciáveis, gananciosos, querendo sempre cada vez mais, não sabendo controlar seus instintos, que estão tão fora de controle que acham, inclusive, que “comandam” e “obrigam” Deus a saciá-los. Aliás, a cobiça do homem é insaciável (Ec.6:7). Como isto é diferente do que ensina o Senhor Jesus a respeito de Seus discípulos…

    – A propósito, para os que se sentem bem apesar de toda a injustiça na Terra, há, da parte do Senhor Jesus, um “ai”, como fez questão de registrar o evangelista Lucas: “Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome” (Lc.6:25). Uma vez mais, lembramos a situação de carência irremediável que sofreu o rico no Hades (Lc.16:24-26). Que Deus nos livre disto, amados irmãos!

    A segunda bem-aventurança atinente ao relacionamento do homem consigo mesmo é a “bem-aventurança dos perseguidos por causa da justiça”, que deles é o reino dos céus (Mt.5:10), não mencionada por Lucas. Flusser entende que esta expressão de Jesus está relacionada com Is.51:1, que fala daqueles que “perseguem a justiça”, que “buscam ao Senhor”. “…A palavra ‘justiça’ em Mt.5:10 é explicada, em geral, como se referindo àqueles que forma perseguidos por sua devoção à religião, por sua obediência aos mandamentos de Deus, ou aos justos que se opõem às causas iníquas.(…). Desse modo, uma das explicações da frase em Mt.5:10 é: Bem-aventurados são aqueles que perseguem a justiça e que, por conseguinte, são perseguidos.…” (op.cit., p.143).

    – Mais uma vez percebemos que o salvo em Cristo Jesus tem, em seu interior, uma necessidade de justiça, sabendo que ela se encontra em Deus e, por isso, vai ao encontro d’Ele, quer encontrá-l’O, pois sabe que somente tendo intimidade com Ele poderá colaborar, cooperar para que a injustiça deste mundo diminua, enquanto não vêm os novos céus e a nova terra.

    – O “perseguido por causa da justiça” busca a Deus e, por buscar a Deus, acaba sendo perseguido neste mundo. Assim, vemos, com absoluta clareza, que o bem-aventurado é aquele que dá prioridade às coisas espirituais, que busca primeiramente o reino de Deus e a sua justiça (Mt.6:33), que não está atrás da comida, da bebida e do vestido, como fazem os gentios (Mt.6:31,32).

    – Mas o que ensinam os falsos pregadores da prosperidade? Ensinam os crentes a serem gentios, a se comportarem como os incrédulos, pois querem que eles corram atrás da comida, da bebida e do vestido, deixando de buscar primeiramente o reino de Deus e a sua justiça. Estão no caminho oposto ao previsto pelo Senhor Jesus. Acordemos, amados irmãos, e deixemos de seguir estes falsos e diabólicos ensinos!

    – O “perseguido por causa da justiça” está atrás das bênçãos espirituais, de uma intimidade com Deus e sabe que a perseguição que está a sofrer é resultado desta busca e aguarda, pacientemente, que novos céus e nova terra sejam estabelecidos onde, então, haverá a justiça para todos, justiça de que já desfruta em sua comunhão com Deus. É, pois, completamente refratário a estímulos de “impaciência” que são trazidos pelos “teólogos da prosperidade”, que conclamam o povo a não esperar, a exigir isto ou aquilo de Deus, a “não aceitar a situação”. Como este ensino é totalmente diverso do que nos ensinou o Senhor Jesus.

    – O “perseguido por causa da justiça” sabe esperar com paciência no Senhor (Sl.40:1) e não tem ilusão a respeito deste mundo, pois sabe que não haverá justiça plena nesta Terra. O melhor é buscar a justiça em Deus, pois Ele é a nossa justiça (Jr.23:6). Não é por outro motivo que o apóstolo Paulo elenca entre as qualidades do “fruto do Espírito” a longanimidade (Gl.5:22).

    A última bem-aventurança, que é também atinente ao relacionamento do homem consigo mesmo, é a “bem-aventurança dos injuriados e perseguidos por causa do nome de Jesus”, que têm um galardão nos céus (Mt.5:11,12), que, na versão de Lucas, é a “bem-aventurança dos aborrecidos, dos que sofrem separação, dos injuriados e rejeitados” (Lc.6:22).

    – Muito relacionada com a bem-aventurança anterior, temos aqui, porém, como que uma especificação, visto que aqui não se tem apenas perseguição, mas a injúria, ou seja, a ofensa, o aviltamento por causa do nome de Jesus. Tem-se um degrau a mais de sofrimento por se ter ido buscar o reino de Deus e a sua justiça.

    – Pelo que se verifica, o discípulo de Cristo tem perdas neste mundo, exatamente por tê-lo rejeitado, por tê-lo desprezado por algo melhor, que é o próprio Jesus. E, para estes bem-aventurados, é prometido um galardão, uma recompensa, que não é aqui neste mundo, mas, sim, no céu. A recompensa por se manter leal a Jesus, por não esmorecer diante da injúria e da ofensa é no céu e não aqui.

    – Tem-se, pois, que um dos requisitos para se ter esta bem-aventurança é a lealdade, a manutenção do compromisso assumido de servir a Cristo Jesus até a morte, motivo por que a qualidade do “fruto do Espírito” correspondente a esta bem-aventurança é a fé, pois aqui a palavra “fé” significa “fidelidade, lealdade”. Não foi por outro motivo que o Senhor Jesus prometeu dar “a coroa da vida” a quem for fiel até a morte (Ap.2:10).

    – Os “pregadores da prosperidade”, no entanto, ensinam exatamente o contrário, pois afirmam que uma das demonstrações da salvação seria, precisamente, o reconhecimento dos outros, o estar “por cima” nos conceitos da sociedade, o ter poder econômico, o ter poder político, enfim, o ter poder segundo os padrões mundanos. Como isto é diferente do que ensinou o Senhor Jesus…

    – Os “pregadores da prosperidade”, também, insistem que o galardão por servir a Jesus é obtido nesta Terra, mas o Senhor Jesus disse que o galardão está nos céus, não sendo, pois, saúde física, nem tampouco riquezas materiais a demonstrar que alguém é salvo, ou não, na pessoa de Cristo Jesus. Não se pode trocar a fidelidade a Cristo pelas coisas desta vida. Não se deve esperar recompensa neste mundo por servirmos a Cristo. Lembremos disto, amados irmãos!

    – Pelo contrário, na versão de Lucas, a esta bem-aventurança está associado um “ai” que se refere precisamente ao reconhecimento da sociedade, ao reconhecimento do mundo. “Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc.6:26). Estar “de bem com o mundo”, gozando da fama e de prestígio segundo os conceitos mundanos é ser um “falso profeta”, é negar a sua própria salvação. Quantos que estão correndo atrás deste “ai” em nossos dias…

    Como se pôde perceber, pois, na análise do sermão das bem-aventuranças, nada, absolutamente coisa alguma do que é propalado pela “teologia da prosperidade” está entre as características e qualidades que o Senhor Jesus deu para os Seus discípulos, para os “bem-aventurados”. Por que, então, confiarmos nestas mentiras? Fiquemos com a Palavra de Deus, fiquemos com o Senhor Jesus, que é a verdade (Jo.14:6)!!

    Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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  • Lição 5: As bênçãos de Israel e o que cabe à Igreja

    As bênçãos e promessas de Deusconstantes da Bíblia não são indistintas a todas as pessoas, devem ser analisadas dentro do seu contexto.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo sobre a prosperidade bíblica, passaremos a analisar os principais pontos do ensino bíblico sobre o tema, refutando as distorções feitas pela “teologia da prosperidade”.

    – O primeiro ponto a ser analisado é de que as promessas e bênçãos de Deus constantes nas Escrituras não podem ser aplicadas indistintamente a todas as pessoas, mas devem ser examinadas no contexto em que aparecem.

    I – DEUS É UM DEUS DE BÊNÇÃOS E DE PROMESSAS

    – Após termos visto o que é a prosperidade na Bíblia, tanto no Antigo como em o Novo Testamento, oportunidade em que observamos o forte conteúdo espiritual que o tema apresenta nas Escrituras, passamos ao segundo bloco de nosso estudo deste trimestre, em que analisaremos alguns pontos da doutrina bíblica da prosperidade a fim de refutarmos as distorções constantes da “teologia da prosperidade”.

    – O primeiro destes pontos é a realidade de que, embora o nosso Deus seja um Deus de bênçãos e de promessas, tais bênçãos e promessas não são indistintas para todos os homens. Uma das principais artimanhas dos “teólogos da prosperidade” é, precisamente, a de “pinçar” das páginas da Bíblia “bênçãos” e “promessas” e aplicá-las, fora do contexto em que foram feitas, para a Igreja.

    – O nosso Deus, que ama o homem e quer que todos os seres humanos se salvem, tem prazer em abençoar o homem. Já no relato da criação, vemos o Senhor abençoando o homem, tendo, sido, aliás, a primeira atitude que a Bíblia registra que Deus fez em relação ao homem (Gn.1:28).

    – Não há porque, então, duvidarmos deste caráter abençoador primordial de Deus em relação ao homem, mas isto não pode, em absoluto, fazer-nos crer que todas as bênçãos constantes na Bíblia são dirigidas à Igreja, a este povo de Deus formado por judeus e gentios por força do sacrifício vicário de Cristo Jesus na cruz do Calvário (Ef.2:13,14).

    A bênção é definida, pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, como sendo “graça concedida por Deus”, ou seja, é um favor imerecido que Deus dá ao homem por força do Seu amor para com o ser humano. Deus, assim que criou o homem, o abençoou (Gn.1:28), pois queria o seu bem, bem este que é concretizado pela comunhão que o próprio Deus estabeleceu com o homem, feito à Sua imagem e semelhança.

    – Além de ser um Deus de bênçãos, o Senhor também é um Deus de promessas. “Promessa”, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é “ato ou efeito de prometer”, “afirmativa de que se dará ou fará alguma coisa”, “compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação”, palavra que vem do latim “promissa”, que, por sua vez, era o plural de uma forma verbal “promissum”, do verbo “promittere” cujo significado é “’lançar, atirar longe; deixar crescer para diante (barba); oferecer; propor, apresentar; prometer, dar a sua palavra, obrigar-se”.

    No Antigo Testamento, não há uma palavra específica para “promessa”. Como diz o J.W.L. Hoad, em o Novo Dicionário da Bíblia, conforme a tradução de João Bentes, “…onde nossas versões portuguesas dizem que alguém prometeu alguma coisa, o hebraico simplesmente afirma que alguém disse ou proferiu (‘amar – ???, dabhar- ???) alguma palavra com referência ao futuro…” (Promessa. In: DOUGLAS, J.D. O novo dicionário da Bíblia, t.II, p.1330).

    Em o Novo Testamento, a palavra “promessa” é a palavra grega “epangelia” (?????????), cujo significado também tem a ver com “anúncio”, “mensagem”, tanto que a palavra é da mesma raiz que “evangelho”.

    – A promessa é o ato de prometer e prometer, pelo que vimos, é uma afirmação que se faz para frente, tanto que, no latim, o verbo “promittere” significa “lançar, atirar longe, deixar crescer para diante a barba”. Trata-se, portanto, de uma afirmação que diz respeito a um fato futuro, a algo que ainda não ocorreu. Como afirma J.W.L. Hoad, “…promessa é uma palavra que se prolonga por um tempo indeterminado. Estende-se para além daquele que a faz e daquele que a recebe, assinalando um encontro entre os dois no futuro…” (HOAD, J.W.L., op.cit., p.1330).

    A promessa é a afirmação de que se fará ou se dará alguma coisa, é um anúncio, uma palavra que diz respeito ao futuro. A nós, seres humanos limitados no tempo, temos que a promessa exige uma espera, pois a sua afirmação não coincide com o acontecimento. A promessa implica, sempre, numa espera, pois há um lapso temporal entre o seu pronunciamento e o acontecimento que ela prevê. Há um intervalo temporal entre o seu anúncio e a sua realização.

    – Não é por outro motivo que a primeira vez que a palavra “promessa” surge na Versão Almeida Revista e Corrigida seja numa “cobrança” do salmista Asafe, como vemos no Sl.77:8: “Cessou para sempre a sua benignidade? Acabou-se já a promessa que veio de geração em geração?” O salmista, angustiado e espiritualmente enfermo (cfr. Sl.77:10), cansa-se da espera e “cobra” a promessa divina.

    OBS: Segundo David J. Stewart, webmaster do site www.jesus-is-savior.com, há 1.260 promessas em toda a Bíblia Sagrada (God keeps His promises. Disponível em: http://www.jesus-is-savior.com/Basics/gods_promises.htm Acesso em 16 ago. 2007) (tradução nossa do título: Deus vela pelas Suas promessas). Já o pastor e teólogo batista norte-americano Dr. Sam Storms (1951- ) afirma que o número de promessas de Deus na Bíblia é de 7.487, o que corresponde a 85% das promessas registradas no texto sagrado (há, ainda, 991 promessas feitas de uma pessoa para outra, 290 promessas humanas para Deus, 29 promessas feitas por anjos,  9 promessas do diabo, 2 promessas feitas por demônios e 2 promessas feitas por Deus Pai a Deus Filho) (cfr. THE SERMON NOTEBOOK. Acts 27:14-49: four strong anchors for life’s stormy seas. Disponível em: http://www.sermonnotebook.org/new%20testament/Acts%2027_14-29.htm Acesso em 16 ago. 2007) (tradução nossa do título – CADERNO DE SERMÕES. Atos 27:14-49: quatro âncoras fortes para os mares tempestuosos da vida).

    Na Versão Almeida Revista e Corrigida, ainda, o verbo “prometer” aparece, pela vez primeira, em Js.22:4, numa fala de Josué, quando o patriarca se dirigiu às duas tribos e meia que haviam pedido para ficar com terras do lado de cá do Jordão, ocasião em que Josué, ao despedi-los, disse-lhes que o Senhor “…como lhes tinha prometido…”, havia dado repouso às outras dez tribos e meia. No texto original, o verbo utilizado é “dabhar”, que, como já se disse, corresponde a “falar algo que somente se realizará no futuro”. No texto em análise, Josué confirma que o que Deus havia dito antes do início das conquistas, havia se realizado, havia se cumprido.

    Promessa é o compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação. A promessa é, portanto, uma declaração que, embora diga respeito a fatos que irão ocorrer no futuro, gera, no presente, um compromisso, ou seja, um vínculo, uma obrigação. A promessa é um ato de vontade, é uma declaração de um querer que, entretanto, quando dirigido a outras pessoas, uma vez aceito, gera uma obrigação da parte de quem prometeu.

    – Mesmo os homens, tão falhos e perversos, prescrevem em suas leis que a declaração proferida por alguém gera obrigação, a menos que as circunstâncias do caso não permitam concluir que haja este compromisso, não, porém, estando obrigado aquele que prometeu se não houver aceitação por parte da pessoa a quem se prometeu ou se, antes da aceitação, tiver havido retratação por parte de quem prometeu (artigos 427 e 428 do Código Civil Brasileiro).

    – Vemos, portanto, que a promessa, embora seja algo que se fará no futuro, já no presente gera implicações, cria obrigações. Por isso, enquanto servos do Senhor, devemos ter muito cuidado com relação às promessas, pois não podemos ser infiéis nos contratos (Rm.1:31,32), visto que temos de ser imitadores do Senhor, que é fiel (Dt.7:9; Is.49:7). O Senhor espera de nós que sejamos cumpridores estritos de tudo quanto temos falado e prometido, pois nosso falar deve ser sim, sim, não, não (Mt.5:37). Por isso, o servo fiel jamais promete aquilo que não pode cumprir.

    II – AS PROMESSAS DE DEUS

    – Elucidativo que a primeira referência a “promessa” nas Escrituras Sagradas esteja relacionada a Deus. Nenhum outro ser poderia ser o primeiro a fazer promessas a não ser o próprio Criador dos céus e da terra, cuja palavra tudo criou (Gn.1:1; Ap.4:11) e tem sustentado todas as coisas (Hb.1:3).

    – Com efeito, sendo Deus o primeiro a fazer pronunciamentos, o primeiro a fazer declarações, pois antes d’Ele nenhum outro ser havia, não surpreende que a primeira referência a “promessa” seja, precisamente, em relação a Deus.

    – Também diferente não é com respeito ao verbo “prometer”, pois, como vimos, a sua primeira incidência se dá em Josué, quando o patriarca, ao despedir as duas tribos e meia (Ruben, Gade e meia tribo de Manassés), fala do cumprimento de uma promessa da parte de Deus para o Seu povo, qual seja, o repouso deles na Terra Prometida.

    – Se formos adotar o critério cronológico das Escrituras e não o da ordem do cânon, nem assim teremos conclusão diferente. Se o livro de Jó é, como dizem os estudiosos das Escrituras, o mais antigo livro da Bíblia Sagrada, também ali a primeira referência a “prometer” se dá com relação a Deus. Em Jó 17:3, quando o patriarca, angustiado, clama a Deus para que lhe desse um árbitro com o qual poderia contender com Deus, há um pedido da parte daquele homem: “Promete agora, e dá-me um fiador para conTigo; quem há que me dê a mão?” Nesta expressão do patriarca, vemos que a garantia dele estava em uma promessa da parte de Deus. Já sabia que o seu Deus era um Deus de promessas.

    – Advém daí, então, mais uma demonstração de quepromessa é algo peculiar a Deus, algo que Lhe é próprio. Isto porque é de Deus a primeira promessa surgida no mundo. Ao criar o homem, Deus prometeu ao homem que este frutificaria, multiplicar-se-ia e encheria a terra, sujeitando-a e dominando os demais seres criados sobre a face da Terra (Gn.1:28), promessa que teve seu cumprimento já no fato de Adão ter dado nome aos seres (Gn.2:19,20), numa clara indicação de que era ele dominador sobre ele.

    – Deus, também, havia dito ao homem, ao pô-lo no jardim, que, se ele comesse da árvore da ciência do bem e do mal, certamente morreria (Gn.2:16,17), promessa que encontrou seu literal cumprimento quando o homem pecou, não dando crédito às palavras do Senhor. Nesta oportunidade, porém, Deus, mostrando o Seu amor para com o homem, trouxe a grande promessa, qual seja, a de que o homem teria oportunidade de se salvar, mediante a vinda de um Redentor (Gn.3:15).

    – Percebemos, portanto, que, desde os primórdios da existência humana sobre a face da Terra, foi o homem alvo de promessas da parte de Deus, pois sendo Deus um ser que fala, que faz pronunciamentos, é próprio de Sua natureza fazer promessas, até porque, se promessa é a afirmação de um fato futuro, temos que, para Deus, não há futuro, mas, sim, um eterno presente e, portanto, quando faz uma declaração, para nós ela é futura, mas para o Senhor é mera constatação, é uma mera observação da realidade que, para Ele, é sempre presente.

    – Destarte, quando falamos em promessa de Deus estamos a falar sobre Seus pronunciamentos, Suas declarações que, para nós, dizem respeito a fatos futuros, mas que, para Ele, são a plena constatação do que há, do que existe, pois, para Deus, não há o tempo. Por isso, não há como pensarmos em que a promessa de Deus não se realizará, pois ela já é, aos olhos do Senhor, um acontecimento. O intervalo entre a promessa e a sua realização é uma realidade que só existe para nós, seres humanos, não para Deus, pois para o Senhor querer e efetuar são a mesma coisa (Fp.2:13).

    – A Bíblia nos diz que Deus é fiel, ou seja, cumpre todas as Suas promessas, os Seus compromissos. Paulo, mesmo, ao dissertar sobre a fidelidade divina, é bem enfático ao dizer que Ele é fiel porque não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm.2:13). O próprio Senhor, em diálogo com o profeta Jeremias, fez questão de dizer que velava sobre a Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12), numa garantia de que Suas promessas são de cumprimento certo e inevitável.

    – Assim, se na lei dos homens, temos que, para que uma promessa obrigue, vincule alguém, já no presente, para algo que ocorrerá no futuro, com relação às regras estabelecidas por Deus, temos algo muito mais sublime: quem promete é Deus que, por não poder negar-Se a Si mesmo, é fiel e, desta maneira, cumprirá inevitavelmente tudo o que prometeu e isto em função da Sua própria natureza, do Seu próprio ser.

    – Na lei dos homens, como vimos, existem duas possibilidades de a promessa não obrigar: a não aceitação por parte do beneficiário e a retratação do promitente. Na lei divina, esta segunda alternativa é impossível: Deus não é homem para que minta nem filho do homem para que Se arrependa (Nm.23:19), de sorte que não pode Se retratar. Não é por outro motivo, aliás, que o Senhor diz, por intermédio do profeta Isaías, “…a palavra que sair da Minha boca; ela não voltará para Mim vazia; antes, fará o que Me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (Is.45:18).

    – A promessa de Deus é de cumprimento certo e inevitável, porque o seu autor é o Deus fiel, o Deus que não muda (Ml.3:6), o Deus em que não se encontra sombra de variação (Tg.1:17). Por isso, Jesus disse que os céus e a terra passarão, mas as Suas palavras não hão de passar (Mt.24:35; Lc.21:33).

    – Muitas das coisas que vemos na atualidade nos afligem. A maldade cada vez maior, a apostasia e a sequência de escândalos no meio dito evangélico também se avolumam e está cada vez mais difícil servir a Deus neste mundo tão tenebroso. Entretanto, amados irmãos, tudo isto é cumprimento da Palavra de Deus. A Palavra de Deus tem de se cumprir, pois o que Deus disse, acontecerá inevitavelmente. Pensemos nisto e, das agruras e angústias que nos sobrevêm pelo cumprimento do que está escrito, glorifiquemos a Deus, pois, apesar de tudo, isto é uma clarevidente demonstração de que Deus é fiel e que Suas palavras se cumprem inevitavelmente.

    – Se as promessas de Deus se cumprem inevitavelmente, porque o seu autor não pode se retratar, não podemos, porém, deixar de observar que as promessas de Deus que se encontram na Bíblia Sagrada não são dirigidas indistintamente a todas as pessoas e reside aí uma das falácias da “teologia da prosperidade”. Se, de um lado, temos, nas promessas de Deus, o mesmo promitente, que é o Senhor, do outro lado não temos os mesmos beneficiários. A promessa é sempre uma declaração dirigida a alguém e Deus, na Sua excelência, nada faz sem algum propósito.

    – Observemos, aliás, o dito do Senhor através do profeta Isaías. Ali, o Senhor não só garante que a Sua Palavra se cumpre integralmente, como também que toda palavra proferida por Deus tem um propósito, uma finalidade, um objetivo: “antes fará o que Me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (destaques nossos).

    – Deus, ao fazer uma promessa, ou seja, uma declaração de que fará algo, o que, para nós é um fato futuro mas para Ele é tão presente quanto a Sua afirmação, sempre o faz com algum propósito, algum objetivo e não podemos nos esquecer disto. Muitos, na atualidade, têm procurado servir ao “Deus de promessas”, ao “Deus que não é homem para mentir”, mas tentam se apoderar de promessas que não lhes dizem respeito, que não foram pronunciadas para elas, ou, mesmo, promessas que, embora lhes digam respeito, não estão sendo buscadas para os propósitos delineados pelo Senhor.

    Deus, ao fazer promessas, dirige-Se a pessoas certas, bem como estabelece propósitos para que isto ocorra e somente dentro desta perspectiva é que as promessas se cumprirão e de modo inevitável. Muitos, hoje em dia, creem em promessas que não foram, em absoluto, dirigidas a elas, nem tampouco estão de acordo com o propósito de Deus. Tentam tomar aquilo que não é deles e o resultado não poderia ser outro: a decepção, indevida decepção, visto que Deus é fiel e não pode negar-Se a Si mesmo, de sorte que não serão caprichos ou invencionices humanas que mudarão o Seu caráter.

    Tudo que se disse com relação às promessas, é válido também para as bênçãos de Deus, já que as promessas nada mais são que bênçãos que se realizarão no futuro, demonstrações da graça de Deus para com os homens, sempre lembrando que esta ideia de futuro existe somente em relação a nós, seres humanos, visto que Deus é atemporal.

    III – AS DIFERENTES ESPÉCIES DE BÊNÇÃOS E PROMESSAS

    – Ao analisarmos as promessas e as bênçãos de Deus, portanto, devemos verificar que, se de um lado, Deus não pode Se retratar e Suas bênçãos e promessas são sempre sim e por Ele amém (II Co.1:20), de outro, temos de observar para quem se dirigem estas bênçãos e promessas e com que propósito elas foram feitas. Só assim teremos condição de aplicar esta ou aquela bênção ou promessa a nós, pois o compromisso de Deus é com a Sua natureza, com a Sua fidelidade, com a Sua Palavra (Jr.1:12).

    Existem bênçãos e promessas que são “gerais”, ou seja, dirigidas a todos os homens. Deus as proferiu para todo o ser humano e, por isso, se aplicam a toda a humanidade. As bênçãos e promessas feitas a Noé após o dilúvio, por exemplo, são desta espécie (Gn.8:22; 9:1-17). Deus prometeu não cessar, enquanto a terra durar, sementeira e sega, frio e calor, verão e inverno, dia e noite. Eis porque, como disse o Senhor Jesus, Deus, até o dia de hoje, continua a dar o sol e a chuva tanto sobre justos quanto sobre injustos (Mt.5:45), o que, à primeira vista, pareceria um contrassenso, mas que é cumprimento de uma promessa geral, de uma promessa feita a todos os homens, indistintamente.

    Existem bênçãos e promessas que são “nacionais”, ou seja, dirigidas a uma nação em especial. Neste ponto, aliás, é bom que relembremos que, para Deus, a Terra é composta de três povos diferentes: os gentios, os judeus e a Igreja (I Co.10:32 ARA).

    – Os gentios são os homens que pertencem a todas as nações do mundo, nações estas que se originaram da comunidade única dissolvida com o juízo de Babel (Gn.11:1-9), com exceção de Israel, que foi formado por Deus a partir da chamada de Abraão. Os gentios rebelaram-se contra Deus e se mantêm rebelados contra o Senhor. Estão destinados a sofrerem o juízo da Grande Tribulação e a serem governados pelo Anticristo e, por fim, serem encaminhados à eterna perdição por se recusarem a servir a Deus.

    – Os israelitas (chamados de judeus o texto mencionado, porque são os que se mantiveram separados das demais nações, pois as dez tribos, que compunham o reino do norte, chamado Israel, se misturaram com outros povos – II Rs.17:6,18) são os homens que pertencem à nação de Israel, descendência de Abraão, Isaque e Jacó. Foi a nação escolhida por Deus para ser aquela que demonstraria a soberania de Deus e o Seu grande amor para todas as demais nações da Terra. Foi a nação escolhida para ser o instrumento da salvação da humanidade, tanto que o Messias veio a este mundo por meio dela. Deus tem um pacto com Israel (Ex.19:3-20:26). Israel está a destinado a ser salvo (Rm.11:26,27), a ter sua transgressão extinta e ser dado um fim aos seus pecados (Dn.9:24), conforme a profecia das setenta semanas de Daniel. Israel rejeitou a Jesus e, por causa disso, foi espalhado entre as nações, mas, desde 1948, ressurgiu como nação, mas ainda está reservado a ele o sofrimento durante a Grande Tribulação e a perseguição que lhe será empreendida pelo Anticristo, que chegará a apoiar, para só então reconhecer a Cristo como Messias e ser completamente restaurado e por Ele governado no Seu reino milenial.

    – A Igreja são os homens que pertencem à Igreja, a “nação santa” (I Pe.2:9), formada por gente de toda tribo, língua, povo e nação (Ap.5:9), que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro (Ap.22:14), ou seja, aceitaram a Cristo como seu Senhor e Salvador e perseveraram até a morte ou o arrebatamento da Igreja. A Igreja, formada a partir da morte de Cristo no Calvário, tem por missão a pregação do Evangelho nesta dispensação, estando destinada ao arrebatamento, que ocorrerá antes do início da Grande Tribulação, da ira futura que Deus tem reservado para gentios e israelitas.

    – Como se pode perceber, portanto, tendo criado três povos distintos, Deus reservou a eles destinos também distintos, de modo que o propósito existente para cada um destes povos não pode ser o mesmo, até porque Deus é justo. Assim, bênçãos e promessas há que dizem respeito especificamente a uma destas nações, não podendo, pois, ser aplicadas a outros.

    – Assim, quando Deus prometeu a Israel que ele seria Seu reino sacerdotal e propriedade peculiar dentre os povos (Ex.19:5,6), estamos diante de uma promessa “nacional”, de uma promessa relacionada com os israelitas e tão somente com eles. É por este motivo que Deus tem sempre tido um cuidado especial para a preservação da nação israelita e para a retomada da Palestina para ela. Nunca na história da humanidade se soube de uma nação que tivesse sido preservada ao longo dos séculos como foi Israel e, mais, que tenha retornado a ocupar um pedaço de terra de que tinham sido expulsos há quase dois mil anos antes. Entretanto, o Estado de Israel é, hoje em dia, uma realidade, única e exclusivamente porque isto faz parte da promessa que Deus fez a Israel.

    OBS: O renascimento de Israel como nação estabelecida na Palestina é um dos fatos mais impressionantes da história e uma demonstração cabal da fidelidade divina em Suas promessas. O espanto foi tanto que, inclusive, não deixou de ficar registrado quase 2.700 anos de sua ocorrência, pelo profeta Isaías: “Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes? Poder-se-ia fazer nascer uma terra em um só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos.”(Is.66:8). Podemos, então, duvidar do cumprimento das promessas de Deus feitas a nós?

    – Mas, também, há bênçãos e promessas que dizem respeito somente à Igreja. O Senhor prometeu à Igreja, assim que revelou sua existência, a promessa de que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (Mt.16:18). À Igreja, também, prometeu o derramamento do Espírito Santo (Lc.24:49), como, ainda, o arrebatamento antes da hora da tentação que há de vir sobre o mundo (Ap.3:10). Tais bênçãos e promessas não são aplicáveis aos israelitas nem aos gentios, como também à Igreja não se aplicam as promessas relacionadas com a posse da Palestina, por exemplo.

    – Mas também temos as “promessas a nações específicas”, ou seja, promessas que Deus fez a determinadas nações, já não mais consideradas as três nações sob o ponto-de-vista divino, mas, sim, as nações consoante a divisão ocorrida após o episódio de Babel. Em virtude de um comportamento por parte de um determinado povo, o Senhor fez promessas dirigidas a determinadas sociedades nacionais.

    – Foi, por exemplo, o que ocorreu com relação a Amaleque. Por ter ido pelejar contra Israel em Refidim (Ex.17:8), Deus prometeu destruí-la por completo (Ex.17:14), o que se cumpriu literalmente, pois não há mais memória alguma de Amaleque sobre a face da Terra. Mas, também, vemos a promessa de Deus com relação ao Egito, que se converterá ao Senhor e passará a ser considerado por Ele como Seu povo (Is.19:18-25). Esta promessa, ainda não cumprida, não pode ser estendida a ninguém mais senão aos que descendem dos egípcios da época de Isaías, desta nação, porque a ela é dirigida e tão somente a ela.

    Mas há, ainda, as bênçãos e promessas “grupais”, ou seja, dirigidas a grupos que não chegam a constituir uma nação, mas que são agrupamentos de pessoas que estão ligados ou por laços de parentesco (tribos, clãs) ou, ainda, por vínculos de outra natureza (profissionais, gênero etc.). É o que se observa, por exemplo, na promessa feita aos recabitas (Jr.35:18,19), uma tribo que descendia de Recabe, que, por sua vez, era da descendência de Jetro, o sogro de Moisés, que vieram a habitar junto com os israelitas (Nm.10:29; Jz.4:11).

    – Por fim, temos as chamadas bênçãos e promessas “individuais”, bênçãos e promessas feitas por Deus a indivíduos, única e exclusivamente a eles, e que, logicamente, não podem ser aplicadas a ninguém mais. Muitas são as bênçãos e promessas deste tipo na Bíblia. É o caso da promessa feita a Abrão, de que ele se faria uma grande nação (Gn.12:2), como também a promessa feita a Moisés de que ele faria sinais e prodígios no Egito para a libertação do povo (Ex.4:1-17) ou, ainda, a promessa feita a Davi de que Sua descendência reinaria para sempre sobre Israel (II Sm.7:16), como a promessa a Ebede-Meleque de que teria sua vida poupada quando da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor (Jr.39:16).

    – Estas bênçãos e promessas “individuais” não podem, em absoluto, ser apropriadas por outras pessoas. Eram promessas específicas, que demonstram o poder, a benignidade e a fidelidade de Deus e que para o nosso ensino foram registradas, para aprendamos qual é o caráter do Senhor (Rm.15:4). Entretanto, não podemos transportar estes episódios para as nossas vidas, pois não são bênçãos e promessas “gerais”, nem tampouco bênçãos e promessas feitas para a Igreja.

    – Hoje, lamentavelmente, a falta de conhecimento da Palavra de Deus por muitos crentes tem ocasionado a destruição de muitas vidas espirituais. Por não conhecerem a Bíblia, ouvem estes falsos pregadores que transportam muitas promessas individuais para a vida de cada um de seus ouvintes. Fazem aquilo que, muito sabiamente, o consultor doutrinário da CPAD, o pastor Antonio Gilberto, denominou de “…transformação indevida de fatos e eventos bíblicos em doutrina…” (A Palavra de Deus é o padrão do genuíno avivamento. Mensageiro da paz, ano 77, n. 1466, jul. 2007, p.21). O resultado tem sido a decepção, porque o que ocorreu na vida daquelas personagens bíblicas, não ocorreu na vida destes incautos que, sentindo-se ludibriados, afastam-se do Evangelho. Entretanto, quando vemos a realidade bíblica, vemos que tais ocorrências não iriam jamais acontecer, pois Deus vela pela Sua Palavra para a cumprir e, de modo algum, alteraria a Sua fidelidade, extrapolando promessas individuais para terceiros.

    – Torna-se indispensável que saibamos as bênçãos e promessas de Deus. Elas existem para a fortificação da nossa fé, o combustível pelo qual poderemos chegar até o final da nossa jornada rumo ao céu. Entretanto, precisamos conhecer corretamente as bênçãos e promessas de Deus, tal qual se encontram na Bíblia Sagrada, a inerrante Palavra de Deus, pois o compromisso do Senhor é com a Sua Palavra e nada mais.

    – Mas há, ainda, um outro aspecto relevante a verificarmos nas bênçãos e promessas de Deus. Trata-se da circunstância de que não apenas se deve levar em conta a quem o Senhor dirigiu a promessa, mas, ainda, quais as condições estabelecidas para o cumprimento. Como vimos, na lei dos homens, a promessa somente obriga quando há aceitação do beneficiário, ou seja, promessas há que dependem da aceitação daquele que se beneficia desta promessa. Por isso, temos dois tipos de bênçãos e promessas de Deus: as condicionais e as incondicionais.

    – A bênção ou promessa de Deus é incondicional quando o Senhor faz uma declaração cujo cumprimento independe da vontade humana. Tais bênçãos e promessas derivam de um ato de vontade do Senhor que o próprio Deus quis manter acima da própria vontade humana, porquanto os pensamentos de Deus são mais altos que os pensamentos do homem (Is.55:8,9).

    – Assim, retornando à promessa de Deus feita a Noé de que não faltaria chuva, semeadura, sega, sol enquanto a terra durasse, estamos diante de uma promessa incondicional, pois o Seu cumprimento não foi deixado pelo Senhor à vontade dos homens. Fossem justos ou injustos, obedientes ou rebeldes, o Senhor, por um ato de Sua soberana vontade, resolveu não deixar de dar chuva, sol, semeadura, sega, verão e inverno aos homens enquanto durar esta terra.

    – Promessas há, entretanto, em que o Senhor quis que o cumprimento se desse em virtude da vontade humana. Assim, embora não dependa do homem, quis, por Sua soberana vontade, que a promessa dependesse do homem para que se realizasse. Assim, por exemplo, a promessa da salvação, que depende de o homem aceitar a Cristo Jesus como seu único e suficiente Salvador. “Quem crer e for batizado, será salvo; quem não crer, será condenado” (Mc.16:16). A salvação é uma bênção ou promessa de Deus, geral, porque dirigida a todos os homens, mas depende da vontade humana para se tornar algo real na vida de cada um dos seres humanos. É uma promessa que depende da aceitação do homem, uma promessa condicional.

    – Destarte, na análise das promessas de Deus nas Escrituras, além de termos de observar a quem se dirige esta promessa, fundamental também que consideremos se a promessa é condicional ou incondicional.

    – Uma boa demonstração destas várias espécies de promessas de Deus vemos no capítulo 55 do livro do profeta Isaías. Já no versículo 3, vemos uma promessa condicional do Senhor, onde se promete a vida da alma desde que ela ouça o Senhor. O concerto perpétuo prometido por Deus ao Seu povo, em que se darão as firmes beneficências de Davi, depende de o povo ouvir o Senhor. Tem-se, portanto, uma promessa condicional.

    – Em seguida, em Is.55:4, vemos uma promessa incondicional. Deus diz que deu a Davi como testemunha aos povos, como príncipe e governador dos povos. Esta promessa independe de os povos aceitarem, ou não, a Deus. O fato é que o Senhor, da descendência de Davi, levantará um que governará a todo o mundo, promessa que se cumprirá quando o Senhor Jesus instaurar o Seu reino milenial.

    – Em Is.55:5, temos outra promessa incondicional da parte do Senhor, onde Deus afirma que se chamará uma nação que Israel não conhecia, uma nação que correrá para Israel por amor do Senhor e Santo de Israel, por causa da glorificação de Israel pelo Senhor. Quisesse Israel, ou não, esta nação surgiria e, como sabemos, já apareceu, que é a Igreja, este novo povo santo do Senhor, que se levantou por causa de todas as promessas que Deus cumpriu para com Israel, máxime a de ter enviado o Messias, que por Israel foi rejeitado.

    – Em Is.55:6,7, temos uma outra promessa condicional. O Senhor convida o povo ao arrependimento, a buscá-l’O, a invocá-l’O, pois haveria compaixão de Deus para aquele que deixasse o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos. O perdão de Deus dependeria, portanto, do arrependimento do pecador. Trata-se de uma promessa condicional. O homem maligno que não deixasse os seus pensamentos nem o ímpio que deixasse o seu caminho não receberiam a compaixão e o perdão do Senhor.

    – Ao analisarmos estas promessas, não sob o aspecto da condicionalidade, mas pelo prisma dos seus beneficiários, perceberemos que se tratam de promessas dirigidas a Israel, de “promessas nacionais”, mas que, notadamente no que se refere a seu propósito, extrapolam a dimensão nacional, na medida em que há a promessa de surgimento de um novo povo, que serviria a Deus por causa da fidelidade divina a Israel. Por causa disto, notadamente a promessa constante de Is.55:6,7 não se restringe apenas aos israelitas, mas a todos os homens, é uma “promessa geral”, porquanto diz respeito ao próprio caráter divino de imparcialidade no perdão e compaixão. Tem-se, pois, validamente, um texto que se pode aplicar aos gentios e à própria Igreja.

    – Por fim, como as promessas mencionadas em Is.55 dizem respeito ao perdão do homem pelos seus pecados, não devemos nos esquecer de que Deus é “grandioso em perdoar”, tudo fez para perdoar os pecados do homem, é Seu propósito trazer a salvação, salvação esta que, em Is.55, fica bem claro que se dá por intermédio da “benevolência que o Eterno concedeu a David” (Is.55:5 “in fine” na Bíblia Hebraica), ou seja, por meio de Jesus Cristo, o Filho de Davi. Desta maneira, a alegria e a paz mencionados em Is.55:12,13 estão relacionadas com a salvação, não com qualquer enriquecimento de ordem material ou com acontecimentos felizes no cotidiano da vida debaixo do sol.

    – Como em todo o estudo da Bíblia, as bênçãos e promessas devem ser analisadas de acordo com o contexto interno e externo, em harmonia com demais textos bíblicos e devem ser confirmadas em duas ou três passagens. Jamais nos deixemos levar por promessas criadas em textos isolados das Escrituras e que não têm qualquer fundamento nem sequer no texto de onde são extraídas.

    – Por isso, devemos ter muito cuidado com as chamadas “caixinhas de promessas”, textos bíblicos selecionados e que são retirados aleatoriamente pelos crentes, quando desejosos de “ter uma palavra” da parte de Deus, agindo como aqueles que buscam mensagens de ânimo e de bem-estar seja nos velhos realejos, seja nos “pensamentos” em “biscoitos da sorte”, tão comuns hoje em atividades que procuram reproduzir o misticismo oriental. As promessas de Deus fazem parte da Bíblia Sagrada e devem ser analisadas e cridas enquanto tal, o que nos impede de recorrer a tais subterfúgios, que, embora sirvam de um bom estímulo psicológico, nenhum valor espiritual têm.

    – Por fim, devemos lembrar que nosso Deus continua a falar e, portanto, continua a fazer promessas ao Seu povo. Cada um de nós pode ser alvo de uma promessa de Deus. Tal promessa, em sendo individual, somente terá cumprimento para nós, faz parte de nossa intimidade para com Deus. Se foi efetivamente Deus quem o prometeu, ela se cumprirá, podendo, ademais, ser condicional ou incondicional, tudo dependendo da vontade do Senhor. Ao recebermos promessa da parte de Deus, se vier ela por intermédio de sonho, visão, profecia, deve tal promessa ser submetida ao crivo da Palavra de Deus, pois tudo deve ser submetido à Bíblia Sagrada. Se tal promessa estiver de acordo com as Escrituras, devemos, então, se se tratar de promessa condicional, fazer a nossa parte para demonstrar aceitação do prometido pelo Senhor e, no mais, aguardar, porque nosso Deus é fiel e o que prometeu, Ele certamente cumprirá.

    – As promessas de Deus são importantíssimas para fortalecer a nossa fé, mas devem ser cridas conforme a revelação que Deus nos deu, sem quaisquer subterfúgios, diminuições ou acréscimos. Deu é a verdade (Dt.32:4; Jr.10:10), a Sua Palavra é a verdade (Jo.17:17) e somente pela verdade alcançaremos a glória eterna. As promessas de Deus não falham, estão aí para que creiamos nelas e as vivenciemos, mas tudo de acordo com a Palavra do Senhor.

    IV – AS BÊNÇÃOS DE ABRAÃO, ISRAEL E DA IGREJA

    – Já vimos que, para Deus, há três povos na face da Terra: os gentios, os judeus e a Igreja. Vimos, também, que os gentios rejeitaram a Deus e, por isso, o Senhor quis formar um povo Seu para ser Sua “propriedade peculiar dentre os povos”, a saber, Israel, cuja formação se iniciou com Abrão, depois tornado em Abraão.

    – Por ser o pai desta nação escolhida para ser a testemunha divina dentre os povos, Abraão é chamado de “patriarca” e os filhos de Israel gostavam de se denominar como “filhos de Abraão” (Mt.3:9; Jo.8:33). Esta filiação, ainda que em termos espirituais, é reafirmada pelo apóstolo Paulo em relação à Igreja (Gl.3:29).

    – Por causa desta vinculação entre Abraão e Israel e entre Abraão e a Igreja, os “teólogos da prosperidade”, de forma sutil, buscam trazer as bênçãos e promessas que Deus deu a Abraão para a Igreja, indistintamente, afirmando que como a Igreja é “filha de Abraão”, tudo quanto o Senhor deu e prometeu a Abraão se aplica aos que são salvos em Cristo Jesus.

    – Temos aqui, aliás, por parte dos “teólogos da prosperidade”, o mesmo erro que havia entre os judeus e que foi severamente denunciado tanto por João Batista quanto por Jesus, que mostraram aos judeus que o fato de eles serem descendentes biológicos do patriarca não os fazia “filhos de Abraão”. João chamou este pensamento de “presunção”, dizendo que Deus poderia das pedras “suscitar filhos a Abraão”, mandando que eles, primeiramente, produzissem frutos dignos de arrependimento (Mt.4:8,9).

    – Já o Senhor Jesus, também respondendo à presunção dos judeus em se considerarem “filhos de Abraão”, mostrou-lhes que somente pode ser “filho de Abraão”, quem praticar as obras de Abraão (Jo.8:39), apesar de reconhecer a descendência biológica, que nada significava em termos espirituais (Jo.8:37).

    – Notamos, pois, de pronto, que a “filiação de Abraão” que tanto se busca demonstrar no discurso da “teologia da prosperidade” é uma “filiação espiritual”, um relacionamento que a pessoa tem com Deus do mesmo modo que teve Abraão, relacionamento este firmado na fé e na prática de obras que demonstrem a fidelidade a Deus e à Sua Palavra.

    – O apóstolo Paulo, ao apontar esta “filiação abraâmica” para a Igreja, fez questão de ressaltar que se tratava de uma filiação decorrente do fato de “sermos de Cristo” (Gl.3:29), ou seja, “sermos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, por estarmos batizados em Cristo e já revestidos de Cristo” (Gl.3:26,27).

    – Deste modo, o que se aplica de Abraão à Igreja é algo estritamente espiritual. Somos “filhos de Abraão”, porque “somos de Cristo” e “Cristo é a posteridade de Abraão” (Gl.3:16). Portanto, o que temos recebemos como crentes é “a promessa pela fé em Jesus Cristo” (Gl.3:22), ou seja, a mesma justificação pela fé que recebeu Abraão (Rm.4).

    – Destarte, não se pode dizer que como Abraão era rico, também os crentes serão ricos por serem “filhos de Abraão”, até porque, quando Abraão foi chamado, já era rico, pois saiu de Ur com “toda a sua fazenda” (Gn.12:5), prova de que as bênçãos materiais não faziam parte da promessa dada quando de sua chamada (Gn.12:2), o que ainda mais se confirma quando saiu do Egito muito rico, apesar de sua estada ali ter sido contra a vontade de Deus (Gn.13:1,2).

    – As bênçãos recebidas por Abraão e que também, por Cristo, se destinam à Igreja, pois, são as bênçãos espirituais, a saber, a justificação pela fé (Gn.15:6), a capacitação para a realização de boas obras, visto que Deus prometeu que Abraão seria “uma bênção” (Gn.12:2), o que se cumpriu, quando ele foi o instrumento de libertação dos sodomitas e de Ló (Gn.14:14-16); o bom testemunho diante dos gentios (Gn.23:6); o discernimento espiritual, inclusive para saber quando as riquezas provêm, ou não, de Deus (Gn.14:22-24); o gozo por causa da salvação da humanidade em Cristo Jesus (Jo.8:56).

    Não se aplicam à Igreja, as bênçãos de Abraão relacionadas com a posse da terra de Canaã, visto que isto se referia à nação escolhida e formada a partir do patriarca (Gn.12:2,7; 13:14-17; 15:18-21).

    – De igual forma, as bênçãos e promessas destinadas a Israel não podem ser aplicadas automaticamente à Igreja. Os “teólogos da prosperidade” gostam muito de citar os quatorze primeiros versículos do capítulo 28 do livro de Deuteronômio para os crentes, “esquecidos”, entretanto, que são bênçãos relacionadas com o papel de Israel como “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”.

    – Como já vimos em outra lição, as bênçãos mencionadas no referido capítulo dizem respeito à “exaltação de Israel pelo Senhor sobre todas as nações da terra” (Dt.28:1 “in fine”). Trata-se, pois, de bênçãos “nacionais”, que não podem ser transferidas para a Igreja, como, lamentavelmente, vemos sendo pregado pelos “teólogos da prosperidade”.

    – A “benção dos celeiros”, por exemplo, tão propalada pelos “teólogos da prosperidade”, tem como local de sua incidência, como vemos claramente em Dt.28:8, “a terra que te der o Senhor teu Deus”, ou seja, trata-se, nitidamente, de uma bênção “nacional”, vinculada à posse da terra de Canaã.

    – Se quisermos, pois, fazer uma “aplicação” à Igreja, teremos de, em relação à “bênção dos celeiros”, por exemplo, interpretarmos do ponto-de-vista espiritual, ou seja, de que o Senhor nos promete “celeiros espirituais”, já que a nossa terra de Canaã não é literal, mas, sim, “a Canaã espiritual”, a “Nova Jerusalém” (Ap.21:2), “ a nossa cidade que está nos céus” (Fp.3:20), aplicação mais do que adequada, já que o apóstolo Paulo diz que devemos ser “despenseiros dos mistérios de Deus” (I Co.4:1).

    – É evidente que as bênçãos espirituais prometidas a Israel são aplicáveis à Igreja, visto que ambos são “povos santos e sacerdotais” (Ex.19:5,6; I Pe.2:9,10), mas, como sabemos, não é a estas bênçãos que se referem os “teólogos da prosperidade”.

    – Notemos, ainda, que, na quase totalidade das vezes, os “teólogos da prosperidade” sempre se referem a passagens do Antigo Testamento, procurando dali extrair elementos para a sua apologia da ganância e do materialismo. Não podemos, porém, nos iludir, devendo sempre lembrar que devemos verificar estas “bênçãos” e “promessas” dentro do contexto em que foram feitas nas Escrituras, pois “nenhuma Escritura é de particular interpretação” (II Pe.1:20) e que nenhuma doutrina bíblica se firma em um texto isolado, pois a verdade é sempre confirmada “por duas ou três testemunhas” (Dt.17:6; 19:15; Mt.18:16; II Co.13:1).

    – Não podemos, também, nos esquecer que, em se tratando de bênçãos referentes a Israel, na antiga aliança, no tempo da lei, devemos sempre estar atentos para o fato de que a lei era a “sombra dos bens futuros” (Cl.2:16,17; Hb.10:1) e que, portanto, muito do que é material na antiga aliança era sinal e símbolo de uma realidade espiritual, o que também se aplica às bênçãos e promessas materiais, que devem ser entendidas, em sua relação com a Igreja, do ponto-de-vista espiritual.

    – Não estamos, obviamente, a eliminar toda e qualquer bênção material para a Igreja, pois a bênção espiritual tem seus reflexos materiais, mas, como já também estudamos em outra lição, a bênção material está vinculada à suficiência e à beneficência, ou seja, nada tem que ver com a abundância egocêntrica defendida pelos “teólogos da prosperidade”, mas como uma forma de criação de condições para a realização da obra de Deus e para a demonstração do amor ao próximo.

    – Estejamos, pois, sempre vigilantes para que as falsas interpretações dos “teólogos da prosperidade” venham a nos iludir e a esperar bênçãos e promessas que Deus jamais fez à Sua Igreja.

    Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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  • Lição 4: A Prosperidade em o Novo Testamento

    Em o Novo Testamento, a prosperidade é apresentada com ainda maior intensidade espiritual que no Antigo Testamento e uma forma de se revelar o amor ao próximo.

    INTRODUÇÃO

    – Prosseguindo o estudo da prosperidade bíblica, veremos como o tema é tratado em o Novo Testamento.

    – Se no Antigo Testamento, a prosperidade já era apresentada como um estado primordialmente espiritual, este caráter é intensificado em o Novo Testamento, como também como uma forma de se demonstrar o amor ao próximo como prova de que se tem o amor de Deus.

    I – A PROSPERIDADE NAS PREGAÇÕES DE JOÃO BATISTA E DE JESUS

    – Conforme já vimos na introdução deste trimestre, a palavra “prosperidade” aparece algumas vezes em o Novo Testamento. Em At.19:25, palavra utilizada por Demétrio, ourives da prata que fazia imagens de Diana em Éfeso, é “euporia” (???????), cujo significado é de “riquezas, recursos”.

    – Já em I Co.16:2, a palavra grega é “euodóo” (??????), um verbo cujo significado é “ter recebido sucesso”, “ter sido bem sucedido”, tanto que a Versão do Rei Tiago traduz a passagem como “que Deus tem prosperado”.

    – Pelo que podemos, pois, perceber, o significado de “prosperidade”, em o Novo Testamento, traz, praticamente, as mesmas ideias dos termos utilizados no Antigo Testamento, ou seja, de um estado de sucesso, de bom êxito, de abundância e de fartura, inclusive em termos materiais, ainda que a utilização do vocábulo com um sentido material tenha sido feita por um idólatra como era Demétrio.

    – O que vemos, pois, é que, já na análise do significado dos termos utilizados em o Novo Testamento, não temos uma discrepância com relação ao já estudado no Antigo Testamento, a nos mostrar, portanto, que a passagem do Antigo para o Novo Testamento não altera o sentido que a Bíblia dá à prosperidade que, como já se estudou, tem um significado sobretudo espiritual nas Escrituras hebraicas.

    – Este sentido espiritual é, na verdade, intensificado em o Novo Testamento. Disto temos notícia logo no limiar da narrativa dos Evangelhos, quando é apresentada a figura de João Batista, o precursor de Cristo, o último profeta da lei que é um elemento de transição entre a lei e a graça (cf. Jo.1:17;  Mt.11:13; Lc.16:16).

    – Em sua pregação, João Batista demonstrou aos judeus que a simples ascendência biológica de Abraão não os livrava da ira futura (Mt.3:9), desfazendo, assim, uma crença arraigada nos corações de Israel de que sua escolha era puramente étnica, hereditária.

    – Ao pregar que o fato de serem filhos biológicos de Abraão não garantia a salvação para os judeus, João intensificava o caráter espiritual do relacionamento com Deus, desfazendo, assim, a crença de que Deus estaria pronto a abençoar Israel tão somente pela condição étnica, sem que fosse necessária qualquer alteração sobrenatural.

    – Na sua pregação, pois, João Batista desvinculava os aspectos materiais dos aspectos espirituais, passando a batizar judeus, ensinando que eles também, apesar de serem “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, deveriam se arrepender e confessar os seus pecados (Mt.3:2,8).

    – Esta desvinculação entre aspectos materiais e espirituais bem se verifica nas afirmações de João aos diferentes segmentos da sociedade. Para a multidão, João mandou que houvesse a repartição dos bens e alimentos com os necessitados (Lc.3:11), a indicar, portanto, que os bens materiais tinham de ser um instrumento de demonstração de amor, a indicar que devíamos ter tão somente o absolutamente suficiente para uma vida digna.

    – Aos publicanos, notórios por sua cupidez e ganância, que os levavam a se enriquecer à custa da exploração desmedida e da corrupção, João Batista mandou que não pedissem ao povo mais do que lhes era devido, em síntese, que não usassem de sua função para o enriquecimento próprio, em mais uma atitude de desapego aos bens materiais como prova de sua retidão diante de Deus (Lc.3:12,13).

    – Por fim, aos soldados, que também eram conhecidos por sua avidez por riquezas, João mandou que tivessem um comportamento não-violento com a população, mas que se contentassem com o seu soldo, mais uma vez recriminando a ganância e a busca por enriquecimento (Lc.3:14).

    – Diante destas afirmativas de João, vemos que a preparação do caminho do Senhor implicava o desarraigar de crenças que vinculavam a posse de bens materiais aos favores divinos, que relacionavam o bem-estar material com o bem-estar espiritual.

    – Quando Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo inicia o Seu ministério, a mensagem não é diversa. Jesus começa pregando a respeito do arrependimento dos pecados (Mc.1:14,15) e, na chamada dos primeiros discípulos, mostra, claramente, que aqueles homens deviam deixar as suas profissões de pescadores para serem “pescadores de homens” (Mc.1:16,17).

    – No sermão do monte, o grande sermão doutrinário de Cristo, ao falar das bem-aventuranças, ou seja, do significado da felicidade, o Senhor deixa bem clara a dissociação entre esta felicidade superior e a posse de bens materiais, posse esta que nem sequer é mencionada entre as bem-aventuranças (Mt.5:3-12), como haveremos de estudar em lição própria deste trimestre (a lição 6).

    – Na sequência do sermão, o Senhor Jesus é ainda mais explícito com respeito a esta desvinculação, ao afirmar que não devemos ajuntar tesouros na terra, mas, sim, no céu, porque onde ajuntamos tesouros, ali estará o nosso coração (Mt.6:19-21), estabelecendo, mesmo, uma dicotomia entre os que servem a Deus e os que servem às riquezas, não podendo haver servo de Deus que também sirva a Mamom (Mt.6:24).

    – Neste ponto, aliás, o Senhor Jesus mostra que o Seu verdadeiro e genuíno discípulo não pode ficar correndo atrás da comida, bebida e vestido, mas deve, sim, buscar o reino de Deus e a sua justiça, que tudo lhe será acrescentado (Mt.6:25-33).

    – Temos aqui a nítida retomada do que já havíamos visto anteriormente com relação ao que Deus instituiu para o homem. O importante é que tenhamos acesso à árvore da vida, ou seja, que tenhamos comunhão com o Senhor, que busquemos o perdão dos nossos pecados na pessoa de Cristo e, deste modo, passemos a pertencer ao reino de Deus e a sua justiça. Uma vez restabelecida esta comunhão com Deus, todas as coisas nos serão acrescentadas, não havendo porque nos inquietarmos com as questões materiais.

    – O Senhor ensina-nos que, do mesmo modo que Ele cuida da sobrevivência de todos os seres vivos existentes sobre a face da Terra, também haverá de cuidar de nós, mais uma vez nos dando a lição de que as bênçãos materiais prometidas estão relacionadas com a manutenção, com a concessão do necessário para a sobrevivência, não com uma vida regalada e de luxo. O Pai celestial sabe da nossa necessidade de tais bens para nosso sustento e é a isto que está ele atento (Mt.6:32).

    – Ainda neste ensino a respeito da promessa da suficiência, o Senhor Jesus faz questão de ressaltar o caráter secundário da posse de bens materiais, ao dizer que a vida é mais que o mantimento e o corpo, mais que o vestido (Mt.6:25).

    – O objetivo primordial do Evangelho é a vida, ou seja, a concessão da comunhão com Deus. A verdadeira prosperidade encontra-se na “vida eterna”, trazida pelo próprio Jesus ao mundo, visto ser Ele a vida (Jo.1:4; 14:6). Esta é a razão de ser da vinda de Jesus ao mundo (Jo.3:16; 10:10; 20:31).

    – Mais importante, pois, que a própria bênção da abastança, que a promessa da manutenção de uma vida digna durante a nossa passagem terrena é o de termos comunhão com o Senhor, de podermos desfrutar de vida espiritual, de termos sido perdoados por Deus através de Cristo Jesus e de termos garantida a nossa morada no céu.

    – Mais importante que o vestido, diz-nos o Senhor, é o corpo. Muito melhor do que termos uma determinada posição na sociedade, de termos “vestido”, ou seja, sermos notados entre os que conosco convivem, é termos um corpo que é templo do Espírito Santo (I Co.6:19), é sermos instrumento de justiça de Deus, instrumento de santificação por intermédio do nosso corpo (Rm.6:13,19).

    – Este ensino do sermão do monte é repisado pelo Senhor Jesus na parábola do rico insensato. Jesus foi procurado por alguém que, do meio da multidão, pediu que o Senhor interviesse em uma briga de herança, pedindo esta pessoa que Jesus instasse o seu irmão a repartir com ele a herança.

    – Jesus, numa clara demonstração de que não viera a este mundo para promover o enriquecimento de pessoas, disse a esta pessoa que não havia sido constituído como juiz ou repartidor entre aqueles irmãos e, dirigindo-se à multidão, advertiu-a para que se acautelassem e se guardassem da avareza, porque a vida de qualquer não consista na abundância do que possuísse (Lc.12:13-15).

    – Esta passagem é extremamente elucidativa, pois o Senhor Jesus desvincula a prosperidade da posse de bens materiais. Ser próspero não é possuir muitos bens, a abundância prometida por Deus ao homem não é uma medição monetária, não é algo que se vá obter por meio de cálculos matemáticos.

    – Para ilustrar esta sua afirmação, Jesus, então, conta a parábola do rico insensato (Lc.12:16-21), onde fala de um homem rico que tinha produzido em abundância. Ora, segundo os conceitos vigentes entre os judeus, naquele tempo, o fato de o homem ser rico e ainda ter produzido em abundância era uma demonstração de que se tratava de alguém que era abençoado por Deus, alguém que tinha, certamente, a salvação garantida.

    – Este conceito surgido entre os judeus advinha de uma equivocada interpretação a respeito da prosperidade prometida a Israel, muito similar ao que se defende na teologia da prosperidade. Como o Senhor prometia bênçãos materiais em decorrência da obediência de Israel, tinha-se a ideia de que o fato de alguém ter prosperidade material era um indicador de que tal pessoa era obediente a Deus e, portanto, uma pessoa piedosa.

    – No entanto, o Senhor Jesus, ao nos contar esta parábola, ensina-nos que a “vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”. Aquele homem era rico e havia se enriquecido ainda mais, mas, nem por isso, era uma pessoa piedosa, pois Deus o chama de “louco”, uma vez que não havia pensado em sua vida espiritual, tanto que, ao ser pedida a sua alma na noite que se seguiu à solução que o homem encontrou para armazenar tudo quanto havia produzido e que era suficiente para ter uma vida regalada até o fim de sua vida, não tinha se preparado para a eternidade.

    – Jesus, então, ensina a multidão que se deve “ser rico para com Deus” e não ajuntar tesouros para si. Assim, repete o mesmo ensino de João Batista, qual seja, o de que a abundância que é dada por Deus ao homem não é para seu próprio deleite, mas, sim, para que isto seja repartido, compartilhado com aqueles que necessitam. O “rico insensato”, apesar de já ser rico e de ter produzido em abundância, fez um cálculo egoísta, pensou apenas em si, tanto que viu que a produção era mais do que suficiente para que tivesse uma vida regalada até o término da sua existência, não tendo, em momento algum, pensado no outro, pensado no próximo.

    – O Senhor também aproveitou uma ocasião para demonstrar a desvinculação que deve existir entre a prosperidade verdadeira e a posse de bens materiais. Foi no Seu encontro com o “mancebo de qualidade” (Mt.19:16-30; Mc.10:17-31 e Lc.18:18-30), alguém que, segundo os padrões então vigentes entre os judeus, era alguém que se apresentava como “salvo”, já que, além de religioso, era possuidor de muitos bens.

    – Aqui também o Senhor Jesus nos mostra que a posse de bens materiais nada tem que ver com demonstração de salvação ou de comunhão com Deus, pois, além de aquele jovem estar à procura da vida eterna, prova de que não a possuía, ainda rejeitou o convite de Jesus, sendo uma das poucas pessoas que, depois de ter ido à procura do Senhor, deixou Jesus triste e sem salvação.

    – Nesta oportunidade, o Senhor foi bem claro ao afirmar que os que se apegam às riquezas, os que confiam nas riquezas, os que vivem em função das riquezas muito dificilmente alcançarão a salvação.

    – O Senhor mostrou que ser rico não é pecado, mas que confiar nas riquezas, preferi-las à vida eterna é fatal para a vida espiritual de alguém. Assim, lutar por uma vida regalada nesta Terra, estar à busca de obtenção de riquezas, erigir isto como uma prioridade na vida é praticamente assinar a sua sentença de perdição. Como, então, podemos dizer que as pregações e ensinos da teologia da prosperidade tenham algo a ver com o Evangelho que Nosso Senhor pregou?

    – E esta situação ilustrada pela parábola do rico insensato e denunciada quando do encontro com o “mancebo de qualidade”, é descrita como algo real e fático quando o Senhor Jesus nos conta a história do rico e Lázaro, que não é uma parábola, como muitos equivocadamente afirmam, mas um fato que o Senhor revela para nos mostrar a realidade da vida humana (Lc.16:19-31).

    – Nesta história, o Senhor nos mostra um homem rico que teve uma vida regalada, voltada somente para si, insensível ao mendigo Lázaro que jazia cheio de chagas à sua porta. À vista do conceito então vigente entre os judeus, o rico era um homem abençoado por Deus, enquanto que Lázaro era um maldito. No entanto, sobrevindo a morte, Lázaro foi levado ao seio de Abraão, a aguardar a redenção, enquanto que o rico foi levado ao lugar de tormentos, no Hades, para aguardar o juízo final.

    – Jesus não nos diz que a riqueza seja uma maldição, um pecado, mas, no desenrolar da história, revela-nos que, durante a sua vida, o rico não deu qualquer importância à lei do Senhor, a uma comunhão com Deus, da mesma maneira que o “rico insensato”, enquanto que Lázaro, apesar de sua situação miserável, teve a preocupação de servir ao Senhor. Foi por isso que Lázaro alcançou a verdadeira prosperidade, a salvação, a vida eterna, enquanto que o rico nada obteve senão tormentos.

    – Por tudo que vimos, pois, a pregação de Cristo Jesus, o Evangelho, mostra-nos que a verdadeira prosperidade encontra-se em entrarmos em comunhão com o Senhor, em termos a vida eterna, algo que se consegue quando nos entregamos a Cristo, quando nos arrependemos de nossos pecados, crendo no Senhor como nosso único e suficiente Senhor e Salvador.

    – Jesus também prometeu que, durante nossa passagem por esta Terra, dará o necessário para nosso sustento, nada nos deixará faltar, mas que aquilo que obtivermos devemos, também, repartir com o próximo, mostrando que o amor de Deus está verdadeiramente em nós.  O sucesso, o êxito não está, pois, na posse de bens materiais, mas em uma vida de comunhão com Deus, de obediência à Palavra de Deus.

    II – A PROSPERIDADE NOS ENSINOS DOS APÓSTOLOS E DISCÍPULOS DO SENHOR JESUS

    – Ao verificarmos como o tema da prosperidade se encontra nos ensinos dos apóstolos e dos discípulos do Senhor Jesus, vemos que esta mesma linha é mantida, o que não é de impressionar, visto que o que os apóstolos ensinaram foi, precisamente, o que aprenderam do Senhor Jesus.

    – Logo no limiar da igreja primitiva, vemos que os discípulos eram completamente desapegados à posse de bens materiais, a ponto de os discípulos se desfazerem de seus patrimônios para tudo repartirem com os irmãos (At.2:44,45).

    – No registro do primeiro grande milagre de cura da igreja primitiva, Lucas faz questão de deixar consignado que os apóstolos Pedro e João fizeram questão de dizer que não tinham prata nem ouro, mas, sim, o poder de Deus (At.3:6), numa clara alusão de que bem haviam aprendido a lição do Senhor de que a vida não consiste na abundância do que se possui.

    – A primeira demonstração de amor do dinheiro e de tentativa de conciliação entre este amor e o serviço a Deus, manifestada pelo casal Ananias e Safira, foi severamente punida pelo Espírito Santo no seio da igreja (At.5:1-11), gerando grande temor em toda a igreja, a demonstrar a desaprovação divina quanto a este tipo de comportamento.

    – A reação que teve o apóstolo Pedro em Samaria com relação ao comportamento do ex-mago Simão, que pensou poder conseguir por dinheiro o dom de Deus (At.8:18-24), bem revela qual o pensamento vigente entre os apóstolos a respeito do papel do dinheiro para as coisas espirituais.

    – Não vemos, em momento algum, em o Novo Testamento, qualquer ensino dos apóstolos que dissesse que a salvação viria acompanhada de bênçãos de aumento patrimonial, ou que estava destinado aos salvos uma vida regalada sobre a face da Terra, ou, ainda, que devêssemos buscar em Cristo a abundância material.

    – Pelo contrário, vemos que nenhum dos discípulos ou apóstolos era rico ou era dono de um grande patrimônio. Pelo contrário, aqueles que tinham posses, perderam-nas ao longo de seu ministério, como é o caso de Barnabé, que tudo entregou para a Igreja (At.4:36,37) ou do próprio Paulo que, sendo pessoa de destaque na sociedade, quando começou a pregar o Evangelho, não poucas vezes, teve de trabalhar com suas próprias mãos para se sustentar (At.18:3; I Co.4:12; I Ts.2:9; II Ts.3:8).

    – Paulo, escrevendo aos coríntios, foi, aliás, bem enfático ao mostrar que quem espera em Cristo somente para esta vida é o mais miserável de todos os homens (I Co.15:19), indicando que a esperança do cristão não está neste mundo, nem em ter benesses nesta Terra, mas na ressurreição de Cristo que é a garantia de que também seremos ressuscitados e glorificados, passando a viver uma vida muito melhor (I Co.15:17, 51-58).

    – Escrevendo aos tessalonicenses, o mesmo apóstolo mostra que uma das provas de que legitimamente havia pregado o evangelho àqueles crentes foi o fato de nunca ter usado a pregação como “pretexto de avareza” (I Ts.2:5).

    – Como se isso fosse pouco, o apóstolo, ainda, traz um importante ensino do Novo Testamento a respeito de nossa vida material, qual seja, a necessidade e importância do trabalho como forma de aquisição de bens. Quem não trabalhasse, não era sequer digno de comer (II Ts.3:6-12), ensina o apóstolo, mostrando que, apesar de Deus nos prometer a suficiência, isto não isenta o servo do Senhor de trabalhar, como, aliás, foi determinado pelo próprio Criador quando do juízo dado ao homem por sua queda (Gn.3:19).

    – Neste ensino a respeito do trabalho, o apóstolo não estava a inovar, pois o próprio Jesus havia ensinado que Ele trabalhava assim como o Seu Pai (Jo.5:17), a indicar que o trabalho é uma demonstração da “imagem e semelhança de Deus”, que é plenamente restaurada na salvação em Cristo Jesus.

    – Paulo, também, ao falar com os coríntios a respeito da coleta que se devia fazer aos crentes, traz-nos muitas lições a respeito do sentido da prosperidade material para a Igreja, algo muito distante, contraditória mesmo ao que ensinam estes falsos pregadores da teologia da prosperidade.

    – Por primeiro, é importante mostrar que os crentes de Jerusalém e da Judeia que estavam a passar por necessidades são chamados pelo apóstolo de “santos” (I Co.16:1), a provar, pois, que a situação de necessidade pela qual passavam não era resultado de pecado, nem da falta de comunhão com Deus. Assim, a salvação não está vinculada à posse de bens materiais.

    – O que se nota é que esta situação de pobreza estava vinculada a circunstâncias sócio-político-econômicas vividas na região àquela época, como também ao próprio fato de que a história da igreja tinha sido de venda de propriedades e repartição de bens sem que houvesse o elemento trabalho como fonte de aquisição de bens, o que resultou no consumo dos bens sem qualquer reposição, o que se agravou com a cruel perseguição sofrida pelos crentes da parte dos judeus (I Ts.2:14,15).

    – Por segundo, ao mencionar os crentes da Macedônia, não deixa de dizer que eles eram pobres, apesar de terem se convertido (II Co.8:2), em mais uma indicação que a salvação em Cristo Jesus não traz automático enriquecimento material.

    – Por terceiro, o fato de serem pobres materialmente, não os impediu de serem “ricos em generosidade”, tendo, da própria pobreza, dado abundantemente para os crentes judeus, a mostrar, pois, que a multiplicação de recursos, um verdadeiro milagre, é realização que faz o Senhor, mas não com o propósito de acumulação e deleite próprio, mas para que haja a comunicação aos santos (II Co.8:3-8).

    – Por quarto, a abundância material que é dada pelo Senhor não é como uma prova de salvação, mas a prova da salvação não está na abundância, mas, sim, no fato de que esta abundância suprirá a falta de outros e que, no futuro, isto pode novamente ocorrer, com os que deram no passado sejam os que hão de receber no futuro daqueles que, no passado, haviam recebido (II Co.8:14,15).

    – Por quinto, o apóstolo também nos ensina que o que Deus quer nos dar é a suficiência, pois o importante é abundarmos em boas obras (II Co.9:8,9), i.e., as bênçãos espirituais são as mais relevantes, são as que devem ser buscadas por quem serve ao Senhor (II Co.9:10-15).

    – Uma das características do salvo em Cristo Jesus é, precisamente, ainda segundo o apóstolo Paulo, o estar completamente desprendido das circunstâncias materiais para exercer a sua fé, como deixa claro na sua carta aos filipenses, o que será objeto de lição específica neste trimestre (lição 7).

    – Mas não é apenas Paulo quem traz este precioso ensino a respeito da prosperidade em o Novo Testamento e de seu sentido primordial e intensamente espiritual. Pedro, em sua segunda epístola, é bem claro ao mostrar que uma das características dos falsos mestres é, precisamente, o estar preso aos bens materiais, a ponto de fazerem, por avareza, negócio com os crentes (II Pe.2:3), como também receberem “o galardão da injustiça”, por  “terem o coração exercitado na avareza”, seguindo “o caminho de Balaão” (II Pe.2:13-15).

    – Ao apontar que tais são características dos falsos mestres, o apóstolo Pedro nos ensina que dar prioridade aos bens materiais, estar preso a eles é se desviar do Evangelho, repetindo ensino do próprio apóstolo Paulo que nos ensina, também, que “o amor do dinheiro é a raiz de toda a espécie de males e que, nesta cobiça, alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores, mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão, milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas testemunhas” (I Tm.6:10-12).

    – O ensino do Novo Testamento, portanto, é que somos salvos para obter a vida eterna, que é felicidade, a prosperidade está em termos a vida eterna, dela tomarmos posse e de que, quando deixamos a vida eterna em busca de bens materiais, quando passamos a amar as riquezas, desviamo-nos da fé, perdemos a salvação.

    – O escritor aos hebreus traz mais uma afirmação neste sentido, ao exortar os crentes a que “sejam os seus costumes sem avareza, contentando-se com o que têm, porque Ele disse: não te deixarei, nem te desampararei” (Hb.13:5). Aqui, uma vez mais, há a promessa divina de dar-nos o suficiente para sobrevivermos sobre a Terra, bem como a advertência para que não venhamos a ser presa das riquezas, buscando ter cada vez mais, o que nos levará à ganância e à perdição.

    – O escritor aos hebreus volta a lembrar a mensagem de João Batista a respeito do contentamento com o que temos. Uma das grandes armas que o inimigo de nossas almas tem lançado no meio do povo de Deus é, precisamente, a insatisfação com o que se possui, insatisfação motivada seja pelo consumismo desenfreado dominante em nossa sociedade hodierna, seja mesmo pela inveja em relação ao próximo.

    – Neste mesmo diapasão, Tiago, o irmão do Senhor, lembra os ricos de que as riquezas terrenas são passageiras, “como a flor da erva” (Tg.1:10,11), como também faz questão de dizer que “Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que O amam” (Tg.2:5).

    – Para Tiago, portanto, a chamada divina para a salvação não é para que alguém enriqueça materialmente neste mundo, mas para que alcance “a riqueza na fé e a herança do reino de Deus”, que o Senhor Jesus fez questão de dizer que “não era deste mundo” (Jo.18:36).

    – Prosseguindo em sua epístola, Tiago mostra-nos que “a riqueza na fé” tem de ser demonstrada através de obras, através de ações em prol dos necessitados (Tg.2:15,16), uma vez mais mostrando que um salvo pode chegar a ficar nu e a lhe faltar o mantimento cotidiano, sem que isto represente qualquer pecado por parte do irmão.

    – Tiago volta a falar sobre o caráter passageiro das riquezas terrenas, chamando-as, mesmo, de “misérias”, uma vez que os vestidos podem ser comidos de traça e o ouro e a prata, enferrujarem, aludindo, assim, ao que o Senhor Jesus ensinara no sermão do monte (Tg.5:1-3).

    – Tiago aqui remete, também, a advertência de Paulo que manda aos ricos que não ponham sua esperança na incerteza das riquezas e, por isso, se façam altivos, mas que esperem em Deus, que é quem dá abundantemente todas as coisas para que dela gozemos (I Tm.6:17).

    – João, “o apóstolo do amor”, não será dissonante neste sentido que se dá à prosperidade. Já no limiar de sua primeira epístola, mostra que o papel dos apóstolos era “anunciar a vida eterna” (I Jo.1:2), “ a comunhão com o Pai e seu Filho Jesus Cristo” (I Jo.1:3).

    – João, entretanto, mostra que a prova de que o amor de Deus está em nós e de que estamos em comunhão com o Senhor é o amor ao próximo, amor este que é demonstrado pelo fato de que, quem tem bens do mundo, vendo o seu irmão necessitado, não cerra suas estranhas, dá a sua vida pelo irmão (I Jo.3:16-18).

    – Mais uma vez vemos que, quando Deus nos dá bens deste mundo, o objetivo outro não é senão ajudar aquele que não os tem, a prosperidade material eventualmente concedida a um servo de Cristo é para que ele reparta com o que nada possui, com o que tem necessidade, a fim de fazer desta bênção material uma comprovação do amor de Deus entre os homens, pois o mandamento de Deus é o de crermos em seu Filho Jesus Cristo e nos amarmos uns aos outros (I Jo.3:23).

    – Judas, outro irmão do Senhor, em sua epístola, ainda que não de forma explícita, também fala desta realidade, ao fazer coro com Pedro e mostrar que os homens ímpios que se introduziram no meio da Igreja são pessoas que “convertem em dissolução a graça de Deus”, sendo homens “levados pelo engano do prêmio de Balaão” (Jd.11) e que “admiram as pessoas por causa do interesse” (Jd.16), ou seja, são pessoas movidas pelo amor às riquezas, pelas coisas materiais.

    – Já os verdadeiros salvos, diz Judas, são aqueles que se edificam sobre a fé, orando no Espírito Santo, conservando-se no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (Jd.20,21), ou seja, pessoas que dão prioridade à “vida eterna”, que estão em busca do céu, que não se prendem pelas coisas passageiras desta vida.

    – No livro de Apocalipse, então, o apóstolo João diz que fomos feitos reis e sacerdotes para Deus, lavados dos nossos pecados que fomos no sangue de Cristo (Ap.1:5,6), o que, de pronto, já mostra a razão de ser da nossa salvação, o que significa a prosperidade.

    – Neste livro profético do Novo Testamento, aliás, estão presentes sete bem-aventuranças, nenhuma delas relacionada com a posse de bens materiais. A primeira bem-aventurança é a de ler e ouvir as palavras da profecia e guardar as coisas que nela estão escritas (Ap.1:3). Ler, ouvir e guardar a Palavra de Deus é bem-aventurança, é mais do que felicidade, é prosperidade.

    – A segunda bem-aventurança é a dos mortos que morrem no Senhor (Ap.14:13), porque descansam eles dos seus trabalhos e as suas obras os seguem. Vemos aqui que a prosperidade do que morre é “morrer no Senhor” e que a única coisa que segue o homem para a eternidade são as suas obras e não o seu patrimônio, os seus bens materiais, que ficam todos aqui neste mundo.

    – A terceira bem-aventurança diz respeito aos que vigiam e guardam as suas vestes para que não sejam achados nus e se vejam as suas vergonhas (Ap.16:15). Naturalmente, não se trata de uma bem-aventurança material, mas de se manter devidamente vestido espiritualmente, para que não venha a padecer, na eternidade, a vergonha da perdição.

    – A quarta bem-aventurança é a dos que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro (Ap.19:9), ou seja, aqueles que forem arrebatados por Jesus por pertencer à Sua Igreja, aqueles que perseverarem até o fim, que forem fiéis a Cristo até a morte.

    – A quinta bem-aventurança é a dos que tomam parte na primeira ressurreição, ou seja, aqueles que ressuscitarem para reinar com Cristo por mil anos, seja no arrebatamento da Igreja, seja os que morrerem fiéis a Cristo durante a Grande Tribulação (Ap.20:6).

    – A sexta bem-aventurança é a dos que guardam as palavras da profecia do livro (Ap.22:7), ou seja, daqueles que se mantêm obedientes à Palavra do Senhor.

    – A sétima e última bem-aventurança é daqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, ganhando o direito à árvore da vida e entrem na cidade pelas portas (Ap.22:14), mostrando claramente que o acesso à árvore da vida, a comunhão com Deus, é a verdadeira e real prosperidade.

    – Como se pode notar, portanto, em todo o livro do Apocalipse, vemos que a ideia de felicidade, de bem-aventurança está muito longe da posse de bens materiais, tendo apenas que ver com a comunhão com Deus, com a vida espiritual, com o perdão dos nossos pecados por meio de Jesus Cristo.

    – Tanto assim é que, ao longo do livro do Apocalipse, mais de uma vez a posse de bens materiais é apresentada junto àqueles que estão completamente alheios ao Senhor e à Sua Palavra, como é o caso dos ricos mercadores que enriqueceram com o governo do Anticristo, ele próprio envolvido em luxo e riquezas (Ap.18:15,16).

    – Por tudo isto, percebemos claramente que, em o Novo Testamento, mantém-se a ideia da prosperidade como algo sobretudo espiritual, o que foi intensificado em relação ao Antigo Testamento.

    – Esta intensidade, ensina o pastor batista norte-americano John Piper (1946- ), resulta até do fato de que, no Antigo Testamento, a religião era “venha-ver”, ou seja, Deus precisava mostrar quem era a partir de Israel. “…Há um centro geográfico do povo de Deus. Há um templo físico, um rei terreno, um regime político, uma identidade étnica, um exército para lutar as batalhas terrenas de Deus, e uma equipe de sacerdotes para fazer sacrifícios animais pelos pecados.(…) Com a vinda de Cristo tudo isso mudou. Não há centro geográfico para o Cristianismo (João 4:20-24); Jesus substituiu o templo, os sacerdotes e os sacrifícios (João 2:19; Hebreus 9:25-26); não há regime político Cristão porque o reino de Cristo não é deste mundo (João 18:36); e nós não lutamos batalhas terrenas com carruagens e cavalos ou bombas e balas, mas sim batalhas espirituais com a palavra e o Espírito (Efésios 6:12-18; 2Coríntios 10:3-5). Tudo isso sustenta a grande mudança na missão. O Novo Testamento não apresenta uma religião venha-ver, mas uma religião vá-anunciar (…) As implicações disso são enormes para a forma que vivemos e a forma que pensamos a respeito de dinheiro e estilo de vida. Uma das implicações principais é que nós somos ‘peregrinos e forasteiros’ (1Pedro 2:11) na terra. Nós não usamos este mundo como se ele fosse nosso lar de origem(…) A ênfase do Novo Testamento não são as riquezas que nos atraem para o pecado, mas o sacrifício que nos resgata dele.” (Aos pregadores da prosperidade. Disponível em: http://www.pulpitocristao.com/2011/09/john-piper-aos-pregadores-da-prosperidade/ Acesso em 07 dez. 2011).

    – Como se percebe, portanto, o aspecto espiritual da prosperidade, já presente no Antigo Testamento, é reafirmado e ampliado em o Novo Testamento, pois o que se busca é a “vida eterna”, a comunhão com Deus e tão somente isto. Deus, sim, promete-nos bênçãos materiais, bênçãos que têm um duplo propósito: a manutenção de nossa sobrevivência sobre a face da Terra e a oportunidade de, pela repartição dos bens com os necessitados, o testemunho do amor a Deus.

    – Vemos quão diferente é esta realidade bíblica que saem das páginas do Novo Testamento do que andam pregando os teólogos da prosperidade. Fiquemos, pois, com a Bíblia e deixemos estas falsas doutrinas de lado, falsas doutrinas que fazem algumas distorções das Escrituras que analisaremos especificamente nas próximas lições.

    Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

    (mais…)

  • LIÇÃO 3 – OS FRUTOS DA OBEDIÊNCIA NA VIDA DE ISRAEL

    No Antigo Testamento, a prosperidade já era, sobretudo, um estado espiritual de comunhão com Deus.

    INTRODUÇÃO

    Israel foi formado por Deus para ser Sua propriedade peculiar dentre os povos, para ser reino sacerdotal e povo santo.

    – Para cumprir este propósito de ser a “imagem de Deus” entre as nações, o Senhor fez promessas a Israel, que, inclusive, abrangiam bênçãos materiais.

    I – O PROPÓSITO DA FORMAÇÃO DA NAÇÃO DE ISRAEL

    Após a segunda rejeição a Deus de toda a humanidade, ocorrida em Babel, que fez com que o Senhor espalhasse todos os homens pela face da Terra, confundindo as suas línguas e dando origem às diversas nações (Gn.11:1-9), tem início uma nova fase na história da salvação do homem.

    – Com efeito, Deus, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade (I Tm.2:4), tratou de formar uma nação que fosse diferente das demais, uma “propriedade peculiar Sua dentre os povos”, a fim de que, por ela, fossem benditas todas as nações da Terra. Para tanto, chama Abrão de Ur dos caldeus, para dali dar início à formação deste povo distinto, a fim de tornar todas as nações da Terra benditas por seu intermédio (Gn.12:3).

    – Notemos, pois, que o Senhor, dentro do Seu grande amor, queria voltar a abençoar o ser humano, como havia feito desde a sua criação (Gn.1:28), mas, para tanto, era necessário formar um povo que fosse diferente, que tivesse comunhão com Ele e, desta maneira, levasse as demais nações a um novo convívio com o Criador.

    – Atendendo ao chamado de Deus por fé, Abrão deixou Ur dos caldeus e saiu para uma terra que ainda lhe seria mostrada, que foi a terra de Canaã (Gn.12:1,5-7). O Senhor, pois, de pronto, após a obediente resposta de Abrão a Seu chamado, disse que esta nação que seria formada teria por habitação a terra de Canaã.

    – Vemos, pois, desde logo, que o objetivo de Deus na formação de Israel era a formação de um povo que fosse Seu na face da Terra, um povo que com Ele mantivesse a comunhão perdida com a queda no Éden e as sucessivas rejeições que resultaram no dilúvio e na confusão das línguas, comunhão que levasse os demais povos a se encontrar com Deus e que, para tanto, receberia uma porção de terra, a terra de Canaã, para ali viver e executar a sua missão sacerdotal.

    O bem-estar na terra de Canaã, portanto, era um elemento acessório, ainda que necessário e importante, para que Israel cumprisse a sua missão sacerdotal diante dos demais povos da Terra. O objetivo primeiro de Deus era o estabelecimento de uma comunhão espiritual com Israel, comunhão que levasse esta nova nação a trazer os demais povos à presença do Senhor.

    – O propósito de Deus, então, era o de fazer de Israel uma grande nação, não no sentido político-econômico, como demonstrou sempre a história deste povo, que, no seu auge político-econômico, nos reinados de Davi e de Salomão, nunca ultrapassou os limites da terra que foram prometidos por Deus a Abrão (Gn.15:18; Dt.11:24; I Rs.4:21), mas uma grande nação no sentido de ser “uma bênção” (Gn.12:1), ou seja, uma nação que estivesse sob a bênção de Deus e que fosse veículo da bênção de Deus para os demais povos.

    – Tanto assim é que, conforme vimos na lição anterior, Abrão chegou a ter prosperidade material quando estava fora da direção do Senhor, quando de sua ida ao Egito (Gn.12:16), assim como Jacó também gozou de aumento patrimonial quando estava em Padã-Arã (Gn.31:6-9), sem que isto representasse que estivessem de acordo com a vontade do Senhor. Pelo contrário, em ambas as ocasiões, o Senhor interveio para que os patriarcas tornassem a servir a Deus, abandonando estes desvios espirituais (Gn.12:17-20; 31:3).

    – Por isso, o Senhor formou a Israel por intermédio de milagres e não de uso de riquezas materiais ou posições elevadas entre os povos daquelas terras. A nação de Israel foi formada por ações sobrenaturais de Deus, pois Isaque, “o filho da promessa”, nasceu de um ventre amortecido (Hb.11:11,12), assim como o próprio Jacó, pois Rebeca era estéril (Gn.25:21), mesma situação de Raquel, que viria a ser a mãe de José e Benjamim (Gn.30:1,2,22).

    – Mas, para mostrar também que todas as coisas da Terra Lhe pertencem, o Senhor também fez uso da maior potência político-econômica daquele tempo, o Egito, para ali dar fim à formação do Seu povo, mediante a vida de José, que tornado governador do Egito, pôde levar Israel, então apenas um clã de setenta pessoas (Gn.46:27), para ali se multiplicar e ser a nação separada por Deus dentre os povos para Lhe servir (Ex.1:7).

    – Em virtude da sua grandeza obtida entre os egípcios, os israelitas foram escravizados, mas o Senhor dali os livrou por intermédio de Moisés e, quando o povo chegou ao Sinai, conforme havia sido dito pelo próprio Deus, para ali servi-l’O (Ex.3:12), formalizou-se a aliança entre Deus e Israel, segundo a qual Israel passaria a ser a “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, “a nação sacerdotal de Deus e o povo santo” (Ex.19:5,6).

    – A aliança firmada entre Deus e Israel fazia dos israelitas “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, “um reino sacerdotal e um povo santo”. Era este o objetivo e a razão de ser de Israel, era este o seu papel na face da Terra.

    Ser “propriedade peculiar de Deus dentre os povos” fazia de Israel um “bem de Deus”, ou seja, algo a ser cuidado pelo Senhor, algo a refletir a própria “imagem de Deus” diante das nações. Daí, naturalmente, deveria a nação israelita, na terra que lhe havia sido prometida pelo Senhor, ter condições exímias de habitabilidade, ainda mais numa cultura que considerava que a divindade da nação deveria bem demonstrar seu poder na terra habitada por esta nação.

    Ser “reino sacerdotal e povo santo” importava em Israel ter de se apresentar como um país em que todos fossem sacerdotes, ou seja, todos estivessem prontos a oferecer sacrifícios a Deus e a serem mediadores entre Deus e os homens, assim como estarem separados dos demais povos, não se misturarem com eles, servindo única e exclusivamente a Deus e tendo uma vida sem pecado.

    – Para que Israel pudesse ser “propriedade peculiar de Deus dentre os povos” e “um reino sacerdotal e um povo santo”, deveria, segundo a aliança firmada com Deus no Sinai, “diligentemente ouvir a voz de Deus e guardar o concerto firmado com o Senhor” (Ex.19:5).

    O requisito, a condição para que Israel cumprisse o seu papel diante dos povos era a obediência, representada aqui pelo “ouvir a voz de Deus” e “guardar o concerto de Deus”. Por isso, quando repetia a lei para o povo pouco antes de sua morte, Moisés ter dito explicitamente aos israelitas: “Agora, pois, ó Israel, que é o que o Senhor, teu Deus, pede de ti, senão que temas o Senhor, teu Deus, e que andes em todos os Seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor, e os Seus estatutos, que hoje te ordeno para o teu bem?” (Dt.10:12,13).

    – Deus não muda (Ml.3:6) e, assim como deu ao primeiro casal as mais excelentes condições de vida no Éden (Gn.2:8,9), condicionando-as, porém, à obediência (Gn.2:16,17), também prometeu a Israel uma “terra que mana leite e mel”(Ex.3:8,17), desde que eles fossem igualmente obedientes ao Senhor.

    As bênçãos que adviriam a Israel seriam, portanto, resultado direto da obediência que Israel tivesse em relação a Deus. Deus prometia abençoar Israel, prometia fazer de Israel uma bênção, desde que ele obedecesse ao Senhor e tudo para que se mostrasse diante das nações como “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, como “um reino sacerdotal e um povo santo”.

    OBS:“…Esta promessa se afirma ainda hoje, quando o israelita ocupa o seu lugar nas obras sociais do país onde ele vive, pois espalha as bênçãos ao seu redor por meio dos bons princípios ditados pela sua Lei, pelas boas obras, pelos numerosos exemplos de virtude e de santidade, glorificando assim o nome de Deus. Ele serve de modelo na sociedade onde vive. O país que, por uma razão ou outra, persegue o israelita, percebe, cedo ou tarde, o desaparecimento dos frutos que ele semeava com a sua presença.” (MELAMED, Meir Matzliah.Torá: a lei de Moisés, p.582). Pode-se dizer o mesmo de nós onde vivemos?

    O propósito maior de Deus, portanto, era nitidamente espiritual e tinha por finalidade a salvação da humanidade, a restauração da comunhão perdida com o pecado. É este, também, o papel da Igreja, o povo de Deus da atual dispensação, com relação aos demais homens, com relação aos judeus e aos gentios.

    – Nós fomos chamados, também, para ser “testemunhas de Cristo” (At.1:8), para levarmos Jesus até a humanidade, pregando, para isso, o Evangelho a toda a criatura por todo o mundo (Mc.16:15). Somos chamados para ser “luz do mundo e sal da terra”, para ser instrumento para que os homens glorifiquem a Deus (Mt.5:13-16).

    – Assim, eventuais bênçãos materiais que recebamos da parte do Senhor serão apenas um elemento para que cumpramos o nosso papel diante dos homens, jamais um meio para termos uma vida regalada sobre a face da Terra, pois, se assim o fizermos, deixando o Senhor de lado, estaremos tão somente assinando a nossa própria perdição, precisamente aquilo que Deus não quer nem para nós nem para cada um dos homens por ele criados.

    II – OS FRUTOS DA OBEDIÊNCIA PARA ISRAEL

    – Sendo obediente ao Senhor, Israel se tornaria, como já vimos, “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”. O primeiro fruto desta obediência, portanto, seria o de ser um “bem especial do Senhor” diante das nações, a Sua “menina dos olhos” (Dt.32:10; Zc.2:8).

    – A menina o olho ou pupila é “…a parte escura no centro do olho que muda de tamanho de acordo com a quantidade de luz que incide sobre ela, mas também pode ser uma aluna, uma discípula ou uma protegida. Originariamente, o Latim tinha pupus (“menino”) e pupa (“menina”, “boneca”), mais os diminutivos pupillus e pupilla. Numa bela metáfora, pupilla passou a designar a parte central da íris porque nela o observador enxerga uma miniatura de sua própria imagem refletida, semelhante a uma bonequinha.(…). Para não deixar dúvidas de que ambas as denominações têm origem comum, costumamos popularmente chamar também a pupila de menina do olho, de onde o Português desenvolveu o belíssimo costume de chamar de menina dos olhos a pessoa ou coisa que tem um significado muito especial para alguém: ‘A Microsoft é a menina dos olhos de Bill Gates’; ‘Guarda os meus mandamentos e vive; e a minha lei, como a menina dos teus olhos’ (Provérbios 7:2) …” (MORENO, Claúdio. A menina dos olhos. Disponível em: http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/04/29/a-menina-dos-olhos/ Acesso em 30 nov. 2010).

    A obediência ao Senhor faria de Israel “a menina dos Seus olhos”, ou seja, uma nação especial para Deus, um povo com quem o Senhor traria de forma distinta em relação aos demais povos. Não que isso signifique uma “acepção de pessoas”, pois Deus não faz acepção de pessoas, mas Israel foi formada de modo especial, para uma missão específica.

    A obediência ao Senhor faria de Israel “um reino sacerdotal e um povo santo”, ou seja, Israel tinha de existir para ser mediador entre Deus e os homens, para oferecer sacrifícios ao Senhor. Toda a sua vida deveria estar voltada para a adoração a Deus, tinha que ter como objetivo a glorificação do nome do Senhor. Além disso, a nação não poderia se misturar com os demais povos, mantendo-se com uma identidade diferenciada, em virtude de seu papel especial em relação ao Senhor.

    Para que isto se tornasse possível, o Senhor, então, fez a Israel algumas promessas, a fim de que, diante do quadro de maldição que vivia a terra em função do pecado, pudessem os israelitas cumprir o seu papel diante de Deus. Estávamos diante de um pacto e, para tanto, o Senhor tinha, também, assumido compromissos.

    Estas promessas encontram-se elencadas em conjunto nos primeiros quatorze versículos do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, um dos textos prediletos dos “teólogos da prosperidade” que, retirando o texto do contexto, tomam esta passagem como uma das “demonstrações” do que o Senhor tem prometido ao Seu povo a prosperidade material ou de que a prosperidade material é consequência direta da obediência a Deus, falsidades que devem ser prontamente afastadas pelos servos do Senhor.

    – Teremos uma lição específica em que analisaremos o que das promessas bíblicas se refere a Israel e o que se refere à Igreja, razão pela qual não nos deteremos, neste presente estudo, a respeito do cabimento desta ou daquela promessa à Igreja, mas não podemos nos esquecer do contexto do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, ou seja, de que se tratam de promessas feitas pelo Senhor a Israel para que tivesse ele condições de cumprir, a contento, o seu papel de “reino sacerdotal e povo santo”.

    – Por primeiro, devemos nos lembrar que Israel é uma nação material, biológica, ou seja, formada por pessoas que pertencem a uma determinada descendência, ou seja, a linhagem de Abraão, Isaque e Jacó e que deveria habitar num território determinado, a terra de Canaã. Ora, em sendo assim, teria de ter condições físicas e materiais para poder cumprir o seu papel de ser “bênção” para todos os povos.

    OBS: “…Lembremos que a terra prometida a Abraão não era uma terra ‘espiritual’; ela possuía dimensões, fronteiras e localização (Gn 15.18-20).…” (Semente da Vida Igreja Evangélica. O pacto palestino. Disponível em: http://www.igrejasementedavida.com.br/docs/escatologia-israel-historia/aula11.html Acesso em 29 nov. 2011).

    – O contexto do capítulo 28 de Deuteronômio já muito nos elucida. Moisés, em seu discurso em que repetia a lei para o povo pouco antes de morrer, acabara de determinar aos anciãos de Israel que, em entrando na Terra Prometida, deveriam renovar o pacto firmado no Sinai, renovação do pacto que se faria com a divisão do povo em dois grupos, um que subiria ao monte Gerizim (as tribos de Simeão, Levi, Judá, Issacar, José e Benjamim) e outro que subiria ao monte Ebal (as tribos de Ruben, Gade, Aser, Zebulom, Dã e Naftali).

    – O grupo que estaria no monte Gerizim pronunciaria as bênçãos sobre o povo, decorrentes da obediência ao Senhor, enquanto que o grupo que estivesse no monte Ebal pronunciaria as maldições sobre o povo, decorrentes da desobediência ao Senhor (Dt.27:11-28). Através deste gesto, que os estudiosos da Bíblia chamaram de “pacto palestiniano” ou “pacto palestino”, gesto que foi realizado por Josué em meio à conquista da Terra Prometida (Js.8:30-35), o compromisso de servir a Deus foi selado na terra de Canaã.

    OBS: “…O pacto palestino é a aliança feita entre Deus e Israel na terra de Moabe durante o Êxodo, antes de tomarem posse da terra (Dt 29.1; 30.1-8). Esta aliança estabelecia condições para que Israel desfrutasse da terra que lhes pertencia por direito.…” (Semente da Vida Igreja Evangélica. O pacto palestino. Disponível em: http://www.igrejasementedavida.com.br/docs/escatologia-israel-historia/aula11.html Acesso em 29 nov. 2011).

    – Quando vemos esta determinação de Moisés, verificamos que a bênção e a maldição decorriam tão só do cumprimento da lei por parte de Israel. A obediência era o segredo para ser “bendito” ou “maldito”. Era por cumprir a lei e viver pelos mandamentos dados por Deus que Israel alcançaria a bênção ou a maldição (Dt.11:26-28).

    – No entanto, como uma demonstração de que o povo estava a obedecer, ou não, ante a circunstância de que Israel era uma nação estabelecida num determinado território, o Senhor fez promessas de bênçãos materiais aos israelitas, para que eles pudessem se manter como nação independente das demais e com condições de levá-las a servir a Deus.

    – Assim é que, já no capítulo 11 do livro de Deuteronômio, vemos que o Senhor traz os benefícios da obediência, a começar pela chuva a seu tempo, a temporã e a serôdia, para que pudessem ser recolhidos o grão, o mosto e o azeite (Dt.11:14,15).

    – Esta circunstância a respeito da chuva era fundamental para a sobrevivência de Israel que, em seu período de formação no Egito, vivia um outro regime, que era o da irrigação do Nilo, o único rio daquele país (Dt.11:10,11).

    – Não é por acaso que a primeira forma de Deus mostrar Seu descontentamento com Israel ao longo da história sagrada era a falta de chuva sobre a Terra, que gerava fome e, consequentemente, necessidades para todo o povo, um eloquente sinal para que se buscasse a Deus e se descobrisse o que estava a ocorrer (cf. II Sm.21:1).

    Em havendo obediência ao Senhor, Deus prometia a Israel a manutenção de seu sustento, as condições para que pudesse, do fruto da terra, obter a sua sobrevivência, para que, tendo com que comer, beber e vestir, pudesse exercer o seu papel de “reino sacerdotal e povo santo”.

    – Vemos, pois, que o objetivo de Deus em prometer a chuva da terra não era o do enriquecimento para Israel como “pagamento de sua obediência”, nem tampouco a “fartura desmedida”, como “demonstração da santidade dos israelitas”, mas lhes dar condição para que, tendo com que comer, beber e vestir, não depender das demais nações e, assim, em independência, poder cumprir o propósito estabelecido para que servisse a Deus e fosse um veículo de aproximação entre Deus e os demais povos.

    – O Senhor também prometeu erva no campo para que o gado pudesse se alimentar (Dt.11:15) e, desta maneira, servir não só de alimento para o povo, mas também para que pudessem ser feitos os sacrifícios exigidos pela lei. Todas as bênçãos materiais, como se vê, estavam umbilicalmente relacionadas com o papel assumido por Israel na aliança do Sinai.

    – Ao mesmo tempo em que o Senhor prometia bênçãos materiais para Israel, não deixou de alertar os israelitas para que seus corações não se deixassem enganar pela prosperidade material e, com isso, se desviassem dos caminhos do Senhor, pois, se isto acontecesse, se o povo deixasse de servir a Deus por causa das bênçãos dadas por Deus, tais bênçãos desapareceriam, com o fechamento dos céus, a falta de água e o consequente perecimento por falta de condições de sobrevivência (Dt.11:16,17).

    – É este, pois, o contexto do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, ou seja, as consequências da obediência ao Senhor, a criação por parte de Deus das condições para que Israel cumprisse o propósito de Deus, que era o de ser uma referência entre as nações para que elas se voltassem ao Senhor.

    – A “exaltação sobre todas as nações da Terra” prometida pelo Senhor a Israel se obedecesse aos Seus mandamentos (Dt.28:1) não era o de se tornar uma “potência político-econômica”, um “império”, mas, sim, de se tornar uma nação diferente das demais, com plenas condições de autossustento e que se distinguisse das outras pela sua maneira de viver, pela sua adoração a Deus.

    – É precisamente o que se requer da Igreja em nossos dias. Nós somos exaltados não porque assumimos posições de destaque na sociedade, nem tampouco porque nos tornamos “endinheirados”, “poderosos” em termos político-econômicos, mas, sim, porque temos uma maneira de viver distinta que faz com que os homens venham a nos perguntar a razão da esperança que há em nós (I Pe.3:15), algo que advém da nossa santidade, daquilo que somos, não daquilo que porventura tenhamos.

    – Os “teólogos da prosperidade”, entretanto, desvirtuam esta realidade bíblica, defendendo uma “exaltação” que é antibíblica e satânica. O salvo por Cristo Jesus não precisa ser um “milionário” para mostrar ao mundo que serve a Cristo, que é salvo e que vai para o céu. Não é através de uma “ostentação de riqueza” que iremos mostrar que servimos a Deus. Pelo contrário, a “ostentação de riquezas” nada mais é que a “soberba da vida”, um dos elementos que caracteriza o mundo sem Deus e sem salvação (I Jo.2:16).

    OBS: A expressão “soberba da vida” encontrada nas Versões Almeida Revista Corrigida e Atualizada é traduzida na Nova Tradução na Linguagem de Hoje por “orgulhos pelas coisas da vida”; na Nova Versão Internacional, por “”ostentação dos bens” e na Tradução da CNBB por “ostentação da riqueza”. Portanto, o que os “teólogos da prosperidade” dizem ser “sinal de Deus na vida do salvo” não passa de um elemento característico do mundo e, neste caso, como a Bíblia nos ensina, “quem ama o mundo o amor do Pai não está nele”. Tomemos cuidado, amados irmãos!

    A primeira bênção prometida a Israel pela sua obediência a Deus é de que “bendito serás tu na cidade e bendito serás no campo” (Dt.28:3).

    – Ora, desde logo, vemos que a primeira bênção está diretamente ligada ao propósito estatuído por Deus àquela nação, a de que seria uma bênção (Gn.12:2). A primeira bênção diz respeito ao próprio ser do israelita. Ele mesmo seria uma bênção, seja na cidade, seja no campo.

    – Deus promete que Seu povo seja uma bênção, isto é, ele será um motivo para que todos que estejam com ele sejam abençoados. Ele é um canal de bênçãos, pois ele é “bendito”. Assim Jesus Se apresentou aos homens e assim foi aclamado quando adentrou em Jerusalém pela vez derradeira em Seu ministério terreno (Mt.21:9; Mc.11:9).

    – Jesus foi aclamado como “bendito”, porque provou sê-lo ao andar fazendo bem e curando a todos os oprimidos do diabo (At.10:38). Nós, como Seus imitadores (I Co.11:1; I Pe.2:21), também devemos nos comportar como Ele Se comportou, andando a fazer bem e a curar a todos os oprimidos do diabo. Assim, provaremos que somos “benditos”, que somos “luz do mundo e sal da terra”.

    – Vemos, pois, que esta bênção primeira discrepa radicalmente do que é ensinado e estimulado pelos “teólogos da prosperidade”, que não falam de “pessoas abençoadas” que “façam bem e curem todos os oprimidos do diabo”, mas, sim, de pessoas que irão possuir muito para seu próprio deleite e regalo, sem se preocupar com o próximo e querendo sempre ganhar e ganhar cada vez mais. Tais “teólogos” estão a querer transformar os salvos em Cristo Jesus no rico da história de rico e Lázaro (Lc.16:19-31) e, que, como aquele rico, acabarão por passar para eternidade sem Deus e sem salvação, por ter amado as riquezas (I Tm.6:10). Que Deus nos guarde!

    A segunda bênção prometida pelo Senhor a Israel pela sua obediência a Deus é a bênção do “fruto do ventre, do fruto da terra, do fruto dos animais, a criação das vacas e os rebanhos das ovelhas” (Dt.28:4). Aqui, o Senhor promete ao israelita fiel que abençoaria a sua descendência, algo necessário para a manutenção da existência da nação ao longo das gerações para que cumprisse o seu papel diante da humanidade, como também de todo o patrimônio, para que se tivesse a suficiência igualmente indispensável para a sobrevivência da nação.

    – Observemos que o Senhor não prometeu a multiplicação indiscriminada, a acumulação de riquezas em virtude da obediência a Deus. Prometeu que a descendência e o patrimônio seriam abençoados, ou seja, seriam tais que permitiriam a manutenção da existência da nação ao longo das gerações. Não temos aqui um acúmulo desmedido, mas a promessa de que tudo contribuiria para o bem.

    – Não resta dúvida de que Deus quer abençoar a nossa família e o nosso patrimônio, mas o objetivo desta bênção é a da manutenção da existência nossa ao longo das gerações para que cumpramos o propósito divino de sermos “luz do mundo e sal da terra”. Não há aqui qualquer promessa divina para que tenhamos uma “vida regalada”, para que sejamos “milionários”. Tudo isto não passa de distorção das Escrituras por parte destes agentes diabólicos que são os “teólogos da prosperidade”.

    A terceira bênção refere-se à “bênção do cesto e da amassadeira” (Dt.28:5), ou seja, ao fato de que haveria não só boas colheitas, mas elas seriam aproveitadas, devidamente armazenadas e não perdidas ao longo do ano. Deus prometia não só uma produção suficiente, mas que haveria condições para que aquela produção fosse distribuída de maneira que todos pudessem ser satisfeitos em suas necessidades.

    – Isto assume uma importância muito grande, pois sabemos que, na atualidade, muitos passam fome ao redor do mundo mas não é por falta de produção. O Senhor dá o necessário para o sustento de toda a humanidade, algo que, inclusive, é potencializado pelo desenvolvimento tecnológico que tem aumentado a produtividade. Entretanto, toda esta produção não é distribuída corretamente, de sorte que muitos passam fome e muito alimento é desperdiçado no mundo.

    OBS: “…No entanto, há suficiente alimento no mundo para o sustento diário de todos os habitantes do planeta, afirma Benedikt Haerlin, da fundação Zukunftsstiftung Landwirtschaft, que apoia projetos ecológicos e sociais no setor agrícola. ’Hoje produzimos alimentos demais. Muito mais do que seria necessário para alimentar a população atual, sendo que ainda nem estamos perto de esgotar o potencial da alimentação direta. E, para pequenos produtores rurais, dobrar a produção custa pouco’, argumenta Haerlin, que participou da elaboração do Relatório Internacional sobre Ciência e Tecnologia Agrícolas para o Desenvolvimento (IAASTD, na sigla em inglês) de 2008.(…) ‘Se temos 1 bilhão de pessoas que passam fome por não ter dinheiro para comprar comida e outro bilhão de clinicamente obesos, alguma coisa está obviamente errada’, alerta Janice Jiggings, do Instituto Internacional para Meio Ambiente e Desenvolvimento em Londres.(…) Já hoje existe mais comida que o necessário, garante o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner. E sem cultivar um quilômetro quadrado que seja a mais, seria possível alimentar toda a população do planeta.’Ao mesmo tempo em que temos uma crise de alimentos, jogamos fora 30% a 40% dos alimentos produzidos. Ao invés de nos perguntarmos onde podemos encontrar mais terra para cultivar ou se será preciso plantar na Lua, deveríamos olhar para o nosso quintal. Temos que encontrar estímulos financeiros para evitar que se jogue comida fora’, conclui.” (JEPPESEN, H; ZAWADZKY, K e ABDELMALAK, R. Rev. de Augusto Valente. Fome é causada pela má distribuição e não pela falta de alimentos. Deutsche Welle, 15 out. 2009. Disponível em: http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4792836,00.htmlAcesso em 29 nov. 2011).

    – Para demonstrar Seu desagrado para com o povo, Deus, por vezes, não apenas fez cessar a chuva da terra, mas também impediu que houvesse distribuição e armazenamento do que se produziu, como ocorreu nos dias seguintes ao retorno do cativeiro, quando o povo negligenciou na reconstrução do templo em Jerusalém, como se deixou claro na mensagem do profeta Ageu (Ag.1:5,6).

    A quarta bênção prometida pelo Senhor em decorrência da obediência a Deus é a “bênção da entrada e a bênção da saída” (Dt.28:6). A Nova Versão Internacional e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduzem esta benção como “a benção em tudo o que fizerem”. Trata-se da promessa de sucesso e de bom êxito em todas as ações que forem realizadas pelo povo.

    – O Senhor Jesus ensinou-nos que nada podemos fazer sem Ele (Jo.15:5 “in fine”). Assim, quando o Senhor promete a Israel que ele seria bem sucedido em tudo quanto fizesse, estava a prometer que estaria com o Seu povo em todos os momentos, em se mantendo a comunhão com Ele.

    – Israel, estando em comunhão com o Senhor, tudo faria para cumprir o seu papel diante das nações, ou seja, estaria a tomar atitudes sempre com o objetivo de glorificar e adorar ao Senhor, de fazer com que as nações se aproximassem de Deus. Eis a razão pela qual todas estas ações seriam bem sucedidas, porque seriam do agrado do Senhor e teriam por finalidade a glória do Seu nome.

    – Não é por outro motivo, pois, que Israel jamais se constituiu em uma nação imperialista, que visava dominar os povos da Terra, jamais saiu no encalço dos outros povos para construir um “império”. Não era este o seu objetivo, não era para isto que havia sido constituída, mas, sim, para levar o nome do Senhor para os demais povos e, assim, como mediadores entre eles e o Senhor, levá-los à comunhão com o Criador.

    – Mesmo nos dias de Davi, o grande guerreiro da história sagrada, Israel não foi além das fronteiras estatuídas por Deus a Abraão, fronteiras que foram mantidas por Salomão, cujo reinado caracterizou-se pela paz, pela ausência de conflitos armados com os povos vizinhos.

    A prosperidade material, portanto, tinha um só propósito: dar condições a que o papel espiritual de Israel fosse cumprido. Os frutos materiais da obediência ao Senhor não visavam, em absoluto, uma vida regalada, uma vida voltada para os prazeres deste mundo, mas tão somente a criação de meios para que Israel se dedicasse a servir a Deus diante das demais nações.

    – Por isso, o Senhor prometeu a Israel que entregaria os inimigos que se levantassem contra ele (Dt.28:7). Notemos que o Senhor promete proteger Israel das investidas dos inimigos, mas, em momento algum, determinava que Israel fosse invadir outras terras, salvo, logicamente, as cidades ocupadas na terra de Canaã, que Deus lhes havia dado.

    – Esta agressividade competitiva defendida, hodiernamente, pelos “teólogos da prosperidade”, esta ganância desmedida estimulada por estes agentes satânicos não tem, como se vê, qualquer respaldo bíblico, nem mesmo no capítulo 28 do livro de Deuteronômio. Quem põe sua esperança e confiança no dinheiro, jamais se satisfará e tudo isto, diz Salomão, é vaidade (Ec.5:10). Fujamos, pois, desta pregação do deus Mamom, pois quem serve ao dinheiro, jamais servirá ao Senhor (Mt.6:24).

    – O Senhor prometia a bênção material para Israel “na terra que te der o Senhor teu Deus” (Dt.28;8), a confirmar o que já temos dito algumas vezes no presente estudo, ou seja, de que as bênçãos materiais tinham o propósito de criar condições para que Israel fosse “reino sacerdotal e povo santo”. Era este o objetivo de abençoar os celeiros e tudo em que os israelitas pusessem a mão (Dt.28:8).

    – O Senhor, através destas bênçãos materiais, tinha por propósito confirmar a Israel como “povo santo”, para mostrar às demais nações que era “o povo chamado pelo nome do Senhor” (Dt.28:10) e, por este motivo, os povos teriam temor de Israel, expressão que não significava apenas “medo”, mas, muito mais do que isto, respeito e consideração, atitudes que fariam com que os povos se interessassem em saber porque Israel era assim e, deste modo, pelo testemunho apresentado pelos israelitas, pudessem se aproximar do Senhor.

    – Toda a abundância de bens prometida pelo Senhor(Dt.28:11,12) tinha por objetivo a “confirmação da santidade” do povo de Israel e, portanto, não poderia jamais serem bens utilizados para a prática do pecado. O que os “teólogos da prosperidade” de nossos dias não explicam é qual o uso e qual o objetivo com que Deus prometia abençoar Israel. Assim, sem tal explicação, acabam por incitar no povo incauto o desejo pela vaidade, o desejo pela acumulação, o desejo pelo enriquecimento. Já perceberam que os “testemunhos” apresentados por este tipo de gente só traz pessoas que dizem ter hoje uma “vida regalada”? Quantos já ouviram “testemunhos de prosperidade” em que a abundância supostamente recebida é utilizada para “confirmação da santidade”, para a glória do nome do Senhor?

    – Tanto assim é que a abundância patrimonial prometida a Israel é dita que será aproveitada para que houvesse “empréstimos a muitas gentes”, ou seja, o que sobrasse eventualmente do produzido, das riquezas auferidas, deveria ser “emprestada” a outros povos, empréstimos que não poderiam ser usurários, com propósito de exploração das outras nações, algo que era vedado pela lei, que mandava que o estrangeiro fosse bem tratado, visto que Israel havia sido povo estrangeiro no Egito (Ex.22:21; 23:9; Lv.19:33,34; Dt.10:19).

    – A posição superior também prometida a Israel (Dt.28:13) não era, de modo algum, uma posição de ostentação, para que houvesse a opressão dos demais povos, mas uma posição de destaque para que todos se aproximassem do Senhor, para que, por meio de Israel, todas as nações se apresentassem a Deus, cumprindo-se, deste modo, o papel de “reino sacerdotal” estatuído a Israel no Sinai.

    – Tratava-se, portanto, de um destaque, de uma demonstração de grandeza espiritual, que levassem os povos a servir a Deus, a reconhecer que o Senhor estava com Israel e que era o único Senhor e Deus (Dt.6:4), realidade que é o centro da própria fé israelita e que é enunciada logo após que se adverte o povo a servir ao Senhor em toda a lei (Dt.6:1-3).

    “Ser cabeça e não, cauda”, portanto, nada tem que ver com ostentação, fama ou assunção de uma posição social invejável, como se diz por aí pelos “teólogos e pregadores da prosperidade”, mas, antes, em se estar “espiritualmente por cima”, ou seja, de se manter em pé, em comunhão com o Senhor, cumprindo-se o que Deus quer de cada um de nós.

    – Além destas bênçãos constantes do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, temos, também, a promessa dada pelo Senhor logo no início da jornada no deserto, em Mara, quando o Senhor deu “estatutos e uma ordenação” a Israel (Ex.15:25).

    – Ali, o Senhor deu a promessa da “bênção da saúde”, quando disse a Israel que, se ele fosse obediente, não poria nenhuma das enfermidades que havia posto sobre o Egito, porquanto Ele era o “Senhor que sara” (Javé-Rafá) (Ex.15:26).

    – Com base nesta promessa dada pelo Senhor a Israel, há aqueles que também defendem uma “imunidade contra doenças” por parte de Deus a todos quantos forem fiéis ao Senhor. A doença, dizem aqueles defensores da “teologia da confissão positiva”, seria uma prova de desobediência, um sinal de pecado.

    – Nada mais falso, porém, amados irmãos! A promessa feita pelo Senhor era, sim, de saúde, mas, notemos o que se diz: “nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que pus sobre o Egito”. Ora, quais as enfermidades que Deus havia posto sobre o Egito? As pragas decorrentes do endurecimento do coração de Faraó, os juízos consequentes da resistência à ordem do Senhor para que o povo saísse da escravidão no Egito.

    A promessa que Deus dava a Israel, portanto, não era de “imunidade contra as doenças”, de “saúde eterna”, até porque, conforme já vimos, nas próprias promessas dadas a Israel, estava a da bênção do fruto do ventre, para continuidade da existência biológica do povo, prova de que as pessoas haveriam de morrer, porquanto estamos no mundo e a morte física é um juízo estatuído por Deus a toda a humanidade por causa do pecado.

    A promessa que Deus dava a Israel é de que, se ele fosse obediente ao Senhor, não haveria como pragas e juízos em forma de enfermidades fossem lançados sobre o povo como haviam sido sobre o Egito. A obediência livra-nos de todas as enfermidades que resultam de juízos divinos, que resultam de maldições, tanto que, se houvesse desobediência, tais doenças se manifestariam no meio do povo de Israel (Dt.28:21,22,60,61).

    – Tanto assim é que um grande profeta levantado por Deus, Eliseu, morreu por causa de uma enfermidade (II Rs.13:14), doença esta que não era resultado de pecado algum, tanto que, mesmo depois de morto, ainda foi contabilizado um milagre a Eliseu, a ressurreição de um morto que tocou em seus ossos (II Rs.13:21).

    – Como diz Norbert Leith, “…Tantos vivem um cristianismo tenso porque são levados a crer que precisam ser curados de qualquer maneira. Dessa forma, muitos enfrentam os maiores problemas quando a cura não vem. O Novo Testamento fala de sofrimento físico em muitas passagens. E os cristãos não estão isentos dele; pelo contrário, são exortados a suportar os sofrimentos com ânimo e coragem.(…) cremos que Deus fa milagres ainda hoje e cura pessoas; cremos que devemos orar por elas. Mas como em todos os assuntos, a fé na cura deveria estar embasada na Escritura como um todo, para que não sejamos levados pelo engano.” (O que Jesus não carregou na cruz.  Chamada da meia-noite, ago. 2011, ano 42, n. 8, p.20).

    – A saúde aqui também está vinculada à missão que Israel deveria realizar para o Senhor diante das nações. Israel não seria atingida por juízo divino algum para que pudesse ser “reino sacerdotal e povo santo”, para que pudesse levar as nações à comunhão com o Senhor.

    OBS: O sábio judeu Rashbam, nome pelo qual é conhecido Samuel ben Meir (1085-1158), afirma o seguinte sobre esta promessa divina: “…D’us também prometeu aos judeus que se eles aceitassem as mitsvot [os mandamentos, observação nossa], Ele tomaria conta de todas as suas necessidades. Esta é a implicação do versículo: ‘então Eu não lhe atingirei com quaisquer das doenças que Eu trouxe ao Egito, pois Eu sou D’us que lhe cura’ (v.26) i.é, a praga (‘doença’) de sangue que aconteceu no Egito, impedindo os egípcios de ter água potável, não será colocada nos judeus, se eles observarem os preceitos.” (CHUMASH: o livro de Êxodo. Compil. e adapt. por Rabino Chaim Miller, p.106) (destaque original).

    – Como notamos, portanto, o Senhor estava disposto, sim, a dar prosperidade material a Israel, mas como uma forma de permitir que os israelitas cumprissem o propósito maior de ser “reino sacerdotal e povo santo”, algo bem diferente do que se anda ensinando por aí pelos falsos pregadores da prosperidade.

    – De igual modo, a Igreja, para bem cumprir a sua missão de evangelizar o mundo, tem, também, da parte de Deus, promessas condicionadas à sua obediência, mas jamais para que tenha uma vida regalada aqui na Terra, mas para que possa ser “luz do mundo” e “sal da terra”. Temos consciência disto?

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.

    (mais…)

  • Lição 2: A prosperidade no Antigo Testamento

    No Antigo Testamento, a prosperidade já era, sobretudo, um estado espiritual de comunhão com Deus.

    INTRODUÇÃO

    – Após termos visto o surgimento desta praga chamada “teologia da prosperidade”, passaremos a ver como a Bíblia trata do assunto.

    – No Antigo Testamento, a prosperidade já era, sobretudo, um estado espiritual de comunhão com Deus.

    I – O SENTIDO DA PROSPERIDADE DA CRIAÇÃO ATÉ OS PATRIARCAS

    – Para bem entendermos que é a “prosperidade bíblica”, necessário se faz que observemos, no livro sagrado, qual o propósito de Deus para o homem. Quando foi criado pelo Senhor, o homem o foi com um determinado objetivo, deveria ele cumprir um determinado papel na ordem cósmica estabelecida pelo Criador.

    – Assim, no relato da criação do homem, vemos claramente que o Senhor criou o homem para ser seu mordomo sobre a face da Terra, para ser “imagem e semelhança de Deus”, que dominasse sobre os peixes do mar, as aves dos céus e todo o animal que se movesse sobre a Terra (Gn.1:27,28).

    – Neste propósito estabelecido por Deus, é dito que o Senhor “abençoou” o primeiro casal e mandou que eles frutificassem, se multiplicassem, enchessem a Terra e a sujeitassem, dominando sobre a criação terrena.

    – Ora, neste sentido, vemos que a prosperidade, que vimos na introdução ao trimestre que é um estado de felicidade, de abundância, resultava, em primeiro lugar, da “bênção de Deus” e da obediência ao Senhor, na medida em que houvesse frutificação, multiplicação, enchimento da terra e sujeição e dominação da criação terrena por parte do homem.

    – O homem foi posto num jardim especialmente plantado por Deus para ele no Éden (Gn.2:8), um ambiente próspero, visto que havia fartura e abundância, já que o Senhor Deus havia feito brotar da terra toda árvore agradável à vista, e boa para comida. E a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal (Gn.2:9).

    – Estas circunstâncias relatadas no livro do Gênesis mostram-nos, claramente, quais eram as faces da prosperidade vivida pelo primeiro casal naquele ambiente especialmente criado para eles. Por primeiro, havia “toda árvore agradável à vista”, ou seja, um ambiente psíquico favorável ao homem, que somente veria o que era agradável e, assim, teria um grande bem não só para a sua alma e espírito, mas também para o seu corpo, já que os olhos são a candeia do corpo (Mt.6:22).

    – Por segundo, havia “toda árvore boa para comida”, ou seja, o Senhor fornecia ao homem abundância e fartura para sua sobrevivência material, dando-lhe o necessário para o seu sustento, sem qualquer preocupação para a sua manutenção sobre a face da Terra. Sem dificuldade ou preocupação, o homem tinha o suficiente para sua subsistência.

    – Por terceiro, havia “a árvore da vida no meio do jardim”, ou seja, o homem desfrutava de uma comunhão com Deus, de tal maneira que tinha pleno acesso à vida, a “vida eterna”, que nada mais é que o contato para sempre com o Senhor, o desfrute da Sua companhia e presença sem limite de tempo (cf. Gn.3:22). A felicidade repousava, também, nesta constante e eterna comunhão com o Senhor.

    – Por quarto, havia “a árvore da ciência do bem e do mal”, a árvore de cujo fruto não se poderia comer (Gn.2:16,17), que era a prova da obediência, a condição para a manutenção daquele estado de prosperidade onde o homem foi posto. Enquanto houvesse a obediência, haveria vida, haveria a comunhão com Deus e, diante da comunhão com Deus, o bem-estar psíquico e físico, a fartura espiritual e material em torno da qual se poderia cumprir o propósito estatuído pelo Criador.

    – Notamos, portanto, que, posto num ambiente originariamente próspero, o ser humano, abençoado por Deus, tinha plenas condições de cumprir o desiderato do Senhor, desiderato a ser cumprido dentro de um ambiente de prosperidade, prosperidade que, embora tendo um aspecto material, estava longe de ser reduzido a mera abundância de bens e de recursos.

    – Com a queda, esta situação se alterou radicalmente. A situação de prosperidade se desfez. Em virtude da desobediência, em vez de bênção, adveio maldição sobre a Terra, que passou a produzir cardos e espinhos, de forma que não estava mais à disposição da satisfação das necessidades do homem (Gn.3:17,18).

    – O homem também passou a ter de trabalhar penosamente para sobreviver, passando a ter de tirar da Terra, já não mais à sua disposição, o necessário para a sua subsistência (Gn.3:19). Passou, então, a ter de buscar o sustento da criação terrena, não havendo, pois, mais aquele bem-estar físico e psíquico que caracterizaram a sua vida no jardim do Éden.

    – Por fim, o acesso à árvore da vida lhe foi vedado, sendo ele mesmo expulso do jardim que o Senhor havia plantado (Gn.3:22-24), de sorte que não havia mais a comunhão com Deus, a eternidade passou a ser algo tenebroso a ser vislumbrado no horizonte do homem, pois seria uma eternidade sem Deus.

    – Já neste primeiro relato a respeito do homem, notamos que a prosperidade é um estado sobretudo espiritual, uma felicidade que decorre da bênção de Deus, que está condicionada à obediência do homem a Deus e que apresenta elementos prioritariamente espirituais e que tem, sim, uma repercussão material, mas que está longe de se reduzir a isto.

    – No relato a respeito de Caim, vemos, claramente, como a prosperidade não está reduzida, em absoluto, a aspectos materiais. Se formos analisar a civilização caimita sob o aspecto material, temos de concluir que se tratava de uma civilização avançada e “próspera”, já que Caim fundou a primeira cidade que se tem notícia, bem como seus descendentes deram início à agropecuária, às artes e à indústria (Gn.4:17, 20-22), fatores que, de forma inequívoca, propiciaram aos homens excelentes condições para conseguirem o seu sustento sobre a face da Terra.

    – No entanto, a descrição bíblica mostra que os caimitas construíram uma civilização completamente alheia ao Senhor, civilização que gerou, em todo o mundo, uma corrupção generalizada, com multiplicação da maldade, inclusive na imaginação dos pensamentos do coração do homem, a tal ponto que o Senhor decidiu destruir toda aquela geração (Gn.6:5-7).

    – Havia, assim, fartura material que, entretanto, não significava “prosperidade”, pois a felicidade não era alcançada. Deixando Deus de lado, os caimitas, que, inclusive, chegaram a envolver os setitas nesta situação, geraram a própria destruição, ocorrida com o dilúvio. De nada adiantou o desenvolvimento tecnológico, o avanço  científico, a criação de condições que melhoraram grandemente o sustento do homem sobre a Terra, pois tudo isto foi desfeito com o juízo divino.

    – Após o dilúvio, porém, logo as circunstâncias novamente se deterioraram. Também se constituiu uma situação amplamente favorável ao progresso material, como se vê da descrição do governante daquela comunidade única formada após o dilúvio, Ninrode, que foi chamado de “poderoso caçador diante da face do Senhor” (Gn.10:9), expressão que nos dá conta de que se tratava de alguém que estava a bem dominar a natureza, a obter condições favoráveis para o sustento não só seu mas de toda a comunidade sob o seu governo.

    – Todavia, mais uma vez, esta busca pela satisfação das necessidades materiais estava apartada de Deus e, como tal, redundou em novo juízo, com a confusão das línguas e o espalhamento da comunidade pelo planeta, uma vez que não é possível um estado de felicidade real sem que se tenha comunhão com o Senhor, sem que se tenha obediência a Deus.

    – Este descolamento entre bem-estar material e a verdadeira prosperidade é ilustrada na situação vivida por Abrão. Abrão, ao ser chamado por Deus, já era rico. Ao sair de Ur dos caldeus, Abrão tinha um considerável patrimônio (Gn.12:5), prova de que o seu bem-estar material nada tinha que ver com a sua situação espiritual.

    – Ao descer para o Egito, em total desobediência ao Senhor, nem por isso deixou de ter aumento em suas riquezas (Gn.12:16). Inobstante, isto não agradou ao Senhor, tanto que Deus providenciou uma forma de Abrão tornar a Canaã, com sua expulsão do Egito por Faraó, ainda que sem perda do que adquirira em sua desobediente migração (Gn.12:20).

    – Outro exemplo de fartura de bens que não corresponde a qualquer bem-estar espiritual vemos nas cidades da planície, situação que fez com que Ló resolvesse habitar nas campinas de Sodoma (Gn.13:10,11), cidade que tinha imensa fartura material (Ez.16:49), mas que, espiritualmente, era tão nefasta que acabou sendo destruída pelo próprio Deus.

    – Ao mesmo tempo, vemos que, na vida de Isaque, a sua obediência ao Senhor repercutiu materialmente, na medida em que o patriarca teve colheitas abundantes após ter permanecido em Canaã apesar da fome que havia na terra (Gn.26:1,12-14). Apesar desta repercussão material, notemos que a promessa dada a Isaque era sobretudo espiritual, a mesma promessa feita a Abraão de que, por ele, seriam benditas todas as nações da terra (Gn.26:3,4).

    – Com respeito a Jacó, a situação não foi diferente. Todo o progresso material de Jacó se deu durante os anos em que Jacó esteve apartado do Senhor, sem sequer levantar um altar a Deus durante todo o tempo em que esteve em Padã-Arã. Somente quando de lá retornou, já com um grande patrimônio, é que se encontrou com o Senhor, pedindo-Lhe uma bênção, numa clara demonstração de que toda aquela opulência nada significava para quem tornara a se despertar para as promessas que o Senhor lhe havia feito, a bênção de Abraão, da qual somente pôde desfrutar quando tirou os deuses estranhos que havia em sua casa (Gn.31:12,13; 32:26; 33:20; 35:1-7).

    – Com José, como bem explica o pastor Esdras Costa Bentho, chefe do Setor de Bíblias e Obras Especiais da CPAD, vemos, claramente, que a prosperidade não é uma situação de bem-estar material, visto que, ao contrário dos “teólogos da prosperidade”, a situação de felicidade não surgiu apenas quando José se tornou governador do Egito.

    – Com efeito, uma das palavras utilizadas para “prosperar” na Bíblia é “tsalach”(???), palavra que significa “ter sucesso”, “dar bom resultado”, “experimentar abundância” e “fecundidade” (Gn.24:21,56; 39:3; Nm.14:41; Dt.28:29; I Cr.22:11; II Cr.20:20; 26:5; Sl.1:3; 118:25; Pv.28:13; Is.53:10; 54:7; 55:11; Jr.12:1). Como explica o pastor Esdras Bentho, desde o início, José foi abençoado por Deus e é nesta bênção que se encontra o segredo da prosperidade bíblica. “…apenas os que compreendem o que de fato é a verdadeira prosperidade são capazes de compreender o sucesso em meio ao ódio, castigos e prisões (Gn 45.5,7-9). O plano dos irmãos de José era matá-lo, porém Deus interveio conservando-lhe a vida (Gn 37.20-22). Os mercadores ismaelitas poderiam vendê-lo para qualquer outra tribo ou povo, mas por que o Egito? Porque Deus o estava conduzindo até a terra dos faraós. No Egito, poderia ser vendido a qualquer nobre, mas por que a Potifar? Porque era na casa de Potifar que ele enfrentaria a mais dura prova até ser levado ao governo do Egito. Deus estava em todas as circunstâncias guiando os passos de José (Sl 37.23). A prosperidade na vida de José não é medida pelo grau de privilégios que ele desfrutou até ser governador, mas em cumprir a vontade de Deus em todas circunstâncias e vicissitudes.…” (A prosperidade bíblica. Disponível em: http://cpadnews.com.br/blog/esdrasbentho/?POST_1_23_A+PROSPERIDADE+B%C3%ADBLICA.html Acesso em 21 nov. 2011). Tanto assim é que José é chamado de “próspero” quando estava na casa de Potifar (Gn.39:2), pois, embora fosse um escravo, sem qualquer patrimônio, “Deus estava com ele”!

    – Com a formação da nação de Israel, escolhida para ser “a propriedade peculiar de Deus entre os povos” (Ex.19:5), este real sentido da prosperidade no Antigo Testamento é explicitado, na medida em que, ao longo da história daquele povo, entenderemos o que era a felicidade proporcionada pela bênção de Deus e quais as suas dimensões, consoante veremos na próxima lição.

    – De tudo que relatamos, é importante observar que, em momento algum, vemos Deus entregando o domínio da natureza ao homem, nem tampouco a entrega da Terra do homem para o diabo, como defendem os “teólogos da prosperidade”.

    – É evidente que, em comunhão com Deus, o homem tinha condições amplamente favoráveis para desempenhar o seu papel de mordomo sobre a criação terrena e que, com o pecado, tenha perdido tais condições, mas isto não significou que o homem fosse privado do acesso aos recursos materiais, pois o Senhor não o impediu de fazê-lo, tendo apenas determinado que tal se fizesse por força do trabalho penoso.

    – Por causa do pecado, passou a ter de lutar para a sua própria sobrevivência e, o fato de ser pecador, não o impediu de ter êxito na criação de condições para usufruir de abundância material, abundância esta, entretanto, que não tinha como livrá-lo da escravidão do pecado, cujo salário era a morte e a aplicação do juízo divino, como ficou claro seja no dilúvio, seja na confusão das línguas em Babel, seja na destruição das cidades da planície.

    – A abundância de riquezas, de recursos materiais é mostrada como algo que nem sempre decorre de uma relação de obediência a Deus. Pelo contrário, em virtude do pecado, chegou-se à circunstância de que esta opulência e fartura decorriam de uma situação de iniquidade, de injustiça, como se vê, claramente, em Sodoma, onde, ao lado da fartura de pão e ociosidade, havia um estado de soberba e de completa exploração e maltrato do necessitado (Ez.16:49).

    – A própria descrição da vida de José é a demonstração do aviltamento do ser humano em meio à opulência, como se vê no próprio relato da instituição da escravidão no Egito, a demonstrar que a posse das riquezas estava umbilicalmente relacionada a uma situação de injustiça social e de opressão, resultado do pecado.

    – Na própria vida dos patriarcas, há a demonstração de que a situação patrimonial favorável nem sempre correspondia a um estado de comunhão com Deus, a demonstrar, pois, que “prosperidade” não significa, em absoluto, posse de riquezas, mas, sim, um estado de comunhão com Deus, de submissão aos propósitos divinamente estabelecidos.

    II – A PROSPERIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO

    – Para termos uma noção do significado de “prosperidade” no Antigo Testamento, de uma forma genérica, sem adentrar no relacionamento entre Deus e Israel, que será o tema da próxima lição, podemos nos valer das expressões hebraicas utilizadas para “prosperidade”, valendo-se aqui, uma vez mais, de um estudo do pastor Esdras Costa Bentho (A prosperidade no Antigo Testamento. Disponível em: http://teologiaegraca.blogspot.com/2007/11/prosperidade-no-antigo-testamento-cinco.html Acesso em 21 nov. 2011).

    – Conforme salientado na introdução ao trimestre, na Bíblia Sagrada, na Versão Almeida Revista e Corrigida, a palavra “prosperidade” aparece por 11 (onze) vezes (Et.10:3; Jó 21:13; Sl.30:6; 35:27; 73:3; 122:7; Pv.1:32; Ec.7:14; Jr.22:21; At.19:25; I Co.16:2). Em todas estas passagens, a palavra denota um estado de abundância e de fartura, não somente material, mas, também, um estado de felicidade.

    – Em Et.10:3, a Bíblia de Jerusalém, inclusive, traduz “prosperidade” por “felicidade”, sendo que a palavra hebraica aqui é “shalom” (???), cujo significado mais conhecido é “paz”, no sentido de uma completude, de não haver falta de coisa alguma, mesma palavra encontrada no Sl.73:3.

    – A “prosperidade” é, assim, este estado em que a pessoa não sente falta de coisa alguma, algo que somente se conquista para o ser humano quando se está em comunhão com o Senhor, que é o seu Criador. Temos, então, que se trata de uma circunstância em que a pessoa se encontra com Deus, precisamente o estado descrito em Gn.39:2 com relação a José.

    – A comunhão com Deus apresenta-se, pois, como a fonte da prosperidade. No Éden, como vimos, o pleno acesso à árvore da vida permitia a manutenção do estado de coisas amplamente favorável ao homem, seja no aspecto psíquico, seja no aspecto físico, seja no aspecto espiritual. O homem se completava em Deus e, portanto, tinham uma felicidade indizível.

    – Esta mesma circunstância é ilustrada pelo salmista quando ele diz que o justo é como “a árvore plantada junto ao ribeiro de águas a qual dá o seu fruto na estação própria e cujas folhas não caem e tudo quanto fizer prosperará” (Sl.1:3). Ao nos mostrar o justo desta maneira, o salmista nos mostra que a fonte da prosperidade é a nossa ligação com “o ribeiro de águas”, ou seja, com o Senhor. A prosperidade é resultado desta relação de completude decorrente de nossa comunhão com Deus.

    – Esta mesma ideia é apresentada pelo profeta Jeremias, que afirma que quem confia no Senhor e cuja esperança é o Senhor é bem-aventurado, pois é como a árvore plantada junto às águas e estende as suas raízes para o ribeiro e que, por isso, mesmo no ano da sequidão não se afadiga nem deixa de dar fruto (Jr.17:7,8), a nos mostrar que a prosperidade não decorre de fatores externos (“o ano da sequidão”), mas, sim, do fato de o justo estar ligado diretamente ao Senhor, de ter nele as suas raízes.

    – Não é por outro motivo que o rei Josafá disse ao povo que se eles cressem no Senhor Deus estariam seguros e se cressem nos profetas, seriam prosperados (II Cr.20:20), ou seja, o sucesso naquela guerra dependia da confiança deles em Deus, a fonte da prosperidade, a fonte do sucesso.

    – O proverbista bem salienta este aspecto ao dizer que a manutenção do pecado encoberto, sem confissão, impede a prosperidade do ser humano (Pv.28:13). Não há como se ter real prosperidade sem que se elimine a problemática do pecado, que é quem faz divisão entre o homem e Deus (Is.59:2). Não há como se ter prosperidade sem que se tenha, novamente, acesso à árvore da vida, o que somente se obtém pelo perdão dos pecados pela fé em Cristo Jesus.

    – Em Dt.29:9, o verbo “prosperar” é tradução do hebraico “sakal” (???), que o pastor Esdras Bentho denominou de “a sabedoria que traz prosperidade”. Diz o renomado hermeneuta bíblico: “…textualmente significa ‘ser sábio’, ‘agir sabiamente’ e, por extensão, ‘ter sucesso’. Esta palavra está relacionada à vida prudente, ao agir cautelosa e sabiamente em todos os momentos e circunstâncias…” (A prosperidade no Antigo Testamento. end. cit.).

    – No texto de Dt.29:9, a palavra é utilizada como resultado da guarda das palavras do concerto firmado entre Deus e Israel e de seu cumprimento. A ideia de prudência leva-nos à “ciência do Santo” (Pv.9:10), ou seja, ao “conhecimento de Deus”. A prosperidade é o resultado de se conduzir prudentemente, ou seja, de se conhecer a Deus e ir somente até onde a mão de Deus alcança.

    – A prosperidade, neste sentido, é apresentada como a consequência de se obedecer ao Senhor, de se tornar efetiva a condição da obediência que garante a nossa permanência com Deus, a nossa comunhão de forma a permitir que desfrutemos das Suas bênçãos.

    – Desta forma, para mais uma vez ilustrarmos com a vida de José, vemos que ele se manteve próspero quando não pecou com a mulher de seu senhor. Embora tivesse sido levado para o cárcere, não deixou de ser próspero, visto que, por ter se conduzido com prudência, ali também o Senhor permaneceu com ele (cf. Gn.39:20,21).

    – Foi o que o Senhor também prometeu a Josué, quando afirmou que, se ele meditasse dia e noite na lei, ele prosperaria e prudentemente se conduziria (Js.1:8), trecho que, a um só tempo, nos fala da prosperidade tanto como sucesso (a palavra traduzida por “prosperar” em Js.1:8 é “tsalach”) como também da “condução prudente” (a palavra utilizada é “sakal”). O Messias, o “Renovo justo” caracteriza-se por ser alguém que “reina e prospera”, precisamente porque se conduz prudentemente, já que a palavra “prosperar” aí é, precisamente, “sakal” (Jr.23:5). Não é à toa que Davi, tipo do Messias Rei, foi alguém que sempre se conduziu prudentemente, numa clara prova de que “Deus era com ele” (I Sm.18:14),

    – Quando se está debaixo da mão do Senhor, quando se está em comunhão com Deus, as atitudes são prudentes e, nesta prudência, jamais deixamos de receber a bênção do Senhor, jamais somos privados de nossa vida eterna. José, acusado de tentar violentar a mulher de seu senhor, foi para o cárcere, quando deveria simplesmente ser morto, mas não foi morto porque não era este o propósito divino para ele. Jó perdeu todos seus bens como também a sua saúde além de sua família, mas não perdeu a mulher nem a vida, porque não era este o propósito de Deus para com ele. A prosperidade faz com que jamais os projetos divinos frustrem-se em nossas vidas, jamais faz com que percamos a vida eterna, a comunhão com Ele.

    – No Sl.30:6, a palavra “prosperidade” é a palavra hebraica “shelev” (????), que é derivada de “shalom” e que a Bíblia de Jerusalém traduziu por “tranquilo”. É a mesma palavra encontrada no Sl.122:7, em Pv.1:32 e em Jr.22:21.

    – No Sl.122:6, é dito que “prosperarão aqueles que te amam”, ou seja, aqueles que amassem Jerusalém, o “lugar da presença de Deus”. A palavra ali utilizada é, precisamente, “shalah”, derivado de “shalom”, como a demonstrar que o resultado de se amar a Deus, de com ele querer ter comunhão traz como resultado, precisamente, a “prosperidade”, esta situação de completude em Deus, aquela mesma comunhão desfrutada pelo primeiro casal antes da queda.

    – Com relação a este termo, “shalah”, o pastor Esdras Bentho o denomina como “o estado de imperturbabilidade da prosperidade”. “…O termo significa ‘estar descansado’, ‘estar próspero’, ‘prosperidade’. O termo também diz respeito à prosperidade do ímpio (Jr 12.1). Porém, o foco que pretendo destacar é o flagrante estado de ‘imperturbabilidade’ que pode levar ao orgulho. No Salmo 30.6 o poeta afirma: ‘Eu dizia na minha prosperidade [sh?lâ]: Não vacilarei jamais’. Derek Kidner (1981, p.148) afirma que a raiz hebraica que dá origem a palavra prosperidade nesse versículo refere-se às ‘circunstâncias fáceis, ao ponto de vista despreocupado, ao descuido e à complacência fatal’ (Jr 22.21; Pv 1.32).…” (A prosperidade no Antigo Testamento. end.cit.)

    – Pelo que se pode verificar, portanto, a “prosperidade” aqui é considerada um estado de tranquilidade, de despreocupação, que, no entanto, pode levar ao descuido, que pode levar a pessoa a um fracasso, a um engano. É por isso que “a prosperidade dos ímpios” é relacionada a este termo hebraico, sendo uma situação de suposto bem-estar que faz com que a pessoa não se preocupe em ter qualquer comunhão com Deus, o que, lamentavelmente, fará com que, ao término da vida, tenha este “próspero” um final triste, que é a perdição eterna, como o Senhor bem mostrou ao salmista Asafe (Sl.73:17).

    – A “prosperidade bíblica” traz uma sensação de tranquilidade e de segurança, mas que resulta da confiança em Deus, não da confiança nas coisas desta vida. Nós teremos “real prosperidade” quando a nossa confiança estiver em o nome do Senhor nosso Deus, não em carros ou cavalos (Sl.20:7), muito menos nas riquezas (Sl.62:10; I Tm.6:17).

    – O Senhor Jesus disse que um dos grandes obstáculos para a salvação é, precisamente, a segurança gerada pela posse de bens materiais nesta Terra (Mt.19:22-24), pois a fartura material leva muitos a desprezarem a comunhão com Deus (Pv.30:9a).

    – A tranquilidade e segurança decorrentes da prosperidade têm de estar baseadas no Senhor, sem o que se terá descuido, algo que, como já vimos, não representa prosperidade, que está sempre aliada à prudência, que é o oposto do descuido e da negligência.

    – Em Jó 21:13, a palavra “prosperidade” é, no original hebraico, “towb” (???), que a Bíblia de Jerusalém também traduz por “felicidade”, e cujo significado é de “bem”. É a mesma palavra encontrada em Ec.7:14.

    – A “prosperidade” é, portanto, um “bem”. Mas o que é o “bem”, quais são os “bens”? Seriam os “bens materiais”, as “riquezas”? Não necessariamente. Já vimos que algumas coisas que, aparentemente, seriam ruins, tornam-se em “bens”, vez que atendem aos propósitos do Senhor e, conquanto pareçam ser males, não impedem que o bem advenha oportunamente.

    – Assim, o “cárcere” para José era um bem, na medida em que significou tanto o livramento de morte certa, o que o impediria de ser o instrumento para a sobrevivência da futura nação israelita, como também foi o meio pelo qual Deus fez com que tivesse ele o contato com o copeiro-mor de Faraó e, deste modo, propiciar-lhe o acesso ao rei do Egito.

    – No texto de Jó 21:13, inclusive, Jó chama de “prosperidade” aquela situação de tranquilidade já aqui aventada, circunstância que Jó não deixou de mostrar ser ilusória, na medida em que sucedida pela repentina descida à sepultura, mas que não deixou de ser acompanhada de um desprezo de Deus enquanto em vida (Jó 21:14-16).

    – Jó é bem claro ao mostrar que o “bem” não se encontra na posse de riquezas, não se encontra sequer nas mãos dos ricos e poderosos, mas, sim, na obediência ao Senhor, de onde provém todo o “bem”.

    – O “bem” é dado por Deus e é por isso que o salvo em Cristo Jesus sempre desfruta do “bem”, ainda que este “bem” não seja o acúmulo de riquezas, pois todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados pelo Seu decreto (Rm.8:28).

    – O Senhor Jesus disse, claramente, que o Senhor dará “bens”, “boas dádivas” aos que Lho pedirem (Mt.7:11), “bens” estes que não são “bens materiais”, mas aquilo que nos fará bem, ou seja, aquilo que produzirá em nós uma maior aproximação de Deus até que cheguemos à a salvação das nossas almas, o fim da nossa fé (I Pe.1:9), como deixa clara a passagem correlata de Lucas, quando se menciona o Espírito Santo como a dádiva disponível aos salvos (Lc.11:13), bem como a menção do apóstolo Paulo ao fato de o Senhor nos abençoou todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Ef.1:3).

    – Em Ec.11:14, o “dia da prosperidade” é o dia do bem-estar, o dia em que tudo dá certo, o dia do sucesso. No entanto, a Bíblia diz que Deus também dá o “dia da adversidade”, ou seja, o dia mau, o dia em que nada dá certo. O “bem” é que, mesmo no dia da adversidade, esta dificuldade tem não um intento destruidor, mas contribui, coopera para que, através deste mal aparente, alcancemos a salvação, como indicará o apóstolo Pedro (I Pe.1:5-9), visto que a adversidade não poderá nos impedir de manter a comunhão com o Senhor, tornar-nos-á ainda mais íntimos d’Ele e, assim, prosseguiremos para alcançar a salvação das nossas almas.

    – O pastor Esdras Bentho ainda apresenta um outro termo que significaria “prosperidade”, a saber, o termo “chaya”(???). “…Literalmente a palavra significa ‘viver’ ou ‘permanecer vivo’, entretanto, em certos contextos significa ‘viver prosperamente’…” (A prosperidade no Antigo Testamento. end. cit.). Este termo significaria “viver prosperamente” em passagens como II Rs.18:32 e I Sm.10:24.

    – No primeiro texto (II Rs.18:32), o rei assírio Senaqueribe oferece aos judaítas uma “vida próspera” em outro lugar que não a terra de Judá, para onde ele os levaria se se rendessem ao seu exército. Aqui temos a ideia de uma “vida farta”, “…uma terra detrigo e de mosto, de azeite e de mel”. Uma proposta de bem-estar material mas fora do lugar escolhido por Deus. Algo que faz sentido na boca de um rei gentio, que não cria que Deus poderia livrar o povo judaíta, mas que, lamentavelmente, vemos repetidamente nos lábios dos “teólogos da prosperidade”. Tomemos muito cuidado!

    – No segundo texto (I Sm.10:24), temos a exclamação do povo de Israel, ao proclamarem o seu primeiro rei, com o desejo ardente de que ele fosse próspero, ou seja, de que ele tivesse uma vida farta, uma vida longa, uma vida na presença de Deus.

    – Neste ponto, devemos aqui lembrar que Jó foi objeto desta “prosperidade”, visto que é dito que morreu “velho e farto de dias” (Jó 42:17). Quando a longevidade é considerada uma bênção divina, ela advém, precisamente, de uma vida de retidão e de comunhão com Deus. O primeiro mandamento com promessa é o da honra a pai e mãe, obediência que resulta em longevidade (Ef.6:2,3). Esta longevidade prometida a quem honra pai e mãe é uma figura da vida longa e boa que se promete a quem honrar o Pai, é um símbolo, um sinal desta “prosperidade” que é prometida aos que forem fiéis ao Senhor.

    – A longevidade não é apenas quantitativa. Não se trata apenas de se ter muitos anos de vida, mas a promessa divina diz que, além de longa, a vida será boa durante todos estes anos. Jó não era apenas “velho”, mas, também, “farto”, ou seja, sua vida não só durou bastante, mas também era de boa qualidade.

    – Este aspecto qualitativo da vida próspera mostra-nos porque a simples posse de riquezas ou de recursos nada significa. Ao contrário dos gananciosos que se denominam “teólogos da prosperidade”, o servo de Deus desfruta de uma vida qualitativamente boa, não de uma vida que se resuma a quantias, a quantidades.

    – Como bem diz Salomão, “a fartura do rico não o deixa dormir” (Ec.5:12b), o que bem demonstra que a abundância de riquezas não significa uma vida tranquila e boa por si só, pois nem sempre a quantidade de bens resulta em qualidade de vida.

    – O pastor Esdras Bentho ainda faz alusão a um outro termo hebraico que fala de “prosperidade”, a palavra “dashem”(???), que ele denomina como “prosperidade abundante”. “…Este termo é mais frequente nos textos poéticos do que nos prosaicos. Logo, trata-se de um vocábulo poético e idiomático hebreu. Literalmente significa ‘engordar’, ‘ser gordo’ e, consequentemente, ‘ser próspero’(…). O hebraísmo d?sh?m, isto é, gordura, descreve duas verdades concernentes à prosperidade: suficiência e sentimento de bem-estar advindo da prosperidade.…” (A prosperidade no Antigo Testamento. end. cit.).

    – Como explica o pastor Esdras Bentho, o fato de, nos momentos de prosperidade da terra, o gado apresentar-se gordo logo fez com que os hebreus associassem a “gordura” à “prosperidade”, à circunstância da fartura, do bem-estar, tanto que foi este o teor da bênção de Isaque a Jacó (Gn.27:28).

    – É interessante observar que, mesmo se referindo à “gordura” a um estado de bem-estar decorrente de fartura e de suficiência e, portanto, um aspecto que poderia ser tomado como predominantemente material, tem-se que, mesmo assim, a “gordura” jamais é associada a um espírito egocêntrico, a uma ideia de acúmulo de riquezas para si, como vemos hoje entre os “teólogos da prosperidade”.

    – Em Pv.11:25, a “gordura” é apresentada como uma consequência de uma alma generosa, ou seja, é nítido que se tende que a suficiência de recursos, a fartura material não é um bem em si mesmo mas, bem ao contrário, é uma dádiva de Deus para que se exerça a generosidade, para que se ajude o necessitado e o carente, o “magro”.

    – No próprio sonho de Faraó interpretado por José, as “vacas gordas”, que simbolizavam os anos de fartura, deveriam ser consideradas, pelo sábio conselho de José, como uma oportunidade para o armazenamento para o período das “vacas magras”. A “gordura” é uma demonstração de suficiência e de bem-estar, mas não para que seja acumulado e desfrutado por alguém solitariamente, mas, inclusive, para que seja possível o bem-estar de todos.

    – Não é por outro motivo, aliás, que era precisamente a “gordura” que era oferecida ao Senhor nos sacrifícios pacíficos (Lv.3:3-5), numa belíssima figura de que a “gordura” deve ser apresentada a Deus, deve constituir uma razão para que glorifiquemos ao Senhor, glorificação que se faz, hoje em dia, com as nossas boas obras (Mt.5:16), os sacrifícios da beneficência e da comunicação que são agradáveis ao Deus (Hb.13:16).

    – O Antigo Testamento ensina que todos os bens pertencem a Deus (Sl.24:1), que o Senhor é o dono da prata e do ouro (Ag.2:8). “…E, obviamente, uma vez que Deus havia dado a terra com ‘todas as suas riquezas’ — a prata e o ouro — somente aos ricos e poderosos, os Sábios deduziram daí que Deus tinha uma dívida material para com os pobres que tinham sido deixados de mãos vazias. Por consequência. Fazer com que essa dívida fosse paga aos pobres pelos ricos constituía um ato de ‘justiça’ e, portanto, de ‘virtude’. Além disso, acreditavam que quando Deus havia dado a riqueza aos abastados, não as havia entregue em caráter definitivo, nem como recompensa por suas ações ou por qualquer mérito especial. Era somente para que a retivessem em custódia para os pobres! Os ricos seriam, assim, meros agentes fiscais de Deus, por assim dizer, em favor dos pobres! Entender a tzedakah [caridade, observação nossa] aos pobres ‘com todo o coração’ tinha, portanto, a significação intrínseca de um ato de ‘virtude’. Daí ter-se desenvolvido o axioma que, se os ricos fossem realmente honestos e tementes a Deus, distribuiriam prazerosamente a riqueza que retinham em custódia de Deus, entre os inúmeros credores de Deus — os pobres, os doentes, os desamparados, os necessitados etc.…” (AUSUBEL, Nathan. Caridade. In: A JUDAICA, v.5, p.114) (destaques originais).

    – A própria consideração, portanto, da prosperidade como “gordura”, como algo que tem um aspecto material predominante não isenta a relação que a prosperidade tem com Deus e com a necessidade de demonstração do amor de Deus ao homem. Mesmo sob este aspecto, a prosperidade faz com que o homem seja um instrumento divino para a realização da justiça, para a prática do amor ao próximo, virtude já exigida na lei de Moisés (Lv.19:18).

    – Pelo que se vê, pois, ao contrário do que se apregoa irresponsavelmente por aí, pela boca dos “teólogos da prosperidade”, o Antigo Testamento, em momento algum, reduziu a noção de prosperidade a um aspecto material.

    – A prosperidade é mostrada, nas páginas do Antigo Testamento, como um estado de comunhão com Deus, como uma situação de paz, tranquilidade, sossego e segurança decorrentes de uma vida de submissão e obediência a Deus que pode trazer um bem-estar material, mas que não significa abundância de riquezas, mas, sim, bênçãos sobretudo espirituais que, se acompanhadas de um bem-estar material, tem de fazer com que este bem-estar seja traduzido em boas obras, em ajuda aos necessitados e carentes.

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.

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