Autor: Eduardo Melo

  • PREGAÇÃO – E PREGADORES – EM CRISE!

    Preludiarei esta disciplina de introdução àHomilética compartilhando algumas histórias interessantes (e talvez cômicas) a respeito de pregadores e suas pregações. Poderia evidentemente empregar outro estilo de abordagem prefaciai. Acredito, todavia, que esta também será indispensável.

    Uma vez um clérigo anglicano preguiçoso. Há muito abandonara o trabalho de preparar seus sermões. Bastante inteligente e excelente orador por natureza, sua congregação consistia em pessoas simples. Assim, seus sermões despreparados eram razoavelmente bem aceitos. No entanto, para poder conviver com a própria consciência, fez um voto: sempre pregaria extemporaneamente e confiaria no Espírito Santo. Tudo corria bem até que, certo dia, poucos minutos antes de começar o culto matinal, quem entrou na igreja e sentou em um dos bancos? O bispo! Estava desfrutando de um domingo de folga. O pastor ficou constrangido. Durante anos, conseguiu blefar sua congregação inculta, mas estava bem menos seguro quanto à capacidade de ludibriar o bispo. Foi, então, dar boas vindas ao visitante inesperado e, num esforço para diminuir as possíveis críticas da parte deste, contou-lhes sobre o voto solene que fizera no sentido de sempre pregar sermões extemporâneos. O bispo parecia compreender, e o culto começou. No meio do sermão, entretanto, o bispo se levantou e saiu, deixando o pregador muito consternado. E depois do culto, achou na mesa da sala pastoral um recado que o bispo rabiscara rapidamente:

    “Absolvo você do seu voto!”

    Havia, ainda, um jovem pastor presbiteriano americano, cujo pecado dominante não era a preguiça, mas a presunção. Frequentemente, jactava-se em público que o único tempo que precisava para preparar seu sermão de domingo eram os poucos momentos necessários para andar até à igreja, a casa vizinha. Talvez você possa imaginar o que os presbíteros fizeram: compraram para a igreja uma casa pastoral a oito quilômetros de distância!1

    Pregação – e Pregadores – em Crise!

    As referidas históricas, compartilhadas pelo egrégio John Stott, um gigante do púlpito dessas últimas décadas, reiteram duas grandes verdades nesta era pós-moderna:

    1. A pregação evangélicas está em crise em muitas igrejas. E quais são os principais culpados? Deus? Jesus Cristo? O Espírito Santo? Ou seria Satanás? Os demônios, talvez? A igreja? Ou os grandes culpados são, na verdade, os próprios pregadores? E será que é possível, além de identificar os culpados, encontrar a saída para esta terrível tragédia que invade as comunidades de fé?
    2. Os pregadores evangélicos, pelo menos muitos deles, também vivem uma fase crítica. A crise na pregação, na verdade, deve-se irrefutavelmente a crise que atingiu os próprios expoentes da Palavra de Deus; uma coisa leva a outra, principalmente nesse caso, haja vista que pregador e pregação devem estar sempre coesos, em compasso, em perfeita harmonia.

    As ilustrações supracitadas, embora cômicas, são terrivelmente trágicas. Elas refletem a indesejável e preocupante realidade de vários segmentos evangélicos atuais. A pregação também está em crise em outras ramificações denominacionais. Conquanto Stott tenha citado a título de exemplo pregadores de igrejas históricas, a situação é similar no Pentecostalismo e, pior ainda, no Neopentecostalismo brasileiro. Há, inclusive, quem vaticina o fim da pregação; dizem, alguns, que a prédica cristã não terá vida por muito tempo. E esperar pra ver. Ressalto, porém, que o fracasso atual da pregação não está acontecendo por acaso. Vários fatores estão comprometendo sua eficiência e eficácia.

    Por que a Pregação Está em Crise? Quais São os Principais Responsáveis?

    A crise da pregação não ficou circunscrita às denominações tradicionalmente históricas. Atingiu em cheio também as comunidades de confissão pentecostal, especialmente aquelas de segunda geração. Presumo, porém, que a situação é mais grave nas igrejas neopentecostais; basta observar o conteúdo de tais mensagens para entender minha pressuposição.

    Enquanto alguns pregadores de igrejas históricas engessaram suas mensagens porque não querem atualizar seus métodos discursivos, alguns oradores pentecostais destacam-se exatamente porque são expertsem inovação discursiva. Um problema grave, nesse caso, é falta de conteúdo bíblico e teológico; quanto a vários pregadores da ala neopentecostal (que segundo as últimas estatísticas é o que mais cresce no Brasil), a deficiência crucial também está no conteúdo da mensagem: suas “prédicas”, se é que posso assim classificá-las, são meras citações de textos fora do contexto que prometem ao povo sucesso financeiro, saúde, felicidade plena, etc.

    Não é sem razão que boa parte dos sermões pregados atualmente não ajuda a igreja a adorar a Deus (na vida e no culto!), não favorece a evangelização, não edifica os santos nem incentiva à ação social (aréa esta imprescindível num país com tamanhas desigualdades sociais, como o Brasil). E qual é a utilidade de um sermão que não traz à memória da Igreja suas funções cruciais nem a capacita a realizá-las, conforme os propósitos de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador?

    Após pesquisar algumas obras de especialistas neste assunto cheguei a algumas conclusões. As mesmas, conquanto tenha o respaldo de outros pesquisadores, podem ser percebidas por qualquer pessoa atenta. A seguir ressaltarei sucintamente quatro fatores que estão comprometendo a pregação cristã. Confira-os:

    1. Falta de conversão genuína dos próprios pregadores.
    2. Excesso de “espiritualidade” (e falta de preparo).
    3. Desprezo à capacitação bíblica e teológica.
    4. Pluralismo e pragmatismo religioso: diluir a Palavra de Deus para não perder fiéis.

    1. Falta de Conversão Genuína dos Próprios Pregadores

    O descompasso entre a prédica e a vida do pregador é um dos principais responsáveis pelo fracasso da pregação evangélica em nossos dias. A sociedade está saturada de gente que prega, mas não vive, fala, mas não faz. E tolice pensar que todos aqueles que pregam a Palavra do Eterno também praticam-na. Grassa nas igrejas evangélicas os oradores profissionais, animadores de auditórios, pregando sermões com as piores motivações possíveis: ganância, inveja, sede de poder, busca de popularidade, etc. E, uma motivação pecaminosa seguida de um comportamento similar, só poderia ser trágico.

    Al Martin alertou que todos os fracassos na pregação de nossos dias envolvem, basicamente, as falhas do homem que prega e da mensagem que ele anuncia. E a menos que queiramos degradar a pregação ao nível de mera arte da elocução, nunca podemos olvidar-nos de que o solo onde medra a pregação poderosa é a própria vida do pregador. Essa é a grande questão que faz a arte da pregação ser diferente de todas as demais artes de comunicação. 2

    César Cézar reitera que não existe nada que pregue mais alto do que uma vida vivida segundo a vontade do Senhor, cheia de testemunho, repleta de experiências que enriqueçam até o mais indouto ouvinte.3

    Hans Ulrich Reifler, autoridade neste tema, arremata: O pior que pode acontecer ao pregador do evangelho é proclamar as verdades libertadoras de Cristo e, ao mesmo tempo, levar uma vida arraigada no pecado e em total desobediência aos princípios da Palavra de Deus. Por isso, Paulo escreveu: “(…) esmurro o meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1 Co 9.27).4

    O Dr. Russel Shedd, pregador raro, ao destacar a autoridade da Palavra, diz: “Mostre-me um crente que vive santa e piedosamente e eu lhe mostrarei uma pessoa que leva a Bíblia a sério. Karl Rahner disse que os cristãos são a razão de existirem ateus no mundo. “Aqueles que proclamam Deus com a boca e o negam com o estilo de vida é o que mundo incrédulo, acha incrível”.5

    2. Excesso de “Espiritualidade” – Desculpa Para Não Estudar a Palavra de Deus com Zelo e Constância!

    Este fator é oposto ao anterior. Se há, de um lado, pregador das Boas Novas fracassando na exposição da mensagem por falta de genuína conversão de vida, também há, de outro, um grupo igualmente significativo tornando-a infrutífera por se achar “espiritual”, “santo”, “puro” demais a ponto de não precisar estudar a própria Bíblia.

    Há, sim, curiosa e lamentavelmente, “pregador” que presume erroneamente que sua “santidade” basta para transformá-lo num “gigante do púlpito”. Imagina que quando tiver a oportunidade de pregar uma mensagem precisa somente abrir a boca e as palavras divinas, inspiradas pelo Espírito Santo, sairão naturalmente. Pensa que, mesmo jamais fazendo sua parte, o Espírito Santo lhe dará uma unção especial e o sermão será um sucesso retumbante. Ledo engano! Esta mentalidade displicente precisa ser corrigida urgentemente!

    Não há dúvida de que a “santidade” é uma exigência de Jesus Cristo a qualquer pessoa que, tocada pelo Espírito Santo, confessa-o como Senhor e Salvador e decide servi-lo. Em Lucas 14.25-33 há algumas condições imprescindíveis para o discipulado:

    1. Um amor sem rival (afeições do coração).
    2. Levar a cruz (a conduta no viver).
    3. Uma entrega sem reservas (bens pessoais).6

    Novidade de vida é, sobretudo, característica de quem de fato renasceu. O êxito na prédica bíblica, no entanto, depende também de outros fatores: um deles é o estudo minucioso das Escrituras.

    John Calvino, o egrégio reformador, declarou com veemência: “Ninguém chegará a ser bom ministro da Palavra de Deus a não ser que seja, em primeiro lugar, um estudioso da mesma”. Charles H. Spurgeon, um dos maiores pregadores de todas as épocas, acrescentou: “Aquele que cessou de aprender cessou de ensinar. Aquele que já não semeia na sala de estudos, não mais semeará no púlpito”.7

    Pregador algum terá a aprovação de Deus se não for santo; e, pregador algum, terá a legitimação do público se preparar! Junte, então, as duas coisas! Faça, pregador, uma junção de zelo e inteligência, santidade e capacidade, poder e saber, pregação e prática…

    3. Falta de Capacitação Bíblica e Teológica

    Durante muitas décadas parte considerável das igrejas evangélicas brasileiras desprezou a capacitação bíblica e teológica. Julgava tais práticas irrelevantes e, em alguns casos, perniciosas à manifestação do Espírito Santo.

    Presumindo que a “letra” poderia sufocar a espiritualidade do rebanho (e por ainda não ter conseguido se libertar de algumas ideias oriundas do catolicismo romano, principalmente aquela que alegava ser exclusividade da liderança religiosa a capacidade de estudar, assimilar e ensinar a Palavra de Deus), repudiou-se categoricamente o estudo bíblico e teológico e disciplinas afins.

    Tal postura não atenuou a expansão quantitativa da Igreja no Brasil; revelou, no entanto, sua profunda deficiência bíblica, teológica e prática. A Bíblia, conforme foi dito na disciplina de Hermenêutica, ainda é um livro desconhecido para muitos evangélicos. Falta leitura sistemática, interpretação correta e prática condizente. O numericismo, em suma, não favoreceu o conhecimento bíblico-teológico.

    Pastores, teólogos, sociólogos, entre outros, concordam que o vertiginoso crescimento numérico da Igreja Evangélica Brasileira revelou sua capacidade de arregimentar novos súditos, bem como sua visível fragilidade bíblica, teológica, doutrinária e prática. 8

    O Dr. Wander de Lara Proença, pesquisador deste tema, cita alguns dos principais fatores que ocasionam tal situação:

    1. Facilidade para se exercer o pastorado no Brasil (pessoas ainda neófitas ou sem o mínimo de preparo bíblico e teológico auto intitulam-se pastores/as, alugam um salão e logo passam a ter um grupo de seguidores).
    2. Interesse em fazer a igreja crescer a qualquer preço (líderes, seduzidos pela tentação dos números, tornam superficial o ensino da Palavra).9

    Imagina, então, o que acontece quando há facilidade para se exercer o pastorado (além de fácil acesso, é promitente), o clima é marcado pela competição e a concorrência, os pressupostos capitalistas (números são indicadores de sucesso) moldam a visão e ação dos pregadores? O resultado está diante dos olhos de quem quer ver.

    4. Pluralismo e Pragmatismo Religioso: Diluir a Mensagem de Deus Para Não Perder Fiéis!

    Outro problema gravíssimo que a pregação autêntica da Palavra de Deus enfrenta em nossos dias é movimento filosófico-teológico; mencionarei, apesar da existência de outros, o pluralismo. Seus pressupostos adentraram sorrateiramente os portais cristãos e, alteraram, inclusive, o conteúdo da prédica. A mensagem, que deveria preservar os ensinos de Jesus e dos apóstolos, não passa de um discurso que apenas promete sucesso econômico, saúde física e bem-estar à pessoa que assume o papel de herdeira de Deus. Este é um dos fatores que estão no subsolo da conversão em massa nas igrejas evangélicas brasileiras atualmente.

    Para piorar a situação parte da liderança cristã, que infelizmente já ingressou no ministério tendo uma motivação pecaminosa (ganhar dinheiro, ter visibilidade, projeção social, etc), vendo que o homem pós-moderno tem a disposição várias opções e pode fazer suas escolhas preferenciais, entrou pra valer na competição. Não aceita perder fiéis para os seus concorrentes seja ele tradicional, pentecostal ou neopentecostal. Parece que vale tudo: desconstruir a imagem do concorrente através de programas radiofônicos e televisivos, jornais, revistas, livros… e, simultaneamente, usar os recursos midiáticos, para exaltar a eficiência e eficácia da sua própria marca no afã de manter os seus, atrair novos, e arrancar alguns adeptos que estão vinculados à concorrência. Ademais, como diz Rubem Amorese, perder é um péssimo negócio, afinal o desligamento de uma pessoa da igreja traz vários prejuízos: perde-se em animação e movimento; perde-se prestígio diante de outros ministros da cidade; perde-se sua capacidade de influir na política local; perde-se, na geração de receita.

    As principais minudências do pluralismo, mesmo o religioso, são as vastas alternativas oferecidas ao homem. O problema é quando o pregador dilui a mensagem de Deus para “fidelizar” a clientela. Logo igreja vira empresa, púlpito vira balcão, crente vira cliente, sacerdócio vira negócio, vocação vira profissão, pastor vira mero gestor… A busca por números a qualquer preço tem levado à ruína milhares de oradores. E não é somente no Brasil.

    Warren W. Wiersbe exortou que são numerosos os erros cometidos quando o objetivo do líder é apenas “conseguir resultados”.

    Em primeiro lugar, a pessoa preocupa-se com números. Depois começa a substituir a realidade espiritual por estatísticas, o que é semelhante a alguém ler a receita em vez de alimentar-se. Quantas pessoas estiveram presentes? Quantas se decidiram? Quantas se tornaram membros? De quanto foi a oferta? Todas essas coisas eram mais importantes do que se estávamos ou não glorificando a Deus durante a reunião. Não demorou muito para que a igreja deixasse de ser considerada pessoas em assembleia; tornou-se nomes e números num arquivo e, mais tarde, num computador. As pessoas já não eram uma finalidade em si mesmas; tornaram-se meios para um fim – conseguir multidões maiores e mais resultados”.

    Howard Crosby, chanceler da Universidade da Cidade de Nova Iork, há décadas já havia denunciado que as as igrejas estavam cheias de apelo aos desejos carnais e aos paladares estéticos; oratória brilhante, música científica, tópicos sensacionais e bancos de igrejas modernos são iscas para atrair as pessoas; e, pior, uma igreja é chamada próspera quando esses dispositivos miseráveis fazem sucesso.

    “(…) Expedientes humanos são muito ilusórios e atrativos, mas, infelizmente, muitos pregadores os empregam. Eles pensam que atrairão multidões e encherão os bancos da igreja; e, na verdade, isso até pode acontecer, mas estes não são os objetivos para os quais o Senhor enviou seus arautos. O sucesso não deve ser calculado por meio de casas cheias e aplauso popular, mas por meio de corações convictos e convertidos, assim como pelo fortalecimento da fé e da piedade do povo de Deus”.

    Esses são, em suma, alguns fatores responsáveis pela crise.

    (mais…)

  • Quem Induziu Davi a Fazer o Censo do Povo: Deus ou Satanás?

    Israel S. Reis

    “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”

    (Tg 1.13)ACF

    Introdução

    Em 2 Samuel 24.1, lemos: “E a ira do SENHOR se tornou a acender contra Israel; e incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá”

    No relato paralelo de 1 Crônicas 21.1,2 está escrito o seguinte: Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel. E disse Davi a Joabe e aos maiorais do povo: Ide, numerai a Israel, desde Berseba até Dã; e trazei-me a conta para que saiba o número deles

    A redação de 2 Crônicas 21.2 é muito semelhante à de 2 Samuel 24.2; não existe uma diferença significativa. No entanto, no que concerne ao primeiro versículo de cada capítulo que estamos estudando, parece que em 2 Samuel 24 foi o próprio Deus quem incitou Davi a realizar o recenseamento, mas em 1 Crônicas 21 teria sido Satanás, o adversário de Deus. Isso não representa uma discrepância, ou será que ambas as declarações estão certas? Em nenhum dos dois livros temos um contexto definido para a idéia de realizar-se um recenseamento, e não há meios de verificar se ele ocorreu antes ou depois da revolta de Absalão. Todavia, visto que esse cadastramento induziu indiretamente à aquisição do monte Moriá, que se tornaria o local do templo e dos palácios reais, deve ter sido feito vários anos antes do final da carreira de Davi. Só assim poderia ter tido ele a oportunidade de juntar tão grande quantidade de adornos caros os materiais de construção que Salomão mais tarde usaria a fim de erigir o templo (1Cr 29.3-5). Parece que Davi não estava totalmente consciente do que se passava no íntimo de seu coração, pois estaria talvez sendo induzido pelo orgulho por causa de tudo o que havia realizado, no que dizia respeito aos sucessos militares e à expansão econômica do povo. Ele começou a pensar mais de tropas e armamentos que na, misericórdia e fidelidade de Deus.

    Em sua juventude, Davi pusera toda sua confiança apenas em Deus, quer enfrentando Golias cor uma simples funda, quer lutando contra um exército inteiro de amalequitas, dispondo e apenas um punhado de soldados – ao todo quatrocentos. Todavia, nos últimos anos, ele viria a confiar mais nos recursos materiais, á semelhança de qualquer racionalista de coração endurecido. Davi acabara aprendendo medir sua força pelo padrão dos números e das riquezas. Portanto, o Senhor decidiu que chegara o tempo de Davi dobrar os joelhos outra vez, em oração e atirar-se à graça de Deus, ao longo de um período de provações capazes de esquadrinhar-lhe a alma. Portanto, o Senhor o encorajou a pôr em execução o plano que esse rei acalentara havia tanto tempo: desejava contar o povo, saber quais eram seus recursos humanos, a fim de bem planejar suas estratégias militares futuras, com vistas ao emprego mais eficiente de seus exércitos. É bem provável que tal contagem lhe proporcionasse uma base mais concreta para o cálculo dos impostos. E assim Deus, efetivamente, lhe disse: “Muito bem, vá em frente e conte o povo. Depois você verá o resultado de sua vaidade”. Embora fosse um comandante militar endurecido e ambicioso, o general Joabe sentiu certa intranqüilidade a respeito do projeto. Percebeu que Davi e seus conselheiros tornavam-se mais e mais orgulhosos por causa de suas brilhantes conquistas militares, as quais trouxeram os reinos da Palestina, da Síria e da Fenícia ao estado de vassalos de Israel. Joabe temia que o Senhor talvez não estivesse satisfeito com aquela atitude de auto-confiança e auto-estima, pelo que tentou dissuadir Davi desse propósito. Em 1 Crônicas 21.3, estão registras as seguintes palavras de Joabe:

    “Então disse Joabe: O SENHOR acrescente ao seu povo cem vezes tanto como é; porventura, ó rei meu senhor, não são todos servos de meu senhor? Por que procura isto o meu senhor? Porque seria isto causa de delito para com Israel”

    Existe uma razão pela qual o Senhor Deus deu a Davi uma advertência final pelos lábios de Joabe, antes de o rei comprometer-se afinal com o recenseamento. Não se diga que fazer recenseamento é inerentemente mau. O Senhor não se desagradara dos dois censos feitos na época de Moisés. Na verdade, ele mesmo deu instruções quanto à contagem de todos os efetivos militares cf. (Nm 1.2,3; 26.2), ambos no início da peregrinação de quarenta anos pelo deserto e no fim desse período, estando o povo no limiar da conquista. O segundo censo foi feito com o objetivo de mostrar que o total das forças armadas de Israel era um pouco menor que a de quarenta anos antes. No entanto, com aquele exército menor, os israelitas varreriam todos os inimigos à sua frente; o povo de Deus não se acovardaria diante da perspectiva da guerra, como acontecera com seus pais em Cades- Barnéia. O segundo censo também teria outra utilidade: seria a base para a distribuição da terra conquistada entre as doze tribos. As que tinham maior número de pessoas receberiam territórios maiores, proporcionalmente. Entretanto, o recenseamento no qual Davi havia colocado seu coração não serviria a outro propósito senão o de inflar o orgulho e a vaidade nacionais. Tão cedo a contagem estivesse terminada, Deus iria enviar uma punição – uma praga desastrosa – que causaria considerável perda de vidas e diminuição no número de seus cidadãos. Porém, quando voltamos ao primeiro versículo de 1 Crônicas 21, deparamo-nos com a declaração de que fora Satanás quem motivara Davi a realizar o recenseamento, apesar da advertência e protesto de Joabe.

    O verbo hebraico traduzido por “incitou” é o mesmo nas duas passagens: (wayyãset). Por que o diabo se envolveria nesse assunto, se o próprio Deus já havia induzido Davi a cometer a tolice que seu servo tinha em mente? É que Satanás descobriu ser de seu interesse imiscuir-se. Essa situação tem alguma semelhança com aquela descrita no primeiro e no segundo capítulo de Jó, em que temos realmente um desafio de Deus ao Diabo, que induziu as calamidades sobre o paciente Jó.

    O propósito de Deus foi o de purificar a fé de seu servo e enobrecer-lhe o caráter mediante a disciplina da adversidade. A intenção de Satanás era perversa; ele queria fazer o maior mal possível a Jó, na expectativa de levá-lo a amaldiçoar a Deus pelas suas desgraças. Assim, Deus e Satanás foram os que infligiram a queda e o desastre na vida daquele homem fiel. De modo semelhante, encontramos Deus e Satanás envolvidos nos sofrimentos dos cristãos perseguidos, de acordo com (1 Pedro 4.19 e 5.8).

    O propósito de Deus era fortalecer-lhes o espírito, a fé, capacitá-los a partilhar seus sofrimentos por amor de Cristo, nessa vida, para que pudessem regozijar-se com ele na glória do céu que há de vir cf. (1Pe 4.13,14).

    “Mas alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e alegreis. Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus; quanto a eles, é ele, sim, blasfemado, mas quanto a vós, é glorificado” (1Pe 4.13-14).

    Mas o desejo de Satanás era “devorar” os crentes cf. (1Pe 5.8), isto é, arrastá-los para a amargura ou para autopiedade e puxá-los para baixo, para seu próprio nível, até a perdição eterna. No caso do próprio Cristo, o interesse de Satanás era desviar o Senhor do cumprimento de sua missão messiânica, mediante as três tentações que lhe ofereceu. Mas a intenção do Pai era que o segundo Adão triunfasse completamente sobre o tentador, que havia sido bem-sucedido em fazer cair o primeiro Adão. Também na crucificação do Senhor o propósito de Satanás era fazer com que Judas traísse a Jesus. O coração desse discípulo estava cheio de rancor e ódio, ou seja, do Diabo (Jo 13.27); mas o desejo do Pai era que o Cordeiro morto desde a fundação do mundo desse sua vida em resgate de muitos – o que foi simbolizado pelo cálice que Cristo foi convidado a aceitar no Getsêmani.

    o caso de Pedro, Jesus o informou, antes que ele o negasse três vezes no pátio do sumo sacerdote: Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22.,31-32)

    Temos aqui, então, cinco outros exemplos de incidentes ou situações em que tanto Satanás quanto Deus estavam envolvidos em provas e esquadrinhações da alma – Deus, movido pela benevolência, tendo em vista a vitória final e a crescente utilização do crente tão amplamente provado, e Satanás motivado pela malícia e perversidade, intencionando provocar o maior mal possível para as pessoas. Portanto, podemos dizer sem hesitação que ambos os relatos sobre a motivação que Davi recebeu estão corretos. Deus o incitou a fim de ensinar ao rei e a seu povo uma lição que precisavam aprender e humilhá-los de modo tal que promovesse seu crescimento espiritual. Satanás incentivou o rei a fim de desferir a ele e a Israel um golpe mortal; Davi ficaria com seu prestígio abalado perante seus súditos. No final (e isso é verdade a respeito de todos os exemplos), o sucesso de Satanás foi limitado e temporário; mas no fim o propósito de Deus foi bem servido, e sua causa, enriquecida. No auge da praga, que custou a vida de setenta mil israelitas (2Sm 24.15), o anjo do Senhor designou o lugar exato no monte Moriá onde a mortandade se deteve: aquele era o lugar escolhido onde se edificaria o futuro templo do Senhor

    (2Sm 24.18). Esse edifício estava destinado a trazer muitas bênçãos às vidas dos crentes, do povo de Deus durante muitas gerações. Outra vez a malícia e a perversidade de Satanás foram ultrapassadas pela graça infinita de Deus.

    . (2Sm 24.1)- Como pode esta passagem declarar que Deus moveu Davi a levantar o censo de Israel, se 1 Crônicas 21.1 declara que isso feito por Satanás?

    PROBLEMA: Esta passagem relata o pecado de Davi em levantar o censo do povo de Israel e Judá. O versícuIo 1 afirma que Deus incitou Davi a fazer isso. Entretanto, de acordo com 1 Crônicas 21.1, foi Satanás quem incitou Davi nesse sentido. Afinal quem foi responsável por instigar Davi a agir assim?

    SOLUÇÃO: As duas afirmações são verdadeiras. Embora tenha sido Satanás que diretamente incitou Davi, foi Deus que permitiu essa provocação. Embora o propósito de Satanás tenha sido destruir Davi e povo de Deus, o objetivo de Deus era o de humilhá-los e ensinar-lhes uma valiosa lição espiritual. Essa situação é bem semelhante àquela descrita nos primeiros capítulos do livro de Jó, nos quais tanto Deus como Satanás estiveram envolvidos com o sofrimento de Jó. Semelhantemente, ambos estiveram envolvidos na crucificação de Jesus. O propósito de Satanás era destruir o Filho de Deus (Jo 13.2; 1Co 2.8).

    O objetivo de Deus foi redimir a humanidade pela morte de seu Filho cf. (At 2.14-39).

    (Manual Popular de Dúvidas Enigmas e “Contradições” da Bíblia – Norman Geisler – Thomas Howe – Ed. Mundo Cristão).

    CONCLUSÃO

    Por que Deus Levaria Alguém a Agir de Forma Errada? (2Sm 24.1)

    NÃO é que Deus tenha levado Davi a praticar o mal. Como qualquer ser humano, o rei era capaz de fazer o mal por conta própria. Ao contrário, Deus permitiu que ele seguisse suas escolhas pecaminosas e colhesse as conseqüências de suas ações. “Incitar” nesse caso pode significar que Deus dirigiu os acontecimentos que levaram à sua decisão. Para tornar a questão ainda mais confusa, o escritor de 1 Crônicas (21.1) diz que não foi Deus, mas Satanás quem incitou Davi a fazer o mal. O inegável conflito entre as duas passagens pode significar que Deus muitas vezes permite que Satanás faça coisas que posteriormente são vistas como provenientes de Deus. O autor de 2Samuel relata que o SENHOR estava em última análise por trás da ação de Davi, talvez mostrando que Deus lhe dera a liberdade de escolher o bem ou o mal. O escritor de lCrônicas reconhece Satanás como a tentação mais imediata por trás da decisão do rei. Ambas as idéias são corretas. No final, Deus usou os desejos pecaminosos do rei para executar juízo sobre a nação de Israel por causa do pecado. Mas algum bem também resultou desses tristes acontecimentos: por causa do que aconteceu aqui, foi adquirido o lugar em que o templo por fim seria construído.

    . A ira do Senhor…incitou a Davi. Em (1Cr 21.1) lemos: “Então Satanás hb. (satan, adversário) se levantou contra Israel e incitou a Davi”. As duas expressões (idiotismos hebraicos) correspondem à frase: “Davi foi tentado”

    1Cr 21.1 – Satanás. O diabo caiu devido ao seu orgulho cf. (Is 14.12-14). Apelou ao orgulho de Davi, o único motivo do censo. Davi não estava satisfeito com a promessa de Deus de que se tornaria uma “grande nação”. Satanás é o seu “adversário” cujo nome é dado especificamente aqui. É chamado por trinta nomes e títulos diferentes nas Escrituras.       Cada um desses desvenda alguma fase de sua obra. Os nomes mais significativos são: 1°) Serpente (Gn 3.4); 2°) Príncipe deste mundo (Jo 14.30); 3°) Maioral dos demônios (Mt 12.24); 4°) Deus deste século (2Co 4.4); 5); Tentador (1Ts 3.5). A passagem paralela em (2Sm 24) vai além e mostra que Satanás foi instrumento de Deus, usado para punir Israel por causa de seus pecados. cf. Jó 1.6-12 e 1Rs 22.20-22.

    . 1Cr 21.3 Nada havia de inerentemente errado no censo; mas no caso de Davi, parece que ele queria saber o poder do povo armado (ver v. 5) e não manter sua fé na promessa de Deus (1Cr 27.23).

    Será que Deus fez com que Davi pecasse? O Senhor nunca faz com que as pessoas errem, mas permite que os pecadores revelem a iniqüidade de seu coração através de seus atos. Deus ofereceu a Davi a oportunidade de administrar uma desastrosa tendência nacional e desejava que sua vontade se tornasse evidente. A passagem em (1Cr 21.1) diz que Satanás incitou Davi a pecar. Os escritores hebreus nem sempre fazem a distinção entre causas primárias e secundárias. Assim, se Deus permitiu que Satanás tentasse o rei, para esses escritores é como se o próprio Deus o tivesse feito.

    (1Cr 21.1-3) – O texto bíblico diz que Satanás incitou Davi a levantar o censo de Israel. Satanás pode forçar as pessoas a errar?NÃO. Satanás apenas tentou Davi com a idéia, mas ele decidiu agir de acordo com a tentação. Desde o jardim no Éden, Satanás tem tentado as pessoas. O censo de Davi não era contrário á lei de Deus, mas sua motivação estava erradao orgulho por seu poderoso exército. Esqueceu-se de que sua verdadeira força vinha de Deus. Até mesmo Joabe, que jamais foi conhecido por elevados ideais morais, reconheceu que este censo seria um pecado. A partir do exemplo de Davi, aprendemos que uma ação, que pode não estar propriamente errada, pode se tornar pecaminosa se for motivada pela cobiça, pele arrogância ou pelo egoísmo. Frequentemente, nossos motivos, não a ação em si, contêm pecado. Devemos pesar constantemente nossos motivos antes de agirmos. Davi caiu na tentação de Satanás. Deus forneceu uma saída através do conselho de Joabe, mas a curiosidade de Davi foi estimulada pela arrogância. Sua fé estava em sua própria força, e não na de Deus. Se nós sentirmos auto-suficientes e depositarmos nossa confiança somente em nós mesmos, e não em Deus, logo cairemos nos enganos de Satanás. A auto-suficiência nos afasta de Deus. Quando você for tentado, examine seus desejos interiores para entender por que a tentação exterior é tão atraente cf. (1Co 10.13).

    APLICAÇÃO PESSOAL: Deus pode transformar nossos pecados e falhas e retirar o bem do mal.

    (mais…)

  • HÁ ERROS NA BÍBLIA? NÃO!

    Os críticos afirmam que a Bíblia está cheia de erros. Alguns falam, até mesmo, em milhares de erros. A verdade é que não há nem mesmo um só erro no texto original da Bíblia que tenha sido demonstrado. Isso não quer dizer que não haja dificuldades em nossas Bíblias. Dificuldades há, e é delas que este livro vai tratar. Seu propósito é mostrar que não há realmente erros nas Escrituras. Por quê? Porque a Bíblia é a Palavra de Deus, e Deus não pode errar. Vamos raciocinar. Vamos tratar isto de uma forma lógica examinando as premissas:

     

    Deus não pode errar.

    A Bíblia é a Palavra de Deus.

    Portanto, a Bíblia está isenta de erros.

     

    Como qualquer estudante de lógica sabe, este é um silogismo (uma forma de raciocínio) válido. Assim, se as premissas são verdadeiras, as conclusões também são verdadeiras. Como vamos mostrar, a Bíblia declara sem rodeios ser a Palavra de Deus. Ela nos informa também que Deus não pode errar. A conclusão, então, é inevitável: a Bíblia está isenta de erros. Se ela estivesse errada em qualquer coisa que afirma, então Deus teria cometido um erro. Mas Deus não pode cometer erros.

    Deus não pode cometer erros

    As Escrituras declaram enfaticamente que “é impossível que Deus minta” (Hb 6:18). Paulo fala do “Deus que não pode mentir” (Tt 1:2). Ele é um Deus que, mesmo que não sejamos fiéis, “permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2 Tm 2:13). Deus é a verdade (Jo 14:6) e assim também é a Palavra dele. Jesus disse ao Pai: “a tua Palavra é a verdade” (Jo 17:17). O salmista exclamou: “As tuas palavras são em tudo verdade” (SI 119:160).

    A Bíblia é a Palavra de Deus

    Jesus referiu-se ao AT como sendo a “Palavra de Deus”, que “não pode falhar” (Jo 10:35). Ele disse: “até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5:18). Paulo acrescentou: “Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Tm 3:16). Ela veio “da boca de Deus” (Mt 4:4). Embora tenham sido homens aqueles que escreveram as mensagens, “nunca, jamais, qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1:21).

    Jesus disse aos líderes religiosos de seus dias que eles vinham “invalidando a palavra de Deus” pela sua própria tradição (Mc 7:13). Jesus chamou-lhes a atenção para a Palavra de Deus escrita quando repetidamente afirmou: “Está escrito … está escrito … está escrito …” (Mt 4:4, 7,10). Esta frase aparece mais de noventa vezes no NT. É uma forte indicação da autoridade divina da Palavra de Deus escrita.

    Dando ênfase à natureza inerrante da verdade de Deus, o apóstolo Paulo referiu-se às Escrituras como “a palavra de Deus” (Rm 9:6). O autor de Hebreus declarou que “a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4:12).

    Conclusão lógica: A Bíblia é isenta de erros

    Sim, Deus falou, e ele não titubeou. O Deus da verdade nos deu a Palavra da Verdade, e ela não contém inverdade alguma. A Bíblia é a inerrante Palavra de Deus.

    Pode-se confiar na Bíblia em questões de Ciência e de História?

    Alguns têm sugerido que as Escrituras sempre podem ser confiáveis em questões de ordem moral, mas que nem sempre são corretas em questões históricas. Eles confiam na Bíblia no campo espiritual, mas não na esfera da ciência. Se isso fosse verdade, entretanto, negaria a autoridade divina da Bíblia, já que o espiritual, o histórico e o científico então freqüentemente Interligados.

    Um cuidadoso exame das Escrituras revela-nos que as verdades científicas (fatuais) e as espirituais são muitas vezes inseparáveis. Por exemplo, não se pode separar a verdade espiritual da ressurreição de Cristo do fato de que o seu corpo deixou para sempre vazio o seu túmulo e que depois ele apareceu fisicamente (Mt 28:6; 1 Co 15:13-19).

    Da mesma forma, se Jesus não tivesse nascido de uma mulher biologicamente virgem, então ele não seria diferente do resto da humanidade, sobre quem recai o estigma do pecado de Adão (Rm 5:12). Também a morte de Cristo por nossos pecados não pode ser separada do fato de que ele derramou literalmente o seu sangue na cruz, pois “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9:22).

    A existência e a queda de Adão tampouco podem ser um mito. Se não tivesse havido literalmente um Adão, e se não tivesse havido de fato a queda, então o ensino espiritual quanto ao pecado herdado e quanto à morte física, dele decorrente, estaria errado (Rm 5:12). A realidade histórica e a doutrina teológica juntas permanecem ou juntas caem por terra.

    Além disso, a doutrina da encarnação é inseparável da verdade histórica de Jesus de Nazaré (Jo 1:1,14). E ainda, o ensino de caráter moral de Jesus quanto ao casamento baseou-se no que ele ensinou quando disse que Deus juntou literalmente um Adão e uma Eva em matrimônio (Mt 19:4-5). Em cada um destes casos, o ensino moral e o teológico perdem totalmente o sentido se desconsiderado o evento histórico e fatual. Negando-se que aquele evento ocorreu literalmente no tempo e no espaço, fica-se então sem uma base para crer na doutrina bíblica construída sobre ele.

    Com freqüência, Jesus comparou eventos do AT diretamente com importantes verdades espirituais. Por exemplo, ele relacionou sua morte e ressurreição com Jonas e o grande peixe (Mt 12:40). Da mesma forma, sua segunda vinda foi comparada com os dias de Noé (Mt 24:37-39). Tanto as circunstâncias como as características de tais comparações deixam claro que Jesus estava afirmando que aqueles eventos foram fatos históricos, que realmente aconteceram. De fato, Jesus afirmou a Nicodemos: “Se tratando de coisas terrenas não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais?” (Jo 3:12). Em resumo, se a Bíblia não falasse com verdade a respeito do mundo físico, então ela não poderia ser digna de confiança ao referir-se ao mundo espiritual. Os dois mundos acham-se intimamente relacionados.

    A inspiração inclui não apenas tudo o que a Bíblia explicitamente ensina, mas inclui também tudo a que ela se refere. Isso é verdade quando a Bíblia se reporta à história, à ciência ou à matemática. Tudo o que a Bíblia declara é verdadeiro – podendo der tanto um ponto de maior como também de menor importância. A Bíblia é a Palavra de Deus, e Ele não se desvia da verdade em nenhum momento. Todas as partes das Escrituras são verdadeiras, assim como o todo que elas formam.

    Se é inspirada, é inerrante

    A inerrância é uma decorrência lógica da inspiração. Porque inerrância significa verdade total, sem erros. E o que Deus profere (inspira) tem de ser completamente verdadeiro e sem erros (inerrante). Contudo, convém especificar com maior clareza o que significa “verdade” e o que constitui um “erro”.

    Verdade significa aquilo que corresponde à realidade. Um erro, então, é o que não corresponde à realidade. A verdade é dizer o que de fato é. Um erro é não dizer o que é. Conseqüentemente, nenhuma coisa errada pode ser verdadeira, mesmo que o autor pretendesse que o seu erro fosse algo verdadeiro. Um erro é um erro, não simplesmente alguma coisa que nos faça errar. De outro modo, toda expressão sincera poderia ser considerada verdadeira ainda que se tratasse de um erro grosseiro. Da mesma forma, algo não é verdadeiro simplesmente porque realiza o propósito que havia sido estabelecido, já que muitas mentiras são bem-sucedidas.

    A Bíblia vê claramente a verdade como aquilo que corresponde à realidade. O erro é entendido como sendo uma falta de correspondência à realidade, não como algo causado intencionalmente. Isso é evidente pelo fato de que a palavra “erro” é usada no caso de erros não-Intencionais (Lv 4:2). Na Bíblia inteira está implícita a visão de que a verdade baseia-se numa correspondência entre duas coisas. Por exemplo, quando os Dez Mandamentos declaram: “Não dirás falso testemunho” (Êx 20:16) significa que deturpar fatos está errado. Este mesmo conceito de verdade foi usado quando os judeus foram ao governador para falar a respeito de Paulo: “Tu mesmo, examinando-o, poderás tomar conhecimento de todas as coisas de que nós o acusamos”. E, ao fazer isso, é como se eles estivessem dizendo: “É verdade, tu podes facilmente verificar os fatos” (cf. At 24:8).

    Foi assim que Deus disse?

    Naturalmente, toda vez que Deus tornou a verdade bem clara, a estratégia de Satanás foi lançar dúvidas sobre ela. Sempre que Deus falou com autoridade, o diabo desejou solapá-la. “Será que Deus disse isso?”, ele fala com escárnio (cf. Gn 3:1). Esta confusão, com freqüência, acontece da seguinte maneira: A Bíblia é a Palavra de Deus, inspirada de alguma forma, mas é também constituída de palavras humanas. Ela teve autores humanos, e “errar é humano”. Daí, temos de esperar haver alguns erros na Bíblia… Por aí vai esse argumento. Em resumo, a verdade clara e simples de Deus acaba sendo confundida com a mentira de Satanás, o senhor das mentiras (Jo 8:44).

    Vamos analisar o que há de errado nesta argumentação. Uma simples analogia nos ajudará. Considere o seguinte raciocínio que, por ser paralelo àquele, é igualmente falho:

    1.   Jesus era um ser humano.

    2.   Os seres humanos pecam.

    3.   Logo, Jesus pecou.

    Qualquer estudante da Bíblia sabe de imediato que esta conclusão é falsa. Jesus foi um homem “sem pecado” (Hb 4:15). Ele “não conheceu pecado” (2 Co 5:21). Ele foi um “cordeiro sem defeito e sem mácula” (1 Pe 1:19). Como João disse a respeito de Jesus: “ele é puro” e “justo” (1 Jo 3:3; 2:1). Mas, se Jesus nunca pecou, então o que está errado no argumento acima, de que Jesus era humano, de que OS homens pecam e de que, portanto, Jesus pecou? Onde é que a lógica se perde?

    O erro está em se assumir que Jesus era como qualquer outro ser humano. Com certeza, meros seres humanos pecam. Mas Jesus não foi um mero ser humano. Ele foi um ser humano perfeito. De fato, Jesus não era apenas humano, mas ele era também Deus. Da mesma forma, a Bíblia não é meramente um livro humano. Ela é também a Palavra de Deus. Como Jesus, ela é tanto divina como humana. E da mesma forma como Jesus era humano, mas não pecou, também a Bíblia é um livro humano, mas sem erros. Tanto a Palavra viva de Deus (Cristo) como a sua Palavra

    escrita (as Escrituras) são igualmente humanas, mas sem erros. A Palavra viva e a Palavra escrita são também divinas, e não podem conter erros. Não pode haver erros na Palavra de Deus escrita, como não houve pecado algum na Palavra de Deus viva. É impossível Deus errar, e ponto final.

    HÁ DIFICULDADES NA BÍBLIA? SIM!

    Ainda que a Bíblia seja a Palavra de Deus e, como tal, nela não possa haver erro algum, isso não significa que nela não haja dificuldades. Todavia, como Agostinho observou com sabedoria: “Se estamos perplexos por causa de qualquer aparente contradição nas Escrituras, não nos é permitido dizer que o autor desse livro tenha errado; mas ou o manuscrito utilizado tinha falhas, ou a tradução está errada, ou nós não entendemos o que está escrito”. Os erros não se acham na revelação de Deus, mas nas falhas interpretações dos homens.

    A Bíblia é isenta de erros, mas os que a criticam não são. Todas as alegações feitas nesse sentido baseiam-se em erros cometidos pelos próprios críticos. Tais erros enquadram-se numa das seguintes principais categorias:

    Erro número 1: assumir que o que não foi explicado seja inexplicável.

    Nenhuma pessoa instruída alegaria ser capaz de explicar completamente todas as dificuldades bíblicas. Contudo, é um erro o crítico pressupor que o que não foi ainda explicado nunca o será. Quando um cientista se depara com uma anomalia na natureza, ele não desiste de fazer cuidadosos exames científicos adicionais. Pelo contrário, ele faz uso daquilo que não foi explicado como uma motivação para descobrir uma explicação. Nenhum cientista verdadeiro desiste de seu trabalho, em desespero, simplesmente porque não consegue explicar um dado fenômeno. Ele continua a fazer pesquisas com a confiante expectativa de encontrar uma resposta. E a história da ciência tem revelado que tal fé tem sido recompensada.

    Houve épocas em que os cientistas, por exemplo, não tinham explicação para fenômenos naturais como os meteoros, os eclipses, os tornados, os furacões e os terremotos. Todos esses mistérios, porém, renderam os seus segredos à inabalável perseverança da ciência. Os cientistas ainda não sabem como a vida pode ocorrer em descargas térmicas nas profundezas do mar, mas nenhum deles se dá por vencido e grita: “é uma contradição!”

    Da mesma forma, os eruditos cristãos pressupõem que o que até hoje não foi explicado na Bíblia não é, por isso, inexplicável. Não consideram que discrepâncias sejam contradições. E, quando encontram algo que não podem explicar, continuam pesquisando na certeza de que algum dia encontrarão a resposta. Com efeito, se tivessem uma postura contrária a esta, parariam de estudar.

    Por que ir em busca de uma resposta, quando se pressupõe que ela não exista? Tal como o cientista, aquele que estuda a Bíblia tem sido recompensado em sua fé e pesquisa, pois muitas dificuldades para as quais os eruditos não tinham explicação já foram superadas através da história, da arqueologia, da lingüística e de outras disciplinas. Os críticos, por exemplo, um dia afirmaram que Moisés não poderia ter escrito os cinco primeiros livros da Bíblia porque a escrita ainda não existia na época dele. Agora sabemos que a escrita já existia alguns milhares de anos antes de Moisés.

    De igual forma, os críticos um dia acreditaram que a Bíblia estivesse errada ao falar dos hititas (ou heteus), já que esse povo era totalmente desconhecido dos historiadores. Sua existência, porém, foi comprovada pela descoberta, na Turquia, de uma biblioteca hitita. Esses fatos nos levam a crer que as dificuldades bíblicas ainda não resolvidas certamente são explicáveis e que, portanto, não há que se presumir que existam erros na Bíblia.

    Erro número 2: presumir que a Bíblia é culpada, até prova em contrário

    Muitos críticos presumem que a Bíblia está errada, até que algo venha provar que ela está certa. Contudo, como acontece com qualquer cidadão acusado de um crime, a Bíblia deve ser tida como “inocente”, até que haja a prova da culpa. Isso não é querer dar-lhe nenhum tratamento especial; essa é a forma pela qual todos os relacionamentos humanos são feitos. Se assim não fosse, a vida não séria possível. Por exemplo, se presumíssemos que a sinalização de trânsito nas rodovias ou na cidade não fosse verdadeira, então provavelmente estaríamos mortos antes de poder provar o contrário.

    De igual modo, se presumíssemos que os rótulos nas embalagens de alimentos fossem enganosos até prova em contrário, teríamos então de abrir todas as latas e pacotes antes de comprá-los. E o que dizer se presumíssemos que todos os números no nosso dinheiro estivessem errados? E se achássemos que estariam erradas todas as placas nas portas dos sanitários públicos, que indicam o sexo a que se destinam?! Bem, isto já é o bastante.

    Temos de presumir que a Bíblia, como qualquer outro livro, está nos dizendo o que os autores disseram e ouviram. As críticas negativas da Bíblia partem de um pressuposto contrário a este. Não é de se admirar, então, que concluam que a Bíblia está crivada de erros.

    Erro número 3: confundir as nossas falíveis interpretações com a infalível revelação de Deus.

    Jesus afirmou que “a Escritura não pode falhar” (Jo 10:35). Sendo um livro infalível, a Bíblia é também irrevogável. Jesus declarou: “Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5:18, cf. Lc 16:17). As Escrituras têm ainda a autoridade final, sendo a última palavra acerca de tudo que ela aborda. Jesus valeu-se da Bíblia para resistir ao tentador (Mt4:4,7,10); para resolver discussões doutrinárias (Mt 21:42); e para sustentar a sua autoridade (Mc 11:17).

    Às vezes um ensinamento bíblico apóia-se num pequeno detalhe histórico (Hb 7:4-10), numa palavra ou numa frase (At 15:13-17), ou mesmo na diferença entre o singular e o plural (Gl 3:16). Mas, conquanto a Bíblia seja infalível, as interpretações humanas não o são. A Bíblia não pode estar errada, mas nós podemos estar errados quanto a alguma coisa dela. O significado da Bíblia nunca muda, mas a nossa compreensão pode mudar.

    Os seres humanos são finitos, e seres finitos cometem erros. É por isso que há borrachas para lápis, corretores líquidos para textos datilografados, e uma tecla “apaga” nos computadores. E muito embora a Palavra de Deus seja perfeita (Sl 19:7), enquanto existirem seres humanos imperfeitos, haverá erros de interpretação das Escrituras e falsos pontos de vista deles decorrentes.

    Em vista disso, não devemos nos apressar em considerar que um determinado preceito científico hoje amplamente aceito seja a palavra final acerca do ponto em questão. Teorias que foram predominantemente aceitas no passado são consideradas incorretas por cientistas do presente. Dessa forma, é de se esperar que haja contradições entre opiniões populares sobre questões científicas e as interpretações da Bíblia amplamente aceitas.

    Isso, porém, não consegue provar que há uma real contradição entre o mundo de Deus e a Palavra de Deus, entre a revelação geral de Deus e a sua revelação especial. Nesse sentido básico, a ciência e as Escrituras não estão em contradição. Somente as opiniões humanas, finitas e falíveis acerca da ciência e das Escrituras é que podem entrar em contradição.

    Erro número 4: falhar na compreensão do contexto da passagem.

    Talvez o erro mais comum dos críticos seja o de tirar um texto de seu próprio contexto. Como diz o adágio: “um texto fora de contexto é simplesmente um pretexto”. Tudo se pode provar, a partir da Bíblia, por meio desse procedimento errôneo. A Bíblia diz: “Não há Deus” (SI 14:1). É claro, que o contexto é: “Diz o insensato no seu coração: ‘Não há Deus’”. Alguém poderá afirmar que Jesus nos advertiu: “não resistais ao perverso” (Mt 5:39), mas o contexto anti-retaliatório em que ele lança esta proposição não deve ser ignorado. Assim também muitos não compreendem corretamente o contexto da afirmativa de Jesus, quando ele disse: “Dá a quem te pede” (Mt 5:42), como se tivéssemos a obrigação de dar uma arma a uma criancinha que nos pedisse, ou de dar armamentos atômicos a Saddam Hussein simplesmente por ele ter pedido.

    O erro de não observar que o significado é determinado pelo contexto é, talvez, o principal pecado daqueles que encontram erros na Bíblia, como os comentários de numerosas passagens bíblicas neste livro vão ilustrar.

    Erro número 5: deixar de interpretar passagens difíceis à luz das que são claras.

    Algumas passagens das Escrituras são de difícil compreensão. Às vezes a dificuldade é por serem obscuras. Outras vezes a dificuldade está em que uma passagem parece estar ensinando algo contrário ao que uma outra parte da Escritura ensina com clareza. Por exemplo, Tiago parece estar dizendo que a salvação é pelas obras (Tg 2:14-26), ao passo que Paulo ensinou com toda a clareza que é pela graça (Rm 4:5; Tt 3:5-7; Ef 2:8-9). Neste caso, Tiago não deve ser interpretado de maneira a contradizer Paulo. O apóstolo Paulo está falando da justificação perante Deus (o que é pela fé somente), ao passo que Tiago está se referindo à justificação perante os homens (que não têm como ver a nossa fé, mas somente as nossas obras).

    Um outro exemplo encontra-se em Filipenses 2:12, em que Paulo diz: “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor”. Aparentemente isto parece estar dizendo que a salvação é pelas obras. Contudo, inúmeras passagens das Escrituras claramente contradizem tal idéia, pois afirmam: “salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8-9); “ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Rm 4:5); “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, [é que] ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3:5).

    Quando esta frase de difícil compreensão – “desenvolvei a vossa salvação” – é entendida à luz dessas passagens tão claras, podemos ver que, qualquer que seja o significado dela, uma coisa é certa: ela não significa que somos salvos pelas obras. De fato, o seu significado é encontrado precisamente no versículo seguinte. Temos de desenvolver a nossa salvação porque a graça de Deus tem operado em nosso coração. Nas próprias palavras de Paulo: “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2:13).

    Erro número 6: basear um ensino numa passagem obscura.

    Algumas passagens da Bíblia são difíceis porque o seu significado é obscuro. Isso ocorre geralmente porque uma palavra-chave do texto é empregada uma só vez (ou raramente), e então fica difícil saber o que o autor está dizendo, a menos que seja possível deduzir o sentido pelo contexto. Por exemplo, uma das passagens mais conhecidas da Bíblia contém uma palavra que não aparece em lugar algum, em toda a literatura grega disponível até o tempo em que o NT foi escrito. Esta palavra aparece no que comumente é conhecido como a “Oração do Senhor” (Mt 6:11). Geralmente a tradução que temos é “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. A palavra em questão é a que é traduzida por “de cada dia”, ou seja, o vocábulo grego epiousion. Os estudiosos do grego ainda não entraram em acordo quanto à sua origem ou quanto ao seu exato sentido. Diferentes comentaristas têm tentado estabelecer elos com palavras gregas que são bem conhecidas, e muitas sugestões têm sido propostas quanto ao seu significado. Entre tais sugestões, temos:

    “Nosso pão incessante dá-nos hoje.”

    “Nosso pão sobrenatural (indicando um pão espiritual, do céu) dá-nos hoje.”

    “O pão para o nosso sustento dá-nos hoje.”

    “O pão nosso de cada dia (ou, o que necessitamos para hoje) dá-nos hoje.”

    Cada uma destas propostas tem seus defensores; cada uma faz sentido dentro do contexto, e cada uma é uma possibilidade, tendo-se por base a limitada informação disponível. Parece não haver nenhuma razão que nos force a deixarmos aquela que tem sido a tradução normalmente aceita, mas este exemplo serve muito bem para ilustrar o ponto em questão. Algumas passagens da Bíblia são difíceis de se entender porque uma dada palavra-chave aparece uma só vez, ou com muita raridade.

    Outras vezes as palavras podem estar claras, mas o significado não é evidente porque não sabemos ao certo a que elas se referem. Isso se dá em 1 Co 15:29, onde Paulo fala sobre os que se batizavam pelos mortos. Será que ele estava se referindo ao batismo de pessoas vivas, representando pessoas mortas que não tinham sido batizadas, e assim assegurando-lhes a salvação (como dizem os mórmons)? Ou será que ele está se referindo aos que, sendo batizados, entram na igreja para preencher o lugar dos que partiram? Ou ainda, não seria o caso de ele estar referindo-se aos crentes sendo batizados “pelos mortos” no sentido de “suas próprias mortes, sendo enterrados com Cristo”? Ou, quem sabe, poderia estar dizendo alguma outra coisa?

    Quando não temos certeza, então temos de ter em mente algumas coisas. Primeiro, não devemos construir uma doutrina com base numa passagem obscura. A regra prática na interpretação bíblica é: “as coisas principais são as coisas claras, e as coisas claras são as coisas principais”. Chamamos a isso de perspicuidade (clareza) das Escrituras. Se algo for importante, isso será ensinado nas Escrituras de forma bem clara, § provavelmente em mais de um lugar.

    Segundo, quando uma dada passagem não está clara, não devemos nunca supor que ela esteja ensinando o contrário do que uma outra parte nos ensina com muita clareza. Deus não comete erros na sua Palavra; mas nós podemos cometer erros ao tentarmos interpretá-la.

    Erro número 7: esquecer-se de que a Bíblia é um livro humano, com características humanas.

    Exceto pequenas seções, tal como os Dez Mandamentos, que foram escritos “pelo dedo de Deus” (Êx 31:18), a Bíblia não foi verbalmente ditada.  Seus escritores não foram secretários do Espírito Santo. Eles foram autores humanos, que empregaram estilos literários próprios, com suas próprias idiossincrasias, ou seja, com o seu jeito de ver as coisas. Esses autores humanos às vezes tomaram informações de fontes humanas para o que escreveram (Js 10:13; At 17:28; 1 Co 15:33; Tt 1:12). De fato, cada livro da Bíblia é uma composição feita por um escritor humano; foram cerca de quarenta autores.

    A Bíblia evidencia também estilos literários humanos diferentes; da métrica melancólica de Lamentações até a exaltada poesia de Isaías; da gramática elementar de João ao complexo grego do livro de Hebreus. As Escrituras manifestam ainda perspectivas humanas. No Salmo 23, Davi falou do ponto de vista de um pastor. Os livros de Reis foram escritos tendo uma abordagem profética, e Crônicas, a partir de um ponto de vista sacerdotal. Atos manifesta um enfoque histórico, e 2 Timóteo, o coração de um pastor.

    Os escritores bíblicos escreveram sob a perspectiva de um observador quando se referiram ao nascer do sol (Js 1:15) ou ao pôr-do-sol. Eles também revelam padrões humanos de pensamento, inclusive lapsos de memória (1 Co 1:14-16), bem como emoções humanas (Gl 4:14). A Bíblia revela interesses humanos específicos. Por exemplo, Oséias possuía um interesse rural, Lucas, uma preocupação médica, e Tiago, um amor pela natureza.

    Como Cristo, a Bíblia é completamente humana, mas mesmo assim sem erros. Esquecer-se da humanidade das Escrituras pode levar-nos a impugnar falsamente sua integridade por esperarmos um nível de expressão maior do que é o usual num documento humano. Isso vai ficar mais claro quando abordarmos os próximos erros em que incidem os críticos.

    Erro número 8: assumir que um relato parcial seja um relato falso.

    Com freqüência, os críticos tiram conclusões precipitadas com respeito a um relato parcial, tomando-o como falso. Entretanto, não é bem assim. Do contrário, quase tudo o que se tenha dito seria falso, já que poucas vezes há tempo e espaço suficientes para uma abordagem completa.

    Ocasionalmente, a Bíblia expressa a mesma coisa de diferentes modos, ou pelo menos de diferentes pontos de vista, em tempos distintos. Portanto, a inspiração não exclui diversidade de expressão. Cada um dos quatro autores do Evangelho relata a mesma história de uma maneira diferente, para um grupo diferente de pessoas, e às vezes citam o mesmo incidente com palavras diferentes. Compare, por exemplo, aquela famosa confissão de Pedro no Evangelho segundo:

    Mateus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (16:16).

    Marcos: “Tu és o Cristo” (8:29).

    Lucas: “És o Cristo de Deus” (9:20)

    Até mesmo os Dez Mandamentos, os quais foram escritos “com o dedo de Deus” (Dt 9:10), quando entregues, pela segunda vez, apresentam-se com variações (compare Êx 20:8-11 com Dt 5:12-15). Há muitas diferenças entre os livros de Reis e de Crônicas nas descrições que eles fazem dos mesmos eventos; contudo, não incidem em nenhuma contradição nos acontecimentos que narram. Se expressões assim tão importantes puderam ser feitas de maneiras diferentes, então não há por que o restante das Escrituras ter de expressar a verdade apenas de uma forma literal e inflexível em sua abordagem.

    Erro número 9: exigir que as citações do Antigo Testamento feitas no Novo Testamento sejam sempre exatas.

    Os críticos com freqüência apontam para as variações ocorridas quando o NT cita passagens do AT, como provas de erro. Entretanto, se esquecem de que uma citação não tem de ser uma repetição exata do que está escrito. Era então, como é hoje, perfeitamente aceitável o estilo literário que dá a essência de uma afirmação ou pensamento, sem que se empregue precisamente as mesmas palavras. Um mesmo significado pode ser transmitido sem o uso das mesmas expressões verbais.

    As variações que ocorrem nas citações de textos do AT feitas no NT enquadram-se em diferentes categorias. Às vezes é outra pessoa que está falando. Por exemplo, Zacarias registra que o Senhor está dizendo: “olharão para mim, a quem traspassaram” (Zc 12:10). Quando isto é citado no NT, é João – e não Deus – que está falando: “verão aquele a quem traspassaram” (Jo 19:37).

    Outras vezes os escritores do NT citam apenas uma parte do texto do AT. Jesus fez isso quando esteve na sinagoga da cidade de Nazaré (Lc 4:18-19/ citando li 61:1-2). De fato, ele parou no meio de uma sentença. Se tivesse ido mais além, Jesus não poderia ter dito o que disse em seguida: “Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (v. 21). É que, precisamente, a continuação daquela frase – “e o dia da vingança do nosso Deus” – é uma referência à sua segunda vinda.

    Algumas vezes, o NT parafraseia ou resume um texto do AT (por exemplo, Mt 2:6). Outras vezes, mistura dois textos em um (Mt 27:9-10). Ocasionalmente, uma verdade geral é mencionada sem a citação de um texto específico. Por exemplo, Mateus diz que Jesus mudou-se para Nazaré “para que se cumprisse o que fora dito, por intermédio dos profetas: Ele será chamado Nazareno” (Mt 2:23). Note que Mateus não cita um determinado profeta, mas sim “profetas” em geral, de modo que seria inútil insistir na procura de um determinado texto do AT em que esta profecia fosse encontrada.

    Também há momentos em que o NT aplica um texto de um modo diferente em relação ao AT. Por exemplo, Oséias aplica “do Egito chamei o meu filho” à nação messiânica e Mateus, ao produto daquela nação, o Messias (Mt 2:15 e Os 11:1). Em caso algum, porém, o NT interpreta de forma errada ou não aplica corretamente o AT, nem ainda tira qualquer conclusão do que não esteja presente naquele texto. Em resumo, o NT não comete erros quando cita o AT, como acontece quando os críticos citam o NT.

    Erro número 10: assumir que diferentes narrações sejam falsas.

    Pelo simples fato de divergirem entre si duas ou mais narrações do mesmo acontecimento, isso não significa que elas sejam mutuamente exclusivas. Por exemplo, Mateus (28:5) diz que havia um anjo junto ao túmulo de Jesus depois da ressurreição, ao passo que João nos informa de que havia dois (20:12). Não há, porém, nenhuma contradição. De fato, há uma infalível regra matemática que facilmente explica este problema: onde quer que haja dois, sempre há um – e nisso não existe erro! Mateus não diz que havia apenas um anjo. É necessário acrescentar a palavra “apenas” no registro dele para fazê-lo entrar em contradição com o de João. Mas, se o crítico vem até a Bíblia para mostrar os erros dela, então o erro não está na Bíblia, mas sim no crítico.

    De igual forma, Mateus (27:5) nos informa de que Judas enforcou-se. Mas Lucas diz que Judas, “precipitando-se, rompeu-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram” (At 1:18). Uma vez mais, estes dois relatos diferem entre si, mas não são mutuamente exclusivos. Se Judas enforcou-se numa árvore à beira de um penhasco, e se o seu corpo caiu em pontudas rochas embaixo, então suas entranhas se derramaram para fora, da maneira como tão bem Lucas descreve.

    Erro número 11: presumir que a Bíblia aprova tudo o que ela registra.

    É um erro admitir que tudo o que a Bíblia contém seja recomendado por ela. Toda a Bíblia é verdadeira (Jo 17:17), mas ela registra algumas mentiras, como por exemplo as de Satanás (Gn 3:4; conforme Jo 8:44) e a de Raabe (Js 2:4). A inspiração está sobre toda a Bíblia de forma tão completa e abrangente que ela registra com exatidão e verdade até mesmo as mentiras e os erros dos que pecaram. A verdade, na Bíblia, encontra-se no que ela revela, não em tudo que ela registra. Sem que se faça esta distinção, pode-se concluir de maneira errada que a Bíblia ensina imoralidade, porque ela narra o pecado de Davi (2 Sm 11:4); ou que ela promove a poligamia, porque registra o caso de Salomão (1 Rs 11:3); ou que ela ensina o ateísmo, por citar o tolo que diz: “não há Deus” (Sl 14:1).

    Erro número 12: esquecer-se de que a Bíblia faz uso de uma linguagem comum, não-técnica.

    Para que algo seja verdadeiro, não é necessário fazer uso de uma linguagem erudita, técnica ou, assim chamada, “científica”. A Bíblia foi escrita para pessoas comuns de todas as gerações, e, portanto, emprega a linguagem comum, do dia-a-dia. Q uso de uma linguagem não-científica não vai de encontro à ciência, pois ela é anterior à ciência. As Escrituras foram escritas em tempos antigos, com padrões antigos, e seria algo anacrônico impor sobre elas padrões científicos modernos. Contudo, não é menos científico falar que “o sol se deteve” (Js 10:13) do que se referir ao “nascer do sol” (Js 1:15). Ainda hoje os meteorologistas mencionam todo dia sobre a hora do “nascer” e do “pôr-do-sol”.

    Erro número 13: considerar que números arredondados sejam errados.

    Outro engano algumas vezes cometido pelos críticos é quando eles alegam que há erro em números que foram arredondados. Não é assim. Números arredondados são apenas isso: números arredondados. Como ocorre no linguajar comum, a Bíblia faz uso de números arredondados (1 Cr 19:18; 21:5). Por exemplo, quando se referiu ao diâmetro como sendo cerca de um terço da circunferência. Do ponto de vista da sociedade tecnológica atual, pode ser impreciso tomar como sendo três o que é na realidade 3,14159265…, o que não é incorreto para um povo antigo, vivendo numa era não-tecnológica. Três é o arredondamento do número “pi”. Isso é o suficiente para o “mar de fundição” (2 Cr 4:2), na medida de um antigo templo hebreu, embora esta precisão não seja, hoje em dia, suficiente para os cálculos feitos por um computador, num foguete moderno. Mas não temos de esperar precisão científica numa era pré-cientifica. De fato, isso seria tão anacrônico como usar um relógio de pulso numa peça de Shakespeare.

    Erro número 14: não observar que a Bíblia faz uso de diferentes recursos literários.

    Um livro inspirado não precisa ser composto em um único estilo literário. Foram seres humanos que escreveram os livros da Bíblia, e a linguagem humana não se limita a uma única forma de expressão. Assim, não há por que supor que apenas uma forma de expressão ou apenas um gênero literário tenha de ter sido empregado num livro divinamente inspirado.

    A Bíblia revela muitos recursos literários. Vários de seus livros acham-se inteiramente escritos no estilo poético (por exemplo, Jó, Salmos, Provérbios). Os Evangelhos sinóticos estão cheios de parábolas. Em Gálatas 4, Paulo faz uso de uma alegoria. No NT acham-se muitas metáforas (por exemplo, 2 Co 3:2-3, Tg 3:6), e comparações (Mt20:l; Tg 1:6); há também (por exemplo, Cl 1:23; Jo 21:25; 2 Co 3:2) e, até mesmo, figuras poéticas (Jó 41:1). Jesus empregou a sátira (Mt 19:24, 23:24). Figuras de linguagem são comuns por toda a Bíblia.

    Não constitui erro o autor bíblico fazer uso de uma figura de linguagem, mas é errado tomar uma figura de linguagem de forma literal. Obviamente, quando a Bíblia fala do crente que se acolhe à sombra das “asas” de Deus (Sl 36:7), isso não quer dizer que Deus seja uma ave com uma bela plumagem. De igual modo, quando a Bíblia fala que Deus “desperta” (Sl 44:23), como se ele estivesse dormindo, trata-se de uma figura de linguagem que indica a inatividade de Deus antes de ele ser levado a exercer o juízo pelo pecado humano. Temos de ter todo o cuidado na leitura das figuras de linguagem nas Escrituras.

    Erro número 15: esquecer-se de que somente o texto original é isento de erros, e não qualquer cópia das Escrituras.

    Quando os críticos descobrem um genuíno erro numa cópia (manuscrito) cometem outro erro fatal. Eles assumem que o erro se encontra também no texto original das Escrituras, no texto inspirado. Esquecem-se de que Deus proferiu o texto original das Escrituras, não as cópias. Portanto, somente o texto original é isento de erros. A inspiração não garante que toda cópia do original fique sem erros. Portanto, temos de levar em conta que pequenos erros podem ser encontrados em alguns manuscritos, que são cópias do texto original. Mas, de novo, como Agostinho com sabedoria observou, quando nos deparamos com um, assim chamado, “erro” na Bíblia, temos de admitir uma entre duas alternativas: ou o manuscrito não foi copiado corretamente, ou não entendemos as Escrituras direito. O que não podemos pressupor é que Deus tenha cometido um erro na inspiração do texto original.

    Embora as atuais cópias das Escrituras sejam muito boas, elas também não estão isentas de erros. Por exemplo, 2 Reis 8:26 dá a idade de Acazias como sendo 22 anos, ao passo que 2 Crônicas 22:2 registra 42 anos.* Este segundo número não pode estar correto, pois implicaria que Acazias fosse mais velho do que o seu pai. Obviamente, trata-se de um erro do copista, mas isso não altera a inerrância do original

    Algumas coisas temos de observar com respeito aos erros dos copistas. Em primeiro lugar, são erros feitos nas cópias, e não no original. Jamais alguém encontrou um original com um erro. Em segundo lugar, são erros de menor importância (com freqüência, em nomes e em números), que não afetam nenhuma doutrina da fé cristã. Em terceiro lugar, esses erros dos copistas são relativamente em pequeno número como será demonstrado por todo o resto deste livro. Em quarto lugar, geralmente, pelo contexto ou por outro texto das Escrituras, podemos saber qual passagem incorre em erro. Por exemplo, no caso acima, a idade certa de Acazias é 22, e não 42, já que ele não poderia ser mais velho do que o seu pai.

    Finalmente, muito embora possa haver um erro de cópia, a mensagem inteira ainda assim é perfeitamente entendida. Nesses casos, a validade da mensagem não se altera. Por exemplo, se você recebesse uma carta como esta, você não entenderia a mensagem por completo? E você não iria correndo atrás do seu dinheiro?

    “Você foi contemplado no sorteio tal e tal e é o ganhador

    da importância de cinco milhões de reais.”

    Mesmo havendo um erro na primeira palavra, a mensagem inteira é compreensível – você possui mais cinco milhões! E se no dia seguinte você recebesse mais uma carta, com os seguintes dizeres, aí é que você teria ainda mais certeza:

    “Você foi contemplado no sorteio tal e tal e é o ganhador

    da importância de cinco milhões de reais.”

    Na verdade, quanto mais erros deste tipo houver (cada um num lugar diferente), tanto mais certo você estará com respeito à mensagem original. É por isso que os erros dos escribas nos manuscritos bíblicos não afetam a mensagem básica da Bíblia. Assim, na prática, por mais imperfeições que haja nos manuscritos utilizados, a Bíblia que temos em nossas mãos transmite a verdade completa da original Palavra de Deus.

    Erro número 16: confundir afirmações gerais com universais.

    Com freqüência, os críticos rapidamente chegam à conclusão de que afirmações que não mencionam restrições não admitem exceções. Apoderam-se de versículos que apresentam verdades gerais e então regozijam-se em mostrar óbvias exceções. Ao fazerem isso, se esquecem de que tais afirmações foram feitas com a intenção de serem generalizações.

    O livro de Provérbios é um bom exemplo de casos assim. Dizeres proverbiais, por sua própria natureza, dão-nos apenas uma direção, e não uma certeza aplicável a todos os casos. São regras para a vida, mas regras que admitem exceções. Provérbios 16:7 é um desses casos. A afirmação é: “Sendo o caminho dos homens agradável ao Senhor, este reconcilia com eles os seus inimigos”. Isto obviamente não tinha a intenção de ser uma verdade universal. Paulo era agradável ao Senhor, e seus inimigos o apedrejaram (At 14:19). Jesus foi agradável ao Senhor, e seus inimigos o crucificaram! Não obstante, esta é uma regra geral: aquele que vive de modo a agradar ao Senhor poderá minimizar o antagonismo de seus inimigos.

    Outro exemplo de uma verdade geral é Provérbios 22:6: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele”. Entretanto, outras passagens da Bíblia nos mostram que isto nem sempre é verdade. De fato, alguns homens piedosos na Bíblia (inclusive Jó, Eli e Davi) tiveram filhos perversos. Este provérbio não contradiz a experiência por ser um princípio geral, que se aplica de maneira geral, mas que permite exceções em casos isolados. Os provérbios não têm a característica de ser garantias absolutas. Antes, eles expressam verdades que nos proporcionam conselhos e direções úteis, que cada um de nós deve aplicar à própria vida, a cada dia.

    Não passa de um simples erro presumir que a sabedoria de um provérbio seja sempre uma verdade universal. Os provérbios são sabedoria (direções gerais), não leis (imperativos com aplicação universal). Quando a Bíblia declara “…vós sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11:45), então não há exceções. Santidade, bondade, amor, verdade e justiça estão na raiz precisa da natureza de Deus, que é imutável e, por isso, não admite exceções. Mas a sabedoria toma as verdades universais de Deus e as aplica a circunstâncias específicas e sujeitas a alterações, as quais, por sua própria natureza mutável, nem sempre produzirão os mesmos resultados. Não obstante, a sabedoria ainda assim é muito útil como um guia para a vida, mesmo admitindo eventuais exceções.

    Erro número 17: esquecer-se de que uma revelação posterior sobrepõe-se a uma anterior.

    Algumas vezes, os críticos das Escrituras se esquecem do princípio da revelação progressiva. Deus não revela tudo de uma só vez, nem determina sempre as mesmas condições para todos os períodos do tempo. Portanto, algumas de suas revelações posteriores vão sobrepor-se a afirmações anteriores.

    Os críticos da Bíblia às vezes confundem uma mudança na revelação com um erro. O erro, entretanto, é do crítico. Por exemplo, o fato de que a mãe ou o pai de uma criança permita que ela, quando bem pequena, coma com a mão, para somente mais tarde ensinar-lhe a comer com uma colher não é uma contradição. Nem ainda a mãe ou o pai estará se contradizendo quando, mais tarde, insistir para que o filho use um garfo, e não mais uma colher, para comer vegetais. Isto é revelação progressiva, sendo cada ordenança adequada à circunstância particular em que a pessoa se encontra.

    Houve uma época em que Deus testou a humanidade proibindo-a de comer o fruto de uma determinada árvore no jardim do Éden (Gn 2:16-17). Este mandamento não está mais em vigor, mas a revelação posterior não contradiz a anterior. Também houve um período (sob a lei de Moisés) em que Deus ordenou que animais fossem sacrificados pelo pecado do povo. Entretanto, desde que Cristo ofereceu o sacrifício perfeito pelo pecado (Hb 10:11-14), esse mandamento do AT não está mais em vigor. Aqui, de novo, não há contradição entre o mandamento posterior e o anterior.

    De igual forma, quando Deus criou a raça humana, ele ordenou que se comessem apenas frutas e vegetais (Gn 1:29). Mas depois, quando as condições se alteraram após o dilúvio, Deus ordenou que se comesse também carne (Gn 9:3). Tal mudança de uma condição herbívora para uma carnívora é uma revelação progressiva, mas não se constitui uma contradição. De fato, todas as subseqüentes revelações são simplesmente mandamentos diferentes para pessoas diferentes em tempos diferentes, dentro do plano geral de Deus para a redenção.

    É certo que Deus não poda alterar mandamentos que têm que ver com e tua natureza Imutável (cf. Ml 3:6; Hb 6:18). Por exemplo, sendo Deus amor (1 Jo 4:16), ele não pode ordenar que o odiemos. Nem pode ordenar o que é logicamente impossível, como, por exemplo, oferecer e, ao mesmo tempo e com o mesmo propósito, não oferecer um sacrifício pelo pecado.

    Mas, apesar desses limites de ordem lógica e moral, Deus pode e revelou-se de maneira progressiva e não contraditória. Quando, porém, os fatos relativos a sua revelação são tirados do próprio contexto e comparados a outros anteriores, podem parecer uma contradição. Esse, contudo, é o mesmo tipo de erro de quem acha que a mãe está-se contradizendo ao permitir que o filho, agora mais velho, vá dormir mais tarde.

    Depois de quarenta anos de estudo contínuo e cuidadoso da Bíblia, a única conclusão a que se pode chegar com respeito àqueles que pensam terem descoberto um erro na Bíblia é que eles não sabem muita coisa a respeito dela – na verdade, sabem é muito pouco sobre a Bíblia! Isso não significa, é claro, que entendemos todas as dificuldades existentes nas Escrituras. Mas, certamente, isso nos faz crer que Mark Twain tinha razão ao concluir que não era a parte da Bíblia que ele não entendia o que mais o incomodava, mas as partes que ele compreendia, estas, sim, o incomodavam !

     

    Fonte: MANUAL POPULAR de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia – Norman Geisler – Thomas Howe

     


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  • OS TÍTULOS DE JESUS

    Gênesis 1.1-2.3; Mateus 9.1-8; Mateus 16.13-21; João 1.1-18; Apocalipse 19.11-16

    Jesus de Nazaré recebeu mais títulos do que qualquer outra pessoa na História. Uma lista breve incluiria o seguinte:

    • Cristo
    • Senhor
    • Filho do Homem
    • Salvador
    • Filho de Davi
    • Grande Sumo Sacerdote
    • Filho de Deus
    • Alfa e Ômega
    • Mestre
    • Professor
    • Justiça
    • Profeta
    • Rosa de Sarom
    • Lírio dos Vales
    • Advogado
    • Leão de Judá
    • Cordeiro de Deus
    • Segundo Adão

    Os principais títulos dados a Jesus são:

    1.Cristo. O título Cristo é usado com tanta freqüência, referindo-se a Jesus, que as pessoas às vezes o confundem com seu segundo nome. Entretanto, não se trata de um nome, mas de um título que indica sua posição e sua obra como Messias. O termo Cristo vem da palavra grega Christos, usada para traduzir a palavra hebraica para Messias. Tanto Cristo quanto Messias significam “o Ungido”.

    No Antigo Testamento, o conceito do Messias prometido, o qual seria singularmente ungido pelo Espírito Santo, era uma idéia complexa, com muitas interpretações. Os judeus não tinham todos a mesma idéia sobre o Messias.

    Um conceito sobre o Messias era que ele seria um rei. Seria o Filho ungido de Davi, o Leão de Judá, o qual restauraria o reino caído de Davi. (Este aspecto excitava grandemente os judeus e avivava as chamas da esperança em um governante político que iria libertá-los da sujeição a Roma.)

    O Messias, porém, era também chamado o Servo de Deus, na verdade o Servo Sofredor mencionado na profecia de Isaías. Parecia praticamente im­possível unir esses dois papéis numa só pessoa, embora obviamente fossem uni­dos em Jesus.

    O Messias também seria um ser celestial (Filho do Homem) e teria uma relação única com o Deus Pai (Filho de Deus). Seria também profeta e sacerdo­te. Quanto mais percebemos o quanto o conceito do Messias era complexo, mais ficamos maravilhados com a maneira intrincada pela qual todos esses as­pectos foram reunidos na pessoa e na obra de Jesus.

    2.Senhor. O segundo usado com maior freqüência para Jesus no Novo Testa­mento é o título Senhor. Este título é de suprema importância para o entendimen­to do perfil de Jesus no Novo Testamento. O termo senhor é usado de três maneiras distintas no Novo Testamento. A primeira é uma forma comum de tra­tamento, semelhante ao nosso uso de “senhor” [sim, senhor; Sr. José etc.]. O segundo uso refere-se ao dono de escravos, ou “amo”. Aqui é aplicado num sentido figurado a Jesus. Ele é o nosso Dono. O terceiro é o uso imperial. Refe­re-se àquele que é soberano.

    No século I, os imperadores romanos exigiam um juramento de lealdade por parte dos súditos, por meio do qual exigia-se que repetissem a fórmula: “César é Senhor”. Os cristãos eram torturados por se recusarem a concordar com isso. Em vez disso, proclamaram o primeiro credo cristão: “Cristo é o Se­nhor”. Chamar Jesus de “Senhor” era radical não só do ponto de vista dos roma­nos, mas especialmente do ponto de vista dos judeus, pois era o título dado ao próprio Deus no Antigo Testamento.

    O título Senhor foi concedido a Jesus por Deus o Pai. É o “nome que está acima de todo nome”, sobre o qual Paulo fala em Filipenses 2.9.

    3. Filho do Homem. Este é um dos mais fascinantes títulos dados a Jesus e talvez o que é mais freqüentemente mal-interpretado. Pelo fato de que a Igreja confessa a dupla natureza de Jesus, que ele é verdadeiramente homem e verda­deiramente Deus, e porque a Bíblia descreve Jesus como Filho do Homem e Filho de Deus, é tentador concluir que Filho do Homem refere-se à humanidade de Jesus e Filho de Deus refere-se à sua divindade. Esse, entretanto, não é exa­tamente o caso. Embora o título Filho do Homem inclua um elemento de huma­nidade, sua referência primária é à natureza divina de Jesus. O título Filho de Deus também inclui uma referência à divindade, mas sua ênfase primária é sobre a obediência de Jesus como filho.

    Este título. Filho do Homem, tem ainda mais importância quando com­preendemos que, embora esteja em terceiro lugar (bem embaixo na lista), em termos de freqüência de uso no Novo Testamento (atrás de Cristo e Senhor), está em primeiro lugar (com uma grande margem) nos títulos que Jesus usava para referir-se a si próprio. Filho do Homem é a designação mais favorita de Jesus para si mesmo.

    A importância deste título é tirada da sua ligação com o uso que Daniel fez dele no Antigo Testamento (ver Dn 7). Ali, Filho do Homem claramente referia-se a um ser celestial que agia como um Juiz cósmico. Nos lábios de Jesus o título não é um exercício de falsa humildade, mas uma ousada reivindicação de autoridade divina. Jesus alegou, por exemplo, que o Filho do Homem tinha auto­ridade para perdoar pecados (Mc 2.10), uma prerrogativa divina, e era Senhor do sábado (Mc 2.28).

    4. O Logos. Nenhum título de Jesus despertou mais intenso interesse filosófico e teológico nos primeiros três séculos do que o título Logos. O Logos era central no desenvolvimento da Cristologia da Igreja Primitiva. O prólogo do Evangelho de João é crucial para este entendimento cristológico do Logos. João escreve: “No princípio era o Verbo (Logos), e o Verbo (Logos) estava com Deus, e o Verbo (Logos) era Deus ” (Jó 1.1).

    Nesta passagem notável, o Logos é tanto distinto de Deus (“estava com Deus”), quanto identificado com Deus (“era Deus”). Este paradoxo teve grande influência no desenvolvimento da doutrina da Trindade, em que o Logos é visto como a Segunda Pessoa da Trindade. Ele difere em pessoa do Pai, mas é um em essência com o Pai.

    E fácil de entender por que os filósofos cristãos foram atraídos pelo con­ceito do Logos como um título de Jesus. Embora o termo possa ser traduzido simplesmente como “palavra”, ele tinha um histórico de utilização como termo técnico na filosofia o qual deu ao Logos um significado muito rico. Os antigos gregos preocupavam-se com o sentido do universo e por isso se engajaram numa busca pela “realidade suprema” (metafísica). Eles buscavam o fator unifícador ou o poder que traria a ordem e a harmonia na amplamente diversificada esfera da criação (cosmologia). Os filósofos procuravam por uma nous (mente)

    à qual (ou a quem) poderiam atribuir a ordem de todas as coisas. A essa realidade suprema unificadora os gregos deram o nome de Logos. Ela proporcionaria a coerência ou a “lógica” da realidade. O conceito foi usado por Heráclito e posteriormente pela filosofia Estóica, na qual era usada como uma lei cósmica e abstrata.

    Embora desta maneira o termo fizesse parte da bagagem da filosofia grega anterior ao Cristianismo, o uso bíblico do Logos vai muito além do uso grego. Em Gênesis 1 3 e seguintes, a Bíblia diz: “Disse Deus… e assim se fez”. Desta maneira, foi por meio da Palavra de Deus que a criação veio à existência. O que distancia o conceito do Logos da filosofia grega, de maneira mais significativa, contudo, é que o Logos do Novo Testamento épessoal — a Palavra é uma pessoa divina e tornou-se um homem, o qual viveu e morreu em nosso mundo.

    Sumário

    1. Messias significa “ungido” e é usado como um título de Jesus indicando seu papel tanto como Rei como Servo Sofredor. Messias é o título usado com mais freqüência referindo-se a Jesus.

    2. Senhor é o segundo título usado com mais freqüência para Jesus e refere-se à sua autoridade suprema como Soberano do universo.

    3. Filho do Homem é o título que o próprio Jesus usava com mais freqüência referindo-se a si mesmo. Este título refere-se primariamente ao papel de Jesus como Juiz de todo o cosmos.

    4. O título Logos tem uma rica herança tanto da cultura grega como da judaica. Jesus é o Logos — o Criador do universo, a realidade suprema por trás dele e aquele que está constantemente sustentando-o.

    Fonte: Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C. Sproul

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  • Panorama Histórico do Pentecostalismo

    Por: Gary B. Mc Gee

    Alguém comentou, certa vez, que o Pentecostalismo é um movimento à procura de uma teologia, como se não estivesse ele radicado à interpretação bíblica e à doutrina cristã. As pesquisas sobre o desenvolvimento histórico e teológico das crenças pentecostais têm revelado, contudo, uma tradição teológica bem elaborada. O Pentecostalismo, conquanto possua muita coisa em comum com as outras denominações evangélicas, apresenta um vívido testemunho da obra do Espírito Santo na vida e na missão da Igreja.

    Tendo como ponto de partida o panorama histórico do Pentecostalismo, este capítulo focaliza o crescimento da teo­logia das Assembleias de Deus desde a sua fundação e orga­nização em 1914, nos EUA. Os fatores considerados, neste estudo, incluem os alvos principais, as pessoas que mais influenciaram na elaboração da doutrina, a literatura e os vários meios empregados na preservação da teologia.

    A Continuidade dos Dons Espirituais

    No decurso da história do Cristianismo, sempre houve pessoas que buscaram “algo mais” em sua peregrinação espi­ritual, e que, ocasionalmente, eram levadas a indagar acerca do significado do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais. A erudição recente tem lançado mais luz sobre os movimentos carismáticos, demonstrando que o interesse pela obra do Espírito Santo tem perdurado através da história da Igreja.

    Pelo menos dois reavivamentos no século XIX podem ser considerados precursores do moderno pentecostalismo. O primeiro ocorreu na Inglaterra, em torno de 1830, durante o ministério de Edward Irving; o segundo, no extremo sul da índia, por volta de 1860, mediante a influência da teologia dos Irmãos de Plymouth e sob a liderança do leigo indiano J. C. Aroolappen. Documentos contemporâneos a respeito de ambos os movimentos incluíam referências ao falar noutras línguas e à profecia.

    As conclusões dessa pesquisa corrigem, em parte, a cren­ça existente em alguns círculos teológicos de que os dons espirituais cessaram na Era Apostólica. Opinião esta, aliás, proposta enfaticamente por Benjamin B. Warfield em Counterfeit Miracles (1918). Warfield argumentava que a autoridade escrita e objetiva das Escrituras, que são inspira­das pelo Espírito Santo, seria inevitavelmente subvertida por aqueles que ensinassem um conceito subjetivo do mesmo Espírito.  Nos últimos anos, essa perspectiva vem perdendo terreno nos círculos evangélicos.

    Com a chegada do reavivalismo, no fim do século XVII e início do século XVIII, na Europa e na América do Norte, os pregadores calvinistas, luteranos e arminianos passaram a enfatizar o arrependimento e a piedade na vida cristã. Qual­quer estudo do Pentecostalismo tem de se ater aos eventos desse período, especialmente à doutrina da perfeição cristã ensinada por João Wesley, o pai do Metodismo, e pelo seu assistente, João Fletcher. A publicação por Wesley de A Short Account of Christian Perfection (1760) conclama seus seguidores a buscarem uma nova dimensão espiritual. Essa segunda obra da graça, posterior à conversão, libertaria os crentes de sua natureza moral imperfeita, que os tem induzido ao comportamento pecaminoso.

    Essa doutrina chegou à América do Norte, e inspirou o crescimento do Movimento da Santidade. A ênfase voltada à vida santificada, mas sem mencionar o falar noutras lín­guas, registrado nas Escrituras (“derramamento do Espírito”, “batismo no Espírito Santo”, “línguas de fogo”), tornou-se “marca registrada” da literatura e hinódia do Movimento da Santidade. Uma das principais líderes da ala metodista do movimento, Phoebe Palmer, editou o Guide to Holiness e escreveu, entre outros livros, The Promise of the Father (1859). Outro escritor popular, William Arthur, escreveu Tongue ofFire (1856), um grande sucesso literário.

    Aos que procuravam receber a “segunda bênção” era ensinado que cada cristão precisa “esperar” (Lc 24-49) pela promessa do batismo no Espírito Santo. E, assim, seria que­brado o poder do pecado que domina a pessoa desde o seu nascimento, levando-a a viver cheia do Espírito. Além disso, Joel profetizou que, como resultado do derramamento do Espírito de Deus, “vossos filhos e vossas filhas profetizarão” nos últimos dias (Jl 2.28).

    A crença numa segunda obra da graça não ficou confina­da ao círculo metodista. Charles G. Finney, por exemplo, acreditava que o batismo no Espírito Santo provesse o reves­timento do poder divino para se obter a perfeição cristã. Sua teologia, porém, não se encaixava nem na categoria wesleyana, nem na reformada. Embora a teologia da Reforma haja iden­tificado o batismo no Espírito com a conversão, alguns reavivalistas, dentro dessa tradição, aceitavam o conceito de uma segunda obra da graça para revestir os cristãos do poder do alto. Entre eles se encontravam Dwight L. Moody e R, A. Torrey. Apesar desse revestimento de poder, acreditavam, a santificação mantinha-se em sua obra progressiva. Outro personagem-chave, um ex-presbiteriano, A. B. Simpson, fun­dador da Aliança Cristã e Missionária, cuja forma de pensar teve grande impacto na formação doutrinária das Assembleias de Deus, enfatizava nitidamente o batismo no Espírito Santo.

    Semelhantemente, as conferências em Keswick, na Grã-Bretanha (que tiveram início em 1875), também influencia­ram grandemente o Movimento da Santidade na América do Norte. Os conferencistas em Keswick acreditavam que o batismo no Espírito Santo produzia uma vida de contínua vitória (a vida “mais sublime” ou “mais profunda”), caracte­rizada pela “plenitude do Espírito”. Esta veio a ser a interpre­tação preferida ao conceito wesleyano, que sustentava que o batismo no Espírito produzia a perfeição cristã.

    No século XIX, a ciência médica avançava lentamente e pouca ajuda oferecia aos que se achavam gravemente enfer­mos. A fé no poder miraculoso de Deus para a cura física era acolhida em alguns círculos. Na Alemanha do século XIX, os ministérios que ressaltavam a oração pelos enfermos (es­pecialmente os de Dorothea Trudel, Johann Cristoph Blumhardt e Otto Stockmayer) chamavam a atenção dos norte-americanos. A teologia da Santidade, com sua crença na purificação instantânea do pecado ou no revestimento de poder do Espírito Santo, produziu um ambiente receptivo aos ensinos da cura imediata através da fé.

    Para muitos cristãos, o batismo no Espírito restaura ple­namente o relacionamento espiritual que Adão e Eva ti­nham com Deus no jardim do Eden. De modo significante, a vida mais sublime em Cristo podia, também, inverter os efeitos físicos da queda, capacitando os cristãos a adquirir autoridade sobre as enfermidades do corpo. Os defensores da cura divina, tais como Charles C. Cullis, A. B. Simpson, A. J. Gordon, Carrie Judd Montgomery, Maria B. Woodworth-Etter e John Alexander Dowie, baseavam boa parte dessa crença em Isaías 53.4,5, bem como nas promessas neotestamentárias de cura divina. Posto que Cristo não so­mente perdoava os pecados, mas também curava as enfermi­dades, os que viviam pela fé na promessa de Deus (Ex 15.26) já não precisavam de assistência médica. Caso lançassem mão desta, estariam demonstrando falta de fé.

    As características cada vez mais “pentecostais” do movi­mento da Santidade deixavam seus adeptos dispostos a con­siderar os dons do Espírito na vida da Igreja. Embora a maioria deles cresse que o falar noutras línguas tivesse cessa­do na Igreja primitiva, os demais dons, inclusive a cura miraculosa, estavam à disposição dos cristãos. A partir daí, somente a incredulidade poderia impedir fosse a Igreja do Novo Testamento restabelecida em santidade e poder.

    Quando, porém, o pregador wesleyano radical da Santi­dade, Benjamin Hardin Irwin, começou, em 1895, a ensinar sobre as três obras da graça, os problemas começaram a surgir. Segundo Irwin, a segunda bênção iniciava a santifica­ção, e a terceira trazia o “batismo do amor ardente” (o batismo no Espírito Santo). A maior parte do movimento da Santidade condenava essa “terceira bênção”, classificando-a como heresia (a qual, entre outras coisas, criava o problema das evidências distintivas entre a segunda e a terceira bênçãos). Não obstante, a noção que Irwin possuía de uma terceira obra da graça – o revestimento do poder no serviço cristão – firmou-se como alicerce do Movimento Pentecostal.

    A Teologia Pentecostal e as Missões

    Embora os evangélicos do século XIX adotassem, em sua grande maioria, conceitos amilenistas ou pós-milenistas, era este que captava o espírito daqueles tempos. Escritores de todas as tendências, desde Charles Darwin até John Henry Newman e Charles Hodge, utilizaram-se das descobertas e do progresso da ciência na formação da doutrina e da escatologia, respectivamente. Outros, porém, chegaram à conclusão de que a condição da raça humana haveria de piorar ainda mais até a volta iminente de Cristo.

    O modo sombrio como os pré-milenistas avaliaram o futuro imediato gerou enormes preocupações entre os que haviam assumido o compromisso com a evangelização mun­dial. A maior parte do movimento missionário dedicara mui­to tempo e energia à construção de escolas, orfanatos e ambulatórios médicos, com a finalidade de aproximar as populações indígenas da cultura ocidental, procurando in­duzi-las à conversão. Devido a essa ênfase secundária dada ao evangelismo, o número real de convertidos revelou ser tão pequeno, que chegava a ser preocupante. As interpre­tações pré-milenares de Daniel, Zacarias e Apocalipse; o aparecimento do movimento sionista; a corrida armamentista de 1890; e o fim do século que se aproximava, levaram muitos a perguntar angustiadamente como os milhões não alcançados ouviriam a mensagem do Evangelho a fim de se salvarem da destruição eterna.

    A soma dos títulos de Cristo como Salvador, Batizador. (Santificador), Médico e Rei Vindouro, descrita como o “evangelho integral” ou o “evangelho pleno”, refletia o dese­jo de se restaurar o cristianismo do Novo Testamento nestes últimos dias. O interesse generalizado pelo batismo e dons do Espírito Santo convenceu alguns de que Deus concederia o dom de línguas a fim de equipá-los com idiomas humanos identificáveis (xenolalia) para que pudessem anunciar o Evan-, gelho noutros países, agilizando assim a obra missionária. Em certa ocasião, o reavivamento na ACM em Topeka, Estado de Kansas, em 1889-1890, deu origem à organiza­ção da Missão Kansas-Sudão, cujos membros não demo­raram a partir para o campo missionário, na África Oci­dental. Passando pela cidade de Nova York, visitaram os escritórios de A. B. Simpson, onde ouviram as suas opini­ões sobre a cura divina. E, assim, tornaram-se confiantes: a vida singela na fé e no poder do Espírito Santo os capacitaria a enfrentar qualquer acontecimento futuro. Leiamos este relato: “Dois dos seus princípios supremos eram a cura pela fé e os dons pentecostais de línguas; nenhum remédio devia ser tomado, e nenhum dicionário ou gramática consultado. O grupo foi acometido pela febre maligna; dois morreram, recusando a quinina”.17 Embora a expedição terminasse em tragédia, o ideal con­tinuou vivo.

    Em 1895, o autor e líder do Movimento da Santidade, W.B. Godbey, disse que o “dom de línguas” era “destinado a desempenhar um papel de destaque na evangelização do mundo pagão e no cumprimento profético glorioso dos últi­mos dias. Todos os missionários nos países pagãos deviam buscar e esperar esse dom que os capacitaria a pregar fluen­temente no vernáculo. Eles, porém, não deveriam descurar em seus esforços”. Esta esperança era compartilhada por muitos outros.

    Outro defensor desse emprego missionário do dom de línguas era Frank W. Sandford, fundador da Escola Bíblica O Espírito Santo e Nós, em Shiloh, Estado de Maine, em 1895. Através dos seus esforços didáticos e missionários (publicados em Tongues ofFiré), Sandford também espera­va que o mundo fosse rapidamente evangelizado. Não so­mente orava para receber o dom de “poder e eloquência” para o evangelismo, como também induzia os outros a faze­rem-no.

    Na virada do século, o Movimento da Santidade passava a preocupar-se com a “reforma pentecostal da doutrina wesleyana”, bem como com os quatro temas do evangelho integral. Mas quando do início do Movimento Pentecostal, poucos anos mais tarde, a prioridade foi dada ao dom de línguas, distinguindo-o teologicamente do Movimento da, Santidade. Daniel W. Kerr, o teólogo mais influente nos primeiros anos das Assembleias de Deus, observou em 1922:

    Durante esses últimos anos, Deus tem nos capacitado a descobrir e a recuperar a verdade maravilhosa do batismo no Espírito a exemplo do que era concedido no início. Temos, portanto, tudo quanto os outros receberam [Lutero, Wesley, Blumhardt, Trudel e A. B. Simpson], e recebemos mais essa outra verdade. Vemos tudo quanto eles vêem, mas eles não vêem o que nós vemos.

    Sem muita dificuldade, os pentecostais continuavam a ler a literatura do Movimento da Santidade, e a cantar os seus hinos prediletos, tais como “A Onda Purificadora”, “Chegou o Consolador”, “A Terra de Beulá” e “O Poder dos Tempos Antigos”. Vinho novo tinha sido derramado em odres velhos.

    Entre os que esperavam o recebimento do poder do Espírito para evangelizar rapidamente o mundo, achava-se o pregador da Santidade, em Kansas, Charles Fox Parham e seus seguidores. Convencido pelos seus próprios estudos de Atos dos Apóstolos, e influenciado por Irwin e Sandford, testemunhou Parham um reavivamento notável na Escola Bíblica Bethel, em Topeka, Kansas, em janeiro de 1901. A maioria dos alunos, bem como o próprio Parham, rego­zijaram-se por terem sido batizados no Espírito e de have­rem falado noutras línguas (xenolalia). Assim como Deus concedera a plenitude do Espírito Santo aos 120 no Dia do Pentecoste, eles também haviam recebido a promessa (At 2.39). E, na realidade, a “fé apostólica” da Igreja do Novo Testamento foi, finalmente, restaurada de forma plena. Era lógico, portanto, que Bennett Freeman Lawrence, ao escrever a primeira história do Movimento Pentecostal o denominasse de The Apostolic Faith Restored (1916).

    A distintiva contribuição teológica de Parham ao mo­vimento acha-se na sua insistência de que o falar noutras línguas representa a “evidência bíblica” vital da terceira obra da graça: o batismo no Espírito Santo, claramente ilustrado nos capítulos 2, 10 e 19 de Atos dos Apóstolos. Em Voice Cryingin the Wilderness (1902, 1910), Parham escreveu que, os que recebiam o batismo no Espírito San-a to, eram selados como a “noiva de Cristo” (2 Co 1.21,22; Ap 7. 21). Santificados e preparados como grupo de escol de missionários nos tempos do fim, somente estes seriam levados por Cristo no arrebatamento (antes da Tribula­ção) da Igreja, depois de haverem completado a tarefa estipulada na Grande Comissão. Outros cristãos teriam de enfrentar a ordália da sobrevivência durante os sete anos da tribulação que se seguiria. Embora tal doutrina acabasse por ser relegada aos grupos marginais do Movi­mento Pentecostal, realmente levantou uma questão que ainda perdura: a singularidade da obra do Espírito naque­les que falaram noutras línguas em contraste com os que ainda não as falaram.

    Topeka contribuiu para o reavivamento (que passou a ter importância internacional) da Rua Azusa, em Los Angeles, Califórnia (1906-1909). Seu líder principal era o afro-americano William J. Seymour. As notícias das “chu­vas serôdias” (cf. Jl 2.23) espalharam-se rapidamente por outros países através do jornal de Seymour, Apostolíc Faith, e mediante os esforços dos que saíram das reuniões da Rua Azusa às várias partes da América do Norte e ao estrangeiro.

    Embora tivessem ocorrido outros reavivamentos pen-tecostais importantes (Zion, 111.; Toronto; Dunn, N.C.), a complexidade e a importância do reavivamento de Los Angeles continua a ser um desafio aos historiadores. Os temas da iminência escatológica e do poder evangelístico (o legado de Parham) traçaram o caminho seguido pelos pentecostais americanos nos seus esforços agressivos para pregar o evangelho “até aos confins da terra” (At 1.8). Os pentecostais afro-americanos, por outro lado, ressalta­ram a reconciliação entre as raças e o derramamento do poder sobre os tiranizados em Azusa. Reconciliação essa evidenciada pela composição inter-racial dos cultos, catalisada pelo fruto do Espírito (o legado de Seymour).Embora o zelo espiritual pelo evangelismo tenha inspira­do a obra missionária, os pentecostais podem também aprender muitas coisas da mensagem de reconcilação, um dos pontos altos do reavivamento.

    Divisões por Causa de Diferenças Teológicas

    As diferenças teológicas não evaporaram em meio à emoção de proclamar a chegada das “chuvas serôdias”. O novo mo­vimento viu-se diante de três grandes controvérsias, nos primeiros 16 anos da sua existência.

    A primeira questão que dividiu os pentecostais entre si surgiu em fins de 1906. Centralizava-se no valor teológico da literatura narrativa (Atos e os últimos versículos de Marcos 16) para fundamentar a doutrina do falar noutras línguas como a “evidência inicial” do batismo no Espírito Santo. Os que seguiam os passos de Parham consideravam as línguas como a evidência palpável do batismo no Espírito Santo. Quanto às evidências encontradas em Atos, possuem tanta autoridade quanto qualquer outro texto das Escrituras. Ou seja: as línguas, em Atos, têm a função de ser a evidência do batismo no Espírito Santo; em 1 Coríntios, as línguas possu­em outras funções: ajudar na vida de oração do crente (14.4,14,28), visando a edificação da congregação (14.5,27). Mas para os que examinavam Atos dos Apóstolos do ponto de vista tido como paulino, o falar em línguas em nada diferia do dom de línguas em 1 Coríntios.

    Os que acreditam serem as línguas a evidência inicial do batismo no Espírito, seguem o padrão hermenêutico de ou­tros restauracionistas: elevam certos costumes da Igreja Pri­mitiva à condição de doutrina. Afinal, quem poderia negar ser a obra do Espírito Santo o tema central de Atos, posto que os discípulos foram enviados a pregar o Evangelho até aos confins da terra, tendo como reforço os “sinais e prodígi­os” (At 4.29,30)? Nesse caso e em outros, como na doutrina do lava-pés, por exemplo, os pentecostais trinitarianos ape­lam a um padrão doutrinário, tendo como base a literatura narrativa.

    Depois de 1906, os pentecostais passaram a reconhecer, cada vez mais, que, na maioria das ocorrências do falar em línguas, os cristãos realmente estavam orando em línguas não-identificáveis e não em idiomas identificáveis (glossolalia ao invés de xenolalià). Embora Parham mantivesse sua opi­nião a respeito da finalidade das línguas na pregação transcultural, os pentecostais chegaram finalmente à conclusão: as línguas representavam a oração no Espírito, a intercessão e o louvor.

    O outro debate girava em torno da segunda obra da graça: a santificação. E instantânea ou progressiva? Confor­me se podia prever, a linha divisória foi traçada entre os pentecostais com tendências wesleyanas (três obras da gra­ça) e os pentecostais com tendências reformadas (duas obras). No sermão “A Obra Acabada no Calvário” (pregado em 1910 na Convenção Pentecostal da Igreja de Pedra, em Chicago, Michigan), William H. Durham, um batista que se tornara pentecostal, declarou que o problema do pecado original (hereditário) recebera o golpe fatal quando da cruci­ficação de Cristo. A fé na eficácia desse evento continuava a frutificar espiritualmente, tendo por fundamento a justiça de Cristo imputada a todo o que crê.

    A terceira controvérsia entre os pentecostais resultou do impulso restauracionista e da forte ênfase cristológica do evangelho integral. Perguntas a respeito da natureza da Di­vindade surgiram nas reuniões do Acampamento Pentecos­tal Internacional em Arroyo Seco (perto de Los Angeles). R. E. McAlistér, num sermão batismal, observou que os apósto­los batizavam usando o nome de Jesus (At 2.38) ao invés da fórmula trinitariana (Mt 28.19). Os que achavam ter desco­berto as características que lançavam luz sobre a restauração da Igreja do Novo Testamento, foram rebatizados em o nome de Jesus, seguindo mais um padrão de Atos dos Após­tolos (segundo seu modo de ver). Vários crentes, inclusive Frank J. Ewart, continuaram o estudo do batismo nas águas. Daí surgiu outro agrupamento de igrejas.

    Esses cristãos enfatizavam a “unicidade”, ou unidade, da Divindade em contraste com o conceito cristão ortodoxo de um só Deus em Três Pessoas. Além disso, os teólogos da “unicidade” sustentavam: posto ser Jesus Cristo o nome re­dentor de Deus, é mediante o seu nome que são concedidas a salvação e as demais bênçãos divinas. Desde o início for­maram-se dois grupos dentro do movimento da “unicidade”: os que acreditam que a conversão e o batismo nas águas em o nome de Jesus são seguidos por uma segunda experiência de revestimento de poder, e os que sustentam que os três elementos de Atos 2.38 (o arrependimento, o batismo em o nome de Jesus e o recebimento do Espírito Santo (falar , noutras línguas) convergem num só ato da graça – o novo nascimento.

    Condenando a teoria da unicidade, os fundadores das Assembleias de Deus tinham como certo que a fé apostólica havia sido protegida da falsa doutrina. Nos anos que se seguiram, concentraram sua atenção na conservação das verdades do reavivamento.

    Desenvolvimento da Teologia das Assembleias de Deus

    Quando o Concílio Geral (título abreviado do Concílio Geral das Assembleias de Deus) veio a existir, em Hot Springs, Estado de Arkansas, em abril de 1914, já havia entre os participantes um consenso doutrinário, edificado nas verda­des históricas da fé, juntamente com os temas da santidade wesleyana e de Keswick. Diante de uma pergunta sobre as crenças desses pentecostais, E. N. Bell, membro do Executi­vo e primeiro presidente geral (posteriormente chamado superintendente geral), assim começou sua resposta:

    Essas assembleias opõem-se a toda Alta Crítica radical da Bíblia, a todo o modernismo, a toda a incredulidade na igreja e a filiação a ela de pessoas não-salvas, cheias de pecado e de mundanismo. Acreditam em todas as verdades bíblicas genuínas sustentadas por todas as igrejas verdadeiramente evangélicas.

    Mesmo assim, o primeiro Concílio Geral ainda não tinha sido convocado para escrever um novo credo, ou a deitar os alicerces da nova denominação. Pelo contrário: os delegados meramente adotaram o “Preâmbulo e Resolução sobre a Constituição” proposto, retratando seus interesses, e que continha o teor de vários artigos de fé importantes.

    Da mesma forma que outros pentecostais, os membros das Assembleias de Deus foram caracterizados por cinco valores implícitos: a experiência pessoal, a comunicação oral (também refletida nos testemunhos, revistas e livretes da igreja, na literatura da Escola Dominical, nos panfletos e nos folhetos evangelísticos), a espontaneidade, o repú- dio ao mundanismo e a autoridade das Escrituras. Todos m esses valores podem ser observados nos conceitos da lide­rança, do modo de vida, da adoração e da literatura religi­osa. Tais valores definem, em boa parte, a natureza incomparável do Pentecostalismo, e explicam por que pouca ênfase tem sido empregada no tratamento acadê­mico da teologia.

    Editores e escritores vêm produzindo revistas, livros, opús­culos, folhetos e currículos da Escola Dominical, para ajuda­rem no amadurecimento dos cristãos. Eles têm ilustrado, também, a vida vitoriosa da comunidade pentecostal através do registro de milhares de testemunhos, orações atendidas, curas físicas, expulsões de demônios etc. Desde o início, o desafio de conservar a obra do Espírito tem consumido ener­gias substanciais. Sua literatura, por esse motivo, exibe uma orientação leiga, mas orientada por autores que estudaram em faculdades e institutos bíblicos.

    A Preservação da Doutrina até 1950

    Quando a questão da “unicidade” ameaçou dividir o Concílio Geral na sua convenção de 1916, os líderes da igreja dispuseram-se a deixar de lado as opiniões definidas em Hot Springs. E, assim, estabeleceram limites doutrinários para proteger a integridade da igreja e o bem estar dos santos. Vários ministros de destaque, dirigidos por Daniel W. Kerr, esboçaram a Declaração das Verdades Fundamen­tais que contém uma longa seção sustentando o conceito ortodoxo da Trindade.

    A Declaração das Verdades Fundamentais não preten­de ser um credo para a Igreja, nem uma base para a comu­nhão entre os cristãos, mas somente uma base de união para o ministério… A fraseologia, empregada numa declaração como esta, não é inspirada, nem reivindica tal. Mas a verda­de exposta é considerada indispensável para o ministério do Evangelho Integral. Embora não contenha toda a verdade bíblica, atende ela as nossas necessidades no tocante às doutrinas fundamentais.

    Subsequentemente, os ministros da “unicidade” deixa­ram o Concílio de uma só vez.

    Ao contrário da explanação exaustiva da Trindade, ou­tros temas (“Cura Divina”, “Batismo no Espírito Santo”) são, notavelmente sucintos, a despeito do seu caráter distinto. Tal fato coaduna-se com o ímpeto que está por trás de documentos desse tipo. Todas as declarações, em forma de credo, surgem’ da controvérsia, e ressaltam usualmente os ensinos específicos, assuntos de contenda.

    A Declaração das Verdades Fundamentais, portanto, serve como arcabouço doutrinário para o crescimento da vida e do ministério cristãos. Não pretendia, originalmente, ser um esboço para uma teologia sistemática coesiva. Haja vista que a seção intitulada “A Queda do Homem” menciona, natu­ralmente, que toda a raça humana caiu no pecado. Ao mesmo tempo, porém, permite ao leitor certa liberdade para determinar o significado do pecado original e a forma da sua transmissão de geração em geração.

    Nos anos que se seguiram, várias abordagens ajudaram na preservação da doutrina. Várias razões motivaram tais esforços. Primeiro: os cristãos devem progredir no viver cheio do Espírito Santo a fim de valorizar sua eficácia como teste­munhas de Cristo. Quando a Comissão Executiva reconhe­ceu o perigo das anotações antipentecostais da Bíblia de Referências de Scofield, proibiu-se a sua propaganda no Pentecostal Evangel durante dois anos (1924-1926), antes que os seus membros se deixassem convencer de que os co­mentários edificantes da obra pesavam mais que aqueles.

    Não é de admirar que a Casa Publicadora da denomina­ção, em Springfield, Missouri, haja produzido uma variedade considerável de livros populares com temas doutrinários, além de materiais para a Escola Dominical. Exemplos: The Phenomenon of Pentecost (1931), de Donald Gee, Rivers of Living Water (sem data), de Stanley H. Frodsham, e Healing from Heaven (1926), de Lilian B. Yeomans. Alice Reynolds Flower, uma das fundadoras das Assembleias de Deus, co­meçou a escrever lições para a Escola Dominical nas páginas do Christian Evangel (posteriormente chamado Pentecostal Evangel) No decorrer do tempo, as valiosas oportunidades para o treinamento de obreiros, oferecidas pelas Escolas Dominicais, começaram a chamar atenção. Um livro-texto sobre os princípios da interpretação bíblica surgiu, em 1938, na forma de uma tradução feita por P. C. Nelson. Intitulada Hermenêutica, a obra de autoria de Eric Lund, fora publica­da originalmente pela Southwestern Press, afiliada ao Insti­tuto Bíblico das Assembleias de Deus em Enid, Oklahoma.

    Os que não podiam frequentar institutos bíblicos, estu­davam o Plano da Salvação por meio do ministério de evangelistas itinerantes, que traziam seus enormes (às vezes com 10 metros de largura) gráficos dispensacionais e os dependuravam na parede, atravessando a plataforma da igreja, para que o assunto fosse devidamente explanado. O evange­lista, segurando um indicador, guiava o auditório através dos sete períodos dispensacionais da redenção divina, explican­do as verdades bíblicas desde a Era da Inocência, no Jardim do Eden, até ao Milênio.45 Entre os que produziram tais materiais, Finis Jennings Dake era provavelmente o pentecostal mais conhecido. De fato, suas muitas publicações, inclusive apostilas, livros e, posteriormente, Dake’s Annotated Reference Bible (1963), vêm ajudando a moldar a teologia de muitos pentecostais.46

    Relatos romanceados foram escritos por Elizabeth V. Baker entre outros autores: Chronicles of a Faith Life (2ª. edição de 1926); H. A. Baker: Visions Beyond the Veil (1938); Robert W. Cummings: Gethsemane (1944); e Alice Reynolds Flower: Love Overüowing (1928). A poesia tam­bém foi adotada como meio de comunicação para se com­partilhar as verdades espirituais. Entre os poetas mais conhe­cidos achavam-se Alice Reynolds Flower e John Wright Follette.

    Os compositores de hinos e cânticos ajudaram, como sói acontecer, a transmitir as doutrinas pentecostais. Entre os muitos favoritos, as congregações eram abençoadas pelos cânticos de Herbert Buffum, tais como “A Beleza de Cristo” e “Vou Até ao Fim”.47 Os cânticos dos pentecostais affo-americanos da “unicidade” também fizeram-se bastante apre­ciados, especialmente os de Thoro Harris (“Tudo que Emo­ciona a Minha Alma E Jesus”, “Com Mais Abundância” e “Ele Breve Virá”) e do Bispo Garfield T. Haywood (“Jesus, o Filho de Deus” e “Vejo Fluir o Sangue Carmesim”).

    Uma segunda razão que ajudou na preservação da doutrina foi o “gato” usado pelos cristãos para exigirem respostas sólidas diante das doutrinas errôneas. Após 1916, sempre que surgiam ameaças à fé, o Concílio Geral agia m com rapidez para resolver as questões e pendências dou­trinárias. Em 1917, adaptou-se o Artigo 6, da Declaração das Verdades Fundamentais, a fim de se referir às línguas como o “sinal físico inicial” (grifos nossos). Quando o problema voltou à tona, em 1918, a questão hermenêutica do falar noutras línguas, como evidência necessária do batismo no Espírito Santo, foi declarada pelo Concílio Geral como o “nosso testemunho distintivo”. Nos anos que se seguiram, vários artigos de relevância, escritos por Kerr, foram publicados no Pentecostal Evangel, como res­postas às diversas questões doutrinárias.

    Sem emendar a Declaração, o Concílio aprovou regula­mentos internos para se lidar doutra forma com as questões problemáticas. Na categoria de “Erros Escatológicos”, que aparece no Artigo VIII da Constituição e dos Regulamentos Internos, várias doutrinas condenadas encontram-se alista­das. Haja vista a doutrina da “retribuição de todas as coisas”, que teve origem fora das Assembleias de Deus. Charles Hamilton Pridgeon, conhecido ministro em Pittsburgh, Pennsylvania, propôs no seu livro Is Hell Eternal; or Will God’s Plan Fail? (1918), que o inferno seria de duração limitada, visando a purificação dos pecados e que, depois disso, toda a raça humana experimentaria o amor de Deus. Pridgeon, que antes era presbiteriano, e defendia a cura divina, tornou-se pentecostal no começo da década de 20, e continuou a ensinar essa forma de universalismo. A doutrina era chamada a “reconciliação” de todas as coisas, ou simples­mente “pridgeonismo”. O Concílio Geral condenou-a como heresia em 1925. Embora não se saiba quantos pentecostais aceitaram o universalismo de Pridgeon, a ameaça parecia suficientemente grave para merecer a condenação oficial.

    Outra questão tinha a ver com a volta iminente de Cristo. Um pastor podia aceitar a doutrina do Arrebatamen­to após a Tribulação? Quando Benjamim A. Baur requisitou sua carteira de pastor ao Distrito do Leste, em meados de 1930, os presbíteros indeferiram o pedido, alegando que a sua doutrina diminuía a iminência da volta do Senhor. De acordo com a opinião de Baur, os cristãos teriam de suportar na forma de uma tradução feita por P. C. Nelson. Intitulada, Hermenêutica, a obra de autoria de Eric Lund, fora publica­da originalmente pela Southwestern Press, afiliada ao Insti­tuto Bíblico das Assembleias de Deus em Enid, Oklahoma.

    Os que não podiam frequentar institutos bíblicos, estu­davam o Plano da Salvação por meio do ministério de evangelistas itinerantes, que traziam seus enormes (às vezes com 10 metros de largura) gráficos dispensacionais e os dependuravam na parede, atravessando a plataforma da igreja, para que o assunto fosse devidamente explanado. O evange­lista, segurando um indicador, guiava o auditório através dos sete períodos dispensacionais da redenção divina, explican­do as verdades bíblicas desde a Era da Inocência, no Jardim do Eden, até ao Milênio. Entre os que produziram tais materiais, Finis Jennings Dake era provavelmente o pentecostal mais conhecido. De fato, suas muitas publicações, inclusive apostilas, livros e, posteriormente, Dake’s Annotated Reference Bíble (1963), vêm ajudando a moldar a teologia de muitos pentecostais.

    Relatos romanceados foram escritos por Elizabeth V. Baker entre outros autores: Chronicles of a Faith Life (2a. edição de 1926); H. A. Baker: Visions Beyond the Veil (1938); Robert W. Cummings: Gethsemane (1944); e Alice Reynolds Flower: Love Overâowing (1928). A poesia tam­bém foi adotada como meio de comunicação para se com­partilhar as verdades espirituais. Entre os poetas mais conhe­cidos achavam-se Alice Reynolds Flower e John Wright Follette.

    Os compositores de hinos e cânticos ajudaram, como sói acontecer, a transmitir as doutrinas pentecostais. Entre os muitos favoritos, as congregações eram abençoadas pelos cânticos de Herbert Buffum, tais como “A Beleza de Cristo” e “Vou Até ao Fim”. Os cânticos dos pentecostais afro-americanos da “unicidade” também fizeram-se bastante apre­ciados, especialmente os de Thoro Harris (“Tudo que Emo­ciona a Minha Alma E Jesus”, “Com Mais Abundância” e “Ele Breve Virá”) e do Bispo Garfield T. Haywood (“Jesus, o Filho de Deus” e “Vejo Fluir o Sangue Carmesim”).

    Uma segunda razão que ajudou na preservação da doutrina foi o “gato” usado pelos cristãos para exigirem respostas sólidas diante das doutrinas errôneas. Após 1916, sempre que surgiam ameaças à fé, o Concílio Geral agia com rapidez para resolver as questões e pendências dou­trinárias. Em 1917, adaptou-se o Artigo 6, da Declaração das Verdades Fundamentais, a fim de se referir às línguas como o “sinal físico inicial” (grifos nossos).

    Quando o problema voltou à tona, em 1918, a questão hermenêutica do falar noutras línguas, como evidência necessária do batismo no Espírito Santo, foi declarada pelo Concílio Geral como o “nosso testemunho distintivo”. Nos anos que se seguiram, vários artigos de relevância, escritos por Kerr, foram publicados no Pentecostal Evangel, como res­postas às diversas questões doutrinárias.

    Sem emendar a Declaração, o Concílio aprovou regula­mentos internos para se lidar doutra forma com as questões problemáticas. Na categoria de “Erros Escatológicos”, que aparece no Artigo VIII da Constituição e dos Regulamentos Internos, várias doutrinas condenadas encontram-se alista­das. Haja vista a doutrina da “retribuição de todas as coisas”, que teve origem fora das Assembleias de Deus. Charles Hamilton Pridgeon, conhecido ministro em Pittsburgh, Pennsylvania, propôs no seu livro Is Hell Eternal; or Will God’s Plan Fail? (1918), que o inferno seria de duração limitada, visando a purificação dos pecados e que, depois disso, toda a raça humana experimentaria o amor de Deus. Pridgeon, que antes era presbiteriano, e defendia a cura divina, tornou-se pentecostal no começo da década de 20, e continuou a ensinar essa forma de universalismo. A doutrina era chamada a “reconciliação” de todas as coisas, ou simples­mente “pridgeonismo”. O Concílio Geral condenou-a como heresia em 1925. Embora não se saiba quantos pentecostais aceitaram o universalismo de Pridgeon, a ameaça parecia suficientemente grave para merecer a condenação oficial.

    Outra questão tinha a ver com a volta iminente de Cristo. Um pastor podia aceitar a doutrina do Arrebatamen­to após a Tribulação? Quando Benjamim A. Baur requisitou sua carteira de pastor ao Distrito do Leste, em meados de 1930, os presbíteros indeferiram o pedido, alegando que a sua doutrina diminuía a iminência da volta do Senhor. De acordo com a opinião de Baur, os cristãos teriam de suportar a totalidade dos sete anos do período da Grande Tribulação, especialmente os três anos e meio finais – o tempo da “Gran­de Ira” antes de Cristo voltar para buscar a sua Igreja. Embo­ra alguns dos presbíteros regionais aceitassem o Arrebata­mento no meio da Tribulação, a opinião de Baur foi mantida sub judice apesar de sua volumosa defesa por escrito. O Concílio Geral, em 1937, aprovou uma proposta, notifican­do o problema aos fiéis. Pois estes poderiam cair no indiferentismo espiritual se lhes fosse dito que a volta de Cristo não era iminente. Mesmo assim, em consonância com os interesses dos primeiros pentecostais, no sentido de se evitar divisões e dissensões por causa de pontos delicados da doutrina, o novo regulamento interno permitia que os pasto­res cressem num arrebatamento após a Tribulação. Todavia, não deveriam pregar ou ensinar semelhante doutrina. No fim, Baur não recebeu sua carteira pastoral, permanecendo fora do Concílio Geral.

    Uma terceira razão que ajudou na preservação da doutri­na é que os pentecostais tiveram de fazer certo esforço para manter o equilíbrio entre os ensinos bíblicos e a experiência religiosa. Apesar de haverem assumido um compromisso baseado no princípio da autoridade bíblica, segundo a Refor­ma Protestante (“as Escrituras somente”), como a única regra de fé e prática, experimentavam a tentação de elevar as revelações pessoais e outras manifestações místicas ao mesmo nível. A luta é refletida numa reportagem antiga no Pentecostal Evangel, que descreve as expectativas de Frank M. Boyd como um educador e instrutor, no Instituto Bíblico Central (Faculdade a partir de 1965).

    Ele esperava que todos os alunos, ao partirem de lá, estivessem mais cheios de amor e zelo do Espírito Santo do que quando haviam chegado. Segundo ensinava, quando o homem tem a Palavra sem o Espírito, é frequentemente desinteressante como se estivesse seco e morto. E quando têm o Espírito sem a Palavra, há sempre a tendência ao fanatismo. Mas quando o homem possui a Palavra e o Espírito, acha-se equipado como o deseja o Mestre.

    O desafio para se instruir os cristãos a respeito de uma vida madura no Espírito, ajuda explicar a grande prioridade atribuída às publicações pentecostais.

    Manuais pormenorizados de doutrinas, no entanto, não apareceram antes das décadas de 20 e de 30. Um dos mais popularizados: Conhecendo as Doutrinas da Bíblia (1937), foi compilado das apostilas de Myer Pearlman, professor do Instituto Bíblico Central. O teólogo Russell P. Spittler sugere que essa obra é “a jóia teológica do período mediano do Pentecostalismo clássico”. Outros livros, com conteúdos semelhantes, foram publicados, in­clusive o de S. A. Jamieson: Colunas da Verdade (1926), as Doutrinas Bíblicas (1934) de P. C. Nelson, e a Systematic Theology (1953), de Ernest S. Williams, em três volumes. Embora organizada como teologia sistemática, é mais um manual de doutrina; consiste dos esboços das aulas minis­tradas no Instituto Bíblico Central, entre 1929 e 1949. Estudos especiais sobre o Espírito Santo incluíam, Que Quer Isso Dizer/ (1947), de Carl Brumback, e O Próprio Espírito (1949), de Ralph M. Riggs. Numa atividade correlata, Boyd preparou livros sobre a instrução doutri­nária para cursos de correspondência, e assim fundou o que agora é chamado Colégio Bereano das Assembleias de Deus.

    Noutra frente, Alice E. Luce, missionária na índia e posteriormente aos hispanos na América do Norte, orientou o Concílio Geral na articulação da sua teologia e estratégia no tocante às missões mundiais. Ela era a primeira grande missiologista nas Assembleias de Deus. Seus três artigos a respeito dos métodos missionários de Paulo, no Evangel Pentecostal, publicados no começo de 1921, prepararam o cami­nho para a aceitação, pelas Assembleias de Deus, de um compromisso detalhado com os princípios de uma igreja autóctone. A decisão oficial foi comunicada em setembro daquele ano durante a reunião do Concílio Geral. Luce, formada no Cheltenham Ladies’ College (na Inglaterra), tam­bém escreveu vários livros, numerosos artigos em inglês e espa­nhol, esboços de aulas e lições para a Escola Dominical.

    A Preservação da Doutrina depois de 1950

    Com a chegada de uma nova geração interessada na melhoria da qualidade de treinamento em faculdades bíblicas e seculares, os professores foram encorajados a prosseguir a nos seus estudos. Foi assim que começou uma transição paulatina dos responsáveis pelos departamentos de Bíblia e de teologia para instrutores com formação universitária no estudo da Bíblia, da Teologia Sistemática e da História Ecle­siástica, já devidamente equipados com conhecimentos so­bre Hermenêutica, Antigo e Novo Testamentos, Teologia e desenvolvimento histórico da doutrina e da prática.

    Embora muitos tivessem tido, desde o início, preocupa­ções com a intelectualização da fé, a nova estirpe de instru­tores foi um exemplo de equilíbrio entre a espiritualidade pentecostal e os estudos acadêmicos. Um desses professores, Stanley M. Horton, havia se formado em línguas bíblicas e Antigo Testamento, no Seminário Teológico Gordon-Conwell, na Faculdade de Divindades de Harvard, e no Seminário Teológico Batista Central. No decorrer dos anos, Horton começou a demonstrar notável influência sobre a denomina­ção mediante os seus ensinos, livros (O Que a Bíblia Diz Sobre o Espírito Santo [publicado pela CPAD]), artigos em revistas e jornais, e contribuições ao currículo da Escola Dominical para adultos.

    Com perícia cada vez maior, os educadores começaram a explorar com mais profundidade as crenças distintivas das Assembleias de Deus. Muitos deles filiaram-se à Sociedade para Estudos Pentecostais, entidade acadêmica fundada em 1970, contribuindo com artigos para sua revista teológica Pneuma Paraclete (que começou a ser editada em 1967 e, posteriormente, oficializada pela denominação), oferecendo mais uma oportunidade para o estudo erudito, embora haja sido confinada, até 1992, ao estudo da pneumatologia. Ou­tro espaço para a divulgação (mas por curto tempo) das opiniões teológicas dentro do Concílio Geral surgiu com a publicação de Agora (1977-1981), uma revista trimensal independente.

    Os estudos eruditos relevantes sobre a Pessoa e obra do Espírito Santo incluem: Commentary on the First Epistle to the Corinthians (1987), de Gordon D. Fee; The Book of Acts (1981), de Stanley M. Horton; e The Charísmatic Theology of St. Luke (1948), de Roger Stronstad (pastor das Assembleias Pentecostais do Canadá). Estudos de questões específicas relacionadas com a tradição pentecostal acham-se em O Espírito nos Ajuda a Orar. Uma Teologia Bíblica da Oração (1993), de Robert L. Brandt e Zenas J. Bicket; Called and Empowered: Global Mission in Pentecostal Perspective (1991), de Murray Dempster, Byron D. Klaus e Douglas Peterson, editored; Initial Evidence: Historical and Biblical Perspectives on the Pentecostal Doctrine of Spirit Baptism (1991), de Gary B. McGee, editor; Power Encounter: A Pentecostal Perspective (1989), de Opal L. Reddin, editor; e The Liberating Spirit: Toward an Hispanic American Social Ethic (1992), de Eldin Villafane.

    Mesmo assim, à parte da nova linha de manuais de estudo superior, publicada por Logion Press (Casa Publicadora das Assembleias de Deus dos Estados Unidos), ainda prevalece a prioridade à publicação de obras de cunho popu­lar. O livro recém-publicado: Doutrinas Bíblicas: Uma Pers­pectiva Pentecostal (CPAD, 1995), de William W. Menzies e Stanley M. Horton, representa um novo panorama de doutrinas para as aulas da Escola Dominical para adultos ou para cursos universitários. A grande quantidade de livros das Assembleias de Deus, editados pela Casa Publicadora, ainda dedica especial atenção aos estudos bíblicos, ao discipulado e ao preparo da prática pastoral. O mesmo acontece com as publicações da ICI University (FAETAD no Brasil) e do Colégio Bereano. Ambas as organizações oferecem progra­mas (com ou sem créditos válidos para um grau universitá­rio) por correspondência aos leigos, bem como aos candida­tos ao ministério eclesiático.

    Outras publicações, oriundas de várias editoras, incluem formas mais acadêmicas de se estudar as doutrinas: An Introduction to Theology: A Classical Pentecostal Perspective (1991), de John R. Higgins, Michael L. Dusing e Frank D. Tallman; e os dois livros, escritos em linguagem popular, de Donald Gee: A Respeito dos Dons Espirituais (1928, ed. rev. 1972) e Trophimus I Left Sick (1952); dois livretes intitulados Living Your Christian Life Now in the Light of Eternity (1960), de H. B. Kelchner; Divine Healing and the Problem of Suffering (1968), de Henry H. Ness; e The Spirit: God in Action (1974), de Anthony D. Palma. Tratados menos didá­ticos a respeito da vida espiritual têm sido publicados, tais como Pentecost in My Soul (1989), de Edith L. Blumhofer. Semelhantemente, memórias pessoais, como Vai: Disse-me o Espírito (1961), de David J. du Plessis; Grace for Grace (1961), de Alice Reynolds Flower; e Although the Fig Tree Shall Not Blossom (1976), de Daena Cargnel, têm desperta­do interesse em virtude de sua ênfase à presença e orienta­ção do Espírito Santo nos corações dos cristãos. Mais inspi­ração e ensino dessa natureza são fornecidos pelo semanário Pentecostal Evangel e por Advance, uma revista mensal para pastores.

    Os compositores continuaram a compartilhar seus dons de adoração e instrução. Um dos mais conhecidos, Ira Stanphill, aqueceu os corações dos fiéis com cânticos como “A Mansão Além das Montanhas”, “Lugar Diante da Cruz” e “Sei Quem Segura o Amanhã nas Mãos”, oferecendo con­solo e certeza da graça de Deus.Os compositores têm exercido uma influência tão grande desde o início do Movi­mento Pentecostal que, embora a maioria dos pentecostais nunca haja aprendido o Credo dos Apóstolos ou o Credo Niceno, consegue cantar de cor uma quantidade espantosa desses cânticos e corinhos, testemunho óbvio de que boa parte da teologia pentecostal vem sendo transmitida oral­mente.

    Já na década de 1970, as Assembleias de Deus tornaram-se numa das principais denominações dos Estados Unidos, vinculando-se a organizações fraternais ainda maiores no estrangeiro. Os líderes eclesiásticos, vendo-se diante de no­vos problemas, decidiram publicar declarações de tomada de posição acerca de questões que perturbavam a igreja. Dessa maneira, continuavam a responder às questões que surgiam, mas sem acrescentar regulamentos à constituição, nem emen­dar a Declaração das Verdades Fundamentais. A partir de 1970, com a publicação de “A Inerrância das Escrituras” (homologada pela Convenção Nacional), mais de vinte des­ses informes oficiais foram promulgados. Os temas abrangem a cura divina, a criação, a meditação transcendental, o di­vórcio e novo casamento, a evidência física e inicial do batismo no Espírito Santo, o aborto, o Reino de Deus e as mulheres no ministério.  Recentemente, os membros da Comissão da Pureza Doutrinária (fundada em 1979 para o acompanhamento dos acontecimentos teológicos) redigiram esses informes oficiais.

    Obviamente, o emprego das declarações de tomada de posição (os informes oficiais), começou a expandir a identi­dade confessional das Assembleias de Deus. Apelar a tais informes, porém, foi um método que não deixou de gerar algum desconforto.  O peso de autoridade dos informes, em contraste com o da Declaração das Verdades Fundamentais, ainda é discutível. Pelo menos um desses informes pode ser interpretado como mudança de uma doutrina original da Declaração, quando o informe menciona que “alguns têm procurado colocar a cura divina em constraste com a prática médica, ou de concorrência com esta. Não é necessário que seja assim. Os médicos, com as suas perícias, têm socorrido a muitas pessoas”. Além disso, os cristãos não conseguem in­verter os efeitos físicos da Queda, posto que “não importa o que fizermos em favor desse corpo; independentemente de quantas vezes formos curados, se Jesus demorar, todos mor­reremos”.

    Já na década de 1940, muitos evangélicos conservadores reconheceram que as concordâncias teológicas com os pen­tecostais sobrepujavam as diferenças, e começaram a acolher a comunhão e a cooperação com eles. Quando as Assembleias de Deus filiaram-se à Associação Nacional de Evangélicos (NAE), organização fundada em 1942, passaram a ocupar posição de destaque na vida eclesiástica da América do Norte (essa participação foi reforçada pelas tendências de melhoria social e econômica depois da Segunda Guerra Mun­dial). Às vezes, o relacionamento ficava tênue, por causa das suspeitas que ainda perduravam quanto à pneumatologia das Assembleias de Deus, e quanto à natureza geralmente arminiana de sua teologia. Nem por isso o impacto do evangelicalismo sobre a teologia pentecostal deixou de ser considerável.

    Depois da eleição de Thomas F. Zimmerman para presi­dente da NAE (1960-1962), o Concílio Geral, em 1961, fez algumas modificações na Declaração das Verdades Funda­mentais. A revisão mais significava foi feita na seção “As Escrituras Inspiradas”. A versão de 1916 dizia: “A Bíblia é a palavra inspirada de Deus, a revelação de Deus ao homem, a regra infalível da fé e da conduta, e é superior à consciência a e à razão, mas não é contrária a esta”. O texto revisado aproximou-se mais do texto dos evangélicos na NAE: “As Escrituras, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, são verbalmente inspiradas por Deus, e são a revelação de Deus ao homem, a regra infalível e autorizada de fé e conduta”. Os membros das Assembleias de Deus, desde a fundação do Concílio Geral, crêem na inspiração e na inerrância das Escrituras. Mas ainda não se sabe precisar se os pentecostais contribuíram para o entendimento de que a inspiração das Escrituras é dada pelo “sopro por Deus” (gr. theopneustos).

    Muitos teólogos, dentro e fora da NAE, levantaram objeções ao modo wesleyano e keswickiano de entender a obra da graça, recebida após a conversão – o alicerce teológico no qual os pentecostais clássicos têm edificado a sua doutrina do batismo no Espírito Santo. Como resposta, dois estudio­sos carismáticos publicaram importantes contribuições à dou­trina pentecostal clássica do batismo no Espírito: Howard Ervin (batista norte-americano): Conversion-Initiation and the Baptism in the Holy Spirit (1984) e J. Rodman Williams (presbiteriano), Renewal Theology, especialmente o volume 2 (1990). Estudos importantes também foram realizados por teólogos das Assembleias de Deus.

    Os estudiosos evangélicos influenciaram substancialmente o ponto de vista pentecostal no tocante aos aspectos presen­te e futuro do Reino de Deus, conceito esse que havia recebido mera alusão na Declaração das Verdades Funda­mentais. Durante muitos anos, o ensino das Assembleias de Deus a respeito dos eventos futuros havia tido forte orienta­ção dispensacionalista (compartilhava da crença nas sete dispensações, no Arrebatamento antes da Tribulação e na interpretação pré-milenista das Escrituras, mas deixava de lado uma doutrina-chave do dispensacionalismo: a separa­ção entre a Igreja e Israel). Essa doutrina foi popularizada e reforçada pelos escritos de Riggs, Boyd, Dake, Brumback, John G. Hall e T. J. Jones. As referências no Novo Testa­mento ao “Reino de Deus” (definido resumidamente como o senhorio ou governo de Deus) como realidade presente nos corações dos redimidos, passaram quase que desapercebidas, ao passo que seu futuro aparecimento milenar recebe consi­deração extensiva.

    Segundo o dispensacionalismo histórico, a promessa do reino restaurado de Davi havia sido adiado até ao Milênio, porque os judeus tinham rejeitado a oferta que Jesus lhes fizera do reino. A rejeição levou ao adiamento do cumpri­mento da profecia de Joel, da restauração de Israel e do derramamento do Espírito, para depois da segunda vinda de Jesus. Os eventos registrados em Atos 2, portanto, represen­tavam apenas uma bênção inicial de poder para a Igreja Primitiva. Israel e a Igreja eram, logicamente, mantidos se­parados; daí surgiu a postura anti-pentecostal subjacente desse sistema da interpretação das Escrituras.

    Para os pentecostais, porém, a profecia de Joel tinha sido cumprida no Dia de Pentecostes, conforme indica a declara­ção de Pedro: “Isto é o que foi dito…” (At 2.16). Infelizmen­te, a complacência dos pentecostais diante do dispensacionalismo impediu a busca das implicações de algu­mas das referências ao reino (presente) e das reivindicações ao poder apostólico nos últimos dias (ver Mt 9.35; 24.14; At 8.12; 1 Co 4.20, entre outros).

    Certos teólogos, notavelmente, Ernest S. Williams e Stanley M. Horton, fizeram uma nítida identificação entre o reino de Deus e a Igreja (“o Israel espiritual”), reconhecendo a conexão de suas crenças com a atividade contemporânea do Espírito Santo na Igreja.

    Depois da Segunda Guerra Mundial, os evangélicos vol­taram à atenção para o estudo das implicações teológicas e missiológicas do Reino de Deus, sendo que esse interesse, por parte dos pentecostais, chegou a formar um paralelo com o dos evangélicos. O conhecido missiólogo das Assembleias de Deus, Melvin L. Hodges, reconhecia a importância do reino para a compreensão de uma teologia neotestamentária de missões. Discursando no Congresso da Missão Mundial da Igreja, em Wheaton College, em abril de 1966, declarou que a Igreja é “a manifestação presente do Reino de Deus na terra, ou no mínimo, a agência que prepara o caminho para a manifestação futura do reino. Sua missão, portanto, é a expansão da Igreja pelo mundo inteiro… E o Espírito Santo que vivifica a Igreja e lhe concede dons, ministérios e poder para a realização da sua obra”. Embora Hodges não entras­se em muitos pormenores, já era uma indicativa do surgimento de uma importante tendência. A conexão entre os “sinais e prodígios” e o reino que avançava (as manifestações do poder do Espírito, associadas com a pregação do Evangelho) aguardava maiores esclarecimentos.

    Uns vinte anos mais tarde, a missionária aposentada Ruth A. Breusch, definiu as implicações para o ministério pentecostal em Mountain Movers, a revista de missões es­trangeiras das Assembleias de Deus (demonstrando, mais uma vez, a prioridade de discipular os membros da igreja). Numa série de dez artigos, sob o tema “O Reino, o Poder e a Glória”, Breusch, formada pelo Hartford Seminay Foundation, apresentou uma cuidadosa interpretação neotestamentária, demonstrando familiaridade com a literatura missiológica. Definiu o reino como o domínio de Deus que abrange “a Igreja como centro das bênçãos de Deus, que abarca todo o seu povo. A Igreja consiste daqueles que foram resgatados do reino das trevas e transportados para o reino do Filho de Deus”. Logo, “essa Igreja é o Novo Israel, o povo de Deus segundo a nova aliança. ‘Nova’ porque os cristãos gentios agora estão incluídos”. A Igreja é o meio escolhido por Deus para a expansão do seu reino em toda terra. Para Breusch, a vinda do Espírito reflete sua natureza redentora, revestindo a Igreja de poder para a evangelização do mundo.

    Essa atenção dedicada ao estudo do conceito bíblico do Reino de Deus, contribuiu para uma melhor compreensão dos ensinos éticos dos Evangelhos, da natureza e missão da Igreja, da relevância dos sinais e prodígios no evangelismo e do papel do cristão na sociedade.

    Outros escritores, num âmbito mais acadêmico, celebra­ram a importância do Reino de Deus no estudo das Escritu­ras. Peter Kuzmic, por exemplo, observou:

    Os pentecostais e os carismáticos estão convictos… de que “o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em virtude [poder]” (1 Co 4.20), e esperam que a pregação da Palavra de Deus seja acompanhada pelos atos poderosos do Espírito Santo… Para os seguidores de Jesus que acreditam no “evangelho pleno/integral”, a comissão para pregar as boas-novas do Reino de Deus está vinculada ao poder do Espírito Santo que nos capacita a vencer as forças do mal…

    … Numa época de racionalismo, de liberalismo teológico, de pluralismo religioso, os pentecostais e os carismáticos acreditam que a ação sobrenatural do Espírito Santo corrobora o testemunho cristão. Da mesma forma que nos dias dos apóstolos, o Espírito Santo é a própria vida da Igreja e da sua missão, e não substitui Cristo, o Senhor, mas o exalta. Essa é a missão primária do Espírito, e a forma de o Reino de Deus se tornar realidade na comunidade cristã. Cristo reina onde o Espírito opera!

    Além disso, Kuzmic e Murray W. Dempster, entre ou­tros, lidam de modo franco e aberto com as implicações do Reino para a ética social cristã.

    Recentemente, alguns pentecostais e carismáticos defen­deram várias formas da teologia do “Reino Agora”, que, em alguns casos, têm representado um afastamento do conceito do Arrebatamento antes da Tribulação e/ou da interpreta­ção pré-milenista da Bíblia. Focalizando a sociedade cristã da atualidade, e desconsiderando ou minimizando a ênfase sobre o arrebatamento da Igreja (mas não necessariamente a segunda Vinda de Cristo), esse ensino tem gerado graves controvérsias.  O simples fato do surgimento dessas pers­pectivas demonstra que os pentecostais estão preocupados em descobrir suas responsabilidades como cristãos na socie­dade.

    Hoje, abundam as referências ao Reino de Deus nas publicações das Assembleias de Deus. O valor para o estudo contínuo das doutrinas mais queridas talvez seja profundo e de amplo alcance, conservando diante da memória dos pen­tecostais as riquezas da Palavra de Deus.

    O Pentecostalismo surgiu do Movimento da Santidade do século XIX. A formulação do evangelho integral, o zelo pela evangelização do mundo nos últimos dias e a oração intensiva pelo derramamento do Espírito Santo precipitaram os reavivamentos em Topeka, Los Angeles, e os muitos que se seguiram.

    Os movimentos pentecostais e carismáticos, neste sécu­lo, indicam que algo de significância incomum ocorreu na história da Igreja: Deus derramou, em todos os lugares, o Espírito Santo sobre os cristãos que buscam ter uma vida cheia do Espírito, caracterizada pela santidade e pelo poder espiritual. O revestimento divino de poder, concedido pelo batismo no Espírito, outorga a compreensão da sua atividade no mundo, maior sensibilidade diante da sua orientação, uma nova dimensão de oração e poder espiritual para reali­zar as tarefas missionárias.

    Quando os pentecostais independentes organizaram o Concílio Geral, em 1914, fizeram-no com o propósito de ganhar o mundo para Cristo. A urgência e os problemas daqueles tempos exigiam a cooperação entre os batizados no Espírito. Os líderes eclesiásticos reconheceram a importân­cia do estudo da Bíblia e da doutrina para proteger as con­gregações da heresia, mas, de modo mais significante, para equipar os cristãos “para a obra do ministério” (Ef 4.12).

    O desenvolvimento doutrinário na denominação assu­miu várias formas: o Preâmbulo, a Declaração das Verda­des Fundamentais, o regulamento interno, os informes de tomada de posição, artigos e editoriais nas revistas, folhe­tos, livros, currículos da Escola Dominical, cânticos e poesias. Os professores da Escola Dominical, os dirigentes do louvor, os pastores, os líderes denominacionais – todos são chamados para proclamar as boas-novas da salvação, para compartilhar a compaixão de Jesus Cristo e para discipular os convertidos.

    A demora na volta do Senhor e o contexto cultural em mudança, oferecem cada vez mais desafios à fé, e por isso, as questões teológicas merecem, cada vez mais, atenção e res­postas convincentes. Da mesma forma, a crescente identifi­cação com o evangelicalismo tem levado a reflexões cada vez mais profundas sobre a qualidade distintiva das crenças pen­tecostais. Desde a Segunda Guerra Mundial, o interesse evangélico pelo ensino bíblico sobre o Reino de Deus, enri­queceu o estudo das doutrinas dentro das Assembleias de Deus.

    O cenário contemporâneo conclama a Igreja a reexaminar a sua fidelidade a Deus e a sua missão no mundo. O estudo sério das Escrituras, em espírito de oração, da teologia, da missiologia e da história eclesiástica, portanto, constitui-se num dom importante do Cristo ressurreto à sua Igreja.

    O Desenvolvimento do Ensino Teológico Pentecostal no Brasil

    O movimento pentecostal no Brasil teve início em 1911 através dos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, alcançados pelo avivamento que varreu os Estados Unidos no começo do século. Ele deu origem a Assembleia de Deus, que, em suas primeiras décadas de existência, não teve o ensino teológico formal como a sua prioridade básica. Sendo um movimento essencialmente apostólico, concentrou to­dos os seus recursos na evangelização de um país cujo terri­tório é várias vezes maior que a Europa Ocidental.

    Mas isto não significa que a Assembleia de Deus brasilei­ra haja descurado do estudo das doutrinas cristãs. Gunnar Vingren era um pastor com formação teológica, e muito se preocupou em instruir os primeiros crentes, com ênfase para as doutrinas pentecostais. Logo na primeira página do pri­meiro número da Voz da Verdade, o primeiro jornal editado pela Assembleia de Deus, aparece o artigo intitulado “Jesus é quem batiza no Espírito Santo”. A imprensa pentecostal mostra, dessa maneira, que o seu principal intento não é propriamente a notícia, e sim a divulgação doutrinária.

    Em 1919 surge a Boa Semente. Em 1929, o Som Alegre. Já no primeiro número deste periódico, Gunnar Vingren mais uma vez deixava bem clara a preocupação do movi­mento pentecostal com o ensino teológico: “Em o Som Ale­gre anunciaremos as promessas gloriosas incluídas no Evan­gelho de nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, a salvação completa e perfeita de todos os pecadores e tudo o que pertence à nova vida do cristão: o batismo no Espírito Santo, os dons espirituais, e a próxima e gloriosa vinda do Senhor”. Nota-se aí que, além da ênfase nas doutrinas pentecostais, principalmente o batismo com o Espírito Santo e as línguas estranhas como sua evidência inicial, outra característica predominante do movimento pentecostal no Brasil foi a crença na vinda do Senhor como algo prestes a acontecer, o que implicava também na busca da santidade. Esta era um alvo daqueles que ansiavam subir ao encontro do Senhor.

    A mesma linha doutrinária seria adotada pelo Mensagei­ro da Paz que, fundado em 1930, viria a substituir os periódicos anteriores. Nessa época, a Assembleia de Deus já era a principal denominação evangélica do Brasil. E apesar de a grande maioria de seus obreiros ser composta de homens leigos e quase sem instrução, ela podia contar com o Mensa­geiro da Paz que, a rigor, não era apenas o evangelista silen­cioso, mas o professor silencioso e domiciliar que chegava onde nenhum seminário poderia ser instalado. Embora in­formal, o Mensageiro da Paz vem proporcionando aos seus leitores, desde a sua fundação, uma ampla gama de estudos bíblicos, devocionais e notas homiléticas. Ele tem sido o instituto bíblico à distância de várias gerações de pentecos­tais.

    Outro fator de progresso do ensino teológico no meio pentecostal brasileiro foram as escolas bíblicas domini­cais. Realizadas com o apoio de literatura fornecida pela CPAD, constituiu-se no principal instrumento de divul­gação entre os crentes das doutrinas que caracterizam o movimento, ensejando-lhes a oportunidade de apregoar com segurança a sua fé.

    Ressalte-se, ainda, a importância da literatura na conso­lidação da teologia pentecostal. Além das lições bíblicas para a Escola Dominical, não só os obreiros mas os crentes em geral puderam contar com o concurso de boas obras para consolidar as suas raízes. Dois grandes nomes foram os pio­neiros da literatura pentecostal no Brasil: Orlando Boyer e Emílio Conde, este considerado o apóstolo da imprensa evan­gélica no país.

    No entanto, o que mais influenciou a formação teológica dos obreiros pentecostais no Brasil foi a criação das escolas bíblicas para a divulgação do ensino teológico. Conquanto não se tenha uma data precisa de quando elas tiveram início, pode-se dizer que as escolas bíblicas desempenharam papel decisivo na estruturação teológica do movimento pentecos­tal no Brasil. Duravam geralmente de 15 dias a um mês e contavam com professores especialmente convidados a mi­nistrar matérias bíblicas, teológicas ou eclesiásticas, segundo o currículo mínimo estabelecido. Via de regra, concedia-se aos alunos um certificado de conclusão do curso. Foram expoentes dessa época, como sistematizadores das doutrinas esposadas pelo movimento pentecostal, Samuel Nystrõm,

    J. P. Kolenda, Eurico Bergstén, Lawrence Olson, João de Oliveira, José Menezes e mais recentemente, Alcebíades Pereira Vasconcelos e Estevam Ângelo de Souza.

    O passo seguinte foi o estabelecimento do ensino teológi­co formal, que encontrou, inicialmente, algumas resistênci­as. Havia a preocupação de que os estudantes priorizassem o academicismo teológico em detrimento da ação do Espírito Santo em suas vidas. Todavia, isto não impediu que em 23 de março de 1959 fosse fundado em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus. Tendo como fundadores o casal de missionários João Kolenda Lemos e Ruth Dóris Lemos, o IBAD foi o responsá­vel pela formação teológica e cultural de muitas lideranças expressivas do Brasil e até de obreiros de outros países. Em 1962, o missionário Lawrence Olson estabelece no Rio de Janeiro o Instituto Bíblico Pentecostal. E, à semelhança do IBAD, em São Paulo, o IBP marcou toda uma geração de evangelistas, pastores, missionários e professores. Desponta, nessa época, outro expoente do pensamento teológico pen­tecostal brasileiro: pastor Antonio Gilberto, editor da Bíblia de Estudo Pentecostal em português.

    Paralelamente, começaram a surgir outras vertentes do movimento pentecostal no Brasil, “incentivadas pelas cruza­das nacionais de evangelização que percorreram o país usan­do tendas como templos improvisados”. Esta expansão al­cançou também as denominações tradicionais, e foi marcada pela ênfase na contemporaneidade dos dons espirituais, prin­cipalmente da cura divina. Considerado o pai da renovação pentecostal entre as igrejas tradicionais, Enéas Tognini mui­to contribuiu para a sistematização teológica nesta nova fase do pentecostalismo, seguindo basicamente as linhas históri­cas do movimento. E a partir desse momento que duas grandes vertentes teológicas passam a predominar no movi­mento pentecostal brasileiro: os históricos, que creem nas línguas estranhas como evidência inicial do batismo no Espí­rito Santo, e os neopentecostais, que creem no batismo no Espírito Santo sem que, necessariamente, as línguas estra­nhas sejam a evidência inicial, assunto que será discutido com todos os seus desdobramentos no capítulo que trata sobre o batismo no Espírito Santo.

    Como se vê, os pentecostais brasileiros, ainda que empiricamente, sempre se preocuparam com o ensino teoló­gico. Hoje, com milhões de membros em todo o país, conta com institutos bíblicos, seminários e faculdades teológicas devidamente estabelecidos em todas as regiões. Eles passam a desfrutar agora do inestimável concurso desta teologia sistemática que, através do prisma do Movimento Pentecostal, apresenta as grandes doutrinas bíblicas.

    Fonte: Teologia Sistemática Stanley Horton

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  • RESUMO – HISTÓRIA E CULTURA DE ISRAEL

    A existência de Israel como povo remonta, provavelmente, ao último período do séc. XI a.C. Era o tempo do nascimento da monarquia e da unificação das diversas tribos, que viviam separadas entre si até que, sob o governo do rei Davi, constituiu-se o Estado nacional, com Jerusalém por capital.

    Até chegar a esse momento, a formação do povo havia sido lenta e difícil, mesclada freqüentemente com a história das mais antigas civilizações que floresceram no Egito, às margens do Nilo e na Mesopotâmia, nas terras regadas pelo Tigre e o Eufrates. As fontes extrabíblicas da história de Israel naquela época são muito limitadas, carentes da base documental necessária para se estabelecerem com precisão as origens do povo hebreu. Nesse aspecto, o livro de Gênesis proporciona alguns dados de valor inestimável, pois o estudo dos relatos patriarcais permite descobrir alguns aspectos fundamentais da origem do povo israelita.

    A época dos patriarcas

    Os personagens do Antigo Testamento, habitualmente denominadas “patriarcas”, eram chefes de grupos familiares seminômades que iam de um lugar a outro em busca de comida e água para os seus rebanhos. Não havendo chegado ainda à fase cultural do sedentarismo e dos trabalhos agrícolas, os seus assentamentos eram, em geral, eventuais: duravam o tempo em que os seus gados demoravam para consumir os pastos.

    Gênesis oferece uma visão particular do começo da história de Israel, que é mais propriamente a história de uma família. Procedentes da cidade mesopotâmica de Ur dos caldeus, situada junto ao Eufrates, Abraão e a sua esposa chegaram ao país de Canaã. Deus havia prometido a Abraão que faria dele uma grande nação (Gn 12.1-3; cf. 15.1-21; 17.1-4); e, conforme essa promessa, nasceu o seu filho Isaque, que, por sua vez, foi o pai de Jacó. Durante a sua longa viagem, primeiro na direção norte e depois na direção sul, Abraão deteve-se em diversos lugares mencionados na Bíblia: Harã, Siquém, Ai e Betel (Gn 11.31—12.9); atravessou a região desértica do Neguebe e chegou até o Egito, de onde, mais tarde, regressou para, finalmente, estabelecer-se em um lugar conhecido como “os carvalhais de Manre”, junto a Hebrom (Gn 13.1-3,18).

    Ao morrer Abraão (Gn 25.7-11; cf. 23.2,17-20), Isaque converte-se no protagonista do relato bíblico, que o apresenta como habitante de Gerar e Berseba (Gn 26.6,23), lugares do Neguebe (Gn 24.62), na região meridional da Palestina. Isaque, herdeiro das promessas de Deus a Abraão, aparece no meio de um quadro descritivo da vida seminômade do segundo milênio a.C.: busca de campos de pastoreio, assentamentos provisórios, ocasionais trabalhos agrícolas nos limites de povoados fronteiriços e discussões por causa dos poços de água onde se dava de beber ao gado (Gn 26).

    Depois de Isaque, a atenção do relato concentra-se nos conflitos pessoais surgidos entre Jacó e o seu irmão Esaú, que são como que uma visão antecipada dos graves problemas que, posteriormente, haveriam de acontecer entre os israelitas, descendentes de Jacó, e os edomitas, descendentes de Esaú. A história de Jacó é mais longa e complicada que as anteriores. Consta de uma série de relatos entrelaçados: a fuga do patriarca para a região mesopotâmica de Padã-Arã; a inteligência e a riqueza de Jacó; o regresso a Canaã; o episódio de Peniel, onde Deus mudou o nome de Jacó para Israel (Gn 32.28); a revelação de Deus e a renovação das suas promessas (Gn 35.1-15); a história de José e a morte de Jacó no Egito (Gn 37.1—50.14).

    A saída do Egito

    A situação política e social das tribos israelitas, do Egito e dos países do Oriente Médio, no período que vai da morte de José à época de Moisés, sofreu mudanças consideráveis.

    O Egito viveu um tempo de prosperidade depois de expulsar do país os invasores hicsos. Este povo oriundo da Mesopotâmia, depois de passar por Canaã, havia se apropriado, no início do séc. XVIII a.C., da fértil região egípcia do delta do Nilo. Os hicsos dominaram no Egito cerca de um século e meio, e, provavelmente, foi nesse tempo que Jacó se instalou ali com toda a sua família. Esta poderia ser a explicação da acolhida favorável que foi dispensada ao patriarca, e de que alguns dos seus descendentes, como aconteceu com José (Gn 41.37-43), chegaram a ocupar postos importantes no governo do país.

    A situação mudou quando os hicsos foram finalmente expulsos do Egito. Os estrangeiros residentes, entre os quais encontravam-se os israelitas, foram submetidos a uma dura opressão. Essa mudança na situação política está registrada em Êx 1.8, que diz que subiu ao trono do Egito um novo rei “que não conhecera a José.” Durante o mandato daquele faraó, os israelitas foram obrigados a trabalhar em condições subumanas na edificação das cidades egípcias de Pitom e Ramessés (Êx 1.11). Porém, em tais circunstâncias, teve lugar um acontecimento que haveria de permanecer gravado, para sempre, nos anais de Israel: Deus levantou um homem, Moisés, para constituí-lo libertador do seu povo.

    Moisés, apesar de hebreu por nascimento, recebeu uma educação esmerada na própria corte do faraó. Certo dia, Moisés viu-se obrigado a fugir para o deserto, e ali Javé (nome explicado em Êx 3.14 como “EU SOU O QUE SOU”) revelou-se a ele e lhe deu a missão de libertar os israelitas da escravidão a que estavam submetidos no Egito (Êx 3.1—4.17). Regressou Moisés ao Egito e, depois de vencer com palavras e ações maravilhosas a resistência do faraó, conseguiu que a multidão dos israelitas se colocasse em marcha em direção ao deserto do Sinai.

    Esse capítulo da história de Israel, a libertação do jugo egípcio, marcou indelevelmente a vida e a religião do povo. A data precisa desse acontecimento não pode ser determinada. Têm-se sugerido duas possibilidades: até meados do séc. XV e até meados do séc. XIII. (Neste último caso seria durante o reinado de Ramsés II ou do seu filho Meneptá.).

    Durante os anos de permanência no deserto do Sinai, enquanto os israelitas dirigiam-se para Canaã, produziu-se um acontecimento de importância capital: Deus instituiu a sua Aliança com o seu povo escolhido (Êx 19). Essa Aliança significou o estabelecimento de um relacionamento singular entre Javé e Israel, com estipulações fundamentais que ficaram fixadas na lei mosaica, cuja síntese é o Decálogo (Êx 20.1-17).

    A conquista de Canaã e o período dos juízes

    Depois da morte de Moisés (Dt 34), a direção do povo foi colocada nas mãos de Josué, a quem coube guiá-lo ao país de Canaã, a Terra Prometida. A entrada naqueles territórios iniciou-se com a passagem do Jordão, fato de grande significação histórica, porque com ela inaugurava-se um período decisivo para a constituição da futura nação israelita (Js 1—3).

    Conquistar e assentar-se em Canaã não se tornou empresa fácil. Foi um longo e duro processo (cf. Jz 1), às vezes, de avanço pacífico, mas, às vezes, de inflamados choques com os hostis povos cananeus (cf. Jz 4—5), formados por populações diferentes entre si, ainda que todas pertencentes ao comum tronco semítico; muitas delas terminaram absorvidas por Israel (cf. Js 9).

    Naquele tempo da chegada e conquista de Canaã, os grandes impérios do Egito e da Mesopotâmia já haviam iniciado a sua decadência. Destes eram vassalos os pequenos Estados cananeus, de economia agrícola e cuja administração política limitava-se, geralmente, a uma cidade de relativa importância nos limites das suas terras. Em relação à religião, caracterizava-se sobretudo pelos ritos em honra a Baal, Aserá e Astarote, e a deuses secundários, geralmente divindades da fecundidade.

    A etapa conhecida como “período dos juízes de Israel” sucedeu à morte de Josué (Js 24.29-32). Desenvolveu-se entre os anos 1200 e 1050 a.C., e a sua característica mais evidente foi, talvez, a distribuição dos israelitas em grupos tribais, mais ou menos independentes e sem um governo central que lhes desse um mínimo sentido de organização política. Naquelas circunstâncias surgiram alguns personagens que assumiram a direção de Israel e que, ocasionalmente, atuaram como estrategistas e o guiaram nas suas ações de guerra (ver, p. ex., em Jz 5, o Cântico de Débora, que celebra o triunfo de grupos israelitas aliados contra as forças cananéias).

    Entre todos os povos vizinhos, foram, provavelmente, os filisteus que representaram para Israel a mais grave ameaça. Procedentes de Creta e de outras ilhas do Mediterrâneo oriental, os filisteus, conhecidos também como “os povos do mar”, que primeiramente haviam intentado sem êxito penetrar no Egito, apoderaram-se depois (por volta de 1175 a.C.) das planícies costeiras da Palestina meridional. Ali estabeleceram-se e constituíram a “Pentápolis”, o grupo das cinco cidades filistéias: Asdode, Gaza, Asquelom, Gate e Ecrom (1Sm 6.17), cujo poder reforçou-se com a sua aliança e também com o monopólio da manufatura do ferro, utilizado tanto nos seus trabalhos agrícolas quanto nas suas ações militares (1Sm 13.19-22).

    O início da monarquia de Israel

    A figura política dos “juízes”, apta para resolver assuntos de caráter tribal, mostrou-se ineficaz ante os problemas que, mais tarde, haveriam de ameaçar a sobrevivência do conjunto de Israel no mundo palestino. Assim, pouco a pouco, veio a implantação da monarquia e, com ela, uma forma de governo unificado, dotado da autoridade necessária para manter uma administração nacional estável.

    Ainda que a monarquia tenha enfrentado, no início, fortes resistências internas (1Sm 8), paulatinamente chegou a impor-se e consolidar-se. Samuel, o último dos juízes de Israel, foi sucedido por Saul, que em 1040 a.C. iniciou o período da monarquia, que se prolongou até 586 a.C., quando, durante o reinado de Zedequias, os babilônios sitiaram e destruíram Jerusalém, tendo Nabucodonosor à frente. Saul, que começou a reinar depois de ter obtido uma vitória militar (1Sm 11) e de ter triunfado em outras ocasiões, todavia, nunca conseguiu acabar com os filisteus, e foi lutando contra eles no monte Gilboa que morreram os seus três filhos e ele próprio (1Sm 31.1-6).

    Saul foi sucedido por Davi, proclamado rei pelos homens de Judá na cidade de Hebrom (2Sm 2.4-5). O seu reinado iniciou-se, pois, na região meridional da Palestina, mas depois estendeu-se em direção ao norte. Reconhecido como rei por todas as tribos israelitas, conseguiu unificá-las sob o seu governo. Durante o tempo em que Davi viveu, produziram-se acontecimentos de grande importância: a anexação à nova entidade nacional de algumas cidades cananéias antes independentes, a submissão de povos vizinhos e a conquista de Jerusalém, convertida desde então na capital do reino e centro religioso por excelência.

    Próximo já da sua morte, Davi designou por sucessor o seu filho Salomão, sob cujo governo alcançou o reino as mais altas cotas de esplendor. Salomão soube estabelecer importantes relacionamentos políticos e comerciais, geradores de grandes benefícios para Israel. As riquezas acumuladas sob o seu governo permitiram realizar em Jerusalém construções de enorme envergadura, como o Templo e o palácio real. O prestígio de Salomão fez-se proverbial, e a fama da sua prudência e sabedoria nunca tiveram paralelo na história dos reis de Israel (1Rs 5—10).

    A ruptura da unidade nacional

    A despeito de todas as circunstâncias favoráveis que rodearam o reinado de Salomão, foi precisamente aí que a unidade do reino começou a fender-se. Por um e outro lado do país, surgiam vozes de protesto pelos abusos de autoridade, pelos maus tratos infligidos à classe trabalhadora e pelo agravamento dos tributos destinados a cobrir os gastos que originavam as grandes construções. Tudo isso, fomentando atitudes de descontentamento e rebeldia, foi causa do ressurgimento de antigas rivalidades entre as tribos do Norte e do Sul.

    Os problemas chegaram ao extremo quando, morto Salomão, ocupou o trono o seu filho Roboão (1Rs 12.1-24). Sem a sensatez do seu pai, Roboão provocou, com imprudentes atitudes pessoais, a ruptura do reino: de um lado, a tribo de Judá, que seguiu fiel a Roboão e manteve a capital em Jerusalém; de outro, as tribos do Norte, que proclamaram rei a Jeroboão, antigo funcionário da corte de Salomão. Desde esse momento, a divisão da nação em reino do Norte e reino do Sul se fez inevitável.

    Judá, sempre governada por um membro da dinastia davídica, subsistiu por mais de trezentos anos, ainda que a sua independência nacional tivesse sofrido importantes oscilações desde que, no final do séc. VIII a.C., a Assíria a submeteu a uma dura vassalagem. Aquele antigo império dominou a Palestina até que medos e caldeus, já próximo do séc. VI a.C., apagaram-na do panorama da história (Na 1—3). Então, em Judá, onde reinava Josias, renasceram as esperanças de recuperar a perdida independência; mas, depois da batalha de Megido (609 a.C.), com a derrota de Judá e a morte de Josias (2Cr 35.20-24), o reino entrou em uma rápida decadência, que terminou com a destruição de Jerusalém em 586 a.C. O Templo e toda a capital foram arrasados, um número grande dos seus habitantes foi levado ao exílio, e a dinastia davídica chegou ao seu fim (2Rs 25.1-21). Ao que parece, a perda da independência de Judá supôs a sua incorporação à província babilônica de Samaria; mas, além disso, o país havia ficado arruinado, primeiro pela devastação que causaram os invasores e em seguida pelos saques a que o submeteram os seus povos vizinhos, Edom (Ob 11), Amom e outros (Ez 25.1-4).

    O reino do Norte, Israel, nunca chegou a gozar uma situação politicamente estável. A sua capital mudou de lugar em diversas ocasiões, antes de ficar finalmente instalada na cidade de Samaria (1Rs 16.24), e várias tentativas para constituir dinastias duradouras terminaram em fracasso, freqüentemente de modo violento (Os 8.4). A aniquilação do reino do Norte sob a dominação assíria ocorreu gradualmente: primeiro foi a imposição de um grande tributo (2Rs 15.19-20); em seguida, a conquista de algumas povoações e a conseqüente redução das fronteiras do reino e, por último, a destruição de Samaria, o exílio de uma parte da população e a instalação de um governo estrangeiro no país conquistado.

    O exílio

    Os babilônios permitiram que os exilados do reino de Judá formassem famílias, construíssem casas, cultivassem pomares (Jr 29.5-7) e chegassem a consultar os seus próprios chefes e anciãos (Ez 20.1-44); e, igualmente, permitiram-lhes viver em comunidade, em um lugar chamado Tel-Abibe, às margens do rio Quebar (Ez 3.15). Assim, pouco a pouco, foram-se habituando à sua situação de exilados na Babilônia.

    Em semelhantes circunstâncias, a participação comum nas práticas da religião foi, provavelmente, o vínculo mais forte de união entre os membros da comunidade exilada; e a instituição da sinagoga teve um papel relevante como ponto de encontro para a oração, a leitura e o ensinamento da Lei, o canto dos Salmos e o comentário dos escritos dos profetas.

    Desta maneira, com o exílio, a Babilônia converteu-se num centro de atividade religiosa, onde um grupo de sacerdotes entregou-se com empenho à tarefa de reunir e preservar os textos sagrados que constituíam o patrimônio espiritual de Israel. Entre os componentes desse grupo se contava Ezequiel, que, na sua dupla condição de sacerdote e profeta (Ez 1.1-3; 2.1-5), exerceu uma influência singular.

    Dadas as condições de tolerância e até de bem-estar em que viviam os exilados na Babilônia, não é de estranhar que muitos deles renunciassem, no seu tempo, regressar ao seu país. Outros, pelo contrário, mantendo vivo o ressentimento contra a nação que os havia arrancado da sua pátria e que era causa dos males que lhes haviam sobrevindo, suspiravam pelo momento do regresso ao seu longínquo país (Sl 137; Is 47.1-3).

    Retorno e restauração

    A esperança de uma rápida libertação cresceu entre os exilados quando Ciro, rei de Anshan, empreendeu a sua carreira de conquistador e fundador de um novo império. Elevado já ao trono da Pérsia (559-530 a.C.), as suas qualidades de estrategista e de político permitiram-lhe superar rapidamente três etapas decisivas: primeiro, a fundação do reino medo-persa, com a sua capital Ecbatana (553 a.C.); segundo, a conquista de quase toda a Ásia Menor, culminada com a vitória sobre o rei de Lídia (546 a.C.); terceiro, a entrada triunfal na Babilônia (539 a.C.). Desse modo, ficou configurado o império persa, que, durante mais de dois séculos, dominou o panorama político do Oriente Médio.

    Ciro praticou uma política de bom relacionamento com os povos submetidos. Permitiu que cada um conservasse os seus usos, costumes e tradições e que praticasse a sua própria religião, atitude que redundou em benefício aos judeus residentes na Babilônia, os quais, por decreto real, ficaram com a liberdade de regressar à Palestina.

    O livro de Esdras contém duas versões do referido decreto (Ed 1.2-4 e 6.3-12), no qual se ampararam os exilados que quiseram voltar à pátria. E é importante assinalar que o imperador persa não somente permitiu aquele regresso, mas também devolveu aos judeus os ricos utensílios do culto que Nabucodonosor lhes havia arrebatado e levado à Babilônia. Para maior abundância, Ciro ordenou também uma contribuição de caráter oficial para apoiar economicamente a reconstrução do templo de Jerusalém.

    O retorno dos exilados realizou-se de forma paulatina, por grupos, o primeiro dos quais chegou a Jerusalém sob a liderança de Sesbazar (Ed 1.11). Tempos depois iniciaram-se as obras de reconstrução do Templo, que se prolongaram até 515 a.C. Para dirigir o trabalho e animar os operários contribuíram o governador Zorobabel e o sumo sacerdote Josué, apoiados pelos profetas Ageu e Zacarias (Ed 5.1).

    O passar do tempo deu lugar a muitos problemas de índole muito diversa. As duras dificuldades econômicas às quais tiveram que fazer frente, as divisões no seio da comunidade e, muito particularmente, as atitudes hostis dos samaritanos foram causa da degradação da convivência entre os repatriados em Jerusalém e em todo Judá.

    Ao conhecer os problemas que afligiam o seu povo, um judeu chamado Neemias, residente na cidade de Susã, copeiro do rei persa Artaxerxes (Ne 2.1), solicitou que, com o título de governador de Judá, tivesse a permissão de ajudar o seu povo (445 a.C.). Neemias revelou-se um grande reformador, que atuou com capacidade e eficácia. A sua presença na Palestina foi decisiva, não somente para que se reconstruíssem os muros de Jerusalém, mas também para que a vida da comunidade judaica experimentasse uma mudança profunda e positiva (cf. Ne 8—10).

    Artaxerxes investiu, também de poderes extraordinários, ao sacerdote e escriba Esdras, a fim de que este, dotado de plena autoridade, se ocupasse de todas as necessidades do Templo e do culto em Jerusalém e cuidasse de colocar sob a lei de Deus tanto os judeus recém-repatriados como os que nunca haviam saído da Palestina (Ed 7.12-26). Entre eles, promoveu Esdras uma mudança religiosa e moral tão profunda, que, a partir de então, Israel converteu-se no “povo do Livro”. A sua figura ocupa nas tradições judaicas um lugar comparável ao de Moisés. Com relação às referências a Artaxerxes no livro de Esdras (7.7) e no de Neemias (2.1), se correspondem a um só personagem ou a dois, os historiadores não têm chegado a uma conclusão definitiva.

    O período helenístico

    O domínio persa no Oriente Médio chegou ao seu fim quando o exército de Dario III sucumbiu em Isso (333 a.C.) ante as forças de Alexandre Magno (356-323 a.C.). Ali começou a hegemonia do helenismo, que se manteve até 63 a.C. e que entre os seus sucessos contou com o estabelecimento de importantes vínculos entre Oriente e Ocidente. Mas as rivalidades surgidas entre os sucessores de Alexandre (os Diádocos) impediram o estabelecimento de uma unidade política eficaz nos territórios que ele havia conquistado. De tais divisões originou-se, com referência à Palestina, a que fora dominada primeiro pelos ptolomeus (ou lágidas) do Egito e depois pelos selêucidas da Síria, duas das dinastias fundadas pelos generais sucessores de Alexandre.

    Durante a época helenística estendeu-se consideravelmente o uso do grego, e muitos judeus residentes na “diáspora” (ou “dispersão”) habituaram-se a utilizá-lo como língua própria. Chegou um momento em que se fez necessário traduzir a Bíblia Hebraica para atender às necessidades religiosas das colônias judaicas de fala grega. Essa tradução, chamada de Septuaginta ou Versão dos Setenta, foi feita aproximadamente entre os anos 250 e 150 a.C.

    Durante o reinado do selêucida Antíoco IV Epífanes (175-163 a.C.), produziu-se na Palestina um intento de helenização do povo judeu, que causou entre os seus membros uma grave dissensão. Muitos adotaram abertamente costumes próprios da cultura grega, divergentes das práticas judaicas tradicionais, enquanto que outros se agarraram com tenaz fanatismo à lei mosaica. A tensão entre eles foi crescendo até desembocar na rebelião dos macabeus.

    Essa rebelião desencadeou-se quando um ancião sacerdote chamado Matatias e os seus cinco filhos organizaram a luta contra o exército sírio. Depois da morte de Matatias, Judas, o seu terceiro filho, ficou à frente da resistência e, chefiando os seus, reconquistou o templo de Jerusalém, que havia sido profanado pelos sírios, e o purificou e o dedicou. A Hannuká ou Festa da Dedicação (Jo 10.22) comemora esse fato. Convertido em herói nacional, Judas foi o primeiro a receber o sobrenome de “macabeu” (provavelmente “martelo”), que depois foi dado também aos seus irmãos.

    Depois da morte de Simão, o último dos macabeus, a sucessão recaiu sobre o seu filho João Hircano I (134-104 a.C.), com quem teve início a dinastia hasmonéia. Ainda viveu a Judéia alguns dias de esplendor, mas, em geral, durante o governo dos hasmoneus, a estabilidade política deteriorou-se progressivamente. Mais tarde, entrou em jogo o Império Romano, e, no ano 63 a.C., o general Pompeu conquistou Jerusalém e a anexou, com toda a Palestina, à que já era oficialmente província da Síria. A partir desse momento, a própria vida religiosa judaica ficou hipotecada, dirigida aparentemente pelo sumo sacerdote em exercício, mas submetida, em última instância, à autoridade imperial.

    Fonte: Bíblia de Estudo Almeida

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  • Filho de Peixe Peixinho é !

    Record (lê-se Bisbo Macedo) desmacara Valdemiro Santiago !

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  • Objetos que Trazem Bênção

     

    Um assunto que tem provocado muita polêmica em nossos dias é o ensino do moderno movimento de batalha espiritual acerca de objetos que têm o poder de abençoar e amaldiçoar aqueles que os tocam ou possuem. Nesse pequeno artigo, procuro compreender esse ensino e oferecer uma avaliação.

    Nos cultos de muitas igrejas de libertação, objetos variados são empregados como canais de bênção. Eles são ungidos (abençoados) nos cultos com o objetivo de passarem ao fiel algum tipo de benefício. Os mais comuns são a água fluidificada (colocada sobre o rádio ou TV durante a oração do“homem de Deus”), a rosa ungida, ramos de arruda, sal grosso, óleo, água, vinho, pedrinhas trazidos da “terra santa” (Israel), fitinhas, pulseiras e lenços.

    Embora os líderes dessas igrejas insistam que esses objetos abençoados funcionam apenas como apoio para a fé dos crentes, ao fim, acabam sendo usados como talismãs, fetiches e outros objetos“carregados” de poder espiritual. Os seus possuidores devem usá-los de acordo com algum tipo de ritual, após o culto. A água pode ser bebida em casa, após a oração de consagração. O “cajado de Moisés” deve ser usado para bater naquilo que o crente gostaria de ter (um carro novo, por exemplo). Lenços ungidos devem ser carregados junto ao corpo por determinado tempo, geralmente durante o tempo de uma corrente de oração.

    Muitas vezes objetos são “abençoados” nessas igrejas com o objetivo de espantarem e expelirem demônios. A idéia que está por detrás desse uso religioso de artigos e objetos é o de que as entidades espirituais (anjos e demônios) podem ser atingidas através dos sentidos como cheiros, cores, gosto e vozes. Nesse ponto os cristãos do primeiro século se afastaram significativamente das práticas exorcistas do Judaísmo da sua época, que foram desenvolvidos no período intertestamentário. Os métodos rabínicos de tratar com demônios incluía o uso de tochas de fogo à noite, amuletos, filactérios, fórmulas mágicas, fumigações, entre outros. A idéia era que essas coisas teriam em si algum tipo de poder mágico contra os demônios. No cristianismo primitivo, entretanto, a idéia de que demônios pudessem ser atingidos através de sons, cheiros ou coisas materiais e tangíveis, está ausente.

    É importante dizer que não duvido da sinceridade e da boa-fé dos que empregam esses objetos. Entretanto, podemos estar sinceramente enganados no que diz respeito ao culto a Deus, como os judeus na época de Paulo (Rm 10.1-2). É minha convicção que o uso desses objetos como apoio para fé ou canal de bênçãos não faz parte do culto agradável a Deus que nos é ensinado nas Escrituras.

    Entendendo o uso de objetos na Bíblia

    Salta aos olhos de quem conhece as práticas religiosas populares que o uso de objetos ungidos pelas igrejas de libertação é bastante semelhante ao benzimento de objetos no baixo espiritismo, artes mágicas e no ocultismo em geral. Entretanto, essas igrejas argumentam que a prática tem base na Bíblia. Provavelmente a passagem bíblica mais citada é Atos 19.12, onde se relata o uso dos aventais e lenços de Paulo para expulsar demônios em Éfeso. É preciso salientar, entretanto, que esse acontecimento é o único do gênero que temos registrado no Novo Testamento. Fez parte dos“milagres extraordinários” que o Senhor realizou em Éfeso pelas mãos de Paulo (At 19.11).

    Devemos interpretar essa passagem da mesma forma como interpretamos os relatos do Antigo Testamento sobre o cajado de Moisés (Ex 8.5,16) e o manto de Elias (2 Re 2.8,14). Esses objetos foram veículos materiais do poder miraculoso desses homens. O propósito das narrativas acerca do poder que havia neles foi mostrar o extraordinário poder de Deus nas vidas dos seus possuidores, comprovando que a sua mensagem vinha realmente da parte de Iavé. O ponto é que esse poder era tão grande que até as coisas com as quais Moisés e Elias tinham contato diário se tornavam canais através dos quais ele era transmitido.

    Além dessas ocorrências no Antigo Testamento mencionadas acima, outros eventos são citados como justificativa para o uso de objetos como veículos do poder divino. Moisés fez uma serpente de bronze (Nm 21.9). Eliseu usou um prato novo com sal para miraculosamente sanar as águas de Jericó (2 Re 2.19-22), um pouco de farinha para purificar uma comida envenenada (2 Re 4.38-41), um pau para fazer flutuar um machado que caiu no rio (2 Re 6.1-7). Sob seu comando, as águas do Jordão serviram para curar a lepra de Naamã (2 Re 5.1-14). Seu bordão parece que era usado para realizar milagres (2 Re 4.29) e seus ossos ressuscitaram um morto (2 Re 13.20-21). O profeta Isaías usou uma pasta de figos para curar Ezequias (2 Re 20.7).

    Alguns eventos narrados no Novo Testamento são também citados como prova. As vestes de Jesus tinham poder curador. Não somente a mulher com um fluxo de sangue foi curada ao tocá-las (Lc 8.43-46), mas muitas outras pessoas doentes (Mt 14.36; Mc 6.56; cf. Lc 6.19). Em pelo menos duas ocasiões, Jesus usou saliva para curar cegos (Mc 8.22-26; Jo 9.6-7), e em outra, para curar um mudo (Mc 7.33). Aparentemente, a sombra de Pedro, após o Pentecostes em Jerusalém, acabava por curar a quem atingisse (At 5.15).

    Devemos entender, entretanto, qual o objetivo dessas narrativas. Em todas elas, o conceito é sempre o mesmo. Jesus e os apóstolos eram tão cheios do poder de Deus que as coisas com as quais tinham contato íntimo se tornavam como que em extensões deles, para curar e abençoar as pessoas. O objetivo é idêntico: enfatizar a enormidade do poder de Deus em suas vidas, e assim, atestar que a mensagem pregada por eles, bem como pelos profetas do Antigo Testamento, vinha de Deus. A prova eram os poderes miraculosos tão extraordinários que até mesmo vestes, bordões, ossos, saliva, sombra e lenços desses homens transmitiam o poder curador de Deus que neles havia. É dessa forma que devemos entender o relato de Atos 19 sobre o poder curador dos lenços e aventais de Paulo.

    Evidentemente, essas passagens não servem como prova de que, hoje, as igrejas evangélicas podem abençoar objetos e usá-los para expelir demônios, proteger seus possuidores contra forças negativas e curar moléstias. Notemos as principais diferenças entre o uso destes objetos nos relatos bíblicos e o uso que é feito hoje pelas igrejas de libertação.

    1. Foram usados como símbolos – Em vários casos, o papel de objetos na execução dos milagres bíblicos é melhor entendido como tendo sido simbólico. De alguma forma estavam relacionados à natureza do milagre: uma serpente de bronze para curar mordeduras de serpentes, um pedaço de pau para fazer um machado flutuar, sal e farinha para purificar águas e comida (os dois elementos eram usados nos sacrifícios), ossos para trazer vida e água do Jordão para “limpar” a lepra. Nas igrejas de libertação, muito embora se diga que os objetos funcionam simbolicamente como apoio para a fé, acabam sendo aceitos pelos fiéis menos avisados como possuindo em si mesmos alguma virtude ou poder.

    2. A natureza dos milagres em que foram empregados – Os objetos fizeram parte de milagres que não vemos serem repetidos hoje. A melhor maneira de provar que o uso de objetos ungidos hoje opera a mesma liberação do poder divino como nos eventos relatados na Bíblia, seria abrir rios, ressuscitar mortos, curar leprosos, cegos e aleijados, sanear águas amargas e limpar comidas envenenadas usando objetos pessoais dos missionários e obreiros dessas igrejas. Entretanto, os “milagres” efetuados pelos objetos ungidos nas igreja de libertação nem de perto se assemelham aos prodígios extraordinários narrados nas Escrituras.

    3. Seu uso limitou-se ao momento do milagre – Nenhum dos objetos empregados na Bíblia preservaram algum “poder” em si mesmos após o milagre ter ocorrido. A serpente de bronze, até onde sabemos, não foi mais usada para curar mordidas de serpentes após o incidente no deserto, muito embora os judeus supersticiosos passassem a adorá-la como a um deus. É natural supor que Eliseu, após usar o manto de Elias para abrir as águas, usou-o normalmente como peça do seu vestuário, sem que o mesmo exercesse qualquer poder mágico nas coisas em que tocava. O sal, a farinha e o pedaço de pau que ele usou para fazer milagres foram tirados da vida normal e retornaram a ela após seu uso. Não retiveram qualquer propriedade miraculosa em si mesmos. Semelhantemente, os lenços e aventais de Paulo tiveram um uso especial somente em Éfeso, e provavelmente somente durante um determinado período, ao longo dos três anos que o apóstolo passou ali. Em contraste, as igrejas da libertação ungem e abençoam objetos e atribuem a eles efeitos que permanecem muito tempo após a cerimônia. É algo bem diferente do uso ocasional feito pelos profetas e apóstolos.

    4. Os objetos estavam ligados à pessoa dos homens de Deus – Alguns dos objetos usados eram coisas pessoais dos homens de Deus, como a capa de Elias, o bordão de Eliseu, as vestes de Jesus, os lenços e aventais de Paulo e, num certo sentido, a sombra de Pedro. Eles só foram empregados por isso. O alvo era mostrar o extraordinário poder de Deus sobre tais homens. Quando refletimos no fato de que somente coisas pessoais dos profetas, do Senhor Jesus e dos apóstolos foram usadas, perguntamo-nos se nossos objetos pessoais teriam o mesmo poder. A resposta humilde deve ser “não”. Os profetas, o Senhor e os apóstolos foram pessoas especiais e pertenceram a uma época especial e única dentro da história da revelação. A suspeita de que nossos objetos pessoais são impotentes para realizar milagres fica ainda mais fortalecida quando não descobrimos nas Escrituras qualquer exemplo de coisas dos crentes comuns sendo usadas com esse fim.

    5. Nenhum dos objetos empregados foi ungido ou abençoado – Essa é uma diferença fundamental. Nas igrejas de libertação, os objetos são ungidos, abençoados, fluidificados e consagrados através da oração e da imposição de mãos dos pastores e obreiros, depois do que, passam supostamente a ter poderes especiais. No entanto, em nenhum dos casos mencionados nas Escrituras, os objetos empregados nos milagres passaram, antes, por uma cerimônia de consagração. A Bíblia desconhece totalmente a “unção” de coisas com o fim de serem empregadas em atos miraculosos, para atrair as bênção de Deus, ou ainda, para expelir demônios e doenças. É verdade que no Antigo Testamento alguns objetos, utensílios e mobília do tabernáculo, e depois, do templo, foram ungidos com sangue e óleo. Mas o propósito não era investir essas coisas de poderes especiais, e sim separá-las do seu uso comum para o uso sagrado nos rituais de sacrifício. Eliseu não ungiu nem consagrou, pela oração, o sal, a farinha e o pedaço de árvore que usou para operar milagres. Nem Isaías ungiu a pasta de figo para curar a úlcera de Ezequias. Nem mesmo a serpente de bronze passou por uma consagração, antes de ser erigida diante do povo envenenado pelas serpentes. Os lenços e aventais de Paulo não passaram pela imposição de mãos do apóstolo antes de serem levados aos doentes e endemoninhados. O que dava “poder” àqueles objetos era o fato de que pertenciam, ou foram manipulados, por pessoas sobre quem o poder de Deus repousava de forma extraordinária.

    A conclusão inescapável é que não existe qualquer fundamento bíblico para que, hoje, unjamos e abençoemos objetos com o propósito de transmitir, através deles, uma medida do poder de Deus. Mais uma vez repito: creio que Deus faz milagres hoje. Creio que ele poderia usar o que quisesse para fazer isso. Entretanto, creio também que Deus nos revela em Sua Palavra os seus caminhos e seus meios de agir, para que não sejamos iludidos pelo erro religioso. E se vamos usar as Escrituras como regra da nossa prática, bem como critério para discernirmos a verdade do erro, acabaremos por rejeitar a idéia de que, pela oração e unção, determinados objetos repassam uma bênção de Deus aos seus possuidores.

    Objetos que Trazem Maldição

    Tratemos agora de outro ensino ainda relacionado com o uso de objetos no campo religioso. Segundo adeptos do movimento de “batalha espiritual”, objetos utilizados em qualquer forma de magia, ocultismo ou religião idólatra ficam impregnados de emanações malignas, como se demônios de fato residissem nos mesmos. Para usar a linguagem de alguns do movimento, esses objetos estariam “demonizados”. Esse conceito é similar ao praticado na magia. Objetos magicamente“carregados” são considerados como transmissores do poder da mágica que representam, e afetam aos que os tocam.

    Portanto, caso um cristão venha a ter em sua casa, escritório ou local de trabalho, qualquer um desses objetos, estará dando ocasião para que os demônios (as verdadeiras entidades espirituais associadas com esses objetos) prejudiquem sua vida material e espiritual. A idéia é que objetos como ídolos, imagens, esculturas, quadros e fotos se tornam pontos de contato para os demônios, que sempre estão procurando materializar-se através de alguma coisa e assim atormentar os homens. Admitir tais coisas dentro de casa, seria convidar os demônios a entrar e nos atormentar. Nas palavra de Jorge Linhares,

    Não basta que abençoemos os nossos bens, nossos pertences. precisamos verificar se não temos permitido adentrar em nosso lar objetos que são por natureza amaldiçoados – objetos que temos de lançar fora e de preferência, queimar ou destruir.

    Uma outra coisa que segundo o pensamento da “batalha espiritual” permite a entrada de demônios na vida da pessoa é o ingerir comidas “trabalhadas” em centros de umbanda. Num capítulo entitulado “Como os demônios se apoderam das pessoas”, do livro Orixás, Caboclos & Guias, Edir Macedo inclui comidas sacrificadas a ídolos como um desses meios. Ele conta o caso de um homem que ingeriu uma comida “trabalhada” e foi atacado por um espírito maligno que o fazia sofrer do estômago. Ele conclui dizendo, “Todas as pessoas que se alimentam dos pratos vendidos pelas famosas ‘baianas’ estão sujeitas, mais cedo ou mais tarde a sofrer do estômago.”

    Mark Bubeck, que ficou conhecido no Brasil por seu livro O Adversário, escreveu recentemente um outro livro sobre como podemos criar nossos filhos em meio aos constantes ataques que os demônios fazem ao nosso lar. Ao fim do livro, Bubeck adicionou um apêndice, contendo questionários cujas perguntas procuram levar os leitores a descobrir as portas pelas quais têm permitido aos demônios entrarem no lar e atacar os filhos. Uma das portas é a presença em casa de objetos amaldiçoados, como amuletos, fetiches e talismãs, livros sobre ocultismo, bruxaria, astrologia, mágica, adivinhação, e utensílios ou objetos usados em templos pagãos, rituais de feitiçaria, ou ainda na prática da adivinhação, mágica ou espiritismo. A sugestão de Bubeck é que a presença dessas coisas no lar permite aos demônios que penetrem na casa e atormentem os filhos.

    Uso de objetos no paganismo

    A lista de Bubeck é bem modesta. Os objetos considerados “amaldiçoados” por muitos cristãos são via de regra aqueles usados nas religiões afro-brasileiras, nas práticas ocultas e no catolicismo popular. Nas religiões populares que empregam artes mágicas e práticas ocultas, objetos religiosos desempenham importante papel no culto e na fé dos participantes. São usados, por exemplo, em despachos e trabalhos feitos pelos pais-de-santos da umbanda. Objetos como o sal grosso, a rosa ungida, a água fluidificada, fitas e pulseiras especiais (como a do chamado “Senhor”do Bonfim) e ramos de arruda são bastante populares. Ainda podemos incluir talismãs e amuletos do tipo “pé-de-coelho”. Para não mencionar ainda os fetiches usados na magia e no candomblé, as relíquias e imagens do catolicismo popular. Na feitiçaria, velas coloridas são usadas para evocar vibrações energéticas das cores e promover transformações pessoais. Amuletos são empregados na proteção contra maus espíritos. Ainda são usados óleos especiais, incensos, cremes, pó, cristais, pirâmides, pêndulos, pulseiras, brincos e pendentes, colares contendo saquinhos com fórmulas mágicas e encantamentos, e muito mais. As gárgulas (imagens de animais grotescos) são freqüentemente associadas com demônios. Esses objetos são ungidos, benzidos, abençoados, purificados, fluidificados com o objetivo de passar ao seu possuidor alguma espécie de poder ou proteção. Ou ainda, são usados em rituais de magia associados com encantamentos, feitiços, despachos e trabalhos espirituais em geral. Em alguns casos, esses objetos são associados com os nomes das entidades espirituais aos quais são dedicados.

    Maldições trazidas por objetos consagrados a demônios

    Como dissemos acima, para os aderentes do movimento de batalha espiritual a ingestão, a posse e mesmo o contato com coisas que foram oferecidas e consagradas aos demônios trazem maldição aos crentes. Um caso sempre mencionado é o do missionário que, ao regressar ao seu país de origem, trouxe da tribo africana onde trabalhava um pequeno fetiche (objeto usado nos rituais religiosos) como recordação. O missionário, evidentemente, não tinha qualquer atitude religiosa para com o objeto, como os africanos; trouxe-o apenas como lembrança, um souvenir. O fetiche foi colocado na estante da sala, em sua casa. Não muito tempo depois, sua filha ficou doente. Sua situação financeira foi de mal a pior. Havia uma “opressão espiritual” no ar, dentro da casa. Nada mais dava certo. Vozes e ruídos eram por vezes ouvidos à noite. Um dia, uma profetiza de uma igreja carismática veio visitar a família. Dirigiu-se imediatamente à estante onde estava o fetiche. Sem hesitar, declarou que a casa estava amaldiçoada por causa do objeto. Era preciso quebrar a maldição. Os passos necessários seriam: confissão do pecado de trazer para casa um objeto amaldiçoado, a quebra do mesmo e a total renúncia dos laços com os espíritos malignos. Esses laços haviam sido estabelecidos, mesmo inconscientemente, no momento que o missionário trouxe o objeto para dentro de casa. Os demônios adquiriram a autoridade de invadir a casa e oprimir seus moradores.

    Timothy Warner conta a história de uma estudante crente, por natureza uma pessoa bem ativa e enérgica, que começou a ficar mais e mais deprimida, tendo dificuldade em dormir e estudar, durante seus estudos de francês, em preparação para o trabalho missionário na África. Um missionário descobriu, após examinar o dormitório onde ela morava, que o ocupante anterior havia escondido no mesmo diversos objetos ocultistas. Warner então explica: “alguns dos demônios associados com os objetos haviam se apegado ao quarto e à mobília”. O missionário orou determinando aos demônios que fossem embora, e a moça pode voltar a dormir normalmente.

    O pressuposto por detrás desse tipo de relato é que esses objetos abrem a porta para os demônios, visto que foram consagrados a eles nos rituais de magia e ocultismo, e mesmo no catolicismo. O fato de que uma pessoa é crente não evitará que seja oprimida pelos espíritos associados a objetos deste tipo.

    Existem algumas dificuldades com esse conceito. No que se segue, vamos explicar algumas delas.

    1) O conceito da habitação de demônios em objetos físicos. Warner conta a história de uma família de missionários nas Filipinas cujo filho era assediado por um demônio que morava numa árvore do jardim da casa onde moravam. O conceito de entidades espirituais morando em árvores remonta à mitologia grega e ao paganismo em geral. As Escrituras desconhecem esse conceito e falam dos demônios como atuando especificamente em seres vivos, humanos ou animais. Entretanto, é comum lermos na literatura do movimento de “batalha espiritual” que espíritos malignos podem habitar em coisas como árvores, imagens, objetos, casas, etc.

    Às vezes Apocalipse 18.2 é citado como prova de que demônios podem morar em lugares amaldiçoados:

    Então, exclamou com potente voz, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável.

    Aqui temos o anúncio da queda de Babilônia feito por um anjo de Deus. Notemos, porém, o seguinte, antes de concluirmos que o texto prova que demônios moram em ruínas! (1) A passagem é evidentemente alegórica. Nos dias de João, Babilônia já não mais existia. (2) João está citando Jeremias 50.39 e Isaías 13.21. Esses dois profetas referem-se à queda e destruição da cidade de Babilônia que existiu em seus dias. A desolação que lhe haveria de sobrevir, como resultado do castigo divino, ia ser tão grande, que a grande cidade, outrora populosa e opulenta, iria se tornar em um grande montão de ruínas. Com o propósito de enfatizar a desolação, os profetas descrevem as ruínas como sendo habitadas por feras e animais do deserto: chacais, avestruzes, corujas e hienas. A Septuaginta, ao traduzir o texto hebraico de Isaías 13.21, traduziu “bodes” por “demônios”.  O apóstolo João, ao citar essas passagens e aplicá-las figuradamente à Babilônia espiritual, o reino das trevas que será destruído por Cristo, acrescenta, além dos animais mencionados pelos profetas, os demônios e espíritos imundos, seguindo a tradução da Septuaginta (Ap 18.2). (3) Evidentemente, a passagem não está dizendo que essas entidades habitam em ruínas de cidades. Seu sentido óbvio é que Deus entrega a humanidade ímpia e endurecida que o rejeita à desolação espiritual e aos demônios. (4) Lembremos ainda que o Senhor Jesus ensinou que os espíritos imundos não encontram repouso em lugares áridos (Mt 12.43-45). A conclusão é que não existe argumentos bíblicos suficientes para provar que espíritos imundos moram e habitam em coisas como objetos, casas, árvores, etc.

    2) O estabelecimento de um pacto com esses demônios pela posse de objetos a eles consagrados. Nenhum adepto do movimento de “batalha espiritual” estaria disposto a admitir que um incrédulo entra em algum tipo de pacto ou concerto com Deus simplesmente por ter uma Bíblia em casa, ou mesmo por ter participado inadvertidamente da Ceia do Senhor numa igreja evangélica. Entretanto, está pronto a afirmar que cristãos verdadeiros podem ser atacados, amaldiçoados e demonizados se tiverem em casa livros sobre ocultismo ou objetos ocultistas, para com os quais não tenha nenhuma atitude religiosa. É óbvio que a simples posse desses objetos não nos expõe a ataques satânicos da mesma forma que a posse de uma Bíblia não expõe um incrédulo às investidas do Espírito Santo, a não ser que abra suas páginas e comece a ler, com seu coração aberto e desejoso de aprender as coisas de Deus.

    3) Uma outra dificuldade é o conceito de que crentes, que nem estão conscientes de que esses objetos foram usados em rituais ocultistas, possam ser oprimidos pelos demônios associados com esses objetos. Não é suficiente escutarmos os relatos e as experiências, como a do missionário acima. Como já insistimos em quase cada capítulo desse livro, por mais sérias e válidas que sejam, experiências não podem servir como autoridade final nessa questões. É preciso examinar as Escrituras, seguindo as regras simples de interpretação, que procuram deixar o texto sagrado falar livremente. E o que encontramos nelas pode ser resumido nas palavras de Balaão, falando pelo Espírito de Deus: “Pois contra Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel” (Nm 23.23).

    Coisas amaldiçoadas na Bíblia

    É preciso reconhecer que, para alguns defensores da “batalha espiritual”, existe suficiente apoio na Bíblia para defender o conceito de maldição através de objetos. Examinemos os dois principais argumentos.

    1) Passagens que condenam o uso de amuletos. É defendido que os pendentes de ouro que as mulheres israelitas traziam nas orelhas, ao sair do Egito, e com os quais se fez o bezerro de ouro, eram amuletos (Ex 32.2-4), bem como as arrecadas (brincos) que Jacó arrancou das orelhas da sua família, junto com os ídolos (Gn 35.1-4).(16) O uso de cordões ou cadeias com pendentes é chamado pelo profeta Oséias de “adultério entre os peitos” (Os 2.2). A atitude das Escrituras em relação a esses objetos é de condenação e rejeição. O profeta Isaías, ao condenar a vaidade do vestuário das mulheres israelitas, faz referência às luetas que elas traziam em seu pescoço (Is 3.18). Eram cordões ou cadeias de ouro com o símbolo da lua crescente, usados para proteger contra maus espíritos. Esse era um costume pagão. Eles usavam amuletos assim até mesmo no pescoço de camelos (Jz 8.21,26).

    É preciso notar, entretanto, que condena-se não tanto o uso em si desses objetos, mas a atitude religiosa que os israelitas tinham para com eles. Eles o usavam conscientemente como amuletos protetores, como fetiches mágicos, como se fossem encantamentos contra maus espíritos. Foi contra essa prática de magia e ocultismo que os profetas falaram. Evidentemente, ter objetos desse tipo em casa pode não ser conveniente ao cristãos por vários motivos (veja a conclusão desse capítulo). Entretanto, se eles não têm qualquer sentido, significado ou relação religiosos, o cristão não se enquadra na condenação emitida pelos profetas.

    2) Passagens que condenam imagens. Existem inúmeras passagens nas Escrituras que condenam a idolatria, isso é, o ato de prestar culto à imagens bem como às realidades espirituais que elas representam. Um fator que contribui significativamente para essa condenação é a relação entre a idolatria e os demônios. Nos tempos antigos, mágica, adivinhação, feitiçaria, bruxaria e necromancia (invocação de mortos) estavam tão intimamente ligados à idolatria, que era quase impossível separar uma coisa da outra. Moisés identifica os deuses pagãos com demônios (Dt 32.17; cf. Sl 106:36-37). O mesmo faz Paulo (1 Co 10.19-20) e o apóstolo João (Ap 9.20). Acredito que o mesmo é verdade ainda hoje. Por detrás da moderna idolatria estão os antigos demônios.

    Entretanto, mais uma vez é preciso observar que as Escrituras condenam propriamente o confeccionar e possuir imagens de entidades pagãs com propósito religioso:

    Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos (Ex 20.3-6).

    Os puritanos entenderam esse mandamento como determinando que nos livrássemos, se possível, de todos os monumentos à idolatria, e proibindo o culto a imagens representativas de Deus ou de falsos deuses e o possuir supersticiosamente artigos ou objetos. A preocupação sempre é contra a idolatria em si. O mandamento contra a idolatria não dever ser entendido como proibindo esculturas, representações, quadros e outros objetos artísticos em geral. O fato de que o culto a Deus deve ser em Espírito (Jo 4.24) não quer dizer, nem mesmo, que Deus proíba a confecção de objetos representativos de realidades espirituais. Ele próprio determinou que os israelitas fizessem imagens de ouro de querubins, que deveriam ser colocadas sobre a tampa da arca, o propiciatório (Ex 25.18-20). Noutra ocasião, mandou que Moisés fizesse uma serpente de bronze (Nm 21.8-9). Ela foi mais tarde destruída somente por que os israelitas passaram a adorá-la, provavelmente como uma relíquia provinda dos tempos de Moisés (2 Re 18.4). O motivo pelo qual o Senhor determinou que os israelitas destruíssem totalmente as imagens dos deuses cananitas, ao se apossarem da terra, foram evitar que os israelitas fossem atraídos à idolatria (Dt 7.1-5) e evitar a cobiça para com o ouro e a prata que revestiam essas imagens. Por esses motivos, não deveriam meter esses ídolos dentro de suas casas, pois eram amaldiçoados por Deus e representariam uma tentação para praticarem a idolatria (Dt 7.25-26). Mais uma vez percebemos que é o perigo da idolatria que o Senhor queria prevenir. As imagens em si mesmo nada eram.

    Preciso reiterar minha convicção de que os cristãos deveriam evitar possuir qualquer objeto relacionado com a idolatria e práticas ocultas. Entretanto, acredito que isso deve ser feito pelas razões corretas e não por mera superstição e crendice.

    Atos 19 e a quebra de maldições de objetos: Talvez a passagem mais citada para justificar a quebra de maldições desses objetos seja Atos 19.18-19:

    Muitos dos que creram vieram confessando e denunciando publicamente as suas próprias obras. Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinqüenta mil denários.

    As “artes mágicas” no mundo antigo incluíam a adivinhação, o exorcismo, o uso de fórmulas secretas, a conjuração e a invocação dos mortos, pactos com entidades espirituais, encantamentos e rituais com o objetivo de ganhar o favor dos espíritos. Essas coisas eram usadas tanto para atingir e ferir inimigos quanto para curar doentes. Elas são bastante populares ainda hoje.

    Havia muitos magos e bruxos no mundo do século I, na época de Jesus e dos apóstolos. Um exemplo é Simão Mago, que iludia o povo de Samaria com artes mágicas (At 9.9). A cidade de Éfeso, por sua vez, era um conhecido centro dessas artes. Ali, no início do reinado de Nero, um homem chamado Apolônio Tianeo abriu uma escola e ensinava artes mágicas e coisas do gênero. Taciano, em sua obra Contra Graecos, menciona que a deusa Diana dos efésios era considerada como sendo praticante de magia.

    Lemos em Atos 19 que os ex-adeptos da magia em Éfeso que haviam se convertido ao cristianismo pela pregação de Paulo, queimaram seus livros publicamente. Esses “livros” eram obras onde se ensinava a prática dessas artes. Continham encantamentos, símbolos secretos e mágicos, passos para a invocação de mortos e métodos para esconjurar demônios. Provavelmente continham tabelas e fórmulas essenciais para a prática da astrologia. Os “Papiros Mágicos”, encontrados no Egito na década de 50 desse século, continham pedaços de pergaminhos com símbolos e fórmulas mágicas chamados “cartas de Éfeso”, que eram usados como amuletos ou talismãs.

    É alegado por alguns da “batalha espiritual” que a queima dos livros de magia em Éfeso foi necessária pois a posse de tais livros continuaria a dar validade aos pactos feitos pelos efésios com entidades malignas e a dar autoridade a essas entidades sobre suas vidas, mesmo que eles agora se tornaram cristãos. Queimar os livros fazia parte da quebra das maldições que pesavam sobre eles por terem praticado artes mágicas antes da sua conversão. Na cerimônia da queima dos livros, eles renunciaram publicamente a todos esses compromissos e pactos que fizeram com os espíritos malignos.

    Evidentemente, a queima dos livros de magia representou o rompimento oficial e público dos efésios crentes com seu passado de ocultismo. Entretanto, nada há no texto que apoie a idéia de que o evento foi uma espécie de cerimônia de quebra de maldições. A queima dos livros foi o resultado da consciência que os efésios agora tinham de que tais artes mágicas era iniquidade diante de Deus, e que os livros que ensinavam essa coisas eram perniciosos à humanidade e que, por mais caros que fossem (cerca de cinqüenta mil moedas de prata), deveriam ser destruídos para não causar mais danos a outros. O verso 19 que narra a queima dos livros deve ser entendido à luz do verso 18, onde se diz que os efésios vieram confessar seus pecados e revelar as suas obras más. A queima dos livros foi uma amostra de seu genuíno arrependimento.

    Comentando nessa passagem, John Gill, um estudioso puritano, diz o seguinte:

    Eles queimaram seus antigos livros de mágica para mostrar o quanto agora os detestavam. Também, para mostrar a genuinidade de seu arrependimento pelos pecados cometidos nessa área, para evitar que esses livros não se tornassem uma armadilha para eles no futuro e para que não fossem usados por outros.

    Os livros, portanto, não foram queimados porque possuíam qualquer poder maléfico intrínseco em si mesmos. Os motivos mencionados por Gill para a queima estão em harmonia com o ensino das Escrituras em geral, com o bom senso e com o que tem sido a prática normal da Igreja na história, além de ser a interpretação mais natural e óbvia da passagem.

    Existe ainda um outro motivo para a queima dos livros. Uma parte essencial da prática de artes mágicas daquela época era o exorcismo, a expulsão de espíritos malignos. Acreditava-se (como também se acredita hoje em alguns círculos protestantes) que todas as doenças – particularmente as mentais – eram causadas por espíritos maus que entravam nos homens. Grande parte do trabalho dos exorcistas era tentar curar essas doenças pela expulsão dos espíritos maus que as infligiam. Nos seus livros mágicos haviam fórmulas especiais para esconjurar esses espíritos.

    Quando Paulo chegou em Éfeso, duas coisas aconteceram que vieram contribuir para a queima dos livros: (1) Ele curou as enfermidades e expulsou demônios usando apenas o nome de Jesus (At 19.11-12), em contraste com os rituais elaborados e complicados dos exorcistas da época, como se encontravam nos livros; (2) quando alguns exorcistas tentaram usar o nome de Jesus e de Paulo para expelir um demônio de um homem, fracassaram redondamente. O próprio demônio atestou a autoridade que havia no nome de Jesus (At 19.13-16). É possível que alguns dos efésios que haviam se convertido ainda mantinham algum tipo de contato com artes mágicas. O episódio dos exorcistas acabou por convencê-los. Ficou evidente a todos que a mágica ensinada nos livros não passava de fórmulas vazias e inúteis. Como escreve Marshall,

    A demonstração da futilidade das tentativas pagãs de dominarem os espíritos maus levou muitos dos convertidos efésios de Paulo a reconhecerem que a magia pagã, com a qual ainda tinham contatos, era tão inútil quanto pecaminosa. Como conseqüência, trouxeram os vários manuais de magia e as compilações de invocações e fórmulas que ainda tinham, e fizeram com eles um rompimento final.

    O verdadeiro poder contra Satanás estava apenas no nome de Jesus. A queima dos livros, portanto, foi um testemunho do poder inigualável de Jesus Cristo sobre as obras das trevas. Somente ele era o Senhor. Quanto a isso, os efésios cristãos não tinham mais qualquer dúvida.

    O ensino de Paulo sobre coisas sacrificadas a demônios

    Examinemos, agora, 1 Coríntios 8-10, a passagem da Bíblia que aborda de forma mais direta e clara a questão que estamos discutindo. Nesses capítulos, o apóstolo Paulo trata da atitude dos cristãos para com a carne de animais sacrificados como oferendas aos deuses pagãos. A questão que Paulo tratou nessa passagem era bem complexa. Os cristãos em Corinto (bem como nas demais cidades do mundo greco-romano) sempre corriam o risco de comer esse tipo de carne. O sacrifício de animais e o consumo da sua carne fazia parte do ritual religioso nos templos pagãos da época. Corinto não era exceção.

    Modernamente, podemos nos referir ao caso das comidas “trabalhadas” nos terreiros de umbanda. De acordo com as crenças do candomblé, umbanda e quimbanda, os orixás exigem comidas variadas, que devem ser preparadas de acordo com rituais apropriados. Por exemplo, Exú gosta de cebola e mel entregues no mato com velas acesas e aguardente. Ogum gosta de feijoada, xinxim, acarajé e milho branco. Oxóssi, de peixe de escamas, arroz, feijão e dendê. Essas comidas são feitas de acordo com as indicações dos demônios e a eles oferecidas. Para muitos cristãos, é uma questão aguda se algum mal vai lhes ocorrer se acabarem por ingerir uma comida que foi“trabalhada”. Os coríntios estavam perturbados por um problema similar. Eles escreveram uma carta a Paulo com várias perguntas, entre elas, se era lícito comer carne de animais que haviam sido consagrados aos deuses pagãos. Os coríntios tinham em mente três situações:

    1. Era lícito participar de um festival religioso num templo pagão e comer a carne dos animais sacrificados aos deuses? Na antigüidade, o sacrifício de animais aos deuses fazia parte da vida pessoal, familiar e social. O sacrifício ocorria nos templos e a carne do animal sacrificado era dividida em três partes. Uma parte, geralmente simbólica (podendo ser até uma mecha dos pelos!), era queimada no altar em homenagem aos deuses. A segunda parte, incluindo costelas e músculos, ia para o sacerdote. A terceira parte ficava com o ofertante, e com ela, oferecia um banquete, geralmente em casamentos. Muitas vezes, essas festas ocorriam no templo, no qual o sacrifício fora feito. Os crentes de Corinto certamente mantinham relacionamentos com amigos não-crentes, e sempre havia a possibilidade de serem convidados a participar de uma destas festas no templo, onde havia muita carne e bebida. Alguns daqueles cristãos não tinham quaisquer escrúpulos de consciência em participar e comer carne dos ídolos no templo dos ídolos, uma atitude que estava provocando os de consciência mais fraca.

    2. Era lícito comer carne comprada no mercado público? A carne ali comprada poderia ser de animais sacrificados aos deuses, cujo excedente dos altares havia sido repassado pelos sacerdotes aos açougueiros da cidade. Devido à enorme quantidade de animais sacrificados, uma parte deles acabava no mercado público, onde eram vendidos como carne boa e barata.

    3. Era lícito comer carne na casa de um amigo idólatra? Como na situação anterior, um crente poderia ser convidado por um amigo pagão para comer um churrasco em sua casa. A carne provavelmente seria de um animal que o amigo havia primeiro consagrado ao seu deus, lá no templo. Um papiro grego muito antigo contém um convite para uma dessas festas, nos seguintes termos:“Antônio, filho de Ptolomeu, convida-o para cear com ele à mesa de nosso senhor Serápis.” Quem quer que tenha sido o convidado, ele sabia que ao sentar-se à mesa de Antônio, estaria comendo carne de um animal que havia sido sacrificado ao deus Serápis.

    A questão aguda era se um crente poderia comer carne em Corinto, correndo assim o risco de contaminar-se. William Barclay, um autor bastante conhecido e citado, sugere que o problema era a crença, muito difundida na antigüidade, de que os demônios estavam sempre procurando uma brecha para entrar nos homens, para destruir seus corpos e mentes. Uma das maneiras pela qual faziam isso era através da comida. Tais espíritos se alojavam na comida e quando a pessoa a engolia, os demônios entravam nela. Por esse motivo, diz Barclay, as pessoas consagravam os alimentos – especialmente a carne – a algum deus bom. Acreditava-se que a presença de um deus bom na carne formava uma barreira contra os maus espíritos.

    O assunto dos sacrifícios de animais aos deuses é bem complexo, e não poucos estudiosos discordariam de Barclay. Essa não parece ser a razão primordial pela qual os pagãos consagravam comida aos seus deuses. Sacrifícios eram praticados nas religiões de quase todas culturas antigas, e no geral, visavam honrar uma divindade, apaziguá-la ou santificar a oferta. Em algumas destas culturas, os sacrifícios estavam relacionados com o culto aos ancestrais, alimentar os deuses e mesmo “comer os deuses”. Paulo, ao discutir o assunto, em momento algum sugere que haveria o risco de demônios penetrarem mesmo naqueles que comessem a carne consagrada aos demônios nos próprios templos dos deuses pagãos. A questão que incomodava os coríntios não era se estariam comendo demônios, mas se não estariam participando direta ou indiretamente do culto ao ídolo. Note ainda que quem introduz o conceito de que os demônios estão por detrás da idolatria é Paulo. Provavelmente os coríntios nem estavam pensando nesses termos. A explicação de Barclay, portanto, é menos do que convincente.

    Os crentes de Corinto estavam divididos quanto ao assunto. Um grupo deles estava passando por grande aflição. Eram ex-freqüentadores dos templos, recém convertidos ao Evangelho. Por vezes, acabavam caindo no velho costume de comer carne, encorajados pelo exemplo dos que achavam que não havia nada de errado com isso. Como resultado, suas consciências os acusavam: eles haviam acabado de consumir carne espiritualmente contaminada, consagrada aos demônios em um templo pagão. Paulo, no tratamento que faz do assunto, considera-os como “fracos”, pois suas consciências eram “fracas” (1 Co 8.7,9-12). O grupo contrário, a quem Paulo chama de “dotados de saber” (1 Co 8.10), tinha já plena consciência de que os ídolos dos templos pagãos nada eram nesse mundo, e que os animais a eles ofertados, na verdade, continuavam a ser de Deus, o criador e Senhor de todas as coisas. Assim, sentiam-se livres para comer carne, até mesmo nos festivais pagãos nos templos. Os“fracos”, estimulados por esse exemplo, tentavam usar da mesma liberdade, mas com resultados desastrosos – suas consciências não eram fortes o suficiente para permitir que comessem carne livremente.

    O problema parece que girava em torno de duas questões. Primeira, a relação entre os animais e os deuses, diante de cujas imagens os animais eram consagrados, oferecidos e sacrificados. A carne desses animais continuava a “pertencer” aos deuses após o ritual no templo, quando estava pendurada no açougue público para ser vendida? Quem comesse dessa carne estaria, mesmo de forma inconsciente, fazendo um pacto com os deuses? Segunda, comer essa carne não implicaria numa espécie de participação à distância dos crentes na adoração pagã e no culto aos deuses? Não deveríamos evitar a todo custo aquilo que tem relação com os cultos idólatras?

    As respostas de Paulo são surpreendentes. O apóstolo concorda com os “fortes” quanto ao conhecimento de que Deus é o Senhor de tudo e que não há outros deuses ou senhores (1 Co 8.4-6). Mas condena a falta de amor dos “fortes” para com os “fracos” (1 Co 8.9-13). Deveriam limitar sua liberdade pela consideração à consciência dos outros. Após dar o exemplo de como abriu mão dos seus direitos como apóstolo de receber sustento por amor do Evangelho (1 Coríntios 9), e após alertar os “fortes” contra a arrogância, usando o exemplo de Israel no deserto (1 Co 10.1-15), Paulo responde às três principais indagações dos Coríntios já mencionadas acima.

    O fato de que Paulo não invoca aqui a decisão do concílio de Jerusalém (Atos 15) para resolver o assunto de vez tem intrigado os estudiosos. Conforme lemos no livro de Atos, o concílio havia se reunido para tratar das condições sob as quais os não-judeus poderiam ser salvos e recebidos na Igreja. A polêmica havia sido causada por alguns judeus cristãos da Judéia que foram até as igrejas gentílicas forçar os gentios a se circuncidarem, e a guardar as leis de Moisés (naquela época, as mais importantes eram as leis dietárias e o calendário religioso). Paulo e Barnabé resistiram e houve uma grande discussão. O assunto foi levado aos apóstolos e presbíteros em Jerusalém. Alguns fariseus que haviam crido em Cristo insistiam na circuncisão e nas leis de Moisés para os gentios, mas Paulo, Pedro e Tiago, através de seus testemunhos e do apelo às Escrituras, convenceram o concílio de que os gentios eram salvos pela fé sem as obras da lei (como também os judeus o eram), e que não precisavam se tornar judeus para poder pertencer à Igreja de Cristo. O concílio, entretanto, em sua decisão, resolveu incluir algumas condições éticas, entre elas, a de os gentios se absterem das coisas sacrificadas aos ídolos (At 15.29).

    O concílio havia acontecido uns poucos antes de Paulo escrever 1 Coríntios. O apóstolo estava perfeitamente consciente do conteúdo da sua decisão. A pergunta é, por que não invocou aquela decisão para acabar de vez com o problema em Corinto? Algumas respostas tem sido dadas. Peter Wagner, por exemplo, sugere que Paulo não havia ficado satisfeito com essa decisão, considerando-a inadequada e superficial. Para Wagner, a decisão do concílio havia sido equivocada por tratar o comer carne sacrificada aos ídolos como algo imoral, quando na verdade era algo neutro. Entretanto, a melhor solução tem sido observar que as condições éticas requeridas pelo concílio eram para ser observadas num ambiente onde houvesse judeus e gentios. Eram regras a ser seguidas pelos gentios cristãos numa igreja onde houvesse judeus cristãos. Elas não eram uma lei moral geral e válida em todas as circunstâncias, mas uma orientação para quando a abstinência se fizesse necessária para preservar a unidade, conforme sugere Calvino em seu comentário em Atos 15.

    A situação de Corinto era diferente. O problema lá não era o mesmo tratado no concílio de Jerusalém. O problema não era os escrúpulos de judeus cristãos ofendidos pela atitude liberal de crentes gentios quanto à comida oferecida aos ídolos. Portanto, a solução de Jerusalém não servia para Corinto. É provavelmente por esse motivo que o apóstolo não invoca o decreto de Jerusalém. Antes, procura responder às questões que preocupavam os coríntios de acordo com o princípio fundamental de que só há um Deus vivo e verdadeiro, o qual fez todas as coisas; que o ídolo nada é nesse mundo; e que fora do ambiente do culto pagão, somos livres para comer até mesmo coisas que ali foram sacrificadas.

    1. A primeira pergunta dos coríntios havia sido: era lícito participar de um festival religioso num templo pagão e ali comer a carne dos animais sacrificados aos deuses? Não, responde Paulo. Isso significaria participar diretamente no culto aos demônios onde o animal foi sacrificado (1 Co 10.16-24). Paulo havia dito que os deuses dos pagãos eram imaginários (1 Co 10.19). Por outro lado, ele afirma que aquilo que é sacrificado nos altares pagãos é oferecido, na verdade, aos demônios e não a Deus (10.20). Paulo não está dizendo que os gentios conscientemente ofereciam seus sacrifícios aos demônios. Obviamente, eles pensavam que estavam servindo aos deuses, e nunca a espíritos malignos e impuros. Entretanto, ao fim das contas, seu culto era culto aos demônios. Paulo está aqui refletindo o ensino bíblico do Antigo Testamento quanto ao culto dos gentios:

    Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus… (Dt 32.17).

    …pois imolaram seus filhos e suas filhas aos demônios (Sl 106.37).

    O princípio fundamental é que o homem não regenerado, ao quebrar as leis de Deus, mesmo não tendo a intenção de servir a Satanás, acaba obedecendo ao adversário de Deus e fazendo sua vontade. Satanás é o príncipe desse mundo. Portanto, cada pecado é um tributo em sua honra. Ao recusar-se a adorar ao único Deus verdadeiro (cf. Rm 1.18-25), o homem acaba por curvar-se diante de Satanás e de seus anjos. Para Paulo, participar nos festivais pagãos acabava por ser um culto aos demônios. Por esse motivo, responde que um cristão não deveria comer carne no templo do ídolo. Isso eqüivaleria a participar da mesa dos demônios, o que provocaria ciúmes e zelo da parte de Deus (1 Co 10.21-22). Paulo deseja deixar claro para os coríntios “fortes”, que não tinham qualquer intenção de manter comunhão com os demônios, que era a atitude deles em participar nos festivais do templo que contava ao final. Era a força do ato em si que acabaria por estabelecer comunhão com os demônios.

    2. Era lícito comer carne comprada no mercado público? Sim, responde Paulo. Compre e coma, sem nada perguntar (1 Co 10.25). A carne já não está no ambiente de culto pagão. Não mantém nenhuma relação especial com os demônios, depois que saiu de lá. Está “limpa” e pode ser consumida.

    3. Era lícito comer carne na casa de um amigo idólatra? Sim e não, responde Paulo. Sim, caso não haja, entre os convidados, algum crente “fraco” que alerte sobre a procedência da carne (1 Co 10.27). Não, quando isso ocorrer (1 Co 10.28-30).

    O ponto que desejo destacar é que para o apóstolo Paulo a carne que havia sido sacrificada aos demônios no templo pagão perdia a “contaminação espiritual” depois que saia do ambiente de culto. Era carne, como qualquer outra. É verdade que ele condenou a atitude dos “fortes” que estavam comendo, no próprio templo, a carne sacrificada aos demônios. Mas isso foi porque comer a carne ali era parte do culto prestado aos demônios, assim como comer o pão e beber o vinho na Ceia é parte de nosso culto a Deus. Uma vez encerrado o culto, o pão é pão e o vinho é vinho. Aliás, continuaram a ser pão e vinho, antes, durante e depois. A mesma coisa ocorre com as carnes de animais oferecidas aos ídolos. E o que é verdade acerca da carne, é também verdade acerca de fetiches, roupas, amuletos, estátuas e objetos consagrados aos deuses pagãos. Como disse Calvino,

    Alguma dúvida pode surgir se as criaturas de Deus se tornam impuras ao serem usadas pelos incrédulos em sacrifícios. Paulo nega tal conceito, porque o senhorio e possessão de toda terra permanecem nas mãos de Deus. Mas, pelo seu poder, o Senhor sustenta as coisas que tem em suas mãos, e, por causa disto, ele as santifica. Por isso, tudo que os filhos de Deus usam é limpo, visto que o tomam das mãos de Deus, e de nenhuma outra fonte.

    CONCLUSÃO

    Ao fim desse capítulo, espero ter dado evidências claras de que não há como justificar hoje a prática no culto cristão de ungir e abençoar objetos, quaisquer que forem os propósitos. Também, que não há como provar biblicamente que objetos usados e consagrados aos demônios nos cultos idólatras e ocultistas têm algum poder especial de “amaldiçoar” os crentes verdadeiros que os tocam, ingerem, usam ou acabam por possui-los fora do contexto de adoração e devoção a essas entidades.

    Devemos sempre nos lembrar da diferença fundamental entre o conceito pagão e o conceito cristão quanto ao emprego de “coisas” com sentido religioso. As religiões empregam objetos e utensílios em seus cultos ou práticas como símbolos de realidades espirituais ou portadores de poderes mágicos. O culto cristão, em contraste, é bem mais simples. Ele emprega apenas dois símbolos materiais, a água do batismo e os elementos da Ceia (pão e vinho). A atitude do paganismo para com esses objetos é também diferente da atitude dos evangélicos para com seus símbolos (batismo e Ceia). Enquanto que para os evangélicos a água, o pão e o vinho são símbolos que têm seu valor e sua função apenas no momento da ministração dos sacramentos, na prática da magia, no ocultismo, nas religiões afro-brasileiras e no catolicismo popular, os objetos cúlticos continuam a manter uma relação vital para com as entidades e realidades espirituais aos quais estão associados, mesmo após a sua consagração durante os rituais. Por exemplo, uma rosa que foi ungida continua a emanar forças positivas mesmo após o ritual de consagração. Um amuleto que foi “carregado” de fluidos positivos continuará a emaná-los ad infinitum. Uma comida que foi “trabalhada” por uma mãe de santo num terreiro de umbanda vai afetar quem a comer, fora do terreiro. Para os evangélicos, em contraste, uma vez encerrada a Ceia, o pão é pão comum e o vinho, vinho comum. Na verdade, eles permaneceram sendo vinho e pão comuns durante a celebração da Ceia. Aquele uso especial para o qual foram separados, cessa após a celebração. Nenhum pastor pode, fora do momento da celebração (suponhamos, durante o jantar em casa de amigos), tomar pão e declarar:“Disse Jesus, isso é o meu corpo, comei deles todos”. Água, pão e vinho perdem sua simbologia fora do culto. Para o paganismo, entretanto, a profunda relação entre objetos cúlticos e as realidades e entidades espirituais associadas a eles é permanente.

    Portanto, os evangélicos que conhecem a sua Bíblia não são superticiosos quanto a objetos oriundos de outras religiões. Entretanto, acredito que devemos ter bastante cautela quanto a objetos assim. Eu mesmo não guardo em casa ou no ambiente de trabalho nenhuma dessas coisas. Não que tenha receio que elas poderão dar aos demônios, a quem foram oferecidas, algum tipo de poder sobre mim e minha família. Estou seguro e protegido no poder do meu Salvador Jesus Cristo. Mas, pelas seguintes razões, que ofereço como orientação geral quanto ao uso desses objetos:

    1) Devemos evitar ter e exibir esses objetos quando os mesmos forem uma tentação real para a idolatria ou ocultismo. Novos convertidos egressos da idolatria e cultos afro-brasileiros poderão ser tentados a retornar às práticas antigas, estimulados pelos símbolos do seu passado religioso. Devemos evitar toda e qualquer possibilidade de sermos tentados nessa área, bem, como evitar sermos causa de tropeço para outros. Foi isso que o apóstolo Paulo recomendou aos “fortes” de Corinto (1 Co 10.31-33).

    2) Devemos evitar esses objetos se os mesmos evocam lembranças do nosso passado. Muitos de nós gostariam de esquecer períodos e eventos acontecidos nos tempos de ignorância. Deus nos deu a bênção do esquecimento. Livremo-nos, pois, de tudo que mantém vivas lembranças assim.

    3) Devemos evitar esses objetos se os mesmos servirem de estímulo a outros a que façam o mesmo, sem que estejam firmes em suas consciências de que tais objetos, em si, nenhum mal trazem.

    Autor: Rev. Augustus Nicodemus Lopes

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  • Biblioteca israelense disponibiliza documentos teológicos de Newton

    Aron Heller

    JERUSALÉM, Israel (Associated Press) — Ele é considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos. Mas Sir Isaac Newton também foi um influente teólogo, que aplicou a abordagem científica ao estudo das Escrituras e do misticismo hebreu e judeu.


    Foto – Gravura de Isaac Newton baseada em um quadro de 1726 pintado por John Vanderbank, parte da capa de uma edição de 1726 do Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, exposta em 8 de outubro de 2004 na Biblioteca de Ciências Humanas e Sociais da Biblioteca Pública de Nova Iorque. A biblioteca nacional de Israel, uma improvável detentora de uma vasta coleção de escritos de Newton, digitalizou a sua coleção teológica e a disponibilizou online. O curador da coleção de Ciências Humanas da biblioteca disse em 15 de fevereiro de 2012 que Newton era um cristãos devoto que abordou muito mais a Teologia do que a Física, e que acreditava que as escrituras forneciam um “código” para o mundo natural. (Foto AP: arquivo da Biblioteca Pública de Nova Iorque)

    Agora a Biblioteca Nacional de Israel, dona de uma enorme coleção de escritos de Newton, digitalizou sua coleção teológica (cerca de 7.500 páginas escritas a mão) e as disponibilizou online. Entre os textos amarelados está a famosa previsão de Newton do apocalipse em 2060.

    Newton revolucionou a Física, a Matemática e a Astronomia nos séculos XVII e XVIII, lançando as bases de grande parte da mecânica clássica, como o princípio da gravitação universal e as três leis do movimento que levam seu nome.

    No entanto, o curador da coleção de Ciências Humanas da Biblioteca Nacional de Israel afirma que Newton era um cristão devoto, que abordou muito mais a Teologia do que a Física, e acreditava que a Bíblia fornecia um “código” para o mundo natural.

    “Hoje em dia, tendemos a fazer uma distinção entre ciência e fé, mas para Newton era tudo parte de um mesmo mundo”, afirma Milka Levy-Rubin. “Ele acreditava que o estudo cuidadoso dos textos sagrados era um tipo de ciência, que se analisado corretamente poderia prever o que estava por vir”.

    Dessa forma, ele aprendeu a ler em hebraico, percorreu a Bíblia e se aprofundou no estudo da Filosofia Judaica e do misticismo da Cabala e do Talmude (um compêndio da lei oral judaica e histórias de cerca de 1500 anos).

    Por exemplo, Newton baseou seu cálculo do fim dos dias na informação coletada no Livro de Daniel, que projetou o apocalipse para 1260 depois. Newton calculou que sua contagem começou com a coroação de Carlos Magno como imperador romano no ano 800.

    Os textos abordam assuntos como interpretações da Bíblia, Teologia, a história de culturas antigas, o tabernáculo e o templo judeu.

    A coleção também contém mapas esboçados por Newton para ajudá-lo nos seus cálculos e tentativas de revelar a sabedoria secreta que ele acreditava estarem codificada neles.

    Ele tentou prever como seria o fim dos dias, e o papel que os judeus desempenhariam quando ele chegasse. A curiosidade objetiva de Newton com o judaísmo e a Terra Santa contrastou com o sentimento antissemita expressado por muitos expoentes acadêmicos do cristianismo da época, afirma Levy-Rubin.

    Ele tinha grande interesse pelos judeus, e não encontramos expressões negativas para com os judeus nos seus escritos”, afirma Levy-Rubin. “Ele declarou que os judeus mais cedo ou mais tarde iriam retornar à sua terra”.

    Como essa enorme coleção de trabalhos foi parar nas mãos do estado judaico parece místico por si só.

    Anos após a morte de Newton em 1727, seus descendentes deram seus manuscritos científicos à sua alma mater, a Universidade de Cambridge.

    Mas a universidade rejeitou os seus manuscritos não científicos, então a família os leiloou na casa de leilões Sotheby’s em Londres em 1936. Por acaso, outra casa de leilões famosa de Londres, a Christie’s, estava oferecendo uma coleção de arte impressionista que chamou muito mais atenção.

    Apenas dois lançadores sérios se interessaram pela coleção de Newton naquele dia. O primeiro foi o renomado economista britânico John Maynard Keynes, que comprou os manuscritos de alquimia de Newton. O segundo foi Abraham Shalom Yahuda, um pesquisador de estudos orientais judaicos, que levaram os escritos teológicos de Newton.

    A coleção de Yahuda foi legada à Biblioteca Nacional de Israel em 1969, anos após sua morte. Em 2007, a biblioteca exibiu os papeis pela primeira vez, e agora elas estão disponíveis para todos online.

    A coleção contem páginas e mais páginas da letra cursiva de Newton em pergaminhos desbotados em inglês do século 18, com palavras como “similitude”, “prophetique” e “Whence” (“donde”).

    Duas versões impressas em letras de forma modernas também estão disponíveis para mais fácil leitura: Uma “diplomática”, que inclui mudanças e correções feitas por Newton ao manuscrito original, e uma versão “limpa”, que incorpora as correções.

    Todos os textos estão ligados ao Projeto Newton, organizado pela Universidade de Sussex, na Inglaterra, e inclui outras coleções dos escritos de Newton.

    A biblioteca israelense diz que os manuscritos ajudam a esclarecer a ciência de Newton, assim como sua pessoa.

    “No que diz respeito a Newton, sua abordagem da História era tão ciência quanto à da Física. Sua visão de mundo era que o seu ‘laboratório’ para entender a história era a Bíblia”, afirma Levy-Rubin. “Sua fé não era menos importante para ele do que sua ciência”.

    Traduzido por Luis Gustavo Gentil do artigo da Associated Press: Israeli library uploads Newton’s theological texts

    Para acessar os documentos em inglês de Isaac Newton, clique aqui.

    Fonte: www.juliosevero.com

     

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  • Quem está certo: o bispo universal, o missionário internacional ou o apóstolo mundial?

    PR. CIRO SANCHES ZIBORDI

    Na atualidade, há três igrejas conhecidas como evangélicas que, apesar de terem Deus no nome, não têm pregado o verdadeiro Evangelho. Elas “arrastam” multidões. Pessoas se acotovelam para ouvir “outro evangelho”, e não o Evangelho (1 Co 15.1,2; 2 Co 11.3,4. Gl 1.6-12; 1 Tm 6.3,4).

    Refiro-me a três grandes igrejas, cujos templos estão sempre lotados. A maior delas ainda não conquistou outros planetas, mas a sua meta é crescer em níveluniversal. A segunda maior também está em boa parte do globo terrestre; trata-se de uma igrejainternacional. E a terceira também não deixa por menos. Conquanto menor do que as outras, já se considera mundial.

    Estou falando de três líderes carismáticos, telepregadores muito bem-sucedidos em seus negócios. Os dois primeiros fundaram a primeira igreja, de abrangência universal. O segundo e o terceiro saíram da primeira. O mais rico (está entre os mais ricos do País!) tem um reino à sua disposição. O segundo mais rico é um milionário, quer dizer, um missionário cheio de graça, que prega, canta, conta piadas… E o terceiro vem suando bastante (a ponto de os fiéis recolherem o seu suor!) para demonstrar que a sua igreja tem muito poder.

    Essas igrejas aparecem na mídia todos os dias e têm muitos seguidores — você pode ser um deles! —, mas não pregam, como já disse, o verdadeiro Evangelho. A primeira prega o evangelho da prosperidade. A segunda, o evangelho triunfalista, à base de confissões positivas. E a terceira, o evangelho experiencialista e místico.

    Os auditórios dessas igrejas, em geral, são formados por três tipos de pessoas, nessa ordem: interesseirasque frequentam cultos prioritariamente para se tornarem empresárias ou saírem de uma crise financeira; interesseiras que vão aos cultos para receberem curas, bens materiais ou soluções de problemas; e interesseiras que frequentam os cultos para receberem milagres. Jesus também era seguido por multidões de interesseiros. A diferença é que Ele pregava a verdade, o que fazia com que muitos deixassem de segui-lo (Jo 6.60-69).

    Bem, a primeira igreja, de abrangência universal, contraria o que diz a Bíblia acerca do Reino de Deus, que “não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17), ao priorizar a prosperidade material. Deus faz prósperos os seus filhos (Sl 1; 23; 37), mas um crente que só pensa em dinheiro e bens materiais está longe de agradar ao Senhor Jesus (Mt 6.19-21; 1 Tm 6.9,20; Ef 5.5).

    A segunda igreja, de abrangência internacional, não prioriza a graça do Senhor Jesus, posto que promove um culto antropocêntrico, centrado nas necessidades humanas. As pessoas não frequentam os cultos primeiramente para adorar ao Senhor, e sim para receberem bênçãos, como se Deus fosse aquele bom velhinho do Pólo Norte… Deus abençoa o seu povo, mas o nosso culto deve ser cristocêntrico, isto é, em adoração e louvor a Cristo (1 Co 1.22,23; 2.1-5). A oração modelo não começa com “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”, e sim: “Pai nosso que está nos céus, santificado seja o teu nome” (Mt 6.9).

    Fina
    lmente, a terceira igreja, de abrangência mundial, apresenta um culto aos milagres. Tudo gira em torno de sinais, prodígios, curas… Há problema nisso? Claro que sim! O Senhor Jesus, quando andou na terra, ficou o tempo todo curando os enfermos e fazendo milagres? Não! Ele ensinava, pregava e curava, nessa ordem (Mt 4.23; 11.1). Ele ensinou mais que pregou; e pregou mais que curou. Além disso, pregar o Evangelho não é pregar milagres, pois estes são o efeito da pregação do Evangelho (Mc 16.15-20). Por isso, na hierarquização que Deus estabeleceu para os dons do Espírito, milagres e curas aparecem depois de apóstolos, profetas e doutores (1 Co 12.28).

    Qual é o líder que está com a razão, visto que estão se digladiando há algum tempo? O bispo universal, que só prega a teologia da prosperidade, não fazendo jus à definição bíblica de Reino de Deus? Ou o missionário cheio de graça, conhecido em âmbitointernacional? Ou ainda o apóstolo mundial que faz da pregação de milagres o seu carro-chefe, deixando de pregar o Evangelho pleno, composto de promessas, mandamentos e princípios?

    Enquanto os aludidos bispo, missionário e apóstolo disputam para ver quem é o melhor, sigamos o Bom Pastor, o nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 10.11,27,28). Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14.6).

    Amém?

    Ciro Sanches Zibordi

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