Autor: Eduardo Melo

  • SALMO 23

    SALMO 23

    Salmo 23
    O Senhor é o meu pastor; de nada terei falta.
    Em verdes pastagens me faz repousar e me conduz a águas tranqüilas; restaura-me o vigor.
    Guia-me nas veredas da justiça por amor do seu nome.Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem.
    Preparas um banquete para mim à vista dos meus inimigos. Tu me honras, ungindo a minha cabeça com óleo e fazendo transbordar o meu cálice.
    Sei que a bondade e a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do Senhor enquanto eu viver.

    • Debaixo de mim – Verdes pastos.

    • Ao meu lado — Águas tranqüilas.

    • Comigo – Meu Pastor.

    • Perante mim – Uma mesa.

    • Em redor de mim – Meus inimigos.

    • Sobre mim – Unção.

    • Seguindo-me – Bondade e misericórdia.

    • Esperando-me — A casa do Senhor.

    • Decisão – Senhor, meu Pastor.

    • Segurança – Nada faltará.

    • Descanso — Deitar-me faz.

    • Restauração — Refrigerar.

    • Direção – Veredas da justiça.

    • Coragem — Andar pelo vale.

    • Comunhão — Tu estás comigo.

    • Consolo – Vara e cajado.

    • Previsão – Mesa.

    • Revestido – Óleo.

    • Satisfação – Cálice transborda.

  • Chaves para a leitura do Apocalipse

    Chaves para a leitura do Apocalipse

     

    Chaves para a leitura do Apocalipse

    Texto Áureo 

    “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou e as notificou a João seu servo”. Ap 1.1

    Verdade Aplicada

    O Apocalipse é um livro aberto, cheio de símbolos, profecias, juízos e condenações, mas re­levante, majestoso e apoteótico.

    Objetivos da Lição

    •  Introduzir de modo provei­toso e prazeroso o estudo do Apocalipse.
    • Oferecer informação à identi­ficação correta de personagens e fatos do Apocalipse.
    • Corrigir possíveis erros de interpretação.

    Textos de Referência

    Ap 1.3        Bem-aventurado aque­le que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guar­dam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo

    Ap 1.12      E virei-me para ver quem falava comigo. E, virando-me, vi sete castiçais de ouro;

    Ap 1.13      E, no meio dos sete castiçais, um semelhante ao Filho do Homem, vestido até os pés de uma veste comprida e cingido pelo peito com um cinto de ouro.

    Ap 1.14      E a sua cabeça e ca­belos eram brancos como lã branca, como a neve, e os olhos, como chama de fogo;

    Ap 1.15      E os seus pés, seme­lhantes a latão reluzente, como se tivesse sido refinado numa fornalha; e a sua voz, como a voz de muitas águas.

    Ap 1.16      E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.

    Prólogo 1:1-8

    A Relevância do Apocalipse

    “Sobe para aqui”, diz-lhe a misteriosa voz (Ap 4:1); e João é transportado para dentro de regiões tão estranhas e remotas que muitos cris­tãos hesitam em explorá-las com ele. Os evangelhos e as cartas são ter­ritórios mais familiares e mais acessíveis. Será que este extraordiná­rio livro do fim da Bíblia, pertencente (em mais de um sentido) a um mundo inteiramente diferente, tem algo a ver com o pragmatismo de vida do século XXI?

    Desde o princípio, no entanto, o livro do Apocalipse afirma ter sido escrito para o benefício, não de uma minoria da igreja, mas de todos; e não para a sua própria época somente, mas para a igreja em todas as épocas. Como todo o resto da Bíblia, o Apocalipse fala hoje.

    A Relevância do Título

    Os dois volumes de história escritos por Lucas (o Evangelho e Atos dos Apóstolos) foram escritos para uma pessoa chamada Teófilo (Lc 1:3; At 1:1). Apesar disso, não temos nenhuma dúvida de que o que foi escrito para Teófilo é para leitores de qualquer época. As cartas de Paulo foram escritas especificamente a grupos de cristãos espalha­dos pelo Império Romano. Entendemos que o que o apóstolo escre­veu a eles se aplica igualmente a nós. Todos os escritos do novo Tes­tamento foram destinados especificamente para os cristãos do primei­ro século, mas não hesitamos em aceitar sua relevância para os cris­tãos modernos. Ora, se agimos assim a respeito dos livros que foram escritos especificamente para pessoas ou grupos de pessoas, quanto mais as partes do Novo Testamento que foram escritas especificamente para os cristãos em geral!

    O título (Ap 1:1-3) diz que o livro do Apocalipse é desse tipo. É a revelação de Jesus Cristo, dada por Deus aos seus servos. Se eusou um dos que servem ao Senhor, então este livro é para mim, ape­sar do conteúdo me parecer irrelevante à primeira vista. É necessário perseverar na leitura para que eu venha a alcançar a bênção prometi­da pelo autor (1:3).

    A Relevância da Saudação

    Apesar de no título João indicar que a sua mensagem é para os ser­vos de Cristo em geral, na dedicatória (1:4-8) ele diz estar escreven­do em particular para as sete igrejas na Ásia. O que João envia àque­las igrejas é algo mais do que as breves cartas contidas nos capítulos 2 e 3. O livro inteiro é a carta e na frase final do livro aparecem as pa­lavras de despedida (22:21). Assim, tanto a frase do título “aos seus servos” como a frase da dedicatória “às sete igrejas que se encontram na Ásia” referem-se ao livro do Apocalipse como um todo. O que João escreve em forma de carta a um grupo de igrejas do primeiro século é de fato uma mensagem a todos os cristãos sem distinção. O princí­pio e o fim do Apocalipse colocam-no na mesma categoria das car­tas de Pedro e de Paulo, de Tiago e de Judas, escritas, a princípio, em função de situações enfrentadas pela igreja primitiva, mas que conti­nham verdades apostólicas que, na intenção de Deus, deveriam ser­vir à igreja em todas as épocas. O Apocalipse não é um mero apêndi­ce à coleção de cartas que constituem a parte central do Novo Testa­mento. É, na realidade, a última e a mais grandiosa de todas essas car­tas. O Apocalipse é tão abrangedor quanto Romanos, tão glorioso quanto Efésios, tão prático quanto Tiago e Filemon, e tão relevante para o mundo moderno quanto qualquer uma delas.

    A Relevância da Cena de Abertura

    Vamos agora deixar de lado o título e a dedicatória (1:1-8) e vamos roubar uma prévia da primeira cena do grande drama onde vemos o Cristo vivo (ressurreto) ditando a João as cartas para as sete igrejas. A igreja em Pérgamo ele diz: “Tenho, todavia, contra ti algumas coi­sas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão… ” (2:14). A igreja em Tiatira ele diz: “Tenho, porém, contra ti o tolerares que esta mulher, Jezabel…. ” (2:20). Vejamos o que podemos aprender des­ses versículos.

    Foi no tempo de Moisés, provavelmente no século XIII a.C., que Balaão iludiu o povo de Deus com um ensino falso. Em Pérgamo, 1.300 anos mais tarde, encontramos o mesmo falso ensino iludindo novamente o povo de Deus. Foi no nono século a.C. que Jezabel, esposa do rei Aca­be, causou semelhante confusão no meio do povo de Israel. Novecen­tos anos mais tarde encontramos, em Tiatira, não somente os ensinos de Jezabel, mas a sua própria pessoa uma vez mais em evidência.

    É evidente que Cristo não está falando da reencarnação de Je­zabel, mas sim da repetição de um modelo. A história bíblica está re­pleta de repetições desse tipo. Assim, por exemplo, a pregação de Je­sus repete as circunstâncias da pregação de Jonas (Mt 12:39ss), e o erguimento do filho do homem sobre a cruz repete o levantamento da serpente de bronze por Moisés (Jo 3:14). Da mesma forma João Ba­tista não somente relembra, mas em certo sentido é o profeta Elias que viveu séculos antes (Mt 11:14).

    A carta aos Hebreus, cuja raiz está no Antigo Testamento, apre­senta muitos outros exemplos. A mensagem de Deus, que veio com urgência através da boca de Davi, dizendo: “hoje, se ouvirdes a sua voz…. ”, era uma mensagem tão urgente para os cristãos hebreus que a ouviram mil anos depois de Davi, como havia sido para os contem­porâneos de Moisés que a ouviram trezentos anos antes de Davi (Hb 3:7—4:10). Adentrando mais no passado verificamos que o juramen­to feito por Deus a Abraão tem para nós o mesmo valor e força que teve para Abraão (Hb 6:13-18). E voltando ao mais remoto ponto da história humana vemos Abel expressar sua fé no sacrifício que ofere­ceu a Deus, e que mesmo hoje “depois de morto, ainda fala” (Hb 11:4). Assim como em todas as gerações a má influência de Balaão e Jeza­bel pode reaparecer, Deus também, em sua misericórdia, repete cons­tantemente as grandes verdades da salvação; como o profeta disse, elas “renovam-se a cada manhã” (Lm 3:23).

    Precisamos, então, dar pleno significado ao tempo presente dos verbos a que acabamos de nos referir. A urgência de Hebreus 3:7, que pode ser traduzida “o Espírito Santo está dizendo: ‘hoje…se ouvirdes a sua voz’” pode ser comparada à frase sete vezes repetida em Apoca­lipse 2 e 3, que poderíamos traduzir de maneira semelhante: “ouvi o que o Espírito Santo está dizendo às igrejas”. O que temos em Apoca­lipse 2 e 3 é uma reafirmação de certas verdades do mundo espiritual, tão reais nos dias de João como haviam sido nos dias de Jezabel, e não menos relevantes para nós hoje. A promessa de bênção, no princípio e no fim do Apocalipse (1:3; 22:7) é para todos aqueles que leem, ou­vem e guardam as palavras desta profecia, sem distinção de tempo.

    Uma Consequência Importante

    Se é, de fato, assim, chegamos então a uma conclusão de certa importância.

    Antes mesmo de chegar ao segundo versículo do primeiro capí­tulo, defrontamo-nos com três questões importantes que há tempo vêm exercitando a mente dos críticos e comentaristas. O nome Apocalip­se (apokalypsis, no grego) não somente nos diz que é uma revelação de grandes verdades acerca de Jesus Cristo, mas também vincula o li­vro a um tipo particular de literatura judaica chamada “literatura apocalíptica”. A pergunta que se segue em função desta relação é: Até que ponto João pretendia que o seu livro fosse lido como sendo uma lite­ratura apocalíptica? E, por causa disso, quanto é necessário conhecer sobre a literatura apocalíptica para que se possa entender o Apo­calipse de João? A segunda questão é o próprio João. Será ele, de fa­to, João, o apóstolo, o filho de Zebedeu, o mesmo que escreveu o evan­gelho e as três cartas, ou será que esta visão tradicional dos fatos é vul­nerável, o que significa que o autor poderia ter sido outra pessoa, mas com o mesmo nome e com a mesma autoridade. A terceira questão é pertinente aos “servos” a quem o livro é endereçado. É evidente que poderíamos entender melhor o livro se pudéssemos saber exatamen­te quem são os servos e quais as circunstâncias e necessidades às quais João estava se dirigindo.

    O fato de que questões como essas foram tratadas de forma su­mária na introdução não quer dizer que não sejam importantes; mas faz-se necessária uma advertência. Quando o leitor se depara com algo que lhe parece obscuro no livro do Apocalipse, ele pode ser levado a pensar: “se eu tão somente tivesse um conhecimento mais profundo da literatura judaica, ou da história romana, ou da filosofia grega, es­ses mistérios estariam esclarecidos”. Tenho certeza de que isso é ilu­sório. Pois o número de servos do Senhor equipados com este tipo de conhecimento será sempre relativamente pequeno porque “não foram chamados muitos sábios” (1 Co 1:26), e a mensagem do Apocalipse, como já vimos, é endereçada a todos os servos do Senhor sem distin­ção. O valor principal do livro deve ser, portanto, de tal espécie que mesmo os cristãos sem grande cultura possam tirar proveito.

    Este fato não deprecia o valor da pesquisa bíblica e, muito me­nos, exalta o anti-intelectualismo; o estudo das Escrituras exige o uso máximo possível da mente do cristão. Mas é para reafirmar que o requisitado mais importante para o entendimento destes grandes mistérios é um conhecimento, como o que o próprio João tinha da palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo (Ap 1:2 e 9). Para a maio­ria dos que resolveram estudar o Apocalipse de João, aquela Palavrae aquele Testemunho foram a única fonte de iluminação: a Bíblia nas mãos, e o Espírito Santo no coração. É mantendo este foco de ilumi­nação no centro do caminho a ser percorrido, em vez de utilizar-se da pequena luz que os estudos críticos lançam sobre o escuro, é que “quem quer que por ele caminhe não errará, nem mesmo o louco” (Is 35:8).

    O Título (1:1-3)

    Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer, e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João, 2o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu.3 Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo.

    Esta não é a revelação de João: ele é apenas o repórter, mas é do Senhor Jesus Cristo; e mesmo Jesus não é a fonte desta revelação, pois, como podemos ver muitas vezes no Evangelho de João, o Senhor Je­sus recebe-a do Pai. Mesmo passando por cinco estágios de transmis­são: do Pai para o Filho, do Filho para o anjo, do anjo para o escri­tor e daí para os leitores, a revelação é apresentada claramente como a “palavra de Deus e o testemunho de Jesus”. Esta última frase des­creve o que estava para ser mostrado a João na ilha de Patmos. Já no versículo 9, onde a frase “a palavra de Deus e o testemunho de Jesus” ocorrem novamente, não se faz referência ao que João veria, mas ao porquê de ter sido isolado na ilha. João já ouvira Deus falar e já ti­nha visto e ouvido Cristo dar testemunho da veracidade das palavras de Deus. Ele não negaria esta sua experiência cristã, nem poderia fazê-lo, e por isso foi enviado para o exílio. Agora João receberia novamente a palavra e o testemunho, uma mensagem genuína da parte de Deus que no tempo devido deveria ser lida em voz alta nos cultos, como ou­tras porções das Escrituras (v.3). Esta revelação, em certo sentido, não traria nenhuma novidade, simplesmente seria uma recapitulação da fé cristã que João já possuía. Esta seria, porém, a última vez que Deus repetiria os padrões da verdade e o faria utilizando-se de um po­der devastador e um indescritível esplendor.

    Esses versículos desencorajam as visões “futuristas” do Apoca­lipse. Com certeza o livro trata de muitas coisas que ainda jazem no futuro. Mas note-se que a João foram mostradas “as coisas que embreve devem acontecer”. Esta última frase é emprestada da literatura apocalíptica pré-cristã e sutilmente modificada por João. A revelação dada a Daniel consistia no que haveria de acontecer nos últimos dias (Dn 2:28). A igreja primitiva acreditava que o início da era cristã e o princípio dos últimos dias, mencionados por Daniel, aconteceram simultaneamente (At 2:16ss; 3:24). É verdade que a palavra “breve” pode ser traduzida pela expressão “de repente” e dessa forma poder-se-ia argumentar que os eventos profetizados por João, quando começassem a acontecer, se sucederiam rapidamente, mas que poderiam co­meçar a acontecer só muito depois dos dias de João. De acordo com este ponto de vista, a maior parte do Apocalipse não estaria cumpri­da até o dia de hoje. Mas o versículo, como é apresentado, não se re­fere a um tempo futuro muito distante. Quando nos deparamos com a frase de Daniel “o que há de acontecer nos últimos dias “mudada por João para “as coisas que em breve devem acontecer” logo enten­demos qual é a intenção de João. Sua intenção é mostrar que os eventos preditos para um futuro distante por Daniel devem agora, nos dias de João, acontecer em breve. Neste contexto podemos entender melhor a expressão “o tempo está próximo” (v.3).

    Tempo para quê?, poderíamos perguntar. Tempo para o início do fim e dos eventos a ele relacionados? Tempo para o início de uma longa série de acontecimentos que eventualmente anunciarão o fim do mun­do? Tempo para alguma tribulação imediata ou perseguição que será um tipo de presságio do fim? Não é dito a João, de imediato, a que a expressão se refere.

    Mas é digno de nota o que Daniel tinha em mente quando falou dos eventos que haveriam de ocorrer nos últimos dias. A profecia de Daniel estava baseada em um sonho de Nabucodonozor no qual ha­via sido mostrado ao rei, em forma de uma grande estátua, a suces­são dos impérios mundiais, começando com o seu. De acordo com a profecia, nos dias do último daqueles impérios mundiais “o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído” (Dn 2:44).

    E João viu a chegada dos últimos dias. O estabelecimento do rei­no de Deus foi iniciado com a vinda de Cristo, e a promessa feita por Daniel de que “este reino não passará para outro povo: esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2:44), começou também a ser cumprida. O cumprimento de pro­fecias é um processo e não algo que vem de imediato; é um processo muitas vezes prolongado, não súbito, como podemos observar ape­sar dos eventos, que levam ao clímax, moverem-se bastante rápido. Oprocesso que leva ao clímax ocupa toda a era da pregação do Evan­gelho, indo da inauguração do reino (Ap 12:10) até o seu triunfo fi­nal (Ap 11:15). Se o que Daniel previu para os últimos dias é o que o anjo está trazendo para João, então o tempo está, de fato, próximo. Ao chegar a carta aos destinatários, nas igrejas da Ásia, eles poderão afirmar que “estas coisas estão, de fato, acontecendo agora”. É esta característica imediata dos escritos de João que sempre cativou os lei­tores mais dedicados. Portanto, o Apocalipse pode revelar, hoje, no sé­culo XXI, a realidade presente do conflito existente entre o reino des­te mundo e o reino do nosso Senhor.

    A Dedicatória (1:4-8)

    João, às sete igrejas que se encontram na Ásia: Graça e paz a vós ou­tros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono, 5e da parte de Jesus Cris­to, a fiel testemunha, o primogênito dos mortos, e o soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados, 6e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém. 7Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém. 8Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-poderoso.

    Pelo menos dez igrejas haviam sido estabelecidas na província da Ásia quando João escreveu o Apocalipse, portanto deve ter havido alguma razão para que ele escolhesse sete delas. Por agora queremos simplesmente apontar o fato de que o número de igrejas às quais João se diri­giu (cujo significado simbólico será considerado mais adiante ainda em ebdareiabranca.com), bem como a ordem na qual elas são apresentadas (que, ao que tudo indica, parece ser mais uma questão de simetria de estilo do que de geografia) parecem indicar que a mensagem é para a igreja em geral.

    João abre a sua dedicatória com um tipo de saudação que pode ser encontrado na maioria das cartas no Novo Testamento. Pelo fato de dirigir-se a um público bastante grande, sua descrição dos remeten­tes é bastante impressionante. Graça e paz vêm, neste caso, do Deus triuno e cada uma das pessoas da trindade é mencionada por sua vez.

    A descrição de Deus, o pai, que relembra o nome divino dado a Moisés em Êxodo 3:14, demonstra a particularidade de certa porção da linguagem utilizada por João. A gramática do versículo 4 foi sua­vizada na versão ERAB. O que João verdadeiramente escreveu no gre­go seria o seguinte em português: “Graça e paz da parte de ele que é… Será que realmente João deveria ter usado “de ele” em vez de “dele” ou “daquele”? É possível que João estivesse vendo Deus como alguém que é sempre “ele”, o único sujeito de todas as sentenças, que gover­na todo o conteúdo do que está escrito, não sendo “ele” mesmo con­trolado por nada. Nem mesmo pelas leis gramaticais. Encontramos no Apocalipse muitas declarações, muito mais explícitas do que es­ta, do que o escritor da carta aos Hebreus chamou de “a imutabilida­de do seu propósito” (Hb 6:17). De qualquer forma os erros grama­ticais do Apocalipse estão somente na superfície, e podem ser resul­tado da impressionante sequência de visões que o escritor teve. No fun­do, os erros gramaticais são perfeitamente coerentes com a verdade e formam uma peculiar gramática do espírito.

    Aliás, o Espírito que está diante do trono, o centro da trindade, e que conhece as profundezas de Deus (1 Co 2: 10ss), é mencionado a seguir. A visão de João o levará para dentro do santuário celestial, do qual o tabernáculo no deserto era uma cópia e uma sombra (Hb 8:5). E talvez a ordem de apresentação da trindade de um modo pouco costumeiro (Pai, Espírito Santo, Filho) corresponda ao plano do san­tuário terrestre em que a arca no santo dos santos representa o trono de Deus; o castiçal de sete hastes no lugar santo representa o Espírito Santo; e no átrio frontal ficava o altar de bronze com os sacerdotes e sacrifícios, ambos representantes do trabalho redentor de Cristo.

    Se a descrição do Pai contém um dos primeiros solecismos da par­te de João, a descrição do Espírito Santo contém um dos primeiros mistérios. “Sete espíritos” — seria esta uma expressão para representar o Espírito na sua natureza essencial, da mesma forma como as sete igrejas representam a única e verdadeira igreja? Ou será que eles repre­sentam o Espírito igualmente presente em cada uma das igrejas? (Ver 5:6). Ou será que representam os sete dons do Espírito apresentados em Isaías 11:2? Não sabemos com certeza. Todavia somos avisados de antemão que as chaves que abrem certas portas do Apocalipse são de difícil acesso.

    Deus, o Filho, recebe uma descrição mais completa. As raízes da descrição encontram-se no Salmo 89:27,37 e a passagem apresenta o triplo ministério de Jesus como profeta, sacerdote e rei. Com Cris­to a trindade chega à terra e a teologia (v.5) torna-se louvor (vs.5b e 6). Jesus Cristo é o profeta que veio ao mundo para dar testemunho do evangelho da salvação. Apesar da palavra testemunho ser a pala­vra grega martis, o pensamento básico não está relacionado à morte de Cristo e, sim, ao testemunho que ele dá. A vinda de Cristo é uma amável deferência da parte dele para conosco. Ele é o Sacerdote que se ofereceu a si mesmo e que morreu para depois ressuscitar, não so­mente para si, mas para todos os filhos de Deus. Ter sido lavado no seu sangue (ERC) é uma metáfora bíblica aceitável encontrada, por exemplo, em 7:14; mas a ERAB diz: “pelo seu sangue nos libertou”, tradução que não somente tem uma melhor sustentação nos manuscritos originais, como ainda associa o nosso texto aos acontecimen­tos descritos no livro de Êxodo, tais como a morte do cordeiro pascal e a redenção de Israel do jugo egípcio. No Calvário foi efetuada uma redenção muito mais abrangente. E seus benefícios são para nós. Agora o Senhor é exaltado como Rei dos reis, e da mesma forma como Is­rael foi libertado da escravidão para se tornar um reino de sacerdotes (Êx 19:6; Ap 5:9-10), é dada a nós a oportunidade de compartilhar do reinado do Senhor. Um dia o Senhor voltará, como ele mesmo afir­mou. Aliás, foi o próprio Senhor, e não João, que primeiro juntou esta dupla figura profética que envolve as nuvens e a lamentação das tri­bos da terra associadas à sua segunda vinda (Dn 7:13; Zc 12:10; Mt 24:30). Aqueles que o traspassaram irão reconhecê-lo e lamentarão a oportunidade perdida de salvação. Mas seu próprio povo estará a esperá-lo, sabendo que ele é o “Alfa e o Ômega”, o princípio e o fim de todas as coisas. E assim o trabalho do Senhor estará terminado.

    Este é o Deus Todo-poderoso que está enviando graça e paz a nós, seus servos, na longa carta que se segue. Graça e paz em vez de per­plexidade e confusão é o que promete o Senhor a todos que com es­pírito confiante o procurarem para serem abençoados. O Apocalipse é um verdadeiro drama. Depois do título e da dedicatória que formam o prólogo, as cortinas são abertas e o drama começa.

     

     

    Bibliografia M. Wilcock

     

     

  • As sete igrejas da Ásia


     

    Texto Áureo  

    “O mistério das sete estrelas, que viste na minha destra, e dos sete castiçais de ouro. As sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete castiçais, que viste, são as sete igrejas”. Ap 1.20  

    Verdade Aplicada 

    Qualquer organização cristã que não corresponder ao perfil das sete igrejas, pelo menos em al­gumas das suas características, não pode ser considerada Igreja. 

    Objetivos da Lição

    • Ressaltar a importância das cartas para que os crentes individualmente sejam santos.
    • Conduzir a igreja à apro­priação tanto das reprimendas quanto das promessas de Jesus.
    • Ensinar que nossos dias são os dias imediatamente ante­riores “às coisas que em breve devem acontecer”.  

    Textos de Referência  

    Ap 1.4        João, às sete igrejas que estão na Ásia: Graça e paz seja convosco da parte daquele que é, e que era, e que há de vir, e da dos sete Espíritos que estão diante do seu trono;

    Ap 1.5        E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o príncipe dos reis da Terra. Àquele que nos ama e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados,

    Ap 1.6        E nos fez reis e sacerdo­tes para Deus e Seu Pai, a Ele, glória e poder para todo sempre amém.

    Ap 1.10      Eu fui arrebatado em espírito, no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta.

    Ap 1.11      Que dizia: o que vês, escreve-o num livro e envia-o as sete igrejas que estão na Ásia: A Éfeso, e a Esmirna, e a Pérgamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadélfia, e a Laodicéia.

     

    Igreja no Mundo Ap 1:9—3:22

    Sete cartas são ditadas

     

    A cena de abertura do drama é uma estupenda visão do Cristo vivo, que dita a João uma série de cartas individuais dirigidas às sete igre­jas para as quais o livro inteiro está sendo escrito. O que é dito será considerado em seguida. Primeiro vamos notar a forma como as coisas são ditas:

    Antes já tínhamos vislumbrado a repetição de modelos do Anti­go Testamento, onde os ensinos de Balaão e de Jezabel estão novamente se manifestando na vida da igreja nos tempos do cristianismo do No­vo Testamento. Agora que a cena toda se desenrola diante de nossos olhos, vemos quão rica é em tais repetições. Um modelo é adicionado a outro em forma de um intrincado poema, que positivamente rima.

    Muitas dessas adições podem ser compreendidas sem que seja necessário ter nenhum conhecimento anterior. Cada carta começa com uma descrição de Cristo repetindo a descrição total do Senhor no começo da cena. As cartas têm muitas semelhanças entre si. Cada uma delas é iniciada com a indicação dos nomes dos remetentes e dos destinatários, continuando com declarações acerca destes últimos e con­tendo mensagens a eles. Cada uma das cartas termina com um man­damento e uma promessa. Apesar de João não ter declarado ser sua intenção, é quase impossível ler estas cartas sem perceber um ritmo cadenciado de sete batidas. Dessa forma, temos na primeira carta o seguinte: (1) À igreja em Éfeso; (2) Estas coisas diz o que segura na mão direita as sete estrelas; (3) Conheço as tuas obras, assim o teu labor como a tua perseverança; (4) Tenho porém contra ti; (5) Arrepende-te; (6) Ouça o que o Espírito diz; (7) Ao vencedor dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida.

    Para os leitores familiarizados com outras partes da Bíblia, res­soa um eco mais profundo. A promessa aos vencedores será repetida em outras cenas mais adiante: A árvore da vida (2:7), no capítulo 22; o escape da segunda morte (2:11), no capítulo 20; e assim sucessiva­mente. O retrato de Cristo já foi mostrado em outras passagens da Bí­blia; a glória que Cristo demonstra aqui no Apocalipse é a mesma que ele demonstrou no monte da transfiguração (Mc 9:2-3). Se o autor é realmente o apóstolo João, a visão não seria novidade, pois estaria vendo em Patmos o que tinha visto antes em um monte na Palestina. A grande voz e o som como de trombeta (1:10) também é conhecido de passagens do Antigo Testamento, como Êxodo 19:6; Ezequiel 1:7; 43:2 e Daniel 7:9. O título de Filho do Homem, e a descrição geral que o acompanha, também podem ser encontrados no Antigo Testa­mento (Dn 7:13; 10:5ss).

    Não são apenas as palavras e as frases encontradas nessas cartas que são repetidas. As advertências feitas às igrejas de Cristo corres­pondem, em muitos aspectos, às advertências feitas aos discípulos em Mateus 24 (por ex. 2:4 e Mt 24:12). A solene declaração “darei a cada um, segundo as suas obras” (2:23) está “in­variavelmente presente nos ensinos de Cristo”, bem como nos de seus apóstolos.

    Quem começar a procurar indícios deste tipo de ensino repetiti­vo em outros lugares, ficará surpreso com a quantidade de material existente. A repetição é um método comum pelo qual os salmistas “ri­mam” suas poesias. Muitas vezes o que ecoa de linha para linha não é tanto o som, mas o sentido:” ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. Fundou-a Ele sobre os mares e sobre as correntes a estabeleceu” (Sl 24:1-2). É a repeti­ção que dá força às vozes dos profetas: “Por três transgressões de Da­masco, e por quatro,… por três transgressões de Gaza, e por quatro… por três transgressões de Tiro, e por quatro, não suscitarei o castigo” (Am 1:3, 6, 9). Este método de repetição pode também ser encontra­do em grande escala nos tipos ou modelos da história bíblica que co­mo grandes pilares ajudam a compreender a estrutura do todo e são apresentados de forma magnífica na carta aos Hebreus. São igualmen­te encontrados em alguns dos menores tijolos que formam o edifício – frases minúsculas, a maioria escondida atrás do reboco das tradu­ções, embora pelo menos uma ou outra permaneça visível.

    Muitas vezes as traduções eliminam repetições de palavras que existem no original porque os tradutores as consideram desnecessá­rias ou uma forma de expressão idiomática que não se traduz literal­mente. Assim, por exemplo, Lucas 22:15, na ERC, diz: “…desejei muito comer convosco… ” e a ERAB, na tentativa de dar o sentido comple­to do texto grego, diz: “Tenho desejado ansiosamente comer convos­co… ” Porém, o que Lucas escreveu, no grego, seria literalmente “com desejo eu tenho desejado”. Em Gênesis 31:30 há o mesmo tipo de frase: A ERAB, diz: “…tens saudade de casa… ” ao passo que o hebraico re­pete a palavra principal: “com saudades tens saudade de casa… ”.

    Um dos objetivos da repetição, como vimos antes, é mostrar quão relevante é a Bíblia. Se o que aconteceu no tempo de Balaão aconte­ceu novamente na época de João, a advertência é que há a possibili­dade de acontecer hoje também. Mas a repetição tem outro propósi­to. Repetições deste tipo passaram do Antigo Testamento hebraico, on­de esta era uma maneira comum de expressar ênfase, para o Novo Testamento grego. Dizer algo duas vezes intensifica a ideia. A repetição, para os antigos, tinha o mesmo sentido que sublinhar para nós hoje.

    É isso que Deus está fazendo constantemente. Deus tem básicamente apenas uma mensagem para o homem, a saber, as boas novas da salvação. Mas na intenção de comunicar isso ao homem, Deus sa­be que a afirmação feita somente uma vez não será suficiente. “Uma vez falou Deus”, diz o salmista, mas “duas vezes ouvi isto” (Sl 62:11). É por esta mesma razão, creio eu, que são dados ao faraó dois sonhos diferentes com a mesma mensagem. Isso o impressionaria e concor­reria para a validade da interpretação (Gn 41:32). Aos discípulos tam­bém foram mostrados dois milagres diferentes que continham a mesma mensagem básica para ensinar-lhes uma lição particular (Mt 16:5-12). O propósito de se martelar um mesmo prego muitas vezes é óbvio: que­remos cravá-lo.

    Deus utiliza-se fartamente deste método para nos ensinar, e com razão. A mente do homem é irremediavelmente centrífuga e em ter­mos de pensamentos está sempre saindo pela tangente. Precisa ser tra­zido de volta às mesmas grandes verdades centrais — deve ser obri­gado, literalmente, a concentrar-se. Deus enfatiza essas verdades mui­tas e muitas vezes, às vezes em forma de rascunhos, outras vezes em forma de um detalhado trabalho de bico de pena e outras ainda co­mo um explosivo quadro multicolorido. É provável, portanto, que ele faça o mesmo no Apocalipse. E a menos que tenhamos boas razões para discordar, devemos convir que as verdades propagadas no Apo­calipse são muito mais intensivas do que extensivas. Em outras pala­vras, o que nos é mostrado pelo Apocalipse assemelha-se muito mais a um trabalho de colorir um quadro cujo rascunho é bem conhecido por nós, do que a uma colagem feita sobre o quadro original. 

    A Igreja Centrada em Cristo (1:9-20) 

    Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por cau­sa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Achei-me em espíri­to, no dia do Senhor, e ouvi por detrás de mim grande voz, como de trombeta, dizendo: O que vês, escreve em livro e manda às sete igre­jas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro, e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares, e cingido à altura do peito com uma cinta de ou­ro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés semelhantes ao bronze polido co­mo que refinado numa fornalha; a voz como voz de muitas águas. Ti­nha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espa­da de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força. Quan­do o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a sua mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último, e aquele que vive; estive morto, mais eis que estou vivo pelos séculos dos sé­culos, e tenho as chaves da morte e do inferno. Escreve, pois, as cousas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas. Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita, e os sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igre­jas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.  

    Até o dia em que ouviu a voz como que de trombeta, João experimentou, no banimento, muito mais as tribulações de Cristo do que o esplendor do reino do Senhor. As montanhas e as minas da ilha de Patmos eram ambiente próprio para causar depressão e não encorajamento. Mas apesar de João estar fisicamente em Patmos (en Patmô), naquele dia do Senhor achou-se também em espírito (en Pneumati), da mesma forma que Jacó muito tempo antes, para quem o tra­vesseiro de pedra do exílio tornou-se o próprio portal do céu. A voz ecoou. João voltou-se: a cena daquela ilha mediterrânea sumiu nas suas costas e diante dele surgiu a visão de uma outra realidade. 

    Foi o círculo de sete candeeiros que primeiro lhe chamou a aten­ção. Os candeeiros representavam as igrejas, é a explicação que logo se segue. Mesmo que o versículo 20 não existisse, poderíamos chegar a esta conclusão através de outras passagens, tais como Filipenses 2:15-16. Aqueles que resplandecem como luzeiros no mundo, diz o apóstolo, são os que preservam a palavra da vida. Assim Cristo, que é a luz do mundo (Jo 8:12), dá aos discípulos o mesmo título (Mt 5:14). 

    O significado do outro conjunto de luzes, as estrelas, não é tão fácil de entender. As sugestões de que os anjos são os líderes das igre­jas, ou mensageiros delas, ou que representam o seu espírito, no sen­tido moderno de caráter ou etnia, levantam uma série de dificulda­des. Parece que o melhor a fazer é tomar as palavras pelo que elas va­lem no seu sentido básico. As Escrituras demonstram (e não somen­te os escritos apocalípticos) que, tanto indivíduos (Mt 18:10; At 12:15), como nações (Dn 10:13; 12:1), podem ter um anjo, um parceiro espi­ritual no nível celestial. Presumivelmente o mesmo poderia aconte­cer em relação às igrejas. De qualquer forma o anjo e sua igreja estão intimamente relacionados; a mensagem de Cristo é dirigida a ele ou à igreja indiscriminadamente; e tanto as estrelas como os candeeiros, embora de formas diferentes, iluminam o mundo. 

    Mas as luzes de menor intensidade, tanto no céu como na terra, empalidecem diante do resplendor do Sol. Esta cena de abertura é dominada pela “glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2:13). Sabemos, de acordo com o versículo 18, que a descrição não pode ser de nenhum outro. A visão de João (v.17) é realmente muito impres­sionante. João certamente o vê como Deus. E lhe atribui as caracterís­ticas divinas usando a mesma linguagem que Ezequiel e Daniel usaram para descrever Deus, e certamente João teria relembrado a reivindica­ção de Cristo em João 14:9: “…quem me vê a mim, vê o Pai… ”. Deste ponto em diante a centralidade de Cristo é o tema principal do Apo­calipse. Todas as coisas dependem do relacionamento com Ele. 

    Isso pode explicar um fato curioso. Os sete candeeiros certamente nos trazem à mente um outro candeeiro: o que foi colocado no tabernáculo de Moisés. Moisés, tal como João, teve uma visão da realida­de espiritual, na qual lhe foi ordenado que construísse uma réplica do que vira. Entre as coisas que ele diligentemente construiu estavam as sete lâmpadas unidas em um único candeeiro. Os candeeiros de João, no entanto, estão separados. Talvez devamos ver neles a igreja, seja assim para nós exatamente como ela aparece no mundo, isto é, con­gregações locais aqui e ali, que podem ser completamente isoladas e até destruídas (2:5). Mas no nível celestial a igreja está unida e é indestrutível porque está centralizada em Cristo. Os candeeiros estão es­palhados pela terra; mas as estrelas estão seguras na mão de Cristo. 

    Assim também deve ser para todo o seu povo. A tribulação, a rea­leza e a perseverança que Jesus conheceu, João também conheceu, e se queremos verdadeiramente ser seus companheiros, precisamos estar dispostos a compartilhar as mesmas experiências. En Patmô nós sofremos; mas en Pneumati nós reinamos. O objetivo prático, para o qual a revelação divina aponta, é fazer-nos ver o primeiro à luz do segundo. Mesmo a progressão iniciada na primeira cena, que se passa inteiramen­te neste mundo, até a oitava cena, que se passa inteiramente no futuro, serve para ilustrar o mesmo propósito. O cristão conhece este mundo porque nele habita. Mas quanto ao significado do mundo, para onde ele caminha, e por que o trata com tanto desprezo, são questões para as quais ele não consegue encontrar resposta. Ele começa a entender somente quando o fato é relacionado àquele mundo. Ele chega a ver um plano da História, a realmente entender o que está acontecendo, a perceber o seu próprio lugar no quadro, e como tudo irá terminar. Per­cebe o grande desenho do lado direito da tapeçaria, que explica o en­trelaçamento de fios e as pontas soltas que estão do lado que lhe é mais familiar. Assim ele aprende a relacionar em sua mente a igreja, como ele a vê, lâmpadas que brilham aqui e ali em um mundo mergulhado em trevas; lâmpadas constantemente ameaçadas de extinção, e a igre­ja como Cristo a apresenta, um conjunto de estrelas inextinguíveis na mão do seu criador. Está pronto a enfrentar a tribulação, por causa do que ele conhece acerca do reino: está pronto a enfrentar a tempestade porque sabe que suas fundações estão profundamente enraizadas na rocha. “A tribulação e o reino” produzem “a paciente perseverança”. Este é o objetivo do livro do Apocalipse que veremos em ebdareiabranca.com durante todo o trimestre. 

    A Primeira Carta: À Igreja em Éfeso (2:1-7) 

    Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que con­serva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete can­deeiros de ouro. 2Conheço as tuas obras, assim o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achastes mentirosos; e tens perseverança, e suportastes provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer. 4Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.5 Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te, e volta à prática das primeiras obras; e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas6. Tens, contudo, a teu favor, que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus. 

    Se a tradição que diz que João foi bispo na cidade de Éfeso é correta, sua pulsação deve ter acelerado quando ouviu que a primeira das se­te cartas destinava-se exatamente à igreja em Éfeso. Como é de se esperar, uma igreja sempre reflete o caráter do seu líder. As duas faces do João do Novo Testamento — o apóstolo do amor e “filho do tro­vão” — são vistas novamente em duas histórias que a tradição legou, pertinentes aos últimos anos de João em Éfeso: de um lado sua recu­sa em ficar sob o mesmo teto (de um banheiro público) com um fa­moso herético da época chamado Cerinthus, e, do outro lado, a re­dução de toda a sua mensagem a uma única sentença, a qual, em ex­trema velhice, costumava repetir em todas as reuniões de que partici­pava: “Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros”. Podemos ver nos livros de Atos e Efésios que a igreja do Novo Testamento era caracte­rizada tanto pelo amor como pelo zelo. Como a cidade de Éfeso ti­nha a pretensão de ser a “metrópole”, ou “cidade mãe” de toda a Ásia, dava à igreja em Éfeso, pelas suas atividades evangelísticas e cuidado pastoral, o direito de pretender o título de igreja mãe da província. É por isso que o apóstolo Paulo pôde escrever acerca”… do amor para com todos os santos”, manifesto pela igreja de Éfeso (Ef 1:15). 

    Na época em que João escreve, alguns anos já se passaram. Co­mo estaria a igreja? O zelo parece não ter diminuído. As obras, o la­bor e a perseverança são louvados e, em especial, o valor que a igreja dava à sã doutrina. Embora a igreja suporte o sofrimento, é patente que não pode suportar o ensino falso, venha ele de homens perver­sos, pseudoapóstolos, ou de nicolaítas em particular. De acordo com a carta escrita aos Efésios, não muito depois desta, por Inácio, bispo de Antioquia, a igreja estava tão solidamente firmada na ver­dade do evangelho que nenhuma seita despertaria sequer o interesse de ser examinada pelos seus membros. Éfeso era uma igreja que tinha levado a sério as advertências de Paulo quando do seu último encon­tro com seus líderes. Da mesma forma, a mensagem de Cristo não menospreza o cuidado deles pela pureza e o amor pela verdade. Oh! pudesse o povo do Senhor ter uma visão correta para saber quando e como dizer como o salmista: “Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem?” (Sl 139:21a.) 

    Mas, na busca constante pela preservação da verdade, a igreja em Éfeso tinha perdido o amor, “qualidade sem a qual todas as outras não têm sentido”. É digno de nota o fato de que somente na primeira e na última das sete cartas as igrejas são ameaçadas de completa des­truição, pela desanimadora, e puramente negativa, razão que é a fal­ta de fervente devoção. “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor”, diz Cristo. Vê se me compreendes: “…odeias as obras dos nicolaítas as quais eu também odeio”; a teu favor tens teu zelo. Mas onde está o teu amor? Fica sabendo que do amor depende a tua própria existência como igreja. 

    Este tipo de erro é muito fácil de acontecer. Deve ser confessado por todos os cristãos que aceitaram o papel de bravos senhores defen­sores da verdade, e esqueceram-se de que deles se espera que sejam se­nhores de coração grande também. À igreja (de Éfeso), Cristo mostra-se zeloso pelo que é certo. Demonstra poder e vigilância — mas é a igreja que ele tem nas mãos e vigia (v. l). Também tem olhos pers­picazes para identificar o mal, mas é na igreja que ele o identifica. Tam­bém não pode suportar o mal, porém o mal que ele ameaça destruir é a própria igreja, se ela não se arrepender. 

    E, de fato, a primeira lâmpada do candelabro foi removida. Tanto a igreja como a cidade foram destruídas; a única coisa que restou foi um lugar chamado Agasalute, e isso, ironicamente, honra a memória de João e não de Éfeso. Permanece ainda a promessa de vida no paraíso a to­do indivíduo que, lembrando-se de onde caiu, arrepende-se e volta à prá­tica das primeiras obras e do primeiro amor. Fica o alerta às igrejas que não amam: “Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei” (1 Co 13:12). 

    A Segunda Carta: à Igreja em Esmirna (2:8-11) 

    Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver; 9Conheço a tua tributa­ção, a tua pobreza, mas tu és rico, e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus, e não são, sendo antes sinagoga de Satanás. 10Não temas as cousas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. 11Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. O vencedor; de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte. 

    Ninguém precisa conhecer a história da cidade de Esmirna para compreender a mensagem destinada a essa igreja, mas creio que é elucidativo o fato de que a beleza dessa cidade, que até rivalizava com Éfeso, era, por assim dizer, a beleza da ressurreição. Setecentos anos antes a velha cidade de Esmirna fora completamente destruída, permanecendo em ruínas durante três séculos. A cidade que existia nos dias de João era, por assim dizer, uma cidade que havia ressuscitado. 

    Em flagrante contraste com os campos existentes hoje no local onde Éfeso existia, Esmirna permanece até hoje com o nome de Izmir, sendo a segunda cidade da Turquia asiática. A ressurreição, que ca­racterizava a cidade, haveria de marcar a igreja também. 

    O futuro imediato era de sofrimento e morte. Isso era uma cer­teza; um fato que envolve inúmeras lições para nós que vivemos de mo­do relativamente fácil nos dias de hoje. Como reagiríamos se amanhã a perseguição batesse à nossa porta? Muitas igrejas aprenderam a vi­ver debaixo desta perspectiva e creio que devemos fazer o mesmo. A grande tribulação, vista por João como o acontecimento final desta época, a qual ele próprio vê em miniatura, aparecia como uma cons­tante na experiência do povo de Deus. É uma provação. É a ação do diabo, mas serve aos propósitos e intenções de Deus.

    A perseguição em Esmirna foi especialmente intensa devido ao fato de que a comunidade judaica local era o maior dos inimigos. Os judeus eram o povo de Deus do ponto de vista racial, mas não real (Rm 2:28), e de fato blasfemavam contra Deus quando perseguiam a igre­ja sob a alegação de estarem prestando culto a Deus (Jo 16:2). Foram talvez as pressões econômicas, exercidas por esses judeus, que leva­ram a igreja à pobreza. Talvez fossem as acusações difamatórias dos judeus (note-se o jogo de palavras, pois Satanás significa “difamador”) que conduziram os cristãos à prisão e à morte. 

    Mas os cristãos não devem desanimar. O Cristo que desvenda esta possibilidade desanimadora passou por uma experiência semelhan­te. Como Esmirna, o Senhor “…esteve morto e tornou a viver” para garantir que eles também tornariam a viver. Por trás daqueles judeus estava Satanás; seu pai espiritual é o diabo e não Abraão (Jo 8:33,44). Mas Deus está por trás de tudo e é ele que controla todas as coisas. Uma grande lição é que o sofrimento é certo; outra, é que ele é limi­tado. Para a igreja de Esmirna a perseguição seria por “dez dias”, em um futuro não muito distante. Mas, pela bondade de Deus, haveria o décimo primeiro dia e aí tudo estaria terminado. O fato de Deus es­tar no controle não quer dizer que Satanás esteja impedido de infringir dor. Não há uma só passagem no Novo Testamento que prometa uma vida isenta de sofrimentos, aliás, como é notório, sem cruz não há coroa. Mas o que Deus garante é que, mesmo que a igreja venha a morrer no sentido físico, jamais sofrerá o dano da segunda morte. É assim que Paulo, tendo aprendido dupla lição, demonstra uma ati­tude verdadeiramente cristã face à tribulação: “porque para mim te­nho por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para com­parar com a glória por vir a ser revelada em nós” (Rm 8:18). 

    A mensagem, portanto, é que os crentes de Esmirna não devem ser medrosos, mas fiéis. Não devem olhar para o sofrimento, mas para Deus que tudo tem sob controle. 

    A Terceira Carta: à Igreja em Pérgamo (2:12-17) 

    Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes: 13Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome, e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. 14Tenho, toda­via, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a dou­trina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e prati­carem a prostituição. 15Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas. 16Portanto, arrepende-te; e se não, venho a ti sem demora, e contra eles pelejarei com a espada da minha boca. 17Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe da­rei uma pedrinha branca e sobre essa pedrinha escrito um nome no­vo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.

    Éfeso era a principal cidade da Ásia, mas Pérgamo era a capital, pois era lá a sede do governo imperial. Lá também havia o mais anti­go templo dedicado à prática da religião patrocinada pelo estado, a saber, a adoração do imperador. Não sabemos com certeza se Cristo se referia a isso quando falou do “trono de Satanás”, mas sabemos o tipo de dificuldade que os cristãos em Pérgamo tinham que enfren­tar. Para eles, Satanás não era, como em Esmirna, um mero calunia­dor trabalhando por intermédio de um grupo de judeus mal intencio­nados. Satanás aparece como o “príncipe do mundo” segundo a ex­pressão literal do Evangelho de João (Jo 14:30); o que a primeira carta de João chama de “o mundo” (1 Jo 2:15ss) é, de fato, o grande inimigo da igreja em Pérgamo.

    “O mundo” inclui o poder de outras instituições além da máquina do Estado. Há a enorme biblioteca de Pérgamo (a cidade devia o seu nome à palavra “pergaminho”), o ministério de cura executado pelos sacerdotes de Esculápio e, servindo como coroa à acrópole da cida­de, o altar grego asiático de Zeus, o salvador. Toda essa parafernália de uma “sociedade alternativa” orientada para as necessidades da mente, do corpo e do espírito, é acrescentada às demandas do próprio estado romano. Da mesma forma encontraremos na quarta cena a bes­ta que sai da terra junto com a besta que sai do mar, oferecendo ao homem um sistema de vida viável, fora do reino de Deus. Mas esta é outra história. Antecipar o que João diz adiante é a maneira mais efi­ciente de confundir as coisas. 

    Resumindo, Satanás trabalha em Pérgamo através das pressões de uma sociedade pagã. Satanás persegue; o sofrimento que viria so­bre os cristãos de Esmirna já pairava sobre os de Pérgamo, e pelo me­nos um cristão já havia sido martirizado (v. l3b). Ele segue; os nicolaítas que foram mencionados na carta aos cristãos em Éfeso acham-se aqui novamente e, apesar de não sabermos muita coisa a respeito de­les, o seu ensino parece ser do mesmo tipo do de Balaão, o qual havia conduzido o povo de Deus para o pecado em épocas passadas (Nm 31:16; 25:1-3). Creio que os dois pecados mencionados no versículo 14 podem ser entendidos literalmente. Ambos aparecem nos dias de Balaão e reaparecem nos dias do Novo Testamento (1 Co 5 e 8). O ca­minho que conduz à prática desses pecados é o tipo de tentação típi­ca do mundanismo de todas as épocas: “que mal há nisso? Todo o mundo faz, por que não você?”. 

    Sedução ou perseguição é a dupla perversão que o mundo ofe­rece à igreja. Uma sociedade altamente permissiva pode ser estranha­mente severa para com todos os que se recusam a acompanhá-la. “Por isso, difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mes­mo excesso de devassidão” (1 Pe 4:4). As ruas alegres da Feira da Vai­dade ainda podem conduzir à prisão ou à fogueira: ou você compra, ou é queimado. Antipas, ao que parece, foi o único membro da igre­ja em Pérgamo a sofrer o martírio. Mas o que o Senhor diz é impor­tante: “Não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas”. Negar a fé era uma tentação constante, especialmente quando a outra opção era ser martirizado. 

    Para alguns a tentação é forte demais e por isso cedem. O com­promisso com o mundo se estabelece quase sem sentir. A distinção en­tre a igreja e o mundo torna-se obscurecida. Há muita tolerância e pou­ca disciplina. “A culpa de Pérgamo residia no oposto da culpa de Éfeso; e quão tênue é a linha entre o pecado da tolerância e o pecado da intolerância. ”

    De qualquer forma, no fim, é com Cristo que eles terão que pres­tar contas. O poder da espada não está com os governantes romanos, nem com o príncipe deste mundo, mas com Cristo (v.12). A espada de dois gumes certamente refere-se ao outro juízo que é necessário: discernir a verdade (Hb 4:12) e punir o mal (Rm 13:4). O Senhor es­tá pronto a usar a espada contra aqueles que, mesmo na igreja, não se arrependam. 

    O Senhor faz, entretanto, uma promessa àqueles que se arrepen­dem e vencem. Não é fácil entender especialmente o significado das pedrinhas brancas (v.17), apesar de haver várias opiniões a respeito. Desde que o contexto fala de festas com carne sacrificada aos ídolos e da festa do maná que Deus espalhou no deserto para Israel, a men­ção das pedrinhas pode se referir ao antigo costume de utilizar peque­nas pedras quadradas como ingresso nos espetáculos públicos. A pro­messa de vida eterna feita no final das duas cartas anteriores é repeti­da aqui em termos apropriados ao cristão que não se conforma com os prazeres do mundo, nem com os banquetes da carne sacrificada aos ídolos. Cristo faz ao vencedor um convite pessoal para participar de um banquete no céu, que consiste na comunhão com o próprio Cris­to: “porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim”; e ele é o único e verdadeiro maná, o pão da vida que desceu do céu (2 Co 1:20; Jo 6:31-35).

    A Quarta Carta: aos Cristãos de Tiatira (2:18-29)

    Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo, e os pés semelhantes ao bron­ze polido: 19Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu servi­ço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras. 20Tenho, porém, contra ti, o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos. 21Dei-lhe tempo para que se arrepen­desse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. 22Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. 23Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mente e corações, e vos darei a cada um, segundo as vossas obras. 24Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; 25tão somente conservai o que tendes, até que eu venha. 26Ao vencedor, e ao que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, 27e com cetro de ferro as regerá, e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; 28assim co­mo também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. 29Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

    Os pecados da igreja de Tiatira, assim como os de Pérgamo, eram a imoralidade e a tolerância para com a adoração de ídolos. Tanto nes­ta, como naquela igreja, podemos interpretar literalmente esses peca­dos, se bem que eles caracterizam o adultério espiritual no qual o po­vo de Deus incorria constantemente. De acordo com a metáfora bí­blica, o verdadeiro Deus é o esposo de Israel, e os falsos deuses são os amantes de Israel (Jr 3; Ez 16; Os 2). Tanto Jezabel como Balaão foram estrangeiros que seduziram a noiva de Deus à prática desse ti­po de infidelidade (1 Rs 16:31; 2 Rs 9:22).

    Há, no entanto, distinções entre as duas situações. Contra os cris­tãos cercados de Pérgamo, Satanás usa a pressão do mundo tentan­do comprimir os crentes “nos seus próprios moldes” (Rm 12:2 CIN). Mas onde a igreja já se faz notar pelo crescimento e pelo vigor (v.19) ele sabe que pode causar um prejuízo maior envenenando o interior, do que pressionando o exterior. Em Tiatira uma mulher assumia, ao mesmo tempo, o perverso caráter de Jezabel e a atividade profética de Balaão, e ensinava, como se fosse da parte de Deus mesmo, coisas novas e profundas que muitos membros daquela igreja forte e dinâ­mica já estavam predispostos a explorar.

    As acusações que João Wesley sofreu de estar “buscando reve­lações extraordinárias e dons do Espírito Santo”, feitas pelo Bispo Butler, são injustas. A verdade é que muitos tiveram essa tensão; e essas “revelações”, quando divorciadas daquilo que as Escrituras de fato revelaram, são coisas verdadeiramente horrendas. Essas vozes sinistras geralmente ecoam no meio de um entusiasmo espiritual subitamente despertado. Mal a Reforma tinha começado a criar impacto, João de Leyden proclamou-se messias em Münster. Ao mesmo tempo em que o grupo “Os meninos de Deus” apela à lealdade da juventude moder­na, os pais cristãos ficam chocados ao descobrir que seus filhos es­tão sendo incentivados a romper os laços familiares. “Não terás ou­tros deuses diante de mim” e “Honra a teu pai e a tua mãe”, são man­damentos tradicionalistas enfadonhos quando comparados com a di­nâmica voz desses novos profetas.

    O fato de que vozes deste tipo são inevitáveis em uma igreja vi­va, não é desculpa para que sejam deixadas à vontade; pelo contrá­rio. Quanto mais dinâmica a voz, mais severamente será julgada. O Cristo que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido virá julgá-la como o sol brilhante do meio dia (1:16), de modo infinitamente mais terrível do que o deus pagão, Apolo, cu­jo templo em Tiatira era famoso. A glória de Cristo sonda a mente e o coração de “Jezabel”, e “nada refoge ao seu calor” (v.23; Sl 19:6). Aqueles que não se arrependerem são ameaçados com tribulações e morte, certamente de cunho espiritual e, possivelmente (tanto nestas punições como na punição pelos pecados descritos nos versículos 20-21), com a morte física também. Àqueles que se arrependerem ele promete que, uma vez removida a barreira do pecado, eles se trans­formarão na maravilhosa igreja missionária que está dentro de si mes­mos. O versículo 27 é uma adaptação grega do hebraico do Salmo 2:9. A primeira metade do versículo é ambígua em ambas as línguas, mas o curioso vocabulário empregado expressa de forma clara o duplo efei­to resultante da pregação do evangelho. Digo isso porque a “autori­dade sobre as nações”, que é dada a Cristo no Salmo 2, e à igreja de Tiatira, é a autoridade para proclamar o reino de Deus. Quem rejei­tar entrar no reino será destruído, mas quem aceitar viverá (2 Co 2:15-16; Jo 20:23; Lc 24:47). E o que é mais importante, à igreja, fiel propagadora da luz do evangelho nas trevas deste mundo, Cristo pro­mete a si mesmo como a “brilhante estrela da manhã” (22:16), a cer­teza de que a aurora chegará quando então a luz das lâmpadas será tragada completamente pela luz da eternidade.

    A Quinta Carta: à Igreja em Sardes (3:1-6)

    Ao anjo da igreja em Sardes escreve: Estas coisas diz aquele que tem os sete espíritos de Deus, e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto. 2Sê vigilante, e consolida o res­to que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus. 3Lembra-te, pois, de como tens re­cebido e ouvido, guarda-o, e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti. 4Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras, e andarão de branco junto co­migo, pois são dignas. 5O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do livro da vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. 6Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

    Apesar das falhas, Cristo reconheceu as coisas boas existentes em todas as igrejas às quais se dirigiu. O que ele encontrou que recomendasse Sardes? Nada. A única coisa boa que a igreja possuía era uma boa reputação para a qual não existia, de fato, razão alguma. O veredito de Cristo sobre a condição da igreja é breve e devastador: “Tens nome de que vives e estás morto”.

    Não nos enganemos acerca de Sardes. Ela não é o que o mundo chamaria de igreja morta. Talvez ela seja considerada viva até mes­mo pelas suas igrejas irmãs. De fato, desde que Cristo determina a igre­ja a ser “vigilante” e a adverte de que a sua vinda para julgá-la será inesperada, quer me parecer que nem a própria igreja tinha consciência do estado espiritual em que se encontrava. Todos a reputavam como igreja florescente, ativa e bem sucedida; todos, com exceção de Cris­to. Suas obras não atingiam o padrão estabelecido por Cristo. Nin­guém naquela igreja tinha atingido a integridade necessária (v.2). Se Cristo ameaça não confessá-la diante de Deus a razão é que, apesar de todo o seu ativismo, ela não está, de fato, confessando a Cristo (v. 5; Mt 10:32).

    Falha na integridade? Falha na confissão? Ninguém ficaria mais surpreso face às acusações do que a própria igreja. Mas “quando nos lembrarmos do que a palavra integridade significava, no sentido da vida cristã, aos cristãos em Esmirna, poderemos entender melhor o que João requeria da igreja em Sardes”: segura, contemplativa como a cidade de Sardes, não sofria nem perseguições, nem heresias. “Ela tinha imposto a si mesma a tarefa de evitar problemas, seguindo uma política baseada na conveniência e na circunspecção ao invés de no zelo fervoroso. ”

    Talvez não seja correto dizer que a sua reputação é a única coisa boa que a igreja tem. Há algumas pessoas na igreja que ainda não es­tão mortas embora estejam morrendo (v.2). Umas poucas pessoas na igreja ainda não se contaminaram (v.4). Acima de tudo é menciona­da a primeira reação ao evangelho, “de como o tens recebido e ouvi­do” (v.3). A palavra importante é “como” e não “o que”. Oh! Se ela tão somente pudesse recuperar o espírito de santidade e consagração, “o como” daqueles primeiros dias! Do contrário Cristo ameaça vir de surpresa para julgá-la, como o ladrão na noite. O que ele descre­ve nestes versículos pode ser entendido como sua vinda no fim dos tempos, como em Mateus 24:36-44, mas pode referir-se a uma pu­nição mais imediata. João “esperava que a vinda final de Cristo seria antecipada em menores, mas não menos decisivas apari­ções”. A experiência da igreja em Sardes será igual à da cidade, a qual nunca fora tomada de assalto e se julgava impugnável, po­rém mais de uma vez fora capturada em surdina.

    Mesmo a promessa do versículo 5 contém uma advertência. Não há menção do reino e do poder e da glória contidos nas outras car­tas como prêmio aos cristãos vitoriosos. Tudo o que Cristo prome­te aos vitoriosos de Sardes é que o nome do vencedor não será apa­gado do livro da vida, de modo nenhum, e que ele será vestido com as vestes brancas da justiça. Em outras palavras, tudo o que é ga­rantido aos cristãos em Sardes, é que eles serão aceitos por Deus, como para sublinhar a possibilidade de que a igreja, como um to­do, poderia até perder esse privilégio.

    Se Cristo é o único que pode ver e expor a verdadeira condição da igreja em Sardes, ele é certamente o único que pode lidar com ela. E ele está pronto para fazê-lo. Ele é “aquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas”; e quando ele menciona juntas as estrelas, que são os anjos representativos das igrejas, e os sete espíritos, duas coisas podem acontecer. Os sete espíritos são os olhos de Deus de quem nada se pode ocultar (5:6); daí procede a mensa­gem tão severa que acabamos de ouvir. Eles, os espíritos, são tam­bém o poder vivificador da parte de Deus e, em Sardes, como em todas as sete igrejas, Cristo tem nas mãos tanto a igreja necessita­da, como o espírito vivificador. Ele pode reconciliá-los, não somente para fazer diagnóstico da situação mas para revificar os mortos. Pre­cisamos estar certos de que se Sardes se lembrar, e der ouvidos, e se arrepender, ele a revificará.

    A Sexta Carta: à Igreja em Filadélfia (3:7-13)

    Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre e ninguém fecha­rá, e que fecha e ninguém abre. 8Conheço as tuas obraseis que te­nho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar que tens pouca força, entretanto guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome. 9Eis que farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus, e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés, e conhecer que eu te amei. 10Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam so­bre a terra. 11Venho sem demora. Conserva o que tens para que ninguém tome a tua coroa. 12Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no san­tuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jeru­salém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome. 13Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

    Além de Esmirna, Filadélfia é a única igreja em que Cristo não en­contra faltas. Qualquer austeridade que pareça demasiada da parte de Cristo não é motivada pelas faltas encontradas, e sim pelos fatos que precisam ser enfrentados. Uma época de testes se aproxima, não certamente a última grande tribulação que João erradamente julga­va iminente, nem uma perseguição local, o que fica evidente pelas pa­lavras: “hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro”. Este teste refere-se à perene perseguição, da qual todas as pequenas perse­guições e, especialmente, a grande tribulação, são partes integrantes. E a igreja não tem grande força para enfrentar esta batalha. Cristo não minimiza as dificuldades que deverão ser enfrentadas.

    Ele encoraja a igreja. A igreja se defronta com uma oposição e (possivelmente) com oportunidades, e a intenção de Cristo é ajudar a igreja a vencer a primeira e a confirmar a segunda.

    O paralelo ente Filadélfia e Esmirna pode ser novamente encontrado no fato de Filadélfia ter que enfrentar a oposição dos da “sinagoga de Satanás” (2:9). Para entender bem a ideia da palavra “mentem”, no grego, devemos pensar nessas pessoas como sendo pseudo-judeus. Eles reivin­dicam para si, falsamente, a glória de serem o povo santo de Deus. Em contraste, Cristo se apresenta como “o santo, o verdadeiro” (v.7). Ele men­ciona antigas profecias segundo as quais o povo de Deus será, um dia, justificado, e o resto da humanidade se curvará diante desse povo. Cris­to diz à igreja que o cumprimento dessas profecias será o contrário do que era esperado pelos judeus de Filadélfia: eles é que terão de “prostrar-se aos teus pés” e reconhecer “que eu te amei”. Oh! Que os cristãos se ani­mem, pois são os favoritos do Senhor.

    Frequentemente, no Apocalipse, João faz coro aos outros escrito­res apostólicos, ensinando que os privilégios e as promessas feitas aos judeus no Antigo Testamento foram herdadas pela igreja cristã.12 Esta doutrina, bem como o seu aspecto histórico, encontra-se nestes mesmos versículos da carta aos cristãos de Filadélfia. Uma investigação acerca do significado da expressão “a chave de Davi” leva-nos até o livro de Isaías. Interessante notar que encontraremos menções do li­vro de Isaías espalhadas por todo o capítulo 3 do Apocalipse. A “cha­ve” aparece em Isaías 22:22, juntamente com a promessa de que o responsável por ela, Eliaquim, encarregado da casa de Davi, teria a mes­ma autoridade que Cristo tem de abrir e fechar. Mas abrir e fechar o quê? A entrada da casa de Davi. E com que propósito? Os portões es­tão abertos, diz Isaías, “para que entre a nação justa que aguarda a fidelidade (26:2). Assim como o próprio Eliaquim é “fincado como estaca em lugar firme, e ele será como um trono de honra para a casa de seu pai” (22:23), da mesma forma, aos fracos, aos desprezados e aos estrangeiros, será dada a “minha casa e dentro dos meus muros um memorial e um nome melhor” (56:5). As nações também virão em submissão humilde (60:11); “todos os que te oprimiam, prostrar-se-ão até as plantas dos teus pés” (60:14 cf 49:22,23). Todas as ideias aqui dizem respeito ao acesso à casa de Davi, ao reino, à cidade e ao templo de Deus. O que se segue pode ser acompanhado passo a pas­so. O Senhor condena o legalismo dos judeus (“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque fechais o reino dos céus diante dos ho­mens; pois vós não entrais, e não deixais entrar os que estão entran­do” Mt 23:13) e transfere a autoridade de porteiro à igreja (“Dar-te-ei as chaves do reino dos céus” Mt 16:19). Dessa forma Pedro e os ou­tros cristãos têm o privilégio de dar as boas vindas não somente aos judeus, mas aos samaritanos e aos gentios como membros permanen­tes do reino (At 2, 8,10). Assim, todo conceito expresso nas palavras: chave, porta, cidade, templo e coluna torna-se cristão, e é a base para a transferência acima mencionada. Os judeus precisarão aprender “que eu te amei”.

    Este favor não merecido é a raiz de todo o resto. Em certo sentido Cristo guarda (ou preserva) o seu povo porque eles guardam (ou ob­servam) a sua palavra (v.10) e o incentivo que ele dá, tanto a Filadélfia como a Esmirna, é dirigido a todos os que lhe são leais. Mas a cadeia de causa e efeito vai mais fundo; eles obedecem aos mandamentos por­que ele os amou primeiro. E vai mais fundo ainda: o resultado final do amor de Cristo pela igreja é que a igreja de “pouca força” será estabe­lecida como uma coluna irremovível no templo da Jerusalém Celestial (v.12). Esta igreja será selada de modo triplo: pertence a Deus, perten­ce à cidade de Deus e pertence ao Filho de Deus. Sua terna promessa aos que se sentem dolorosamente cientes de suas próprias fraquezas e inseguranças, é que no final eles pertencerão ao Senhor.

    Até que esse dia chegue, o Senhor os anima a suportarem as pres­sões e, como não poderia deixar de ser, ao serviço. Em outras passa­gens do Novo Testamento a expressão “uma porta” é figura de opor­tunidade (1 Co 16:9; 2 Co 2:12); e, apesar disso, como vimos, nestes versículos significa principalmente a segurança que eles tinham de en­trar na Nova Jerusalém; essa porta também é o único caminho pelo qual os outros podem entrar no Reino. Invertendo a figura apresen­tada por Isaías, mesmo os judeus poderiam ser convertidos da sina­goga de Satanás. Assim os cristãos são duplamente incentivados, pois o mesmo Cristo, que anula os opressores, amplia as oportunidades. A porta foi aberta por ele e ninguém poderá fechá-la. É motivo para os cristãos se animarem e usarem a força que têm no serviço que ele lhes confiou.

    A Sétima Carta: aos Cristãos em Laodicéia (3:14-22)

    Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: 15Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fos­ses frio, ou quente! 16Assim, porque és morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; 17pois dizes: Estou rico e abastado, e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. 18Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras bran­cas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os teus olhos, a fim de que vejas. 19Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso, e arrepende-te. 20Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo. 21Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como tam­bém eu venci, e me sentei com meu Pai no seu trono. 22Quem tem ou­vidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

    A arqueologia tem se encarregado de fornecer dados bastante interessantes acerca da história relacionada com esta carta. Laodicéia era um centro bancário e produzia artigos têxteis. Também era famosa por produzir uma espécie particular de colírio (ver v.18). Era também uma estância hidromineral de águas mornas que vinham de fontes próxi­mas à cidade (ver v.16). Assim as palavras de Cristo à igreja contêm uma confortável mensagem, bem apropriada. Mesmo que não tivés­semos o conhecimento arqueológico, ainda assim não teríamos problemas em identificar o juízo que Cristo faz da igreja. “Quem dera fosses frio ou quente!” Que condenação pior poderia existir para uma igreja do que o Senhor dizer que preferiria um cristianismo mais frio do que o encontrado efetivamente em Laodicéia.

    Em outras cidades da Ásia temos observado que o estado da igreja geralmente corresponde ao estado da cidade. Em Laodicéia, entretan­to, isso não se repete; há um contraste entre a cidade e a igreja. A igreja é a imagem da cidade revertida como em um negativo. Financistas, médicos e fabricantes de tecidos se encontram entre os cidadãos mais notáveis da cidade; porém a igreja é considerada “miserável, pobre, cega e nua”. “Laodicéia tinha falhado no propósito de encontrar em Cristo a fonte de toda a verdadeira riqueza, esplendor e visão. ”

    A indiferença de Laodicéia é a pior condição em que uma igreja pode sucumbir. A situação de Laodicéia é pior que a de Sardes onde, pelo menos, existia um fio de vida. A única coisa boa em Laodicéia é a opinião da igreja sobre si mesma e, ainda assim, completamente falsa. Ela tem a pretensão de ter todas as coisas, mas na realidade não tem nada. Devemos lembrar-nos de que em 1:16 há sete estrelas na mão de Cristo. Nós até podemos duvidar se ela era uma igreja verdadeira. Será que a linguagem de Cristo deveria nos chocar? É difícil pensar assim, frente ao descrito no versículo 16: “Estou a ponto de vomitar-te da minha boca”. É o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira que pro­fere estas palavras, e elas são uma parte de todas as outras ameaça­doras escrituras que falam do Senhor, desgostoso com essa geração (Sl 95:10) e zombando dos homens (Sl 2:4).

    Apesar disso Laodicéia tem uma chance. O fato de ser repreen­dida é uma prova de que o Senhor a ama (v.19); a ameaça de abando­no total, caso ela não se arrependa, é contrabalançada pela promes­sa de reestabelecimento total, caso ela se arrependa. Por causa dessa igreja desastrada, o Senhor se apresenta, no versículo 14, como “o prin­cípio da criação de Deus” (talvez a melhor tradução seja: a origem da criação de Deus), aquele que é capaz de descer até o caótico abismo do fracasso de Laodicéia e restaurá-la, assim como um dia ele fez com o mundo.

    Isso só será possível se ela quiser. A soberania divina não é, de modo algum, prejudicada por isso. Cristo é o único que pode provi­denciar as riquezas, as roupas e o unguento; ele é a voz persuasiva que aconselha Laodicéia a aceitar a oferta. Ele é o que vem, o que perma­nece, o que bate, o que chama. Sua soberania está implícita no fato de ele ser “a origem da criação” de Deus, verdade esta que a igreja de Laodicéia já conhecia através da carta de Paulo aos Colossenses (Cl 1:15-18; 4:16). Mas a pergunta crucial para a igreja é se ela abrirá a porta e deixará Cristo entrar. “Pois a única cura para a indiferença é a readmissão do Senhor excluído. ”

    Mesmo que a igreja seja surda à chamada de Cristo, ele ainda as­sim se dirige a cada um dos membros individualmente, pois “quan­do Cristo diz: Eis que estou à porta e bato, se alguém… é clara a sua intenção de dirigir-se ao indivíduo. Mesmo que a igreja, como um to­do, não dê ouvidos à sua advertência, pode ser que um indivíduo o faça. ” A todas as pessoas de Laodicéia que apresentarem evidências de arrependimento, o Senhor promete, nos versículos 20 e 21, uma majestosa recompensa: “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci, e me sentei com meu Pai no seu trono.”

     

    Bibliografia J. R. W. Stott

     

  • Elias e Eliseu : Um Ministério de Poder para Toda a Igreja (TEMA 1º TRIMESTRE/2013 EBD)

    Revista EBD 1º Trimestre de 2013
    Já foi divulgado as Lições Bíblicas da CPAD para o 1º Trimestre/2013 que terá como tema “Elias e Eliseu: Um Ministério de Poder para toda a Igreja”, e terá como comentarista o pastor José Gonçalves.

    As lições serão:

    Lição 1- A Apostasia no Reino de Israel
    Lição 2- Elias, o Tisbita
    Lição 3- A Longa Seca Sobre Israel
    Lição 4- Elias e os Profetas de Baal
    Lição 5- Um Homem de Deus em Depressão
    Lição 6- A Viúva de Sarepta
    Lição 7- A Vinha de Nabote
    Lição 8- O Legado de Elias
    Lição 9- Elias no Monte da Transfiguração
    Lição 10- Há Um Milagre em Sua Casa
    Lição 11- Os Milagres de Eliseu
    Lição 12- Eliseu e a Escola de Profetas
    Lição 13- A Morte de Eliseu

     

     

  • Onde estão os finados

    Por: Augustus Nicodemus Lopes
    Eu sei que a resposta óbvia é “enterrados no cemitério”, mas eu me refiro à alma dos finados. A resposta bíblica pode ser resumida em alguns pontos, que não pretendem ser exaustivos, mas que representam o pensamento evangélico histórico e reformado sobre o que acontece após a morte.
    • Imediatamente após a morte, as almas dos homens voltam a Deus. Seus corpos permanecem na terra, onde são destruídos.
    • As almas dos finados não caem em um estado de sono ou de inconsciência após a morte.
    • As almas dos salvos em Cristo Jesus entram em um estado de perfeita santidade e alegria, na presença de Deus, e reinam com Cristo, enquanto aguardam a ressurreição de seus corpos.
    • Esta felicidade não é impedida pela memória de suas vidas na terra, uma vez que agora eles consideram tudo à luz de perfeita vontade de Deus e do Seu plano perfeito.
    • Sua felicidade e salvação é somente pela graça de Deus.
    • Eles não têm poder de interceder pelos vivos ou tornar-se mediadores entre eles e Deus.
    • As almas dos perdidos não são destruídas após a morte, mas entram em um estado de sofrimento consciente e de escuridão, tirados da presença de Deus, enquanto esperam o dia do julgamento.
    • Não há outros estados além destes dois após a morte. Não há qualquer base bíblica para a doutrina do purgatório e nem da reencarnação.
    • Nem as almas dos salvos nem as dos perdidos podem voltar para a terra dos vivos após a morte. Todas os fenômenos considerados como a ação de almas desencarnadas deve ser atribuída à imaginação humana ou à ação de demônios.

    A realidade da morte e da sobrevivência da alma deveria nos lembrar sempre das palavras de Jesus: “De que adiante ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

  • Os Fatos Sobre a Vida Após a Morte

    A Visão Bíblica da Morte: Céu ou Inferno Eternos

    A morte em si é uma condição de separação. De acordo com a Bíblia, há somente dois tipos de morte. Primeiro, existe a morte física, que envolve a separação temporária do espírito em relação ao corpo. Mais tarde, na ressurreição, o corpo será reajuntado ao espírito humano. Segundo, existe a morte espiritual ou a separação do corpo e espírito humanos em relação a Deus. Essa condição é irremediável.

    A morte não é boa – ela jamais foi boa. A morte física – separação em relação ao corpo – não é boa, uma vez que o homem fica “despido” (2 Coríntios 5.4; Filipenses 3.21; 1 Coríntios 15), num estado fora do natural. A morte espiritual – separação de Deus – obviamente também não é boa, já que é eterna.

    A “morte” e a “vida” são irreconciliáveis e condições opostas de existência, tanto nesta vida como na próxima. Sem Cristo, a morte conduz somente a uma coisa – julgamento eterno: “E assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o juízo” (Hebreus 9.27). Mas com Cristo, a morte conduz à vida: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente” (João 11.25-26). E: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (João 5.24).

    A Bíblia ensina que antes da salvação, mesmo estando vivos, todos os homens e mulheres existem num estado de morte espiritual ou separação de Deus. Seus espíritos humanos estão mortos para as coisas em que Deus está realmente interessado (veja Lucas 15.24-32; Efésios 2.1; 1 Timóteo 5.6; Apocalipse 3.1). Muito embora estando vivos fisicamente, eles não consideram o único Deus verdadeiro, nem Lhe agradecem, nem se importam com Seus interesses. Qualquer que seja o conceito de Deus que tenham, eles não aceitam o único Deus verdadeiro. Daí porque o próprio Jesus disse: “Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos”, ensinando explicitamente que os seres humanos vivos ao redor dele estavam, no que dizia respeito a Deus, espiritualmente mortos (Lucas 9.60; Romanos 3.10-18).

    A Bíblia nos ensina que a morte física e espiritual existe por uma razão – o pecado. Deus avisou Adão e Eva que se eles Lhe desobedecessem, morreriam naquele dia (Gênesis 2.17). Daí porque a Bíblia ensina que “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6.23).

    Como o pecado causa a morte, o problema do pecado deve ser resolvido antes que a morte possa ser erradicada. Essa é a razão do ensino cristão da Expiação – que Cristo morreu pelos pecados do mundo. Como Jesus ensinou: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Qualquer um que recebe a Cristo como seu Salvador pessoal é “nascido de novo” ou vivificado espiritualmente. Essa pessoa recebe a verdadeira vida após a morte, ou, em termos bíblicos, a vida eterna (João 6.47). Mas o que realmente acontece, sem dúvida, é que o estado de morte espiritual do crente é cancelado no momento em que ele recebe a Cristo. Não mais haverá a possibilidade dele sofrer o julgamento de Deus por causa dos seus pecados, que é a segunda morte. Em vez disso, na hora da morte física, ele se juntará a Deus para sempre. Essa é a essência do termo “salvo”. Mas deve-se frisar que o sistema é condicional. Os homens devem crer na morte expiatória de Jesus Cristo, ou não poderão ser salvos. Esta é a condição: que aceitem o que Deus fez através da Pessoa de Cristo.

    A esperança cristã, portanto, está na ressurreição física e na imortalidade eterna baseadas na ressurreição e vida de Cristo, não em uma visão mediúnica de uma gradual auto-progressão espiritual depois da morte (Romanos 4.25; 1 Coríntios 6.14; 2 Coríntios 4.14; 5.1; Efésios 1.15-21; 2.4-10; Filipenses 1.21, 3.21; Colossenses 3.4, etc.). Os que aceitam a Cristo herdam o céu para sempre, enquanto os que rejeitam a misericórdia de Deus herdam o inferno para sempre.

    Assim, a visão bíblica é que os salvos estão com Deus – eles estarão com Ele no momento da morte (Lucas 23.43; João 12.26; Atos 7.59; 2 Coríntios 5.8; Filipenses 1.23), enquanto os mortos não salvos estão confinados e sob castigo. Além do mais, não existe possibilidade de alterar a condição de alguém após a morte. A morte, portanto, não é extinção, como muitas seitas ensinam. Ela não envolve uma condição de reencarnação, onde a alma experimenta muitas vidas, como crê o ocultismo. Ela não envolve uma condição de união ou absorção final por alguma essência impessoal, divina, conforme muitas religiões orientais ensinam (Eclesiastes 12.5; Lucas 12.46-47; 16.19-31; Atos 1.25; Hebreus 9.27, 10.31, 12.27-29; Salmos 78.39; 2 Coríntios 5.11; 2 Pedro 2.4,9; Apocalipse 20.10,15).

    Sem dúvida, se os salvos estão com Cristo e os não salvos confinados e sob julgamento, então os mortos não estão livres para perambular e, portanto, os supostos mortos das EQMs (Experiências de Quase-Morte) não são o que afirmam ser. […]

    Conclusão

    Se cada um de nós vai morrer um dia, então o mais importante é ter a segurança de entrar a salvo na morte. Se temos ou não temos medo de morrer, não precisamos temer a morte se nossos pecados estão perdoados através da fé em Jesus Cristo.

  • Tragédias, mais uma vez: Deus e Sandy

    Por Augustus Nicodemus Lopes

    Toda vez que uma catástrofe ou tragédia de grande proporção atinge o mundo retorna à blogosfera a questão do mal e do sofrimento dos inocentes em um mundo governado por um Deus bom e Todo-Poderoso. É o caso do furacão Sandy, que nestes dias tem causado uma enorme destruição e a morte de dezenas de pessoas nos Estados Unidos e outros países.
    De longa data o mal que existe no mundo vem sendo usado como uma tentativa de se provar de que Deus não existe, ou se existe, não é bom. E se for bom, não é todo-poderoso – esta última hipótese defendida pelo teísmo aberto.
    “Onde estava Deus quando estas tragédias aconteceram?” é a pergunta de pessoas revoltadas com o fato de que centenas de pessoas boas, desprevenidas, cidadãos de bem, foram apanhados numa tragédia e morreram de forma terrível, deixando para trás famílias, filhos, entes queridos.
    Eu entendo a preocupação com o dilema moral que tragédias representam quando vistas a partir do conceito cristão histórico e tradicional de Deus. Se Deus é pessoal, soberano, todo-poderoso, onisciente, amoroso e bom, como então podemos explicar a ocorrência das tragédias, calamidades, doenças, sofrimentos, que atingem bons e maus ao mesmo tempo?
    Creio que qualquer tentativa que um cristão que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus faça para entender as tragédias, desastres, catástrofes e outros males que sobrevêm à humanidade, não pode deixar de levar em consideração dois componentes da revelação bíblica, que são:
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    • A realidade da queda moral e espiritual do homem.
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    • O caráter santo e justo de Deus.

     

    Lemos em Gênesis 1—3 que Deus criou o homem, macho e fêmea, à sua imagem e semelhança, e que os colocou no jardim do Éden, com o mandamento para que não comessem do fruto proibido. O texto relata como eles desobedeceram a Deus, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, e decaíram assim do estado de inocência, retidão e pureza em que haviam sido criados. As conseqüências, além da queda daquela retidão com que haviam sido criados, foram a separação de Deus, a perda da comunhão com ele, e a corrupção por inteiro de suas faculdades, como vontade, entendimento, emoções, consciência, arbítrio. Pior de tudo, ficaram sujeitos à morte, tanto espiritual, que consiste na separação de Deus, como a física e a eterna, esta última sendo a separação de Deus por toda a eternidade.
    Este fato, que chamamos de “queda,” afetou não somente a Adão e Eva, mas trouxe estas conseqüências terríveis a toda a sua descendência, isto é, à humanidade que deles procede, pois eles eram o tronco e a cabeça da raça humana. Em outras palavras, a culpa deles foi imputada por Deus aos seus filhos, e a corrupção de sua natureza foi transmitida por geração ordinária a todos os seus descendentes.
    Desde cedo na história da Igreja cristã esta doutrina, que tem sido chamada de “pecado original”, foi questionada por gente como Pelágio, que afirmava que o pecado de Adão e Eva afetou somente a eles mesmos, e que seus filhos nasciam isentos, neutros, sem pecado, e sem culpa e sem corrupção inata. Tal ideia foi habilmente rechaçada por homens como Agostinho, Lutero, Calvino e muitos outros, que demonstraram claramente que o ensino bíblico é o que chamamos de depravação total e transmitida, culpa imputada e corrupção herdada. As conseqüências práticas para nós hoje são terríveis. Por causa desta corrupção inata, com a qual já nascemos, somos totalmente indispostos para com as coisas de Deus; somos, por natureza, inimigos de Deus e, portanto, filhos da ira. É desta natureza corrompida que procedem os nossos pecados, as nossas transgressões, as desobediências, as revoltas contra Deus e sua Palavra.
    Agora chegamos no ponto crucial e mais relevante para nosso assunto. Entendo que a Bíblia deixa claro que os nossos pecados, tanto o original quanto os pecados atuais que cometemos, por serem transgressões da lei de Deus, nos tornam culpados e portanto sujeitos à ira justa de Deus, à sua justiça retributiva, pela qual ele trata o pecador de acordo com o que ele merece. Ou seja, a humanidade inteira, sem exceção – visto que não há um único justo, um único que seja inocente e sem pecado – está sujeita ao justo castigo de Deus, o que inclui – atenção! – a morte, as misérias espirituais, temporais (onde se enquadram as tragédias, as calamidades, os desastres, as doenças, o sofrimento) e as misérias espirituais (que a Bíblia chama de morte eterna, inferno, lago de fogo, etc.).
    A Bíblia revela com muita clareza, e sem a menor preocupação de deixar Deus sujeito à crítica de ser cruel, déspota e injusto, que ele mesmo é quem determinou tragédias e calamidades sobre a raça humana, como parte das misérias temporais causadas pelo pecado original e as transgressões atuais. Isto, é claro, se você acredita realmente que a Bíblia é a Palavra de Deus, e não uma coleção de idéias, lendas, sagas, mitos e estórias politicamente motivadas e destinadas a justificar seus autores.
    De acordo com a Bíblia:
    • Foi Deus quem condenou a raça humana à morte no jardim (Gn 2.17; 3.19; Hb 9.27).
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    • Foi ele quem determinou a catástrofe do dilúvio, que aniquilou a raça humana com exceção da família de Noé (Gn 6.17; Mt 24.39; 2Pe 2.5).
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    • Foi ele quem destruiu Sodoma, Gomorra e mais várias cidades da região, com fogo caído do céu (Gn 19.24-25).
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    • Foi ele quem levantou e enviou os caldeus contra a nação de Israel e demais nações ao redor do Mediterrâneo, os quais mataram mulheres, velhos, crianças e fizeram prisioneiros de guerra (Dt 28.49-52; Hab 1.6-11).
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    • Foi ele quem levantou e enviou contra Israel povos vizinhos para saquear, matar e fazer prisioneiros (2Re 24.2; 2Cr 36.17; Jr 1.15-16).
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    • Foi ele quem ameaçou Israel com doenças, pestes, fomes, carestia, seca, pragas caso se desviassem dos seus caminhos (Dt 28).
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    • Foi ele quem enviou as dez pragas contra o Egito, ferindo, matando e trazendo sofrimento a milhares de egípcios, inclusive matando os seus primogênitos (Ex 9.13-14).
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    • Foi o próprio Jesus quem revelou a João o envio de catástrofes futuras sobre a raça humana, como castigos de Deus, próximo da vinda do Senhor, conforme o livro de Apocalipse, tais como guerras, fomes, pestes, pragas, doenças (Apocalipse 6—9), entre outros.
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    • Foi o próprio Jesus quem profetizou a chegada de guerras, fomes, terremotos, epidemias (Lc 21.9-11) e a destruição de Jerusalém, que ele chamou de “dias de vingança” de Deus contra o povo que matou o seu Filho, nos quais até mesmo as grávidas haveriam de sofrer (Lc 21.20-26).
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    • E por fim, Deus já decretou a catástrofe final, a destruição do mundo presente por meio do fogo, no dia do juízo final (2Pe 3.7; 10-12).

     

    Isto não significa, na Bíblia, que o sofrimento das pessoas é sempre causado por uma culpa individual e específica. Há casos, sim, em que as pessoas foram castigadas com sofrimentos temporais em virtude de pecados específicos que cometeram, como por exemplo o rei Uzias que foi ferido de lepra por causa de seu pecado (2Cr 26.19; cf. também o caso de Miriã, Nm 12.10). O rei Davi perdeu um filho por causa de seu adultério (2Sm 12.14). Mas, em muitos outros casos, as tragédias, catástrofes, doenças e sofrimentos não se devem a um pecado específico, mas fazem parte das misérias temporais que sobrevêm à toda a raça humana por conta do estado de pecado e culpa em geral em que todos nós nos encontramos. Deus traz estas misérias e castigos para despertar a raça humana, para provocar o arrependimento, para refrear o pecado do homem, para incutir-lhe temor de Deus, para desapegar o homem das coisas desta vida e levá-lo a refletir sobre as coisas vindouras. Veja, por exemplo, a reflexão atribuída a Moisés no Salmo 90, provavelmente escrito durante os 40 anos de peregrinação no deserto. Veja frases como estas:
    Tu reduzes o homem ao pó e dizes: Tornai, filhos dos homens… Tu os arrastas na torrente, são como um sono, como a relva que floresce de madrugada; de madrugada, viceja e floresce; à tarde, murcha e seca. Pois somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniquidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento…
    Não devemos pensar que aquelas pessoas que ficam doentes, passam por tragédias, morrem em catástrofes eram mais pecadoras do que as demais ou que cometeram determinados pecados que lhes acarretou tal castigo. Foi o próprio Jesus quem ensinou isto quando lhe falaram do massacre dos galileus cometido por Pilatos e a tragédia da queda da torre de Siloé que matou dezoito (Lc 13.1-5). Ele ensinou a mesma coisa no caso do cego relatado em João 9.3-4. Os seus discípulos levantaram o problema do sofrimento do cego a partir de um conceito individualista de culpa, ponto que foi rejeitado por Jesus. A cegueira dele não se deveu a um pecado específico, quer dele, quer de seus pais. As pessoas nascem cegas, deformadas, morrem em tragédias e acidentes, perdem tudo que têm em catástrofes, não necessariamente porque são mais pecadoras do que as demais, mas porque somos todos pecadores, culpados, e sujeitos às misérias, castigos e males aqui neste mundo.
    No caso do cego, Jesus disse que ele nascera assim “para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.3). Sofrimento, calamidades, etc., não são somente um prelúdio do julgamento eterno de Deus; há também um tipo de sofrimento no qual Deus é glorificado por meio de Cristo em sua graça, e assim se torna, portanto, um exemplo e um prelúdio da salvação eterna. As tragédias servem para levar as pessoas a refletir sobre a temporalidade e fragilidade da vida, e para levá-las a refletir nas coisas espirituais e eternas. Muitos têm encontrado a Deus no caminho do sofrimento.
    O que eu quero dizer é que, diante das tragédias e  acidentes devemos nos lembrar que eles ocorrem como parte das misérias e castigos temporais resultantes das nossas culpas, de nossos pecados, como raça pecadora que somos. Poderia ser eu que estava entre as vítimas do furacão Sandy. Ou, alguém muito melhor e mais reto diante de Deus. Ainda assim, Deus não teria cometido qualquer injustiça, ainda que todas as vítimas fossem os melhores homens e mulheres que já pisaram a face da terra. Pois mesmo estes são pecadores. Não existem inocentes diante de Deus. Pensemos nisto, antes de ficarmos indignados contra Deus diante do sofrimento humano.
    Por último, preciso deixar claro duas coisas.
    Primeira, que nada do que eu disse acima me impede de chorar com os que choram, e sofrer com os que sofrem. Somos membros da mesma raça, e quando um sofre, sofremos com ele.
    Segunda, é preciso reconhecer que a revelação bíblica é suficiente, mas não exaustiva. Não temos todas as respostas para todas as perguntas que se levantam quando uma tragédia acontece. Não conhecemos a vida das vítimas e nem os propósitos maiores e finais de Deus com aquela tragédia. Só a eternidade o revelará. Temos que conviver com a falta destas respostas neste lado da eternidade.
    Mas, é preferível isto a aceitar respostas que venham a negar o ensino claro da Bíblia sobre Deus, como por exemplo, especular que ele não é soberano e nem onisciente e onipotente. Posso não saber os motivos específicos, mas consola-me saber que Deus é justo, bom e verdadeiro, e que todas as suas obras são perfeitas e retas, e que nele não há engano.
  • A Lição de Gálatas 6:6

    “Mas aquele que está sendo instruído na palavra faça participante de  todas as  coisas boas aquele que o instrui”.

    01. O sentido do versículo é que aquele que é instruído na palavra, reparta coisas boas com aquele que o instrui! O discípulo, o aluno, a ovelha em relação ao seu instrutor, ao Mestre, ao Pastor. Pastorear é, basicamente, dar alimento ao rebanho.

    A ovelha é alimentada, é instruída por seu líder espiritual e, assim, vem a resposta em forma de gratidão, ou seja, o amor em ação: resposta em dar, em repartir algo de bom para com o seu mestre!

    02. A versão de J.B.Phillips diz: “Todo o que for instruído na doutrina cristã, não deixe de contribuir de boa vontade com os seus bens para a subsistência do seu mestre”.

    03. Tem-se a mutua compensação, dar (ministrar a Palavra, o ensino) e receber (o ministrante recebe coisas boas pelo que faz).

    04. O ministrado, por força da palavra grega “koinoneo”, no sentido de comunicar ou compartilhar, há de ser grato ao seu mestre, lhe compensando com algo de bom, o que envolve no primeiro momento, repartir, compartilhar “coisas boas”. Claro, que coisas boas, necessariamente, não são coisas caras, de alto preço (embora isto possa ocorrer), mas, pequeno mimo já expressa amor e gratidão. Nas Igrejas do interior, é comum o povo da roça levar ovos, ou galinha caipira para o seu Pastor ou Líder. Eles levam laranjas, bananas, jaca, verduras e outras frutas. Isso é um gesto de amor e de gratidão!

    05. A ovelha, o instruído faz uma viagem ao exterior e certamente, lembra do seu instrutor na Palavra e traz alguma lembrança, como gesto de amor e gratidão.

    06. Tem-se uma espécie de mutualidade no compartilhar. De um lado, o ministrante que se prepara da melhor maneira possível, que gasta tempo na leitura, na pesquisa, no estudo e na oração, e se apresenta para comunicar o ensino, a doutrina, que certamente trará edificação e crescimento espiritual. Do outro lado, o discípulo, a ovelha que é instruída na palavra, também deve comunicar ou compartilhar coisas boas com o seu Líder ou Instrutor, dentro da sua capacidade financeira ou de bens!

    07. O que está em jogo é o amor e a gratidão por parte daqueles que recebem o genuíno leite racional da Palavra. 08. Hebreus diz: “Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a Palavra de Deus” (13:7). 09. Claro que o obreiro já é digno de duplicada honra e, coletivamente, a Igreja na totalidade de seus membros, tem a responsabilidade de sustentá-lo ( I Timóteo 5:17-18).

    Todavia, Gálatas 6:6, aponta a individualidade de responsabilidade –, “o que é instruído”. Sim, ele precisa ter um espírito de gratidão, de amor e, como é sabido, o amor se expressa em dar, em repartir, em compartilhar. É a fé em ação, pois, “a fé sem obras é morta”, Tiago 2:26b.

  • Lição 1 – Editora Betel – Chaves para a leitura do Apocalipse

    Texto Áureo 

    “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou e as notificou a João seu servo”. Ap 1.1

    Verdade Aplicada 

    O Apocalipse é um livro aberto, cheio de símbolos, profecias, juízos e condenações, mas re­levante, majestoso e apoteótico.

    Objetivos da Lição

    • Introduzir de modo provei­toso e prazeroso o estudo do Apocalipse.
    • Oferecer informação à identi­ficação correta de personagens e fatos do Apocalipse.
    • Corrigir possíveis erros de interpretação.

    Textos de Referência

    Ap 1.3        Bem-aventurado aque­le que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guar­dam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.

    Ap 1.12      E virei-me para ver quem falava comigo. E, virando-me, vi sete castiçais de ouro;

    Ap 1.13      E, no meio dos sete castiçais, um semelhante ao Filho do Homem, vestido até os pés de uma veste comprida e cingido pelo peito com um cinto de ouro.

    Ap 1.14      E a sua cabeça e ca­belos eram brancos como lã branca, como a neve, e os olhos, como chama de fogo;

    Ap 1.15      E os seus pés, seme­lhantes a latão reluzente, como se tivesse sido refinado numa fornalha; e a sua voz, como a voz de muitas águas.

    Ap 1.16      E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.

    A Relevância do Apocalipse

    “Sobe para aqui”, diz-lhe a misteriosa voz (Ap 4:1); e João é transportado para dentro de regiões tão estranhas e remotas que muitos cris­tãos hesitam em explorá-las com ele. Os evangelhos e as cartas são ter­ritórios mais familiares e mais acessíveis. Será que este extraordiná­rio livro do fim da Bíblia, pertencente (em mais de um sentido) a um mundo inteiramente diferente, tem algo a ver com o pragmatismo de vida do século XXI?

    Desde o princípio, no entanto, o livro do Apocalipse afirma ter sido escrito para o benefício, não de uma minoria da igreja, mas de todos; e não para a sua própria época somente, mas para a igreja em todas as épocas. Como todo o resto da Bíblia, o Apocalipse fala hoje.

    A Relevância do Título

    Os dois volumes de história escritos por Lucas (o Evangelho e Atos dos Apóstolos) foram escritos para uma pessoa chamada Teófilo (Lc 1:3; At 1:1). Apesar disso, não temos nenhuma dúvida de que o que foi escrito para Teófilo é para leitores de qualquer época. As cartas de Paulo foram escritas especificamente a grupos de cristãos espalha­dos pelo Império Romano. Entendemos que o que o apóstolo escre­veu a eles se aplica igualmente a nós. Todos os escritos do novo Tes­tamento foram destinados especificamente para os cristãos do primei­ro século, mas não hesitamos em aceitar sua relevância para os cris­tãos modernos. Ora, se agimos assim a respeito dos livros que foram escritos especificamente para pessoas ou grupos de pessoas, quanto mais as partes do Novo Testamento que foram escritas especificamente para os cristãos em geral!

    O título (Ap 1:1-3) diz que o livro do Apocalipse é desse tipo. É a revelação de Jesus Cristo, dada por Deus aos seus servos. Se eusou um dos que servem ao Senhor, então este livro é para mim, ape­sar do conteúdo me parecer irrelevante à primeira vista. É necessário perseverar na leitura para que eu venha a alcançar a bênção prometi­da pelo autor (1:3).

    A Relevância da Saudação

    Apesar de no título João indicar que a sua mensagem é para os ser­vos de Cristo em geral, na dedicatória (1:4-8) ele diz estar escreven­do em particular para as sete igrejas na Ásia. O que João envia àque­las igrejas é algo mais do que as breves cartas contidas nos capítulos 2 e 3. O livro inteiro é a carta e na frase final do livro aparecem as pa­lavras de despedida (22:21). Assim, tanto a frase do título “aos seus servos” como a frase da dedicatória “às sete igrejas que se encontram na Ásia” referem-se ao livro do Apocalipse como um todo. O que João escreve em forma de carta a um grupo de igrejas do primeiro século é de fato uma mensagem a todos os cristãos sem distinção. O princí­pio e o fim do Apocalipse colocam-no na mesma categoria das car­tas de Pedro e de Paulo, de Tiago e de Judas, escritas, a princípio, em função de situações enfrentadas pela igreja primitiva, mas que conti­nham verdades apostólicas que, na intenção de Deus, deveriam ser­vir à igreja em todas as épocas. O Apocalipse não é um mero apêndi­ce à coleção de cartas que constituem a parte central do Novo Testa­mento. É, na realidade, a última e a mais grandiosa de todas essas car­tas. O Apocalipse é tão abrangedor quanto Romanos, tão glorioso quanto Efésios, tão prático quanto Tiago e Filemon, e tão relevante para o mundo moderno quanto qualquer uma delas.

    A Relevância da Cena de Abertura

    Vamos agora deixar de lado o título e a dedicatória (1:1-8) e vamos roubar uma prévia da primeira cena do grande drama onde vemos o Cristo vivo (ressurreto) ditando a João as cartas para as sete igrejas. A igreja em Pérgamo ele diz: “Tenho, todavia, contra ti algumas coi­sas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão (2:14). A igreja em Tiatira ele diz: “Tenho, porém, contra ti o tolerares que esta mulher, Jezabel…. (2:20). Vejamos o que podemos aprender des­ses versículos.

    Foi no tempo de Moisés, provavelmente no século XIII a.C., que Balaão iludiu o povo de Deus com um ensino falso. Em Pérgamo, 1.300 anos mais tarde, encontramos o mesmo falso ensino iludindo novamente o povo de Deus. Foi no nono século a.C. que Jezabel, esposa do rei Aca­be, causou semelhante confusão no meio do povo de Israel. Novecen­tos anos mais tarde encontramos, em Tiatira, não somente os ensinos de Jezabel, mas a sua própria pessoa uma vez mais em evidência.

    É evidente que Cristo não está falando da reencarnação de Je­zabel, mas sim da repetição de um modelo. A história bíblica está re­pleta de repetições desse tipo. Assim, por exemplo, a pregação de Je­sus repete as circunstâncias da pregação de Jonas (Mt 12:39ss), e o erguimento do filho do homem sobre a cruz repete o levantamento da serpente de bronze por Moisés (Jo 3:14). Da mesma forma João Ba­tista não somente relembra, mas em certo sentido é o profeta Elias que viveu séculos antes (Mt 11:14).

    A carta aos Hebreus, cuja raiz está no Antigo Testamento, apre­senta muitos outros exemplos. A mensagem de Deus, que veio com urgência através da boca de Davi, dizendo: “hoje, se ouvirdes a sua voz…., era uma mensagem tão urgente para os cristãos hebreus que a ouviram mil anos depois de Davi, como havia sido para os contem­porâneos de Moisés que a ouviram trezentos anos antes de Davi (Hb 3:7—4:10). Adentrando mais no passado verificamos que o juramen­to feito por Deus a Abraão tem para nós o mesmo valor e força que teve para Abraão (Hb 6:13-18). E voltando ao mais remoto ponto da história humana vemos Abel expressar sua fé no sacrifício que ofere­ceu a Deus, e que mesmo hoje “depois de morto, ainda fala” (Hb 11:4). Assim como em todas as gerações a má influência de Balaão e Jeza­bel pode reaparecer, Deus também, em sua misericórdia, repete cons­tantemente as grandes verdades da salvação; como o profeta disse, elas “renovam-se a cada manhã” (Lm 3:23).

    Precisamos, então, dar pleno significado ao tempo presente dos verbos a que acabamos de nos referir. A urgência de Hebreus 3:7, que pode ser traduzida “o Espírito Santo está dizendo:hoje…se ouvirdes a sua voz’” pode ser comparada à frase sete vezes repetida em Apoca­lipse 2 e 3, que poderíamos traduzir de maneira semelhante: “ouvi o que o Espírito Santo está dizendo às igrejas”. O que temos em Apoca­lipse 2 e 3 é uma reafirmação de certas verdades do mundo espiritual, tão reais nos dias de João como haviam sido nos dias de Jezabel, e não menos relevantes para nós hoje. A promessa de bênção, no princípio e no fim do Apocalipse (1:3; 22:7) é para todos aqueles que leem, ou­vem e guardam as palavras desta profecia, sem distinção de tempo.

    Uma Consequência Importante

    Se é, de fato, assim, chegamos então a uma conclusão de certa importância.

    Antes mesmo de chegar ao segundo versículo do primeiro capí­tulo, defrontamo-nos com três questões importantes que há tempo vêm exercitando a mente dos críticos e comentaristas. O nome Apocalip­se (apokalypsis, no grego) não somente nos diz que é uma revelação de grandes verdades acerca de Jesus Cristo, mas também vincula o li­vro a um tipo particular de literatura judaica chamada “literatura apocalíptica”. A pergunta que se segue em função desta relação é: Até que ponto João pretendia que o seu livro fosse lido como sendo uma lite­ratura apocalíptica? E, por causa disso, quanto é necessário conhecer sobre a literatura apocalíptica para que se possa entender o Apo­calipse de João? A segunda questão é o próprio João. Será ele, de fa­to, João, o apóstolo, o filho de Zebedeu, o mesmo que escreveu o evan­gelho e as três cartas, ou será que esta visão tradicional dos fatos é vul­nerável, o que significa que o autor poderia ter sido outra pessoa, mas com o mesmo nome e com a mesma autoridade. A terceira questão é pertinente aos “servos” a quem o livro é endereçado. É evidente que poderíamos entender melhor o livro se pudéssemos saber exatamen­te quem são os servos e quais as circunstâncias e necessidades às quais João estava se dirigindo.

    O fato de que questões como essas foram tratadas de forma su­mária na introdução não quer dizer que não sejam importantes; mas faz-se necessária uma advertência. Quando o leitor se depara com algo que lhe parece obscuro no livro do Apocalipse, ele pode ser levado a pensar: “se eu tão somente tivesse um conhecimento mais profundo da literatura judaica, ou da história romana, ou da filosofia grega, es­ses mistérios estariam esclarecidos”. Tenho certeza de que isso é ilu­sório. Pois o número de servos do Senhor equipados com este tipo de conhecimento será sempre relativamente pequeno porque “não foram chamados muitos sábios” (1 Co 1:26), e a mensagem do Apocalipse, como já vimos, é endereçada a todos os servos do Senhor sem distin­ção. O valor principal do livro deve ser, portanto, de tal espécie que mesmo os cristãos sem grande cultura possam tirar proveito.

    Este fato não deprecia o valor da pesquisa bíblica e, muito me­nos, exalta o anti-intelectualismo; o estudo das Escrituras exige o uso máximo possível da mente do cristão. Mas é para reafirmar que o requisitado mais importante para o entendimento destes grandes mistérios é um conhecimento, como o que o próprio João tinha da palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo (Ap 1:2 e 9). Para a maio­ria dos que resolveram estudar o Apocalipse de João, aquela Palavrae aquele Testemunho foram a única fonte de iluminação: a Bíblia nas mãos, e o Espírito Santo no coração. É mantendo este foco de ilumi­nação no centro do caminho a ser percorrido, em vez de utilizar-se da pequena luz que os estudos críticos lançam sobre o escuro, é que “quem quer que por ele caminhe não errará, nem mesmo o louco” (Is 35:8).

    O Título (1:1-3)

    Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer, e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João, 2o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu.3 Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo.

    Esta não é a revelação de João: ele é apenas o repórter, mas é do Senhor Jesus Cristo; e mesmo Jesus não é a fonte desta revelação, pois, como podemos ver muitas vezes no Evangelho de João, o Senhor Je­sus recebe-a do Pai. Mesmo passando por cinco estágios de transmis­são: do Pai para o Filho, do Filho para o anjo, do anjo para o escri­tor e daí para os leitores, a revelação é apresentada claramente como a “palavra de Deus e o testemunho de Jesus”. Esta última frase des­creve o que estava para ser mostrado a João na ilha de Patmos. Já no versículo 9, onde a frase “a palavra de Deus e o testemunho de Jesus” ocorrem novamente, não se faz referência ao que João veria, mas ao porquê de ter sido isolado na ilha. João já ouvira Deus falar e já ti­nha visto e ouvido Cristo dar testemunho da veracidade das palavras de Deus. Ele não negaria esta sua experiência cristã, nem poderia fazê-lo, e por isso foi enviado para o exílio. Agora João receberia novamente a palavra e o testemunho, uma mensagem genuína da parte de Deus que no tempo devido deveria ser lida em voz alta nos cultos, como ou­tras porções das Escrituras (v.3). Esta revelação, em certo sentido, não traria nenhuma novidade, simplesmente seria uma recapitulação da fé cristã que João já possuía. Esta seria, porém, a última vez que Deus repetiria os padrões da verdade e o faria utilizando-se de um po­der devastador e um indescritível esplendor.

    Esses versículos desencorajam as visões “futuristas” do Apoca­lipse. Com certeza o livro trata de muitas coisas que ainda jazem no futuro. Mas note-se que a João foram mostradas “as coisas que embreve devem acontecer”. Esta última frase é emprestada da literatura apocalíptica pré-cristã e sutilmente modificada por João. A revelação dada a Daniel consistia no que haveria de acontecer nos últimos dias (Dn 2:28). A igreja primitiva acreditava que o início da era cristã e o princípio dos últimos dias, mencionados por Daniel, aconteceram simultaneamente (At 2:16ss; 3:24). É verdade que a palavra “breve” pode ser traduzida pela expressão “de repente” e dessa forma poder-se-ia argumentar que os eventos profetizados por João, quando começassem a acontecer, se sucederiam rapidamente, mas que poderiam co­meçar a acontecer só muito depois dos dias de João. De acordo com este ponto de vista, a maior parte do Apocalipse não estaria cumpri­da até o dia de hoje. Mas o versículo, como é apresentado, não se re­fere a um tempo futuro muito distante. Quando nos deparamos com a frase de Daniel “o que há de acontecer nos últimos dias “mudada por João para “as coisas que em breve devem acontecer” logo enten­demos qual é a intenção de João. Sua intenção é mostrar que os eventos preditos para um futuro distante por Daniel devem agora, nos dias de João, acontecer em breve. Neste contexto podemos entender melhor a expressão “o tempo está próximo” (v.3).

    Tempo para quê?, poderíamos perguntar. Tempo para o início do fim e dos eventos a ele relacionados? Tempo para o início de uma longa série de acontecimentos que eventualmente anunciarão o fim do mun­do? Tempo para alguma tribulação imediata ou perseguição que será um tipo de presságio do fim? Não é dito a João, de imediato, a que a expressão se refere.

    Mas é digno de nota o que Daniel tinha em mente quando falou dos eventos que haveriam de ocorrer nos últimos dias. A profecia de Daniel estava baseada em um sonho de Nabucodonozor no qual ha­via sido mostrado ao rei, em forma de uma grande estátua, a suces­são dos impérios mundiais, começando com o seu. De acordo com a profecia, nos dias do último daqueles impérios mundiais “o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído” (Dn 2:44).

    E João viu a chegada dos últimos dias. O estabelecimento do rei­no de Deus foi iniciado com a vinda de Cristo, e a promessa feita por Daniel de que “este reino não passará para outro povo: esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2:44), começou também a ser cumprida. O cumprimento de pro­fecias é um processo e não algo que vem de imediato; é um processo muitas vezes prolongado, não súbito, como podemos observar ape­sar dos eventos, que levam ao clímax, moverem-se bastante rápido. Oprocesso que leva ao clímax ocupa toda a era da pregação do Evan­gelho, indo da inauguração do reino (Ap 12:10) até o seu triunfo fi­nal (Ap 11:15). Se o que Daniel previu para os últimos dias é o que o anjo está trazendo para João, então o tempo está, de fato, próximo. Ao chegar a carta aos destinatários, nas igrejas da Ásia, eles poderão afirmar que “estas coisas estão, de fato, acontecendo agora”. É esta característica imediata dos escritos de João que sempre cativou os lei­tores mais dedicados. Portanto, o Apocalipse pode revelar, hoje, no sé­culo XXI, a realidade presente do conflito existente entre o reino des­te mundo e o reino do nosso Senhor.

    A Dedicatória (1:4-8)

    João, às sete igrejas que se encontram na Ásia: Graça e paz a vós ou­tros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono, 5e da parte de Jesus Cris­to, a fiel testemunha, o primogênito dos mortos, e o soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados, 6e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém. 7Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém. 8Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-poderoso.

    Pelo menos dez igrejas haviam sido estabelecidas na província da Ásia quando João escreveu o Apocalipse, portanto deve ter havido alguma razão para que ele escolhesse sete delas. Por agora queremos simplesmente apontar o fato de que o número de igrejas às quais João se diri­giu (cujo significado simbólico será considerado mais adiante ainda em ebdareiabranca.com), bem como a ordem na qual elas são apresentadas (que, ao que tudo indica, parece ser mais uma questão de simetria de estilo do que de geografia) parecem indicar que a mensagem é para a igreja em geral.

    João abre a sua dedicatória com um tipo de saudação que pode ser encontrado na maioria das cartas no Novo Testamento. Pelo fato de dirigir-se a um público bastante grande, sua descrição dos remeten­tes é bastante impressionante. Graça e paz vêm, neste caso, do Deus triuno e cada uma das pessoas da trindade é mencionada por sua vez.

    A descrição de Deus, o pai, que relembra o nome divino dado a Moisés em Êxodo 3:14, demonstra a particularidade de certa porção da linguagem utilizada por João. A gramática do versículo 4 foi sua­vizada na versão ERAB. O que João verdadeiramente escreveu no gre­go seria o seguinte em português: “Graça e paz da parte de ele que é… Será que realmente João deveria ter usado “de ele” em vez de “dele” ou “daquele”? É possível que João estivesse vendo Deus como alguém que é sempre “ele”, o único sujeito de todas as sentenças, que gover­na todo o conteúdo do que está escrito, não sendo “ele” mesmo con­trolado por nada. Nem mesmo pelas leis gramaticais. Encontramos no Apocalipse muitas declarações, muito mais explícitas do que es­ta, do que o escritor da carta aos Hebreus chamou de “a imutabilida­de do seu propósito” (Hb 6:17). De qualquer forma os erros grama­ticais do Apocalipse estão somente na superfície, e podem ser resul­tado da impressionante sequência de visões que o escritor teve. No fun­do, os erros gramaticais são perfeitamente coerentes com a verdade e formam uma peculiar gramática do espírito.

    Aliás, o Espírito que está diante do trono, o centro da trindade, e que conhece as profundezas de Deus (1 Co 2: 10ss), é mencionado a seguir. A visão de João o levará para dentro do santuário celestial, do qual o tabernáculo no deserto era uma cópia e uma sombra (Hb 8:5). E talvez a ordem de apresentação da trindade de um modo pouco costumeiro (Pai, Espírito Santo, Filho) corresponda ao plano do san­tuário terrestre em que a arca no santo dos santos representa o trono de Deus; o castiçal de sete hastes no lugar santo representa o Espírito Santo; e no átrio frontal ficava o altar de bronze com os sacerdotes e sacrifícios, ambos representantes do trabalho redentor de Cristo.

    Se a descrição do Pai contém um dos primeiros solecismos da par­te de João, a descrição do Espírito Santo contém um dos primeiros mistérios. “Sete espíritos” — seria esta uma expressão para representar o Espírito na sua natureza essencial, da mesma forma como as sete igrejas representam a única e verdadeira igreja? Ou será que eles repre­sentam o Espírito igualmente presente em cada uma das igrejas? (Ver 5:6). Ou será que representam os sete dons do Espírito apresentados em Isaías 11:2? Não sabemos com certeza. Todavia somos avisados de antemão que as chaves que abrem certas portas do Apocalipse são de difícil acesso.

    Deus, o Filho, recebe uma descrição mais completa. As raízes da descrição encontram-se no Salmo 89:27,37 e a passagem apresenta o triplo ministério de Jesus como profeta, sacerdote e rei. Com Cris­to a trindade chega à terra e a teologia (v.5) torna-se louvor (vs.5b e 6). Jesus Cristo é o profeta que veio ao mundo para dar testemunho do evangelho da salvação. Apesar da palavra testemunho ser a pala­vra grega martis, o pensamento básico não está relacionado à morte de Cristo e, sim, ao testemunho que ele dá. A vinda de Cristo é uma amável deferência da parte dele para conosco. Ele é o Sacerdote que se ofereceu a si mesmo e que morreu para depois ressuscitar, não so­mente para si, mas para todos os filhos de Deus. Ter sido lavado no seu sangue (ERC) é uma metáfora bíblica aceitável encontrada, por exemplo, em 7:14; mas a ERAB diz: “pelo seu sangue nos libertou”, tradução que não somente tem uma melhor sustentação nos manuscritos originais, como ainda associa o nosso texto aos acontecimen­tos descritos no livro de Êxodo, tais como a morte do cordeiro pascal e a redenção de Israel do jugo egípcio. No Calvário foi efetuada uma redenção muito mais abrangente. E seus benefícios são para nós. Agora o Senhor é exaltado como Rei dos reis, e da mesma forma como Is­rael foi libertado da escravidão para se tornar um reino de sacerdotes (Êx 19:6; Ap 5:9-10), é dada a nós a oportunidade de compartilhar do reinado do Senhor. Um dia o Senhor voltará, como ele mesmo afir­mou. Aliás, foi o próprio Senhor, e não João, que primeiro juntou esta dupla figura profética que envolve as nuvens e a lamentação das tri­bos da terra associadas à sua segunda vinda (Dn 7:13; Zc 12:10; Mt 24:30). Aqueles que o traspassaram irão reconhecê-lo e lamentarão a oportunidade perdida de salvação. Mas seu próprio povo estará a esperá-lo, sabendo que ele é o “Alfa e o Ômega”, o princípio e o fim de todas as coisas. E assim o trabalho do Senhor estará terminado.

    Este é o Deus Todo-poderoso que está enviando graça e paz a nós, seus servos, na longa carta que se segue. Graça e paz em vez de per­plexidade e confusão é o que promete o Senhor a todos que com es­pírito confiante o procurarem para serem abençoados. O Apocalipse é um verdadeiro drama. Depois do título e da dedicatória que formam o prólogo, as cortinas são abertas e o drama começa.

    Bibliografia M. Wilcock

    Fonte:http://www.ebdareiabranca.com/2012/2trimestre/licao01.html




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  • Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes

    Stephen Covey baseou seus fundamentos para o sucesso na Ética do Caráter – atributos como integridade, humildade, fidelidade, temperança, coragem, justiça, paciência, diligência, simplicidade, modéstia e na Regra de Ouro: fazer aos outros o que desejamos que nos façam.

    A Ética da Personalidade – crescimento da personalidade, treinamento em práticas de comunicação e educação na área de influências estratégicas e pensamento positivo – é secundário para a Ética do Caráter.

    O que somos transmite muito mais eloqüentemente do que o que dizemos  ou fazemos.

    Um paradigma é a maneira como percebemos, compreendemos e interpretamos o mundo à nossa volta. É uma maneira diferente de olhar as pessoas e as coisas.

    Para sermos eficazes necessitamos fazer uma mudança de paradigmas.

    A maioria das descobertas científicas é resultado de quebras de paradigmas, tais como quando Copérnico considerou o Sol como o centro do universo e não a Terra.

    Quebras de paradigmas são mudanças quantificáveis, mesmo que lentas e deliberadas ou instantâneas.

    Um hábito é a interseção entre o conhecimento, a habilidade e o desejo. O conhecimento é o que fazer e porque fazer, a habilidade é o como fazer ; e o desejo é a motivação, o querer fazer.

    Para tornar algo um hábito em nossas vidas precisamos reunir estes três elementos.

    Os sete hábitos são uma abordagem altamente integrada que passa da dependência (você cuida de mim) para a independência (eu cuido de mim mesmo) e para a interdependência (podemos fazer algo melhor juntos).

    Os três primeiros hábitos tratam da independência – a essência do crescimento docaráter. Os hábitos 4, 5 e 6 tratam da interdependência – trabalho em equipe, cooperação e comunicação. O hábito 7 é o hábito da renovação.

    Os sete hábitos estão em harmonia com a lei natural que Covey chama de “Equilíbrio P/CP”, onde o P representa a produção dos resultados desejados e CP indica a capacidade de produção, os bens ou os meios. Por exemplo, se você falha na manutenção de um cortador de grama (CP) ele se desgastará e não será capaz de aparar a grama (P). Você necessita equilíbrio entre o tempo gasto aparando a grama (resultado desejado) e a manutenção do cortador de grama (bens).

    Os bens podem ser físicos, como o exemplo do cortador de grama; financeiros, tais como o equilíbrio entre o capital (CP) e o interesse (P); humanos, tais como o equilíbrio entre o treinamento (CP) e o horário das reuniões (P). Você necessita de equilíbrio para ser eficaz; de outra forma você não terá o cortador de grama e nem a grama aparada.

    Hábito 1: Seja Pró-ativo

    Ser pró-ativo implica ser responsável por sua vida – a capacidade de escolher uma resposta à determinada situação. O comportamento pró-ativo é um produto de sua escolha consciente baseada em valores e não resultado de um comportamento reativo, baseado em sentimentos.

    As pessoas reativas deixam circunstâncias, condições, ou o ambiente mostrarem a ela como responder. Pessoas pró-ativas deixam seus valores selecionados, internalizados e cuidadosamente pensados dizer como responder.

    Não é o que nos acontece, mas a nossa resposta, que diferencia estes dois comportamentos. Ninguém pode torná-lo miserável a menos que você consinta.

    A linguagem que utilizamos é um indicador real de nosso comportamento. As comparações estão na tabela acima.

    Hábito 2: Comece com o Objetivo em Mente

    A aplicação fundamental deste hábito é iniciar cada dia com uma imagem ou paradigma do final da sua vida como um quadro de referência. Cada parte de sua vida pode ser analisada em termos daquilo que realmente é mais importante para você – a visão de sua vida como um todo.

    Todas as coisas são criadas duas vezes – há uma criação mental ou inicial, e uma criação física, ou segunda criação. Para construir uma casa, primeiro você faz uma planta e depois constrói a casa real. Você cria um discurso no papel antes de pronunciá-lo.

    Se você quer ter uma empresa bem-sucedida inicie com um planejamento que irá produzir um determinado objetivo; assim, a liderança é a primeira criação e o gerenciamento é a segunda.

    Liderar é fazer as coisas certas e gerenciar é fazer as coisas do jeito certo.

    Para começar com um objetivo em mente, desenvolva uma filosofia pessoal ou credo.

    Comece considerando os exemplos abaixo:

    • Jamais comprometa sua honestidade.
    • Lembre-se das pessoas envolvidas.
    • Mantenha uma atitude positiva.
    • Exercite seus valores diariamente.
    • Mantenha o senso de humor.
    • Não tenha medo dos erros.
    • Facilite o sucesso dos subordinados.
    • Leia um livro sobre liderança por mês.

    Ao centrarmos nossa vida em princípios corretos, criamos uma base sólida para o desenvolvimento dos quatro fatores que sustentam a vida: segurança, orientação, sabedoria e poder. Princípios são verdades fundamentais.

    Eles são linhas estreitamente interligadas, tecendo a vida com exatidão, consistência, beleza e força.

    Hábito 3: Primeiro o mais Importante

    O Hábito 1 diz: “Você é o criador. Você está no comando”. O Hábito 2 consiste na primeira criação e está baseado na imaginação – liderança baseada em princípios.

    O Hábito 3 é a prática do gerenciamento pessoal e requer como pré-requisitos os Hábitos 1 e 2. É o gerenciamento do nosso tempo no dia-a-dia, a cada momento.

    Uma sugestão de matriz do gerenciamento do tempo está diagramada abaixo:

    Urgente significa que requer nossa atenção imediata, e Importante tem a ver com resultados que contribuem para nossa missão, nossos objetivos e valores. Pessoas eficazes, pró-ativas, gastam a maior parte do seu tempo no Quadrante II,desse modo, reduzindo o tempo gasto no Quadrante I. Quatro atividades são necessárias para ser eficaz.

    Primeira atividade: anotar os papéis principais (tais como Gerente de Vendas, Diretor e pai) que desempenha durante a semana;

    Segunda atividade: listar suas metas para cada papel utilizando as atividades do Quadrante II. Estas metas devem estar vinculadas às suas metas pessoais ou filosofia desenvolvida no Hábito 2;

    Terceira atividade: planejar o seu tempo para atingir as metas; quarta atividade: adaptar a agenda semanal às suas atividades diárias.

    Hábito 4: Pense em Ganha/Ganha

    Ganha-Ganha é um estado de espírito que busca constantemente o benefício mútuo em todas as interações humanas. 

    Todas as partes se sentem bem com a decisão; de fato, o objetivo final é, em geral, a melhor maneira. Se o Ganha/Ganha não é possível, então a alternativa é Nada Feito. 

    Para criar estes benefícios mútuos, exige-se muita coragem e consideração, especialmente se a outra parte está pensando Ganha/Perde. 

    O princípio Ganha/Ganha abrange cinco dimensões interdependentes da vida: caráter, relacionamentos, acordos, sistemas e processos. O caráter envolve características de integridade; maturidade, que é o equilíbrio entre a coragem de expressar seus sentimentos e a consideração pelos outros; e mentalidade de abundância que diz haver o bastante para todos.  

    Nos relacionamentos ambos os lados acreditam um no outro e estão profundamente comprometidos com o Ganha/Ganha. 

    Os acordos requerem os cinco elementos: resultados desejados, orientação, recursos, administração e conseqüências. Acordos Ganha/Ganha somente sobrevivem em um sistema que sustentem estes cinco elementos. Você não pode falar em Ganha/Ganha e recompensar com Ganha/Perde.

    Para se obter soluções Ganha/Ganha é necessário um processo de quatro fases:

    (1) ver o problema do ponto de vista do outro,

    (2)identificar as questões-chave e as preocupações envolvidas,

    (3) determinar os resultados aceitáveis,

    (4) identificar as novas opções possíveis para atingir esses resultados. 

    Hábito 5: Procure Primeiro Compreender, Depois ser Compreendido  

    Procurar primeiro compreender implica uma mudança no paradigma, visto que geralmente procuramos que primeiro nos compreendam. 

    Escuta empática é a chave para uma efetiva comunicação. É o foco na aprendizagem de como a outra pessoa vê o mundo, como ela o sente.

    A essência da escuta empática não está em concordar com alguém; mas sim compreender aquela pessoa profundamente, tanto no plano emocional quanto no intelectual. 

    Depois da sobrevivência física, a maior necessidade humana é a sobrevivência psicológica – ser compreendido, se afirmar, receber incentivo, ser amado. 

    A segunda parte do hábito está em ser compreendido. Covey utiliza-se de três palavras gregas na seguinte seqüência: ethos, pathos, logos. Ethos é a sua credibilidade emocional ou caráter; pathos é a empatia que você tem comunicando-se com outra pessoa; e logos é a lógica ou a parte pensada da comunicação.

    Hábito 6: Sinergia

    Sinergia significa que o todo é maior do que as partes. Os primeiros cinco hábitos preparam para o Hábito 6. 

    Ele foca o conceito de Ganha/Ganha e as habilidades de comunicação empática para enfrentar os desafios e trazer novas opções que não existiam antes. A sinergia ocorre quando as pessoas abandonam suas comunicações monótonas e a mentalidade Ganha/Perde e se abrem para uma cooperação criativa. 

    Quando há uma compreensão genuína, as pessoas encontram soluções que são melhores do que encontrariam agindo individualmente. 

    Hábito 7: Afine o Instrumento (Renovação)

    O Hábito 7 significa parar para afiar a serra que assim ela cortará mais rápido. 

    O Hábito 7 é o seu CP pessoal – preserva e melhora seu bem mais precioso, que é você. 

    Renova as quatro dimensões de sua natureza – física, espiritual, intelectual emocional. As quatro dimensões de sua natureza devem ser exercidas com regularidade, de forma equilibrada e sensata. 

    Renovar a dimensão física significa comer os alimentos adequados, descansar e relaxar e praticar exercícios regularmente.

    A dimensão espiritual é o seu comprometimento com o sistema de valores. 

    A renovação vem da oração, meditação e leituras espirituais. A dimensão mental é o desenvolvimento permanente do intelecto através da leitura, seminários e da escrita. 

    Estas três dimensões pertencem ao Quadrante II e não podemos recusar o tempo necessário a elas. A dimensão emocional de nossas vidas está vinculada aos relacionamentos com os outros, e através deles se manifesta.

    Esta atividade não exige tempo, mas requer treinamento.

    Sobre:STEPHEN R. COVEY é uma autoridade em liderança, especialista em família, professor, autor e consultor organizacional respeitado internacionalmente. É também co-fundador e vice-presidente da FranklinCovey Co. Ele, sua esposa e sua família moram nas Montanhas Rochosas de Utah.

    Para mais informações, visite www.stephencovey.com





     

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