Autor: Eduardo Melo

  • Somos programados para acreditar em Deus?

    Algumas habilidades humanas, tais como a música, são tratadas como dons: alguns parecem “ter nascido para a música”. No entanto, tarefas como andar e falar são comuns a todas as pessoas saudáveis, todos fomos “nascidos para andar” ou para falar. Será que é possível incluir a tendência de crer em Deus em um destes dois grupos? Acreditar em uma divindade é algo que vem naturalmente com o ser humano ou não?

    Um autor norte-americano, Justin Barrett, acredita que sim. Ao analisar pesquisas antropológicas de várias universidades americanas, ele defende que quase todos nós nascemos naturalmente “crentes em Deus”.

    Isso significa que, usando a lógica do andar ou falar, estamos naturalizados com a religião e a crença tão logo ela nos é apresentada, ainda na primeira infância. Seria uma tendência incluída na mente desde o nascimento.

    Um estudo psicológico com bebês de 9 meses de idade, conduzido pela Universidade Emory (Atlanta, EUA), fez experimentos cognitivos. Os pesquisadores observaram que o cérebro das crianças, para entender o mundo, faz associações a partir de “agentes” (qualquer fator de ação ao seu redor, não necessariamente uma pessoa), e de como podem interagir com eles.

    Naturalmente, os bebês sabem que tais agentes têm uma finalidade, ainda que seja desconhecida, e que os agentes podem existir mesmo que não possam ser vistos (é por isso, por exemplo, que filhotes de animais buscam se proteger de predadores mesmo que não os tenham visto).

    Essa tendência, segundo o autor, facilita que se acredite em Deus. Não nos causa estranheza atribuir determinados fenômenos a um ente desconhecido: nosso cérebro pode lidar com isso sem problemas.

    Outra pesquisa, da Universidade Calvin, em Grand Rapids (Michigan, EUA) vai ainda além: não apenas temos naturalidade com a ideia de um agente invisível, como somos diretamente propensos a este pensamento. Além disso, tais tendências não desaparecem na infância, se prolongando pela vida adulta na maioria dos casos.

    Desde a infância, somos condicionados a acreditar que todas as coisas têm um propósito fixo. Uma terceira faculdade americana, Universidade de Boston (Massachussets, EUA), estudou crianças de 5 anos que visitavam um zoológico e olhavam para a jaula dos tigres.

    Os pesquisadores descobriram que as crianças são mais propensas a acreditar que “os tigres foram feitos para andar, comer e serem vistos no zoológico”, do que “ainda que possam comer, andar e serem vistos, não é para isso que foram feitos”.

    Temos dificuldade em não saber a razão da existência de algo, por isso recorremos a divindades. Este ente superior, por deter uma resposta que o ser humano não pode descobrir, recebe naturalmente atribuições de onisciência, onipresença e imortalidade, pois nosso cérebro tende a depositar todo o universo desconhecido em tal entidade.

    O autor ainda lança uma pergunta: se Deus é aceito pelas crianças em um mecanismo de atribuição do desconhecido, semelhante ao Papai Noel ou a Fada do Dente, porque as crenças nestes últimos morrem com a infância e a ideia de Deus tende a permanecer na vida adulta?

    Isso se explica, segundo ele, porque a imagem de Deus é mais poderosa. Papai Noel sabe apenas que deve te entregar um presente no dia 25 se você se comportou, e a Fada verifica apenas se você escondeu o dente debaixo do travesseiro.

    Deus, ao contrário – e desde sempre somos levados a acreditar nisso -, sabe não apenas tudo o que você faz, mas também todos os outros seres do mundo e do universo. É por isso que algumas pessoas só passam a crer em Deus depois de mais velhas, mas ninguém retoma na vida adulta uma crença no Papai Noel: isso é algo restrito ao imaginário infantil. [New Scientist]

    Fonte: http://hypescience.com/somos-programados-para-acreditar-em-deus/

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  • Lição 13 – Revista Central Gospel – Neemias o Restaurador

    O inverno estava chegando em 445 a.C., e Neemias estava na cidadela em Susã, a sede do governo persa. Uma geração antes, no mesmo lugar, Ester e Mordecai conseguiram salvar os judeus da matança tramada por Hamã. Neemias estava entre os judeus que ainda moravam fora do seu país, mesmo 90 anos depois da volta de Zorobabel para reconstruir o templo e povoar novamente a cidade de Jerusalém. Neemias foi copeiro do rei, uma pessoa respeitada pelo homem mais poderoso do mundo.

    Hanani fez a viagem de 1.600 quilômetros de Jerusalém a Susã para visitar seu irmão, Neemias. As notícias que ele levou entristeceram Neemias. Hanani disse que o povo de Jerusalém encontrava-se numa situação precária e insegura, sujeito às agressões dos povos que controlavam as regiões adjacentes à cidade.

    Neemias, extremamente preocupado com o bem-estar dos seus parentes e compatriotas, chorou, jejuou e orou ao Senhor. Ele baseou suas petições nas grandes promessas de Deus, certo da fidelidade de Deus em cumprir a sua palavra. Pediu que Deus estivesse com ele diante do rei da Pérsia.

    Lição: Devemos buscar a vontade de Deus e o bem de seu povo.

    Quatro meses depois, já no início da primavera, Neemias teve sua oportunidade de agir. O rei Artaxerxes percebeu a tristeza de seu copeiro, e perguntou o motivo. Neemias explicou a sua preocupação com o povo em Jerusalém. Quando o rei ofereceu ajuda, Neemias orou a Deus e fez seus pedidos ao rei: Œ Licença para ir a Jerusalém para reedificar a cidade,  Cartas para assegurar sua passagem pelas províncias no caminho, e Ž Autorização para o uso de madeiras da floresta na construção. Pela bondade de Deus, o rei deu tudo que Neemias pediu, e este partiu para Jerusalém.

    Lição: É importante orar e planejar antes de agir.

    A Vistoria da Obra (2:11-16)

    Neemias chegou em Jerusalém sem fanfarra, e esperou três dias antes de começar o seu trabalho. Ele saiu de noite, levando poucos homens, sem anunciar o seu propósito. Naquela noite, Neemias percorreu a cidade de Jerusalém, fazendo vistoria das muralhas. Antes de dar alguma orientação ao povo, ele precisava entender a situação.

    Lição: Devemos entender os problemas antes de propôr as soluções.

    O Apelo ao Povo (2:17-18)

    Depois de terminar sua vistoria, Neemias falou com o povo e fez seus apelos. Ele falou sobre Œ O problema – a miséria do povo,  A necessidade de agir para resolver o problema, e Ž A dependência em Deus para alcançar a solução.

    Lição: Para resolver qualquer problema espiritual, precisamos considerar as mesmas três coisas;

    A Resposta dos Judeus (2:18)

     

    Neemias não pretendeu fazer a obra sozinho. Precisou da cooperação do povo para edificar as muralhas. Os judeus se mostraram dispostos e começaram os seus preparativos para o trabalho de construção.

    Lição: O trabalho bem-sucedido no reino de Deus depende da nossa disposição e cooperação.

    A Oposição (2:10,19-20)

    Ao longo do relato da construção, há referências à oposição dos povos vizinhos. Eles não queriam deixar Jerusalém ficar forte e próspera, e fizeram tudo que foi possível para intimidar o povo e impedir a obra. Neemias não cedeu à pressão dos adversários. Ele confiou em Deus, e recusou dar ouvidos aos adversários. Eles até sugeriram que o trabalho fosse ilegal, procurando provocar medo de problemas com o governo, mas Neemias não cedeu. Deus estava com ele, e as ameaças dos adversários não impediriam o trabalho do Senhor (6:9). Em outras épocas da história bíblica, os servos do Senhor enfrentaram perseguições severas, até levando à morte de vários discípulos. Mas confiaram no Senhor e prosseguiam na obra, apesar das ameaças reais dos inimigos. “Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Apocalipse 12:11).

    Lição: Deus é mais forte do que todos os seus adversários. Se confiarmos nele, teremos bom êxito no trabalho.

    A Cooperação Prática na Obra (3:1-32)

    O capítulo três de Neemias, na minha opinião, é o mais bonito do livro. A primeira vista, pode não perceber a beleza dele, pois contém uma lista de nomes e detalhes geográficos. Mas estes nomes e referências a lugares mostram como cada família e cada pessoa contribuíram à obra de construção. Uma família assumiu a responsabilidade de edificar um trecho do muro, enquanto outra ergueu o próximo. Do sumo sacerdote e maiorais do povo aos residentes comuns de Jerusalém e de outras cidades judaicas, o povo pôs a mão à massa e trabalhou dia e noite. Neemias comentou sobre este espírito de cooperação: “Assim, edificamos o muro… porque o povo tinha ânimo para trabalhar” (4:6). Quantas vezes falhamos em nosso trabalho diante do Senhor por motivo de desânimo? O dever precisa vencer o desânimo!

    Lição: Devemos ser servos humildes – todos nós – dispostos e ativos no trabalho de Deus.

    A Proteção Divina e a Responsabilidade Humana (4:1-23)

    Devido à disposição do povo para trabalhar, as muralhas chegaram à metade de sua altura, e começaram a fechar as brechas. Neemias ouviu que os inimigos se preparavam para atacar a cidade. A reação dele mostra uma atitude excelente de fé e responsabilidade: “Porém nós oramos ao nosso Deus e, como proteção, pusemos guarda contra eles, de dia e de noite” (4:9). Quando enfrentamos desafios na vida, não devemos ficar de braços cruzados. Devemos fazer o que podemos, dentro dos papéis definidos pelo Senhor, para resolver os problemas. Por outro lado, seria tolice achar que todas as soluções se encontram em nossas mãos. Devemos, como Neemias, orar ao Senhor e confiar nele para cuidar das coisas que são maiores do que nós.

    Lição: O servo de Deus vive pela fé e ora sem cessar, mas não foge da responsabilidade de cumprir os seus deveres.

    A Luta pela Família (4:12-14)

    Quando Neemias organizou os trabalhadores para se defenderem contra os adversários, ele chamou todos a pelejarem pelas próprias famílias (4:14). O desejo de salvar as próprias famílias motivou os judeus a trabalharem e vigiarem constantemente. Deve ter o mesmo efeito em nossas vidas. Mas as ameaças maiores hoje são os ataques espirituais que o Adversário faz constantemente, bombardeando as nossas famílias com tentações que ameaçam nos levar à perdição.

    Lição: Pelejemos pela família!

    A Obra Terminada (6:15-16)

    Depois de duas gerações de empecilhos e desculpas, Neemias e o povo se dispuseram a trabalhar e realizaram a obra em apenas 52 dias! Quantas vezes procrastinamos e imaginamos muitos motivos para não fazer o nosso dever, quando o trabalho em si poderia ser realizado em pouco tempo?

    Lição: Deixemos de lado as nossas desculpas. Mãos ao trabalho!

    Neemias e o povo de Judá aceitaram o desafio e realizaram uma obra importante na construção dos muros de Jerusalém. Aprendemos muitas lições importantes do bom exemplo deles.

     

    –por Dennis Allan

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  • Lição 13 – Revista CPAD – Somente em Jesus temos a Verdadeira Prosperidade

    A verdadeira prosperidade está na comunhão com Deus, unicamente possível por Jesus Cristo.

    INTRODUÇÃO

    – No encerramento deste trimestre letivo, estudaremos o verdadeiro significado da vida abundante, da verdadeira prosperidade, que é a comunhão com Deus, que se obtém por meio de Jesus Cristo.

    A comunhão com Deus dá ao homem o bem-estar psíquico e a suficiência material, elementos necessários para que vençamos a jornada passageira sobre a face da Terra.

    I – JESUS, A FONTE DA VIDA

    – Estamos a terminar este trimestre letivo, em que estudamos a respeito da verdadeira prosperidade bíblica, a vida cristã abundante, a fim de não nos iludirmos com a “teologia da prosperidade”, um dos mais nefastos falsos ensinos que têm assolado a Igreja nestes últimos dias da dispensação da graça.

    – Nesta última lição, concluindo o estudo a respeito da verdadeira prosperidade bíblica, vamos analisar o que é a “vida cristã abundante”, que é o subtítulo do tema estudado no trimestre, conceito que tem aspectos espirituais e materiais que convergem na pessoa de Jesus Cristo.

    – Logo no limiar da Bíblia Sagrada, a revelação de Deus à humanidade, vemos claramente o significado de “vida”. Após criar o homem, o Senhor o pôs no jardim que havia formado no Éden e lhe disse que poderia comer livremente de toda a árvore que havia no jardim, mas, se comesse do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, traria como consequência a “morte” (Gn.2:16,17).

    – Vemos, assim, que o Senhor disse ao primeiro casal que a “vida” consistia na obediência ao Senhor, que a comunhão com Deus era “vida”. O contrário daquilo, ou seja, a desobediência, a busca de um caminho próprio sem Deus era a “morte”. Por isso, esta comunhão era simbolizada por uma árvore que ficava no meio do jardim, por isso mesmo chamada de “árvore da vida” (Gn.2:9), cujo acesso foi negado ao ser humano assim que ele desobedeceu ao Senhor (Gn.3:22-24).

    – Esta “vida” de que fala o Senhor é traduzida no grego pela palavra “zoé” (???), que tem um sentido não só de “vida física”, mas, também, de “vida pertencente a Deus”, tanto que é a palavra utilizada para traduzir a expressão “alma vivente” em Gn.2:7, ocasião em que Deus soprou nas narinas do homem trazendo-lhe o “fôlego de vida”. É a palavra utilizada em o Novo Testamento para denominar a “vida eterna” (“zoé aioníos” – ??? ???????).

    – Trata-se, pois, de algo bem amplo que a mera existência biológica, que o grego chama de “bios” (????), palavra que é utilizada, por exemplo, em I Tm.2:2, quando o apóstolo Paulo fala de uma “vida quieta e sossegada” ou o apóstolo João, em I Jo.2:16, fala da “soberba da vida”. Este conceito tem como significado o da “vida diária”, da “existência biológica”, da “vida sobre a face da Terra”.

    – Nota-se, portanto, que, logo no princípio das Escrituras, temos uma verdadeira distinção entre o que é a “vida” no seu sentido amplo, que envolve o aspecto espiritual, tanto que só se fala que o homem é “alma vivente” a partir do instante em que é criado o homem interior (alma e espírito), e o que comumente se denomina de “vida”, ou seja, a mera existência física sobre a face da Terra, aquilo que é estudado pela “biologia”.

    – A partir do momento que o homem pecou, pois, estava ele já numa situação de “morte”, ainda que, biologicamente, estivesse ele “vivo” depois de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, tanto que pôde se locomover, procurando esconder-se de Deus e, antes disso, tivesse, inclusive, fabricado vestimentas para si (Gn.3:7,8). A “morte espiritual” não os impediu se iniciar a reprodução da raça humana, uma vez expulsos do jardim (Gn.4:1,2), reprodução, aliás, que transmitiu a morte para toda a humanidade (Gn.5:3; Rm.5:12).

    Quando, pois, falamos de “vida”, não podemos, de modo algum, desvincular esta questão do pecado. “O salário do pecado é a morte” (Rm.6:23), ou seja, a morte é inevitável consequência do pecado e não se pode falar em “vida” sem que se resolva a questão do pecado.

    A problemática do pecado foi resolvida mediante a vinda de Jesus Cristo a este mundo. Ele veio para nos dar a “vida eterna” (Jo.3:16), Ele é a “semente da mulher” que traria inimizade com a serpente e, consequentemente, reataria a comunhão de Deus com o homem (Gn.3:15), pois não se pode ser amigo de Deus e amigo do mundo ao mesmo tempo (Tg.4:4)..

    – Não foi por outro motivo que o Senhor Jesus disse que quem cresse n’Ele e ouvisse a Sua Palavra passaria da morte para a vida (Jo.5:24). O Senhor Jesus disse que veio para trazer vida e vida com abundância (Jo.10:10). Esta “vida abundante” é, precisamente, a superação de mera “existência biológica” para se ter, novamente, a comunhão com Deus, a perspectiva de uma existência além da vida biológica com Deus.

    – Assim que recebemos a Cristo como Senhor e Salvador, passamos a desfrutar, de imediato, desta “vida abundante”, visto que temos nossos pecados perdoados, pecados estes que são retirados pelo Senhor (Jo.1:29). Passamos, então, a viver uma “vida diferente”, pois passamos a “viver uma vida na fé do Filho de Deus” (Gl.2:20), uma vida de comunhão com o Senhor.

    – Por estarmos em uma vida de comunhão com o Senhor, passamos a cada dia a buscarmos ter a mesma unidade que há entre o Pai e o Filho (Jo.10:30; 17:11). A “vida abundante” tem como meta, como objetivo o tornar-nos “um com o Senhor”, ou seja, tornarmo-nos um ser com a mesma vontade, o mesmo desejo, o mesmo sentimento que tem o Senhor.

    – A “vida abundante”, portanto, quer levar-nos para uma situação similar a do apóstolo Paulo, que tinha uma intimidade tão profunda com o Senhor que já dizia que não era ele quem vivia, mas, sim, que Cristo é que vivia nele (Gl.2:20).

    A “vida abundante” que nos vem de Cristo é “abundante” em dois aspectos: primeiro, no aspecto qualitativo, pois envolve não só a existência biológica, mas, também, e mais importante, a vida espiritual, a comunhão com o Senhor; segundo, o aspecto quantitativo, pois não é limitada pelo tempo. Vinda de Deus, que é eterno, a vida é, igualmente, eterna, não tem fim, vai além da nossa curta e passageira existência sobre a face da Terra.

    – O Senhor Jesus ilustrou esta circunstância nas Suas últimas instruções, quando afirmou ser “a videira verdadeira” e os Seus servos, “as varas”. Ora, as varas são um “prolongamento” do tronco da videira e, uma vez destacadas deste tronco, perecem, não têm como sobreviver, pois a sua vida depende da seiva que vem do tronco. De igual maneira, os discípulos do Senhor Jesus não podem ter vida se não estiverem ligados a Cristo, se de Jesus não lhes vier a vida.

    – Tendo vida, a vara, que está ligada à videira, produz fruto. Esta é a demonstração de que a vara tem vida: a frutificação. Como já estudamos neste trimestre, o primeiro objetivo de Deus para o homem era a sua frutificação, algo que deve ser compreendido do ponto-de-vista espiritual, ou seja, a produção do fruto do Espírito (Gl.5:22). Por isso, o Senhor disse que conheceríamos os Seus discípulos pelos frutos (Mt.7:16-20).

    – Aquele que tem vida eterna porque creu em Jesus Cristo, no Filho de Deus (Jo.3:36) produz frutos de justiça (Fp.1:1), bons frutos (Tg.3:17), pelos quais é reconhecido como genuíno e autêntico discípulo de Cristo (Mt.7:17,18).

    II – A VIDA ETERNA

    – Em I Jo.5:13, o apóstolo João fala que havia escrito aquela carta para que os salvos soubessem que tinham a vida eterna e para que cressem em o nome do Filho de Deus.

    – Um tema que os escritos joaninos muito exploram é o da “vida eterna”. No seu evangelho, o “apóstolo do amor” mostra-nos com absoluta clareza que o objetivo da salvação em Jesus Cristo é a concessão da vida eterna ao homem: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3:16).

    – Crer em Jesus faz com que o homem tenha a “vida eterna”. Mas o que é “a vida eterna”? O mesmo João nos responde, reproduzindo as palavras do Senhor Jesus em Sua oração sacerdotal, o conhecimento do Senhor como único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo como o Seu enviado (Jo.17:3).

    – A “vida eterna” apresenta-se como o “conhecimento de Deus”, ou seja, o envolvimento entre Deus e o homem, visto que “conhecimento”, no sentido hebraico do termo, não é domínio intelectual, mas compartilhamento, intimidade, construção de uma unidade entre Deus e o homem, daí porque Jesus ter dito que o objetivo da Sua obra era fazer com que nos tornássemos um com Deus (Jo.17:21).

    – Temos vida quando nos entregamos a Jesus como único e suficiente Salvador, quando reconhecemos que Ele foi o enviado do Pai para a salvação da humanidade, que Ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo.14:6). Neste instante, ao crermos em Jesus como o Salvador, temos nossos pecados perdoados e cessa a separação que havia entre nós e o Senhor (Is.59:2; Ef.2:12-16), separação que nada mais é que morte. Sem o pecado, que é tirado por Jesus (Jo.1:29), voltamos a ter comunhão com Deus, passamos da morte para a vida (Jo.5:24).

    A “vida eterna” é o estado de comunhão entre Deus e o homem, feito por intermédio da fé em Jesus Cristo, de que já desfruta, mesmo neste mundo, todo aquele que se entrega a Jesus como único e suficiente Salvador. Muitos pensam, equivocadamente, que a “vida eterna” somente se inicia ou com a morte física, ou, então, no dia do arrebatamento da Igreja. Nossa morte física ou a vinda do Senhor para buscar a Sua Igreja nos levam para a “dimensão eterna”, ou seja, faz-nos sair do mundo físico, mas a “vida eterna” começa no momento em que ouvimos a Palavra do Senhor e cremos em Jesus como o Senhor e Salvador dos homens.

    – Por isso, o “texto áureo” da Bíblia (Jo.3:16) diz que quem crê em Jesus “tem” a vida eterna, e não “terá”, prova de que a vida eterna é algo que já se desfruta neste mundo, não é algo a ser apenas alcançado quando se terminar a existência terrena. É verdade que o processo da salvação só se completa com a glorificação, a se dar no instante em que Jesus arrebatar a Sua Igreja, mas é inegável que já temos a vida eterna desde o instante em que nascemos de novo, nascimento que se dá pelo Espírito e não pela vontade da carne (Jo.3:6).

    – Na sua carta, João reafirma que os salvos já têm a vida eterna, porque creram em Jesus como o Filho de Deus (I Jo.3:13). Vemos, pois, claramente que quem nega a deidade de Jesus, quem não considera o Senhor Jesus como o Filho de Deus, como o Salvador, não tem salvação. Muitos procuram, na atualidade, diluir esta verdade bíblica, tentando “arrumar” salvação para quem apenas considera Jesus como um “iluminado”, um “profeta”, um “guia de luz”, um “sábio”, mas as Escrituras são peremptórias: quem não crê que Jesus é o Filho de Deus não alcança a salvação. Quem não crê que Jesus é quem dá a vida eterna, não crê no testemunho que Deus deu de Seu Filho e, ao não crer que Jesus é o único que tem a vida, não tem a vida (I Jo.5:5,10-13).

    – Nos dias difíceis em que estamos a viver, não são poucos os que procuram relativizar esta verdade bíblica. Muitos põem ao lado de Jesus outros “redentores”, como, por exemplo, no romanismo, os santos, beatos e, mui especialmente, a figura de Maria, que alguns católicos romanos já pressionam para que seja declarada “corredentora” da humanidade. Isto é inadmissível, pois devemos crer tão somente em o nome do Filho de Deus. Só Ele desceu do céu e subiu ao céu (Jo.3:13), só Ele nunca pecou (Hb.4:15), só Ele morreu pelos pecadores(I Jo.2:2), só Ele é o Mediador entre Deus e os homens (I Tm.2:5), mediador suficiente, pois, como Se fez homem, bem entende os homens, não precisando de quaisquer “secretários” ou “atravessadores” para atender os pecadores (Hb.2:14-18).

    – Outros, embora, de palavra, digam reconhecer a Jesus como Senhor e Salvador, na prática, também relativizam a Sua obra, dizendo que se faz necessário “quebrar maldições” que supostamente resistiram ao perdão dos pecados operado pelo Senhor Jesus ou se submeter a “coberturas apostólicas”. Assim, com “técnicas”, “procedimentos”, “regressões” e tantas outras coisas, arvoram-se em “complementos” da obra salvadora de Jesus. Jesus não só é o único Salvador, como também é o suficiente Salvador. Jesus é a propiciação pelos pecados de todo o mundo e não há qualquer pecado ou maldição que resista ao poder purificador do sangue de Jesus, pelo qual entraremos pelas portas nas mansões celestiais (Ap.22:14).

    Temos a vida eterna quando cremos em o nome de Jesus. A vida eterna foi a promessa que o Senhor nos deu (I Jo.2:25) e Ele é fiel para cumprir as Suas promessas (Jr.1:12; II Co.1:18). A ressurreição de Jesus é a prova indelével de que Seu sacrifício foi aceito e que não existe mais nada que tenha de ser feito para a salvação do homem. Assim, quem está em Cristo é uma nova criatura, em que tudo se fez novo, em que todas as coisas já passaram (II Co.5:17).

    A “vida eterna”, como é uma “vida”, é um processo, não é um momento isolado. Sabemos que “vida” é “a propriedade que caracteriza os organismos cuja existência evolui do nascimento até a morte”, ou seja, um período que vai do nascimento até a morte. Trata-se, pois, de um processo, de uma série de atos, não de um instante isolado, único e singular.

    O início da “vida eterna” é o “nascimento”, mais, precisamente, o “novo nascimento” de que fala Jesus a Nicodemos, um nascimento efetuado pelo Espírito Santo, fruto do Seu convencimento junto ao homem a respeito do pecado, da justiça e do juízo. Este nascimento, que faz o homem ver o reino de Deus (Jo.3:3), faz, depois, que o homem, nascido de novo, entre no reino de Deus, mediante o “nascimento da água e do Espírito” (Jo.3:5). Tem-se, então, o crescimento espiritual, a transformação gradativa à imagem de Cristo (II Co.3:18), mas que, ao contrário do que ocorre na vida física, não evolui para a morte, pois estamos diante da “vida eterna”, ou seja, uma vida que jamais cessará, que jamais acabará.

    – Esta conformação cada vez maior a Jesus, este processo que nos faz cada vez mais parecidos com o Senhor Jesus, é um aspecto da “vida eterna” que muitos negligenciam. “…Portanto, não é meramente vida sem fim (simples imortalidade), e sim, um tipo de vida, a vida mais elevada que existe. Trata-se de uma vida na qual a imagem de Deus é duplicada no homem, segundo o padrão do Filho mais velho. Os eleitos compartilham de modo finito dessa forma de vida divina, ao passo que o Filho goza de uma participação infinita. Porém, a eternidade toda terá o propósito de ir intensificando essa participação. Assim, os eleitos irão de um estágio de glória para outro, ad infinitum, II Co.3:15.…” (CHAMPLIN, R.N. Vida eterna. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.6, p.651) (destaque original).

    – Esta contínua e ininterrupta aproximação entre Deus e os homens, esta construção desta unidade, que, em linguagem matemática, tende ao infinito, que é o objetivo da obra de Jesus na vida dos homens (Jo.17:21). É a isto que se denomina de “vida abundante”.

    III – A VIDA ABUNDANTE

    – Como a vida eterna se inicia neste tempo presente, temos que envolve, também, a “vida sobre a face da Terra”, a “bios”. Não podemos, pois, negligenciar a “vida terrena”, pois a mesma é diretamente afetada pela transformação ocorrida quando nos encontramos com o Senhor Jesus.

    – Por isso o apóstolo Paulo foi claro ao afirmar que “a vida que agora vivia, vivia-a na fé do Filho de Deus” (Gl.20:20), ou seja, o apóstolo, embora tenha sido salvo, não deixou de “viver agora”, continuava a viver biologicamente, mas esta vida agora tinha uma nova perspectiva, a saber: “a vida na fé do Filho de Deus”.

    A “vida terrena” transforma-se quando recebemos a Cristo Jesus como nosso Senhor e Salvador. Sem que haja o pecado em nossas vidas, passamos a ter comunhão com Deus e, por causa disso, nossas perspectivas mudam. Não ficamos preocupados com o que havemos de comer, vestir ou beber, pois a fé no Filho de Deus faz-nos saber que o Senhor nos providenciará o necessário para sobreviver, a suficiência material, mesmo sabendo que, nesta Terra, cada dia traz o seu mal. Assim como o Senhor cuida das demais criaturas terrenas, também cuida de nós (Mt.6:25-34).

    – Logicamente que, por termos comunhão com o Senhor, somos-Lhe obedientes e, a fim de sobrevivermos sobre a face da Terra, iremos buscar no trabalho o meio pelo qual adquiriremos o necessário para o nosso sustento, pois foi esta a ordem dada por Deus após a queda do homem (Gn.3:17-19).

    A “vida terrena” é olhada por um novo aspecto, qual seja, o de que estamos aqui apenas de passagem, que este é um estágio assaz transitório em nossa caminhada para o céu. Temos consciência de que a “vida terrena” não passa de uma “choça de pastor”, como o “fio de um tear” (Is.38:12). Por isso, não corremos atrás da “comida que perece”, mas, sim, “daquilo que permanece” (Jo.6:27), das “coisas de cima” (Cl.3:1-3).

    – Como diz conhecida canção, vivemos “a vida terrena” como “peregrinos”, sabendo que “só uma noite, uma noite moramos aqui”. Era esta, aliás, a perspectiva de vida dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, com quem nos encontraremos e cearemos nos céus, almejados por eles e também por nós (Hb.11:8-16; Mt.8:11).

    Na “vida terrena”, o que move o discípulo de Cristo Jesus é a produção de bons frutos, a glorificação do nome do Senhor Jesus, a contínua intensificação de nosso relacionamento com o Senhor, nosso aproximar ininterrupto para sermos um com Deus. Vivemos para Deus e usamos do corpo em que estamos neste mundo para ser “instrumentos de justiça” (Rm.6:13).

    Na “vida terrena”, não podemos mais praticar o pecado, não podemos ser instrumentos da “carne”, a natureza pecaminosa que há em nós (Rm.7:18-20), não podemos satisfazer as “concupiscências mundanas”, às quais devemos renunciar, tendo, neste mundo, uma “vida sóbria, pia e justa” (Tt.2:12), vida esta, aliás, que nos fará padecer perseguições (II Tm.3:12).

    – Estamos separados do pecado e o Senhor nos guarda para que assim fiquemos (Jo.17:11), motivo pelo qual estamos mortos para o mundo e para o pecado (Rm.6:6,11). Ora, o morto não sente mais qualquer desejo após a morte e, por isso, nada mais cobiçamos que é pecaminoso, uma vez tendo a nossa vida escondida com Cristo em Deus (Cl.3:3).

    – É a isto que as Escrituras denominam de “novidade de vida” (Rm.6:4), o ser “nova criatura” (II Co.5:17; Gl.6:15), ou seja, passar a ter uma “vida terrena” em que não se busca mais o que satisfaz os desejos pecaminosos, os instintos humanos, mas passar a viver de modo a agradar a Deus, a glorificar o nome do Senhor Jesus.

    – A “vida abundante” demonstra-se, pois, por esta mudança de perspectiva em nossa “vida terrena”, onde continuamos a comer, beber, vestir, continuamos a prosseguir a nossa jornada sobre a face da Terra, mas não mais tendo em conta saúde física, fama, posição social, acumulação de bens, satisfação dos desejos, mas, sim, a glorificação do nome do Senhor, esperando-O para que venhamos a habitar na cidade celestial.

    – Por isso, duas atitudes que se apresentam neste tema devem ser reprovadas por não terem qualquer respaldo bíblico. A primeira é a que anula da “vida eterna”, da “vida abundante” qualquer aspecto material. A vida terrena vivida a partir da nossa salvação em Cristo Jesus faz parte, sim, da vida abundante, está inserida neste contexto.

    A “vida eterna” tem uma dimensão terrena iniciada no instante em que somos salvos por Cristo até o momento em que passarmos para a eternidade pela morte física ou, então, no dia em que formos arrebatados pelo Senhor, se vivos estivermos naquela oportunidade. Não podemos deixar este mundo, mas nele estamos, até porque Jesus só pediu ao Pai que fôssemos livres do mal (Jo.17:15).

    – Por isso, devemos, sim, ocupar-nos da “vida terrena”, convivendo com todas as pessoas e, na sociedade, obtendo o nosso sustento por meio do trabalho, cuidando para que tenhamos o necessário para comer, beber e vestir, como também, naquilo que recebermos a mais do que o que nos é necessário, ajudemos os outros a também se sustentarem sobre a face da Terra.

    A “vida abundante” não nos torna “alienados do mundo”, como acusam os inimigos da fé, em especial os marxistas. Muito pelo contrário! Por termos alcançado a salvação em Cristo Jesus, temos consciência e experiência de que é possível a mudança do estado deplorável em que se encontra a humanidade, é possível a libertação do pecado e da injustiça, é possível a felicidade. Por isso, passamos a anunciar esta possibilidade aos que ainda não se encontraram com Cristo, passamos a trazer o Evangelho, a boa notícia de que há uma solução para este mundo, que é a de receber a Cristo Jesus como Senhor e Salvador de suas vidas.

    – O que o salvo não pode concordar é que, uma vez tendo alcançado a salvação em Jesus, venha alguém se iludir com uma mensagem de construção de um “paraíso na Terra” sem Jesus, sem Deus. “Sem Mim, nada podeis fazer”, disse o Senhor Jesus (Jo.15:5 “in fine”). Por isso, toda e qualquer ideologia, doutrina ou filosofia que defenda que o homem, por si só, pode construir uma “vida abundante” sem a pessoa de Cristo é frontalmente rechaçada pelos salvos, pois sabem eles que isto não passa de um ludibrio, de uma mentira que, como toda mentira, tem origem em seu pai, ou seja, no diabo (Jo.8:44).

    – Sem fundamento algum, ainda, aqueles que, para mostrar que são discípulos do Senhor Jesus, descuidam-se totalmente do viver cotidiano, achando, inclusive, que Deus ou os outros seres humanos devem sustentá-los sem que eles venham a trabalhar. Temos de cuidar de nós mesmos para que, então, também possamos a ajudar os outros (I Tm.4:16).

    – Nesta “vida terrena”, devemos tomar todas as atitudes necessárias para que não venhamos a envergonhar o nome do Senhor Jesus, tendo uma vida sóbria, justa e pia, ou seja, uma vida equilibrada, não se deixando dominar por coisa alguma deste mundo (I Co.6:12), sem, também, dar escândalo a qualquer ser humano (I Co.10:32).

    A segunda atitude equivocada é a de reduzir a “vida eterna” a aspectos materiais, como se houvesse apenas a “vida terrena”, como se “zoé” fosse “bios”. Não resta dúvida de que o exterior da “vida terrena” deve manifestar a comunhão que temos com Cristo no homem interior, mas não a aparência, de modo algum, pode nos falar a respeito da realidade espiritual, pois ela não se reduz a aspectos materiais.

    – Em nossa vida terrena, devemos ser instrumentos de justiça, ser “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt.5:13-16), o que somente será possível se realizarmos “boas obras” que confirmem a fé que temos em Jesus (Tg.2:22-26), até porque, em Cristo, fomos criados para fazê-las (Ef.2:10). Por isso, não se pode desvincular a “vida terrena” que temos da “vida eterna”, devendo ser ela um reflexo exterior daquilo que somos interiormente. Por isso, em nossa “vida terrena”, não pode haver lugar para o pecado.

    – A busca pela glória humana, pela acumulação de riquezas e o amor ao dinheiro, entretanto, são gestos e atitudes que não condizem com tal comportamento. Querer ostentar riquezas para comprovar uma realidade espiritual interior não têm qualquer respaldo bíblico, pois as riquezas materiais podem, também, ser granjeadas pela prática do pecado (Lc.16:9), o que, aliás, costumeiramente acontece.

    A vida terrena é apenas um pálido aspecto da vida eterna, um aspecto transitório, passageiro, e jamais pode condicionar a realidade espiritual, que é perene e muito superior. A abundância de posses, disse o Senhor Jesus, não define o que é a vida de alguém (Lc.12:15). Reduzir a vida eterna a aspectos das coisas desta vida é a maior miséria espiritual que pode existir na vida de alguém (I Co.15:19).

    A “teologia da prosperidade” faz esta redução, fazendo o homem buscar um “paraíso na Terra”, como se este “paraíso” fosse absolutamente necessário para provar nossa ida ao “paraíso celestial”. É a velha mentira satânica de podermos ser felizes sem que, para tanto, desfrutemos da companhia de Deus (Gn.3:4,5).

    Deus não nos salvou para termos uma vida regalada nesta Terra, como se esta vida regalada provasse a vida de delícias que haveremos de gozar na eternidade, mas nos salvou para termos esta vida gloriosa junto a Ele na eternidade.

    Nesta Terra, onde estamos a viver, o que há são aflições (Jo.16:33; Rm.8:18), aflições que não para comparar com a glória que está reservada para nós. Sabemos que, neste mundo, dominado pelo pecado, não pode o discípulo de Cristo esperar uma vida sem quaisquer problemas, pois vive em luta contínua contra o pecado e o maligno (Ef.6:11,12), mas também sabe que tudo o que aqui ocorre é passageiro e que esperamos uma nova terra e novos céus, onde habita a justiça (II Pe.3:13).

    – Por isso, sabendo que todo o sofrimento que hoje existe e que padecemos é algo temporário e que só pode nos fazer bem (Rm.8:28), suportemos todas as contrariedades, almejando aquele estado em que não mais sofreremos (Hb.12:1-3), pois se com Cristo morrermos, também com Ele viveremos (II Tm.2:11).

    O discípulo de Jesus Cristo, portanto, sabe que a “vida terrena” não é regalada, é, por vezes, difícil e espinhosa, mas, apesar de toda a dificuldade, ela não faz perder o foco, que é a vida além, que já desfrutamos aqui uma vez que nos encontramos nos “lugares celestiais em Cristo” (Ef.1:3).

    Nossa “vida terrena” é “em Cristo” e se encontra aqui o segredo pelo qual, apesar da dor, não desfalecemos, mas prosseguimos aguardando a modificação deste estado adverso. Temos aqui, segundo os teólogos, uma expressão tipicamente paulina que tem como significado “…a experiência do Cristo ressuscitado e vivo(…) algo como um sentido místico da presença divina de Cristo dentro e fora, estabelecendo e sustentando o indivíduo em relação com Deus. Assim, também dificilmente podemos deixar de falar da comunidade, uma comunidade que se entendia não só a partir do evangelho que lhe dera existência, mas também a partir da experiência compartilhada de Cristo, que a mantinha unida…” (DUNN, James D.G. Trad. de Edwino Royer. A teologia do apóstolo Paulo, pp.458-9).

    Em Cristo, temos a redenção (Rm.3:24), ou seja, somos libertos do pecado, não mais precisamos pecar. Sendo livres do pecado, podemos habitar os “lugares celestiais”, ainda apenas no homem interior, mas, brevemente, em corpo, alma e espírito quando o Senhor vier nos buscar, quando nosso corpo também será redimido (Rm.8:23).

    Em Cristo, estamos mortos para o pecado (Rm.6:11), ou seja, fomos separados do pecado, que não pode mais nos dominar. Por isso, não nos fazemos presa das concupiscências mundanas, como, infelizmente, nos propõem os “teólogos da prosperidade”, pois não podemos permitir que venham a nos retirar esta liberdade que alcançamos “em Cristo” (Gl.2:4).

    Em Cristo, não temos mais nenhuma condenação (Rm.8:1), estamos com “ficha limpa” diante de Deus e, por isso, podemos entrar no trono da graça e desfrutar da comunhão com o Senhor. Não andamos mais segundo a carne, mas segundo o espírito, pois o espírito humano foi vivificado e controla todo o nosso ser, dando-nos testemunho de que somos filhos de Deus.

    – Em Cristo, somos santificados (I Co.1:2), ou seja, mantidos separados do pecado a cada dia, a cada instante, a fim de podermos ver a Cristo (Hb.12:14). Não podemos, pois, nos misturar com o pecado nem com aquilo que nos fará pecar.

    Em Cristo, temos simplicidade (II Co.11:3), ou seja, “sincera e pura devoção a Cristo”, vivemos aqui para glorificar o nome do Senhor Jesus, somos dedicados a agradar-Lhe e não a nós mesmos, nem tampouco a nossos desejos carnais.

    – Esta é a verdadeira “vida abundante”, uma vida terrena que glorifica a Deus e que prossegue na eternidade. Esta é a verdadeira felicidade do homem, a verdadeira prosperidade, a real abundância que um mortal pode esperar desde aqui e que continuará a desfrutar nos céus.

    Foi esta “vida abundante” que Jesus veio trazer aos homens, é esta a “vida abundante” que o Senhor Jesus dá a cada um que O recebe como Senhor e Salvador. Não há qualquer necessidade que esta vida, para ser “abundante”, venha acompanhada de ouro, prata, bens ou saúde física, até porque a vida para lá desta fase passageira não terá coisa alguma disto e será muito melhor do que qualquer um destes elementos.

    – É esta “vida abundante” que temos buscado, amados irmãos? É isto que nos leva a adorar e exaltar o nome do Senhor Jesus? Ou estamos correndo atrás de Cristo apenas como instrumento para nos deleitarmos em nossos desejos carnais? Ou estamos fazendo o uso do nome de Cristo apenas para termos posses e mais posses, ou mesmo saúde física? Jesus veio ao mundo para buscar e salvar o que se havia perdido (Lc.19:10) e a perdição não era falta de bens materiais ou de saúde, mas, sim, a falta de comunhão com Deus.

    – Sabendo do caráter passageiro da “vida terrena”, bem como da inevitável presença de perseguições, aflições e sofrimento neste mundo enquanto aqui estivermos servindo a Deus, não nos deixemos enganar pelas falsidades da “teologia da prosperidade”, mas suportemos as contrariedades que tivermos, prossigamos em glorificar o nome do Senhor e, em caso de eventual abundância de posses materiais, usemo-la para a glorificação de Cristo, mediante a ajuda aos necessitados e à obra de Deus. Assim fazendo, certamente teremos uma “vida abundante”, que continuará quando aqui deixarmos fisicamente de existir, seja pela morte física, seja pelo arrebatamento da Igreja.

    Caramuru Afonso Francisco

     

    BIBLIOGRAFIA DO TRIMESTRE

    A bibliografia diz respeito aos estudos de todo o primeiro trimestre de 2012, não contendo bíblias e bíblias de estudo consultadas, bem assim textos esporádicos, notadamente fontes eletrônicas, cujas referências foram dadas no instante mesmo de suas utilizações.

    AUSUBEL, Nathan. Trad. de Eva Schechtman Jurkiewicz. Conhecimento judaico. In: A JUDAICA. Rio de Janeiro: Koogan, 1989. vv.5 e 6.

    CHAFER, Lewis S. Teologia sistemática. Trad. de Heber Carlos de Campos. São Paulo:

    Hagnos, 2003. 4t.

    CHAMPLIN, R.N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 5.ed. São Paulo: Hagnos, 2001. 6v.

    ______________. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Candeia, 2000. 7v.

    ______________. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Candeia, 1995. 6v.

    CHUMASH: o livro de Êxodo. Compilado e adapt. pelo Rabino Chaim Miller. Trad. de Miriam Nurkin Friedman. São Paulo: Maayanot, 2009.330p.

    DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. 9. ed. rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-1-2002). São Paulo: Saraiva, 2003. 1608p.

    DUNN, James D.G. Trad. de Edwino Royer. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. 907p.

    FLUSSER, David. O judaísmo e as origens do Cristianismo: v.1: os Manuscritos do Mar Morto e o Novo Testamento. Trad. de Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Imago, 2000. 252p.

    GOMES, Orlando. Contratos. 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1996. 582p.

    LEITH, Norbert. O que Jesus não carregou na cruz. Chamada da meia-noite, ago. 2011, ano 42, n.8, pp.19-20.

    LOPES, Evandro de Souza. Os nomes bíblicos e seus significados. São Paulo: s.ed., 1990. 132p.

    MELAMED, Meir Matzliah (trad. explic e com.). Torá: a lei de Moisés, enriquecida pelos comentários de Menahem Mendel Diesendruck. São Paulo: Sêfer, 2001. 684p.

    NYSTRÖM, Samuel. Jesus Cristo, nossa glória. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1981.  144p.

    OS PRÉ-SOCRÁTICOS: fragmentos, doxografia e comentários. Seleção de textos e supervisão de José Cavalcante de Souza; dados biográficos Remberto Francisco Kuhnen; traduções José Cavalcante de Souza et alii. 5. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. 247p.

    SILVA, Severino Pedro da. Daniel versículo por versículo. Rio de Janeiro: CPAD, 1986. 238p.

    (mais…)

  • LIÇÃO Nº 12 – Revista CPAD – O PROPÓSITO DA VERDADEIRA PROSPERIDADE

    A verdadeira prosperidade tem como propósito a comunhão com Deus.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo da verdade prosperidade, estudaremos hoje qual é o seu propósito.

    Deus concede a prosperidade para o homem para que ele ame ao Senhor e ao próximo como a si mesmo.

    I – O PROPÓSITO DIVINO PARA O HOMEM

    – Na sequência do estudo deste último bloco, em que estamos a analisar a verdadeira prosperidade, estudaremos, nesta oportunidade, o seu propósito.

    – A palavra “propósito”, diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, significa “intenção de (fazer algo); projeto, desígnio; aquilo que se busca alcançar quando se faz alguma coisa; objetivo, finalidade, intuito; aquilo a que alguém se propôs, por que se decidiu; decisão, determinação, resolução”. É uma palavra originada do latim “”prospoitum”, “aquilo que é posto diante, exposto à vista, apresentado, proposto, oferecido, anunciado, declarado, referido, relatado, contado, narrado, fixado, marcado, determinado”.

    – Pelo que se pode verificar, pois, de pronto, é que o “propósito” é uma “proposta”, ou seja, algo que alguém oferece, projeta, planeja, propõe a outrem. Neste sentido, o “propósito de Deus” nada mais é aquilo que o Senhor planejou, projetou, propôs às criaturas. Em relação ao ser humano, pois, o propósito de Deus foi aquilo que o Senhor quis em relação ao ser humano, desde o instante mesmo da sua criação.

    – É fácil notarmos que o propósito de Deus em relação ao homem se encontra em Gn.1:28, quando o Senhor, ao criar o homem, os abençoou (macho e fêmea), revelando-lhes o Seu propósito, qual seja, o de frutificar, multiplicar-se, encher a terra, bem como  sujeitá-la e dominar sobre toda a criação terrena. O homem seria, pois, o mordomo de Deus sobre a face da Terra, o Seu administrador.

    – Para se desincumbir desta tarefa, o Senhor criou as mais amplas condições favoráveis para o homem, formando um jardim no Éden onde pôs o homem. A prosperidade criada para o primeiro casal, num lugar de delícias onde havia bem-estar espiritual, material e psíquico, sob a condição da obediência ao Senhor, mostra, claramente, que aquele ambiente de fartura, abundância e felicidade tinha como finalidade o cumprimento do propósito divino, ou seja, de frutificação, multiplicação, povoamento e sujeição do planeta e dominação sobre toda a criação terrena.

    O ambiente favorável na Terra, portanto, nada mais era que um instrumento para que se cumprisse o propósito divino. O bem-estar material e psíquico tinha como única razão de ser a criação de meios para que se pudesse, prazerosamente, atingir os objetivos previamente traçados pelo Senhor ao ser humano.

    Deus, na Sua infinita bondade e misericórdia, nada impôs ao homem, mas tão somente “propôs”. Aqui é que se encontra o propósito divino: é uma proposta, uma oferta que fez ao homem, deixando, porém, ao homem o livre-arbítrio, ou seja, o poder de atender, ou não, à proposta divina, o poder de obedecer-Lhe, ou não.

    Por isso, todo aquele ambiente de delícias foi mantido sob condição, representada pela árvore da ciência do bem e do mal. Se o primeiro casal cumprisse tudo quanto o Senhor lhe havia determinado, ou seja, que não comesse do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, permaneceria em comunhão com o Senhor e desfrutaria das condições amplamente favoráveis para que cumprisse o propósito estabelecido por Deus. Se, no entanto, desobedecesse, perderia aquelas condições e não conseguiria atingir o propósito divino.

    – Foi, infelizmente, o que aconteceu. O primeiro casal não obedeceu ao Senhor e, por isso, perdeu as condições favoráveis de que desfrutava e, sem as quais, jamais conseguiria cumprir o propósito divino. Como consequência disto, foi expulso do jardim do Éden, sendo-lhe também negado o acesso à árvore da vida, o símbolo da comunhão com Deus. Não pôde mais frutificar, sendo que a multiplicação e o povoamento da Terra se deram em condições penosas, sem que se pudesse dominar e sujeitar a Terra como anteriormente previsto.

    A perda da comunhão com Deus significou, também, a perda da comunhão entre os próprios homens, que passaram a ter um relacionamento conflituoso, a começar do primeiro casal, com a dominação do macho sobre a fêmea. Por terem cometido o pecado, os homens passaram a ser escravos do pecado (Gn.4:7; Jo.8:34), o que os impedia de agirem fraternalmente e de forma bondosa, visto que a imaginação do pensamento de seus corações passou a ser má continuamente (Gn.6:5).

    – Esta triste realidade do divórcio entre o propósito divino e o propósito do homem no pecado é bem revelada no livro de Jeremias, onde a palavra “propósito” encontrada na Versão Almeida Revista e Corrigida é tradução, em quase todas as oportunidades, da palavra “sheriyruwth” (?????), cujo significado é “imaginação” (como é traduzida na Versão do Rei Tiago), “obstinação” e “dureza” (como se encontra na Versão Internacional e na Bíblia de Jerusalém), “raciocínio rebelde” e “rebeldia” (como se encontra na Nova Versão Internacional) (Jr.3:17; 7:24; 9:14; 11:8; 13:10; 16:12; 23:17).

    OBS: A única passagem em Jeremias em que a palavra “propósito” é tradução de outro termo hebraico é Jr.18:12 onde o termo hebraico é “machashabah” (?????), que a NVI traduz por “planos”, o que também faz a Versão do Rei Tiago, a Nova Versão Internacional e a Bíblia de Jerusalém.

    – Distante de Deus, o homem não poderia, mesmo, ter o mesmo propósito do Senhor e, escravizado no pecado, passa a ter apenas como objetivo em sua vida o fazer mal ao próximo, o de praticar a maldade, o de satisfazer os desejos perversos e incontroláveis de sua natureza pecaminosa, a “carne” de que tanto fala o apóstolo Paulo, a satisfação de suas “paixões e concupiscências” (Gl.5:24), que geram a morte (Rm.7:5), o que o salmista chama de “mau propósito” no Sl.140:8, tradução aqui da palavra hebraica “zamam” (???), que a Versão do Rio Tiago traduz por “plano maligno” e que a Nova Versão Internacional e a Bíblia de Jerusalém traduzem tão somente por “plano”.

    – Já o propósito divino, despido de qualquer maldade ou egoísmo, é estabelecido para tudo que há debaixo do céu, como nos mostra Salomão (Ec.3:1). É a palavra hebraica “chephets” (???), cujo significado é “delícia”, “bom desejo”, “desejo prazeroso”, que é repetido em Ec.8:6, onde o pregador ainda acrescenta que, apesar de haver um “bom desejo” para quem guarda o mandamento (Ec.8:5), há, também, “uma grande infelicidade para o homem” (segundo a versão da Bíblia de Jerusalém).

    – Notamos, portanto, que o homem, ao desobedecer a Deus e enveredar pelo caminho do pecado, tomou uma decisão que lhe retirou a oportunidade de cumprir o propósito estabelecido por Deus para ele e nada que faça, em busca da obtenção deste objetivo, será alcançado, pois a malignidade de sua natureza pecaminosa o leva, inevitavelmente, a tão somente satisfazer a carne, com suas paixões e concupiscências, ou seja, a atingir o propósito maligno que o domina. E, no pecado, o que aguarda o homem é tão somente a morte, pois é este o resultado de sua desastrada decisão, o seu “propósito” que é contra ele próprio, como se vê nos textos de Is.19:17 e 29:15, onde a palavra “propósito” é tradução do hebraico “ ‘etsah” (???), cujo significado é “decisão”, “desígnio”, como se encontra na Nova Versão Internacional e na Bíblia de Jerusalém.

    – Entretanto, é propósito de Deus restaurar a comunhão do homem com Ele. Isto já demonstrou no instante mesmo do juízo em virtude do pecado, quando revelou ao primeiro casal que viria a “semente da mulher” que restabeleceria a amizade entre Deus e o homem (Gn.3:15), propósito este que é devido única e exclusivamente a Deus e independe das obras humanas (Rm.9:11).

    OBS: Em Rm.9:11, a palavra “propósito” é tradução do grego “próthesis” (????????), cujo significado é “apresentação”, “plano”, “resolução”.

    – Por isso, quando analisamos o propósito divino, temos de ter plena consciência de que é Seu intento reatar o relacionamento com o homem e que isso somente é possível mediante a retirada do pecado, que é quem faz divisão entre Deus e o homem (Is.59:2). Por isso, nada que é oferecido ao homem por Deus pode ter como resultado a satisfação da carne, dos desejos incontidos da natureza pecaminosa do homem.

    – Em sendo assim, vemos, claramente, que a pregação apresentada pela “teologia da prosperidade”, que, de forma muito apropriada foi chamada pelo professor Aristóteles Torres de Alencar Filho (Assembleia de Deus – Ministério do Ipiranga, São Paulo/SP) como “teologia da avareza”, não pode, de forma alguma, ser considerada como proveniente de Deus e inserta em Seu propósito.

    – Com efeito, a partir do momento em que se defende a obtenção de riquezas materiais para o desfrute de todos os desejos humanos, está-se diante de uma satisfação da concupiscência e das paixões humanas, ou seja, está-se diante da satisfação da carne e isto, à evidência, tem a ver com a imaginação continuamente má dos pensamentos dos corações dos homens e nunca com o propósito divino. Ora, a satisfação das concupiscências nada mais é que a manutenção do homem sob a escravidão do pecado e um tal ensino somente pode ter origem nas hostes malignas, jamais em Deus.

    O propósito de Deus para o homem é o de livrá-lo do domínio do pecado, de libertá-lo mediante o encontro pessoal com Cristo Jesus, a Verdade (Jo.8:32,36) e, mediante esta libertação do pecado, fazer com que o homem volte a ter comunhão com o seu Criador e, desta forma, possa cumprir o propósito a ele estabelecido de frutificação, multiplicação, povoamento e sujeição da Terra e domínio sobre a criação terrena. Não é por outro motivo que o Senhor diz que nos escolheu para que vamos e demos fruto permanente (Jo.15:16).

    II – COMO DEVE SER O HOMEM QUE ATENDE AO PROPÓSITO DIVINO

    Com o retorno à comunhão com Deus, o homem é abençoado com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Ef.1:3), pois Deus nos escolheu para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor (Ef.1:4).

    – Assim, o propósito de Deus é que, uma vez salvos por Cristo Jesus, nós sejamos santos e irrepreensíveis diante d’Ele, ou seja, a salvação tem como objetivo fazer-nos separados do pecado enquanto peregrinarmos nesta Terra, não tendo motivo algum para sermos censurados diante de Deus.

    Ser santo é ser separado do pecado, é voltar a ser imagem e semelhança de Deus, pois Deus é santo (Lv.11:44,45; 19:2; 20:26; 21:8; Is.6:3). Ora, o homem, por si próprio não pode alcançar a santidade, necessita ser santificado pelo Senhor (Lv.21:15,23; 22:9,16; Ez.37:28; I Co.1:2; 6:11; Hb.10:10,14).

    Para ser santificado, o homem precisa manter uma vida de comunhão com o Senhor, santificando-se durante todo o tempo de vida sobre a face da Terra (Ap.22:11) por meio da Palavra de Deus (Jo.17:17), da oração (I Tm.4:5), do jejum (Mc.2:20), do temor a Deus (II Co.7:1) e da participação digna na ceia do Senhor (I Co.11:23-29).

    – A separação do pecado, ou seja, a santificação, que é contínua e condição “sine qua non” para se ver o Senhor (Hb.12:14), exige de cada um de nós que não nos conformemos com este mundo, mas que sejamos transformados pela renovação do nosso entendimento, a fim de que experimentemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm.12:2).

    – Ora, isto é que utilizar-se da “razão”, pois o “culto racional” é este sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm.12:1), caracterizado por esta disposição de não nos conformarmos a este mundo, ou seja, de não termos a mesma mentalidade, os mesmos valores mundanos. Entretanto, não é isto que apregoa a teologia da prosperidade.

    – Com efeito, a teologia da prosperidade adota os valores mundanos do “ter” em detrimento do “ser”, da idolatria do dinheiro e das posses, os valores do materialismo que, no sistema capitalista dominante em nossos dias, significa os valores do consumismo e do hedonismo desenfreados, onde as pessoas valem pelo que têm pelo que consomem, pelo que possuem, pelo que gastam, onde o prazer imediato dita as regras, sem sequer se medirem as consequências.

    Quando há o estímulo ao consumo, à posse de bens materiais, à busca do prazer imediato como se isto fosse “felicidade”, estamos nos conformando ao mundo, estamos assumindo a forma, o modo de vida do mundo e, obviamente, isto é a própria negação da santificação, a própria recusa de se separar do pecado, visto que o mundo está no maligno (I Jo.5:19b).

    – Quando priorizamos a ida a “shopping centers” em detrimento de um momento para estarmos com o Senhor e, pior do que isto, quando vamos a uma suposta reunião de culto a Deus para adquirirmos condição de, oportunamente, irmos nos deleitar nos prazeres mundanos, estamos a mostrar que jamais cultuamos a Deus, mas que estamos servindo à cobiça decorrente do “amor do dinheiro”. Que Deus nos livre disto, amados irmãos!

    – O propósito de Deus é que nos santifiquemos, que nos separaremos continuadamente, cada vez mais do pecado, mudando nossa forma de viver a fim de que, a cada instante, a cada momento nos aproximemos mais e mais do Senhor, fazendo aquilo que Lhe é agradável.

    – Mas, além de sermos santos, precisamos ser irrepreensíveis diante de Deus, diz-nos o apóstolo (Ef.1:4).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos um coração reto diante de Deus (At.8:21), coração este que será reto, entre outras coisas, se não acharmos que os dons de Deus se adquirem por dinheiro (At.8:20), ou seja, exatamente o contrário do que prega a teologia da prosperidade. Quem segue tais falsos ensinamentos, a exemplo do ex-mago Simão, não tem coração reto diante de Deus e, por isso, não tem parte nem sorte na Palavra de Deus e, por conseguinte, não está em comunhão com o Senhor. Lembremo-nos disto, amados irmãos!

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos uma vida de oração. Quando vivemos de acordo com a vontade de Deus, nossas orações sobem à presença de Deus e estão em memória diante d’Ele (At.10:31; Ap.8:3,4). A oração é uma demonstração da nossa completa e eterna dependência do Senhor. Devemos entender que, pela salvação, estamos nos lugares celestiais em Cristo e, portanto, a oração é o meio pelo qual podemos entrar perante o Senhor, perante o Seu trono de graça, para buscar a satisfação das nossas necessidades, para desfrutarmos da comunhão que temos com Ele (Hb.4:16).

    – Aqui, mais uma vez, vemos que a teologia da prosperidade procura nos desviar do propósito divino para o homem, já que transforma a oração em “imposição a Deus”, em “cobrança de direitos”, em “determinações” e “decretos”, algo totalmente divorciado da realidade bíblica, que nos ensina que, quando oramos, quando entramos no trono da graça, fazemo-lo para alcançar a graça e a misericórdia do Senhor, para que sejamos ajudados em tempo oportuno (Hb.4:16).

    – Em vez de “reivindicar direitos”, o que o salvo faz é clamar, pedir para que receba o que não merece (graça) e não receba o que está a merecer (misericórdia). As orações são petições que precisam ser conhecidas diante de Deus, com súplicas e ações de graças (Fp.4:6) e orações por todos os homens, em especial para os que estão em eminência, porque é isto é bom e agradável a Deus (I Tm.2:1-3).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos uma vida de ajuda aos necessitados. Além das orações de Cornélio, estavam, também, em memória diante de Deus as suas esmolas (At.10:31). Para sermos irrepreensíveis diante do Senhor, precisamos demonstrar nosso amor ao próximo, ajudando os necessitados.

    – Se realmente estamos em comunhão com Deus e, diante desta comunhão, o amor de Deus é derramado em nossos corações (Rm.5:5) e a prova da presença do amor divino em nós é que amamos uns aos outros (I Jo.3:11,14). O apóstolo João é bem explícito: “Quem pois tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele a caridade de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (I Jo.3:17,18).

    – No entanto, a teologia da prosperidade é egoísta, defende a busca desenfreada pelos “bens do mundo”, mas não tem uma só palavra de incentivo ou estímulo à ajuda aos necessitados. Os “testemunhos” que são veiculados pela mídia falam da acumulação de riquezas por parte dos “que têm fé”, mas, em momento algum, mostram estes “campeões de fé” ajudando quem precisa. Pelo contrário, os desprovidos de recursos são chamados de “incrédulos”, de “homens de pouca fé”, de “pecadores”.

    – O que se tem, lamentavelmente, é um ensino e um incentivo para que todos se tornem  novos “Cains”, que não se sintam “guardadores do seu irmão”, que não estejam nem um pouco preocupados ou incomodados com o sofrimento do próximo. São ensinos que procuram fazer realçar nos salvos o velho homem que já foi crucificado com Cristo (Rm.6:6), são pregações que querem transformar os salvos em “pessoas do maligno” (I Jo.3:12).

    OBS: “…Akiva ben José, o Sábio da Mishnah do século II [Mishnah – as tradições orais dos judeus – Mt.15:2 — que foram reduzidas a escrito depois da destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C., observação nossa], prezava acima de todos os mandamentos das Escrituras aquele que dizia: ‘Ama a teu semelhante como a ti mesmo’. Dizia ele que nisso se encerrava a quintessência de toda a Torah porque equiparava o amor divino de Deus com o amor terreno do homem, considerando os dois como um exercício duplo e ativo da virtude. No Talmud [segundo livro sagrado do judaísmo, que contém a tradição oral e o seu comentário, observação nossa], Deus, que representa o papel de Pai extremoso, diz aos judeus: ‘Meus filhos, meus filhos, haverá qualquer coisa que eu peça para mim a vocês? Só exijo que amem uns aos outros’. Esse princípio afirmativo do amor tornou-se o fundamento para os subsequentes valores éticos judaicos dos quais os ensinamentos de Jesus se derivaram.(…). O Guarda de Teu Irmão (Kol Israel Chaverim). Todos em Israel são companheiros. Assim dizem os credos da solidariedade judaica de grupo que foram enunciados com convicção profunda pelo povo judeu durante dois mil anos. Daí advem a obrigação fundamental de todo irmão proteger e cuidar do bem-estar do outro.…” (Valores éticos judaicos. In: A JUDAICA, v.6, pp.898-9).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós uma boa consciência (At.23:1). A consciência, esta “voz de Deus em nós”, é uma das faculdades do espírito humano, que nos indica o que é certo e o que é errado. A “boa consciência” é o espírito que está em comunhão com Deus e, por isso, segue a direção e a orientação do Espírito Santo (Rm.8:1,2).Quem tem boa consciência inclina-se para as coisas do espírito e não para as coisas da carne (Rm.8:5) e a inclinação do espírito é “vida e paz” (Rm.8:6b).

    – A teologia da prosperidade leva os homens a se inclinar para as coisas da carne, como já temos visto, uma vez que levam os homens a correrem atrás da satisfação dos prazeres mundanos, das paixões e concupiscências, pois o “amor do dinheiro” leva o homem a muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e na ruína (I Tm.6:9), faz com que o homem se desvie da fé e se traspasse a si mesmo com muitas dores (I Tm.6:10). Em suma: a teologia da prosperidade leva o homem à morte, pois a inclinação da carne é morte (Rm.8:6a).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós fé, mas não a fé que se está a propalar pelos teólogos da prosperidade, que não é fé mas, sim, uma arrogância, uma dureza de coração diante da Palavra do Senhor. A “fé inteligente” que se prega por aí é uma autoconfiança, uma petulância diante do Senhor, uma “imposição” dos caprichos e desejos próprios ao Senhor, “um pensamento positivo” que se impõe a tudo e a todos. A fé de que fala a Bíblia, porém, provém do próprio Deus (Ef.2:8), da Sua Palavra (Rm.10:17) e é a confiança em Deus, a certeza de que tudo quanto Deus permite que nos aconteça é para o nosso bem (Jr.29:11; Rm.8:28). Não é um instrumento para dirigir o Senhor, mas, bem ao contrário, a tranquilidade que advém do fato de deixar que sejamos totalmente dirigidos por Ele (Sl.37:3-5).

    – A teologia da prosperidade, ao defender a “fé inteligente”, o “pensamento positivo”, a “confissão positiva”, está a nos levar tão somente ao “propósito humano”, às já aludidas imaginações continuamente más dos nossos corações, pois o coração do homem é enganoso (Jr.17:9) e fonte de toda a sorte de pecados (Mt.15:18,19). O “propósito humano” é, como já se viu supra, “dureza de coração”, é fechar-se à voz do Senhor, ou seja, é precisamente o contrário da fé. Não é por outro motivo que o apóstolo Paulo diz que quem está na carne não pode agradar a Deus (Rm.8:8), posição oposta a quem tem a verdadeira e genuína fé (Hb.11:6).

    – Quando damos vazão ao nosso coração, aos desejos de nossa natureza pecaminosa, deixando de atender à voz do Senhor para querermos ser atendidos por Ele em nossos caprichos e desejos, selamos, com nossa obstinação, a nossa perdição, a exemplo do que fizeram os israelitas da geração do êxodo que, por sua obstinação em Massá e Meribá (Ex.17:7; Sl.95:8; Hb.3:7,8), acabaram tombando no deserto (Hb.3:15-17), uma vez que tal obstinação não revelou fé, mas, bem ao contrário, incredulidade (Hb.3:19).

    Ser irrepreensível diante de Deus é saber suportar as aflições e tribulações, aguardando o seu término apenas quando da volta de Cristo Jesus. O apóstolo Paulo assim ensinou aos tessalonicenses, lembrando-lhes que, apesar do grande crescimento da fé e do amor entre aqueles crentes, nem por isso deixavam eles de sofrer aflições e perseguições, sofrimentos aqueles que somente teriam garantia de superação quando da volta do Senhor  para arrebatar a Igreja (II Ts.1:3-7).

    – A teologia da prosperidade, ao revés, ensina que o caminho do Evangelho não tem sofrimento, sendo de todos conhecido o bordão “pare de sofrer”, que se encontra nas portas dos templos de uma denominação que segue esta falsa teologia. Não só a Bíblia não fala em parada de sofrimento, como diz que saber suportar a perseguição advinda deste mundo, que nos aborrece por sermos fiéis ao Senhor (Jo.15:18-20), é uma bem-aventurança, uma característica do discípulo genuíno e autêntico do Senhor Jesus (Mt.5:10-12). Aliás, os apóstolos ensinavam que, por muitas tribulações nos importar entrar no reino de Deus(At.14:22).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que exerçamos piedade para com a nossa própria família bem como a recompensar os pais (I Tm.5:4). De nada adianta querermos fazer o bem ao próximo se deixamos os mais próximos a nós, que são os nossos familiares. Devemos ser piedosos, ou seja, dentro do significado da palavra grega “eusebeo” (???????), adorar a Deus, mostrar reverência e respeito ao Senhor, cuidando dos nossos familiares, em especial dos nossos pais, a quem devemos recompensar pelo cuidado que tiveram conosco.

    – Mais uma vez vemos como devemos estar atentos ao cuidado do nosso próximo, algo bem diverso do egoísmo e individualismo dominantes na pregação da teologia da prosperidade, atitude que é própria dos homens que andam sem Deus e sem salvação, que amam tão somente a si próprios e que são desobedientes a pais e mães (Rm.1:29-31; II Tm.3:2).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que sejamos “o homem encoberto no coração, no incorruptível trajo de um espírito manso e quieto” (I Pe.3:4), ou seja, uma pessoa que prime por viver em santidade, na absoluta dependência de Deus e não na ostentação externa, precisamente o contrário do que ensina a teologia da prosperidade. O que é precioso diante de Deus são “as qualidades pessoais internas”, “o homem oculto no íntimo do coração”, a “incorruptibilidade de um espírito dócil e tranquilo” (como traduziu a Bíblia de Jerusalém).

    – Mas tanto a santidade quanto a irrepreensibilidade que temos de ter diante de Deus, cumprindo assim o propósito divino estabelecido para o homem, devem ser exercidas “em caridade” ou “em amor” (Ef.1:4).

    O amor é o ambiente onde seremos santos e irrepreensíveis diante de Deus. O amor de que aqui se fala é o amor de Deus, que foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm.5:5), o amor descrito pelo apóstolo Paulo no capítulo 13 da sua primeira epístola aos coríntios.

    O amor divino é, primeiramente, sofredor (I Co.13:4), ou seja, sabe suportar o sofrimento, o que, como já vimos, permite, pois, que o salvo seja irrepreensível diante de Deus (II Ts.1:3-7). Quem não suporta o sofrimento, quem vive correndo atrás de uma vida sem qualquer dificuldade revela, com esta atitude, que não tem o amor de Deus em seu coração.

    O amor divino é, em segundo lugar, benigno (I Co.13:4), ou seja, deseja o bem, quer o bem do outro. Por querer bem ao outro, o salvo pratica boas obras, ajuda o próximo, leva-o em conta, a começar por dar condições ao que o outro alcance a salvação em Cristo Jesus, o maior bem que um ser humano pode obter, sendo, pois, alguém que ajuda a sustentar a obra do Senhor sobre a face da Terra.

    O amor divino não é invejoso (I Co.13:4), ou seja, o salvo em Cristo Jesus não tem inveja do próximo, principalmente daquilo que o outro venha a possuir. A “teologia da prosperidade”, entretanto, incentiva os salvos a invejarem os que têm posses, a cobiçar os bens dos outros, inclusive tendo-os por bem-aventurados e felizes, como, aliás, faziam os judeus nos dias de Malaquias (Ml.3:14,15). Tal atitude é reprovável diante de Deus e indício de desvio espiritual (Sl.73:1-3).

    O amor divino não trata com leviandade (I Co.13:4), ou seja, para se utilizar aqui da expressão da Bíblia de Jerusalém, “não se ostenta”. O salvo em Cristo Jesus não quer “aparecer”, não quer ser “estrela”, não quer “ser cabeça e não cauda”, mas quer, simplesmente, que o Senhor apareça, que o Senhor seja glorificado. A busca por riquezas para que haja uma “ostentação” não é atitude de quem tenha o amor de Deus no coração.

    O amor divino não se ensoberbece (I Co.13:4), ou seja, “não incha de orgulho”. A abundância material desmedida traz, como consequência, ensina-nos Agur, a soberba, a tentação de se achar que não se depende de Deus, que se é autossuficiente (Pv.30:9a), o que significa a ruína do homem. A soberba leva o homem a se fechar para o próximo, a pensar somente em si, mentalidade que corresponde aos que estão perdidos, não a quem tem Cristo Jesus em seu coração (II Tm.3:2).

    O amor divino não se porta com indecência (I Co.13:5), ou seja, uma vez mais se utilizando da Bíblia de Jerusalém, “nada faz de inconveniente”. A cobiça pelos bens materiais gera no ser humano uma insatisfação permanente, uma insaciabilidade que faz com que venha a cometer desatinos e loucuras para ter cada vez maior enriquecimento (I Tm.6:9), que o tornará um insensato espiritual, como ensinou o Senhor Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21).

    O amor divino não busca os seus interesses (I Co.13:5), mas, sim, os interesses de Cristo Jesus (Fp.2:21). Quem tem o amor de Deus em seu coração não vive para si, mas vive para Cristo, pois não mais vive, o Senhor Jesus é que vive nele (Gl.2:20). Quem corre atrás de riquezas e benesses materiais mantém o seu ego ativo e não mais crucificado com Cristo e, sem a autonegação, não se poderá seguir a Jesus (Mc.8:34; Lc.9:23).

    O amor divino não se irrita (I Co.13:5), ou seja, quem tem o amor de Deus em seu coração não fica irritado, não perde a paz, nem tampouco a tranquilidade, porque tem paz com Deus e a paz de Deus. Quem, no entanto, confia nas riquezas e as busca facilmente se perturba.

    O amor divino não suspeita mal (I Co.13:5), ou seja, conforme diz a Bíblia de Jerusalém, “não guarda rancor”, porque é benigno, quer bem a todos e a todos tem por inocente até prova em contrário. À evidência, quem tem como finalidade de vida a posse de bens materiais sempre há de suspeitar o outro, sempre há de achar que alguém lhe quer tomar o que tem, assim como ele próprio busca sempre amealhar para si mais e mais bens materiais.

    O amor divino, por fim, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade (I Co.13:6), ou seja, busca sempre a prevalência da verdade, que é Cristo (Jo.14:6), não ficando contente com qualquer situação de injustiça, mesmo que ela o favoreça. Quem, porém, quer amealhar para si bens materiais, fica contente quando os bens vêm para si, mesmo que isto tenha ocorrido numa situação de injustiça.

    – Como se pode perceber, portanto, a posse do amor de Deus, que é o único meio pelo qual se consegue ser santo e irrepreensível diante de Deus, nada tem que ver com a busca de bens materiais. Ao contrário, como nos ensina o Senhor Jesus, quem ama as riquezas nunca poderá amar a Deus (Mt.6:24).

    III – O PAPEL DA PROSPERIDADE MATERIAL ANTE O PROPÓSITO DIVINO PARA O HOMEM

    – Tendo visto qual é o propósito de Deus para o homem e como o homem pode atingir este propósito, ante a salvação em Cristo Jesus, resta-nos, para concluir este estudo, observar qual o papel da prosperidade material ante este propósito do Senhor para a humanidade.

    – Se o propósito de Deus para o homem é abençoá-lo, em Cristo, com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo para que sejamos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor, que papel tem a prosperidade material neste propósito?

    – A resposta é quase que intuitiva. A prosperidade material nada significa na realização do propósito divino para o homem. A nossa salvação não depende dos bens materiais, nem é acompanhada por eles, uma vez que, em alcançando a salvação em Cristo Jesus, somos levados aos lugares celestiais em Cristo, onde desfrutaremos de todas as bênçãos espirituais e, para tanto, não precisamos de bens materiais.

    – Bem disse o salmista que todos os bens do mundo são insuficientes para a redenção de uma só alma e a sua posse não livrará o homem da perdição (Sl.49:6-9). Por isso, não só não se pode adquirir a salvação com bens materiais, como também não há qualquer necessidade de o salvo possuir bens materiais para comprovação da sua salvação. Nossa redenção custou preço muito mais alto: o sangue de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (I Pe.1:18,19).

    – Para termos as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo com o fim de sermos santos e irrepreensíveis diante de Deus em amor não necessitamos de bens materiais e, por isso, a salvação não traz, como consequência, o enriquecimento material, como apregoam os falsos arautos da teologia da prosperidade.

    – Não se faz necessário, de forma alguma, que se tenha abundância de bens materiais nem tampouco saúde física imune a enfermidades para que se alcancem as bênçãos decorrentes da salvação, que são espirituais, nem tampouco para que se atinja a santidade e irrepreensibilidade em amor para o que fomos salvos.

    Se, porém, o Senhor, que é o dono do ouro e da prata (Ag.2:8), quiser, por Sua vontade, conceder a algum salvo a prosperidade material, o que pode ocorrer já que a Deus pertencem todos os bens materiais, esta abundância tem como finalidade cumprirmos o propósito estatuído pelo Senhor com a nossa salvação, ou seja, o de sermos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor.

    – Deste modo, a quem Deus conceder riquezas materiais, bênção que pode dar mas que não decorre, em absoluto, da salvação em Cristo Jesus, mas da vontade de Deus para com aquela pessoa, deve o beneficiário da abundância de bens usar a sua riqueza para a santidade e a irrepreensibilidade diante de Deus em amor.

    – Para tanto, a abundância deve ser exercida, em primeiro lugar, com o devido cuidado para que ela não se torne em instrumento de pecado. Jamais o rico salvo poderá usufruir da sua riqueza para a satisfação das paixões e concupiscências da carne. Não deve se servir das riquezas para pecar. Este, aliás, foi o grande erro de Salomão.

    Em segundo lugar, o rico salvo não pode folgar nas riquezas que possui, mas, sim, folgar com a verdade, alegrar-se na Palavra de Deus (Sl.119:14). O rico salvo não pode confiar nas suas riquezas, não pode pôr nelas o seu coração, mas continuar a confiar em Deus e a tê-lo como a razão de sua vida (Sl.62:10). Um dos grandes riscos da riqueza é a avareza, que é a idolatria do dinheiro (Cl.3:5).

    Em terceiro lugar, o rico salvo não pode, em absoluto, achar que as suas riquezas são um “passaporte para o céu”, achando que, com o seu dinheiro, poderá conquistar as bênçãos espirituais ou qualquer privilégio na obra do Senhor. Pensar assim é não ter o coração reto diante de Deus (At.8:20,21). Tentar manipular a obra de Deus por causa de seus bens materiais é perder sorte e parte com o Senhor.

    Em quarto lugar, o rico salvo tem de pôr suas riquezas a serviço da obra de Deus e dos necessitados, tornando-as instrumento do amor de Deus. As riquezas materiais são concedidas aos homens para que eles, por meio delas, exerçam o amor de Deus, cuidando tanto da obra de Deus, a fim de que a humanidade alcance a salvação em Cristo Jesus, como também ajudando os menos afortunados, mostrando assim o amor ao próximo. Ao rico salvo é dada a oportunidade de imitar a Cristo que, sendo rico, por amor de nós, Se fez pobre para que enriquecêssemos (II Co.8:9).

    – Tal atitude não empobrecerá o rico salvo pois, se Deus lhe deu riquezas é precisamente para que ele cumpra tal mister, pois a sua riqueza não provém senão da vontade de Deus. Lembremo-nos de Jó, cuja beneficência para com os necessitados em momento algum lhe trouxe pobreza (Jó 29:12-16), ou, mesmo, dos pobres crentes da Macedônia que, mesmo ajudando os necessitados, nem por isso ficaram menos pobres (II Co.8:1-3).

    – A prosperidade material, portanto, quando dada por Deus a alguém, é apenas um instrumento secundário para que, dentro deste mundo, onde o dinheiro é necessário, se persiga o propósito divino ao homem. Tal propósito independe da posse de bens materiais mas, quando o Senhor no-la conceda, é com a única e exclusiva finalidade de mostrar, nas coisas desta vida, a busca deste sublime propósito.

    – Por isso, não busquemos as coisas deste mundo, mas, sim, as “coisas de cima”, o que realmente Deus nos preparou como consequências da salvação (Cl.3:1-3) mas, se o Senhor, por Sua vontade, conceder-nos “coisas da terra”, que as utilizemos para serem instrumentos que nos auxiliem a não só buscar as “coisas de cima”, mas que outros também as possam procurar.

    Caramuru Afonso Francisco

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  • LIÇÃO Nº 10 – Revista EBD – UMA IGREJA VERDADEIRAMENTE PRÓSPERA

    A prosperidade da Igreja mede-se pelo cumprimento de seu propósito diante de Deus.

    INTRODUÇÃO

    – No início do terceiro e último bloco deste trimestre letivo, estudaremos qual é a verdadeira prosperidade bíblica.

    Para entendermos que é a verdadeira prosperidade bíblica, é preciso sabermos qual o propósito da Igreja sobre a face da Terra.

    I – ISRAEL E A IGREJA

    – Damos início ao terceiro e último bloco do estudo deste trimestre, em que estaremos a estudar a verdadeira prosperidade bíblica, depois de vermos o que é prosperidade na Bíblia e os principais pontos que a “teologia da prosperidade” tem distorcido da sã doutrina para ensinar as suas falácias.

    – Ao estudarmos a doutrina bíblica da prosperidade, faz-se preciso, de pronto, verificarmos qual o propósito de Deus para a Igreja, visto que a prosperidade, como vimos, é um estado de felicidade, de abundância, de fartura, sobretudo espiritual, que somente advém ao homem quando ele está em paz com Deus, quando cumpre o propósito estabelecido pelo Senhor ao ser humano.

    – Com a entrada do pecado no mundo, o homem deixou de cumprir os propósitos estabelecidos por Deus a ele, tendo, porém, o Senhor iniciado a executar o plano para a salvação da humanidade, já previsto desde antes da fundação do mundo, a fim de propiciar ao homem a oportunidade de se reconciliar com o seu Criador.

    – Neste propósito para a salvação do homem, o Senhor teve, na terra, desde os primórdios, um povo através do qual manifestasse o Seu amor para com todos os homens. Assim, a descendência de Sete foi a primeira linhagem piedosa da Terra, pois, com ela, se começou a invocar o nome do Senhor (Gn.4:26), linhagem, porém, que cedo se perverteu com os descendentes de Caim (Gn.6:1,2) e que levou o Senhor a destruir toda a raça humana com o dilúvio (Gn.6:6,7), com exceção de Noé e de sua família (Gn.6:8).

    – Após o dilúvio, com Noé e sua família, o Senhor repovoou a terra, mas esta comunidade única pós-diluviana também se rebelou contra o Senhor, que, então, espalhou a todos sobre a face da Terra com o juízo de Babel (Gn.11:1-9). Desta comunidade única é que surgiram as nações que há sobre a face da Terra, que formam os “gentios” mencionados nas Escrituras.

    – Como os “gentios” haviam se rebelado contra Deus, o Senhor decidiu, então, formar uma nação que fosse sua “propriedade peculiar dentre os povos”, “um povo santo e reino sacerdotal” (Ex.19:5,6) e, por isso, chamou Abrão de Ur dos caldeus para dar início à execução deste projeto. Com Abraão, Isaque e Jacó, Deus dá início à formação do povo de Israel.

    Através de Israel, portanto, o Senhor queria Se fazer conhecido das nações e promover a reconciliação da humanidade com o seu Criador. Escolheu a terra de Canaã para a instalação deste povo e lhe deu a lei a fim de que, pelo seu viver diferente, todas as nações pudessem entender que há um único Deus, Senhor de todas as coisas e que é preciso obedecer-Lhe para que o homem alcance o propósito estabelecido pelo Senhor.

    – Como temos visto ao longo deste trimestre, o fato de Israel ser uma nação biológica e física, fez com que muitas das bênçãos prometidas por Deus a este povo fossem materiais, pois, se assim não fosse, não haveria como o Senhor mostrar aos demais povos a Sua existência e a falsidade dos demais deuses adorados pelas demais gentes.

    – Mesmo assim, como também já vimos ao longo deste trimestre, Deus não deixou de dar prioridade ao aspecto espiritual do relacionamento com o Seu povo, não fazendo de Israel um “império”, tendo, mesmo no auge da história de Israel, nos reinados de Davi e Salomão, demonstrado, claramente, que o Seu povo tinha por proeminência o relacionamento com Deus, uma atitude espiritual diferenciada, um “modus vivendi” completamente diverso do que havia entre as demais nações.

    O papel de Israel era ser “povo santo” e “reino sacerdotal”, ou seja, sua função sobre a face da Terra era o de ser um “povo separado do pecado” e um “reino de sacerdotes”, i.e., “reino formado por mediadores entre Deus e os homens”. Assim, os israelitas se distinguiam dos demais povos porque adoravam a um único Deus e não tinham os costumes pecaminosos dos demais povos como a idolatria, a luxúria e tantas outras coisas presentes em todas as demais nações; porque nem sequer tinham um rei, pois o rei era o próprio Senhor e, por fim, um povo que buscava levar os demais povos a um contato com este único Deus, sem qualquer intenção de dominação, como faziam os demais povos, que, inclusive, não se preocupavam que os povos dominados continuassem a servir aos seus deuses.

    – Infelizmente, Israel falhou neste propósito estabelecido pelo Senhor. Embora no monte Sinai tivessem assumido o compromisso de servir a Deus e a aceitar a lei, os israelitas logo quebraram a aliança ali firmada (Ex.24:5-8). Quarenta dias depois desta aliança, os israelitas já adoraram um bezerro de ouro (Ex.32) e, como resultado disto, somente uma tribo foi chamada para exercer o sacerdócio, a tribo de Levi (Nm.3:1-13).

    – Como se não bastasse a perda da qualidade sacerdotal de todo o povo de Israel, os israelitas, ao ingressarem na Terra Prometida, não destruíram totalmente os povos que ali habitavam e, como resultado disto, acabaram se envolvendo com a idolatria, deixando, também, de viver separados do pecado (Jz.2:1-6,10-23), envolvimento que os fez sofrer as maldições já previstas na lei (Dt.28:15-68) e que levaram à destruição das dez tribos do norte (II Rs.17:1-23) e ao cativeiro das três tribos do sul por setenta anos na Babilônia (II Cr.36:15-23).

    OBS: Os levitas, quando Jeroboão estabeleceu o culto aos bezerros de ouro instalados em Betel e Dã, deixaram o reino do norte e foram habitar com as tribos de Judá e de Benjamim no reino do sul, por isso falamos em três tribos do Sul (I Rs.11:13-15). Lembramos que a tribo de José é contada como duas tribos: Manassés e Efraim (Js.14:4). Por isso, a soma dá treze e não doze tribos.

    – Mas, a própria condição de “reino” diferente foi também retirada de Israel. Os israelitas nunca foram submissos ao Senhor, tanto que, no período dos juízes, faziam o que bem queriam (Jz.21:25), em vez de servirem a Deus, o seu verdadeiro rei (I Sm.8:7). E isto se intensificou quando o povo pediu a Samuel, o último juiz, que fosse constituído “um rei sobre eles, para que ele os julgasse como o tinham todas as nações” (I Sm.8:5).

    – Israel, então, passou a ter reis como todas as demais nações, perdendo, também, esta nota distintiva. Se, no início, os israelitas se submeteram à vontade divina na escolha do rei, o fato é que, pelo menos o reino do norte passou, num determinado instante (a partir do fim da dinastia de Jeú, cf. II Rs.15:8-12), a escolher seus reis sem qualquer consulta ao Senhor (cf. Os.8:4), descaracterizando-se, por completo, pois, o papel que Israel deveria exercer entre as nações.

    Diante da total inobservância por Israel dos compromissos que havia assumido no monte Sinai, renovados quando da entrada em Canaã nos montes Gerizim e Ebal, o Senhor não deixou de advertir Seu povo de que necessária era uma nova aliança, um novo concerto, para que se mantivesse o propósito divino para a salvação da humanidade.

    – O descumprimento da lei por Israel fez com que aquela aliança firmada no Sinai se tornasse “velha”, ou seja, “perto de se acabar” (Hb.8:13), motivo pelo qual Deus levantou profetas anunciando que haveria uma “nova aliança”, um “novo concerto” (Jr.31:31-33), a fim de que Israel pudesse cumprir o seu papel de “povo santo e reino sacerdotal”.

    – Esta nova aliança, este novo tempo seria estabelecido pelo Messias, pelo Filho de Davi, que passou a ser ansiosamente guardado pelo povo de Israel, que, com o cativeiro da Babilônia, entendeu que a velha aliança tinha perdido a sua eficácia, já que o povo, embora tivesse sido mantido existente, ainda que identificada somente em três tribos inteiras, voltou para Canaã mas sem independência política, servindo a outras nações dali por diante (Ne.9:36-38).

    – Entretanto, ao retornarem do cativeiro, os judeus (agora assim chamados visto que o remanescente era do reino de Judá – II Rs.16:6; Ed.4:12), embora tivessem abandonado a idolatria, continuaram a se misturar com os povos das terras, o que foi erradicado tanto por Esdras e Neemias, mas deixaram de servir a Deus com entusiasmo, passando a uma indiferença que foi duramente denunciada pelo profeta Malaquias e que levou o Senhor a um silêncio profético de mais ou menos quatrocentos anos.

    – Depois deste silêncio profético, Deus levanta João Batista com a mensagem de arrependimento aos judeus, a fim de que eles pudessem receber o novo concerto. A mensagem de João Batista era inovadora, pois mostrava aos judeus que eles não se salvariam apenas pela etnia, mas tinham de se arrepender de seus pecados (Mt.3:7-9; Lc.3:7,8).

    – Na sua pregação, João Batista torna mais explícito algo que já era anunciado pelos profetas que o haviam antecedido, ou seja, de que, em o novo concerto, na nova aliança, haveria também alcance aos gentios. João diz que Deus poderia “suscitar das pedras filhos a Abraão” e que “a árvore que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt.3:10; Lc.3:9), dando a entender que, se Israel não se convertesse, a “filiação de Abraão” passaria a outros povos.

    – Esta mensagem de João corroborava o que já havia sido dito por Isaías que anunciava que o Messias, o “Servo do Senhor” seria “chamado em justiça, tomado pela mão, guardado e dado por concerto do povo e para luz dos gentios” (Is.42:6) e, porque “Israel não se deixou ajuntar” (Is.49:5), seria “luz dos gentios, para ser a salvação do Senhor até à extremidade da terra” (Is.49:6).

    O Senhor Jesus, o Messias prometido, veio, então, devidamente apresentado por João Batista (Jo.1:26-34), “para as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.15:24), oferecendo-lhes o novo concerto, a nova aliança, para que tivessem a lei do Senhor inscrita em seus corações.

    – Entretanto, Israel O rejeitou (Jo.1:11; 11:46-53), de forma que a nova aliança foi destinada, como profetizado, a todos quantos creram em Cristo e aceitaram esta oferta, tanto judeus quanto gentios (Is.49:6; Jo.1:12; Ef.2:11-16).

    – Ocorreu, então, o que Jesus já havia sinalizado na parábola da figueira estéril (Lc.13:6-9), ou seja, após três anos de ministério, a figueira, que é Israel, não aceitou a oferta do Messias e, por isso, foi cortada, como, aliás, já havia sido dito por João Batista e, no lugar do corte, foi enxertado o zambujeiro, feito participante da raiz e da seiva da oliveira, que é Cristo Jesus (Rm.11:17-21), ou seja, os gentios, que, juntamente com os judeus que creram, formaram um novo povo de Deus: a Igreja.

    – É importante salientar que, apesar de Israel ter rejeitado a Deus, o Senhor não rejeitou o Seu povo (Rm.11:1-5), até porque não cumpriu ele, ainda, o propósito de ser “povo santo e reino sacerdotal” do Senhor, de forma que há promessa para a salvação do remanescente de Israel, não por etnia, mas por fé em Cristo Jesus (Rm.11:23-32).

    – Por isso, razão não têm alguns estudiosos das Escrituras que não aceitam a existência de “dois povos de Deus”, defendendo que Israel foi substituído pela Igreja e que, portanto, não há mais qualquer papel de Israel no plano de Deus para a humanidade.

    – O apóstolo Paulo, sendo o “apóstolo dos gentios” (Rm.11:13), deixou isto bem claro, ao mostrar que o fato de a Igreja ter surgido em virtude da rejeição de Israel, isto em nada retira o papel que Deus reservou a Israel, papel este que será concretizado e cumprido quando do fim da “plenitude dos gentios”, que é a dispensação da graça, quando, então, se cumprirão todas as profecias messiânicas, com o reino milenial de Cristo.

    – Israel não deixou de ser o povo de Deus e a manutenção da identidade ao longo destes séculos é a maior prova disto. Israel está em “estado de profundo sono espiritual” (Rm.11:8) até o instante em que receber vida para ser “o povo santo e o reino sacerdotal” que Deus disse que seria, nunca tendo deixado de ser “a propriedade peculiar de Deus dentre as nações”.

    – No entanto, ante a vinda do Messias e a rejeição por Israel, o Senhor constituiu entre aqueles que receberam a Cristo Jesus como único e suficiente Senhor e Salvador, um povo, formado de judeus e gentios, que são os legítimos “filhos da promessa”, que são os autênticos “filhos de Abraão”, filhos espirituais, a trazer a salvação proporcionada por Jesus. Este é o “Israel de Deus” mencionado por Paulo em Gl.6:16, um povo formado de “novas criaturas” (Gl.6:15), um povo que está “em Cristo Jesus”, na “videira verdadeira” (Jo.15:1-5), um povo para quem “o mundo está crucificado para eles e eles para o mundo” (Gl.6:14).

    – Por isso, a humanidade, aos olhos de Deus, constitui-se de três povos: gentios, judeus e a Igreja (I Co.10:32). Os gentios, aqueles que se rebelaram contra Deus e se mantêm em seus delitos e pecados; os judeus, aqueles que rejeitaram Jesus como o Messias e que se encontram “em profundo sono espiritual”; a Igreja, aqueles judeus e gentios que creram em Jesus como único e suficiente Senhor e Salvador e que desfrutam do perdão dos pecados e da comunhão com Deus.

    – Isto explica, pois, que o que Deus tem reservado para Israel nem sempre é para a Igreja, como já tivemos ocasião de estudar na lição 5 deste trimestre e que não se pode, de modo algum, entender que a prosperidade prevista para Israel seja automaticamente transferida para a Igreja.

    – Israel estava, e ainda está, sob a lei, visto que rejeitou o novo concerto e, por isso, seu patamar não alcançou a “bênção de Abraão”. A Igreja, por sua vez, tendo aceitado a graça que veio por Jesus (Jo.1:17), encontrou o nível, a dimensão da promessa dada a Abraão (Gl.3:14). E qual é esta bênção? É a justificação pela fé, a comunhão com Deus, o perdão dos pecados, a filiação divina, a vida eterna (Gl.3:26; Rm.4:3,23-25; Rm.8:1,2; Jo.5:24).

    II – A IGREJA E A SUA MISSÃO

    – Entendida a distinção entre Israel e a Igreja, temos de verificar qual é o papel que Deus reservou para a Igreja sobre a face da Terra. Ao revelar o “mistério da Igreja”, Jesus disse que “edificaria a Sua Igreja e as portas do inferno não prevaleceriam contra ela” (Mt.16:18). O Senhor, então, de pronto, mostrava que a Igreja seria um povo edificado por Ele, pertencente a Ele e que seria combatido pelo maligno, pelo príncipe deste século.

    – Este combate tem sua razão de ser, pois, o objetivo da Igreja, como nos explica o apóstolo Paulo, é ser um povo que “tenha acesso ao Pai em um mesmo Espírito, crescendo bem ajustado como templo santo no Santo, edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef.2:18-22).

    A Igreja é “o corpo de Cristo” (I Co.12:27) e, como tal, devemos evangelizar a paz, como Ele o fez (Ef.2:17) e nos ordenou fazer (Mt.28:18-20; Mc.16:15). Como “corpo de Cristo”, devemos dar fruto permanente para Deus (Jo.15:16; Rm.7:4).

    Como “corpo de Cristo”, devemos prosseguir o que Jesus fez, enquanto esteve em corpo físico sobre esta Terra, ou seja, “andar fazendo bem e curar todos os oprimidos do diabo” (At.10:38).

    Como “corpo de Cristo”, temos de prosseguir o tríplice ofício desempenhado por Jesus enquanto esteve aqui na Terra, qual seja, o de “rei” (Jo.18:37), o de “profeta” (Jo.9:17) e o de “sacerdote” (Hb.6:20).

    – Jesus, ao exercer este tríplice ofício, cumpriu o que estava determinado para Israel. Os israelitas, conforme já vimos, deveriam ser “povo santo e reino sacerdotal”, ou seja, deveriam exercer o papel de “reino”, de “sacerdotes” e de “profetas”. No entanto, fracassaram em todos estes papéis.

    – À Igreja, agora, como “corpo de Cristo”, cabe desempenhar este tríplice ofício. A Igreja é “um reino que não é deste mundo” (Jo.18:36), “o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncie as virtudes d’Aquele que a chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Pe.2:9).

    A primeira razão de ser da Igreja, portanto, é a pregação do Evangelho aos judeus e aos gentios, ou seja, a anúncio da boa-nova, da boa notícia de que Deus enviou o Seu Filho ao mundo para que todo aquele que n’Ele crê não pereça mas tenha a vida eterna (Jo.3:16). Jesus deixou isto bem claro ao determinar aos discípulos que pregassem o Evangelho a toda a criatura por todo o mundo (Mc.16:15).

    -A Igreja existe para pregar o Evangelho, para continuar a pregação de Jesus (Mc.1:14,15). Este, aliás, é um dos motivos pelos quais a Igreja é chamada de “o corpo de Cristo”, pois deve continuar a fazer o que Jesus fez. Enquanto esteve em Seu ministério terreno, o Senhor ia por todas as partes de Israel pregando o Evangelho, mas, agora, já que os Seus não o receberam, mandou que a Igreja prosseguisse este Seu trabalho, continuando a pregar o Evangelho, só que agora a todas as nações, inclusive aos judeus.

    – Mas a Igreja não serve apenas para pregar o Evangelho. Tem ela também a tarefa de integrar as pessoas que aceitam a salvação no seu interior. Embora a salvação seja imediata e uma operação do Espírito Santo, o fato é que o crente não pode ser deixado à mercê, isolado e sozinho no mundo. Muito pelo contrário, assim que alguém aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador, tem de ser integrado na igreja local, no grupo social onde passará os dias aguardando a volta de Cristo(At.2:41,44).

    – Outra função importantíssima que é a do aperfeiçoamento dos santos (Ef.4:11-16), a começar pelo discipulado (At.11:25,26). O crescimento espiritual do salvo somente se dá na igreja local. Este é o modelo bíblico, de modo que sem qualquer respaldo nas Escrituras o falso ensino do “self-service”, tão em voga nos nossos dias, segundo o qual se pode servir a Deus “sozinho”, pois “antes só do que mal acompanhado”. Muitos têm se decepcionado com escândalos, intrigas e injustiças nas igrejas locais, que, como todo grupo social de seres humanos, têm defeitos e problemas (que o digam as igrejas que receberam epístolas dos apóstolos…) e, em meio a estas decepções, não vigiam e se deixam enganar por esta doutrina demoníaca. Precisamos uns dos outros para crescermos espiritualmente, para perseverarmos na fé.

    – A Igreja, como é o povo de Deus na Terra na atual dispensação, é o único povo que pode adorar a Deus, visto que está em comunhão com Ele, já que seus pecados foram tirados por Jesus (Jo.1:29; Rm.5:1). É, portanto, dever da Igreja adorar a Deus, em espírito e em verdade, já que o Pai procura tais adoradores (Jo.4:23). Deve, portanto, a Igreja cumprir este dever de adoração.

    – A Igreja é uma nação santa, é o sal da terra e luz do mundo (Mt.5:13,14) e, por isso, por ainda estar no mundo, embora dele não seja (Jo.17:11,15,16), torna-se o porta-voz natural de Deus para os gentios e para os judeus. A Igreja é a “boca” de Deus para o mundo e, por isso, temos o dever de proclamar a Palavra, de dizer ao mundo qual é a vontade de Deus em todos os assuntos e questões que se apresentarem enquanto perdurar a nossa jornada, a nossa peregrinação. Por isso, tem a Igreja uma missão profética, deve proclamar a Palavra de Deus e exigir o seu cumprimento por grandes e pequenos, sem receio, a exemplo do que faziam os profetas do Antigo Testamento.

    – Como a Igreja foi chamada para dar fruto e fruto permanente (Jo.15:16), frutos, aliás, que são diferentes dos outros povos (Mt.7:15-20), porque se trata do fruto do Espírito (Gl.5:22) e só a Igreja tem e recebeu o Espírito Santo (Jo.14:17), temos que o comportamento da Igreja é diferente do comportamento dos demais homens, sejam judeus, sejam gentios, de sorte que a Igreja acaba por ter, também, uma missão ética, o dever de se portar de modo a não dar escândalo aos outros povos (I Co.10:32), tendo de ter uma conduta que identifique a sua comunhão com o Pai (Mt.5:16).

    – Também por estar no mundo e por se apresentar em grupos sociais, as chamadas “igrejas locais”, a Igreja acaba tendo de ter um papel perante a sociedade, como, aliás, todo grupo social. Os grupos sociais estão reunidos na sociedade, que é o grupo maior, o grupo que tem, por fim, promover a felicidade, o bem-estar, o chamado bem comum. As igrejas locais não fogem a esta obrigação, que decorre da sua própria natureza de ser parte da sociedade. Deus não nos tirou do mundo nem Jesus quis que isto se fizesse (Jo.17:15) e, diante desta realidade, assim como fez Nosso Senhor, devemos, também, ter uma atuação social digna de nota, que sirva de testemunho de nossa comunhão com Deus.

    – Dissemos, há pouco, que a Igreja é o lugar que o Senhor designou para que sirvamos a Ele, pois, isoladamente, ninguém consegue desenvolver-se espiritualmente e chegar até a glorificação, último estágio de nossa salvação. As imperfeições humanas são tantas que o Senhor fez com que nos uníssemos nas igrejas locais, a fim de que cada um ajudasse o outro a crescer espiritualmente e a resistir ao mal até aquele grande dia.

    – Tem-se, portanto, que é dever de cada integrante da Igreja ajudar uns aos outros, por intermédio do aconselhamento cristão (Rm.15:14; Cl.3:16; I Ts.5:11; Hb.3:13; 10:25);  consolar uns aos outros, por intermédio da visitação (I Ts.4:18; Hb.10:24; Tg.5:16);  promover a comunhão uns com os outros, por intermédio da conciliação (Mt.18:15-17;Ef.5:21; Cl.3:13). Afinal de contas, o mandamento deixado pelo Senhor, que é a cabeça da Igreja (Ef.1:22; 5:23) outro não é senão: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo.15:12).

    – Aliás, a Bíblia ensina-nos que devemos nos amar uns aos outros (Jo.13:35), preferirmo-nos em honra uns aos outros (Rm.12:10), recebermo-nos uns aos outros (Rm.15:7), saudarmo-nos uns aos outros (Rm.16:16), servimo-nos uns aos outros pela caridade (Gl.5:13), suportarmo-nos uns aos outros em amor (Ef.4:2; Cl.3:13), perdoarmo-nos uns aos outros (Ef.4:32; Cl.3:13), sujeitarmo-nos uns aos outros no temor de Deus (Ef.5:21), ensinarmos e admoestarmo-nos uns aos outros (Cl.3:16; Hb.10:25), não mentirmos uns aos outros (Cl.3:9), consolarmo-nos uns aos outros (I Ts.4:18), exortamo-nos e edificarmo-nos uns aos outros (I Ts.5:11; Hb.3:13), considerarmo-nos uns aos outros para nos estimularmos à caridade e às obas obras (Hb.10:24), confessarmos as culpas uns aos outros (Tg.5:16). Diante de tantas recomendações bíblicas, como podemos crer na doutrina do “self-service”?

    – Sendo a Igreja a coluna e firmeza da verdade (I Tm.3:14-16), ao mesmo tempo em que tem o dever de proclamar a Palavra, exigindo de gentios e de judeus a observância das Escrituras, internamente, a Igreja deve preservar a sã doutrina (II Tm.4:1-5; Tt.2:7-10), lutando tenazmente contra os falsos mestres que se introduzem no seu meio (II Pe.2:1-3; Jd.4), conservando, assim, a massa pura, não permitindo que se ponha nela o fermento arruinador (Mt.13:33; 16:6,11; Mc.8:15; Lc.12:1).

    – A Igreja, ainda, como é um organismo vivo, visto que tem vida abundante e está sempre a crescer (Jo.10:10; Cl.2:19), não pode permitir que as coisas desta vida venham a matar a vida espiritual de seus membros. Por isso, é necessário que a Igreja mantenha os seus membros avivados, proporcionando um ambiente de avivamento espiritual contínuo, demonstrando, assim, ter vida em si mesmo, já que é o corpo de Cristo (Jo.5:26).

    – Por fim, a Igreja deve, também, ministrar o “remédio” aos que estiverem espiritualmente doentes e enfraquecidos, aplicando a necessária disciplina divina para a restauração daqueles que se afastarem da comunhão com o Senhor, antes que sejam de todo cortados da videira verdadeira. Por isso, deve impedir a morte espiritual, exercendo a devida disciplina sobre os membros em particular do corpo de Cristo (Mt.18:15-22).

    III – A IGREJA VERDADEIRAMENTE PRÓSPERA

    – Pelo que pudemos observar, então, das atividades que a Igreja, enquanto corpo de Cristo, deve desempenhar sobre a face da Terra, não vemos, em momento algum, que esteja entre elas a de ajuntar tesouros nesta Terra ou de assumir posições de influência ou dominação sócio-político-econômica entre judeus e gentios.

    A Igreja será próspera, ou seja, feliz, bem-sucedida, cumpridora dos propósitos estabelecidos pelo Senhor a ela, se bem executar todas estas ações que a ela são determinadas, com destaque para a evangelização e o aperfeiçoamento dos santos.

    Para bem realizar tais tarefas, a Igreja tem necessidade é da operação do Espírito Santo, que o Senhor mandou para que ela não ficasse órfã neste mundo (Jo.14:18). O Espírito Santo, que habita na Igreja e está em cada salvo (Jo.14:17), é suficiente para que a Igreja possa se desincumbir de suas obrigações, de seus deveres como povo de Deus.

    A verdadeira prosperidade da Igreja está, pois, em receber e manter o Espírito Santo como seu guia e condutor (Jo.14:26; 16:13,14) até o dia em que Ele a levará ao encontro do Senhor Jesus nos ares.

    – Por isso, em cada igreja local, faz-se necessário que se trabalhe intensamente para que os salvos estejam cheios do Espírito Santo, avivados, como já dissemos supra. É tarefa daqueles que foram postos à frente do povo de Deus que se esforcem para que os salvos tenham cada vez mais intimidade com o Senhor, por intermédio da Palavra de Deus, da oração, do jejum, da busca do batismo com o Espírito Santo e dos dons espirituais.

    – Todavia, o que se tem presenciado é que, seguindo os falsos ensinos da “teologia da prosperidade”, muitos têm desviado o foco e as atenções dos crentes para “as coisas desta vida”. Em vez de fazerem de cada crente “geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido para anunciar as virtudes de Jesus Cristo”, tais pessoas têm levado os salvos a buscar os bens materiais, a tentar a satisfação com as riquezas desta terra.

    – Embora o Senhor seja o dono de toda a prata e de todo o ouro (Ag.2:8), Ele não constituiu a Igreja para ser “depositária” destes bens aqui na Terra. O Senhor quer que a Igreja seja, sim, “depositária do Evangelho”, seja a guardiã das boas-novas de salvação da humanidade na pessoa de Jesus.

    – Sendo o “dono do ouro e da prata”, o Senhor faz com que, nesta tarefa, a Igreja independa de recursos econômico-financeiros para realizar a Sua obra. É certo que dá recursos econômico-financeiros às diversas organizações em que está o Seu povo a fim de que se possa realizar a pregação do Evangelho e o aperfeiçoamento dos santos, mas não manda, em absoluto, que os crentes entesourem as riquezas materiais ou delas desfrutem para seu próprio deleite.

    – Quando vemos o apóstolo Paulo pregando o Evangelho em Roma em uma casa alugada (At.28:30), bem percebemos como Deus faz as coisas. Era propósito do Senhor que o apóstolo fosse a então capital do mundo pregar a Sua Palavra (At.23:11) e, portanto, providenciou para que ele para lá fosse como prisioneiro em um navio (At.27:1) e que, estando em Roma, pregasse as boas-novas de salvação tendo suas despesas pagas pelos crentes de Filipo (Fp.2:25).

    – Deus, assim, mostra que cumpre a Sua promessa de suficiência aos Seus servos, inclusive para que se possa realizar a Sua obra. Prova, assim, que é o dono de todas as coisas e que, portanto, não deve a Igreja preocupar-se em amealhar patrimônio ou tesouros terrenos, devendo, tão somente, cumprir o propósito estabelecido para ela, a sua missão.

    – Fazer com que os crentes passem a se preocupar com as coisas desta vida, que corram atrás de comida, bebida e vestido nada mais é que tornar os salvos em Cristo Jesus em gentios, pois é esta a finalidade da vida entre eles (Mt.6:31,32), em outras palavras: é fazer os integrantes da Igreja renegarem a própria salvação.

    Fazer parte da Igreja é deixar de fazer parte do mundo e, se estamos no mundo, é para sermos “novas criaturas”, para efetuarmos todas as missões que o Senhor destinou para o Seu povo, que não são poucas, como já tivemos ocasião de verificar.

    Fazer parte da Igreja é ter a esperança na cidade que está nos céus (Fp.3:20,21) e, portanto, não esperar em Cristo para as coisas desta vida (I Co.15:19) e, se o fizermos, seremos os mais miseráveis de todos os homens pois, tendo ingressado “nos lugares celestiais em Cristo”, onde estão “todas as bênçãos espirituais” (Ef.1:3), desviamo-nos do santo mandamento e do caminho da justiça, indo a um último estado que é pior do que o anterior à salvação, cumprindo-se, então, o provérbio :”o cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (II Pe.2:18-22).

    – Muitas “fontes sem água, nuvens levadas pela força do vento, para os quais a escuridão das trevas eternamente se reserva” (II Pe.2:17) têm desviado muitos salvos do caminho santo e os levado a este “espojadouro de lama” que são as “campanhas de prosperidade” e toda a sorte de peripécias que se têm criado visando estimular a ganância e o materialismo entre os que cristãos se dizem ser.

    – Uma igreja verdadeiramente próspera não é aquela que vê seus membros galgarem posições na sociedade nem tampouco terem elevação da sua renda, mas, sim, a igreja cujos membros cada vez mais se santificam e se aproximam do Senhor Jesus, onde há um enriquecimento em Cristo Jesus, em toda a palavra, em todo o conhecimento, com a confirmação do testemunho de Cristo entre os salvos, onde nenhum dom falta e onde o que se espera é a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (I Co.1:5-7).

    Uma igreja verdadeiramente próspera é aquela que, embora não tenha prata nem ouro, tem o poder de Deus para realizar sinais e maravilhas com intuito de transformar vidas e convertê-las a Cristo Jesus (At.3:6; 4:4).

    Uma igreja verdadeiramente próspera é aquela que apresenta um testemunho que a diferencia de gentios e de judeus (At.5:12,13), que demonstre conversão a Deus para servi-l’O (I Ts.1:9).

    Uma igreja verdadeiramente próspera não é uma igreja que se entenda materialmente rica e que nada tem falta, pois, quando isto acontece, está-se, a exemplo de Laodiceia, diante de uma igreja que é, na verdade, desgraçada, miserável, pobre, cega e nua (Ap.3:17). A propósito, como diz Russell Shedd: “A igreja local da cidade rica já abraçara a acomodada atitude prevalecente da soberba das riquezas. Imaginava que possuía grandes riquezas espirituais e virtudes cristãs. As riquezas materiais produzem uma conformidade fatal com os padrões morais mundanos (cf. Os.12:8; Lc.1:53).” (BÍBLIA SHEDD, com. Ap.3:17, p.1763).

    O enriquecimento que se tem de ter na Igreja é o enriquecimento espiritual, que só é obtido mediante “o ouro provado no fogo”, ou seja, mediante a purificação obtida pela comunhão com o Senhor, “…a verdadeira riqueza celestial, sem máculas nem tristezas (Mt.6:19,20; Lc.12:21).…” (BÍBLIA SHEDD, com. Ap.3:18, p.1763). “…O ouro, o mais precioso dos metais, representa, na Bíblia, a glória de Deus. Quando uma igreja é esforçada na Obra do Senhor, trabalhando não com intuito apenas de se mostrar ao mundo, de competir, ostentando seus talentos ou habilidades, mas trabalhando para glória de Deus, para edificação da igreja, e para a salvação dos perdidos, este trabalho representa ouro, prata e pedras preciosas para Deus (I Co.3:10-15)…” (OLIVEIRA, José Serafim de. Desvendando o Apocalipse, p.28).

    – Por isso, uma igreja verdadeiramente próspera é aquela que efetivamente trabalha para ganhar almas para o Senhor Jesus, que não descansa enquanto o Senhor não vier, a alcançar os perdidos, sejam judeus ou gentios, levando-lhes a Palavra do Senhor.

    – Não há prosperidade se não se cumprir o propósito do Senhor e não há como uma igreja ser verdadeiramente próspera se não cumprir toda a missão que o Senhor lhe confiou. Temos buscado a verdadeira prosperidade em nossa igreja local?

    Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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  • LIÇÃO Nº 11 – Revista CPAD – COMO ALCANÇAR A VERDADEIRA PROSPERIDADE

    A verdadeira prosperidade alcança-se pela observância da Palavra de Deus.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo deste trimestre, analisaremos hoje como alcançar a verdadeira prosperidade.

    A verdadeira prosperidade é alcançada quando obedecemos à Palavra de Deus.

    I – A VERDADEIRA PROSPERIDADE INICIA-SE COM A RESTAURAÇÃO DA COMUNHÃO COM DEUS

    – Neste último bloco do trimestre, estamos a estudar o que é a verdadeira prosperidade e, na lição anterior, vimos quando se está diante de uma Igreja verdadeiramente próspera. Nesta lição, veremos como a verdadeira prosperidade pode ser alcançada.

    – Lembramo-nos de que, no início do estudo deste tema, vimos que o homem foi criado num ambiente de prosperidade. O primeiro casal foi posto no jardim que Deus formou no Éden e vivia prosperamente. Quando falamos em alcançar a verdadeira prosperidade, estamos, naturalmente, falando no retorno a este estado primeiro da humanidade, que foi interrompido com a entrada do pecado no mundo.

    – Temos, pois, como intuitivo que, para que tenhamos a possibilidade de restauração do ambiente próspero que Deus destinou para a humanidade, que, por primeiro, venhamos a retirar a causa de toda a perda daquele estado primitivo, ou seja, a remoção do pecado.

    – O pecado estabeleceu uma inimizade entre Deus e o homem (Gn.3:15) e tal inimizade somente pode ser extirpada mediante a “semente da mulher”. Por isso, ao apresentar a Cristo diante do povo, João Batista foi claríssimo ao dizer que ali estava “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo.1:29). É em Cristo, a posteridade de Abraão (Gl.3:16), que todas as nações da Terra são benditas (Gn.12:3).

    – Não há como restauramos o ambiente próspero inicialmente criado para o homem por Deus se não desobstruirmos o caminho da árvore da vida, cujo acesso se tornou impossível após o pecado (Gn.3:22-24), o que somente se pode fazer mediante a fé em Cristo Jesus e o consequente arrependimento dos pecados, tema do anúncio do Evangelho (Mc.1:14,15; Lc.24:46,47; At.3:18-21).

    Para que se possa, portanto, alcançar a verdadeira prosperidade é mister que, em primeiríssimo lugar, haja arrependimento dos pecados e conversão, com a resposta positiva ao anúncio do Evangelho e a crença de que Jesus é o Senhor e Salvador do mundo. Deve-se, pois, para se alcançar a verdadeira prosperidade, entregar-se a Cristo Jesus e reconhecê-l’O como único e suficiente Senhor e Salvador.

    A verdadeira prosperidade inicia-se na circunstância de tudo deixarmos, de tudo abandonarmos por Cristo Jesus. O Senhor Jesus, mesmo, assim o ensinou, como vemos em Mc.10:29,30: “Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de Mim e do Evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e, no século futuro, a vida eterna.”

    – Percebamos que o Senhor é bem claro ao afirmar que, a partir do momento em que tudo deixamos, em que nos negamos a nós mesmos para segui-l’O, aceitando a proposta pregada pelo Evangelho, iniciamos o caminho para a prosperidade, que é o “cem vezes tanto” aludido pelo Senhor, mas não um cêntuplo materialista, como é ensinado pelos falsos pregadores da prosperidade, mas um “cêntuplo” que, inclusive, não impede a perseguição, mas que nos conduz à vida eterna.

    – O cêntuplo, que é a fartura prometida pelo Senhor Jesus, é um novo estado espiritual, o estado da comunhão com Deus, uma nova dimensão de relacionamento com o Senhor, pois passamos a estar “nos lugares celestiais em Cristo”, onde somos abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef.1:3).

    – O cêntuplo é a máxima frutificação do homem (Mt.13:23), objetivo primeiro de Deus para o ser humano (Gn.1:28), frutificação que nada mais é do que produzir frutos de justiça para glória e louvor de Deus (Fp.1:11), frutos dignos de arrependimento (Mt.3:8; Lc.3:8).

     

    Quando nos negamos a nós mesmos, tomamos a nossa cruz e passamos a seguir a Cristo Jesus (Mt.16:24; Mc.8:34; Lc.9:23), damos início à prosperidade, pois abandonamos o pecado e, deste modo, passamos a ter livre acesso à arvore da vida, entramos novamente em comunhão com Deus e, deste modo, passamos a ser um com o Senhor (Jo.17:21) e o mundo passa a entender que Cristo foi enviado pelo Pai e que é o Senhor e Salvador do mundo.

    – O resultado desta comunhão com Deus é que passamos a ser luz do mundo e sal da terra, realizando boas obras e os homens passam a glorificar a Deus (Mt.5:13-16) e a prosperidade que nos alcançou é compartilhada com os demais homens, com nítida modificação no “modus vivendi” de todos os que nos cercam, como está a provar a história da humanidade, que teve inegável incremento e mudança com a propagação do Evangelho, não só no aspecto espiritual, mas, também, com repercussões nos campos moral, social, cultural e econômico.

    – O primeiro passo para se alcançar a prosperidade, pois, está no arrependimento dos pecados e na conversão, um processo que é imediato na medida em que depende da fé em Cristo Jesus, que vem pelo ouvir pela Palavra de Deus (Rm.10:17), mas que é tão somente o início de um processo, o processo da salvação, que perdura até a vinda de Cristo para arrebatar a Sua Igreja ou, então, individualmente falando, a partida de cada um para a eternidade. Por isso, o Senhor diz que a salvação está na “perseverança até o fim” (Mt.24:13).

    – Neste processo da salvação, o estágio que mais se estende no tempo é o da “santificação progressiva”, ou seja, a contínua e cada vez mais intensa separação do pecado (Ap.22:11), que, juntamente com o embaraço, está sempre a nos rodear de perto (Hb.12:1). Estamos, pois, diante de uma constante luta contra o mundo, a carne (a nossa natureza pecaminosa) e o diabo, para que nos mantenhamos separados do pecado, em santidade, para que persistamos fiéis até a morte (Ap.2:10).

    O segundo passo, pois, para a prosperidade é a santificação, a manutenção de nossa separação do pecado, o inconformismo com este mundo e a constante transformação pela renovação do nosso entendimento (Rm.12:2).

    – Quando vemos a quase ausência de mensagens de santificação em nossos púlpitos nestes dias finais da dispensação da graça, a falta de prioridade e ênfase a busca de u’a maior intimidade com o Senhor por meio de atividades espirituais como a oração, a meditação e aprendizado das Escrituras, a busca do batismo com o Espírito Santo e dos dons espirituais, verificamos quão distantes estamos da verdadeira prosperidade e como há imensa necessidade de as lideranças acordarem para terem um povo verdadeiramente próspero.

    – No Éden, em toda viração do dia, o Senhor vinha entrar em contato mais próximo com o primeiro casal (Gn.3:8) e isto deve ser uma característica da vida próspera de todos quantos aceitaram a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador. Não foi por outro motivo que o Senhor Jesus prometeu estar conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt.28:20).

    – Tendo acesso à árvore da vida, tendo passado da morte para a vida (Jo.5:24), é absolutamente necessário que nos encontremos diariamente com o Senhor, por intermédio dos meios de santificação, a saber: a Palavra de Deus (Jo.17:17), a oração (I Tm.4:15; o jejum (Mc.2:18-20), o temor a Deus (II Co.7:1) e a participação digna na ceia do Senhor (I Co.11:23-29).

    – A prosperidade, ao exigir a santificação como segundo passo, está também a nos impor o crescimento espiritual, crescimento que é constante e contínuo, pois nosso alvo é chegarmos todos “à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef.4:13), fator que, decididamente, somente será alcançado quando da nossa glorificação no dia do arrebatamento da Igreja.

    – Por isso, apesar de toda a sua estatura espiritual, o apóstolo Paulo foi bem claro ao afirmar que não se considerava perfeito e que prosseguia buscando este estágio (Fp.3:12,13), estágio que somente viria com a sua morte física (II Tm.4:7,8).

    Grande perigo que se apresenta no alcance da prosperidade é, portanto, o comodismo, a satisfação com o que já se alcançou na vida espiritual e que leva a uma sensação de autossuficiência, a uma acomodação. Neste ponto, corre-se o risco de se raciocinar como o anjo da igreja em Laodiceia e de se entender que se é rico e de que nada mais tem falta, caminho célere para se alcançar a desgraça espiritual (Ap.3:17).

    – Quando se entende que se atingiu um patamar espiritual suficiente e que não é mais necessário crescer espiritualmente, buscar mais a face do Senhor, entra-se num campo extremamente perigoso, pois não há mais vontade de se separar do pecado. Quem não caminha em direção a Deus, caminha em direção ao mundo, não se pode ser estático no mundo espiritual. O resultado é que se inicia uma decadência espiritual, uma mistura com o pecado e é por isso que o anjo da igreja de Laodiceia era chamado de “morno”, pois, ao estancar a sua progressão espiritual, passou a se misturar rapidamente com o pecado.

    – Moisés, inspirado por Deus, em seu último cântico, falou desta triste realidade, ao mostrar que Israel, após ter engordado, deu coices, deixando e desprezando a Deus (Dt.32:15), tendo como triste consequência o próprio desprezo divino (Dt.32:19,20). Assim também ocorre com muitos crentes que, tendo alcançado as bênçãos espirituais, envaidecem-se e acabam deixando o próprio Senhor. Tomemos cuidado, amados irmãos!

    II – A VERDADEIRA PROSPERIDADE TEM REPERCUSSÃO NA VIDA SOBRE A FACE DA TERRA

    – Embora a verdadeira prosperidade esteja vinculada à comunhão com Deus, tem ela repercussão na vida que estamos a levar sobre a face da Terra. No Éden, além do acesso à árvore da vida, Deus plantou no jardim que formou “toda árvore agradável à vista” e “toda árvore boa para comida” (Gn.2:9), ou seja, havia bem-estar psíquico e físico para o homem.

    A comunhão com Deus, restabelecida com o perdão dos nossos pecados quando reconhecemos a Cristo como nosso Senhor e Salvador, vem acompanhada de uma vida psíquica e física favorável. Assim que temos nosso encontro com o Senhor Jesus, passamos a gozar de um equilíbrio psíquico, eis que nossa alma passa a ser governado pelo espírito humano, vivificado e controlado pelo Espírito Santo (Rm.8:1), bem como se passa a ter a “bênção da abastança”, ou seja, passamos a ter a promessa divina de que teremos o suficiente para nossa manutenção nesta Terra, o suficiente para comida, bebida e vestido, com o que devemos, inclusive, nos contentar (I Tm.6:8).

    – A prosperidade envolve, pois, de um lado, o equilíbrio psíquico, que advém do fato de sermos controlados pelo Espírito Santo, que derrama sobre nós o amor de Deus (Rm.5:5), o que nos leva a ter uma vida baseada no amor divino, base de todo o comportamento que passa a ser seguido pelo discípulo de Jesus Cristo. Não é por outro motivo, aliás, que o sábio Salomão chama todo desequilíbrio psíquico de “aflição de espírito” (Ec.1:17).

    – De outro lado, a prosperidade envolve a “suficiência material”, a “benção da abastança”, ou seja, o suficiente para sobrevivermos fisicamente nesta Terra, o suficiente para nossa subsistência em termos de comida, bebida e vestido.

    Esta bênção da abastança, no entanto, é dada pelo Senhor dentro dos parâmetros estabelecidos quando da criação do homem, ou seja, tem como base o trabalho, característica que nos faz, inclusive, semelhantes a Deus, que é um ser trabalhador (Jo.5:17).

    – Já no Éden, antes mesmo do pecado, o homem foi chamado para trabalhar, pois deveria lavrar e guardar o jardim (Gn.2:15), trabalho que, com o pecado, tornou-se penoso e absolutamente necessário para a sobrevivência (Gn.3:17-19). Não foi outra a razão da expressão do apóstolo Paulo aos tessalonicenses: “…se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (II Ts.3:10 “in fine”).

    A prosperidade advinda da comunhão com Deus, portanto, não dispensa a necessidade do trabalho, antes a reforça, pois, quando alguém passa a servir a Deus entende que todo o trabalho que realizar não é para o seu empregador, mas, sim, uma atividade feita para o próprio Senhor (Ef.6:5,6).

    – No entanto, o inimigo de nossas almas tem disseminado, entre os homens, uma mentalidade em tudo contrária ao que nos ensinam as Escrituras Sagradas. Quando se fala em “prosperidade”, de imediato vem a ideia de se ter muito mais do que o suficiente para a sobrevivência e tudo isto amealhado com o trabalho dos outros. O que todos desejam, no mundo, é “sombra e água fresca”, ou seja, terem do bom e do melhor, muito além do necessário, obtido não pelo próprio trabalho, mas, sim, pela exploração do trabalho alheio, pela apropriação do que foi feito por outras pessoas.

    – A prosperidade material propalada e almejada pelos seguidores da “teologia da prosperidade” e pelos gentios, em geral, é o acúmulo de riquezas por meio da colocação de pessoas à disposição dos que enriquecem, a redução dos homens a meras mercadorias, o que foi eficazmente conseguido pelo sistema capitalista, que é, sem dúvida, o sistema econômico que, hoje já consolidado em todo o mundo, baseará o governo do Anticristo, como nos mostra o cenário constante de Apocalipse 18.

    OBS: E não pensem os amados que o sistema socialista, que rivalizou com o capitalista durante todo o século XX seja diferente. Como disse o jornalista e humorista Millôr Fernandes certa feita: “O contrário da exploração da mesa pela cadeira é a exploração da cadeira pela mesa. O capitalismo é a exploração do homem pelo homem e o socialismo, exatamente o contrário”.

    – Deus abençoa o homem que passa a ter comunhão com Ele, prometendo-lhe a suficiência, o necessário para a sua sobrevivência e isto faz parte da prosperidade, mas, para alcançar esta suficiência, faz-se necessário que o homem trabalhe, pois ainda estamos neste mundo, sofrendo as consequências do pecado, uma das quais é a necessidade do trabalho para a nossa sobrevivência.

    – Esta realidade é tanta que, mesmo quando o Senhor Se encarregou de providenciar o sustento do povo de Israel no deserto, nem por isso o povo israelita deixou de trabalhar. Embora o maná viesse diariamente da parte de Deus, sem que houvesse qualquer necessidade de cultivo ou produção, mesmo assim Israel tinha de se levantar, antes do nascer do sol, para fazer a colheita do maná, com exceção do dia de sábado (Ex.16:4,16,21).

     

    – Não há, pois, base bíblica alguma para qualquer ensino que diga que uma pessoa salva por Cristo Jesus estará dispensada do trabalho, que a bênção de Deus será tal que ela poderá viver completamente na ociosidade, apenas “desfrutando daquilo que Deus lhe deu”. Tudo isto é mentira, amados irmãos!

    – Se a prosperidade nos restaura o estado de comunhão com Deus que havia antes do pecado, isto nos levará, inevitavelmente, a um estado onde o trabalho é existente, não havendo, pois, lugar algum para o ócio. A ociosidade, aliás, é uma característica da sociedade de Sodoma, cuja impenitência foi tal que o Senhor a destruiu com fogo e enxofre (Ez.16:49). Lembremo-nos disto, amados irmãos!

    – Esta obrigatoriedade do trabalho envolve a todos, inclusive os que se dedicam à obra de Deus. Os que foram chamados pelo Senhor para se dedicarem, em tempo integral, a cuidar do povo de Deus também devem trabalhar, pois o cuidado no apascentar das ovelhas é um trabalho, cuja execução é muito bem verificada pelo Senhor (Ez.34:1-4). Por isso, não há problema algum em se assalariar aqueles que dedicam suas vidas no apascentar as ovelhas do Senhor Jesus, desde que realmente trabalhem (I Tm.5:18) e se contentem com o necessário, visto que também a eles não é lícito estabelecer uma vida regalada à custa da exploração dos servos do Senhor.

    – Vezes há, porém, em que as circunstâncias farão que até mesmo estes obreiros tenham de se dedicar ao trabalho secular, como foi o caso do apóstolo Paulo (II Co.11:8,9; I Ts.2:9), seja porque não há condições de a igreja mantê-los, seja para evitar murmurações e escândalos.

    III – PRINCÍPIOS DE ADMINISTRAÇÃO DO DINHEIRO

    – Havendo uma repercussão material na prosperidade, vez que estamos neste mundo, embora dele não sejamos, é natural que a Bíblia Sagrada contenha princípios a respeito da administração dos bens materiais.

    – Para que possamos entender o que a Bíblia diz a respeito da conduta do ser humano frente aos bens materiais é imperioso verificarmos a própria declaração primeira da revelação de Deus ao homem. Em Gn.1:1, a Bíblia deixa claro que Deus criou os céus e a terra, o que repete em Gn.1:31-2:3. Assim, tanto no início quanto no término do relato da criação, a Palavra não deixa qualquer dúvida de que Deus é o Senhor do Universo, ou seja, o dono de tudo.

    – Assim, não deve causar espanto a declaração do salmista (Sl.24:1), segundo a qual “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam”. Com efeito, por ter criado o mundo e tudo o que nele há, Deus é o legítimo dono de todas as coisas.

    – Se isto é assim, o homem é apenas um administrador da criação. Com efeito, ao criar o homem e a mulher, Deus concedeu a eles o domínio sobre toda a criação (Gn.1:26,28), domínio este que não representa senhorio, mas uma autoridade, uma autorização para administrar a criação terrena (observemos que no mandato dado ao ser humano por Deus não se incluem as criações celestiais. É por isso que o salmista afirma que o homem foi feito pouco menor do que os anjos – Sl.8:5).

    – Partindo deste pressuposto, não pode o homem achar-se dono de coisa alguma sobre esta terra e deveria comportar-se desta maneira, ou seja, plenamente consciente de que é apenas um administrador daquilo que Deus lhe deu. É exatamente esta a consciência do cristão, a de que é apenas um mordomo, um despenseiro de Deus ( I Co.4:1,2; Tt.1:7; I Pe.4:10).

    – Assim, se temos a capacidade, dada por Deus, de sujeitarmos à nossa vontade os bens existentes na natureza (e bem, aqui, é tudo o que pode suprir as nossas necessidades e nos trazer alguma utilidade) e isto é o princípio da propriedade (por isso o jurista alemão Windscheid conceituava propriedade como a sujeição absoluta de algo à vontade de uma pessoa), ao mesmo tempo devemos observar que a propriedade não é um fim em si mesma, mas tem a função de, por meio desta sujeição, tornarmo-nos um instrumento da vontade divina.

    – É, por isso, que a propriedade deve ser considerada como um direito natural, um direito inerente à pessoa humana, devendo ser respeitada e garantida, não tendo cabimento nem qualquer respaldo bíblico qualquer iniciativa que tenda a suprimi-la dos indivíduos, mesmo se o fizer em nome de uma suposta igualdade social (como o fizeram os comunistas marxista-leninistas no século XX), por ser algo contrário à ordem estabelecida por Deus ao gênero humano, mas, ao mesmo tempo, não se pode conceber uma propriedade que não tenha por objetivo a realização da vontade divina na humanidade. Assim, tão contrário à Bíblia como a supressão da propriedade privada é a sua exacerbação, a busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas e de posses em detrimento do próximo e da sociedade.

    OBS: “…O capitalismo, como princípio básico, sem os seus abusos, concorda com os ideais do cristianismo. O conceito de propriedade privada era uma das vigas mestras do judaísmo. Cada família contava com a sua propriedade particular, protegidas pelas leis da herança. O ideal era e continua sendo que cada homem tenha a sua própria vinha e a sua própria figueira ( I Rs.4:25; Mq.4:4). Porém, é deveras instrutivo ver como a legislação mosaica também defendia os direitos dos pobres. De acordo com o cristianismo, o conceito de propriedade privada não somente é exposto como normal, mas, igualmente, como meio de proteger o indivíduo de medidas ditatoriais do Estado…O Novo Testamento, naturalmente, combate os típicos abusos do capitalismo, como a desconsideração pelos direitos do indivíduo e a escravização dos mais pobres pelos ricos, mediante medidas econômicas….Adam Smith, que tinha um ponto de vista otimista da natureza humana, supunha que, – finalmente, surgiria do mercado livre uma espécie de harmonia automática, visto que o homem seria essencialmente bom em sua natureza, a qual controlaria os seus interesses pessoais. Mas o cristianismo ensina que isso só começa a ser curado com a conversão espiritual. Esse preceito, pois, volta-se tanto contra os abusos do capitalismo como contra o ateísmo do comunismo, sistema este que supõe que o mundo é governado por princípios econômicos, e não por princípios espirituais.” (CHAMPLIN R.N.. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, p.646).

    – Assim, ao mesmo tempo em que a Palavra de Deus garante a cada ser humano a possibilidade de sujeitar bens de acordo com a sua vontade e de deles usufruir para a satisfação de suas necessidades, também estabelece que o objetivo do homem e da mulher não deve ser o acúmulo de riquezas para si ou a sua exaltação por causa dos bens que tenha a seu dispor, mas que tudo isto seja um instrumento para que a glória de Deus se manifeste na administração destes bens que lhe forem confiados por Deus, o único e verdadeiro dono de todas as coisas.

    – Entretanto, o homem sem Deus e, consequentemente, sem uma dimensão da eternidade, tem sua vista obscurecida pelas coisas temporais e passageiras e, portanto, acaba se deixando dominar pela avareza, pelo desejo de acumulação de riquezas, que é uma insensatez total, como deixou bem claro Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21), “porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”(Lc.12:15).

    – Lamentavelmente, não são poucos os que acabam se perdendo na caminhada para o céu por causa dos bens materiais e por causa do dinheiro. A Bíblia revela que a ganância pelas coisas, que a avareza tem sido um obstáculo para muitos alcançarem a salvação, como nos casos do mancebo de qualidade (Mt.19:22; Lc.18:23), de Judas Iscariotes (Lc.22:3-6; Jo.12:4-6), de Ananias e Safira (At.5:1-5,8-10),  de Simão (At.8:18-23) e de muitos outros, como afirmou Paulo em sua carta a Timóteo (I Tm.6:9,10).

    O dinheiro não é um mal em si. Ariqueza é uma bênção de Deus, tanto que Deus a concedeu a Salomão (I Rs.3:13), mas, e aqui está um caso típico, não podemos pôr nas riquezas o nosso coração (Mt.6:19-21). Devemos, sempre, buscar servir a Deus e Lhe agradar. Esta deve ser a intenção do cristão. Se Deus nos conceder a riqueza, que nós a usemos para agradar a Deus. Se nos der a pobreza, que nós a usemos para agradar a Deus. O importante é que não façamos dos bens materiais o objetivo e a intenção de nossas vidas. Quem passa a viver em função dos bens materiais, quem passa a pôr o seu coração nos tesouros desta vida, passa a ser um avarento, um ganancioso e, como tal, será um idólatra (Cl.3:5) e, assim, está fora do reino dos céus (Ap.22:15).

    – Neste ponto, devemos, pois, contrariar ensinamentos a respeito da “opção pelos pobres”, que tem sido o mote da teologia católico-romana, principalmente após o Concílio Vaticano II, com especial ressonância na Igreja Romana da América Latina. Em momento algum, na Bíblia Sagrada, Deus manifesta Sua opção em favor dos pobres, em detrimento aos ricos. A Bíblia, aliás, expressamente, afirma que Deus fez tanto o pobre quanto o rico (Pv.22:2) e seria injusto caso preferisse um ao outro, se ambos são obra de Suas mãos.

    – Buscam os idealizadores desta “opção pelos pobres” fundamentação na passagem do mancebo de qualidade em que Jesus afirma que dificilmente um rico entrará no reino dos céus (Mt.19:212-26). Tal afirmação de Jesus é uma constatação, porquanto a existência de riquezas, diante da natureza pecaminosa do homem, faz com que o ser humano seja mais facilmente enganado pela sensação de autossuficiência, que conduz à perdição eterna, mas, em momento algum, revela que Deus tenha feito uma opção pelos pobres em detrimento dos ricos. Tanto assim é que a Bíblia está repleta de homens que gozavam de confortável situação financeira e que serviam a Deus, como são exemplos, para ficar só no ministério de Jesus, José de Arimateia, Nicodemos e as mulheres que acompanhavam o Mestre e que, diz a Bíblia, serviam-nos com suas fazendas, ou seja, com seus recursos financeiros.

    – A Bíblia nos mostra que a aquisição de bens materiais é uma necessidade para o homem depois da sua queda, pois deverá, do seu trabalho, obter o seu sustento (Gn.3:19). Deste modo, a obtenção dos meios necessários para a nossa sobrevivência deve vir do trabalho. É por isso que Paulo, numa afirmação dura, mas que é a verdade nua e crua, disse que “se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (II Ts.3:10), máxima que foi, inclusive, incorporada em várias Constituições de países comunistas no século XX, mas que traduz um princípio bíblico.

    – Portanto, a primeira fonte de aquisição de bens materiais deve ser o trabalho, devendo, pois, o cristão valorizar o trabalho e buscá-lo como forma de sustento seu e de sua família. É, aliás, este traço da ética cristã que foi objeto de estudo do sociólogo alemão Max Weber, que, em seu livro, “A Ética Protestante e o Capitalismo”, que foi considerado um dos principais livros do século XX (foi considerado a maior obra de ciências humanas daquele século), entendeu que, graças a este valor dado pelos cristãos ao trabalho, em virtude do que diz a seu respeito a Bíblia Sagrada, que foi possível o surgimento dos países desenvolvidos da Europa Ocidental (Inglaterra, França, Holanda e Alemanha, fundamentalmente) e, posteriormente, a grandeza dos Estados Unidos da América.

    – Assim, o cristão deve, sempre, dignificar o trabalho, valorizá-lo e, através dele, obter o seu sustento, levantando-se contra toda estrutura sócio-econômica que venha a desprestigiar o trabalho. Neste passo, é dever de todo cristão incentivar e estimular o aumento da oferta de emprego, bem como resistir a toda prática que vise a supressão de postos de trabalho sem a devida compensação. As políticas compensatórias, ademais, não devem ser de cunho meramente assistencialista, mas devem sempre ser tais que incentivem e estimulem a busca de novos empregos, ainda que se tenha de preparar convenientemente o desempregado.

    – Neste ponto, aliás, como a busca pelos bens materiais deve ser com vistas à satisfação de Deus e não a uma incessante corrida pelo prazer, pelo luxo e pela autossuficiência, temos que há uma clara distinção entre a ética cristã e a ética do capitalismo. O capitalismo é um sistema econômico em que se busca, sempre, o máximo lucro com o menor custo, com o aumento incessante da produção e do consumo. Dentro da lógica do capitalismo, é preciso sempre produzir cada vez mais, com o maior lucro e com a redução crescente dos custos. A ética cristã, entretanto, é bem diversa: não há que se buscar o máximo lucro, mas, bem ao contrário, deve-se buscar o suficiente para se ter uma vida digna, uma vida sossegada, mas sem a “febre do ouro” que tem dominado o mundo de hoje. Diz o sábio Agur que devemos, sempre, buscar a “porção acostumada de cada dia” (Pv.30:8,9).

    – Não se está aqui afirmando que o cristão não deve procurar uma melhoria de vida, um melhor emprego, capacitar-se para obter melhores posições, ou seja, em absoluto se nega ao servo de Deus a busca de melhores oportunidades, um progresso maior, até porque o filho de Deus não é cauda, mas cabeça (Dt.28:13), mas se está afirmando, isto sim, que não devemos colocar como alvos únicos e exclusivos de nossas vidas uma prosperidade material, como objetivo as benesses desta vida (Pv.27:24). Nunca nos esqueçamos que, se cremos em Cristo só para esta vida, seremos os mais miseráveis de todos os homens! (I Co.15:19).

    – Quando o homem tenta progredir na vida material tendo consciência de que existe uma dimensão eterna, de que é mero administrador do que Deus lhe confiou, ele jamais se comporta de forma nociva ao seu semelhante, jamais busca usar de todos os métodos, lícitos ou não, visando à acumulação de riquezas, pois tem pleno conhecimento de que nu saiu do ventre de sua mãe e de que nu terminará a sua existência (Jó 1:21; I Tm.6:7). Como dizem as Escrituras, aqueles que se envolvem na ilusão das riquezas, trazem para si somente males e problemas, já nesta vida, que dirá quando se encontrar com o reto e supremo Juiz de toda a terra (Pv.28:22; I Tm.6:9; Hb.9:27).

    – Dentro desta perspectiva, o cristão deve, consciente de que o que tem amealhado de bens materiais, é para ser um instrumento de satisfação da vontade divina, administrar o seu patrimônio de forma a obter este agrado de Deus, fazendo-o conforme a Sua Palavra.

    – Em primeiro lugar, como devemos ser imitadores de Cristo (I Co.11:1), devemos ver como Jesus administrava as suas finanças. Ao contrário do que muitos pensam, Jesus não era uma pessoa totalmente despreocupada ou alienada em relação aos bens materiais. Não era preso a eles, como o cristão não deve sê-lo também, mas jamais mostrou ser pessoa que não tivesse organizadas as suas finanças. Vemos que Jesus tinha uma bolsa, ou seja, um verdadeiro caixa para a assistência social (Jo.12:5,6), bem assim tinha um grupo de mulheres que sustentava o Seu ministério com recursos (Lc.8:3), tendo, inclusive, tido o cuidado de recolher o tributo que lhe foi cobrado (Mt.17:24-27). Jesus sempre foi uma pessoa responsável para com o que tinha de administrar, tanto que, às vésperas da morte, tratou de deixar amparada a Sua mãe, que era Sua responsabilidade, como filho primogênito (Jo.19:26,27).

    – Em segundo lugar, devemos, na organização de nossas finanças, partir de um princípio fundamental, qual seja, o de que não podemos, em hipótese alguma, gastar mais do que ganhamos. Deus nos concede a bênção da abastança, ou seja, o necessário, o suficiente para sermos um instrumento Seu neste mundo. Assim, como bons administradores, devemos ser fiéis (I Co.4:2) e isto significa sermos cumpridores de nossas obrigações para com Deus, com a família e com a sociedade. A fidelidade que se exige do servo de Deus também alcança o aspecto financeiro e, num mundo materialista como o que vivemos, esta fidelidade é a que mais fará realçar o nome do Senhor entre os incrédulos. Nunca nos esqueçamos de que os homens devem nos considerar ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus (I Co.4:1) e ver as nossas obras e, ao vê-las, glorificar ao nome do nosso Pai (Mt.5:16) e, repetimos, isto passa necessariamente pelo aspecto financeiro de nossas vidas.

     

    – A fidelidade começa em reconhecermos a soberania de Deus em nossas vidas. Como já temos dito, o verdadeiro cristão reconhece que é apenas um mordomo dos bens divinos que lhe foram confiados e, deste modo, tem noção e consciência de que Deus é o dono de tudo que temos e de tudo que somos. Este reconhecimento se dá, na prática da vida financeira, mediante a entrega do dízimo. O dízimo é o primeiro gesto de administração de bens de um cristão fiel. É um ato pelo qual se reconhece que Deus é o Senhor, como foi  estudado na lição 9.

    A segunda atitude de um cristão fiel nas finanças, após a entrega do dízimo ao Senhor, é a separação do necessário para o sustento e educação de seus filhos. Com efeito, os filhos são herança do Senhor (Sl.127:3) e os pais têm uma grande responsabilidade em relação a eles, que não vieram ao mundo senão por nossa causa. Devemos ter o mesmo cuidado que o servo exemplar que era Jó tinha com relação a seus filhos (Jó 1:4,5). Isto inclui, inclusive, aqueles servos de Deus que, por um motivo ou outro, têm de pagar pensões alimentícias a filhos com quem não convivem. Trata-se de despesa prioritária e que, depois do dízimo, deve ser imediatamente cumprida pelo cristão fiel.

     

    A terceira atitude de um cristão fiel nas finanças é o pagamento de suas obrigações. O cristão fiel é santo e diferente do mundo. Os ímpios se caracterizam, diz a Bíblia, por serem infiéis nos contratos (Rm.1:31). Por isso, deve o cristão ser muito cauteloso ao contrair obrigações, fugindo do consumismo que tem dominado as consciências dos homens sem Deus. Graças a uma eficaz publicidade e a pregação da busca de bens materiais a qualquer custo, as pessoas ingressam numa corrida pelo consumo sem medir as consequências. O resultado é o endividamento sem medida, a inserção das pessoas nos diversos órgãos de restrição ao crédito (SPC, SERASA etc.), o que faz com que as pessoas sejam aviltadas em sua dignidade e, não poucas vezes, levadas a situações angustiantes. Lamentavelmente, muitos cristãos têm se deixado levar por esta “febre consumista” e já não são poucos os crentes que têm seus “nomes sujos” na praça e que são tratados como “caloteiros”, envergonhando o Evangelho e dando motivo para que o nome do Senhor seja blasfemado. Tudo como consequência de uma má administração dos bens. Devemos ter todo o cuidado na montagem do orçamento doméstico, para assumir apenas obrigações que possamos cumprir. Devemos fugir das compras a prazo, salvo nos casos de extrema necessidade como habitação, porquanto os juros (notadamente no Brasil, que é o paraíso dos juros altos) evoluem de forma muito maior que os salários e o endividamento se tornará, certamente, impagável. Neste particular, o papel da mulher no lar é fundamental (Pv.31:11).

    OBS: “…A atitude consumista não leva em conta toda a verdade sobre o homem: nem a verdade histórica nem a verdade interior e metafísica. Antes, é uma fuga dessa verdade. Deus criou o homem para a felicidade. Sim ! Mas a felicidade do homem não é a mesma coisa que o prazer ! O homem de orientação ‘consumística’ perde, nesse gozo do prazer, a dimensão plena de sua humanidade, perde a consciência do sentido mais profundo da vida. Essa orientação do progresso mata, portanto, no homem, aquilo que é mais profunda e mais essencialmente humano…” (JOÃO PAULO II. Meditações, p.125).

    – Se o cristão for empresário, dentre as suas obrigações, a primeira a ser cumprida é o pagamento do salário de seus empregados, obrigação que não pode atrasar sequer um dia, pois isto fará com que Deus requererá esta atitude do empregador (Tg.5:1-5).

    OBS: ” Tiago critica agora os proprietários que se enriquecem à custa dos trabalhadores. Visando unicamente ao lucro, esses latifundiários cometem graves injustiças sociais: retenção do salário devido aos operários (cf. Dt.24,14); acumulação de riquezas que não revertem para o bem comum, mas servem unicamente para uma vida regalada e luxuosa; opressão jurídica e condenações conseguidas graças ao suborno contra os pobres inocentes que não têm meios de defesa. Fruto do roubo e da injustiça, o tesouro amontoado pelos ricos será testemunho que os condenará na hora do julgamento.” (BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral, Tg.5:1,6, p.1565-6)

    – Ensina Salomão, o homem mais sábio que já existiu, que o homem não deve ser fiador de pessoa alguma. Trata-se de uma obrigação que o cristão não deve assumir e muito menos a igreja local exigir de seus membros (Pv.6:1-5, 11:15). Hoje já muitas outras formas de se garantir dívidas, de modo que não se trata de questão de vida ou de morte a constituição de fiança por parte de alguém.

    OBS: ” Este versículo (Pv.6:1, observação nossa) é uma advertência para que ninguém seja ‘fiador’ de um amigo (cf. 11.15; 17.18; 22.26). Ser fiador significa aceitar a responsabilidade pela dívida doutra pessoa, se esta deixa de pagá-la. Esse ato torna a situação financeira do co-signatário dependente dos atos do amigo e fica sujeita a fatos que escapam ao seu controle. Pode levar à pobreza (cf.22.26,27) e à perda de amizades vitalícias. Isso não significa, porém, que devemos recusar-nos a ajudar alguém que esteja realmente sofrendo, sem meios para atender às necessidades básicas da vida (Ex.22.14; Lv.25.35; Mt.5.42). Quanto aos pobres, não devemos emprestar e sim dar-lhes (cf. Mt.14.21; Mc.10.21..)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. com. Pv.6.1, p.935-6).

    O cristão, também, deve pagar os tributos, pois devemos dar ao governo que lhe é devido (Mt.22:17-21; Rm.13:7). Sabemos que o sistema tributário do Brasil é um dos mais injustos, senão o mais injusto, do mundo, mas isto não nos autoriza a sonegarmos tributos, porquanto, como filhos de Deus, estamos sujeitos à ordenação humana e devemos cumprir com as obrigações tributárias (Mt.17:24-27; I Pe.2:13). Nada impede, entretanto, o cristão de participar de movimentos ordeiros e legais que visem a uma maior justiça tributária. Aliás, o cristão sincero e verdadeiro deve sempre lutar pelo que é justo (Fp.4:8).

    A quarta atitude de um cristão fiel nas finanças é o suprimento das necessidades de seu lar. Necessidade é o que é preciso. É o suprimento do que, realmente, faz-se preciso para uma vida digna, como alimentação, habitação, despesas com tributos, preços públicos, transportes, saúde, educação e previdência social. Devemos, repetimos, fugir daquilo que não é necessário, do supérfluo e do dispensável. Na aquisição de bens, o cristão deve ser econômico, pesquisar e pechinchar preços, tendo, aqui, mais uma vez, papel fundamental a mulher no lar (Pv.31:13,14,18). Neste ponto, vemos que o cristão deve ser previdente e sempre ter uma poupança para os dias de adversidade (Pv.31:21).

    A quinta atitude de um cristão fiel nas finanças é a voluntariedade e a disposição em ajudar os necessitados, compartilhando com eles o seu pão, pois é este o objetivo divino quando nos dá além do necessário para nossa subsistência (II Co.8:14; Ef.4:28).

    – O cristão deve ser generoso, usando parte de sua economia para sustentar o necessitado. Neste particular, interessante o pensamento de um pastor que, recentemente, nos fez ver que o maior pecado de um cristão que se comporte como um consumista e que gaste com bens supérfluos está em desperdiçar recursos que, como não lhe está fazendo falta no suprimento das necessidades essenciais, poderia ser direcionada para a ajuda aos mais necessitados.

    – Como dissemos, Jesus tinha uma caixa de assistência durante o Seu ministério e cada cristão deve contribuir para a ajuda aos domésticos da fé e aos demais seres humanos. É de uma administração cautelosa que surgirão os recursos que poderão mitigar as dificuldades dos mais necessitados. Neste contexto, também, estão as ofertas alçadas que se devem dar nas igrejas, bem assim as contribuições específicas para determinadas obras na casa do Senhor e para a obra missionária. Seria muito bom que, na administração de seus bens, o cristão pudesse dedicar sempre uma parcela fixa de seu rendimento para esta parte. Lembremo-nos de que vivemos no país de maior desigualdade social do mundo e que, como cristãos, devemos demonstrar o amor de Deus que há em nossos corações.

    – Atendendo a estes princípios bíblicos da administração do dinheiro, manteremos aquilo que Deus nos tem dado e o usaremos para a glória do Senhor. O ex-chefe da Igreja Romana, João Paulo II, costumava dizer que os “dons” de Deus tornavam-se “empenhos”, ou seja, em interesse, em grande disposição para a concretização, a realização de algo. Assim, uma vez tendo recebido de Deus bens materiais, devemos ter a disposição de empregá-los para a glória do nome do Senhor e não para nosso deleite, para o nosso prazer. Assim agindo, alcançaremos, em todas as áreas, a prosperidade que nos é prometida pelo Senhor.

    Ev. Profº Dr. Caramuru Afonso Francisco

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  • Lição 13 – Revista Betel – Jacó Profetiza o futuro das tribos de Israel

    Fone: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “Depois, chamou Jacó a seus filhos e disse: Ajuntai-vos, e anunciar-vos-ei o que vos há de acontecer nos derradeiros dias”. Gn 49.1

    Verdade Aplicada

    Como Povo de Deus neste mundo, devemos nos ocupar com o futuro, mas nunca nos preocupar com ele.

    Objetivos da Lição

    ?      Ensinar que o Senhor tem um futuro glorioso para o seu povo;

    ?      Mostrar que a Palavra do Se­nhor se cumpre; e

    ?      Apresentar o glorioso cami­nho do Senhor.

    Textos de Referência

    Gn 49.3 Rúben, tu és meu primogênito, minha força e o princípio de meu vigor, o mais excelente em alteza e o mais excelente em poder.

    Gn 49.8 Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de seus inimi­gos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão.

    Gn 49.19 Quanto a Gade, uma tropa o acometerá; mas ele a acometerá por fim.

    Gn 49.20 De Aser, o seu pão será abundante e ele dará de­lícias reais.

    Gn 49.22 José é um ramo frutífero, junto à fonte; seus ramos correm sobre o muro.

    Gn 49.27 Benjamim é lobo que despedaça; pela manhã, comerá a presa e, à tarde, re­partirá o despojo.

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

    Jacó Abençoa Seus Filhos e Morre (49.1-33)

    Os críticos supõem que o poema se tenha originado de certo número de oráculos originais e independentes que pertenceri­am às tribos (de um período posterior), os quais um redator teria coligido, transfor­mando-os em bênção de Jacó para seus filhos. Os eruditos conservadores, toda­via, rejeitam essa fragmentação, como também a ideia de que se trata de uma compreensão tardia, e não de uma previsão.

    A bênção foi dada mediante discernimento profético e iluminação divina, prevendo, em lances bem amplos, a história de cada tribo de Israel, dali por diante. O Pacto Abraâmico (ver Gn 15.18) garantiria o sucesso de cada tribo como uma unidade formadora de Israel, porquanto essa nação deveria desenvolver-se de acordo com o plano divino. Israel tornar-se-ia o agente por meio do qual Deus daria sua mensagem que beneficiaria todas as nações. O Messias levaria essa mensagem à sua plena fruição, tornando-a eficaz para todos os povos (ver Gl 3.14).

     

    49.1,2 Começo do Oráculo. A natureza inerente e a vida de cada patriarca seria o fator determinante de como cada tribo (descendente dele) desenvolver-se-ia. Nesse conceito temos uma espécie de genética espiritual, e não somente de genética física. Além disso, por trás de tal desenvolvimento havia o propósito divino, que se manifesta mediante a Sua providência. Destinos os mais variegados seriam concretiza­dos em consonância com as qualidades morais, como também de acordo com as qualidades espirituais. Este capítulo lança um rápido vislumbre das opera­ções de Deus no tocante a Israel, A fidelidade seria um fator importante. Have­ria muitas debilidades e falhas, mas a vontade de Deus acabaria por triunfar, finalmente; de outra sorte, o Pacto Abraâmico redundaria em fracasso.

     

    Nos dias vindouros. O poema em seguida é apresentado como uma profecia. John Gill diz que “os dias vindouros significam dali por diante, até a vinda do Messias, o qual figura na profecia”. Vemos aqui uma espécie de galeria de tipos humanos, bons e maus, e também indiferentes; mas o propósito divino atuaria através de todos os elementos, cumprindo um propósito. Deus usa o livre-arbítrio humano, mas sem destruí-lo, embora não saibamos dizer como isso pode acontecer.

     

    O Poder das Palavras de um Homem Moribundo. Os hebreus acreditavam que as palavras de um homem moribundo revestiam-se de poder todo especial. E isso seria tanto mais verdade no caso de um dos patriarcas de Israel.

     

    49.3 Rúben. Ele era o filho primogênito de Jacó. Mas por haver violentado Bila, concubina de seu pai, perdeu aquele direito, o qual foi transferido para Efraim (conforme alguns pensam) ou para Judá (de acordo com outros). Como primogênito e devido a qualidades inerentes, ele tinha vários pontos excelentes. Mas perdeu essa posição por seu momento de desvario no tocante a Bila. O território da tribo de Rúben ficava a leste do mar Morto. Essa era uma das tribos liderantes; mas ainda no começo de sua história os rubenitas foram engolfados pelos moabitas (Jz 5.15,16; Dt 33.6). E foi assim que, finalmente, como tribo, Rúben não seria “o mais excelente” (vs. 4).

     

    Excelências. “. . .dignidade, poder, autoridade na família, proeminência sobre seus irmãos, uma dupla porção dos bens, sucessão no governo, e, conforme é comumente entendido em todos os Targuns, o exercício do sacerdócio” (John Gill, in loc.). Se (vs. 4) ele não tivesse pecado como pecou, teria obtido essas excelências.

     

    “É um claro fato histórico que nenhum rei, juiz ou profeta, até onde ficou registrado, teve origem na tribo de Rúben” (Ellicott, in loc.).

     

    49.4 Impetuoso como a água. Destarte, ele não se mostraria excelente, a des­peito de todas as suas vantagens. Não deveríamos olvidar seus atos de miseri­córdia, quando ele tentou impedir seus irmãos que queriam prejudicar José (Gn 37.22,29). Ele era forte quanto à misericórdia e ao amor, e esse ponto não deve ser deduzido dele. Mas era homem moralmente fraco e permitia que suas paixões o dominassem, a ponto de haver atacado sexualmente Bila (Gn 35.22). Digo aqui atacado, porque não é provável que Bila, concubina de Jacó por muitos anos, tenha consentido o ato. Seu ato desvairado custou caríssimo a Rúben. Sua tribo herdou sua fraqueza moral e instabilidade.

     

    José, nas pessoas de Efraim e Manassés, ao que tudo indica, recebeu a dupla porção do direito de primogenitura, de tal maneira que o ato de abençoar veio a ser ligado à menção aos dois filhos de José.

     

    49.5 Simeão e Levi. Havia a tribo de Levi, que era a décima terceira tribo. No entanto, os levitas perderam sua condição oficial de tribo, quando lhes foi vedado ter um território, a fim de que pudessem tornar-se a tribo sacerdotal. Ver Nm 1.47 ss. José não teve uma tribo com seu nome, mas teve duas tribos, uma em nome de Efraim, e outra em nome de Manassés, ambos seus filhos. Por conseguinte, dos doze filhos de Jacó, dez deles produziram tribos oficiais. A essas foram adicionadas as tribos de Efraim e Manassés, aos quais Jacó adotara como seus próprios filhos. Isso completou o número de doze tribos.

     

    “Simeão e Levi aparecem aqui juntos por terem liderado o ataque contra os siquemitas com armas de violência (Gn 34.25-30). Levi, que antes formava uma tribo, acabou tornando-se uma classe sacerdotal (Êx 32.26-29; Dt 10.8,9). Simeão, com a passagem do tempo, foi absorvido pela tribo de Judá” (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    Jacó Condenou a Violência. No decurso de sua vida inteira, Jacó envolveu-se somente em uma aventura militar (Gn 48.22); e isso por pura necessidade. Observemos que três versículos foram dedicados a essa questão. Jacó falou com veemência contra a violência. A violência produziu efeitos negativos a longo prazo entre as tribos que descendiam daqueles homens violentos.

     

    49.6 Poeticamente, o patriarca continuou vergastando as atitudes violentas. Ele invoca sua própria alma, sua vida interior e as suas intenções, a nada terem que ver com os conselhos secretos vis dos violentos. Sua honra não deveria ser maculada mediante a união com os tais; mediante o contato com as matanças e atos destrutivos de tais pessoas. Por inspiração, o texto nos fornece um juízo moral, do ponto de vista divino, contra os atos violentos de Simeão e Levi. Ambas as tribos deles descendentes posteriormente foram dispersas. Simeão desintegrou-se, e suas terras foram engolfadas pela tribo de Judá e a própria tribo foi absorvida (Js 19.1,9). No entanto, visto que a tribo de Levi tornou-se a tribo sacerdotal, acabou ficando com uma parte melhor (Js 21).

     

    No seu conselho. No hebraico temos o termo sod, “tapetezinho”, ou seja, o colchão fino dos orientais. Duas pessoas que se sentassem em tal colchão estariam em comunhão íntima, em liga, por assim dizer. Jacó não queria participar da liga violenta deles.

     

    Mataram homens. Traiçoeiramente, eles mataram muitos, quando estes não podiam defender-se — um ato insensato e repelente.

     

    Jarretaram touros. Simeão e Levi não somente destruíram vidas humanas, mas também aleijaram animais e destroçaram coisas, em seu furor descontrolado. Alguns pensam que o autor sagrado falava aqui metaforicamente, indicando Siquém, a quem teriam torturado e matado sem nenhum sinal de misericórdia.

     

    Algumas versões dizem aqui “escavaram uma parede”. Isso se deve a uma confusão entre as palavras hebraicas shor, “boi,” e shur, “parede”. Se a menção é mesmo a uma parede, então devemos pensar não na muralha da cidade de Siquém, o que seria um feito demasiado para dois homens, e, sim, em alguma parede da casa de Hamor, pai de Siquém. O episódio que causou tantos crimes está registrado no capítulo trinta e quatro do Gênesis.

     

    49.7 Furor… ira. O furor deles era “forte”, e a ira deles era “dura”. Ambas as atitudes negativas mereciam uma maldição.

     

    Esta passagem “… parece atribuir o quase completo desaparecimento das tribos que tinham os seus nomes ligados a uma guerra fratricida entre eles. Simeão, em tempos históricos, tornou-se apenas um clã dentro da tribo de Judá… e da tribo de Levi restou somente o sacerdócio” (Cuthbert A. Simpson, in loc.).

     

    Jacó estava com a razão, pois, quando, em sua indignação, declarou: “Vós me afligistes e me fizestes odioso entre os moradores desta terra…” (Gn 34.30).

     

    “Em qualquer nação, quando os homens se alcoolizam com o poder e deixam à solta a violência, pode repetir-se o pecado mortal de Simeão e Levi, o qual deve ser denunciado e, se não houver arrependimento, leva fatalmente à condenação’ (Walter Russell Bowie, in loc.).

     

    Eles tinham tratado o próprio irmão deles, José, da mesma maneira sem dó (Gn 42.21).

     

    Dividi-los-ei… e os espalharei. Haveriam de receber o mesmo tratamento que tinham dado a outros. “No deserto, os simeonitas diminuíram de cinquenta e nove mil e trezentos para vinte e dois mil (Gn 26.14). E após a conquista da terra de Canaã eles estavam tão débeis que apenas quinze cidades lhes foram alocadas, e mesmo assim elas estavam dispersas dentro do território de Judá. E foi assim que acabaram mesclando-se e foram absorvidos, embora alguns se tenham retirado, tornando-se nômades no deserto de Parã. No caso de Levi, entretanto, a maldição foi transformada em uma bênção, em face da fidelida­de da tribo em uma ocasião muito testadora (Êx 37.26-28)” (Ellicott, in loc.).

     

    “Levi não recebeu herança, exceto quarenta e oito cidades espalhadas por diferentes partes da terra de Canaã” (Adam Clarke, in loc). Estritamente falando, Levi deixou de ser uma tribo quando se tornou uma classe sacerdotal. Ver Gn 49.5.

     

    49.8 A Exaltação de Judá. A tribo de Judá obteria vitórias sobre inimigos externos e internos, e exerceria poder sobre as demais tribos. Foi exatamente o que suce­deu nos dias de Davi. Salomão deu início a um período de paz, tendo vencido guerras com forças estrangeiras, e a capital da nação continuou sendo Jerusalém (desde os dias de seu pai, Davi). Os críticos supõem que as informações dadas neste versículo nos ajudem a datar a escrita do livro de Gênesis, ou seja, após a época de Davi. Mas os eruditos conservadores entendem que temos aqui uma profecia sobre a liderança da tribo de Judá.

     

    … te louvarão. Portanto, temos aqui um jogo de palavras com o nome de Judá, que significa louvor. “Louvor será louvado.” Ver Js 14.11; 15.1; Jz 1.1,2 quanto a vitórias militares decisivas dessa tribo. Ver também Sl 18.40. O leão era o emblema da tribo de Judá. Ver Nm 2.3; Ez 1.10. Davi obteve notáveis vitórias. Ele era da tribo de Judá. Ver I Cr 14.16. O Messias é o Leão da tribo de Judá (Ap 5.5).

     

    … se inclinarão a ti. Judá produziu certo número de reis, obtendo assim a posição suprema e sendo reverenciado pelas outras tribos. O Rei Messias culmi­nou a linhagem em sua glória máxima. As maiores bênçãos foram reservadas para Judá e para José. Essas tribos descendiam dos grandes patriarcas, e a história encarregou-se de exibir suas qualidades. José foi um dos grandes heróis de Israel; e não menos heroico foi Davi, da linhagem de Judá. Grande é aquela nação cujos heróis são realmente grandes homens, não meramente em seus feitos militares, mas também em justiça e na espiritualidade.

     

    A excelência que deveria caber a Rúben terminou sendo de Judá.

     

    Judá é a única tribo que se tem projetado até os tempos modernos. As tribos do norte, Israel, perderam-se para sempre por ocasião do cativeiro assírio. Devem ter ficado apenas alguns remanescentes daquelas tribos no reino do sul, Judá. Terminado o cativeiro babilônico, foi um remanescente de Judá (com traços de outras tribos, mormente Benjamim e Levi) que repovoou a Terra Santa. Em consequência, essa tribo vem atravessando os séculos do longo cativeiro romano, que começou em 132 D. C. E foram descendentes desse cativeiro que estabele­ceram o moderno sionismo (fins do século XIX), que redundou na formação do estado de Israel (em maio de 1948).

     

    No Apocalipse, temos previsão de uma reorganização futura das tribos de Israel, durante o período da Tribulação, estendendo-se pelo milênio adentro. Ver Ap 7.1-8. Interessante é observar que ali a tribo de Efraim é chamada “José” (a tribo de Manassés é uma tribo distinta da tribo de José), a tribo de Levi torna-se uma tribo com todos os direitos, e a tribo de Dã não é mencionada. Nessa reorganização, a tribo de Judá ocupa o primeiro lugar.

     

    49.9 Judá é leãozinho. Nessa metáfora achamos uma ilustração do vigor juvenil e do poder dessa tribo. O leão cresce alimentando-se de presas, sendo o rei das savanas, motivo pelo qual os outros animais se lhe sujeitam.

     

    Deita-se como leão, e como leoa. É a leoa que caça, por ser mais lépida, embora o leão é que fique com “a parte do leão”. O leão é um animal muito feroz, e ninguém ousa despertá-lo ou agitá-lo, por causa de sua força e ferocidade. A fim de proteger seus filhotes, a leoa recebeu uma natureza ainda mais irritável que o macho da espécie, pelo que é mais fácil despertar-lhe a violência. O leão é o rei dos animais, e isso ajusta-se bem como ilustração de Judá em sua excelên­cia e predomínio sobre outras criaturas. No Apocalipse, temos um dos títulos do Messias, “o leão da tribo de Judá” (Ap 5.5). Isso Lhe garante vitória sobre todos os inimigos, como protetor dos justos. Comparar essas duas últimas linhas com Nm 24.9, um trecho quase idêntico, provavelmente uma citação de outro poe­ma.

     

    Os filhos de Jacó usavam um sinete pendurado ao pescoço. Cada sinete tinha seu emblema (ver Gn 38.18), e podemos supor que o emblema da tribo de Judá era o leão. A comparação de Judá com o leão pode ter sido sugerida por essa circunstância.

     

    49.10 O cetro. Ou seja, o cajado do dirigente (Nm 24.17), símbolo de autoridade tribal e real. Tratava-se de um cajado adornado com entalhes e transferido de pai para filho. Ver sobre Gn 38.18, sobre o cajado de Judá. A princípio, esse emblema apontava para organização tribal e autoridade, e, então, veio a indicar domínio nacional. Muitos reis surgiram dentre a tribo de Judá, começando por Davi, e chegando até o Messias, o Rei eterno.

     

    Até que venha Siló. Os intérpretes não concordam quanto ao sentido da palavra Siló, nem quanto ao seu emprego neste ponto. Mas todos pensam que temos aqui uma antiga predição e expectação messiânica; porém não se sabe em qual sentido exato devemos entender essa predição. Siló era nome de uma cida­de da tribo de Efraim, e não da tribo de Judá, assim o texto não pode indicar que o poder permaneceria com Judá até que o Messias chegasse à cidade de Siló. Aqui um breve sumário dessas ideias:

     

    1.      Não está em foco a cidade de Siló, em Efraim.

    2.      Talvez devamos entender Siló como um substantivo próprio, um título do Messias. Esse título significa “pacífico” ou “pacificador”. Se essa é a verdadei­ra interpretação, então temos aqui o Messias como o Príncipe da Paz (Is 9.6).

    3.      Ou o termo pode ser entendido como um adjetivo, ligado ao substantivo “ce­tro”. Ou seja, temos aqui a frase “o cetro, a quem pertence”. Nesse caso, o sentido seria que o cetro não se apartaria de Judá até que fosse dado, tornan­do-se possessão daquele que deveria vir, e a quem realmente pertence. Isso significa que o poder real persistiria em Judá até que viesse o Messias, a quem realmente pertencia a autoridade. Se essa é a interpretação correta, então o versículo é um paralelo de Ezequiel 21.26, onde virtualmente a mes­ma expressão refere-se à coroa. Cf. Is 11.1-9.

    4.      Ou, então, devemos entender como “até Siló”, embora essa fosse uma locali­dade de Efraim, o que significaria que o domínio do Messias ampliar-se-ia a todas as tribos e lugares. Siló foi um centro de fé religiosa em Israel. O Messias substituiria todas as formas religiosas, unificando-as.

     

    Todos concordam que temos aqui uma declaração messiânica (e os críticos dizem que foi adicionada ao texto em algum tempo posterior, quando essa expectação se tornara comum). Mas de que maneira e com qual sentido exato, não podemos estar certos.

     

    49.11 Fertilidade e Abundância. Isso deveria caracterizar a carreira do Messias, do que a vinha e a uva são símbolos. O suco da uva seria tão abundante que Suas vestes seriam lavadas nele. Um viajor, que estivesse chegando, cansado e sujo, poderia amarrar seu jumento a uma videira a fim de lavar suas vestes sujas no suco da uva, tão abundante ele seria. Grande prosperidade, pois, foi prometida a Judá, culminando no bem-estar que o Messias traria.

    Sangue de uvas. Devemos entender aqui “sangue” como o suco da uva, pois no Oriente a uva vermelha é mais apreciada do que a uva branca. Portanto, essa abundância seria acompanhada por classe, estilo, excelência. “Certas regi­ões do território de Judá eram famosas por seus vinhos primorosos, especialmen­te Engedi (ver Ct 1.14).” Os intérpretes cristãos pensam que a “jumenta” é aqui um símbolo dos povos gentílicos. Nesse caso, está em foco a missão universal de Cristo. Ele estenderia Sua prosperidade a todos os povos; e o próprio Novo Testamento serve de ilustração disso. Seja como for, a maior parte dos Targuns e os antigos intérpretes judeus viam este versículo por um prisma messiânico. Ver Is 53.1; Ap 19.16; Eclesiástico 39.31 e 50.16.

     

    49.12 Não devemos pensar aqui em intoxicação alcoólica, e, sim, em abundância, uma metáfora um tanto desajeitada. Os olhos dos membros da tribo de Judá seriam avermelhados de vinho: abundância, mas enfatizada de uma forma dife­rente, a mensagem do versículo anterior. Por igual modo, o outro alimento básico, o leite, também seria abundante, de tal modo que os dentes dos judaítas seriam brancos de tanto tomarem leite. A Vulgata diz “brilhante” em vez de vermelho, e isso é uma interpretação, ou mesmo uma tradução direta. Alguns estudiosos pensam que a interpretação verdadeira é a seguinte: “Seus olhos serão mais resplendentes do que o vinho; seus dentes mais brancos do que o leite”. Tal opulência é predita no que concerne ao milênio (Is 61.6,7; 65.21-25; Zc 3.10). Todavia, alguns pensam que esse versículo não chega a envolver o milênio em seu alcance. De qualquer modo, as bênçãos em Cristo são riquíssimas, e essas bênçãos vêm através de Judá a Sua tribo.

     

    49.13 Zebulom. Essa tribo merece apenas um versículo, ao contrário de Judá e José (vss. 22 ss.). Zebulom ocuparia uma posição geográfica favorável, com acesso ao mar Mediterrâneo, o que lhe produziria riquezas. Sua expansão levaria a tribo às fronteiras com Aser (ver o vs. 20).

     

    Sidom. Ver sobre esse lugar, em Gn 10.15. “Zebulom e Issacar… sugariam a abundância dos mares” (Ellicott, in loc.). Sidom, um porto marítimo, daria acesso à abundância.

     

    49.14 Issacar. Essa tribo mereceu uma profecia breve e não muito lisonjeira. Como um jumento forte, ela seria forçada a carregar duas cargas (uma de cada lado), o que significa que seria sujeitada a trabalho forçado em favor de outros, uma virtual tribo escravizada. Os críticos veem nessas declarações certo escárnio, alusivo à submissão confortável de Issacar ao domínio estrangeiro, ao preço de sua liber­dade pessoal. Essa tribo, por grande parte de sua história, mostrou-se subservi­ente aos cananeus. “Seu verdadeiro caráter era preguiçoso, inativo e lugar-co­mum, e Jacó comparou-a a um jumento forte. Os homens da tribo serviriam apenas de burro de carga, como se fossem um cavalo de puxar carroça, atado a duas cargas” (Ellicott, in loc.). Não havia altos ideais nem luta pela excelência em Issacar.

     

    49.15 O Repouso Era Bom e a Terra Era Deliciosa. Assim, deleitosamente, Issacar continuaria vivendo sem tensões, desfrutando uma vida amena, em­bora laboriosa, sem nenhuma grande crise, sem ter de tomar decisões, sem ter de lutar. O quadro pintado pelo autor é o de um povo situado em uma rica região agrícola, de produção abundante, mas trabalhando para outros, verga­do sob o trabalho, a fim de poder manter uma vida geralmente próspera e amena.

     

    Essa tribo possuía o vale de Esdrelom (Jezreel), bem como os frutíferos montes de Gilboa, um lugar fértil, embora sujeito a invasões por parte de potên­cias estrangeiras.

     

    Tributos. Essa tribo teria de pagar um preço para poder manter sua vida confortável.

     

    49.16 . Dã haveria de tornar-se uma tribo auto-suficiente, dotada de autodeterminação, que julgaria causas entre seu povo. Há nisso um jogo de palavras, pois a palavra hebraica para significa “julgamento”. Alguns estudiosos veem aqui alguma alusão a Sansão (Jz 13.2; 15.20), o qual julgou o povo de Israel por vinte anos. Nesse caso, Dã é aqui visto como quem julgaria a nação inteira, por algum tempo.

     

    49.17 Embora possuidora da capacidade de autogovernar-se e até mesmo de julgar e prover justiça para toda a nação de Israel, Dã haveria de escolher métodos traiçoeiros, conforme faz uma serpente à beira do caminho, que, sem dó, pica as patas do pobre cavalo que por ali passa. Nos dias dos juízes, Dã foi a primeira tribo a aceitar a idolatria (Jz 18.30). Dã era uma tribo que atraiçoava a justiça, esquecida do Juiz de todos. Alguns eruditos pensam que a alusão aqui é à esperteza nas táticas de guerra, que Dã haveria de usar. Talvez haja uma referência a Cerastes, uma serpente difícil de divisar, por causa de seu colorido. Diodoro Sículo (Bibhothec. 1.3 par. 183) dizia que essa serpente tinha uma picada mortífera. Ver o capítulo dezoito do livro de Juízes. “Fica entendido que essa tribo faria a maior parte de suas conquistas mediante a astúcia e o estratagema, e não por seu valor próprio” (Adam Clarke, in ioc.). Ver também Jz 16.26-30 quanto a esse aspecto do caráter da tribo.

     

    49.18 Esta excelente declaração consiste em uma ejaculação incorporada de súbito no texto (os críticos dizem que se trata de uma “glosa ejaculatória” posterior). Os intérpretes têm procurado encontrar sua conexão com os versículos anteriores e posteriores. Mas parece que temos aqui um suspiro de Jacó, uma espécie de gemido interior. Entre suas predições atinentes a seus filhos, algumas eram boas e outras eram más; algumas delas encorajavam, e outras desencorajavam. E então, de repente, seu espírito elevou-se ao Senhor, fonte originária de tudo quanto é bom (Tg 1.17). É como se ele tivesse dito: “Abençoa-nos, Senhor, em meio a todas essas vicissitudes da vida, a fim de que meu filho amado possa resistir a tudo por quanto terá de passar. Dá-nos a Tua salvação, a Tua graça, acima de todas essas dificuldades”. Jacó convocou a si mesmo e a seus filhos para reconhecerem sua dependência ao Senhor, que haveria de livrá-los de todos os seus apertos e de assegurar-lhes bem-estar. Alguns eruditos pensam aqui na esperança messiânica, que faria a história de Israel atingir seu ponto culminante, a redenção segundo os termos de Ana (Lc 2.38).

     

    A víbora que pica subitamente (vs. 17) talvez tenha feito a mente de Jacó volver-se para o Senhor. Estamos cercados de males por toda parte, e carecemos da proteção e da orientação divina. Oh, Senhor, concede-nos tal graça! Satanás está sempre pronto para morder o calcanhar (Gn 3.15), mas o Senhor está sempre presente para esmagar a cabeça da serpente.

     

    49.19 Gade. Uma única frase é dada a respeito dessa tribo: finalmente, haverá a vitória! Mas antes, seria acometida por guerrilheiros. Essa sequência de aconte­cimentos é importante para todos os homens, e tão comum na experiência humana. “Uma alusão aos ataques frequentes vindos do deserto, contra a re­gião de Gileade, a leste do rio Jordão, onde se estabeleceu a tribo de Gade” (Cuthbert A. Simpson, in ioc.). Aqui também há um jogo de palavras, porquanto, no hebraico, Gade significa “fortuna”, “sorte”. Embora cercados por tropas hos­tis, os gaditas teriam a boa sorte de, finalmente, as vencerem. Ver Js 1.12-18; 4.12,13; 22.1-4, quanto às vicissitudes enfrentadas por essa tribo. Ver também Jz 10.7,8; cap. 11 e Jr 49.1.

     

    Venceriam, Afinal. “Os gaditas, juntamente com os rubenitas e a meia-tribo de Manassés, venceram os hagarenos e os árabes… e habitaram nos territórios antes ocupados por aqueles. E assim foi, até o cativeiro das dez tribos do norte (I Cr 5.18 ss.)” (John Gill, in Ioc.).

     

    49.20 Aser. Pão será abundante. . . delícias reais. Devemos pensar aqui em grande abundância, soprando para todos quantos tivessem necessidade, além de finos acepipes. O território que coube à tribo de Aser, ao norte do monte Carmelo, era um lugar extraordinariamente fértil. Ver Dt 33.24. Essas terras eram uma faixa costei­ra entre o monte Carmelo e a Fenícia, uma região que produzia muito alimento e delicias reais. O vale de Aser era chamado de ‘Vale da gordura”. Começava a cerca de oito quilômetros de Ptolemaida e chegava ao mar da Galiléia, em uma extensão de cerca de dezesseis quilômetros. Alimentos próprios para reis eram ali produzi­dos. O rei Salomão contava com intendentes que iam até ali em busca de provisões de boca (I Rs 4.16). E alguns estudiosos veem aqui uma referência histórica direta àquele fato, e não uma previsão sobre ele. Um dos sentidos possíveis do nome Aser é feliz ou abençoado, o que subentende sua posterior abundância de víveres.

     

    49.21 Naftali. Gazela solta. Liberdade e fertilidade são as ideias destacadas aqui. “Pala­vras formosas”, de acordo com certas traduções, aparece como “gazelas formo­sas”. Talvez a referência seja ao terebinto, cujo topo é belo e verdejante (confor­me diz a Septuaginta). Isso também poderia referir-se à expansão territorial (Dt 33.23). A mente solta alude à liberdade, vitalidade, energia, atividade desimpedi­da. Adam Clarke (in Ioc.) afirma que devemos pensar aqui em uma prole numero­sa, por parte das famílias da tribo de Naftali. Dos quatro filhos de Naftali, Jazeel, Guni, Jezer e Silém (Gn 46.24), no decurso de duzentos e cinquenta anos, havia cinquenta e três mil e quatrocentos homens em idade e com capacidade de ir à guerra, o que era incomum no tocante à produção de descendentes. Ver Nm 1.42.

     

    Palavras. Se temos aqui a correta compreensão do texto hebraico, isso poderia referir-se a uma inteligência lúcida, capaz de guiar seus exércitos ou realizar outros propósitos, pacíficos. Também poderia haver uma tendência às letras, por parte dos homens da tribo. Os intérpretes cristãos veem nessas “pala­vras formosas” a pregação eventual do evangelho, as Boas-Novas de Deus a todos os homens, que haveriam de reboar por toda a nação de Israel, resultante da realização do Messias, Jesus de Nazaré.

     

    49.22 José. Embora ele não viesse a produzir nenhuma tribo com seu nome, contri­buiria com duas tribos, através de seus filhos Efraim e Manassés. José (e seus descendentes) receberam longa e detalhada bênção, paralela à de Judá. Judá e José foram os únicos que receberam um pronunciamento mais detalhado por parte de Jacó, como vimos em ebdareiabranca.

     

    Os críticos veem nessa bênção dada a José uma adição posterior ao poema original, cujo intuito visava a salientar a preeminência das tribos descendentes de seus filhos (o que se vê em Gn 48.20 ss., em uma pequena seção separada do resto, que serve de introdução às demais bênçãos). Os conservadores, porém, não veem motivos para pôr em dúvida o fluxo natural das bênçãos, nem a sua integridade original. A “casa de José” foi dividida nas tribos de Manassés e de Efraim, conforme se vê em Dt 33.13-17.

     

    Ramo frutífero. Esse ramo dividiu-se em dois ramículos (Efraim e Manassés), o que produziu uma prosperidade incomum. José teve mais descendentes do que qualquer de seus outros irmãos. Ver Nm 1.32-34. Havia mais de setenta mil homens com idade e habilidades para ir à guerra. Está em foco a frutificação geral, material e espiritual, igualmente, e não mera posteridade. José era o filho preferido de Jacó, aquele que mais produziu, atingindo o lugar mais alto de honra e poder.

     

    Junto à fonte. Haveria abundante suprimento de água, de tal modo que os ramos da tribo cresceriam bem, frutificando com abundância, trepando por cima do muro — tudo isso é símbolo de fertilidade, abundância e produção. Cf. Sl 1.3. Essa trepadeira, plantada à beira de águas, produziu seus frutos com abundância, e suas folhas não se ressecavam.

     

    49.23 Os flecheiros lhe dão amargura. Adversários violentos e cheios de ódio tentaram exterminar a José. Entre esses estavam seus próprios irmãos, no passa­do; em seguida, a esposa de Potifar. E podemos supor que, como homem forte do Egito, ele tinha inimigos postados em lugares importantes. Mas, apesar de todos os esforços desses adversários, ele foi mantido seguro e em prosperidade. O Targum de Jonathan afirma que os magos do Egito o invejavam e lhe causaram dificuldades. Nos dias de seus filhos e suas tribos, no Egito, houve ataques da parte de inimigos, e eles tiveram de enfrentar tempos difíceis, quando os desas­tres tê-los-iam engolfado, não fora a proteção divina.

     

    O autor sagrado compara José a um guerreiro, poderoso demais para os seus inimigos, embora o atacassem à distância, por serem flecheiros que lhe atiravam, com grande ódio, os seus dardos inflamados.

     

    49.24 “A vitória na batalha foi experiência tida por Josué, Débora e Samuel, todos eles pertencentes à tribo de Efraim; e também por Gideão e Jefté, ambos da tribo de Manassés” (Allen P. Ross, in loc.).

     

    Deus estava com José de modo muito especial, conforme a série de nomes divinos dados aqui indica claramente:

     

    Poderoso de Jacó. Ver sobre o Deus Todo-poderoso, em Gn 17.1, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o qual também era seu Deus, pleno de força, que entregou armas de guerra nos braços de José. No hebraico, temos aqui El Shaddai.

     

    Pastor. O Senhor é imortalizado como o “Pastor” no Salmo 23 e no capítulo dez de João. José, como pastor, protegia suas ovelhas e provia o necessário para elas. Isso ele fazia com amor e com interesse constante. Essa era a sua profissão e a sua paixão. Assim também, Deus é o nosso Pastor: são enfatizados aqui supri­mento abundante e proteção. Os eruditos cristãos veem em tudo isso uma referência messiânica. Jesus Cristo cuida de Seu rebanho, formado por judeus e gentios regenerados, os quais estão Nele.

     

    Pedra de Israel. Temos aqui um emblema de poder e proteção, uma base inabalável em períodos atribulados. Ver Dt 32.4 ss. (especialmente os vss. 15,18,30); I Sm 2.2; II Sm 23.3; Sl 18.2; 89.26; I Co 10.4. “Rocha eterna, foi na cruz, que morreste Tu, Jesus.” Assim diz um antigo hino evangélico.

     

    49.25 Pelo Deus de teu pai. Ver Gn 24.12 e 28.13 quanto ao Deus de Abraão; Gn 48.16, quanto ao Deus de Abraão e Isaque; e Êx 3.6,16, quanto ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó. O acúmulo de patriarcas, leais à aliança com o mesmo Deus, assinala o distintivo monoteismo que foi desenvolvido pelos hebreus. E esse Deus era o Deus de poder e provisão. A ideia de todo-poder, que figura no versículo anterior, é aqui repetida.

    Bênçãos dos altos céus. Tanto as bênçãos temporais, como a chuva, o orvalho, o sol, condições atmosféricas favoráveis para a fertilização do solo, quan­to as bênçãos espirituais, como orientação, proteção e favor divino, que fazem o crente cumprir com êxito a sua missão neste mundo.

     

    Bênçãos das profundezas. Ou seja, do oceano subterrâneo (Gn 1.2,6), que os antigos consideravam uma fonte de fertilidade. Ademais, das profundezas brotavam os mananciais, as fontes de águas, que manariam do oceano subterrâneo. Alguns eruditos incluem aqui a ideia das minas e dos minerais, produtos que podem ser extraídos do subsolo e são fontes de prosperidade material.

     

    Bênçãos dos seios e da madre. Está em pauta a fertilidade humana. As tribos de Efraim e Manassés tornaram-se muito numerosas e poderosas (ver Nm 1.32-34). O número dos descendentes de José era maior que o número de descendentes de qualquer outro de seus irmãos. “Efraim e Manassés se haviam multiplicado tanto nos dias de Josué, que um único e comum território não teria sido suficiente para eles. Ver sobre a queixa deles, em Josué 17.14” (Adam Clarke, in loc.).

     

    49.26 Jacó havia prosperado muito mais que seu pai, Isaque, e mesmo mais que o seu avô, Abraão. Suas riquezas perdurariam para sempre, como duradouros são os montes eternos, que não se desgastam com o passar dos séculos. Sua poste­ridade perduraria por eras incontáveis, futuro afora, ultrapassando os céus e a terra, que desapareceriam em decadência. José haveria de herdar essa herança eterna e riquíssima. Quando falamos nas realidades espirituais, então podemos tomar essas palavras em sentido literal, e não apenas poético.

     

    Essas bênçãos extraordinárias repousariam sobre a cabeça de José como se fossem uma coroa, porque havia sido mandado ao Egito, tornando-se a segunda autoridade dali, recebendo domínio sobre os seus irmãos. E tal como fora distinguido deles fisicamente, em glória terrestre, assim também, na bênção divina, continuaria a distinguir-se deles.

     

    “A bênção ancestral ultrapassava até mesmo a majestade e a fertilidade das colinas de Efraim” (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    No Targum de Jerusalém, a palavra montes é interpretada como se indicasse Abraão e Isaque, ao passo que colinas seria uma alusão a Sara, Rebeca, Raquel e Lia. As bênçãos dadas a José, pois, seriam superiores às bênçãos que haviam sido dadas àqueles notáveis santos do passado.

     

    José como Tipo de Cristo. Essa palavra de exaltação, na verdade, foi endereçada à pessoa de Cristo, aqui simbolizado por José.

     

    49.27 Benjamim. Benjamim seria um guerreiro incansável, arrasador e irresistível. Ele foi “elogia­do em face de seus hábitos predatórios e seu cometimento na guerra. A diferen­ça entre essa caracterização (que encontra apoio nos capítulos dezenove a vinte e um de Juízes), e o conceito de Benjamim, na história de José, pode ser percebida. Na última linha parece haver uma alusão à coragem de Saul (cf. II Sm 1.25)” (Cuthbert A. Simpson, in loc.). Consideremos os cruéis benjamitas de Juízes 20, bem como os feitos de Saul, um benjamita, em I Sm 9.1,2; 19.10 e 22.17. De certa feita, contando somente com vinte e seis mil homens, ele derrotou um exército inimigo de quatrocentos mil homens (ver Jz 20.15-25). Alguns dos pais da Igreja aplicaram essa profecia, indiretamente, ao após­tolo Paulo (um benjamita), o qual, antes de converter-se, participou da matança de pessoas inocentes. Mas depois, em um sentido espiritual, ele continuou sendo um guerreiro, em favor do bem, e, quase sozinho, levantou a Igreja cristã no mundo gentílico. Alguns eruditos veem Benjamim como um tipo de Cristo, o qual, como um guerreiro, esmaga os inimigos e os poderes das trevas (ver Cl 2.15 e Ap 19.11,15).

     

    49.28 As doze tribos de Israel. Doze é o nome governamental. Na verdade, porém, as tribos eram treze, se incluirmos Levi. Mas essa tribo ficou destituída de terras e tornou-se na classe sacerdotal em Israel. Ver Nm 1.47 ss. Além disso, apesar de José ter sido um dos patriarcas, não houve uma tribo com seu nome. Antes, ele gerou Efraim e Manassés, os quais se tornaram chefes de duas tribos. Isso posto, o número de descendentes de José foi maior que o número de descendentes de qualquer de seus irmãos (Nm 1.32-34). Assim, temos onze filhos de Jacó como tribos; tirando Levi, ficam dez tribos; adicionan­do Efraim e Manassés, ficam doze. Mas Jacó abençoou a catorze, porque, embora não tivesse uma tribo com seu nome, no sentido estrito, José recebeu a bênção maior e mais longa; e Levi, embora mais tarde se tivesse tornado a classe sacerdotal, não sendo oficialmente considerado uma tribo, também foi abençoado.

     

    No livro de Juízes, vemos as tribos essencialmente autônomas, como se fossem estados de uma frouxa federação ou comunidade. Sob Davi, as tribos foram unificadas, uma situação que prosseguiu até a divisão da nação em duas, nos dias de Reoboão, neto de Davi: o reino do norte (dez das tribos), chamado Israel; e o reino do sul (duas das tribos), chamado Judá. Somente esse reino do sul se tem projetado até os tempos modernos. O moderno estado de Israel con­siste em um núcleo formado pelas tribos de Judá e Benjamim, com um elemento regular de Levi, além de salpicos de todas as outras tribos.

     

    A Morte de Jacó (49.29-33)

     

    A longa e produtiva vida desse patriarca chegou ao fim. Ele pôde ver todos os seus filhos bem criados, bem-educados e ocupados em suas respectivas missões. Oh, Senhor, concede-nos tal graça! Foram-lhe conferidas longa vida e muita atividade, até o fim. Foi-lhe concedido o privilégio de ver sua própria missão efetuada, levada à plena fruição. Assim sendo, ao mesmo tempo em que ia abençoando outros, foi extraordinariamente abençoado ele mesmo. Os oráculos que ele apresentou, à semelhança daque­les de Noé, olhavam profeticamente para o futuro destino de seus filhos e da nação que estavam produzindo. Jacó foi capaz de ver a mão do Senhor atuan­do em tudo. Jacó foi homem acostumado a ver a providência de Deus.

     

    Na caverna. Em Macpela (vs. 30). Efrom. O heteu. Na história profana, os heteus são conhecidos como hititas. Ver a história da compra dessa caverna (e do campo em torno dela), no capítulo vinte e três de Gênesis.

     

    Um dos instintos da idade avançada é a pessoa voltar às suas raízes. Quando a morte se aproxima, é um instinto humano comum querer ser sepulta­do na terra do nascimento. “É como se a solidão da morte fosse, até certo ponto, vencida, e como se o laço com o passado formativo fosse refeito. Isso empresta um aspecto sacrossanto ao lugar de sepultamento de uma pessoa” (Walter Russell Bowie, in loc.).

     

    Eu me reúno ao meu povo. Ver em Gn 25.8,17. Ver também Gn 35.29, bem como o vs. 33 deste capítulo. Nisso pode haver um indício da crença na vida pós-túmulo, uma doutrina que, na época, ainda não fora desenvolvida na teologia dos hebreus, e só começou a ter expressão clara nos Salmos e nos Profetas.

     

    Com meus pais. O vs. 31 nos mostra quais pessoas foram sepultadas na caverna de Macpela.

     

    49.30,31 Campo de Macpela. Curiosamente, as Escrituras não registram a morte de Rebeca. Supomos que, pelo tempo em que Jacó voltou do território de Labão, ela já tinha morrido. Estes versículos revelam-nos, porém, que ela também estava sepultada na caver­na da família. As outras pessoas ali sepultadas foram Abraão, Sara, Isaque e Lia. Mas José, que morreu e foi embalsamado no Egito, foi sepultado em Siquém, tendo sido os seus ossos transportados por Moisés para fora do Egito. Ver Js 24.32.

     

    Sepultamentos em Macpela. Sara (Gn 23.19); Abraão (25.8,9); Isaque (35.27- 29); Rebeca (49.31); Lia (49.31) e Jacó (50.13).

     

    49.32 O terreno foi comprado para tornar-se sepulcro da família. Curiosamente, os árabes é que possuem atualmente o local, com sua caverna.

     

    49.33 Terminara a Missão de Jacó. Jacó terminou de proferir suas bênçãos e suas ordens. Tudo estava bem. Não havia do que se lamentar, e coisa alguma precisa­va ainda ser feita.

     

    E expirou. Provavelmente, uma tradução correta. A King James Version fala aqui em “fantasma”, mas a Revised Standard Version também fala em “expirar”, Este versículo não indica necessariamente que o espírito imaterial de Jacó abandonou o seu corpo, embora alguns entendam a questão por esse prisma. Cf. Gn 25.8,17; 35.29. No caso da morte de Raquel (Gn 35.18), “saiu-lhe a alma” e alguns eruditos também pensam que isso indica uma alma imaterial. No hebraico, a palavra alma pode indicar apenas a respi­ração ou o princípio vital que anima o corpo vivo. Todavia, com a passagem do tempo, a palavra hebraica nephesh veio a indicar a alma imortal e imaterial, que pode viver fora do corpo físico. Embora possa haver laivos de crença na imortalidade, na antiga teologia dos hebreus (na época dos patriarcas), na­quele tempo a doutrina ainda não se tinha desenvolvido o bastante. Tal desenvolvimento só ocorreu mais tarde.

     

    Foi reunido ao seu povo. Ver as notas sobre essa expressão, no vs. 29 deste capítulo.

     

    Bibliografia R. N. Champlin

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  • Lição 12 – Revista Betel – Jacó abençoa os filhos de José

    Fonte: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “Mas Israel estendeu a sua mão direita e a pôs sobre a cabeça de Efraim, ainda que era o menor, e a sua esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as suas mãos avisadamente, ainda que Manassés era o primogênito”. Gn 48.14

    Verdade Aplicada

    Se vemos a mão de Deus em todas as coisas, devemos dei­xar nas mãos de Deus todas as coisas.

    Objetivos da Lição

    ?      Mostrar as promessas de Deus fortalece os seus filhos;

    ?      Ensinar a depender de Deus; e

    ?      Apresentar os pais abençoan­do os filhos.

    Textos de Referência

    Gn 48.3 E Jacó disse a José: O Deus Todo-poderoso me apare­ceu em Luz, na terra de Canaã, e me abençoou,

    Gn 48.4 E me disse: Eis que te farei frutificar e multiplicar, e te porei por multidão de povos, e darei esta terra à tua semente depois de ti, em possessão per­pétua.

    Gn 48.13 E tomou José a am­bos, a Efraim na sua mão direita, à esquerda de Israel, e a Manas­sés na sua mão esquerda, à direi­ta de Israel, e fê-los chegar a ele.

    Gn 48.14 Mas Israel estendeu a sua mão direita e a pôs sobre a cabeça de Efraim, ainda que era o menor, e a sua esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as suas mãos avisadamente, ainda que Manassés fosse o primogênito.

    Gn 48.18 E José disse a seu pai: Não assim, meu pai, porque este é o primogênito; põe a tua mão direita sobre a sua cabeça.

    Gn 48.19 Mas seu pai o recusou e disse: Eu o sei, filho meu, eu o sei; também ele será um povo e também ele será grande; con­tudo, o seu irmão menor será maior que ele, e a sua semente será uma multidão de nações.

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

     

    Ajuda 2

    Os Filhos de José Entre os Doze 48.1-7

     

    A refe­rência a Luz (Betel) faz lembrar o relato da fonte Sacerdotal desse episódio (35: 9-15). Esta perícope aparentemente apresenta uma versão diferente da constante no capítulo 35, pois no versí­culo 4 aparecem “povos”, enquanto “nações” ocorrem no capítulo 35, e nota-se a adição de perpétua à oferta da terra.

     

    Nesta bênção, Jacó deu tanto a Efraim como a Manassés direito de participar em pé de igualdade com as doze tribos. Nessa época isso significava que Jacó estava reivindicando 13 filhos. Nunca haveria mais do que doze tribos, todavia, embora a relação parecesse ser diferente em épocas diferentes. Foi feita a decla­ração adicional de que quaisquer outros filhos nascidos a José no futuro também seriam contados como família de Efraim ou de Manassés.

     

    Muita discussão se levantou a respeite da razão por que Jacó mencionou Raquel neste contexto (v. 7). Davies atribui esta menção às memórias que ocorreram a Jacó ao ver os dois netos. Von Rad não vê nenhuma “relação reconhecível com o que se segue ou antecede”. Speiser crê que “a sua pertinência é facilmente indi­cada”. Visto que a morte roubara de Jacó a sua amada Raquel, ele sentia-se justificado em substituir os filhos que Raquel poderia ter tido por dois de seus netos. A expressão “para minha triste­za”, constante no v. 7, na versão RSY inglesa (“morreu-me Raquel no cami­nho, para minha tristeza”), é a chave da melancólica opinião de Jacó a respeito da vida, no decorrer dos anos que se passa­ram desde a morte dela.

     

    As Bênçãos de Efraim e Manassés (48.8-22)

     

    A bênção de Jacó foi pronunciada em vários estágios. Primeiro ele abraçou afetuosamente os netos (v. 10), tendo-os, aparentemente, entre os joelhos (e não sobre estes). Em seguida, José tirou os seus filhos de entre os joelhos de Jacó e, colocando Manassés à sua esquerda e Efraim à sua direita, ajoelhou-se com eles, prostrando-se diante de seu pai. Estavam todos em uma posição correta, para receberem a bênção de Jacó. Foi por estar com os olhos fechados e a cabeça curvada que José não viu Jacó cruzar as mãos (heb., entrançar), colocando a mão direita sobre a cabeça do neto mais novo, preparando-se para a inversão da bênção esperada. Se estava cego, como é que Jacó sabia qual deles era Efraim? Ele sabia como José os colocara, ou não estava completamente cego. Quando José abriu os olhos, viu o que havia aconte­cido e apresentou a sua objeção.

     

    A inversão da bênção é reminiscente do engano de Isaque, mas aqui o próprio patriarca fez a modificação. Essa mano­bra previa a história das tribos de Efraim e Manassés, pois, logo depois do estabe­lecimento permanente em Canaã, Efraim havia conseguido a ascendência. Em Números 26, uma lista mais antiga, Ma­nassés é colocado antes de Efraim; em Números 1, geralmente considerada como posterior, a ordem é inversa. Pos­teriormente, Oséias usaria o título de Efraim como sinônimo de Israel (Os 4:17; 5:3).

     

    A bênção está na forma de hino litúrgico, mas, ao invés de usar a segunda pessoa, este hino emprega frases participiais, para retratar o Deus que está sendo descrito. Tanto o estilo quanto o vocabulário fazem lembrar Isaías 40 a 55, mas este hino é definidamente mais antigo do que a passagem de Isaías e provavelmente a influenciou. A bênção expressa três ênfases: a presença de Deus com os pais, como ele cuidou de Jacó, e uma invocação para que ele perpetue os nomes patriarcais na prosperidade de seus descendentes.

     

    A referência mais importante é o anjo que me tem livrado, que é claramente Deus aparecendo em forma humana. O único incidente ocorrido nesta conexão fora em Peniel. Aquele a quem Jacó temia poderia tê-lo matado, se não se tivesse tornado o seu redentor. Esta é go’el, uma das grandes palavras do Velho Testamento, aparecendo aqui pela primeira vez. Significa o “parente mais próximo”, o responsável por defender a vida, integridade ou propriedade de um parente, e que tinha a responsabilidade de vingar a sua morte. Aqui Jacó chamou o anjo de Deus de go’el (cf. Rt 1-3; Is 40-55; 59:20; Jó 19:25). Alguns exposi­tores mais antigos igualam este “anjo redentor” com Jesus Cristo, mas dificilmente esta é a maneira como deve ser entendida a sua relação com esta passa­gem. É melhor considerar que a ideia expressa aqui alcançou o seu significado maior em Cristo. Em sua obra de salva­ção, Deus tornou-se um redentor no sen­tido que vai além de qualquer coisa que Jacó tenha imaginado.

     

    A segunda declaração, nesta bênção, é mais individualista (v. 20). Os pronomes são da segunda pessoa do singular. A ênfase em que todo o Israel se abençoará, ao desejar ser tão afortunado quanto Efraim e Manassés, possivelmente data esta passagem em uma época de prosperidade nacional, mais provavelmente o reinado de Jeroboão II, nos meados do oitavo século a.C.

     

    Um pedaço de terra, literalmente “um ombro”, é um mistério para os comen­taristas. Em nenhuma outra passagem de Gênesis se menciona esta expressão, e pode ter provindo de tradição mais antiga, não mais existente na literatura do Velho Testamento, a respeito de uma conquista desconhecida de Jacó. Isso, contudo, não diminui a sua importância. A expressão “um pedaço de terra” (shechem) é a mesma que costumeiramente é traduzida como “Siquém”, mas o uso de “um” com ela parece excluir o nome próprio. Fosse o pedaço de terra “shechem” (monte Gerizim) ou a pró­pria Siquém, o local é o mesmo. A alusão mais natural seria à conquista de Siquém por Simeão e Levi, mas o fato de Jacó ter reprovado essa conquista, tanto em sua narrativa (cap. 34) quanto na bênção (49:5), parece contradizer esta aplicação. Contudo, pode ser que, depois de longos anos no Egito, Jacó pudesse considerar nostalgicamente aquele “pedaço de terra” como sua propriedade por direito, embora a sua conquista fosse questio­nável ou merecedores de culpa os seus participantes.

     

    Bibliografia C. T. Francisco

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  • Lição 11 – Revista Betel – Jacó vai ao Egito se encontrar com José

    Fonte: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “E disse Israel: Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra”. Gn 45.28

    Verdade Aplicada

    As pegadas na areia do tempo não são deixadas por pessoas sentadas, mas por homens e mulheres que se aventuram em cumprir a vontade de Deus.

    Objetivos da Lição

    ?      Ensinar que Deus provê o necessário para cada situação;

    ?      Mostrar que sempre é ne­cessário buscar a orientação divina; e

    ?      Demonstrar que quando es­tamos na vontade de Deus em qualquer lugar somos abenço­ados.

    Textos de Referência

    Gn 45.26 Então, lhe anuncia­ram, dizendo: José ainda vive e ele também é regente em toda a terra do Egito. E o seu coração desmaiou, porque não os acreditava.

    Gn 46.1 E partiu Israel com tudo quanto tinha, e veio a Berseba, e ofereceu sacrifícios ao Deus de Isaque, seu pai.

    Gn 46.2 E falou Deus a Israel em visões, de noite, e disse: Jacó! Jacó! E ele disse: Eis-me aqui.

    Gn 46.3 E disse: Eu sou Deus, o Deus de teu pai; não temas descer ao Egito, porque eu te farei ali uma grande nação.

    Gn 46.4 E descerei contigo ao Egito e certamente te farei tornar a subir; e José porá a sua mão sobre os teus olhos.

    Gn 46.5 Então, levantou-se Jacó de Berseba; e os filhos de Israel levaram Jacó, seu pai, e seus meninos, e as suas mulheres, nos carros que Faraó enviara para o levar.

    Gn 46.6 E tomaram o seu gado e a sua fazenda que tinham adquirido na terra de Canaã e vieram ao Egito, Jacó e toda a sua semente com ele.

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

    Viagem de Jacó ao Egito (46.1-7)

     

    Temos aqui outro dos grandes marcos da vida de Jacó, um passo importante na formação de Israel como nação. Abraão havia sido avisado de antemão acerca dessa questão, a qual dificilmente poderia ter sido antecipada sem alguma iluminação divina. Seus descendentes teriam de sofrer um período de quatrocentos anos de exílio e provação (Gn 15.13). Israel, em desenvolvi­mento, continuaria no exílio até que os pecados dos habitantes de Canaã preen­chessem a taça do destino. Então o juízo de Deus haveria de feri-los, e eles perderiam seus territórios. E essa terra seria dada a Israel, como sua pátria (Gn 15.16). Esse seria o primeiro dentre quatro grandes exílios previstos para o povo de Israel, a saber: 1. o exílio egípcio, quando Israel estivesse em formação; 2. o exílio assírio, quando se perderam quase totalmente dez das tribos; 3. o exílio babilônico, quando se perderam quase totalmente duas tribos (Judá e Benjamim), mas das quais voltou um remanescente, provenientes de Levi e de todas as demais tribos; 4. o exílio romano, a começar em 132 D. C. (quando todos os judeus foram expulsos da Palestina e dispersos em várias direções). Foi então que os judeus se dividiram em três grupos principais: Judeus asquenazitas (que foram para países da Europa central e oriental); judeus sefarditas (que ficaram em países em torno do Mediterrâneo, além das ilhas britânicas); judeus orientais (que ficaram na região da Arábia para o oriente, até o Japão). Esse quarto exílio começou a ser revertido com a formação do Estado de Israel, em maio de 1948, graças aos esforços do movimento sionista, iniciado por idealistas judeus do século XIX. Mas nem todos os judeus concordam com o sionismo, do que é prova o fato de que a maior parte dos judeus continua longe da Palestina até hoje. Assim, tem prevalecido sempre a providência de Deus.

     

    Apesar de todos os exílios, vicissitudes e perseguições, tem prevalecido o Pacto Abraâmico. Esse pacto é renovado na passagem à nossa frente. Ver a respeito em Gn 15.18. Uma das provisões desse pacto era a necessidade de um território pátrio, onde Israel pudesse viver como nação, e não apenas como tribos nômades. Com base nessa situação, viria a primeira revelação, e, finalmente, o Cristo, descendente de Judá. E, então, Cristo haveria de abençoar todas as nações da terra (Gl 3.14), por meio do evangelho. Antes, porém, Israel teria de residir temporariamente em Gósen, no Egito.

     

    46.1  De Hebrom a Berseba. Jacó precisava tomar uma decisão muito importante. Era certo deixar a terra de Canaã, onde Abraão tinha habitado? Deixá-la não prejudicaria as provi­sões do Pacto Abraâmico? Como esse pacto poderia ter cumprimento se a nação de Israel se formasse no Egito? Jacó buscou luzes. E assim sendo, ele foi a Berseba e ofereceu sacrifícios a Yahweh, o Deus de seu pai, Isaque. Ele estava voltando às suas raízes e buscando respostas. Em Berseba Deus havia aparecido a Abraão (Gn 21.33) e depois a Isaque (Gn 26.23). Esse lugar tinha um santuário, um centro do Yahwismo. Era um lugar apropriado para buscar iluminação a respeito da séria decisão que ele teria de tomar. O próprio Faraó tinha-lhe enviado ricos presentes, convidando-o a vir ao Egito (Gn 45.17 ss.). José achava-se no Egito, e Jacó gostaria muito de ir para perto dele. Mas existem coisas mais importantes do que estar na companhia de um filho amado, como fazer a vontade de Deus, sem importar qual seja essa vontade. Mas se alguém puder estar com um filho amado, ao mesmo tempo em que estiver fazendo a vontade de Deus, tal pessoa será duplamente abençoada. A Jacó, pois, foi dada essa bênção.

     

    Berseba ficava a apenas vinte e seis quilômetros de Hebrom, assim o santu­ário ficava perto, e Jacó sentiu-se impelido a buscar orientação ali.

     

    Deus de seu pai. No hebraico, Elohim.

     

    46.2  Em visões de noite. Algumas vezes as visões são dadas por meio de sonhos, mas é provável que aqui devamos entender a presença divina ou uma teofania. Para receber uma orientação iluminadora, algumas vezes precisamos do toque místico, da iluminação vinda do alto. Jacó era homem de muitas experiências místicas, mediante as quais a presença divina lhe era conferida de variegados modos. Ao que parece, cada movimento importante de Jacó era acompanhado por alguma elevada experiên­cia espiritual, que lhe conferia orientação e poder. Ver Gn 28.11 ss. Quando ia para a companhia de Labão, Jacó tivera a visão da escada que ia dar no céu. Na oportunidade, foi renovado através dele o Pacto Abraâmico (Gn 31.3,11). Quando voltava para Canaã, depois de ter estado com Labão por vinte anos, recebeu outra iluminação direta (Gn 32.1 ss.). Depois de ter-se separado de Labão, já a caminho de Canaã, Jacó recebeu outra experiência mística iluminadora (Gn 35.1). E, então, foi instruído a ir a Betel, habitar ali e erigir um altar. Foi aí que ele se desfez de certos ídolos (sem dúvida, alguns trazidos por Raquel), quando houve uma renovada dedicação ao Senhor.

     

    Eis-me aqui. A resposta da alma à presença de Deus, a prova da consciên­cia da presença divina. A vida espiritual consiste em mais do que estudo, leitura da Bíblia, oração e meditação. Precisamos, igualmente, do toque místico, a pre­sença de Deus conosco, que nos ilumina o caminho.

     

    “A descida ao Egito, que teria tão decisiva significação para a história da nação de Israel, teve motivo não só no desejo de Jacó ver seu filho perdido fazia tanto tempo (Gn 45.28), mas também na revelação divina dada nas visões da noite!’ (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    46.3  Eu sou Deus, o Deus de teu pai. No hebraico, El, Elohim. El indica poder, e Elohim é o Deus Supremo e Poderoso, o plural majestático de El.

     

    “Essa foi a última revelação conferida a Jacó. Depois dessa revelação não há mais registro de outro evento sobrenatural, até a visão da sarça ardente (Êx 3.4). Jacó deveria migrar para o Egito, pois ali os seus descendentes multiplicar-se-iam até se tornarem uma nação. A presença e a bênção de Deus haveriam de acompanhar a ele e a seus descendentes, e, finalmente, haveriam de trazê-los de volta à Terra Prometida. Para o próprio Jacó, além disso, foi dada a promessa de que José cuidaria dele em seu leito de enfermidade e estaria em sua companhia, por ocasião de sua morte” (Ellicott, in loc.).

     

    Naturalmente, em seu leito de morte, Jacó profetizou acerca de seus filhos (Gn 49), um acontecimento inspirado, mediante o qual Jacó foi capaz de prever, em termos gerais, o futuro dos descendentes de seus filhos, e de dar instruções e bênçãos especiais, que fariam suas vidas diferir das de outras pessoas.

     

    Lá eu farei de ti uma grande nação. O Pacto Abraâmico não falharia meramente porque Israel desenvolver-se-ia no Egito. Bem pelo contrário, as duzentas ou trezentas pessoas (possíveis) que poderiam ter descido ao Egito (como o núcleo original da nação de Israel) seriam abençoadas de modo especial por Deus. Deus as protegeria; a nação se desen­volveria, porque o poder de Deus estava com ela.

     

    Temos aqui outra reiteração do Pacto Abraâmico, em seu mais básico elemento, a grande nação oriunda de Abraão. Cada uma dessas ocorrên­cias frisa alguns poucos itens, embora não o pacto em todos os seus aspec­tos.

     

    46.4  Eu descerei contigo. A presença divina far-se-ia patente até mesmo no exílio no Egito. Ao mesmo tempo, havia aquela promessa a longo prazo de um futuro livramento do exílio egípcio. O Pacto Abraâmico incluía o exílio no Egito (Gn 15.13), mas também a eventual libertação desse exílio, no tempo determinado (Gn 15.16).

     

    O Toque Pessoal. José era o filho amado de Jacó, do qual estava separado fazia vinte e quatro anos. Jacó ainda viveria por bons dezessete anos no Egito, em companhia de José, e, então, faleceria. Jacó desceu ao Egito quando estava com cento e trinta anos, e viveria cento e quarenta e sete anos. Ver Gn 47.28. José estaria perto dele quando morresse e fecharia os seus olhos. José “prestaria a ele esse último serviço” (John Gill, in loc.). Portanto, Jacó nada teria que temer, nada do que se lamentar; nenhuma ansiedade para vexá-lo, se chegasse a des­cer ao Egito para ali viver pelo resto de sua vida.

     

    E te farei tornar a subir, certamente. Não devemos pensar aqui no cadáver de Jacó, o qual foi trazido de volta a Macpela, sepultado onde já estavam os corpos de Abraão, Sara, Lia e Isaque, pai de Jacó. Antes, devemos pensar na promessa a longo prazo de que, finalmente, a nação de Israel seria tirada do Egito.

     

    Um de meus filhos queridos teve um sonho perturbador a respeito de minha morte. Ele sonhou que eu era um homem idoso, meus cabelos total­mente encanecidos. Estávamos nas proximidades de uma grande universida­de. Ele voltou do campus e me encontrou morto, ao que parecia, por um ataque de coração. Quando ele me contou o sonho, eu lhe disse: “Por que você está preocupado? Esse é um bom sonho. Viverei até tornar-me um homem idoso, pois meus cabelos estavam totalmente brancos. Morrerei de súbito, de um colapso cardíaco, o que significa que não passarei dias sofren­do. Além disso, eu não gostaria de estar em outra companhia, ao morrer, do que na sua”. Ao ler o texto bíblico à nossa frente, lembro-me desse sonho de meu filho. José, o amado filho de Jacó, estaria com ele até o fim. Não haveria queixas, nem lamentações, nem faltaria coisa alguma. Foi assim que Jacó foi encorajado a ir para o Egito.

     

    46.5  Então se levantou Jacó. Ele já havia recebido a sua resposta, que lhe foi dada no santuário em Berseba. E assim, com toda confiança, preparou-se para descer ao Egito. Reencontrar-se com seu filho amado, José, inspirava a sua mente. Seu alquebrado corpo de cento e trinta anos de idade movimentou-se com lepidez e renovada energia.

     

    Os carros enviados pelo Faraó (Gn 45.19) facilitaram em muito a viagem.

     

    Coisa alguma é dita acerca das esposas de Jacó. É possível que todas elas já tivessem morrido por esse tempo. Mas havia várias famílias a serem transporta­das, com seus filhos e netos. O vs. 27 mostra que havia setenta homens, pelo que o grupo inteiro deve ter consistido em duzentas a trezentas pessoas ao todo, se incluirmos os servos e servas que faziam parte das casas. Temos aí o núcleo que daria início à nação de Israel no Egito. Os varões são alistados, a começar pelo versículo oito.

     

    46.6  O seu gado e os bens. Mas não certos itens como móveis, instrumentos agrícolas etc., visto que o Faraó os tinha encorajado a viajar sem bagagem, porquanto receberiam implementos novos no Egito (ver Gn 45.20). É melhor ser abastado do que não ser abastado. Apesar da escassez de alimentos, Jacó ainda era dono de muitos bens.

     

    Toda a sua descendência. Os setenta nomes masculinos que apare­cem na lista (vs. 27). Eram várias famílias com seus respectivos filhos e netos. Deus faria grandes coisas, a partir daquele dia de pequenos começos.

     

    46.7  Toda a sua descendência. Informações a serem supridas nas listas que aparecem em seguida (vss. 8-27). Quando Jacó desceu ao Egito, esta­va com cento e trinta anos de idade, cento e quinze anos depois de a promessa ter sido feita a Abraão (Gn 12.1-4). Na verdade, os israelitas não estiveram cativos no Egito por quatrocentos e trinta anos. Apenas cerca de duzentos e cinquenta desses anos foram realmente passados em cati­veiro. Essas são cifras aproximadas dadas pela Septuaginta.

     

    Suas filhas e as filhas de seus filhos. O elemento feminino da família de Jacó fica assim vago, porque, usualmente, as mulheres não eram nomeadas nas genealogias. Ver Gn 37.36.

     

    A Família de Jacó (46.8-27) Este texto tem paralelo em Deuteronômio 10.22, que fala em setenta ho­mens. A tradição arredondou o número de homens a setenta, que alguns estudio­sos supõem ser mera aproximação, ao passo que outros pensam em um número simbólico, e não real, de descendentes de Jacó.

     

    “Esta seção, vinda de uma tradição sacerdotal distinta, contém uma lista de descendentes de Jacó, com base no número tradicional de setenta (vs. 27; ver Êx 1.5; Dt 10.22). A maioria dos nomes dos líderes ancestrais de clãs apare­ce na lista sacerdotal do capítulo vinte e seis de Números… o número setenta inclui José e seus dois filhos, que lhe tinham nascido no Egito, além do próprio Jacó” (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    Enquanto a exposição prosseguir, irei fazendo comparações com as genealogias de Números e de I Crônicas, que abordam os mesmos indivíduos. O vs. 26 diz que o número daqueles que viajaram ao Egito foi de sessenta e seis. Mas o versículo vinte e sete dá o número setenta, porém, como o grande total, ou seja, incluindo os filhos e netos que estavam no Egito.

     

    Cálculos

     

    Filhos e netos de Lia (vs. 15)            33

    Filhos e netos de Zilpa (vs. 18)         16

    Filhos e netos de Raquel (vs. 22)      14

    Filhos e netos de Bila (vs. 25)           07

    Dina, uma filha de Jacó                            01

    71

     

    Er e Onã morreram em Canaã (vs. 12)

    José e dois filhos já estavam no Egito

    (vs. 20); portanto                              -5

     

    Aqueles que migraram para o Egito,

    na companhia de Jacó (vs. 26)         66

    Os que já estavam no Egito              04

     

    Grande total (vs. 27)                         70

     

    Esse total de setenta pessoas era o núcleo da nação de Israel que se desen­volveu no Egito. O trecho de Atos 7.14 dá o número de 75 pessoas. As tradições e os núme­ros variam um pouco. A Septuaginta também fala em setenta e cinco pessoas, pelo que sabemos que Estêvão (Atos 7.14) seguiu a Septuaginta, e não o texto hebraico massorético.

     

    Bibliografia R. N. Champlin

    (mais…)

  • Lição 10 – Revista Betel – Jacó sofre perdas imprevisíveis na família

    Fonte: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “E enviaram a túnica de várias cores, mandando levá-la a seu pai, e disseram: Temos achado esta túnica; conhece agora se esta será ou não a túnica de teu filho”. Gn 37.32

    Verdade Aplicada

    Para compreendermos o valor da âncora, é preciso enfrentar uma tempestade.

    Objetivos da Lição

    ?      Mostrar que Deus não se es­quece das suas promessas;

    ?      Demonstrar que a confiança em Deus nos faz avançar nos momentos de adversidades; e

    ?      Ensinar que a colheita é o resultado do que plantamos.

    Textos de Referência

    Gn 35.27 E Jacó veio a Isaque, seu pai, a Manre, a Quiriate-Arba (que é Hebrom), onde peregrinaram Abraão e Isaque.

    Gn 37.28 Passando, pois, os mercadores midianitas, tira­ram, e alçaram a José da cova, e venderam José por vinte mo­edas de prata aos ismaelitas, os quais levaram José ao Egito.

    Gn 37.31 Então, tomaram a túnica de José, e mataram um cabrito, e tingiram a túnica no sangue.

    Gn 37.32 E enviaram a túnica de várias cores, e fizeram levá-la a seu pai, e disseram: Temos achado esta túnica; conhece agora se esta será ou não a tú­nica de teu filho.

    Gn 37.33 E conheceu-a e disse: É a túnica de meu filho; uma besta-fera o comeu, certamente foi despedaçado José.

    Gn 37.34 Então, Jacó rasgou as suas vestes, e pôs pano de saco sobre os seus lombos, e lamen­tou a seu filho muitos dias.

    Gn 37.35 E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem;

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

    José Vendido como Escravo (Gn 37.12-28)

     

    A noite antecede ao dia, e assim também José não poderia evitar seu exílio. Seus traiçoeiros irmãos só não se tornaram fratricidas por intervenção do mais misericordioso, Rúben (vs. 21). Em vez de ser morto, José foi vendido como escravo, tal como Jacó, antes dele, por causa da ira de Esaú, tinha sido forçado a exilar-se junto a Labão, em Padã-Arã. Assim, a história estava-se repetindo. A providência de Deus cuidou de ambos os casos. Grandes vitórias esperavam por José — porém estas não ocorreriam de pronto, mas somente depois de muitos sofrimentos e vicissitudes boas e más.

     

    37.12 Em Siquém. Apanha-nos de surpresa o fato de que Jacó tivesse enviado seus filhos de volta a Siquém, cena do rapto de Diná e da matança dos súditos de Hamor (Gn 34). As coisas devem ter-se acalmado consideravelmente para que ele tivesse tido a coragem de fazer tal coisa. Os críticos supõem certa deslocação histórica, pensando que a fonte infor­mativa da história, J, dizia que Jacó e sua família continuavam residindo ali, não sabendo de outras histórias que já o faziam estar em Hebrom.

     

    Siquém ficava a cerca de oitenta quilômetros de Hebrom, e Dotã ficava mais vinte e quatro quilômetros para o norte (vs. 17). Portanto, de acordo com os padrões da época, estavam envolvidas consideráveis distâncias. Alguns estudio­sos opinam que parte da razão para os filhos de Jacó terem sido enviados a Siquém foi averiguar se o território (presumivelmente bom para pasto) oferecia segurança ou não.

     

    As riquezas de Jacó são ilustradas no texto. Por qual razão ele teria procura­do terras de pastagem, distantes mais de cem quilômetros de onde estava, a menos que possuísse grandes rebanhos e precisasse de muito espaço?

     

    37.13 Eis-me aqui. José estava disposto e pronto para ir em sua missão de miseri­córdia. Seus irmãos estavam ausentes, em Siquém. É provável que fizesse algum tempo que Jacó não recebia notícias da parte deles, e estivesse preocupado com o seu bem-estar. A José foi confiada então essa missão de averiguar como estavam as coisas. Isso armou o palco para uma história negra, de ódio e cruelda­de. Jacó não veria mais seu amado filho José por muitos anos, supondo, durante todo esse tempo, que José estivesse morto.

     

    O lugar, Siquém, era perigoso, por causa dos incidentes descritos no capítulo trinta e quatro. E Jacó queria ter certeza de que os seus filhos não tinham sido envolvidos por algum dano, pelo que a missão de José se revestia de considerá­vel importância.

     

    37.14 Os filhos e os rebanhos constituíam toda a riqueza de Jacó, ocupando toda a sua atenção. O bem-estar deles era da máxima importância para Jacó. Na vida de um homem, essas são as coisas mais importantes. Porém, havia uma falha fatal no paraíso de Jacó. Onze irmãos cultivavam o ódio em seu coração contra um irmão. Isso nos faz lembrar de como os irmãos de Jesus, por longo tempo, foram hostis a Ele.

     

    É irônico que os filhos de José estivessem livres de perseguição dos habitan­tes de Siquém, por parte de quem tinham sido tão maltratados, ao passo que José, irmão deles, não estava seguro entre seus irmãos.

     

    Diz o Targum de Jonathan: “Temo que os horeus tenham vindo e os tenham ferido, por haverem matado a Hamor e a Siquém, bem como aos habitantes daquela cidade”.

     

    37.15 Não Estavam Mais em Siquém. José não os encontrou nas proximidades de Siquém, onde Jacó pensara que estariam. Mas um certo homem dali, com quem José se encontrou, sabia que eles se tinham ido para Dotã (vs. 17). Os escritores judeus consideram esse homem um anjo que estava com José para guiá-lo. Mas o texto não indica nada de incomum. O homem pode ter sido um viajante (conforme sugeriu Aben Ezra), ou, então, alguém que arava o campo. Fosse como fosse, José encontraria ajuda para as coisas mais insignificantes, como parte das bênçãos diárias de Deus.

     

    37.16 Dize-me onde. José pediu, e foram-lhe dadas orientações. Coisa pequena, mas importante para o momento. Tudo fazia parte de uma missão mais ampla. Nossas missões envolvem coisas pequenas e coisas grandes.

     

    37.17 Vamos a Dotã. No hebraico, essa palavra significa duas fontes ou festa dupla (aqui e em II Rs 6.13). Ficava cerca de noventa e sete quilômetros ao norte de Jerusalém e a cento e cinco quilômetros de Hebrom. Por ali passava uma rota de caravanas que ia da Síria ao Egito. A região era conhecida por sua excelente pastagem, e, naturalmente, esse fato atraíra até ali os irmãos de José. Essa cidade é deveras antiga, e muitas descobertas arqueológicas têm sido feitas ali. Até hoje, os pastores vêm do sul da Palestina àquela região a fim de dar água e pasto a seus rebanhos. O arqueólogo Free encontrou noventa rebanhos na estrada que vem de Jerusalém.

     

    Começam Dificuldades Sérias. Finalmente, José encontrou-se com seus trai­çoeiros irmãos. Incidente tão corriqueiro em breve redundaria em uma tremenda aventura, com sua mistura de tristeza e alegria, derrota e triunfo.

     

    José era um jovem diferente que atravessou o caminho de seus irmãos. Era diferente deles. E eles haveriam de puni-lo por causa disso. Com frequência, até mesmo em boas famílias, um filho que se destaque provoca a hostilidade de outros membros da família que não querem que ele cresça.

     

    Os menos brilhantes podem desenvolver-se junto com os mais brilhantes; mas é mais fácil criticar e perseguir do que crescer, e, normalmente, as pessoas preferem o caminho da menor resistência. É tão possível a uma pessoa ser magnânima quanto ser maldosa; e ser maldosa concorda melhor com a natureza humana caída. É errado suprimir e distorcer uma personalidade por ser ela dife­rente. A perseguição, quase sempre, é produto de mentes inferiores. E mesmo quando não seja assim, será sempre produto de almas inferiores.

     

    37.18 Conspiraram contra ele. Este versículo é um terror. José era tão odiado que o simples fato de o virem de longe deixou-os irados, o rancor fervendo em seus corações. Se o encontrassem em um elevador (em tempos modernos), tê-lo-iam ignorado. Se o vissem caminhando por uma rua, teriam atravessado a rua para o outro lado. Se o vissem apanhar um ônibus, teriam esperado por outro.

     

    “Entraram em entendimento e traçaram os mais astuciosos métodos que foram capazes de imaginar de tirar-lhe a vida, mas ocultar o homicídio” (John Gill, in loc.).

     

    37.19 Vem lá o tal sonhador! Isso eles disseram para lançarem José no ridículo, desprezando o dom espiritual que Faraó haveria de respeitar e pelo qual o Egito seria salvo de uma fome calamitosa. O profeta José não era honrado entre seus irmãos, tal como Jesus não foi respeitado entre os Seus (Mt 13.57). Quanto a essa e outras questões, José tipificava o Messias. No hebraico temos a expres­são “senhor dos sonhos”, uma frase escarninha em extremo. Eles tinham assassi­nado a muitos siquemitas para vingar a Diná, irmã deles (Gn 34.24-29), mas não consideravam o próprio irmão deles melhor do que os pagãos a quem tinham matado traiçoeiramente.

     

    37.20 Matemo-lo… e diremos. Eles planejaram encobrir um homicídio com uma mentira. Ficamos boquiabertos diante do vil caráter dos irmãos de José, patriarcas de Israel. Somente a graça de Deus poderia insuflar alguma decência em tais indivíduos. Ver no Dicionário os artigos Homicídio e Mentir (Mentiroso). Foi de uma maneira extremamente trivial que eles planejaram quebrar a dois princípios que, posteriormente, fariam parte dos Dez Mandamentos. O relato é tão terrível, retratando com tão negras luzes o caráter daqueles homens, que alguns eruditos têm chegado a pensar que tudo não passa de uma lenda dramática, algo que realmente não pode ter acontecido. “Eles devem ter sido selvagens sem nenhum princípio!” (Adam Clarke, in loc.).

     

    Numa destas cisternas. Escavações feitas para coletar a água da chuva, para efeitos agrícolas e para dessedentar os animais. Ver Jr 38.6. Os intérpre­tes judeus acusaram Simeão de ser o principal instigador do plano, supondo que por esse motivo José mandou deixá-lo amarrado na prisão, no Egito (Gn 42.24). Mas não há como averiguar se essa informação está ou não com a razão.

     

    37.21 Rúben Faz Objeção. Rúben conseguiu convencer os outros a não executa­rem o plano homicida contra José. O vs. 22 mostra que Rúben tinha planejado resgatar José, voltando mais tarde à cisterna, a fim de libertá-lo dali. Portanto, aquele que aparentemente havia estuprado Bila (uma das concubinas de Jacó) pelo menos tinha algum princípio moral. Ver Gn 35.22. Judá também quis pou­par José, mas estava pensando mais em termos de dinheiro, e não em termos de misericórdia (vs. 26). Pelo menos, no caso de Rúben, houve um raio de luz que brilhou no quadro, em tudo mais, tenebroso. O caso de José ilustra a quais profundezas de depravação um homem é capaz de afundar-se.

     

    Josefo pôs nos lábios de Rúben um longo e floreado discurso de defesa, ao explicar esta passagem. E, realmente, é quase certo que Rúben disse alguma coisa eloquente a seus irmãos, desviando do mal seus corações malignos.

     

    37.22 Lançai-o nesta cisterna. Pela providência divina, esta estava seca, pois, se assim não fora, ter-se-ia afogado. Rúben estava pensando na tristeza avassaladora que Jacó sofreria, diante da morte de José. Tinha apenas dezessete anos e era o filho favorito de seu pai. Seu coração comoveu-se, e, então, apresentou um plano alternativo, que parecia decretar a morte de José (até onde os outros irmãos entenderiam a questão), mas daria a Rúben a oportunidade de reverter o curso das más ações dos irmãos de José. O trecho de Gn 42.21 dá-nos a patética mensagem de que José ficou angustiado e começou a implorar por sua vida, o que seus irmãos levaram tão pouco a sério. Eles estavam apanhados no vórtice de seus pecados. Kant baseou um argumento moral sobre a necessidade de recom­pensa ou de retribuição em favor da existência da alma e de sua sobrevivência diante da morte biológica. Em algum ponto, cada homem precisa encontrar-se consigo mesmo, quanto ao bem e quanto ao mal. Cada indivíduo deverá receber recompensa ou punição pelo que tiver praticado, pois, se assim não fora, então viveríamos em um mundo dominado pelo caos. Vendo que nem a recompensa nem o juízo são devidamente aplicados nesta esfera terrena, então deve haver uma “vida além” onde as contas serão devidamente pagas.

     

    Talvez Rúben tenha pensado que poderia pagar algo da dívida de seu peca­do, que cometera contra seu pai, contrabalançando o seu erro mediante um ato de bondade que seria vital para ele. Seja como for, o arrependimento deve incluir, sempre que possível, atos de reparação.

     

    37.23 Uma Maldade Ansiosa por Manifestar-se. Os irmãos de José não hesitaram. Agarraram-no, tiraram-lhe a túnica preciosa, lançaram-no na cisterna e, ato contí­nuo, de corações insensíveis, sentaram-se para comer (vs. 25). Há pessoas más que são tão destituídas de consciência, que ficamos perplexos. Alguns dos mais graves pecados são praticados de maneira a mais trivial e insensível.

     

    …para que sejamos livres dos homens perversos e maus; porque a fé não é de todos” (II Ts 3.2).

     

    37.24 Cisterna, vazia, sem água. Isso por providência divina. As circunstâncias eram dificílimas. Talvez José tenha sido deixado totalmente despido, conforme pensavam alguns intérpretes judeus. Como quer que tenha sido, sua situação era desesperadora.

     

    A Experiência na Cisterna. Todo homem, em algum tempo em sua vida e, provavelmente, por muitas vezes, tem a sua experiência na cisterna. Os peca­dos acham-se no abismo da degradação. Até homens espirituais sofrem rever­sões sérias que os deixam como que em uma cisterna. “Moral e espiritualmen­te… a alma do homem está em um buraco. A percepção do fato pode ocorrer como um choque abrupto. José, em um momento, caminhava sob a luz do dia, em sua túnica multicolorida; no momento seguinte, estava em uma cisterna, em meio à escuridão. Em um momento, parecia de nada precisar; no momento seguinte, já precisava de tudo. Assim acontece à alma humana. Da auto-suficiência, pode ser imersa em total impotência e desesperadora necessidade de Deus. No entanto, no pior momento de José, havia forças insuspeitas que se movimentavam para libertá-lo. . . isso vemos no Salmo 40.2 (Walter Russell Bowie, in loc.):

     

    Tirou-me de um poço de perdição, dum tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos.

     

    O Targum de Jonathan diz que havia serpentes e escorpiões no fundo da cisterna, e Jarchi salientou que ali não havia água. Nesse caso, José morreria de sede, se alguma outra coisa não o matasse primeiro.

     

    37.25 Sentando-se para comer pão. Aqueles homens ímpios e desarrazoados, embora ouvindo os gritos de desespero de José (Gn 42.21), foram capazes de ficar sentados para comer pão. José não merecia ser posto na cisterna. Havia bondade essencial em sua pessoa, e, além disso, tinha uma grande missão a cumprir fora da cisterna. Mas o propósito de Deus atuava para tirá-lo da cisterna. E enquanto os seus irmãos comiam, naquele momento se aproximava uma cara­vana de ismaelitas, que, vindos de Gileade, se encaminhavam para o Egito. Isso livraria José de sua aflição momentânea. Esse foi o primeiro passo no desenvolvi­mento do plano maior. O propósito de Deus opera passo a passo, cada vez aproximando-se mais do seu cumprimento. José estava na trilha certa.

     

    Dotã ficava localizada na rota das caravanas, por onde produtos vindos da Índia e da Ásia Ocidental eram levados ao Egito. “Visto que o lado oriental de Canaã estava coberto pelo grande deserto da Arábia, as caravanas tinham de viajar em uma direção sudoeste até que, tendo vadeado o rio Eufrates, atraves­sassem de Tadmor a Gileade. Dali, a rota tomada conduzia os caravaneiros para além do Jordão, em Beisã, e daí, seguindo para o sul, avançavam até o Egito” (Ellicott, in loc).

     

    Ismaelitas. No vs. 36, eles são chamados “midianitas”. Os Targuns e a versão siríaca dizem “árabes”. Midiã era filho de Abraão e Quetura, e Ismael era filho de Abraão e Hagar. Eruditos antigos e modernos têm lutado com essas variantes, e alguns têm mesmo suposto que José foi vendido por mais de uma vez — de seus irmãos para os ismaelitas; dos ismaelitas para os midianitas — antes de ter chegado ao Egito. Por outra parte, havia uma mistura de povos, apesar de suas origens distintas, e provavelmente o autor sagrado não foi cuida­doso com o uso de adjetivos pátrios.

     

    Arômatas, bálsamo e mirra. Quanto aos arômatas, está em pauta o tragacanto ou estoraque (Gn 30.37), ou seja, especiarias. Mas os estudiosos não concor­dam quanto à identificação exata dos itens envolvidos.

     

    37.26 Judá Pensou em Termos de Dinheiro. De que adiantaria a morte insensata de seu meio-irmão? Ele queria ganhar algum dinheiro, e a aproximação da caravana dava-lhe oportunidade de negociar. Não estava interessado em mostrar dó. Nem aventou: “Sejamos misericordiosos com José”. Mas sugeriu: “Vamos ganhar algum dinheiro com José”. E assim, se José escapasse da morte, seria forçado, devido às mentiras deles, a sofrer a tristeza por uma pseudomorte, enfrentando anos de profunda tristeza. Mas que lhes importava isso? Eles dividiriam as vinte peças de prata (vs. 28). Essa era a sua consolação, enquanto José entraria em uma situação deveras desesperadora. Assim, José foi livrado de um grande mal, apenas para sofrer mal ainda maior. Mas Deus estava com ele, em todas as suas experiências.

     

    Nada acontece por mero acaso. Também não foi por coincidência que surgiu no horizonte a caravana, em um momento tão oportuno. Uma “coincidência” bem colocada pode ser uma pequena piada da providência divina que, através disso, diz: “Surpresa! Vê! Estou contigo!”. Há poder por trás da providência divina, mas esse poder não se faz conspícuo, e somos apanhados de surpresa.

     

    37.27 Pois é nosso irmão. Por essa razão, eles usaram de um pouco de miseri­córdia, mas de olho no dinheiro que ganhariam com a venda de José. Alegraram-se diante da alternativa que os poupou de praticarem o maior mal, e que também lhes daria um lucro pecuniário. Parecia-lhes uma perfeita (má) solução.

     

    Operação Divina. Para os irmãos de José, aquele ato era, definitivamente, o fim do sonhador e de seus sonhos arrogantes. Na verdade, porém, tudo aquilo era apenas parte necessária do cumprimento de seus sonhos precognitivos. O plano não poderia dar certo se José não chegasse ao Egito. E assim, o que eles tinham planejado para o mal, Deus estava fazendo redundar para o bem, exatamente o que José disse muitos anos mais tarde (Gn 50.20). Esse bem operaria em favor não somente de José, de seus irmãos e da vindoura nação de Israel, mas igual­mente de muita gente que seria beneficiada pela presença de José no Egito, pois seriam todos salvos de morrer por inanição.

     

    37.28 Vinte siclos de prata. Siclo era um peso, e não uma moeda. Pesava cerca de 11,7 g. Multiplicando isso por vinte, temos pouco mais de duzentos e trinta gramas de prata. O trecho de Lv 27.5 mostra que esse era o valor de um escravo com menos de vinte anos de idade. Não há como calcular seu valor monetário, de acordo com padrões modernos. Jesus foi vendido por Judas Iscariotes por trinta moedas de prata (Mt 26.15). Portanto, José foi um tipo de Cristo, conforme se vê nas notas sobre o terceiro versículo deste capítulo.

     

    37.29 Volta Rúben à Cisterna Vazia. Não nos é dito por que Rúben não estava comendo com os outros irmãos, nem para onde tinha ido, nem porque agora reaparecia na cena, somente para encontrar vazia a cisterna. Ele tinha planejado retirar José da cisterna e devolvê-lo ao seu pai (vs. 22). Mas seu plano fracassou; e assim, consternado, rasgou suas vestes, um antigo símbolo oriental de profunda consternação, tristeza ou ira. Os intérpretes judeus dizem que Rúben se havia separado dos demais, tinha ido até um monte, e ali estivera esperando que os irmãos se fossem, para que viesse secretamente resgatar a José. Rúben rasgara suas vestes, angustiado. Jacó faria a mesma coisa (vs. 34). Mas um Novo Dia haveria de raiar, a despeito da escuridão daquela noite.

     

    37.30 Não está lá o menino. Teria ele desaparecido? Estaria morto? Agora, que poderia fazer Rúben? Suas perguntas refletiam sua consternação e perplexidade. Admiramo-nos diante do coração calejado de seus irmãos. Mas assim funcionavam as antigas mentes selvagens. Lemos as obras de Homero, a llíada e a Odisséia, e maravilhamo-nos diante do poder e da graça de sua literatura. De fato, tais obras são da mais fina arte poética. Contudo, o que elas refletem? Matanças e mais matanças, golpes de espada sem nenhuma misericórdia. E, então, indagamos se a cena moderna é melhor do que isso. Os homens agora liquidam grandes contingen­tes populacionais, e poucos sentem alguma repulsa ou remorso. Os nossos heróis continuam sendo os que mais matam, e a ciência devota-se a aprimorar os meios de matança. Davi foi chamado homem segundo o coração de Deus, e, no entanto, houve ocasiões em que mostrou ser um matador insensato e sem dó. Calvino iniciou uma denominação cristã, mas tornou-se culpado de muitos homicídios, banimentos e aprisionamentos dos que discordavam de sua doutrina.

     

    Rúben era o irmão mais velho. Jacó haveria de reputá-lo responsável. Ele já havia cometido um grave erro ao forçar Bila, concubina de Jacó. Agora, essa calamidade seria adicionada à outra. No entanto, acima dos resultados que ele temia, Rúben sentia-se genuinamente devastado, diante da perda de José, ao qual chamou de menino, embora já tivesse dezessete anos de idade.

     

    37.31 A Fraude. José fora levado pelos ismaelitas. Mas agora era preciso fingir uma razão para a sua ausência. A túnica preciosa de José foi manchada com o sangue de um bode. Agindo como animais, culparam um animal pela pseudomorte.

     

    Eles praticavam maldade após maldade, em uma produção interminável. Um erro era coberto por outro. Um pecado acaba criando uma cadeia de pecados. Eles tinham cometido um crime contra José, e agora cometeriam um crime contra Jacó. Estavam envenenando seu relacionamento com seu próprio pai; e assim violaram sua posição de filhos.

     

    “Maimônides pensava que uma das razões por que bodes por tantas vezes eram abatidos e usados como ofertas pelo pecado, sob a lei levítica, era relembrar os israelitas desse grande pecado cometido pelos seus patriarcas” (Ellicott, in loc.). Os Targuns de Jonathan e Jarchi observaram que o sangue de um bode é o mais parecido com o sangue humano, pelo que a fraude seria extremamente convincente em sua aplicação.

     

    37.32 A túnica talar tornou-se um emblema de ludibrio e de tristeza. Jacó tinha presenteado José com aquela túnica especial, como sinal de seu amor e favorecimento. Agora lhe era devolvida, pelos traiçoeiros irmãos de José, a fim de lhe partir o coração. E o ludibrio prosseguiu, quando eles deram a entender que talvez a túnica pertencesse a José. Forçaram Jacó a identificá-la! “A mentira deles, uma vez pespegada, contaminou todas as relações dentro da família” (Walter Russell Bowie, in loc). “Quanta deliberada crueldade para torturar os sentimentos do idoso pai, e assim esmagar a sua alma!” (Adam Clarke, in loc.). Lograram êxito, mas esse pecaminoso êxito haveria de enredá-los algum dia. Nem todo sucesso é bem-sucedido. Há supostos sucessos que são o mais doloroso tipo de fracasso. Platão disse que a pior coisa que pode suceder a um homem é que ele pratique o mal, mas nada sofra por isso. Se isso suceder, a alma desse homem aprenderá a tornar-se habitualmente corrupta.

     

    37.33 É a túnica de meu filho. O coração do pai se partiu, e assim, em ato reflexo, Jacó rasgou suas vestes. A túnica preciosa, seu presente especial, tornou-se mensageira de agonia. Somos levados a relembrar a túnica inconsútil de Jesus, que se tornou objeto de um jogo, para se saber com qual soldado romano ela ficaria (Jo 19.23,24). Ambas as vestes tornaram-se emblemas de tristeza e de aparente derrota. “Assim como a túnica estava rasgada, assim também deve estar despedaçado o corpo de José, meu filho amado! E assim pensando, Jacó rasgou suas vestes” (Adam Clarke, in loc.).

     

    “. . .imaginemos como, com o coração pulsando forte, com os membros trêmulos, com as mãos contorcendo-se, com os olhos vertendo lágrimas e com a voz daudicante, ele [Jacó] deve ter proferido essas palavras” (John Gill, in loc.).

     

    37.34 Jacó rasgou as suas vestes. Tal como Rúben tinha feito, e pela mesma razão (vs. 29).

     

    se cingiu de pano-saco. Em lugar de suas vestes usuais, vestiu-se de uma roupa grosseira, símbolo apropriado de sua tristeza e consternação. Provavelmente estão em pauta peles de animais. Ver também Gn 44.12; Jó 1.20 e 16.15.

     

    Por muitos dias. Tantos, que em muito ultrapassaram o período usual de luto. Jarchi falava em vinte e dois anos, até que também desceu ao Egito, e ali encontrou-se com José, vivo!

     

    O trecho de Gn 45.26-28 nos dá alguma ideia da intensa tristeza que Jacó sofreu por causa da questão. Somente ao tomar conhecimento de que José estava vivo, foi que “reviveu-se lhe o espírito” (Gn 45.27).

     

    37.35 Reúne-se a Família de Jacó. Procuraram consolar a Jacó, mas foi tudo inútil. Somente o tempo pode curar certas tristezas. Note-se aqui o plural, todas as suas filhas. Sem dúvida, havia ao menos duas. E Jacó deve ter tido várias filhas, embora somente Diná seja mencionada no livro. O Targum de Jonathan chama essas mulheres de esposas de seus filhos, mas não seria nada incomum se não tivessem sido mencionadas filhas.

     

    Sepultura. No hebraico, sheol (que significa tanto sepultura quanto o “hades” do Novo Testamento). Mas não fica claro o que Jacó quis dizer, pois não se sabe até que ponto tinha evoluído a doutrina do sheol, nos dias de Jacó. Nos tempos mais primitivos, a teologia dos hebreus não incluía crença na alma imaterial e imortal. O Pacto Abraâmico é repetido por cerca de doze vezes no Antigo Testamento, sem nunca fazer promessa de vida eterna no pós-túmulo. Quando o sheol veio a significar algo além da sepultura, indicava uma dimensão de sombras na qual havia uma quase não-existência, em que as sombras de homens (e não almas reais e inteligentes) flutuariam sem rumo. Essa doutrina era paralela à nossa teoria dos fantasmas, em contraste com os espíritos.

     

    Com o tempo, porém, o sheol passou a ser concebido como o lugar das almas desencarnadas, boas e más. Esse lugar teria duas divisões, uma para as almas boas e outra para as almas más. O sheol seria uma espécie de gigantesca caverna subterrânea.

     

    Jacó, pois, parece não ter dado a entender mais do que o fato de que, algum dia, ao morrer, seguiria a José à sepultura (o que corresponde à interpre­tação de nossa versão portuguesa). Ou ele pode ter dado a entender que, à semelhança de José, ele iria para a dimensão das sombras, onde as almas levavam uma vida de quase não-existência. Todavia, ele pode ter querido dizer que se encontraria com José no lado bom do “sheol”, para onde vão verdadei­ras almas humanas. Mas o livro de Gênesis nunca nos fornece um conceito claro a respeito, não sendo provável que seja isso que está em pauta neste texto. Mas os intérpretes que cristianizam o texto dizem-nos que isso é o que está em pauta aqui.

     

    37.36 Os midianitas. Eles são chamados ismaelitas no vs. 25. Talvez um adjetivo pátrio pudesse ser usado intercambiavelmente com o outro, visto que havia misturas raciais. Ou, então, “ismaelitas” fosse um termo genérico para indicar as nações de vida nôma­de no deserto. Ou, então, na opinião de alguns (embora com menores probabili­dades), os ismaelitas tenham revendido José para os midianitas.

     

    Potifar. No egípcio, esse nome é uma forma contraída de Potífera, que signifi­ca “aquele a quem Rá [o deus sol] deu”. Gn 39.1-20. Ele era um oficial militar de Faraó. Os irmãos de José, filho de Jacó, tinham-no vendido para ser escravo. E José terminou ficando na casa de Potifar (sem dúvida, por ter sido comprado por ele). Ali, José mostrou ser um jovem dotado de honestidade, habilidade e ambição para melhorar. Foi assim que Potifar acabou fazendo dele o mordomo de sua casa, entregando-lhe grandes responsabilidades. Porém, a esposa de Potifar voltou os olhos para aquele notável jovem, e, em várias oportunidades, tentou seduzi-lo sexu­almente. Mas José, sendo jovem temente a Deus, resistiu às tentativas. Despreza­da, ela acusou-o de tentar fazer exatamente o que ela havia tentado. Parece que Potifar acreditou nela; ou então, pelo menos, querendo manter a tranquilidade doméstica, lançou José na prisão. A história é narrada no capítulo trinta e nove do Gênesis. Isso aconteceu por volta de 1890 A. C. E nada mais é dito acerca de Potifar na Bíblia.

     

    Na prisão, o carcereiro também reconheceu o valor de José, e terminou por entregar-lhe responsabilidades (Gn 40.3,4). Alguns estudiosos pensam que o carcereiro era o mesmo Potifar, mas a maioria dos eruditos rejeita a ideia.

     

    Bibliografia R. N. Champlin

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