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  • Lição 5: As bênçãos de Israel e o que cabe à Igreja

    As bênçãos e promessas de Deusconstantes da Bíblia não são indistintas a todas as pessoas, devem ser analisadas dentro do seu contexto.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo sobre a prosperidade bíblica, passaremos a analisar os principais pontos do ensino bíblico sobre o tema, refutando as distorções feitas pela “teologia da prosperidade”.

    – O primeiro ponto a ser analisado é de que as promessas e bênçãos de Deus constantes nas Escrituras não podem ser aplicadas indistintamente a todas as pessoas, mas devem ser examinadas no contexto em que aparecem.

    I – DEUS É UM DEUS DE BÊNÇÃOS E DE PROMESSAS

    – Após termos visto o que é a prosperidade na Bíblia, tanto no Antigo como em o Novo Testamento, oportunidade em que observamos o forte conteúdo espiritual que o tema apresenta nas Escrituras, passamos ao segundo bloco de nosso estudo deste trimestre, em que analisaremos alguns pontos da doutrina bíblica da prosperidade a fim de refutarmos as distorções constantes da “teologia da prosperidade”.

    – O primeiro destes pontos é a realidade de que, embora o nosso Deus seja um Deus de bênçãos e de promessas, tais bênçãos e promessas não são indistintas para todos os homens. Uma das principais artimanhas dos “teólogos da prosperidade” é, precisamente, a de “pinçar” das páginas da Bíblia “bênçãos” e “promessas” e aplicá-las, fora do contexto em que foram feitas, para a Igreja.

    – O nosso Deus, que ama o homem e quer que todos os seres humanos se salvem, tem prazer em abençoar o homem. Já no relato da criação, vemos o Senhor abençoando o homem, tendo, sido, aliás, a primeira atitude que a Bíblia registra que Deus fez em relação ao homem (Gn.1:28).

    – Não há porque, então, duvidarmos deste caráter abençoador primordial de Deus em relação ao homem, mas isto não pode, em absoluto, fazer-nos crer que todas as bênçãos constantes na Bíblia são dirigidas à Igreja, a este povo de Deus formado por judeus e gentios por força do sacrifício vicário de Cristo Jesus na cruz do Calvário (Ef.2:13,14).

    A bênção é definida, pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, como sendo “graça concedida por Deus”, ou seja, é um favor imerecido que Deus dá ao homem por força do Seu amor para com o ser humano. Deus, assim que criou o homem, o abençoou (Gn.1:28), pois queria o seu bem, bem este que é concretizado pela comunhão que o próprio Deus estabeleceu com o homem, feito à Sua imagem e semelhança.

    – Além de ser um Deus de bênçãos, o Senhor também é um Deus de promessas. “Promessa”, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é “ato ou efeito de prometer”, “afirmativa de que se dará ou fará alguma coisa”, “compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação”, palavra que vem do latim “promissa”, que, por sua vez, era o plural de uma forma verbal “promissum”, do verbo “promittere” cujo significado é “’lançar, atirar longe; deixar crescer para diante (barba); oferecer; propor, apresentar; prometer, dar a sua palavra, obrigar-se”.

    No Antigo Testamento, não há uma palavra específica para “promessa”. Como diz o J.W.L. Hoad, em o Novo Dicionário da Bíblia, conforme a tradução de João Bentes, “…onde nossas versões portuguesas dizem que alguém prometeu alguma coisa, o hebraico simplesmente afirma que alguém disse ou proferiu (‘amar – ???, dabhar- ???) alguma palavra com referência ao futuro…” (Promessa. In: DOUGLAS, J.D. O novo dicionário da Bíblia, t.II, p.1330).

    Em o Novo Testamento, a palavra “promessa” é a palavra grega “epangelia” (?????????), cujo significado também tem a ver com “anúncio”, “mensagem”, tanto que a palavra é da mesma raiz que “evangelho”.

    – A promessa é o ato de prometer e prometer, pelo que vimos, é uma afirmação que se faz para frente, tanto que, no latim, o verbo “promittere” significa “lançar, atirar longe, deixar crescer para diante a barba”. Trata-se, portanto, de uma afirmação que diz respeito a um fato futuro, a algo que ainda não ocorreu. Como afirma J.W.L. Hoad, “…promessa é uma palavra que se prolonga por um tempo indeterminado. Estende-se para além daquele que a faz e daquele que a recebe, assinalando um encontro entre os dois no futuro…” (HOAD, J.W.L., op.cit., p.1330).

    A promessa é a afirmação de que se fará ou se dará alguma coisa, é um anúncio, uma palavra que diz respeito ao futuro. A nós, seres humanos limitados no tempo, temos que a promessa exige uma espera, pois a sua afirmação não coincide com o acontecimento. A promessa implica, sempre, numa espera, pois há um lapso temporal entre o seu pronunciamento e o acontecimento que ela prevê. Há um intervalo temporal entre o seu anúncio e a sua realização.

    – Não é por outro motivo que a primeira vez que a palavra “promessa” surge na Versão Almeida Revista e Corrigida seja numa “cobrança” do salmista Asafe, como vemos no Sl.77:8: “Cessou para sempre a sua benignidade? Acabou-se já a promessa que veio de geração em geração?” O salmista, angustiado e espiritualmente enfermo (cfr. Sl.77:10), cansa-se da espera e “cobra” a promessa divina.

    OBS: Segundo David J. Stewart, webmaster do site www.jesus-is-savior.com, há 1.260 promessas em toda a Bíblia Sagrada (God keeps His promises. Disponível em: http://www.jesus-is-savior.com/Basics/gods_promises.htm Acesso em 16 ago. 2007) (tradução nossa do título: Deus vela pelas Suas promessas). Já o pastor e teólogo batista norte-americano Dr. Sam Storms (1951- ) afirma que o número de promessas de Deus na Bíblia é de 7.487, o que corresponde a 85% das promessas registradas no texto sagrado (há, ainda, 991 promessas feitas de uma pessoa para outra, 290 promessas humanas para Deus, 29 promessas feitas por anjos,  9 promessas do diabo, 2 promessas feitas por demônios e 2 promessas feitas por Deus Pai a Deus Filho) (cfr. THE SERMON NOTEBOOK. Acts 27:14-49: four strong anchors for life’s stormy seas. Disponível em: http://www.sermonnotebook.org/new%20testament/Acts%2027_14-29.htm Acesso em 16 ago. 2007) (tradução nossa do título – CADERNO DE SERMÕES. Atos 27:14-49: quatro âncoras fortes para os mares tempestuosos da vida).

    Na Versão Almeida Revista e Corrigida, ainda, o verbo “prometer” aparece, pela vez primeira, em Js.22:4, numa fala de Josué, quando o patriarca se dirigiu às duas tribos e meia que haviam pedido para ficar com terras do lado de cá do Jordão, ocasião em que Josué, ao despedi-los, disse-lhes que o Senhor “…como lhes tinha prometido…”, havia dado repouso às outras dez tribos e meia. No texto original, o verbo utilizado é “dabhar”, que, como já se disse, corresponde a “falar algo que somente se realizará no futuro”. No texto em análise, Josué confirma que o que Deus havia dito antes do início das conquistas, havia se realizado, havia se cumprido.

    Promessa é o compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação. A promessa é, portanto, uma declaração que, embora diga respeito a fatos que irão ocorrer no futuro, gera, no presente, um compromisso, ou seja, um vínculo, uma obrigação. A promessa é um ato de vontade, é uma declaração de um querer que, entretanto, quando dirigido a outras pessoas, uma vez aceito, gera uma obrigação da parte de quem prometeu.

    – Mesmo os homens, tão falhos e perversos, prescrevem em suas leis que a declaração proferida por alguém gera obrigação, a menos que as circunstâncias do caso não permitam concluir que haja este compromisso, não, porém, estando obrigado aquele que prometeu se não houver aceitação por parte da pessoa a quem se prometeu ou se, antes da aceitação, tiver havido retratação por parte de quem prometeu (artigos 427 e 428 do Código Civil Brasileiro).

    – Vemos, portanto, que a promessa, embora seja algo que se fará no futuro, já no presente gera implicações, cria obrigações. Por isso, enquanto servos do Senhor, devemos ter muito cuidado com relação às promessas, pois não podemos ser infiéis nos contratos (Rm.1:31,32), visto que temos de ser imitadores do Senhor, que é fiel (Dt.7:9; Is.49:7). O Senhor espera de nós que sejamos cumpridores estritos de tudo quanto temos falado e prometido, pois nosso falar deve ser sim, sim, não, não (Mt.5:37). Por isso, o servo fiel jamais promete aquilo que não pode cumprir.

    II – AS PROMESSAS DE DEUS

    – Elucidativo que a primeira referência a “promessa” nas Escrituras Sagradas esteja relacionada a Deus. Nenhum outro ser poderia ser o primeiro a fazer promessas a não ser o próprio Criador dos céus e da terra, cuja palavra tudo criou (Gn.1:1; Ap.4:11) e tem sustentado todas as coisas (Hb.1:3).

    – Com efeito, sendo Deus o primeiro a fazer pronunciamentos, o primeiro a fazer declarações, pois antes d’Ele nenhum outro ser havia, não surpreende que a primeira referência a “promessa” seja, precisamente, em relação a Deus.

    – Também diferente não é com respeito ao verbo “prometer”, pois, como vimos, a sua primeira incidência se dá em Josué, quando o patriarca, ao despedir as duas tribos e meia (Ruben, Gade e meia tribo de Manassés), fala do cumprimento de uma promessa da parte de Deus para o Seu povo, qual seja, o repouso deles na Terra Prometida.

    – Se formos adotar o critério cronológico das Escrituras e não o da ordem do cânon, nem assim teremos conclusão diferente. Se o livro de Jó é, como dizem os estudiosos das Escrituras, o mais antigo livro da Bíblia Sagrada, também ali a primeira referência a “prometer” se dá com relação a Deus. Em Jó 17:3, quando o patriarca, angustiado, clama a Deus para que lhe desse um árbitro com o qual poderia contender com Deus, há um pedido da parte daquele homem: “Promete agora, e dá-me um fiador para conTigo; quem há que me dê a mão?” Nesta expressão do patriarca, vemos que a garantia dele estava em uma promessa da parte de Deus. Já sabia que o seu Deus era um Deus de promessas.

    – Advém daí, então, mais uma demonstração de quepromessa é algo peculiar a Deus, algo que Lhe é próprio. Isto porque é de Deus a primeira promessa surgida no mundo. Ao criar o homem, Deus prometeu ao homem que este frutificaria, multiplicar-se-ia e encheria a terra, sujeitando-a e dominando os demais seres criados sobre a face da Terra (Gn.1:28), promessa que teve seu cumprimento já no fato de Adão ter dado nome aos seres (Gn.2:19,20), numa clara indicação de que era ele dominador sobre ele.

    – Deus, também, havia dito ao homem, ao pô-lo no jardim, que, se ele comesse da árvore da ciência do bem e do mal, certamente morreria (Gn.2:16,17), promessa que encontrou seu literal cumprimento quando o homem pecou, não dando crédito às palavras do Senhor. Nesta oportunidade, porém, Deus, mostrando o Seu amor para com o homem, trouxe a grande promessa, qual seja, a de que o homem teria oportunidade de se salvar, mediante a vinda de um Redentor (Gn.3:15).

    – Percebemos, portanto, que, desde os primórdios da existência humana sobre a face da Terra, foi o homem alvo de promessas da parte de Deus, pois sendo Deus um ser que fala, que faz pronunciamentos, é próprio de Sua natureza fazer promessas, até porque, se promessa é a afirmação de um fato futuro, temos que, para Deus, não há futuro, mas, sim, um eterno presente e, portanto, quando faz uma declaração, para nós ela é futura, mas para o Senhor é mera constatação, é uma mera observação da realidade que, para Ele, é sempre presente.

    – Destarte, quando falamos em promessa de Deus estamos a falar sobre Seus pronunciamentos, Suas declarações que, para nós, dizem respeito a fatos futuros, mas que, para Ele, são a plena constatação do que há, do que existe, pois, para Deus, não há o tempo. Por isso, não há como pensarmos em que a promessa de Deus não se realizará, pois ela já é, aos olhos do Senhor, um acontecimento. O intervalo entre a promessa e a sua realização é uma realidade que só existe para nós, seres humanos, não para Deus, pois para o Senhor querer e efetuar são a mesma coisa (Fp.2:13).

    – A Bíblia nos diz que Deus é fiel, ou seja, cumpre todas as Suas promessas, os Seus compromissos. Paulo, mesmo, ao dissertar sobre a fidelidade divina, é bem enfático ao dizer que Ele é fiel porque não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm.2:13). O próprio Senhor, em diálogo com o profeta Jeremias, fez questão de dizer que velava sobre a Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12), numa garantia de que Suas promessas são de cumprimento certo e inevitável.

    – Assim, se na lei dos homens, temos que, para que uma promessa obrigue, vincule alguém, já no presente, para algo que ocorrerá no futuro, com relação às regras estabelecidas por Deus, temos algo muito mais sublime: quem promete é Deus que, por não poder negar-Se a Si mesmo, é fiel e, desta maneira, cumprirá inevitavelmente tudo o que prometeu e isto em função da Sua própria natureza, do Seu próprio ser.

    – Na lei dos homens, como vimos, existem duas possibilidades de a promessa não obrigar: a não aceitação por parte do beneficiário e a retratação do promitente. Na lei divina, esta segunda alternativa é impossível: Deus não é homem para que minta nem filho do homem para que Se arrependa (Nm.23:19), de sorte que não pode Se retratar. Não é por outro motivo, aliás, que o Senhor diz, por intermédio do profeta Isaías, “…a palavra que sair da Minha boca; ela não voltará para Mim vazia; antes, fará o que Me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (Is.45:18).

    – A promessa de Deus é de cumprimento certo e inevitável, porque o seu autor é o Deus fiel, o Deus que não muda (Ml.3:6), o Deus em que não se encontra sombra de variação (Tg.1:17). Por isso, Jesus disse que os céus e a terra passarão, mas as Suas palavras não hão de passar (Mt.24:35; Lc.21:33).

    – Muitas das coisas que vemos na atualidade nos afligem. A maldade cada vez maior, a apostasia e a sequência de escândalos no meio dito evangélico também se avolumam e está cada vez mais difícil servir a Deus neste mundo tão tenebroso. Entretanto, amados irmãos, tudo isto é cumprimento da Palavra de Deus. A Palavra de Deus tem de se cumprir, pois o que Deus disse, acontecerá inevitavelmente. Pensemos nisto e, das agruras e angústias que nos sobrevêm pelo cumprimento do que está escrito, glorifiquemos a Deus, pois, apesar de tudo, isto é uma clarevidente demonstração de que Deus é fiel e que Suas palavras se cumprem inevitavelmente.

    – Se as promessas de Deus se cumprem inevitavelmente, porque o seu autor não pode se retratar, não podemos, porém, deixar de observar que as promessas de Deus que se encontram na Bíblia Sagrada não são dirigidas indistintamente a todas as pessoas e reside aí uma das falácias da “teologia da prosperidade”. Se, de um lado, temos, nas promessas de Deus, o mesmo promitente, que é o Senhor, do outro lado não temos os mesmos beneficiários. A promessa é sempre uma declaração dirigida a alguém e Deus, na Sua excelência, nada faz sem algum propósito.

    – Observemos, aliás, o dito do Senhor através do profeta Isaías. Ali, o Senhor não só garante que a Sua Palavra se cumpre integralmente, como também que toda palavra proferida por Deus tem um propósito, uma finalidade, um objetivo: “antes fará o que Me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (destaques nossos).

    – Deus, ao fazer uma promessa, ou seja, uma declaração de que fará algo, o que, para nós é um fato futuro mas para Ele é tão presente quanto a Sua afirmação, sempre o faz com algum propósito, algum objetivo e não podemos nos esquecer disto. Muitos, na atualidade, têm procurado servir ao “Deus de promessas”, ao “Deus que não é homem para mentir”, mas tentam se apoderar de promessas que não lhes dizem respeito, que não foram pronunciadas para elas, ou, mesmo, promessas que, embora lhes digam respeito, não estão sendo buscadas para os propósitos delineados pelo Senhor.

    Deus, ao fazer promessas, dirige-Se a pessoas certas, bem como estabelece propósitos para que isto ocorra e somente dentro desta perspectiva é que as promessas se cumprirão e de modo inevitável. Muitos, hoje em dia, creem em promessas que não foram, em absoluto, dirigidas a elas, nem tampouco estão de acordo com o propósito de Deus. Tentam tomar aquilo que não é deles e o resultado não poderia ser outro: a decepção, indevida decepção, visto que Deus é fiel e não pode negar-Se a Si mesmo, de sorte que não serão caprichos ou invencionices humanas que mudarão o Seu caráter.

    Tudo que se disse com relação às promessas, é válido também para as bênçãos de Deus, já que as promessas nada mais são que bênçãos que se realizarão no futuro, demonstrações da graça de Deus para com os homens, sempre lembrando que esta ideia de futuro existe somente em relação a nós, seres humanos, visto que Deus é atemporal.

    III – AS DIFERENTES ESPÉCIES DE BÊNÇÃOS E PROMESSAS

    – Ao analisarmos as promessas e as bênçãos de Deus, portanto, devemos verificar que, se de um lado, Deus não pode Se retratar e Suas bênçãos e promessas são sempre sim e por Ele amém (II Co.1:20), de outro, temos de observar para quem se dirigem estas bênçãos e promessas e com que propósito elas foram feitas. Só assim teremos condição de aplicar esta ou aquela bênção ou promessa a nós, pois o compromisso de Deus é com a Sua natureza, com a Sua fidelidade, com a Sua Palavra (Jr.1:12).

    Existem bênçãos e promessas que são “gerais”, ou seja, dirigidas a todos os homens. Deus as proferiu para todo o ser humano e, por isso, se aplicam a toda a humanidade. As bênçãos e promessas feitas a Noé após o dilúvio, por exemplo, são desta espécie (Gn.8:22; 9:1-17). Deus prometeu não cessar, enquanto a terra durar, sementeira e sega, frio e calor, verão e inverno, dia e noite. Eis porque, como disse o Senhor Jesus, Deus, até o dia de hoje, continua a dar o sol e a chuva tanto sobre justos quanto sobre injustos (Mt.5:45), o que, à primeira vista, pareceria um contrassenso, mas que é cumprimento de uma promessa geral, de uma promessa feita a todos os homens, indistintamente.

    Existem bênçãos e promessas que são “nacionais”, ou seja, dirigidas a uma nação em especial. Neste ponto, aliás, é bom que relembremos que, para Deus, a Terra é composta de três povos diferentes: os gentios, os judeus e a Igreja (I Co.10:32 ARA).

    – Os gentios são os homens que pertencem a todas as nações do mundo, nações estas que se originaram da comunidade única dissolvida com o juízo de Babel (Gn.11:1-9), com exceção de Israel, que foi formado por Deus a partir da chamada de Abraão. Os gentios rebelaram-se contra Deus e se mantêm rebelados contra o Senhor. Estão destinados a sofrerem o juízo da Grande Tribulação e a serem governados pelo Anticristo e, por fim, serem encaminhados à eterna perdição por se recusarem a servir a Deus.

    – Os israelitas (chamados de judeus o texto mencionado, porque são os que se mantiveram separados das demais nações, pois as dez tribos, que compunham o reino do norte, chamado Israel, se misturaram com outros povos – II Rs.17:6,18) são os homens que pertencem à nação de Israel, descendência de Abraão, Isaque e Jacó. Foi a nação escolhida por Deus para ser aquela que demonstraria a soberania de Deus e o Seu grande amor para todas as demais nações da Terra. Foi a nação escolhida para ser o instrumento da salvação da humanidade, tanto que o Messias veio a este mundo por meio dela. Deus tem um pacto com Israel (Ex.19:3-20:26). Israel está a destinado a ser salvo (Rm.11:26,27), a ter sua transgressão extinta e ser dado um fim aos seus pecados (Dn.9:24), conforme a profecia das setenta semanas de Daniel. Israel rejeitou a Jesus e, por causa disso, foi espalhado entre as nações, mas, desde 1948, ressurgiu como nação, mas ainda está reservado a ele o sofrimento durante a Grande Tribulação e a perseguição que lhe será empreendida pelo Anticristo, que chegará a apoiar, para só então reconhecer a Cristo como Messias e ser completamente restaurado e por Ele governado no Seu reino milenial.

    – A Igreja são os homens que pertencem à Igreja, a “nação santa” (I Pe.2:9), formada por gente de toda tribo, língua, povo e nação (Ap.5:9), que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro (Ap.22:14), ou seja, aceitaram a Cristo como seu Senhor e Salvador e perseveraram até a morte ou o arrebatamento da Igreja. A Igreja, formada a partir da morte de Cristo no Calvário, tem por missão a pregação do Evangelho nesta dispensação, estando destinada ao arrebatamento, que ocorrerá antes do início da Grande Tribulação, da ira futura que Deus tem reservado para gentios e israelitas.

    – Como se pode perceber, portanto, tendo criado três povos distintos, Deus reservou a eles destinos também distintos, de modo que o propósito existente para cada um destes povos não pode ser o mesmo, até porque Deus é justo. Assim, bênçãos e promessas há que dizem respeito especificamente a uma destas nações, não podendo, pois, ser aplicadas a outros.

    – Assim, quando Deus prometeu a Israel que ele seria Seu reino sacerdotal e propriedade peculiar dentre os povos (Ex.19:5,6), estamos diante de uma promessa “nacional”, de uma promessa relacionada com os israelitas e tão somente com eles. É por este motivo que Deus tem sempre tido um cuidado especial para a preservação da nação israelita e para a retomada da Palestina para ela. Nunca na história da humanidade se soube de uma nação que tivesse sido preservada ao longo dos séculos como foi Israel e, mais, que tenha retornado a ocupar um pedaço de terra de que tinham sido expulsos há quase dois mil anos antes. Entretanto, o Estado de Israel é, hoje em dia, uma realidade, única e exclusivamente porque isto faz parte da promessa que Deus fez a Israel.

    OBS: O renascimento de Israel como nação estabelecida na Palestina é um dos fatos mais impressionantes da história e uma demonstração cabal da fidelidade divina em Suas promessas. O espanto foi tanto que, inclusive, não deixou de ficar registrado quase 2.700 anos de sua ocorrência, pelo profeta Isaías: “Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes? Poder-se-ia fazer nascer uma terra em um só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos.”(Is.66:8). Podemos, então, duvidar do cumprimento das promessas de Deus feitas a nós?

    – Mas, também, há bênçãos e promessas que dizem respeito somente à Igreja. O Senhor prometeu à Igreja, assim que revelou sua existência, a promessa de que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (Mt.16:18). À Igreja, também, prometeu o derramamento do Espírito Santo (Lc.24:49), como, ainda, o arrebatamento antes da hora da tentação que há de vir sobre o mundo (Ap.3:10). Tais bênçãos e promessas não são aplicáveis aos israelitas nem aos gentios, como também à Igreja não se aplicam as promessas relacionadas com a posse da Palestina, por exemplo.

    – Mas também temos as “promessas a nações específicas”, ou seja, promessas que Deus fez a determinadas nações, já não mais consideradas as três nações sob o ponto-de-vista divino, mas, sim, as nações consoante a divisão ocorrida após o episódio de Babel. Em virtude de um comportamento por parte de um determinado povo, o Senhor fez promessas dirigidas a determinadas sociedades nacionais.

    – Foi, por exemplo, o que ocorreu com relação a Amaleque. Por ter ido pelejar contra Israel em Refidim (Ex.17:8), Deus prometeu destruí-la por completo (Ex.17:14), o que se cumpriu literalmente, pois não há mais memória alguma de Amaleque sobre a face da Terra. Mas, também, vemos a promessa de Deus com relação ao Egito, que se converterá ao Senhor e passará a ser considerado por Ele como Seu povo (Is.19:18-25). Esta promessa, ainda não cumprida, não pode ser estendida a ninguém mais senão aos que descendem dos egípcios da época de Isaías, desta nação, porque a ela é dirigida e tão somente a ela.

    Mas há, ainda, as bênçãos e promessas “grupais”, ou seja, dirigidas a grupos que não chegam a constituir uma nação, mas que são agrupamentos de pessoas que estão ligados ou por laços de parentesco (tribos, clãs) ou, ainda, por vínculos de outra natureza (profissionais, gênero etc.). É o que se observa, por exemplo, na promessa feita aos recabitas (Jr.35:18,19), uma tribo que descendia de Recabe, que, por sua vez, era da descendência de Jetro, o sogro de Moisés, que vieram a habitar junto com os israelitas (Nm.10:29; Jz.4:11).

    – Por fim, temos as chamadas bênçãos e promessas “individuais”, bênçãos e promessas feitas por Deus a indivíduos, única e exclusivamente a eles, e que, logicamente, não podem ser aplicadas a ninguém mais. Muitas são as bênçãos e promessas deste tipo na Bíblia. É o caso da promessa feita a Abrão, de que ele se faria uma grande nação (Gn.12:2), como também a promessa feita a Moisés de que ele faria sinais e prodígios no Egito para a libertação do povo (Ex.4:1-17) ou, ainda, a promessa feita a Davi de que Sua descendência reinaria para sempre sobre Israel (II Sm.7:16), como a promessa a Ebede-Meleque de que teria sua vida poupada quando da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor (Jr.39:16).

    – Estas bênçãos e promessas “individuais” não podem, em absoluto, ser apropriadas por outras pessoas. Eram promessas específicas, que demonstram o poder, a benignidade e a fidelidade de Deus e que para o nosso ensino foram registradas, para aprendamos qual é o caráter do Senhor (Rm.15:4). Entretanto, não podemos transportar estes episódios para as nossas vidas, pois não são bênçãos e promessas “gerais”, nem tampouco bênçãos e promessas feitas para a Igreja.

    – Hoje, lamentavelmente, a falta de conhecimento da Palavra de Deus por muitos crentes tem ocasionado a destruição de muitas vidas espirituais. Por não conhecerem a Bíblia, ouvem estes falsos pregadores que transportam muitas promessas individuais para a vida de cada um de seus ouvintes. Fazem aquilo que, muito sabiamente, o consultor doutrinário da CPAD, o pastor Antonio Gilberto, denominou de “…transformação indevida de fatos e eventos bíblicos em doutrina…” (A Palavra de Deus é o padrão do genuíno avivamento. Mensageiro da paz, ano 77, n. 1466, jul. 2007, p.21). O resultado tem sido a decepção, porque o que ocorreu na vida daquelas personagens bíblicas, não ocorreu na vida destes incautos que, sentindo-se ludibriados, afastam-se do Evangelho. Entretanto, quando vemos a realidade bíblica, vemos que tais ocorrências não iriam jamais acontecer, pois Deus vela pela Sua Palavra para a cumprir e, de modo algum, alteraria a Sua fidelidade, extrapolando promessas individuais para terceiros.

    – Torna-se indispensável que saibamos as bênçãos e promessas de Deus. Elas existem para a fortificação da nossa fé, o combustível pelo qual poderemos chegar até o final da nossa jornada rumo ao céu. Entretanto, precisamos conhecer corretamente as bênçãos e promessas de Deus, tal qual se encontram na Bíblia Sagrada, a inerrante Palavra de Deus, pois o compromisso do Senhor é com a Sua Palavra e nada mais.

    – Mas há, ainda, um outro aspecto relevante a verificarmos nas bênçãos e promessas de Deus. Trata-se da circunstância de que não apenas se deve levar em conta a quem o Senhor dirigiu a promessa, mas, ainda, quais as condições estabelecidas para o cumprimento. Como vimos, na lei dos homens, a promessa somente obriga quando há aceitação do beneficiário, ou seja, promessas há que dependem da aceitação daquele que se beneficia desta promessa. Por isso, temos dois tipos de bênçãos e promessas de Deus: as condicionais e as incondicionais.

    – A bênção ou promessa de Deus é incondicional quando o Senhor faz uma declaração cujo cumprimento independe da vontade humana. Tais bênçãos e promessas derivam de um ato de vontade do Senhor que o próprio Deus quis manter acima da própria vontade humana, porquanto os pensamentos de Deus são mais altos que os pensamentos do homem (Is.55:8,9).

    – Assim, retornando à promessa de Deus feita a Noé de que não faltaria chuva, semeadura, sega, sol enquanto a terra durasse, estamos diante de uma promessa incondicional, pois o Seu cumprimento não foi deixado pelo Senhor à vontade dos homens. Fossem justos ou injustos, obedientes ou rebeldes, o Senhor, por um ato de Sua soberana vontade, resolveu não deixar de dar chuva, sol, semeadura, sega, verão e inverno aos homens enquanto durar esta terra.

    – Promessas há, entretanto, em que o Senhor quis que o cumprimento se desse em virtude da vontade humana. Assim, embora não dependa do homem, quis, por Sua soberana vontade, que a promessa dependesse do homem para que se realizasse. Assim, por exemplo, a promessa da salvação, que depende de o homem aceitar a Cristo Jesus como seu único e suficiente Salvador. “Quem crer e for batizado, será salvo; quem não crer, será condenado” (Mc.16:16). A salvação é uma bênção ou promessa de Deus, geral, porque dirigida a todos os homens, mas depende da vontade humana para se tornar algo real na vida de cada um dos seres humanos. É uma promessa que depende da aceitação do homem, uma promessa condicional.

    – Destarte, na análise das promessas de Deus nas Escrituras, além de termos de observar a quem se dirige esta promessa, fundamental também que consideremos se a promessa é condicional ou incondicional.

    – Uma boa demonstração destas várias espécies de promessas de Deus vemos no capítulo 55 do livro do profeta Isaías. Já no versículo 3, vemos uma promessa condicional do Senhor, onde se promete a vida da alma desde que ela ouça o Senhor. O concerto perpétuo prometido por Deus ao Seu povo, em que se darão as firmes beneficências de Davi, depende de o povo ouvir o Senhor. Tem-se, portanto, uma promessa condicional.

    – Em seguida, em Is.55:4, vemos uma promessa incondicional. Deus diz que deu a Davi como testemunha aos povos, como príncipe e governador dos povos. Esta promessa independe de os povos aceitarem, ou não, a Deus. O fato é que o Senhor, da descendência de Davi, levantará um que governará a todo o mundo, promessa que se cumprirá quando o Senhor Jesus instaurar o Seu reino milenial.

    – Em Is.55:5, temos outra promessa incondicional da parte do Senhor, onde Deus afirma que se chamará uma nação que Israel não conhecia, uma nação que correrá para Israel por amor do Senhor e Santo de Israel, por causa da glorificação de Israel pelo Senhor. Quisesse Israel, ou não, esta nação surgiria e, como sabemos, já apareceu, que é a Igreja, este novo povo santo do Senhor, que se levantou por causa de todas as promessas que Deus cumpriu para com Israel, máxime a de ter enviado o Messias, que por Israel foi rejeitado.

    – Em Is.55:6,7, temos uma outra promessa condicional. O Senhor convida o povo ao arrependimento, a buscá-l’O, a invocá-l’O, pois haveria compaixão de Deus para aquele que deixasse o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos. O perdão de Deus dependeria, portanto, do arrependimento do pecador. Trata-se de uma promessa condicional. O homem maligno que não deixasse os seus pensamentos nem o ímpio que deixasse o seu caminho não receberiam a compaixão e o perdão do Senhor.

    – Ao analisarmos estas promessas, não sob o aspecto da condicionalidade, mas pelo prisma dos seus beneficiários, perceberemos que se tratam de promessas dirigidas a Israel, de “promessas nacionais”, mas que, notadamente no que se refere a seu propósito, extrapolam a dimensão nacional, na medida em que há a promessa de surgimento de um novo povo, que serviria a Deus por causa da fidelidade divina a Israel. Por causa disto, notadamente a promessa constante de Is.55:6,7 não se restringe apenas aos israelitas, mas a todos os homens, é uma “promessa geral”, porquanto diz respeito ao próprio caráter divino de imparcialidade no perdão e compaixão. Tem-se, pois, validamente, um texto que se pode aplicar aos gentios e à própria Igreja.

    – Por fim, como as promessas mencionadas em Is.55 dizem respeito ao perdão do homem pelos seus pecados, não devemos nos esquecer de que Deus é “grandioso em perdoar”, tudo fez para perdoar os pecados do homem, é Seu propósito trazer a salvação, salvação esta que, em Is.55, fica bem claro que se dá por intermédio da “benevolência que o Eterno concedeu a David” (Is.55:5 “in fine” na Bíblia Hebraica), ou seja, por meio de Jesus Cristo, o Filho de Davi. Desta maneira, a alegria e a paz mencionados em Is.55:12,13 estão relacionadas com a salvação, não com qualquer enriquecimento de ordem material ou com acontecimentos felizes no cotidiano da vida debaixo do sol.

    – Como em todo o estudo da Bíblia, as bênçãos e promessas devem ser analisadas de acordo com o contexto interno e externo, em harmonia com demais textos bíblicos e devem ser confirmadas em duas ou três passagens. Jamais nos deixemos levar por promessas criadas em textos isolados das Escrituras e que não têm qualquer fundamento nem sequer no texto de onde são extraídas.

    – Por isso, devemos ter muito cuidado com as chamadas “caixinhas de promessas”, textos bíblicos selecionados e que são retirados aleatoriamente pelos crentes, quando desejosos de “ter uma palavra” da parte de Deus, agindo como aqueles que buscam mensagens de ânimo e de bem-estar seja nos velhos realejos, seja nos “pensamentos” em “biscoitos da sorte”, tão comuns hoje em atividades que procuram reproduzir o misticismo oriental. As promessas de Deus fazem parte da Bíblia Sagrada e devem ser analisadas e cridas enquanto tal, o que nos impede de recorrer a tais subterfúgios, que, embora sirvam de um bom estímulo psicológico, nenhum valor espiritual têm.

    – Por fim, devemos lembrar que nosso Deus continua a falar e, portanto, continua a fazer promessas ao Seu povo. Cada um de nós pode ser alvo de uma promessa de Deus. Tal promessa, em sendo individual, somente terá cumprimento para nós, faz parte de nossa intimidade para com Deus. Se foi efetivamente Deus quem o prometeu, ela se cumprirá, podendo, ademais, ser condicional ou incondicional, tudo dependendo da vontade do Senhor. Ao recebermos promessa da parte de Deus, se vier ela por intermédio de sonho, visão, profecia, deve tal promessa ser submetida ao crivo da Palavra de Deus, pois tudo deve ser submetido à Bíblia Sagrada. Se tal promessa estiver de acordo com as Escrituras, devemos, então, se se tratar de promessa condicional, fazer a nossa parte para demonstrar aceitação do prometido pelo Senhor e, no mais, aguardar, porque nosso Deus é fiel e o que prometeu, Ele certamente cumprirá.

    – As promessas de Deus são importantíssimas para fortalecer a nossa fé, mas devem ser cridas conforme a revelação que Deus nos deu, sem quaisquer subterfúgios, diminuições ou acréscimos. Deu é a verdade (Dt.32:4; Jr.10:10), a Sua Palavra é a verdade (Jo.17:17) e somente pela verdade alcançaremos a glória eterna. As promessas de Deus não falham, estão aí para que creiamos nelas e as vivenciemos, mas tudo de acordo com a Palavra do Senhor.

    IV – AS BÊNÇÃOS DE ABRAÃO, ISRAEL E DA IGREJA

    – Já vimos que, para Deus, há três povos na face da Terra: os gentios, os judeus e a Igreja. Vimos, também, que os gentios rejeitaram a Deus e, por isso, o Senhor quis formar um povo Seu para ser Sua “propriedade peculiar dentre os povos”, a saber, Israel, cuja formação se iniciou com Abrão, depois tornado em Abraão.

    – Por ser o pai desta nação escolhida para ser a testemunha divina dentre os povos, Abraão é chamado de “patriarca” e os filhos de Israel gostavam de se denominar como “filhos de Abraão” (Mt.3:9; Jo.8:33). Esta filiação, ainda que em termos espirituais, é reafirmada pelo apóstolo Paulo em relação à Igreja (Gl.3:29).

    – Por causa desta vinculação entre Abraão e Israel e entre Abraão e a Igreja, os “teólogos da prosperidade”, de forma sutil, buscam trazer as bênçãos e promessas que Deus deu a Abraão para a Igreja, indistintamente, afirmando que como a Igreja é “filha de Abraão”, tudo quanto o Senhor deu e prometeu a Abraão se aplica aos que são salvos em Cristo Jesus.

    – Temos aqui, aliás, por parte dos “teólogos da prosperidade”, o mesmo erro que havia entre os judeus e que foi severamente denunciado tanto por João Batista quanto por Jesus, que mostraram aos judeus que o fato de eles serem descendentes biológicos do patriarca não os fazia “filhos de Abraão”. João chamou este pensamento de “presunção”, dizendo que Deus poderia das pedras “suscitar filhos a Abraão”, mandando que eles, primeiramente, produzissem frutos dignos de arrependimento (Mt.4:8,9).

    – Já o Senhor Jesus, também respondendo à presunção dos judeus em se considerarem “filhos de Abraão”, mostrou-lhes que somente pode ser “filho de Abraão”, quem praticar as obras de Abraão (Jo.8:39), apesar de reconhecer a descendência biológica, que nada significava em termos espirituais (Jo.8:37).

    – Notamos, pois, de pronto, que a “filiação de Abraão” que tanto se busca demonstrar no discurso da “teologia da prosperidade” é uma “filiação espiritual”, um relacionamento que a pessoa tem com Deus do mesmo modo que teve Abraão, relacionamento este firmado na fé e na prática de obras que demonstrem a fidelidade a Deus e à Sua Palavra.

    – O apóstolo Paulo, ao apontar esta “filiação abraâmica” para a Igreja, fez questão de ressaltar que se tratava de uma filiação decorrente do fato de “sermos de Cristo” (Gl.3:29), ou seja, “sermos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, por estarmos batizados em Cristo e já revestidos de Cristo” (Gl.3:26,27).

    – Deste modo, o que se aplica de Abraão à Igreja é algo estritamente espiritual. Somos “filhos de Abraão”, porque “somos de Cristo” e “Cristo é a posteridade de Abraão” (Gl.3:16). Portanto, o que temos recebemos como crentes é “a promessa pela fé em Jesus Cristo” (Gl.3:22), ou seja, a mesma justificação pela fé que recebeu Abraão (Rm.4).

    – Destarte, não se pode dizer que como Abraão era rico, também os crentes serão ricos por serem “filhos de Abraão”, até porque, quando Abraão foi chamado, já era rico, pois saiu de Ur com “toda a sua fazenda” (Gn.12:5), prova de que as bênçãos materiais não faziam parte da promessa dada quando de sua chamada (Gn.12:2), o que ainda mais se confirma quando saiu do Egito muito rico, apesar de sua estada ali ter sido contra a vontade de Deus (Gn.13:1,2).

    – As bênçãos recebidas por Abraão e que também, por Cristo, se destinam à Igreja, pois, são as bênçãos espirituais, a saber, a justificação pela fé (Gn.15:6), a capacitação para a realização de boas obras, visto que Deus prometeu que Abraão seria “uma bênção” (Gn.12:2), o que se cumpriu, quando ele foi o instrumento de libertação dos sodomitas e de Ló (Gn.14:14-16); o bom testemunho diante dos gentios (Gn.23:6); o discernimento espiritual, inclusive para saber quando as riquezas provêm, ou não, de Deus (Gn.14:22-24); o gozo por causa da salvação da humanidade em Cristo Jesus (Jo.8:56).

    Não se aplicam à Igreja, as bênçãos de Abraão relacionadas com a posse da terra de Canaã, visto que isto se referia à nação escolhida e formada a partir do patriarca (Gn.12:2,7; 13:14-17; 15:18-21).

    – De igual forma, as bênçãos e promessas destinadas a Israel não podem ser aplicadas automaticamente à Igreja. Os “teólogos da prosperidade” gostam muito de citar os quatorze primeiros versículos do capítulo 28 do livro de Deuteronômio para os crentes, “esquecidos”, entretanto, que são bênçãos relacionadas com o papel de Israel como “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”.

    – Como já vimos em outra lição, as bênçãos mencionadas no referido capítulo dizem respeito à “exaltação de Israel pelo Senhor sobre todas as nações da terra” (Dt.28:1 “in fine”). Trata-se, pois, de bênçãos “nacionais”, que não podem ser transferidas para a Igreja, como, lamentavelmente, vemos sendo pregado pelos “teólogos da prosperidade”.

    – A “benção dos celeiros”, por exemplo, tão propalada pelos “teólogos da prosperidade”, tem como local de sua incidência, como vemos claramente em Dt.28:8, “a terra que te der o Senhor teu Deus”, ou seja, trata-se, nitidamente, de uma bênção “nacional”, vinculada à posse da terra de Canaã.

    – Se quisermos, pois, fazer uma “aplicação” à Igreja, teremos de, em relação à “bênção dos celeiros”, por exemplo, interpretarmos do ponto-de-vista espiritual, ou seja, de que o Senhor nos promete “celeiros espirituais”, já que a nossa terra de Canaã não é literal, mas, sim, “a Canaã espiritual”, a “Nova Jerusalém” (Ap.21:2), “ a nossa cidade que está nos céus” (Fp.3:20), aplicação mais do que adequada, já que o apóstolo Paulo diz que devemos ser “despenseiros dos mistérios de Deus” (I Co.4:1).

    – É evidente que as bênçãos espirituais prometidas a Israel são aplicáveis à Igreja, visto que ambos são “povos santos e sacerdotais” (Ex.19:5,6; I Pe.2:9,10), mas, como sabemos, não é a estas bênçãos que se referem os “teólogos da prosperidade”.

    – Notemos, ainda, que, na quase totalidade das vezes, os “teólogos da prosperidade” sempre se referem a passagens do Antigo Testamento, procurando dali extrair elementos para a sua apologia da ganância e do materialismo. Não podemos, porém, nos iludir, devendo sempre lembrar que devemos verificar estas “bênçãos” e “promessas” dentro do contexto em que foram feitas nas Escrituras, pois “nenhuma Escritura é de particular interpretação” (II Pe.1:20) e que nenhuma doutrina bíblica se firma em um texto isolado, pois a verdade é sempre confirmada “por duas ou três testemunhas” (Dt.17:6; 19:15; Mt.18:16; II Co.13:1).

    – Não podemos, também, nos esquecer que, em se tratando de bênçãos referentes a Israel, na antiga aliança, no tempo da lei, devemos sempre estar atentos para o fato de que a lei era a “sombra dos bens futuros” (Cl.2:16,17; Hb.10:1) e que, portanto, muito do que é material na antiga aliança era sinal e símbolo de uma realidade espiritual, o que também se aplica às bênçãos e promessas materiais, que devem ser entendidas, em sua relação com a Igreja, do ponto-de-vista espiritual.

    – Não estamos, obviamente, a eliminar toda e qualquer bênção material para a Igreja, pois a bênção espiritual tem seus reflexos materiais, mas, como já também estudamos em outra lição, a bênção material está vinculada à suficiência e à beneficência, ou seja, nada tem que ver com a abundância egocêntrica defendida pelos “teólogos da prosperidade”, mas como uma forma de criação de condições para a realização da obra de Deus e para a demonstração do amor ao próximo.

    – Estejamos, pois, sempre vigilantes para que as falsas interpretações dos “teólogos da prosperidade” venham a nos iludir e a esperar bênçãos e promessas que Deus jamais fez à Sua Igreja.

    Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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  • Lição 4: A Prosperidade em o Novo Testamento

    Em o Novo Testamento, a prosperidade é apresentada com ainda maior intensidade espiritual que no Antigo Testamento e uma forma de se revelar o amor ao próximo.

    INTRODUÇÃO

    – Prosseguindo o estudo da prosperidade bíblica, veremos como o tema é tratado em o Novo Testamento.

    – Se no Antigo Testamento, a prosperidade já era apresentada como um estado primordialmente espiritual, este caráter é intensificado em o Novo Testamento, como também como uma forma de se demonstrar o amor ao próximo como prova de que se tem o amor de Deus.

    I – A PROSPERIDADE NAS PREGAÇÕES DE JOÃO BATISTA E DE JESUS

    – Conforme já vimos na introdução deste trimestre, a palavra “prosperidade” aparece algumas vezes em o Novo Testamento. Em At.19:25, palavra utilizada por Demétrio, ourives da prata que fazia imagens de Diana em Éfeso, é “euporia” (???????), cujo significado é de “riquezas, recursos”.

    – Já em I Co.16:2, a palavra grega é “euodóo” (??????), um verbo cujo significado é “ter recebido sucesso”, “ter sido bem sucedido”, tanto que a Versão do Rei Tiago traduz a passagem como “que Deus tem prosperado”.

    – Pelo que podemos, pois, perceber, o significado de “prosperidade”, em o Novo Testamento, traz, praticamente, as mesmas ideias dos termos utilizados no Antigo Testamento, ou seja, de um estado de sucesso, de bom êxito, de abundância e de fartura, inclusive em termos materiais, ainda que a utilização do vocábulo com um sentido material tenha sido feita por um idólatra como era Demétrio.

    – O que vemos, pois, é que, já na análise do significado dos termos utilizados em o Novo Testamento, não temos uma discrepância com relação ao já estudado no Antigo Testamento, a nos mostrar, portanto, que a passagem do Antigo para o Novo Testamento não altera o sentido que a Bíblia dá à prosperidade que, como já se estudou, tem um significado sobretudo espiritual nas Escrituras hebraicas.

    – Este sentido espiritual é, na verdade, intensificado em o Novo Testamento. Disto temos notícia logo no limiar da narrativa dos Evangelhos, quando é apresentada a figura de João Batista, o precursor de Cristo, o último profeta da lei que é um elemento de transição entre a lei e a graça (cf. Jo.1:17;  Mt.11:13; Lc.16:16).

    – Em sua pregação, João Batista demonstrou aos judeus que a simples ascendência biológica de Abraão não os livrava da ira futura (Mt.3:9), desfazendo, assim, uma crença arraigada nos corações de Israel de que sua escolha era puramente étnica, hereditária.

    – Ao pregar que o fato de serem filhos biológicos de Abraão não garantia a salvação para os judeus, João intensificava o caráter espiritual do relacionamento com Deus, desfazendo, assim, a crença de que Deus estaria pronto a abençoar Israel tão somente pela condição étnica, sem que fosse necessária qualquer alteração sobrenatural.

    – Na sua pregação, pois, João Batista desvinculava os aspectos materiais dos aspectos espirituais, passando a batizar judeus, ensinando que eles também, apesar de serem “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, deveriam se arrepender e confessar os seus pecados (Mt.3:2,8).

    – Esta desvinculação entre aspectos materiais e espirituais bem se verifica nas afirmações de João aos diferentes segmentos da sociedade. Para a multidão, João mandou que houvesse a repartição dos bens e alimentos com os necessitados (Lc.3:11), a indicar, portanto, que os bens materiais tinham de ser um instrumento de demonstração de amor, a indicar que devíamos ter tão somente o absolutamente suficiente para uma vida digna.

    – Aos publicanos, notórios por sua cupidez e ganância, que os levavam a se enriquecer à custa da exploração desmedida e da corrupção, João Batista mandou que não pedissem ao povo mais do que lhes era devido, em síntese, que não usassem de sua função para o enriquecimento próprio, em mais uma atitude de desapego aos bens materiais como prova de sua retidão diante de Deus (Lc.3:12,13).

    – Por fim, aos soldados, que também eram conhecidos por sua avidez por riquezas, João mandou que tivessem um comportamento não-violento com a população, mas que se contentassem com o seu soldo, mais uma vez recriminando a ganância e a busca por enriquecimento (Lc.3:14).

    – Diante destas afirmativas de João, vemos que a preparação do caminho do Senhor implicava o desarraigar de crenças que vinculavam a posse de bens materiais aos favores divinos, que relacionavam o bem-estar material com o bem-estar espiritual.

    – Quando Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo inicia o Seu ministério, a mensagem não é diversa. Jesus começa pregando a respeito do arrependimento dos pecados (Mc.1:14,15) e, na chamada dos primeiros discípulos, mostra, claramente, que aqueles homens deviam deixar as suas profissões de pescadores para serem “pescadores de homens” (Mc.1:16,17).

    – No sermão do monte, o grande sermão doutrinário de Cristo, ao falar das bem-aventuranças, ou seja, do significado da felicidade, o Senhor deixa bem clara a dissociação entre esta felicidade superior e a posse de bens materiais, posse esta que nem sequer é mencionada entre as bem-aventuranças (Mt.5:3-12), como haveremos de estudar em lição própria deste trimestre (a lição 6).

    – Na sequência do sermão, o Senhor Jesus é ainda mais explícito com respeito a esta desvinculação, ao afirmar que não devemos ajuntar tesouros na terra, mas, sim, no céu, porque onde ajuntamos tesouros, ali estará o nosso coração (Mt.6:19-21), estabelecendo, mesmo, uma dicotomia entre os que servem a Deus e os que servem às riquezas, não podendo haver servo de Deus que também sirva a Mamom (Mt.6:24).

    – Neste ponto, aliás, o Senhor Jesus mostra que o Seu verdadeiro e genuíno discípulo não pode ficar correndo atrás da comida, bebida e vestido, mas deve, sim, buscar o reino de Deus e a sua justiça, que tudo lhe será acrescentado (Mt.6:25-33).

    – Temos aqui a nítida retomada do que já havíamos visto anteriormente com relação ao que Deus instituiu para o homem. O importante é que tenhamos acesso à árvore da vida, ou seja, que tenhamos comunhão com o Senhor, que busquemos o perdão dos nossos pecados na pessoa de Cristo e, deste modo, passemos a pertencer ao reino de Deus e a sua justiça. Uma vez restabelecida esta comunhão com Deus, todas as coisas nos serão acrescentadas, não havendo porque nos inquietarmos com as questões materiais.

    – O Senhor ensina-nos que, do mesmo modo que Ele cuida da sobrevivência de todos os seres vivos existentes sobre a face da Terra, também haverá de cuidar de nós, mais uma vez nos dando a lição de que as bênçãos materiais prometidas estão relacionadas com a manutenção, com a concessão do necessário para a sobrevivência, não com uma vida regalada e de luxo. O Pai celestial sabe da nossa necessidade de tais bens para nosso sustento e é a isto que está ele atento (Mt.6:32).

    – Ainda neste ensino a respeito da promessa da suficiência, o Senhor Jesus faz questão de ressaltar o caráter secundário da posse de bens materiais, ao dizer que a vida é mais que o mantimento e o corpo, mais que o vestido (Mt.6:25).

    – O objetivo primordial do Evangelho é a vida, ou seja, a concessão da comunhão com Deus. A verdadeira prosperidade encontra-se na “vida eterna”, trazida pelo próprio Jesus ao mundo, visto ser Ele a vida (Jo.1:4; 14:6). Esta é a razão de ser da vinda de Jesus ao mundo (Jo.3:16; 10:10; 20:31).

    – Mais importante, pois, que a própria bênção da abastança, que a promessa da manutenção de uma vida digna durante a nossa passagem terrena é o de termos comunhão com o Senhor, de podermos desfrutar de vida espiritual, de termos sido perdoados por Deus através de Cristo Jesus e de termos garantida a nossa morada no céu.

    – Mais importante que o vestido, diz-nos o Senhor, é o corpo. Muito melhor do que termos uma determinada posição na sociedade, de termos “vestido”, ou seja, sermos notados entre os que conosco convivem, é termos um corpo que é templo do Espírito Santo (I Co.6:19), é sermos instrumento de justiça de Deus, instrumento de santificação por intermédio do nosso corpo (Rm.6:13,19).

    – Este ensino do sermão do monte é repisado pelo Senhor Jesus na parábola do rico insensato. Jesus foi procurado por alguém que, do meio da multidão, pediu que o Senhor interviesse em uma briga de herança, pedindo esta pessoa que Jesus instasse o seu irmão a repartir com ele a herança.

    – Jesus, numa clara demonstração de que não viera a este mundo para promover o enriquecimento de pessoas, disse a esta pessoa que não havia sido constituído como juiz ou repartidor entre aqueles irmãos e, dirigindo-se à multidão, advertiu-a para que se acautelassem e se guardassem da avareza, porque a vida de qualquer não consista na abundância do que possuísse (Lc.12:13-15).

    – Esta passagem é extremamente elucidativa, pois o Senhor Jesus desvincula a prosperidade da posse de bens materiais. Ser próspero não é possuir muitos bens, a abundância prometida por Deus ao homem não é uma medição monetária, não é algo que se vá obter por meio de cálculos matemáticos.

    – Para ilustrar esta sua afirmação, Jesus, então, conta a parábola do rico insensato (Lc.12:16-21), onde fala de um homem rico que tinha produzido em abundância. Ora, segundo os conceitos vigentes entre os judeus, naquele tempo, o fato de o homem ser rico e ainda ter produzido em abundância era uma demonstração de que se tratava de alguém que era abençoado por Deus, alguém que tinha, certamente, a salvação garantida.

    – Este conceito surgido entre os judeus advinha de uma equivocada interpretação a respeito da prosperidade prometida a Israel, muito similar ao que se defende na teologia da prosperidade. Como o Senhor prometia bênçãos materiais em decorrência da obediência de Israel, tinha-se a ideia de que o fato de alguém ter prosperidade material era um indicador de que tal pessoa era obediente a Deus e, portanto, uma pessoa piedosa.

    – No entanto, o Senhor Jesus, ao nos contar esta parábola, ensina-nos que a “vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”. Aquele homem era rico e havia se enriquecido ainda mais, mas, nem por isso, era uma pessoa piedosa, pois Deus o chama de “louco”, uma vez que não havia pensado em sua vida espiritual, tanto que, ao ser pedida a sua alma na noite que se seguiu à solução que o homem encontrou para armazenar tudo quanto havia produzido e que era suficiente para ter uma vida regalada até o fim de sua vida, não tinha se preparado para a eternidade.

    – Jesus, então, ensina a multidão que se deve “ser rico para com Deus” e não ajuntar tesouros para si. Assim, repete o mesmo ensino de João Batista, qual seja, o de que a abundância que é dada por Deus ao homem não é para seu próprio deleite, mas, sim, para que isto seja repartido, compartilhado com aqueles que necessitam. O “rico insensato”, apesar de já ser rico e de ter produzido em abundância, fez um cálculo egoísta, pensou apenas em si, tanto que viu que a produção era mais do que suficiente para que tivesse uma vida regalada até o término da sua existência, não tendo, em momento algum, pensado no outro, pensado no próximo.

    – O Senhor também aproveitou uma ocasião para demonstrar a desvinculação que deve existir entre a prosperidade verdadeira e a posse de bens materiais. Foi no Seu encontro com o “mancebo de qualidade” (Mt.19:16-30; Mc.10:17-31 e Lc.18:18-30), alguém que, segundo os padrões então vigentes entre os judeus, era alguém que se apresentava como “salvo”, já que, além de religioso, era possuidor de muitos bens.

    – Aqui também o Senhor Jesus nos mostra que a posse de bens materiais nada tem que ver com demonstração de salvação ou de comunhão com Deus, pois, além de aquele jovem estar à procura da vida eterna, prova de que não a possuía, ainda rejeitou o convite de Jesus, sendo uma das poucas pessoas que, depois de ter ido à procura do Senhor, deixou Jesus triste e sem salvação.

    – Nesta oportunidade, o Senhor foi bem claro ao afirmar que os que se apegam às riquezas, os que confiam nas riquezas, os que vivem em função das riquezas muito dificilmente alcançarão a salvação.

    – O Senhor mostrou que ser rico não é pecado, mas que confiar nas riquezas, preferi-las à vida eterna é fatal para a vida espiritual de alguém. Assim, lutar por uma vida regalada nesta Terra, estar à busca de obtenção de riquezas, erigir isto como uma prioridade na vida é praticamente assinar a sua sentença de perdição. Como, então, podemos dizer que as pregações e ensinos da teologia da prosperidade tenham algo a ver com o Evangelho que Nosso Senhor pregou?

    – E esta situação ilustrada pela parábola do rico insensato e denunciada quando do encontro com o “mancebo de qualidade”, é descrita como algo real e fático quando o Senhor Jesus nos conta a história do rico e Lázaro, que não é uma parábola, como muitos equivocadamente afirmam, mas um fato que o Senhor revela para nos mostrar a realidade da vida humana (Lc.16:19-31).

    – Nesta história, o Senhor nos mostra um homem rico que teve uma vida regalada, voltada somente para si, insensível ao mendigo Lázaro que jazia cheio de chagas à sua porta. À vista do conceito então vigente entre os judeus, o rico era um homem abençoado por Deus, enquanto que Lázaro era um maldito. No entanto, sobrevindo a morte, Lázaro foi levado ao seio de Abraão, a aguardar a redenção, enquanto que o rico foi levado ao lugar de tormentos, no Hades, para aguardar o juízo final.

    – Jesus não nos diz que a riqueza seja uma maldição, um pecado, mas, no desenrolar da história, revela-nos que, durante a sua vida, o rico não deu qualquer importância à lei do Senhor, a uma comunhão com Deus, da mesma maneira que o “rico insensato”, enquanto que Lázaro, apesar de sua situação miserável, teve a preocupação de servir ao Senhor. Foi por isso que Lázaro alcançou a verdadeira prosperidade, a salvação, a vida eterna, enquanto que o rico nada obteve senão tormentos.

    – Por tudo que vimos, pois, a pregação de Cristo Jesus, o Evangelho, mostra-nos que a verdadeira prosperidade encontra-se em entrarmos em comunhão com o Senhor, em termos a vida eterna, algo que se consegue quando nos entregamos a Cristo, quando nos arrependemos de nossos pecados, crendo no Senhor como nosso único e suficiente Senhor e Salvador.

    – Jesus também prometeu que, durante nossa passagem por esta Terra, dará o necessário para nosso sustento, nada nos deixará faltar, mas que aquilo que obtivermos devemos, também, repartir com o próximo, mostrando que o amor de Deus está verdadeiramente em nós.  O sucesso, o êxito não está, pois, na posse de bens materiais, mas em uma vida de comunhão com Deus, de obediência à Palavra de Deus.

    II – A PROSPERIDADE NOS ENSINOS DOS APÓSTOLOS E DISCÍPULOS DO SENHOR JESUS

    – Ao verificarmos como o tema da prosperidade se encontra nos ensinos dos apóstolos e dos discípulos do Senhor Jesus, vemos que esta mesma linha é mantida, o que não é de impressionar, visto que o que os apóstolos ensinaram foi, precisamente, o que aprenderam do Senhor Jesus.

    – Logo no limiar da igreja primitiva, vemos que os discípulos eram completamente desapegados à posse de bens materiais, a ponto de os discípulos se desfazerem de seus patrimônios para tudo repartirem com os irmãos (At.2:44,45).

    – No registro do primeiro grande milagre de cura da igreja primitiva, Lucas faz questão de deixar consignado que os apóstolos Pedro e João fizeram questão de dizer que não tinham prata nem ouro, mas, sim, o poder de Deus (At.3:6), numa clara alusão de que bem haviam aprendido a lição do Senhor de que a vida não consiste na abundância do que se possui.

    – A primeira demonstração de amor do dinheiro e de tentativa de conciliação entre este amor e o serviço a Deus, manifestada pelo casal Ananias e Safira, foi severamente punida pelo Espírito Santo no seio da igreja (At.5:1-11), gerando grande temor em toda a igreja, a demonstrar a desaprovação divina quanto a este tipo de comportamento.

    – A reação que teve o apóstolo Pedro em Samaria com relação ao comportamento do ex-mago Simão, que pensou poder conseguir por dinheiro o dom de Deus (At.8:18-24), bem revela qual o pensamento vigente entre os apóstolos a respeito do papel do dinheiro para as coisas espirituais.

    – Não vemos, em momento algum, em o Novo Testamento, qualquer ensino dos apóstolos que dissesse que a salvação viria acompanhada de bênçãos de aumento patrimonial, ou que estava destinado aos salvos uma vida regalada sobre a face da Terra, ou, ainda, que devêssemos buscar em Cristo a abundância material.

    – Pelo contrário, vemos que nenhum dos discípulos ou apóstolos era rico ou era dono de um grande patrimônio. Pelo contrário, aqueles que tinham posses, perderam-nas ao longo de seu ministério, como é o caso de Barnabé, que tudo entregou para a Igreja (At.4:36,37) ou do próprio Paulo que, sendo pessoa de destaque na sociedade, quando começou a pregar o Evangelho, não poucas vezes, teve de trabalhar com suas próprias mãos para se sustentar (At.18:3; I Co.4:12; I Ts.2:9; II Ts.3:8).

    – Paulo, escrevendo aos coríntios, foi, aliás, bem enfático ao mostrar que quem espera em Cristo somente para esta vida é o mais miserável de todos os homens (I Co.15:19), indicando que a esperança do cristão não está neste mundo, nem em ter benesses nesta Terra, mas na ressurreição de Cristo que é a garantia de que também seremos ressuscitados e glorificados, passando a viver uma vida muito melhor (I Co.15:17, 51-58).

    – Escrevendo aos tessalonicenses, o mesmo apóstolo mostra que uma das provas de que legitimamente havia pregado o evangelho àqueles crentes foi o fato de nunca ter usado a pregação como “pretexto de avareza” (I Ts.2:5).

    – Como se isso fosse pouco, o apóstolo, ainda, traz um importante ensino do Novo Testamento a respeito de nossa vida material, qual seja, a necessidade e importância do trabalho como forma de aquisição de bens. Quem não trabalhasse, não era sequer digno de comer (II Ts.3:6-12), ensina o apóstolo, mostrando que, apesar de Deus nos prometer a suficiência, isto não isenta o servo do Senhor de trabalhar, como, aliás, foi determinado pelo próprio Criador quando do juízo dado ao homem por sua queda (Gn.3:19).

    – Neste ensino a respeito do trabalho, o apóstolo não estava a inovar, pois o próprio Jesus havia ensinado que Ele trabalhava assim como o Seu Pai (Jo.5:17), a indicar que o trabalho é uma demonstração da “imagem e semelhança de Deus”, que é plenamente restaurada na salvação em Cristo Jesus.

    – Paulo, também, ao falar com os coríntios a respeito da coleta que se devia fazer aos crentes, traz-nos muitas lições a respeito do sentido da prosperidade material para a Igreja, algo muito distante, contraditória mesmo ao que ensinam estes falsos pregadores da teologia da prosperidade.

    – Por primeiro, é importante mostrar que os crentes de Jerusalém e da Judeia que estavam a passar por necessidades são chamados pelo apóstolo de “santos” (I Co.16:1), a provar, pois, que a situação de necessidade pela qual passavam não era resultado de pecado, nem da falta de comunhão com Deus. Assim, a salvação não está vinculada à posse de bens materiais.

    – O que se nota é que esta situação de pobreza estava vinculada a circunstâncias sócio-político-econômicas vividas na região àquela época, como também ao próprio fato de que a história da igreja tinha sido de venda de propriedades e repartição de bens sem que houvesse o elemento trabalho como fonte de aquisição de bens, o que resultou no consumo dos bens sem qualquer reposição, o que se agravou com a cruel perseguição sofrida pelos crentes da parte dos judeus (I Ts.2:14,15).

    – Por segundo, ao mencionar os crentes da Macedônia, não deixa de dizer que eles eram pobres, apesar de terem se convertido (II Co.8:2), em mais uma indicação que a salvação em Cristo Jesus não traz automático enriquecimento material.

    – Por terceiro, o fato de serem pobres materialmente, não os impediu de serem “ricos em generosidade”, tendo, da própria pobreza, dado abundantemente para os crentes judeus, a mostrar, pois, que a multiplicação de recursos, um verdadeiro milagre, é realização que faz o Senhor, mas não com o propósito de acumulação e deleite próprio, mas para que haja a comunicação aos santos (II Co.8:3-8).

    – Por quarto, a abundância material que é dada pelo Senhor não é como uma prova de salvação, mas a prova da salvação não está na abundância, mas, sim, no fato de que esta abundância suprirá a falta de outros e que, no futuro, isto pode novamente ocorrer, com os que deram no passado sejam os que hão de receber no futuro daqueles que, no passado, haviam recebido (II Co.8:14,15).

    – Por quinto, o apóstolo também nos ensina que o que Deus quer nos dar é a suficiência, pois o importante é abundarmos em boas obras (II Co.9:8,9), i.e., as bênçãos espirituais são as mais relevantes, são as que devem ser buscadas por quem serve ao Senhor (II Co.9:10-15).

    – Uma das características do salvo em Cristo Jesus é, precisamente, ainda segundo o apóstolo Paulo, o estar completamente desprendido das circunstâncias materiais para exercer a sua fé, como deixa claro na sua carta aos filipenses, o que será objeto de lição específica neste trimestre (lição 7).

    – Mas não é apenas Paulo quem traz este precioso ensino a respeito da prosperidade em o Novo Testamento e de seu sentido primordial e intensamente espiritual. Pedro, em sua segunda epístola, é bem claro ao mostrar que uma das características dos falsos mestres é, precisamente, o estar preso aos bens materiais, a ponto de fazerem, por avareza, negócio com os crentes (II Pe.2:3), como também receberem “o galardão da injustiça”, por  “terem o coração exercitado na avareza”, seguindo “o caminho de Balaão” (II Pe.2:13-15).

    – Ao apontar que tais são características dos falsos mestres, o apóstolo Pedro nos ensina que dar prioridade aos bens materiais, estar preso a eles é se desviar do Evangelho, repetindo ensino do próprio apóstolo Paulo que nos ensina, também, que “o amor do dinheiro é a raiz de toda a espécie de males e que, nesta cobiça, alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores, mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão, milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas testemunhas” (I Tm.6:10-12).

    – O ensino do Novo Testamento, portanto, é que somos salvos para obter a vida eterna, que é felicidade, a prosperidade está em termos a vida eterna, dela tomarmos posse e de que, quando deixamos a vida eterna em busca de bens materiais, quando passamos a amar as riquezas, desviamo-nos da fé, perdemos a salvação.

    – O escritor aos hebreus traz mais uma afirmação neste sentido, ao exortar os crentes a que “sejam os seus costumes sem avareza, contentando-se com o que têm, porque Ele disse: não te deixarei, nem te desampararei” (Hb.13:5). Aqui, uma vez mais, há a promessa divina de dar-nos o suficiente para sobrevivermos sobre a Terra, bem como a advertência para que não venhamos a ser presa das riquezas, buscando ter cada vez mais, o que nos levará à ganância e à perdição.

    – O escritor aos hebreus volta a lembrar a mensagem de João Batista a respeito do contentamento com o que temos. Uma das grandes armas que o inimigo de nossas almas tem lançado no meio do povo de Deus é, precisamente, a insatisfação com o que se possui, insatisfação motivada seja pelo consumismo desenfreado dominante em nossa sociedade hodierna, seja mesmo pela inveja em relação ao próximo.

    – Neste mesmo diapasão, Tiago, o irmão do Senhor, lembra os ricos de que as riquezas terrenas são passageiras, “como a flor da erva” (Tg.1:10,11), como também faz questão de dizer que “Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que O amam” (Tg.2:5).

    – Para Tiago, portanto, a chamada divina para a salvação não é para que alguém enriqueça materialmente neste mundo, mas para que alcance “a riqueza na fé e a herança do reino de Deus”, que o Senhor Jesus fez questão de dizer que “não era deste mundo” (Jo.18:36).

    – Prosseguindo em sua epístola, Tiago mostra-nos que “a riqueza na fé” tem de ser demonstrada através de obras, através de ações em prol dos necessitados (Tg.2:15,16), uma vez mais mostrando que um salvo pode chegar a ficar nu e a lhe faltar o mantimento cotidiano, sem que isto represente qualquer pecado por parte do irmão.

    – Tiago volta a falar sobre o caráter passageiro das riquezas terrenas, chamando-as, mesmo, de “misérias”, uma vez que os vestidos podem ser comidos de traça e o ouro e a prata, enferrujarem, aludindo, assim, ao que o Senhor Jesus ensinara no sermão do monte (Tg.5:1-3).

    – Tiago aqui remete, também, a advertência de Paulo que manda aos ricos que não ponham sua esperança na incerteza das riquezas e, por isso, se façam altivos, mas que esperem em Deus, que é quem dá abundantemente todas as coisas para que dela gozemos (I Tm.6:17).

    – João, “o apóstolo do amor”, não será dissonante neste sentido que se dá à prosperidade. Já no limiar de sua primeira epístola, mostra que o papel dos apóstolos era “anunciar a vida eterna” (I Jo.1:2), “ a comunhão com o Pai e seu Filho Jesus Cristo” (I Jo.1:3).

    – João, entretanto, mostra que a prova de que o amor de Deus está em nós e de que estamos em comunhão com o Senhor é o amor ao próximo, amor este que é demonstrado pelo fato de que, quem tem bens do mundo, vendo o seu irmão necessitado, não cerra suas estranhas, dá a sua vida pelo irmão (I Jo.3:16-18).

    – Mais uma vez vemos que, quando Deus nos dá bens deste mundo, o objetivo outro não é senão ajudar aquele que não os tem, a prosperidade material eventualmente concedida a um servo de Cristo é para que ele reparta com o que nada possui, com o que tem necessidade, a fim de fazer desta bênção material uma comprovação do amor de Deus entre os homens, pois o mandamento de Deus é o de crermos em seu Filho Jesus Cristo e nos amarmos uns aos outros (I Jo.3:23).

    – Judas, outro irmão do Senhor, em sua epístola, ainda que não de forma explícita, também fala desta realidade, ao fazer coro com Pedro e mostrar que os homens ímpios que se introduziram no meio da Igreja são pessoas que “convertem em dissolução a graça de Deus”, sendo homens “levados pelo engano do prêmio de Balaão” (Jd.11) e que “admiram as pessoas por causa do interesse” (Jd.16), ou seja, são pessoas movidas pelo amor às riquezas, pelas coisas materiais.

    – Já os verdadeiros salvos, diz Judas, são aqueles que se edificam sobre a fé, orando no Espírito Santo, conservando-se no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (Jd.20,21), ou seja, pessoas que dão prioridade à “vida eterna”, que estão em busca do céu, que não se prendem pelas coisas passageiras desta vida.

    – No livro de Apocalipse, então, o apóstolo João diz que fomos feitos reis e sacerdotes para Deus, lavados dos nossos pecados que fomos no sangue de Cristo (Ap.1:5,6), o que, de pronto, já mostra a razão de ser da nossa salvação, o que significa a prosperidade.

    – Neste livro profético do Novo Testamento, aliás, estão presentes sete bem-aventuranças, nenhuma delas relacionada com a posse de bens materiais. A primeira bem-aventurança é a de ler e ouvir as palavras da profecia e guardar as coisas que nela estão escritas (Ap.1:3). Ler, ouvir e guardar a Palavra de Deus é bem-aventurança, é mais do que felicidade, é prosperidade.

    – A segunda bem-aventurança é a dos mortos que morrem no Senhor (Ap.14:13), porque descansam eles dos seus trabalhos e as suas obras os seguem. Vemos aqui que a prosperidade do que morre é “morrer no Senhor” e que a única coisa que segue o homem para a eternidade são as suas obras e não o seu patrimônio, os seus bens materiais, que ficam todos aqui neste mundo.

    – A terceira bem-aventurança diz respeito aos que vigiam e guardam as suas vestes para que não sejam achados nus e se vejam as suas vergonhas (Ap.16:15). Naturalmente, não se trata de uma bem-aventurança material, mas de se manter devidamente vestido espiritualmente, para que não venha a padecer, na eternidade, a vergonha da perdição.

    – A quarta bem-aventurança é a dos que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro (Ap.19:9), ou seja, aqueles que forem arrebatados por Jesus por pertencer à Sua Igreja, aqueles que perseverarem até o fim, que forem fiéis a Cristo até a morte.

    – A quinta bem-aventurança é a dos que tomam parte na primeira ressurreição, ou seja, aqueles que ressuscitarem para reinar com Cristo por mil anos, seja no arrebatamento da Igreja, seja os que morrerem fiéis a Cristo durante a Grande Tribulação (Ap.20:6).

    – A sexta bem-aventurança é a dos que guardam as palavras da profecia do livro (Ap.22:7), ou seja, daqueles que se mantêm obedientes à Palavra do Senhor.

    – A sétima e última bem-aventurança é daqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, ganhando o direito à árvore da vida e entrem na cidade pelas portas (Ap.22:14), mostrando claramente que o acesso à árvore da vida, a comunhão com Deus, é a verdadeira e real prosperidade.

    – Como se pode notar, portanto, em todo o livro do Apocalipse, vemos que a ideia de felicidade, de bem-aventurança está muito longe da posse de bens materiais, tendo apenas que ver com a comunhão com Deus, com a vida espiritual, com o perdão dos nossos pecados por meio de Jesus Cristo.

    – Tanto assim é que, ao longo do livro do Apocalipse, mais de uma vez a posse de bens materiais é apresentada junto àqueles que estão completamente alheios ao Senhor e à Sua Palavra, como é o caso dos ricos mercadores que enriqueceram com o governo do Anticristo, ele próprio envolvido em luxo e riquezas (Ap.18:15,16).

    – Por tudo isto, percebemos claramente que, em o Novo Testamento, mantém-se a ideia da prosperidade como algo sobretudo espiritual, o que foi intensificado em relação ao Antigo Testamento.

    – Esta intensidade, ensina o pastor batista norte-americano John Piper (1946- ), resulta até do fato de que, no Antigo Testamento, a religião era “venha-ver”, ou seja, Deus precisava mostrar quem era a partir de Israel. “…Há um centro geográfico do povo de Deus. Há um templo físico, um rei terreno, um regime político, uma identidade étnica, um exército para lutar as batalhas terrenas de Deus, e uma equipe de sacerdotes para fazer sacrifícios animais pelos pecados.(…) Com a vinda de Cristo tudo isso mudou. Não há centro geográfico para o Cristianismo (João 4:20-24); Jesus substituiu o templo, os sacerdotes e os sacrifícios (João 2:19; Hebreus 9:25-26); não há regime político Cristão porque o reino de Cristo não é deste mundo (João 18:36); e nós não lutamos batalhas terrenas com carruagens e cavalos ou bombas e balas, mas sim batalhas espirituais com a palavra e o Espírito (Efésios 6:12-18; 2Coríntios 10:3-5). Tudo isso sustenta a grande mudança na missão. O Novo Testamento não apresenta uma religião venha-ver, mas uma religião vá-anunciar (…) As implicações disso são enormes para a forma que vivemos e a forma que pensamos a respeito de dinheiro e estilo de vida. Uma das implicações principais é que nós somos ‘peregrinos e forasteiros’ (1Pedro 2:11) na terra. Nós não usamos este mundo como se ele fosse nosso lar de origem(…) A ênfase do Novo Testamento não são as riquezas que nos atraem para o pecado, mas o sacrifício que nos resgata dele.” (Aos pregadores da prosperidade. Disponível em: http://www.pulpitocristao.com/2011/09/john-piper-aos-pregadores-da-prosperidade/ Acesso em 07 dez. 2011).

    – Como se percebe, portanto, o aspecto espiritual da prosperidade, já presente no Antigo Testamento, é reafirmado e ampliado em o Novo Testamento, pois o que se busca é a “vida eterna”, a comunhão com Deus e tão somente isto. Deus, sim, promete-nos bênçãos materiais, bênçãos que têm um duplo propósito: a manutenção de nossa sobrevivência sobre a face da Terra e a oportunidade de, pela repartição dos bens com os necessitados, o testemunho do amor a Deus.

    – Vemos quão diferente é esta realidade bíblica que saem das páginas do Novo Testamento do que andam pregando os teólogos da prosperidade. Fiquemos, pois, com a Bíblia e deixemos estas falsas doutrinas de lado, falsas doutrinas que fazem algumas distorções das Escrituras que analisaremos especificamente nas próximas lições.

    Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

    (mais…)

  • LIÇÃO 3 – OS FRUTOS DA OBEDIÊNCIA NA VIDA DE ISRAEL

    No Antigo Testamento, a prosperidade já era, sobretudo, um estado espiritual de comunhão com Deus.

    INTRODUÇÃO

    Israel foi formado por Deus para ser Sua propriedade peculiar dentre os povos, para ser reino sacerdotal e povo santo.

    – Para cumprir este propósito de ser a “imagem de Deus” entre as nações, o Senhor fez promessas a Israel, que, inclusive, abrangiam bênçãos materiais.

    I – O PROPÓSITO DA FORMAÇÃO DA NAÇÃO DE ISRAEL

    Após a segunda rejeição a Deus de toda a humanidade, ocorrida em Babel, que fez com que o Senhor espalhasse todos os homens pela face da Terra, confundindo as suas línguas e dando origem às diversas nações (Gn.11:1-9), tem início uma nova fase na história da salvação do homem.

    – Com efeito, Deus, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade (I Tm.2:4), tratou de formar uma nação que fosse diferente das demais, uma “propriedade peculiar Sua dentre os povos”, a fim de que, por ela, fossem benditas todas as nações da Terra. Para tanto, chama Abrão de Ur dos caldeus, para dali dar início à formação deste povo distinto, a fim de tornar todas as nações da Terra benditas por seu intermédio (Gn.12:3).

    – Notemos, pois, que o Senhor, dentro do Seu grande amor, queria voltar a abençoar o ser humano, como havia feito desde a sua criação (Gn.1:28), mas, para tanto, era necessário formar um povo que fosse diferente, que tivesse comunhão com Ele e, desta maneira, levasse as demais nações a um novo convívio com o Criador.

    – Atendendo ao chamado de Deus por fé, Abrão deixou Ur dos caldeus e saiu para uma terra que ainda lhe seria mostrada, que foi a terra de Canaã (Gn.12:1,5-7). O Senhor, pois, de pronto, após a obediente resposta de Abrão a Seu chamado, disse que esta nação que seria formada teria por habitação a terra de Canaã.

    – Vemos, pois, desde logo, que o objetivo de Deus na formação de Israel era a formação de um povo que fosse Seu na face da Terra, um povo que com Ele mantivesse a comunhão perdida com a queda no Éden e as sucessivas rejeições que resultaram no dilúvio e na confusão das línguas, comunhão que levasse os demais povos a se encontrar com Deus e que, para tanto, receberia uma porção de terra, a terra de Canaã, para ali viver e executar a sua missão sacerdotal.

    O bem-estar na terra de Canaã, portanto, era um elemento acessório, ainda que necessário e importante, para que Israel cumprisse a sua missão sacerdotal diante dos demais povos da Terra. O objetivo primeiro de Deus era o estabelecimento de uma comunhão espiritual com Israel, comunhão que levasse esta nova nação a trazer os demais povos à presença do Senhor.

    – O propósito de Deus, então, era o de fazer de Israel uma grande nação, não no sentido político-econômico, como demonstrou sempre a história deste povo, que, no seu auge político-econômico, nos reinados de Davi e de Salomão, nunca ultrapassou os limites da terra que foram prometidos por Deus a Abrão (Gn.15:18; Dt.11:24; I Rs.4:21), mas uma grande nação no sentido de ser “uma bênção” (Gn.12:1), ou seja, uma nação que estivesse sob a bênção de Deus e que fosse veículo da bênção de Deus para os demais povos.

    – Tanto assim é que, conforme vimos na lição anterior, Abrão chegou a ter prosperidade material quando estava fora da direção do Senhor, quando de sua ida ao Egito (Gn.12:16), assim como Jacó também gozou de aumento patrimonial quando estava em Padã-Arã (Gn.31:6-9), sem que isto representasse que estivessem de acordo com a vontade do Senhor. Pelo contrário, em ambas as ocasiões, o Senhor interveio para que os patriarcas tornassem a servir a Deus, abandonando estes desvios espirituais (Gn.12:17-20; 31:3).

    – Por isso, o Senhor formou a Israel por intermédio de milagres e não de uso de riquezas materiais ou posições elevadas entre os povos daquelas terras. A nação de Israel foi formada por ações sobrenaturais de Deus, pois Isaque, “o filho da promessa”, nasceu de um ventre amortecido (Hb.11:11,12), assim como o próprio Jacó, pois Rebeca era estéril (Gn.25:21), mesma situação de Raquel, que viria a ser a mãe de José e Benjamim (Gn.30:1,2,22).

    – Mas, para mostrar também que todas as coisas da Terra Lhe pertencem, o Senhor também fez uso da maior potência político-econômica daquele tempo, o Egito, para ali dar fim à formação do Seu povo, mediante a vida de José, que tornado governador do Egito, pôde levar Israel, então apenas um clã de setenta pessoas (Gn.46:27), para ali se multiplicar e ser a nação separada por Deus dentre os povos para Lhe servir (Ex.1:7).

    – Em virtude da sua grandeza obtida entre os egípcios, os israelitas foram escravizados, mas o Senhor dali os livrou por intermédio de Moisés e, quando o povo chegou ao Sinai, conforme havia sido dito pelo próprio Deus, para ali servi-l’O (Ex.3:12), formalizou-se a aliança entre Deus e Israel, segundo a qual Israel passaria a ser a “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, “a nação sacerdotal de Deus e o povo santo” (Ex.19:5,6).

    – A aliança firmada entre Deus e Israel fazia dos israelitas “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, “um reino sacerdotal e um povo santo”. Era este o objetivo e a razão de ser de Israel, era este o seu papel na face da Terra.

    Ser “propriedade peculiar de Deus dentre os povos” fazia de Israel um “bem de Deus”, ou seja, algo a ser cuidado pelo Senhor, algo a refletir a própria “imagem de Deus” diante das nações. Daí, naturalmente, deveria a nação israelita, na terra que lhe havia sido prometida pelo Senhor, ter condições exímias de habitabilidade, ainda mais numa cultura que considerava que a divindade da nação deveria bem demonstrar seu poder na terra habitada por esta nação.

    Ser “reino sacerdotal e povo santo” importava em Israel ter de se apresentar como um país em que todos fossem sacerdotes, ou seja, todos estivessem prontos a oferecer sacrifícios a Deus e a serem mediadores entre Deus e os homens, assim como estarem separados dos demais povos, não se misturarem com eles, servindo única e exclusivamente a Deus e tendo uma vida sem pecado.

    – Para que Israel pudesse ser “propriedade peculiar de Deus dentre os povos” e “um reino sacerdotal e um povo santo”, deveria, segundo a aliança firmada com Deus no Sinai, “diligentemente ouvir a voz de Deus e guardar o concerto firmado com o Senhor” (Ex.19:5).

    O requisito, a condição para que Israel cumprisse o seu papel diante dos povos era a obediência, representada aqui pelo “ouvir a voz de Deus” e “guardar o concerto de Deus”. Por isso, quando repetia a lei para o povo pouco antes de sua morte, Moisés ter dito explicitamente aos israelitas: “Agora, pois, ó Israel, que é o que o Senhor, teu Deus, pede de ti, senão que temas o Senhor, teu Deus, e que andes em todos os Seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor, e os Seus estatutos, que hoje te ordeno para o teu bem?” (Dt.10:12,13).

    – Deus não muda (Ml.3:6) e, assim como deu ao primeiro casal as mais excelentes condições de vida no Éden (Gn.2:8,9), condicionando-as, porém, à obediência (Gn.2:16,17), também prometeu a Israel uma “terra que mana leite e mel”(Ex.3:8,17), desde que eles fossem igualmente obedientes ao Senhor.

    As bênçãos que adviriam a Israel seriam, portanto, resultado direto da obediência que Israel tivesse em relação a Deus. Deus prometia abençoar Israel, prometia fazer de Israel uma bênção, desde que ele obedecesse ao Senhor e tudo para que se mostrasse diante das nações como “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, como “um reino sacerdotal e um povo santo”.

    OBS:“…Esta promessa se afirma ainda hoje, quando o israelita ocupa o seu lugar nas obras sociais do país onde ele vive, pois espalha as bênçãos ao seu redor por meio dos bons princípios ditados pela sua Lei, pelas boas obras, pelos numerosos exemplos de virtude e de santidade, glorificando assim o nome de Deus. Ele serve de modelo na sociedade onde vive. O país que, por uma razão ou outra, persegue o israelita, percebe, cedo ou tarde, o desaparecimento dos frutos que ele semeava com a sua presença.” (MELAMED, Meir Matzliah.Torá: a lei de Moisés, p.582). Pode-se dizer o mesmo de nós onde vivemos?

    O propósito maior de Deus, portanto, era nitidamente espiritual e tinha por finalidade a salvação da humanidade, a restauração da comunhão perdida com o pecado. É este, também, o papel da Igreja, o povo de Deus da atual dispensação, com relação aos demais homens, com relação aos judeus e aos gentios.

    – Nós fomos chamados, também, para ser “testemunhas de Cristo” (At.1:8), para levarmos Jesus até a humanidade, pregando, para isso, o Evangelho a toda a criatura por todo o mundo (Mc.16:15). Somos chamados para ser “luz do mundo e sal da terra”, para ser instrumento para que os homens glorifiquem a Deus (Mt.5:13-16).

    – Assim, eventuais bênçãos materiais que recebamos da parte do Senhor serão apenas um elemento para que cumpramos o nosso papel diante dos homens, jamais um meio para termos uma vida regalada sobre a face da Terra, pois, se assim o fizermos, deixando o Senhor de lado, estaremos tão somente assinando a nossa própria perdição, precisamente aquilo que Deus não quer nem para nós nem para cada um dos homens por ele criados.

    II – OS FRUTOS DA OBEDIÊNCIA PARA ISRAEL

    – Sendo obediente ao Senhor, Israel se tornaria, como já vimos, “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”. O primeiro fruto desta obediência, portanto, seria o de ser um “bem especial do Senhor” diante das nações, a Sua “menina dos olhos” (Dt.32:10; Zc.2:8).

    – A menina o olho ou pupila é “…a parte escura no centro do olho que muda de tamanho de acordo com a quantidade de luz que incide sobre ela, mas também pode ser uma aluna, uma discípula ou uma protegida. Originariamente, o Latim tinha pupus (“menino”) e pupa (“menina”, “boneca”), mais os diminutivos pupillus e pupilla. Numa bela metáfora, pupilla passou a designar a parte central da íris porque nela o observador enxerga uma miniatura de sua própria imagem refletida, semelhante a uma bonequinha.(…). Para não deixar dúvidas de que ambas as denominações têm origem comum, costumamos popularmente chamar também a pupila de menina do olho, de onde o Português desenvolveu o belíssimo costume de chamar de menina dos olhos a pessoa ou coisa que tem um significado muito especial para alguém: ‘A Microsoft é a menina dos olhos de Bill Gates’; ‘Guarda os meus mandamentos e vive; e a minha lei, como a menina dos teus olhos’ (Provérbios 7:2) …” (MORENO, Claúdio. A menina dos olhos. Disponível em: http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/04/29/a-menina-dos-olhos/ Acesso em 30 nov. 2010).

    A obediência ao Senhor faria de Israel “a menina dos Seus olhos”, ou seja, uma nação especial para Deus, um povo com quem o Senhor traria de forma distinta em relação aos demais povos. Não que isso signifique uma “acepção de pessoas”, pois Deus não faz acepção de pessoas, mas Israel foi formada de modo especial, para uma missão específica.

    A obediência ao Senhor faria de Israel “um reino sacerdotal e um povo santo”, ou seja, Israel tinha de existir para ser mediador entre Deus e os homens, para oferecer sacrifícios ao Senhor. Toda a sua vida deveria estar voltada para a adoração a Deus, tinha que ter como objetivo a glorificação do nome do Senhor. Além disso, a nação não poderia se misturar com os demais povos, mantendo-se com uma identidade diferenciada, em virtude de seu papel especial em relação ao Senhor.

    Para que isto se tornasse possível, o Senhor, então, fez a Israel algumas promessas, a fim de que, diante do quadro de maldição que vivia a terra em função do pecado, pudessem os israelitas cumprir o seu papel diante de Deus. Estávamos diante de um pacto e, para tanto, o Senhor tinha, também, assumido compromissos.

    Estas promessas encontram-se elencadas em conjunto nos primeiros quatorze versículos do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, um dos textos prediletos dos “teólogos da prosperidade” que, retirando o texto do contexto, tomam esta passagem como uma das “demonstrações” do que o Senhor tem prometido ao Seu povo a prosperidade material ou de que a prosperidade material é consequência direta da obediência a Deus, falsidades que devem ser prontamente afastadas pelos servos do Senhor.

    – Teremos uma lição específica em que analisaremos o que das promessas bíblicas se refere a Israel e o que se refere à Igreja, razão pela qual não nos deteremos, neste presente estudo, a respeito do cabimento desta ou daquela promessa à Igreja, mas não podemos nos esquecer do contexto do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, ou seja, de que se tratam de promessas feitas pelo Senhor a Israel para que tivesse ele condições de cumprir, a contento, o seu papel de “reino sacerdotal e povo santo”.

    – Por primeiro, devemos nos lembrar que Israel é uma nação material, biológica, ou seja, formada por pessoas que pertencem a uma determinada descendência, ou seja, a linhagem de Abraão, Isaque e Jacó e que deveria habitar num território determinado, a terra de Canaã. Ora, em sendo assim, teria de ter condições físicas e materiais para poder cumprir o seu papel de ser “bênção” para todos os povos.

    OBS: “…Lembremos que a terra prometida a Abraão não era uma terra ‘espiritual’; ela possuía dimensões, fronteiras e localização (Gn 15.18-20).…” (Semente da Vida Igreja Evangélica. O pacto palestino. Disponível em: http://www.igrejasementedavida.com.br/docs/escatologia-israel-historia/aula11.html Acesso em 29 nov. 2011).

    – O contexto do capítulo 28 de Deuteronômio já muito nos elucida. Moisés, em seu discurso em que repetia a lei para o povo pouco antes de morrer, acabara de determinar aos anciãos de Israel que, em entrando na Terra Prometida, deveriam renovar o pacto firmado no Sinai, renovação do pacto que se faria com a divisão do povo em dois grupos, um que subiria ao monte Gerizim (as tribos de Simeão, Levi, Judá, Issacar, José e Benjamim) e outro que subiria ao monte Ebal (as tribos de Ruben, Gade, Aser, Zebulom, Dã e Naftali).

    – O grupo que estaria no monte Gerizim pronunciaria as bênçãos sobre o povo, decorrentes da obediência ao Senhor, enquanto que o grupo que estivesse no monte Ebal pronunciaria as maldições sobre o povo, decorrentes da desobediência ao Senhor (Dt.27:11-28). Através deste gesto, que os estudiosos da Bíblia chamaram de “pacto palestiniano” ou “pacto palestino”, gesto que foi realizado por Josué em meio à conquista da Terra Prometida (Js.8:30-35), o compromisso de servir a Deus foi selado na terra de Canaã.

    OBS: “…O pacto palestino é a aliança feita entre Deus e Israel na terra de Moabe durante o Êxodo, antes de tomarem posse da terra (Dt 29.1; 30.1-8). Esta aliança estabelecia condições para que Israel desfrutasse da terra que lhes pertencia por direito.…” (Semente da Vida Igreja Evangélica. O pacto palestino. Disponível em: http://www.igrejasementedavida.com.br/docs/escatologia-israel-historia/aula11.html Acesso em 29 nov. 2011).

    – Quando vemos esta determinação de Moisés, verificamos que a bênção e a maldição decorriam tão só do cumprimento da lei por parte de Israel. A obediência era o segredo para ser “bendito” ou “maldito”. Era por cumprir a lei e viver pelos mandamentos dados por Deus que Israel alcançaria a bênção ou a maldição (Dt.11:26-28).

    – No entanto, como uma demonstração de que o povo estava a obedecer, ou não, ante a circunstância de que Israel era uma nação estabelecida num determinado território, o Senhor fez promessas de bênçãos materiais aos israelitas, para que eles pudessem se manter como nação independente das demais e com condições de levá-las a servir a Deus.

    – Assim é que, já no capítulo 11 do livro de Deuteronômio, vemos que o Senhor traz os benefícios da obediência, a começar pela chuva a seu tempo, a temporã e a serôdia, para que pudessem ser recolhidos o grão, o mosto e o azeite (Dt.11:14,15).

    – Esta circunstância a respeito da chuva era fundamental para a sobrevivência de Israel que, em seu período de formação no Egito, vivia um outro regime, que era o da irrigação do Nilo, o único rio daquele país (Dt.11:10,11).

    – Não é por acaso que a primeira forma de Deus mostrar Seu descontentamento com Israel ao longo da história sagrada era a falta de chuva sobre a Terra, que gerava fome e, consequentemente, necessidades para todo o povo, um eloquente sinal para que se buscasse a Deus e se descobrisse o que estava a ocorrer (cf. II Sm.21:1).

    Em havendo obediência ao Senhor, Deus prometia a Israel a manutenção de seu sustento, as condições para que pudesse, do fruto da terra, obter a sua sobrevivência, para que, tendo com que comer, beber e vestir, pudesse exercer o seu papel de “reino sacerdotal e povo santo”.

    – Vemos, pois, que o objetivo de Deus em prometer a chuva da terra não era o do enriquecimento para Israel como “pagamento de sua obediência”, nem tampouco a “fartura desmedida”, como “demonstração da santidade dos israelitas”, mas lhes dar condição para que, tendo com que comer, beber e vestir, não depender das demais nações e, assim, em independência, poder cumprir o propósito estabelecido para que servisse a Deus e fosse um veículo de aproximação entre Deus e os demais povos.

    – O Senhor também prometeu erva no campo para que o gado pudesse se alimentar (Dt.11:15) e, desta maneira, servir não só de alimento para o povo, mas também para que pudessem ser feitos os sacrifícios exigidos pela lei. Todas as bênçãos materiais, como se vê, estavam umbilicalmente relacionadas com o papel assumido por Israel na aliança do Sinai.

    – Ao mesmo tempo em que o Senhor prometia bênçãos materiais para Israel, não deixou de alertar os israelitas para que seus corações não se deixassem enganar pela prosperidade material e, com isso, se desviassem dos caminhos do Senhor, pois, se isto acontecesse, se o povo deixasse de servir a Deus por causa das bênçãos dadas por Deus, tais bênçãos desapareceriam, com o fechamento dos céus, a falta de água e o consequente perecimento por falta de condições de sobrevivência (Dt.11:16,17).

    – É este, pois, o contexto do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, ou seja, as consequências da obediência ao Senhor, a criação por parte de Deus das condições para que Israel cumprisse o propósito de Deus, que era o de ser uma referência entre as nações para que elas se voltassem ao Senhor.

    – A “exaltação sobre todas as nações da Terra” prometida pelo Senhor a Israel se obedecesse aos Seus mandamentos (Dt.28:1) não era o de se tornar uma “potência político-econômica”, um “império”, mas, sim, de se tornar uma nação diferente das demais, com plenas condições de autossustento e que se distinguisse das outras pela sua maneira de viver, pela sua adoração a Deus.

    – É precisamente o que se requer da Igreja em nossos dias. Nós somos exaltados não porque assumimos posições de destaque na sociedade, nem tampouco porque nos tornamos “endinheirados”, “poderosos” em termos político-econômicos, mas, sim, porque temos uma maneira de viver distinta que faz com que os homens venham a nos perguntar a razão da esperança que há em nós (I Pe.3:15), algo que advém da nossa santidade, daquilo que somos, não daquilo que porventura tenhamos.

    – Os “teólogos da prosperidade”, entretanto, desvirtuam esta realidade bíblica, defendendo uma “exaltação” que é antibíblica e satânica. O salvo por Cristo Jesus não precisa ser um “milionário” para mostrar ao mundo que serve a Cristo, que é salvo e que vai para o céu. Não é através de uma “ostentação de riqueza” que iremos mostrar que servimos a Deus. Pelo contrário, a “ostentação de riquezas” nada mais é que a “soberba da vida”, um dos elementos que caracteriza o mundo sem Deus e sem salvação (I Jo.2:16).

    OBS: A expressão “soberba da vida” encontrada nas Versões Almeida Revista Corrigida e Atualizada é traduzida na Nova Tradução na Linguagem de Hoje por “orgulhos pelas coisas da vida”; na Nova Versão Internacional, por “”ostentação dos bens” e na Tradução da CNBB por “ostentação da riqueza”. Portanto, o que os “teólogos da prosperidade” dizem ser “sinal de Deus na vida do salvo” não passa de um elemento característico do mundo e, neste caso, como a Bíblia nos ensina, “quem ama o mundo o amor do Pai não está nele”. Tomemos cuidado, amados irmãos!

    A primeira bênção prometida a Israel pela sua obediência a Deus é de que “bendito serás tu na cidade e bendito serás no campo” (Dt.28:3).

    – Ora, desde logo, vemos que a primeira bênção está diretamente ligada ao propósito estatuído por Deus àquela nação, a de que seria uma bênção (Gn.12:2). A primeira bênção diz respeito ao próprio ser do israelita. Ele mesmo seria uma bênção, seja na cidade, seja no campo.

    – Deus promete que Seu povo seja uma bênção, isto é, ele será um motivo para que todos que estejam com ele sejam abençoados. Ele é um canal de bênçãos, pois ele é “bendito”. Assim Jesus Se apresentou aos homens e assim foi aclamado quando adentrou em Jerusalém pela vez derradeira em Seu ministério terreno (Mt.21:9; Mc.11:9).

    – Jesus foi aclamado como “bendito”, porque provou sê-lo ao andar fazendo bem e curando a todos os oprimidos do diabo (At.10:38). Nós, como Seus imitadores (I Co.11:1; I Pe.2:21), também devemos nos comportar como Ele Se comportou, andando a fazer bem e a curar a todos os oprimidos do diabo. Assim, provaremos que somos “benditos”, que somos “luz do mundo e sal da terra”.

    – Vemos, pois, que esta bênção primeira discrepa radicalmente do que é ensinado e estimulado pelos “teólogos da prosperidade”, que não falam de “pessoas abençoadas” que “façam bem e curem todos os oprimidos do diabo”, mas, sim, de pessoas que irão possuir muito para seu próprio deleite e regalo, sem se preocupar com o próximo e querendo sempre ganhar e ganhar cada vez mais. Tais “teólogos” estão a querer transformar os salvos em Cristo Jesus no rico da história de rico e Lázaro (Lc.16:19-31) e, que, como aquele rico, acabarão por passar para eternidade sem Deus e sem salvação, por ter amado as riquezas (I Tm.6:10). Que Deus nos guarde!

    A segunda bênção prometida pelo Senhor a Israel pela sua obediência a Deus é a bênção do “fruto do ventre, do fruto da terra, do fruto dos animais, a criação das vacas e os rebanhos das ovelhas” (Dt.28:4). Aqui, o Senhor promete ao israelita fiel que abençoaria a sua descendência, algo necessário para a manutenção da existência da nação ao longo das gerações para que cumprisse o seu papel diante da humanidade, como também de todo o patrimônio, para que se tivesse a suficiência igualmente indispensável para a sobrevivência da nação.

    – Observemos que o Senhor não prometeu a multiplicação indiscriminada, a acumulação de riquezas em virtude da obediência a Deus. Prometeu que a descendência e o patrimônio seriam abençoados, ou seja, seriam tais que permitiriam a manutenção da existência da nação ao longo das gerações. Não temos aqui um acúmulo desmedido, mas a promessa de que tudo contribuiria para o bem.

    – Não resta dúvida de que Deus quer abençoar a nossa família e o nosso patrimônio, mas o objetivo desta bênção é a da manutenção da existência nossa ao longo das gerações para que cumpramos o propósito divino de sermos “luz do mundo e sal da terra”. Não há aqui qualquer promessa divina para que tenhamos uma “vida regalada”, para que sejamos “milionários”. Tudo isto não passa de distorção das Escrituras por parte destes agentes diabólicos que são os “teólogos da prosperidade”.

    A terceira bênção refere-se à “bênção do cesto e da amassadeira” (Dt.28:5), ou seja, ao fato de que haveria não só boas colheitas, mas elas seriam aproveitadas, devidamente armazenadas e não perdidas ao longo do ano. Deus prometia não só uma produção suficiente, mas que haveria condições para que aquela produção fosse distribuída de maneira que todos pudessem ser satisfeitos em suas necessidades.

    – Isto assume uma importância muito grande, pois sabemos que, na atualidade, muitos passam fome ao redor do mundo mas não é por falta de produção. O Senhor dá o necessário para o sustento de toda a humanidade, algo que, inclusive, é potencializado pelo desenvolvimento tecnológico que tem aumentado a produtividade. Entretanto, toda esta produção não é distribuída corretamente, de sorte que muitos passam fome e muito alimento é desperdiçado no mundo.

    OBS: “…No entanto, há suficiente alimento no mundo para o sustento diário de todos os habitantes do planeta, afirma Benedikt Haerlin, da fundação Zukunftsstiftung Landwirtschaft, que apoia projetos ecológicos e sociais no setor agrícola. ’Hoje produzimos alimentos demais. Muito mais do que seria necessário para alimentar a população atual, sendo que ainda nem estamos perto de esgotar o potencial da alimentação direta. E, para pequenos produtores rurais, dobrar a produção custa pouco’, argumenta Haerlin, que participou da elaboração do Relatório Internacional sobre Ciência e Tecnologia Agrícolas para o Desenvolvimento (IAASTD, na sigla em inglês) de 2008.(…) ‘Se temos 1 bilhão de pessoas que passam fome por não ter dinheiro para comprar comida e outro bilhão de clinicamente obesos, alguma coisa está obviamente errada’, alerta Janice Jiggings, do Instituto Internacional para Meio Ambiente e Desenvolvimento em Londres.(…) Já hoje existe mais comida que o necessário, garante o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner. E sem cultivar um quilômetro quadrado que seja a mais, seria possível alimentar toda a população do planeta.’Ao mesmo tempo em que temos uma crise de alimentos, jogamos fora 30% a 40% dos alimentos produzidos. Ao invés de nos perguntarmos onde podemos encontrar mais terra para cultivar ou se será preciso plantar na Lua, deveríamos olhar para o nosso quintal. Temos que encontrar estímulos financeiros para evitar que se jogue comida fora’, conclui.” (JEPPESEN, H; ZAWADZKY, K e ABDELMALAK, R. Rev. de Augusto Valente. Fome é causada pela má distribuição e não pela falta de alimentos. Deutsche Welle, 15 out. 2009. Disponível em: http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4792836,00.htmlAcesso em 29 nov. 2011).

    – Para demonstrar Seu desagrado para com o povo, Deus, por vezes, não apenas fez cessar a chuva da terra, mas também impediu que houvesse distribuição e armazenamento do que se produziu, como ocorreu nos dias seguintes ao retorno do cativeiro, quando o povo negligenciou na reconstrução do templo em Jerusalém, como se deixou claro na mensagem do profeta Ageu (Ag.1:5,6).

    A quarta bênção prometida pelo Senhor em decorrência da obediência a Deus é a “bênção da entrada e a bênção da saída” (Dt.28:6). A Nova Versão Internacional e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduzem esta benção como “a benção em tudo o que fizerem”. Trata-se da promessa de sucesso e de bom êxito em todas as ações que forem realizadas pelo povo.

    – O Senhor Jesus ensinou-nos que nada podemos fazer sem Ele (Jo.15:5 “in fine”). Assim, quando o Senhor promete a Israel que ele seria bem sucedido em tudo quanto fizesse, estava a prometer que estaria com o Seu povo em todos os momentos, em se mantendo a comunhão com Ele.

    – Israel, estando em comunhão com o Senhor, tudo faria para cumprir o seu papel diante das nações, ou seja, estaria a tomar atitudes sempre com o objetivo de glorificar e adorar ao Senhor, de fazer com que as nações se aproximassem de Deus. Eis a razão pela qual todas estas ações seriam bem sucedidas, porque seriam do agrado do Senhor e teriam por finalidade a glória do Seu nome.

    – Não é por outro motivo, pois, que Israel jamais se constituiu em uma nação imperialista, que visava dominar os povos da Terra, jamais saiu no encalço dos outros povos para construir um “império”. Não era este o seu objetivo, não era para isto que havia sido constituída, mas, sim, para levar o nome do Senhor para os demais povos e, assim, como mediadores entre eles e o Senhor, levá-los à comunhão com o Criador.

    – Mesmo nos dias de Davi, o grande guerreiro da história sagrada, Israel não foi além das fronteiras estatuídas por Deus a Abraão, fronteiras que foram mantidas por Salomão, cujo reinado caracterizou-se pela paz, pela ausência de conflitos armados com os povos vizinhos.

    A prosperidade material, portanto, tinha um só propósito: dar condições a que o papel espiritual de Israel fosse cumprido. Os frutos materiais da obediência ao Senhor não visavam, em absoluto, uma vida regalada, uma vida voltada para os prazeres deste mundo, mas tão somente a criação de meios para que Israel se dedicasse a servir a Deus diante das demais nações.

    – Por isso, o Senhor prometeu a Israel que entregaria os inimigos que se levantassem contra ele (Dt.28:7). Notemos que o Senhor promete proteger Israel das investidas dos inimigos, mas, em momento algum, determinava que Israel fosse invadir outras terras, salvo, logicamente, as cidades ocupadas na terra de Canaã, que Deus lhes havia dado.

    – Esta agressividade competitiva defendida, hodiernamente, pelos “teólogos da prosperidade”, esta ganância desmedida estimulada por estes agentes satânicos não tem, como se vê, qualquer respaldo bíblico, nem mesmo no capítulo 28 do livro de Deuteronômio. Quem põe sua esperança e confiança no dinheiro, jamais se satisfará e tudo isto, diz Salomão, é vaidade (Ec.5:10). Fujamos, pois, desta pregação do deus Mamom, pois quem serve ao dinheiro, jamais servirá ao Senhor (Mt.6:24).

    – O Senhor prometia a bênção material para Israel “na terra que te der o Senhor teu Deus” (Dt.28;8), a confirmar o que já temos dito algumas vezes no presente estudo, ou seja, de que as bênçãos materiais tinham o propósito de criar condições para que Israel fosse “reino sacerdotal e povo santo”. Era este o objetivo de abençoar os celeiros e tudo em que os israelitas pusessem a mão (Dt.28:8).

    – O Senhor, através destas bênçãos materiais, tinha por propósito confirmar a Israel como “povo santo”, para mostrar às demais nações que era “o povo chamado pelo nome do Senhor” (Dt.28:10) e, por este motivo, os povos teriam temor de Israel, expressão que não significava apenas “medo”, mas, muito mais do que isto, respeito e consideração, atitudes que fariam com que os povos se interessassem em saber porque Israel era assim e, deste modo, pelo testemunho apresentado pelos israelitas, pudessem se aproximar do Senhor.

    – Toda a abundância de bens prometida pelo Senhor(Dt.28:11,12) tinha por objetivo a “confirmação da santidade” do povo de Israel e, portanto, não poderia jamais serem bens utilizados para a prática do pecado. O que os “teólogos da prosperidade” de nossos dias não explicam é qual o uso e qual o objetivo com que Deus prometia abençoar Israel. Assim, sem tal explicação, acabam por incitar no povo incauto o desejo pela vaidade, o desejo pela acumulação, o desejo pelo enriquecimento. Já perceberam que os “testemunhos” apresentados por este tipo de gente só traz pessoas que dizem ter hoje uma “vida regalada”? Quantos já ouviram “testemunhos de prosperidade” em que a abundância supostamente recebida é utilizada para “confirmação da santidade”, para a glória do nome do Senhor?

    – Tanto assim é que a abundância patrimonial prometida a Israel é dita que será aproveitada para que houvesse “empréstimos a muitas gentes”, ou seja, o que sobrasse eventualmente do produzido, das riquezas auferidas, deveria ser “emprestada” a outros povos, empréstimos que não poderiam ser usurários, com propósito de exploração das outras nações, algo que era vedado pela lei, que mandava que o estrangeiro fosse bem tratado, visto que Israel havia sido povo estrangeiro no Egito (Ex.22:21; 23:9; Lv.19:33,34; Dt.10:19).

    – A posição superior também prometida a Israel (Dt.28:13) não era, de modo algum, uma posição de ostentação, para que houvesse a opressão dos demais povos, mas uma posição de destaque para que todos se aproximassem do Senhor, para que, por meio de Israel, todas as nações se apresentassem a Deus, cumprindo-se, deste modo, o papel de “reino sacerdotal” estatuído a Israel no Sinai.

    – Tratava-se, portanto, de um destaque, de uma demonstração de grandeza espiritual, que levassem os povos a servir a Deus, a reconhecer que o Senhor estava com Israel e que era o único Senhor e Deus (Dt.6:4), realidade que é o centro da própria fé israelita e que é enunciada logo após que se adverte o povo a servir ao Senhor em toda a lei (Dt.6:1-3).

    “Ser cabeça e não, cauda”, portanto, nada tem que ver com ostentação, fama ou assunção de uma posição social invejável, como se diz por aí pelos “teólogos e pregadores da prosperidade”, mas, antes, em se estar “espiritualmente por cima”, ou seja, de se manter em pé, em comunhão com o Senhor, cumprindo-se o que Deus quer de cada um de nós.

    – Além destas bênçãos constantes do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, temos, também, a promessa dada pelo Senhor logo no início da jornada no deserto, em Mara, quando o Senhor deu “estatutos e uma ordenação” a Israel (Ex.15:25).

    – Ali, o Senhor deu a promessa da “bênção da saúde”, quando disse a Israel que, se ele fosse obediente, não poria nenhuma das enfermidades que havia posto sobre o Egito, porquanto Ele era o “Senhor que sara” (Javé-Rafá) (Ex.15:26).

    – Com base nesta promessa dada pelo Senhor a Israel, há aqueles que também defendem uma “imunidade contra doenças” por parte de Deus a todos quantos forem fiéis ao Senhor. A doença, dizem aqueles defensores da “teologia da confissão positiva”, seria uma prova de desobediência, um sinal de pecado.

    – Nada mais falso, porém, amados irmãos! A promessa feita pelo Senhor era, sim, de saúde, mas, notemos o que se diz: “nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que pus sobre o Egito”. Ora, quais as enfermidades que Deus havia posto sobre o Egito? As pragas decorrentes do endurecimento do coração de Faraó, os juízos consequentes da resistência à ordem do Senhor para que o povo saísse da escravidão no Egito.

    A promessa que Deus dava a Israel, portanto, não era de “imunidade contra as doenças”, de “saúde eterna”, até porque, conforme já vimos, nas próprias promessas dadas a Israel, estava a da bênção do fruto do ventre, para continuidade da existência biológica do povo, prova de que as pessoas haveriam de morrer, porquanto estamos no mundo e a morte física é um juízo estatuído por Deus a toda a humanidade por causa do pecado.

    A promessa que Deus dava a Israel é de que, se ele fosse obediente ao Senhor, não haveria como pragas e juízos em forma de enfermidades fossem lançados sobre o povo como haviam sido sobre o Egito. A obediência livra-nos de todas as enfermidades que resultam de juízos divinos, que resultam de maldições, tanto que, se houvesse desobediência, tais doenças se manifestariam no meio do povo de Israel (Dt.28:21,22,60,61).

    – Tanto assim é que um grande profeta levantado por Deus, Eliseu, morreu por causa de uma enfermidade (II Rs.13:14), doença esta que não era resultado de pecado algum, tanto que, mesmo depois de morto, ainda foi contabilizado um milagre a Eliseu, a ressurreição de um morto que tocou em seus ossos (II Rs.13:21).

    – Como diz Norbert Leith, “…Tantos vivem um cristianismo tenso porque são levados a crer que precisam ser curados de qualquer maneira. Dessa forma, muitos enfrentam os maiores problemas quando a cura não vem. O Novo Testamento fala de sofrimento físico em muitas passagens. E os cristãos não estão isentos dele; pelo contrário, são exortados a suportar os sofrimentos com ânimo e coragem.(…) cremos que Deus fa milagres ainda hoje e cura pessoas; cremos que devemos orar por elas. Mas como em todos os assuntos, a fé na cura deveria estar embasada na Escritura como um todo, para que não sejamos levados pelo engano.” (O que Jesus não carregou na cruz.  Chamada da meia-noite, ago. 2011, ano 42, n. 8, p.20).

    – A saúde aqui também está vinculada à missão que Israel deveria realizar para o Senhor diante das nações. Israel não seria atingida por juízo divino algum para que pudesse ser “reino sacerdotal e povo santo”, para que pudesse levar as nações à comunhão com o Senhor.

    OBS: O sábio judeu Rashbam, nome pelo qual é conhecido Samuel ben Meir (1085-1158), afirma o seguinte sobre esta promessa divina: “…D’us também prometeu aos judeus que se eles aceitassem as mitsvot [os mandamentos, observação nossa], Ele tomaria conta de todas as suas necessidades. Esta é a implicação do versículo: ‘então Eu não lhe atingirei com quaisquer das doenças que Eu trouxe ao Egito, pois Eu sou D’us que lhe cura’ (v.26) i.é, a praga (‘doença’) de sangue que aconteceu no Egito, impedindo os egípcios de ter água potável, não será colocada nos judeus, se eles observarem os preceitos.” (CHUMASH: o livro de Êxodo. Compil. e adapt. por Rabino Chaim Miller, p.106) (destaque original).

    – Como notamos, portanto, o Senhor estava disposto, sim, a dar prosperidade material a Israel, mas como uma forma de permitir que os israelitas cumprissem o propósito maior de ser “reino sacerdotal e povo santo”, algo bem diferente do que se anda ensinando por aí pelos falsos pregadores da prosperidade.

    – De igual modo, a Igreja, para bem cumprir a sua missão de evangelizar o mundo, tem, também, da parte de Deus, promessas condicionadas à sua obediência, mas jamais para que tenha uma vida regalada aqui na Terra, mas para que possa ser “luz do mundo” e “sal da terra”. Temos consciência disto?

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.

    (mais…)

  • Lição 2: A prosperidade no Antigo Testamento

    No Antigo Testamento, a prosperidade já era, sobretudo, um estado espiritual de comunhão com Deus.

    INTRODUÇÃO

    – Após termos visto o surgimento desta praga chamada “teologia da prosperidade”, passaremos a ver como a Bíblia trata do assunto.

    – No Antigo Testamento, a prosperidade já era, sobretudo, um estado espiritual de comunhão com Deus.

    I – O SENTIDO DA PROSPERIDADE DA CRIAÇÃO ATÉ OS PATRIARCAS

    – Para bem entendermos que é a “prosperidade bíblica”, necessário se faz que observemos, no livro sagrado, qual o propósito de Deus para o homem. Quando foi criado pelo Senhor, o homem o foi com um determinado objetivo, deveria ele cumprir um determinado papel na ordem cósmica estabelecida pelo Criador.

    – Assim, no relato da criação do homem, vemos claramente que o Senhor criou o homem para ser seu mordomo sobre a face da Terra, para ser “imagem e semelhança de Deus”, que dominasse sobre os peixes do mar, as aves dos céus e todo o animal que se movesse sobre a Terra (Gn.1:27,28).

    – Neste propósito estabelecido por Deus, é dito que o Senhor “abençoou” o primeiro casal e mandou que eles frutificassem, se multiplicassem, enchessem a Terra e a sujeitassem, dominando sobre a criação terrena.

    – Ora, neste sentido, vemos que a prosperidade, que vimos na introdução ao trimestre que é um estado de felicidade, de abundância, resultava, em primeiro lugar, da “bênção de Deus” e da obediência ao Senhor, na medida em que houvesse frutificação, multiplicação, enchimento da terra e sujeição e dominação da criação terrena por parte do homem.

    – O homem foi posto num jardim especialmente plantado por Deus para ele no Éden (Gn.2:8), um ambiente próspero, visto que havia fartura e abundância, já que o Senhor Deus havia feito brotar da terra toda árvore agradável à vista, e boa para comida. E a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal (Gn.2:9).

    – Estas circunstâncias relatadas no livro do Gênesis mostram-nos, claramente, quais eram as faces da prosperidade vivida pelo primeiro casal naquele ambiente especialmente criado para eles. Por primeiro, havia “toda árvore agradável à vista”, ou seja, um ambiente psíquico favorável ao homem, que somente veria o que era agradável e, assim, teria um grande bem não só para a sua alma e espírito, mas também para o seu corpo, já que os olhos são a candeia do corpo (Mt.6:22).

    – Por segundo, havia “toda árvore boa para comida”, ou seja, o Senhor fornecia ao homem abundância e fartura para sua sobrevivência material, dando-lhe o necessário para o seu sustento, sem qualquer preocupação para a sua manutenção sobre a face da Terra. Sem dificuldade ou preocupação, o homem tinha o suficiente para sua subsistência.

    – Por terceiro, havia “a árvore da vida no meio do jardim”, ou seja, o homem desfrutava de uma comunhão com Deus, de tal maneira que tinha pleno acesso à vida, a “vida eterna”, que nada mais é que o contato para sempre com o Senhor, o desfrute da Sua companhia e presença sem limite de tempo (cf. Gn.3:22). A felicidade repousava, também, nesta constante e eterna comunhão com o Senhor.

    – Por quarto, havia “a árvore da ciência do bem e do mal”, a árvore de cujo fruto não se poderia comer (Gn.2:16,17), que era a prova da obediência, a condição para a manutenção daquele estado de prosperidade onde o homem foi posto. Enquanto houvesse a obediência, haveria vida, haveria a comunhão com Deus e, diante da comunhão com Deus, o bem-estar psíquico e físico, a fartura espiritual e material em torno da qual se poderia cumprir o propósito estatuído pelo Criador.

    – Notamos, portanto, que, posto num ambiente originariamente próspero, o ser humano, abençoado por Deus, tinha plenas condições de cumprir o desiderato do Senhor, desiderato a ser cumprido dentro de um ambiente de prosperidade, prosperidade que, embora tendo um aspecto material, estava longe de ser reduzido a mera abundância de bens e de recursos.

    – Com a queda, esta situação se alterou radicalmente. A situação de prosperidade se desfez. Em virtude da desobediência, em vez de bênção, adveio maldição sobre a Terra, que passou a produzir cardos e espinhos, de forma que não estava mais à disposição da satisfação das necessidades do homem (Gn.3:17,18).

    – O homem também passou a ter de trabalhar penosamente para sobreviver, passando a ter de tirar da Terra, já não mais à sua disposição, o necessário para a sua subsistência (Gn.3:19). Passou, então, a ter de buscar o sustento da criação terrena, não havendo, pois, mais aquele bem-estar físico e psíquico que caracterizaram a sua vida no jardim do Éden.

    – Por fim, o acesso à árvore da vida lhe foi vedado, sendo ele mesmo expulso do jardim que o Senhor havia plantado (Gn.3:22-24), de sorte que não havia mais a comunhão com Deus, a eternidade passou a ser algo tenebroso a ser vislumbrado no horizonte do homem, pois seria uma eternidade sem Deus.

    – Já neste primeiro relato a respeito do homem, notamos que a prosperidade é um estado sobretudo espiritual, uma felicidade que decorre da bênção de Deus, que está condicionada à obediência do homem a Deus e que apresenta elementos prioritariamente espirituais e que tem, sim, uma repercussão material, mas que está longe de se reduzir a isto.

    – No relato a respeito de Caim, vemos, claramente, como a prosperidade não está reduzida, em absoluto, a aspectos materiais. Se formos analisar a civilização caimita sob o aspecto material, temos de concluir que se tratava de uma civilização avançada e “próspera”, já que Caim fundou a primeira cidade que se tem notícia, bem como seus descendentes deram início à agropecuária, às artes e à indústria (Gn.4:17, 20-22), fatores que, de forma inequívoca, propiciaram aos homens excelentes condições para conseguirem o seu sustento sobre a face da Terra.

    – No entanto, a descrição bíblica mostra que os caimitas construíram uma civilização completamente alheia ao Senhor, civilização que gerou, em todo o mundo, uma corrupção generalizada, com multiplicação da maldade, inclusive na imaginação dos pensamentos do coração do homem, a tal ponto que o Senhor decidiu destruir toda aquela geração (Gn.6:5-7).

    – Havia, assim, fartura material que, entretanto, não significava “prosperidade”, pois a felicidade não era alcançada. Deixando Deus de lado, os caimitas, que, inclusive, chegaram a envolver os setitas nesta situação, geraram a própria destruição, ocorrida com o dilúvio. De nada adiantou o desenvolvimento tecnológico, o avanço  científico, a criação de condições que melhoraram grandemente o sustento do homem sobre a Terra, pois tudo isto foi desfeito com o juízo divino.

    – Após o dilúvio, porém, logo as circunstâncias novamente se deterioraram. Também se constituiu uma situação amplamente favorável ao progresso material, como se vê da descrição do governante daquela comunidade única formada após o dilúvio, Ninrode, que foi chamado de “poderoso caçador diante da face do Senhor” (Gn.10:9), expressão que nos dá conta de que se tratava de alguém que estava a bem dominar a natureza, a obter condições favoráveis para o sustento não só seu mas de toda a comunidade sob o seu governo.

    – Todavia, mais uma vez, esta busca pela satisfação das necessidades materiais estava apartada de Deus e, como tal, redundou em novo juízo, com a confusão das línguas e o espalhamento da comunidade pelo planeta, uma vez que não é possível um estado de felicidade real sem que se tenha comunhão com o Senhor, sem que se tenha obediência a Deus.

    – Este descolamento entre bem-estar material e a verdadeira prosperidade é ilustrada na situação vivida por Abrão. Abrão, ao ser chamado por Deus, já era rico. Ao sair de Ur dos caldeus, Abrão tinha um considerável patrimônio (Gn.12:5), prova de que o seu bem-estar material nada tinha que ver com a sua situação espiritual.

    – Ao descer para o Egito, em total desobediência ao Senhor, nem por isso deixou de ter aumento em suas riquezas (Gn.12:16). Inobstante, isto não agradou ao Senhor, tanto que Deus providenciou uma forma de Abrão tornar a Canaã, com sua expulsão do Egito por Faraó, ainda que sem perda do que adquirira em sua desobediente migração (Gn.12:20).

    – Outro exemplo de fartura de bens que não corresponde a qualquer bem-estar espiritual vemos nas cidades da planície, situação que fez com que Ló resolvesse habitar nas campinas de Sodoma (Gn.13:10,11), cidade que tinha imensa fartura material (Ez.16:49), mas que, espiritualmente, era tão nefasta que acabou sendo destruída pelo próprio Deus.

    – Ao mesmo tempo, vemos que, na vida de Isaque, a sua obediência ao Senhor repercutiu materialmente, na medida em que o patriarca teve colheitas abundantes após ter permanecido em Canaã apesar da fome que havia na terra (Gn.26:1,12-14). Apesar desta repercussão material, notemos que a promessa dada a Isaque era sobretudo espiritual, a mesma promessa feita a Abraão de que, por ele, seriam benditas todas as nações da terra (Gn.26:3,4).

    – Com respeito a Jacó, a situação não foi diferente. Todo o progresso material de Jacó se deu durante os anos em que Jacó esteve apartado do Senhor, sem sequer levantar um altar a Deus durante todo o tempo em que esteve em Padã-Arã. Somente quando de lá retornou, já com um grande patrimônio, é que se encontrou com o Senhor, pedindo-Lhe uma bênção, numa clara demonstração de que toda aquela opulência nada significava para quem tornara a se despertar para as promessas que o Senhor lhe havia feito, a bênção de Abraão, da qual somente pôde desfrutar quando tirou os deuses estranhos que havia em sua casa (Gn.31:12,13; 32:26; 33:20; 35:1-7).

    – Com José, como bem explica o pastor Esdras Costa Bentho, chefe do Setor de Bíblias e Obras Especiais da CPAD, vemos, claramente, que a prosperidade não é uma situação de bem-estar material, visto que, ao contrário dos “teólogos da prosperidade”, a situação de felicidade não surgiu apenas quando José se tornou governador do Egito.

    – Com efeito, uma das palavras utilizadas para “prosperar” na Bíblia é “tsalach”(???), palavra que significa “ter sucesso”, “dar bom resultado”, “experimentar abundância” e “fecundidade” (Gn.24:21,56; 39:3; Nm.14:41; Dt.28:29; I Cr.22:11; II Cr.20:20; 26:5; Sl.1:3; 118:25; Pv.28:13; Is.53:10; 54:7; 55:11; Jr.12:1). Como explica o pastor Esdras Bentho, desde o início, José foi abençoado por Deus e é nesta bênção que se encontra o segredo da prosperidade bíblica. “…apenas os que compreendem o que de fato é a verdadeira prosperidade são capazes de compreender o sucesso em meio ao ódio, castigos e prisões (Gn 45.5,7-9). O plano dos irmãos de José era matá-lo, porém Deus interveio conservando-lhe a vida (Gn 37.20-22). Os mercadores ismaelitas poderiam vendê-lo para qualquer outra tribo ou povo, mas por que o Egito? Porque Deus o estava conduzindo até a terra dos faraós. No Egito, poderia ser vendido a qualquer nobre, mas por que a Potifar? Porque era na casa de Potifar que ele enfrentaria a mais dura prova até ser levado ao governo do Egito. Deus estava em todas as circunstâncias guiando os passos de José (Sl 37.23). A prosperidade na vida de José não é medida pelo grau de privilégios que ele desfrutou até ser governador, mas em cumprir a vontade de Deus em todas circunstâncias e vicissitudes.…” (A prosperidade bíblica. Disponível em: http://cpadnews.com.br/blog/esdrasbentho/?POST_1_23_A+PROSPERIDADE+B%C3%ADBLICA.html Acesso em 21 nov. 2011). Tanto assim é que José é chamado de “próspero” quando estava na casa de Potifar (Gn.39:2), pois, embora fosse um escravo, sem qualquer patrimônio, “Deus estava com ele”!

    – Com a formação da nação de Israel, escolhida para ser “a propriedade peculiar de Deus entre os povos” (Ex.19:5), este real sentido da prosperidade no Antigo Testamento é explicitado, na medida em que, ao longo da história daquele povo, entenderemos o que era a felicidade proporcionada pela bênção de Deus e quais as suas dimensões, consoante veremos na próxima lição.

    – De tudo que relatamos, é importante observar que, em momento algum, vemos Deus entregando o domínio da natureza ao homem, nem tampouco a entrega da Terra do homem para o diabo, como defendem os “teólogos da prosperidade”.

    – É evidente que, em comunhão com Deus, o homem tinha condições amplamente favoráveis para desempenhar o seu papel de mordomo sobre a criação terrena e que, com o pecado, tenha perdido tais condições, mas isto não significou que o homem fosse privado do acesso aos recursos materiais, pois o Senhor não o impediu de fazê-lo, tendo apenas determinado que tal se fizesse por força do trabalho penoso.

    – Por causa do pecado, passou a ter de lutar para a sua própria sobrevivência e, o fato de ser pecador, não o impediu de ter êxito na criação de condições para usufruir de abundância material, abundância esta, entretanto, que não tinha como livrá-lo da escravidão do pecado, cujo salário era a morte e a aplicação do juízo divino, como ficou claro seja no dilúvio, seja na confusão das línguas em Babel, seja na destruição das cidades da planície.

    – A abundância de riquezas, de recursos materiais é mostrada como algo que nem sempre decorre de uma relação de obediência a Deus. Pelo contrário, em virtude do pecado, chegou-se à circunstância de que esta opulência e fartura decorriam de uma situação de iniquidade, de injustiça, como se vê, claramente, em Sodoma, onde, ao lado da fartura de pão e ociosidade, havia um estado de soberba e de completa exploração e maltrato do necessitado (Ez.16:49).

    – A própria descrição da vida de José é a demonstração do aviltamento do ser humano em meio à opulência, como se vê no próprio relato da instituição da escravidão no Egito, a demonstrar que a posse das riquezas estava umbilicalmente relacionada a uma situação de injustiça social e de opressão, resultado do pecado.

    – Na própria vida dos patriarcas, há a demonstração de que a situação patrimonial favorável nem sempre correspondia a um estado de comunhão com Deus, a demonstrar, pois, que “prosperidade” não significa, em absoluto, posse de riquezas, mas, sim, um estado de comunhão com Deus, de submissão aos propósitos divinamente estabelecidos.

    II – A PROSPERIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO

    – Para termos uma noção do significado de “prosperidade” no Antigo Testamento, de uma forma genérica, sem adentrar no relacionamento entre Deus e Israel, que será o tema da próxima lição, podemos nos valer das expressões hebraicas utilizadas para “prosperidade”, valendo-se aqui, uma vez mais, de um estudo do pastor Esdras Costa Bentho (A prosperidade no Antigo Testamento. Disponível em: http://teologiaegraca.blogspot.com/2007/11/prosperidade-no-antigo-testamento-cinco.html Acesso em 21 nov. 2011).

    – Conforme salientado na introdução ao trimestre, na Bíblia Sagrada, na Versão Almeida Revista e Corrigida, a palavra “prosperidade” aparece por 11 (onze) vezes (Et.10:3; Jó 21:13; Sl.30:6; 35:27; 73:3; 122:7; Pv.1:32; Ec.7:14; Jr.22:21; At.19:25; I Co.16:2). Em todas estas passagens, a palavra denota um estado de abundância e de fartura, não somente material, mas, também, um estado de felicidade.

    – Em Et.10:3, a Bíblia de Jerusalém, inclusive, traduz “prosperidade” por “felicidade”, sendo que a palavra hebraica aqui é “shalom” (???), cujo significado mais conhecido é “paz”, no sentido de uma completude, de não haver falta de coisa alguma, mesma palavra encontrada no Sl.73:3.

    – A “prosperidade” é, assim, este estado em que a pessoa não sente falta de coisa alguma, algo que somente se conquista para o ser humano quando se está em comunhão com o Senhor, que é o seu Criador. Temos, então, que se trata de uma circunstância em que a pessoa se encontra com Deus, precisamente o estado descrito em Gn.39:2 com relação a José.

    – A comunhão com Deus apresenta-se, pois, como a fonte da prosperidade. No Éden, como vimos, o pleno acesso à árvore da vida permitia a manutenção do estado de coisas amplamente favorável ao homem, seja no aspecto psíquico, seja no aspecto físico, seja no aspecto espiritual. O homem se completava em Deus e, portanto, tinham uma felicidade indizível.

    – Esta mesma circunstância é ilustrada pelo salmista quando ele diz que o justo é como “a árvore plantada junto ao ribeiro de águas a qual dá o seu fruto na estação própria e cujas folhas não caem e tudo quanto fizer prosperará” (Sl.1:3). Ao nos mostrar o justo desta maneira, o salmista nos mostra que a fonte da prosperidade é a nossa ligação com “o ribeiro de águas”, ou seja, com o Senhor. A prosperidade é resultado desta relação de completude decorrente de nossa comunhão com Deus.

    – Esta mesma ideia é apresentada pelo profeta Jeremias, que afirma que quem confia no Senhor e cuja esperança é o Senhor é bem-aventurado, pois é como a árvore plantada junto às águas e estende as suas raízes para o ribeiro e que, por isso, mesmo no ano da sequidão não se afadiga nem deixa de dar fruto (Jr.17:7,8), a nos mostrar que a prosperidade não decorre de fatores externos (“o ano da sequidão”), mas, sim, do fato de o justo estar ligado diretamente ao Senhor, de ter nele as suas raízes.

    – Não é por outro motivo que o rei Josafá disse ao povo que se eles cressem no Senhor Deus estariam seguros e se cressem nos profetas, seriam prosperados (II Cr.20:20), ou seja, o sucesso naquela guerra dependia da confiança deles em Deus, a fonte da prosperidade, a fonte do sucesso.

    – O proverbista bem salienta este aspecto ao dizer que a manutenção do pecado encoberto, sem confissão, impede a prosperidade do ser humano (Pv.28:13). Não há como se ter real prosperidade sem que se elimine a problemática do pecado, que é quem faz divisão entre o homem e Deus (Is.59:2). Não há como se ter prosperidade sem que se tenha, novamente, acesso à árvore da vida, o que somente se obtém pelo perdão dos pecados pela fé em Cristo Jesus.

    – Em Dt.29:9, o verbo “prosperar” é tradução do hebraico “sakal” (???), que o pastor Esdras Bentho denominou de “a sabedoria que traz prosperidade”. Diz o renomado hermeneuta bíblico: “…textualmente significa ‘ser sábio’, ‘agir sabiamente’ e, por extensão, ‘ter sucesso’. Esta palavra está relacionada à vida prudente, ao agir cautelosa e sabiamente em todos os momentos e circunstâncias…” (A prosperidade no Antigo Testamento. end. cit.).

    – No texto de Dt.29:9, a palavra é utilizada como resultado da guarda das palavras do concerto firmado entre Deus e Israel e de seu cumprimento. A ideia de prudência leva-nos à “ciência do Santo” (Pv.9:10), ou seja, ao “conhecimento de Deus”. A prosperidade é o resultado de se conduzir prudentemente, ou seja, de se conhecer a Deus e ir somente até onde a mão de Deus alcança.

    – A prosperidade, neste sentido, é apresentada como a consequência de se obedecer ao Senhor, de se tornar efetiva a condição da obediência que garante a nossa permanência com Deus, a nossa comunhão de forma a permitir que desfrutemos das Suas bênçãos.

    – Desta forma, para mais uma vez ilustrarmos com a vida de José, vemos que ele se manteve próspero quando não pecou com a mulher de seu senhor. Embora tivesse sido levado para o cárcere, não deixou de ser próspero, visto que, por ter se conduzido com prudência, ali também o Senhor permaneceu com ele (cf. Gn.39:20,21).

    – Foi o que o Senhor também prometeu a Josué, quando afirmou que, se ele meditasse dia e noite na lei, ele prosperaria e prudentemente se conduziria (Js.1:8), trecho que, a um só tempo, nos fala da prosperidade tanto como sucesso (a palavra traduzida por “prosperar” em Js.1:8 é “tsalach”) como também da “condução prudente” (a palavra utilizada é “sakal”). O Messias, o “Renovo justo” caracteriza-se por ser alguém que “reina e prospera”, precisamente porque se conduz prudentemente, já que a palavra “prosperar” aí é, precisamente, “sakal” (Jr.23:5). Não é à toa que Davi, tipo do Messias Rei, foi alguém que sempre se conduziu prudentemente, numa clara prova de que “Deus era com ele” (I Sm.18:14),

    – Quando se está debaixo da mão do Senhor, quando se está em comunhão com Deus, as atitudes são prudentes e, nesta prudência, jamais deixamos de receber a bênção do Senhor, jamais somos privados de nossa vida eterna. José, acusado de tentar violentar a mulher de seu senhor, foi para o cárcere, quando deveria simplesmente ser morto, mas não foi morto porque não era este o propósito divino para ele. Jó perdeu todos seus bens como também a sua saúde além de sua família, mas não perdeu a mulher nem a vida, porque não era este o propósito de Deus para com ele. A prosperidade faz com que jamais os projetos divinos frustrem-se em nossas vidas, jamais faz com que percamos a vida eterna, a comunhão com Ele.

    – No Sl.30:6, a palavra “prosperidade” é a palavra hebraica “shelev” (????), que é derivada de “shalom” e que a Bíblia de Jerusalém traduziu por “tranquilo”. É a mesma palavra encontrada no Sl.122:7, em Pv.1:32 e em Jr.22:21.

    – No Sl.122:6, é dito que “prosperarão aqueles que te amam”, ou seja, aqueles que amassem Jerusalém, o “lugar da presença de Deus”. A palavra ali utilizada é, precisamente, “shalah”, derivado de “shalom”, como a demonstrar que o resultado de se amar a Deus, de com ele querer ter comunhão traz como resultado, precisamente, a “prosperidade”, esta situação de completude em Deus, aquela mesma comunhão desfrutada pelo primeiro casal antes da queda.

    – Com relação a este termo, “shalah”, o pastor Esdras Bentho o denomina como “o estado de imperturbabilidade da prosperidade”. “…O termo significa ‘estar descansado’, ‘estar próspero’, ‘prosperidade’. O termo também diz respeito à prosperidade do ímpio (Jr 12.1). Porém, o foco que pretendo destacar é o flagrante estado de ‘imperturbabilidade’ que pode levar ao orgulho. No Salmo 30.6 o poeta afirma: ‘Eu dizia na minha prosperidade [sh?lâ]: Não vacilarei jamais’. Derek Kidner (1981, p.148) afirma que a raiz hebraica que dá origem a palavra prosperidade nesse versículo refere-se às ‘circunstâncias fáceis, ao ponto de vista despreocupado, ao descuido e à complacência fatal’ (Jr 22.21; Pv 1.32).…” (A prosperidade no Antigo Testamento. end.cit.)

    – Pelo que se pode verificar, portanto, a “prosperidade” aqui é considerada um estado de tranquilidade, de despreocupação, que, no entanto, pode levar ao descuido, que pode levar a pessoa a um fracasso, a um engano. É por isso que “a prosperidade dos ímpios” é relacionada a este termo hebraico, sendo uma situação de suposto bem-estar que faz com que a pessoa não se preocupe em ter qualquer comunhão com Deus, o que, lamentavelmente, fará com que, ao término da vida, tenha este “próspero” um final triste, que é a perdição eterna, como o Senhor bem mostrou ao salmista Asafe (Sl.73:17).

    – A “prosperidade bíblica” traz uma sensação de tranquilidade e de segurança, mas que resulta da confiança em Deus, não da confiança nas coisas desta vida. Nós teremos “real prosperidade” quando a nossa confiança estiver em o nome do Senhor nosso Deus, não em carros ou cavalos (Sl.20:7), muito menos nas riquezas (Sl.62:10; I Tm.6:17).

    – O Senhor Jesus disse que um dos grandes obstáculos para a salvação é, precisamente, a segurança gerada pela posse de bens materiais nesta Terra (Mt.19:22-24), pois a fartura material leva muitos a desprezarem a comunhão com Deus (Pv.30:9a).

    – A tranquilidade e segurança decorrentes da prosperidade têm de estar baseadas no Senhor, sem o que se terá descuido, algo que, como já vimos, não representa prosperidade, que está sempre aliada à prudência, que é o oposto do descuido e da negligência.

    – Em Jó 21:13, a palavra “prosperidade” é, no original hebraico, “towb” (???), que a Bíblia de Jerusalém também traduz por “felicidade”, e cujo significado é de “bem”. É a mesma palavra encontrada em Ec.7:14.

    – A “prosperidade” é, portanto, um “bem”. Mas o que é o “bem”, quais são os “bens”? Seriam os “bens materiais”, as “riquezas”? Não necessariamente. Já vimos que algumas coisas que, aparentemente, seriam ruins, tornam-se em “bens”, vez que atendem aos propósitos do Senhor e, conquanto pareçam ser males, não impedem que o bem advenha oportunamente.

    – Assim, o “cárcere” para José era um bem, na medida em que significou tanto o livramento de morte certa, o que o impediria de ser o instrumento para a sobrevivência da futura nação israelita, como também foi o meio pelo qual Deus fez com que tivesse ele o contato com o copeiro-mor de Faraó e, deste modo, propiciar-lhe o acesso ao rei do Egito.

    – No texto de Jó 21:13, inclusive, Jó chama de “prosperidade” aquela situação de tranquilidade já aqui aventada, circunstância que Jó não deixou de mostrar ser ilusória, na medida em que sucedida pela repentina descida à sepultura, mas que não deixou de ser acompanhada de um desprezo de Deus enquanto em vida (Jó 21:14-16).

    – Jó é bem claro ao mostrar que o “bem” não se encontra na posse de riquezas, não se encontra sequer nas mãos dos ricos e poderosos, mas, sim, na obediência ao Senhor, de onde provém todo o “bem”.

    – O “bem” é dado por Deus e é por isso que o salvo em Cristo Jesus sempre desfruta do “bem”, ainda que este “bem” não seja o acúmulo de riquezas, pois todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados pelo Seu decreto (Rm.8:28).

    – O Senhor Jesus disse, claramente, que o Senhor dará “bens”, “boas dádivas” aos que Lho pedirem (Mt.7:11), “bens” estes que não são “bens materiais”, mas aquilo que nos fará bem, ou seja, aquilo que produzirá em nós uma maior aproximação de Deus até que cheguemos à a salvação das nossas almas, o fim da nossa fé (I Pe.1:9), como deixa clara a passagem correlata de Lucas, quando se menciona o Espírito Santo como a dádiva disponível aos salvos (Lc.11:13), bem como a menção do apóstolo Paulo ao fato de o Senhor nos abençoou todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Ef.1:3).

    – Em Ec.11:14, o “dia da prosperidade” é o dia do bem-estar, o dia em que tudo dá certo, o dia do sucesso. No entanto, a Bíblia diz que Deus também dá o “dia da adversidade”, ou seja, o dia mau, o dia em que nada dá certo. O “bem” é que, mesmo no dia da adversidade, esta dificuldade tem não um intento destruidor, mas contribui, coopera para que, através deste mal aparente, alcancemos a salvação, como indicará o apóstolo Pedro (I Pe.1:5-9), visto que a adversidade não poderá nos impedir de manter a comunhão com o Senhor, tornar-nos-á ainda mais íntimos d’Ele e, assim, prosseguiremos para alcançar a salvação das nossas almas.

    – O pastor Esdras Bentho ainda apresenta um outro termo que significaria “prosperidade”, a saber, o termo “chaya”(???). “…Literalmente a palavra significa ‘viver’ ou ‘permanecer vivo’, entretanto, em certos contextos significa ‘viver prosperamente’…” (A prosperidade no Antigo Testamento. end. cit.). Este termo significaria “viver prosperamente” em passagens como II Rs.18:32 e I Sm.10:24.

    – No primeiro texto (II Rs.18:32), o rei assírio Senaqueribe oferece aos judaítas uma “vida próspera” em outro lugar que não a terra de Judá, para onde ele os levaria se se rendessem ao seu exército. Aqui temos a ideia de uma “vida farta”, “…uma terra detrigo e de mosto, de azeite e de mel”. Uma proposta de bem-estar material mas fora do lugar escolhido por Deus. Algo que faz sentido na boca de um rei gentio, que não cria que Deus poderia livrar o povo judaíta, mas que, lamentavelmente, vemos repetidamente nos lábios dos “teólogos da prosperidade”. Tomemos muito cuidado!

    – No segundo texto (I Sm.10:24), temos a exclamação do povo de Israel, ao proclamarem o seu primeiro rei, com o desejo ardente de que ele fosse próspero, ou seja, de que ele tivesse uma vida farta, uma vida longa, uma vida na presença de Deus.

    – Neste ponto, devemos aqui lembrar que Jó foi objeto desta “prosperidade”, visto que é dito que morreu “velho e farto de dias” (Jó 42:17). Quando a longevidade é considerada uma bênção divina, ela advém, precisamente, de uma vida de retidão e de comunhão com Deus. O primeiro mandamento com promessa é o da honra a pai e mãe, obediência que resulta em longevidade (Ef.6:2,3). Esta longevidade prometida a quem honra pai e mãe é uma figura da vida longa e boa que se promete a quem honrar o Pai, é um símbolo, um sinal desta “prosperidade” que é prometida aos que forem fiéis ao Senhor.

    – A longevidade não é apenas quantitativa. Não se trata apenas de se ter muitos anos de vida, mas a promessa divina diz que, além de longa, a vida será boa durante todos estes anos. Jó não era apenas “velho”, mas, também, “farto”, ou seja, sua vida não só durou bastante, mas também era de boa qualidade.

    – Este aspecto qualitativo da vida próspera mostra-nos porque a simples posse de riquezas ou de recursos nada significa. Ao contrário dos gananciosos que se denominam “teólogos da prosperidade”, o servo de Deus desfruta de uma vida qualitativamente boa, não de uma vida que se resuma a quantias, a quantidades.

    – Como bem diz Salomão, “a fartura do rico não o deixa dormir” (Ec.5:12b), o que bem demonstra que a abundância de riquezas não significa uma vida tranquila e boa por si só, pois nem sempre a quantidade de bens resulta em qualidade de vida.

    – O pastor Esdras Bentho ainda faz alusão a um outro termo hebraico que fala de “prosperidade”, a palavra “dashem”(???), que ele denomina como “prosperidade abundante”. “…Este termo é mais frequente nos textos poéticos do que nos prosaicos. Logo, trata-se de um vocábulo poético e idiomático hebreu. Literalmente significa ‘engordar’, ‘ser gordo’ e, consequentemente, ‘ser próspero’(…). O hebraísmo d?sh?m, isto é, gordura, descreve duas verdades concernentes à prosperidade: suficiência e sentimento de bem-estar advindo da prosperidade.…” (A prosperidade no Antigo Testamento. end. cit.).

    – Como explica o pastor Esdras Bentho, o fato de, nos momentos de prosperidade da terra, o gado apresentar-se gordo logo fez com que os hebreus associassem a “gordura” à “prosperidade”, à circunstância da fartura, do bem-estar, tanto que foi este o teor da bênção de Isaque a Jacó (Gn.27:28).

    – É interessante observar que, mesmo se referindo à “gordura” a um estado de bem-estar decorrente de fartura e de suficiência e, portanto, um aspecto que poderia ser tomado como predominantemente material, tem-se que, mesmo assim, a “gordura” jamais é associada a um espírito egocêntrico, a uma ideia de acúmulo de riquezas para si, como vemos hoje entre os “teólogos da prosperidade”.

    – Em Pv.11:25, a “gordura” é apresentada como uma consequência de uma alma generosa, ou seja, é nítido que se tende que a suficiência de recursos, a fartura material não é um bem em si mesmo mas, bem ao contrário, é uma dádiva de Deus para que se exerça a generosidade, para que se ajude o necessitado e o carente, o “magro”.

    – No próprio sonho de Faraó interpretado por José, as “vacas gordas”, que simbolizavam os anos de fartura, deveriam ser consideradas, pelo sábio conselho de José, como uma oportunidade para o armazenamento para o período das “vacas magras”. A “gordura” é uma demonstração de suficiência e de bem-estar, mas não para que seja acumulado e desfrutado por alguém solitariamente, mas, inclusive, para que seja possível o bem-estar de todos.

    – Não é por outro motivo, aliás, que era precisamente a “gordura” que era oferecida ao Senhor nos sacrifícios pacíficos (Lv.3:3-5), numa belíssima figura de que a “gordura” deve ser apresentada a Deus, deve constituir uma razão para que glorifiquemos ao Senhor, glorificação que se faz, hoje em dia, com as nossas boas obras (Mt.5:16), os sacrifícios da beneficência e da comunicação que são agradáveis ao Deus (Hb.13:16).

    – O Antigo Testamento ensina que todos os bens pertencem a Deus (Sl.24:1), que o Senhor é o dono da prata e do ouro (Ag.2:8). “…E, obviamente, uma vez que Deus havia dado a terra com ‘todas as suas riquezas’ — a prata e o ouro — somente aos ricos e poderosos, os Sábios deduziram daí que Deus tinha uma dívida material para com os pobres que tinham sido deixados de mãos vazias. Por consequência. Fazer com que essa dívida fosse paga aos pobres pelos ricos constituía um ato de ‘justiça’ e, portanto, de ‘virtude’. Além disso, acreditavam que quando Deus havia dado a riqueza aos abastados, não as havia entregue em caráter definitivo, nem como recompensa por suas ações ou por qualquer mérito especial. Era somente para que a retivessem em custódia para os pobres! Os ricos seriam, assim, meros agentes fiscais de Deus, por assim dizer, em favor dos pobres! Entender a tzedakah [caridade, observação nossa] aos pobres ‘com todo o coração’ tinha, portanto, a significação intrínseca de um ato de ‘virtude’. Daí ter-se desenvolvido o axioma que, se os ricos fossem realmente honestos e tementes a Deus, distribuiriam prazerosamente a riqueza que retinham em custódia de Deus, entre os inúmeros credores de Deus — os pobres, os doentes, os desamparados, os necessitados etc.…” (AUSUBEL, Nathan. Caridade. In: A JUDAICA, v.5, p.114) (destaques originais).

    – A própria consideração, portanto, da prosperidade como “gordura”, como algo que tem um aspecto material predominante não isenta a relação que a prosperidade tem com Deus e com a necessidade de demonstração do amor de Deus ao homem. Mesmo sob este aspecto, a prosperidade faz com que o homem seja um instrumento divino para a realização da justiça, para a prática do amor ao próximo, virtude já exigida na lei de Moisés (Lv.19:18).

    – Pelo que se vê, pois, ao contrário do que se apregoa irresponsavelmente por aí, pela boca dos “teólogos da prosperidade”, o Antigo Testamento, em momento algum, reduziu a noção de prosperidade a um aspecto material.

    – A prosperidade é mostrada, nas páginas do Antigo Testamento, como um estado de comunhão com Deus, como uma situação de paz, tranquilidade, sossego e segurança decorrentes de uma vida de submissão e obediência a Deus que pode trazer um bem-estar material, mas que não significa abundância de riquezas, mas, sim, bênçãos sobretudo espirituais que, se acompanhadas de um bem-estar material, tem de fazer com que este bem-estar seja traduzido em boas obras, em ajuda aos necessitados e carentes.

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.

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  • Lição 1: O Surgimento da Teologia da Prosperidade


    A palavra “prosperidade” vem do latim “prosperitas”, cujo significado era “ventura, boa saúde, felicidade”, palavra que, com o tempo, adquiriu o significado de “estado do que é ou se torna próspero; grande produção de alimentos e bens de consumo; abundância, fartura; acúmulo de bens materiais; fortuna, riqueza”, como nos dá conta o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

    “Prosperidade” é, assim, um estado de felicidade, de abundância, que, cedo foi traduzido por uma situação de abundância, de fartura de bens materiais.

    Na Bíblia Sagrada, na Versão Almeida Revista e Corrigida, a palavra “prosperidade” aparece por 11 (onze) vezes (Et.10:3; Jó 21:13; Sl.30:6; 35:27; 73:3; 122:7; Pv.1:32; Ec.7:14; Jr.22:21; At.19:25; I Co.16:2). Em todas estas passagens, a palavra denota um estado de abundância e de fartura, não somente material, mas, também, um estado de felicidade.

    Em Et.10:3, a Bíblia de Jerusalém, inclusive, traduz “prosperidade” por “felicidade”, sendo que a palavra hebraica aqui é “shalom” (???), cujo significado mais conhecido é “paz”, no sentido de uma completude, de não haver falta de coisa alguma. A “prosperidade” é, portanto, este estado em que a pessoa não sente falta de coisa alguma, algo que somente se conquista para o ser humano quando se está em comunhão com o Senhor, que é o seu Criador. É a mesma palavra que se encontra no Sl.73:3

    Em Jó 21:13, a palavra “prosperidade” é, no original hebraico, “towb” (???), que a Bíblia de Jerusalém também traduz por “felicidade”, e cujo significado é de “bem”. É a mesma palavra encontrada em Ec.7:14.

    No Sl.30:6, a palavra “prosperidade” é a palavra hebraica “shelev” (????), que é derivada de “shalom” e que a Bíblia de Jerusalém traduziu por “tranquilo”. É a mesma palavra encontrada no Sl.122:7, em Pv.1:32 e em Jr.22:21.

    Em o Novo Testamento, a palavra prosperidade em At.19:25, palavra utilizada por Demétrio, ourives da prata que fazia imagens de Diana em Éfeso, é “euporia” (???????), cujo significado é de “riquezas, recursos”. Já em I Co.16:2, a palavra grega é “euodóo” (??????), um verbo cujo significado é “ter recebido sucesso”, “ter sido bem sucedido”, tanto que a Versão do Rei Tiago traduz a passagem como “que Deus tem prosperado”.

    Assim, embora o vocábulo, em o Novo Testamento, tenha um sentido material, é importante observar que a prosperidade, no texto de Paulo, é vinculada à ação divina, enquanto que o texto de Atos reproduz o entendimento de um gentio idólatra, e, como tal, circunscrito ao sentido puramente material de “prosperidade”.

    Só pelo que vimos, numa rapidíssima verificação dos textos da Versão Almeida Revista e Corrigida que trazem a palavra “prosperidade” já podemos afirmar que a “prosperidade bíblica”, a “verdadeira prosperidade”, de forma alguma, está confundida com puro e simples bem-estar econômico-financeiro, como, lamentavelmente, se está a propagar no meio da Igreja, notadamente nos últimos trinta anos, quando a “teologia da prosperidade” passou a ser adotada por muitos dos que cristãos se dizem ser.

    O estudo deste trimestre letivo apresenta-se como fundamental para que, devidamente armados com a “espada do Espírito”, saibamos extirpar esta erva daninha que se tem introduzido em nossas igrejas locais, bem entendendo qual é a “verdadeira prosperidade”, qual é a “vida cristã abundante”, que nada tem que ver com “muito dinheiro no bolso”, como diz conhecida canção dos festejos de Ano Novo.

    A capa da revista do trimestre mostra-nos uma pessoa com trajes típicos dos tempos bíblicos segurando em suas mãos um pão e um recipiente que traz algo de beber. Seus trajes são brancos, parecendo ser de linho.

    Esta enigmática ilustração reporta-nos a três passagens bíblicas que nos dão o verdadeiro sentido da prosperidade nas Escrituras Sagradas.

    A primeira é o que diz o sábio Agur, em Pv.30:7-10, em que pede ao Senhor a “porção acostumada do pão”, não desejando nem a pobreza, para que não venha a furtar para sobreviver e, assim, pecar contra o Senhor, nem tampouco a riqueza, para que não venha a achar que não precisa de Deus e despreze ao Senhor.

    A pessoa da capaz tem o suficiente para sobreviver, ou seja, a comida e a bebida, além do vestido, a provar que Deus promete e garante a benção da abastança, o necessário para passarmos dignamente por esta Terra. É aí que nos recordamos das palavras do apóstolo Paulo em I Tm.6:7-10, onde se diz que devemos nos contentar com o suficiente e o necessário para o nosso sustento e para o nosso vestido, não querendo ser ricos, pois isto é laço de tentação que nos fará amar o dinheiro e nos fará desviar da fé.

    Por fim, a pessoa que tem o suficiente para se sustentar e se vestir, apresenta trajes brancos de linho, símbolo nas Escrituras da vida santa, da vida de comunhão com Deus, pois as vestes de linho são as “justiças dos santos” (Ap.19:8), o que nos mostra, claramente, que a verdadeira prosperidade bíblica tem cunho espiritual, é a comunhão que obtemos com Deus através de Jesus Cristo, que nos garante a vida eterna e a felicidade, que é mais que felicidade, as bem-aventuranças, que nos farão estar sempre com o Senhor.

    Algo que também nos chama a atenção na ilustração da capa é o fato de que a pessoa segura o pão e o recipiente do líquido em suas mãos, num gesto que não é de egoísmo, mas que nos transparece que vai oferecer aquilo que tem.

    Isto nos ensina que a prosperidade bíblica é, também, voltada para a ajuda ao próximo, para o compartilhamento com o carente, não é uma prosperidade movida por uma ganância, por um egoísmo, como se vê em toda a pregação da teologia da prosperidade, o que nos faz lembrar o que está escrito em II Co.8:14, quando o apóstolo Paulo nos mostra que a abundância que nos vem é para suprimento da falta dos outros.

    É graças a esta verdadeira prosperidade, que nos faz ter comunhão com Deus, que nos faz amar ao Senhor e ao próximo como a nós mesmos, que teremos a bênção da abastança durante esta passagem pela Terra e que fará viver eternamente com o Senhor. É isto que Deus nos promete e é isto que nos dará.

    Após uma lição introdutória, em que estudaremos como surgiu a “teologia da prosperidade” (lição 1), passaremos ao estudo do que é a prosperidade bíblica, verificando como a prosperidade era tratada no Antigo Testamento (lições 2 e 3) e, depois, em o Novo Testamento (lição 4), encerrando-se, assim, o primeiro bloco, em que teremos uma ideia do que é a prosperidade na Bíblia.

    Em seguida, no segundo bloco, faremos algumas análises importantes para evitar que sejamos enganados pela herética “teologia da prosperidade”, vendo a distinção entre as bênçãos de Israel e o que cabe à Igreja (lição 5), qual o significado da prosperidade prometida aos salvos, isto é, aos bem-aventurados (lição 6), bem como o sentido da expressão paulina “tudo posso n’Aquele que me fortalece”, tão indevidamente utilizada pelos teólogos da prosperidade (lição 7). Ainda neste bloco, para desfazer os ensinos equivocados dos teólogos da prosperidade, também veremos o perigo de se querer barganhar com Deus (lição 8) e o correto ensino a respeito dos dízimos e ofertas (lição 9).

    No terceiro e último bloco, faremos, então, um estudo da “verdadeira prosperidade”, da “vida cristã abundante”, entendendo o que é uma igreja verdadeiramente próspera (lição 10), como se pode alcançar a verdadeira prosperidade (lição11), qual o propósito da verdadeira prosperidade (lição 12), concluindo pelo caráter cristocêntrico da verdadeira prosperidade, que só é encontrada em Jesus Cristo (lição 13).

    O comentarista deste trimestre é o pastor José Gonçalves da Costa Gomes, que está a comentar o seu segundo trimestre de Lições Bíblicas, já que havia comentado o 4º trimestre de 2009, quando estudamos sobre a vida de Davi, é pastor das Assembleias de Deus em Teresina/PI e vice-presidente do Conselho de Apologética da Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGADB), professor de grego e hebraico, escritor e articulista, tendo um blog na internet chamado “Ortodoxia Carismática” (http://prjosegoncalves.blogspot.com/).

    Que, ao término deste trimestre letivo, estejamos devidamente vacinados contra esta verdadeira peste que tem assolado nossas igrejas locais e tenhamos condição de ajudar os que entraram nesta perigosa senda a retornarem ao caminho do Senhor.

    B) LIÇÃO 1 – O SURGIMENTO DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

    A teologia da prosperidade é uma nova versão da mais antiga teologia distorcida que se encontra nas Escrituras Sagradas: a dos amigos de Jó.

    INTRODUÇÃO

    – Uma das principais ervas daninhas que têm grassado no “jardim fechado” da Igreja, nestes dias tão difíceis que antecedem à volta de Cristo, é a chamada “teologia da prosperidade”, que nada mais é que uma doutrina distorcida a respeito de Deus, de forte conteúdo materialista, que tem seduzido muitos crentes e os feito desviar da verdade.

    – O apóstolo Paulo foi claríssimo ao afirmar que se esperarmos em Cristo só para as coisas desta vida seremos os mais miseráveis de todos os homens (I Co.15:19). É esta a triste situação espiritual dos milhões que têm procurado Jesus única e exclusivamente para terem a “prosperidade” apregoada pelos falsos mestres da atualidade, eles mesmos escravos da ganância (II Pe.2:3).

    I – A TEOLOGIA DISTORCIDA DOS AMIGOS DE JÓ: A ORIGEM REMOTA DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

    – Quando falamos em “teologia da prosperidade”, que éum desdobramento materialista da chamada “confissão positiva”, “palavra da fé” ou “movimento da fé”, não falamos, propriamente, de uma seita ou de uma denominação, mas de um movimento que se tem infiltrado, com suas ideias e concepções, em diversas denominações e grupos evangélicos, principalmente os pentecostais, sendo, por isso mesmo, uma das mais perigosas heresias na atualidade. Seus conceitos têm invadido as mentes de muitos crentes, trazendo grandes prejuízos espirituais.

    – Entretanto, como tudo que provém do inimigo das nossas almas, tais concepções nada têm de novo, pois o mundo, imerso no maligno, só tem a oferecer ao ser humano três coisas: concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida (I Jo.2:16). Por isso, ainda que sob novas roupagens, até porque o adversário é ardiloso e extremamente versátil, tudo o que se apresenta ao homem não é qualquer novidade, mas ideias antigas que são apresentadas sob nova aparência. Daí porque Salomão ter, dentro da sabedoria que Deus lhe deu, chegado à conclusão de que “o que foi, isso é o que há de ser, e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós” (Ec.1:9,10).

    – Com relação a este “vento de doutrina”, que tem soprado fortemente entre os crentes, denominado de “teologia da prosperidade”, não é diferente. Suas raízes encontram-se naquele que muitos dizem ter o mais antigo livro da Bíblia, o livro de Jó, que teria sido escrito ou pelo patriarca Jó, provavelmente contemporâneo de Abraão, ou, então, por Moisés, quando ele ainda se encontrava entre os midianitas.

    – Na história de Jó, comparecem perante ele três amigos, Elifaz, Bildade e Zofar, que, diante da prova sofrida pelo patriarca, que perdera seus filhos, seu patrimônio e sua saúde, apresentaram um conceito que tinham a respeito de Deus, que é, precisamente, o conceito que hoje nos é apresentado pela “teologia da prosperidade”. Esta ideia de Deus que os amigos de Jó apresentam ao longo do livro de Jó é a “teologia”, ou seja, “o discurso sobre Deus” daqueles homens, ideias estas, contudo, que foram consideradas errôneas pelo próprio Deus. Com efeito, pouco antes de o Senhor virar o cativeiro de Seu servo, a Bíblia nos diz que Deus Se apresentou a Elifaz e afirmou que tudo o que fora dito a respeito d’Ele por parte daqueles “teólogos” não estava de acordo com a verdade (Jó 42:7).

    – Portanto, como as próprias Escrituras testemunham, as ideias apresentadas pelos amigos de Jó a respeito de Deus são ideias que não devem ser seguidas nem adotadas pelos que servem a Deus, uma vez que se tratam de ideias reprovadas pelo próprio Deus a Seu respeito. Esta “teologia distorcida”, pois, deve ser identificada para que nós, que queremos ter o mesmo testemunho que Jó teve de Deus, não venhamos a cometer os mesmos erros de Elifaz, Bildade e Zofar.

    – Em primeiro lugar, os amigos de Jó dizem que há uma relação de barganha entre Deus e os homens, ou seja, Deus abençoa aqueles que Lhe são fiéis e castiga os pecadores, isto é, a bênção divina é uma retribuição pela fidelidade da pessoa. Teríamos um “toma-lá-dá-cá” entre Deus e os homens (cf. Jó 4:7,8; 8:4-6; 11:13-15).

    – Entretanto, como bem sabemos, Jó não havia pecado e a perda de todas as suas propriedades, de seus filhos e da sua saúde haviam sido uma permissão divina, tão somente para provar a fidelidade do patriarca, um homem sincero, reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:1). Deus, na Sua bondade e misericórdia, abençoa tanto a justos quanto a ímpios (Mt.5:45), pois não faz acepção de pessoas (Dt.10:17).

    – Em segundo lugar, os amigos de Jó dizem que há uma correspondência entre o bem-estar físico e social e o bem-estar espiritual de alguém, ou seja, se alguém é saudável e ocupa posição social avantajada, isto é uma demonstração de que se trata de uma pessoa que está em comunhão com o Senhor (cf. Jó 5:22-26; 15:17-35; 18; 20).

    – Entretanto, tal pronunciamento dos amigos de Jó também não tem respaldo bíblico, porquanto, se é verdade que o ímpio responderá por sua impiedade e ela lhe selará um triste destino na eternidade, não é menos certo que, por vezes, o ímpio apresenta, nesta vida, saúde física e prosperidade material, sem que isto represente qualquer sinal ou evidência de comunhão com o Senhor. O próprio Jó, ao contrário do que achava o adversário, ao perder sua posição social e suas riquezas, nem por isso deixou de adorar o Senhor e de Lhe reconhecer o direito de dar e de tirar todos os bens de alguém (Jó 1:21).

    – Em terceiro lugar, diante do que os amigos de Jó dizem, conclui-se que o arrependimento dos pecados concede automaticamente saúde física e prosperidade material, de forma que bastaria ao patriarca se arrepender dos pecados para retornar ao estado anterior em que se encontrava. Tudo não passaria de uma questão de “pecado oculto”, que deveria ser confessado.

    – Entretanto, como bem sabemos e Jó não se cansa de falar, neste longo diálogo travado com seus amigos, o patriarca não tinha pecado algum, era inocente diante de Deus, não tendo o que confessar. Além do mais, a Bíblia nos mostra que Jó teve o seu cativeiro mudado quando orava pelos seus amigos, ou seja, quando dava mostras de sua santidade, intercedendo por eles, intercessão que foi aceita pelo Senhor (cf. Jó 42:9,10).

    – As aflições do patriarca, todo o seu sofrimento, pois, não era sinal ou evidência de pecado, como diziam os seus amigos, mas tudo não passava de uma provação divina, cujo intento era o aprimoramento espiritual de Jó, algo que foi reconhecido pelo próprio servo do Senhor, que, pouco antes de ter seu cativeiro mudado, reconhecia, diante de Deus, o seu crescimento no conhecimento do Senhor (cf. Jó 42:5,6).

    – Em resumo, portanto, considerar que o relacionamento entre Deus e os homens é um “toma-lá-dá-cá”, que o bem-estar espiritual corresponde a um bem-estar físico e social, bem como que a doença física ou a desvantagem social são consequências do pecado é “não dizer de Deus o que é reto”, é “acender a ira de Deus” (Jó 42:7).

    – Como se não bastasse esta evidência bíblica de reprovação desta “teologia distorcida” dos amigos de Jó, vemos que esta visão, segundo nos diz o próprio Elifaz, que parecia ser o “capitão do time” dos amigos do patriarca, foi resultado de uma manifestação sobrenatural de um “espírito” onde se lançaram as bases deste pensamento (cf. Jó 4:13-21), a indicar, portanto, com clareza de onde provém tal “teologia”, pois tal “espírito” outro não é senão o mesmo que fomenta todo o engano, o pai da mentira.

    – Como veremos no desenvolvimento desta lição, é precisamente esta “teologia distorcida” dos amigos de Jó, esta velha heresia que será retomada pela “teologia da prosperidade”, que, repetimos, é um desdobramento materialista da “confissão positiva”, “palavra da fé” ou “movimento da fé”.

    II – HISTÓRIA DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE: OS INSPIRADORES OCULTISTAS DO MOVIMENTO

    A história da teologia da prosperidade teve início com o norte-americano Phineas Parkhurst Quimby (1802-1866), que nasceu em New Lebanon, no estado de New Hampshire. Quimby era um relojoeiro e, a partir de 1847, dedicou-se à cura de doenças por intermédio da mente, tendo, então, segundo seus biógrafos, tratado de mais de 12.000 pacientes até a sua morte em 1866. Dentre os seus pacientes, encontraram-se algumas pessoas que, posteriormente, diante das “experiências” tidas com o “dr. Quimby”, passaram a difundir ideias relativas ao assunto e a fundar movimentos para sua propagação, como é o caso de Julius e Anneta Dresser, que fundaram o “Novo Pensamento”(e consideram Quimby como o “pioneiro espiritual”) e Mary M. Patterson,  que, depois, se tornou Mary Baker Eddy, fundadora da “Ciência Cristã”.

    – Quimby estudou pouco na escola fundamental, o suficiente para poder exercer alguma profissão, tendo, ao longo de sua vida, sido infenso a leituras. Seus manuscritos são, a propósito, extremamente carentes de citações ou referências, a indicar que a leitura não era seu hábito. Nos últimos anos, entretanto, começou a fazer constantes citações do Novo Testamento, buscando interpretá-los, ainda que não tivesse uma vida religiosa, não sendo membro de qualquer igreja, não tendo, também, tido qualquer participação no movimento espírita que surge, com todo o vigor, nos Estados Unidos ao tempo de sua vida.

    Quimby dedicou-se ao estudo da “cura espiritual”, estudo este iniciado com a prática da hipnose, que havia há pouco sido introduzida nos Estados Unidos. Depois de identificar, pela hipnose, de que uma mente poderia influenciar outra, Quimby começa a elaborar o que afirmava ser a “cura das doenças pela mente”. Para Quimby, a “doença era um estado desarranjado da mente” e, portanto, com a realização do “arranjo mental”, ter-se-ia a cura. Tal cura se processaria mediante a “fé”. Dizia Quimby que “…’a doença’, ele[ Quimby, observação nossa] nos assegura,  seu poder sobre a vida e a sua curabilidade, estão ‘todos contidos na nossa crença. Alguns creem em vários remédios, e outros creem que os espíritos dos mortos prescrevem. Eu não confio na virtude de nenhum deles. Eu sei que curas têm ocorrido por estes meios. Eu não os nego. Mas o princípio no qual elas são feitas é o problema a resolver, pois a doença pode ser curada, com ou sem medicina, mas apenas em um princípio…” (DRESSER, Horatio W. Quimby. A história do Movimento do Novo Pensamento. apud http://www.ppquimby.com/hdresser/history.htmAcesso em 19 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês).

    – Para Quimby, saúde é “… sabedoria perfeita e o quanto um homem é sábio, assim é a sua saúde. Como nenhum homem é perfeitamente sábio, nenhum homem pode ter perfeita saúde, pois a ignorância é a doença, embora não necessariamente acompanhada por dor…”  (QUIMBY, P. Doença. http://www.ppquimby.com/sub/articles/disease.htm Acesso em 19 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês). Percebemos, aqui, portanto, que a ideia de Quimby era de que a saúde era vinculada ao estado espiritual da pessoa.

    – Não nos alongaremos mais nos pensamentos de Quimby, que é a fonte da “teologia da prosperidade”, embora ele mesmo não se intitulasse um religioso, mas, antes de prosseguirmos, é interessante observar que, em meio a suas ideias de “cura espiritual”, o sr. Quimby apresentava algumas noções heterodoxas a respeito de Jesus e de Sua obra, a ponto de afirmar, entre outras, que:

    a) Jesus, enquanto homem, não era nem podia ser Deus, já que Deus não Se manifestaria em carne e sangue – “…Se eu pergunto se Jesus, o homem, era Deus, a resposta é Não, mas Deus Se manifesta na carne. Então podem a carne e o sangue ser Deus? Não.” (QUIMBY, P. Cristo explicado. http://www.ppquimby.com/sub/articles/christ_explained.htm Acesso em 19 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês).

    b) Jesus não pretendeu convencer o mundo de que era o Filho de Deus – “…Jesus pretendeu convencer o mundo de que ele era Deus? Eu respondo que não e também sustento que seu ensino inteiro veio destruir a ideia de que ele (Jesus) era o Cristo, mas ele  se esforçou para convencer as pessoas de que o Cristo era a verdade que ele, Jesus, falava e que esta verdade é de Deus e não do homem…” (QUIMBY, P. O corpo de Jesus e o corpo de Cristo. http://www.ppquimby.com/sub/articles/body_of_jesus_and_the_body_of_ch.htm Acesso em 19 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês).

    c) o corpo de Cristo era distinto do corpo de Jesus – “…O corpo de Jesus e o corpo de Cristo eram dois, um visível para o homem natural e o outro para o homem espiritual ou cientifíco vestido com uma veste de verdade que foi roubado e dividido entre eles…” (QUIMBY, P. op.cit.)

    – Vemos, portanto, que jamais uma teologia coerente com a Palavra de Deus poderia surgir de pensamentos como os de Phineas Quimby, pois, ante tais “conclusões” vemos bem de que árvores poderiam advir tão maus frutos (cf. Mt.7:17-20).

    – No entanto, como já dissemos há pouco, Quimby teve uma série de admiradores, entre os quais, destacam-se os fundadores dos movimentos “Novo Pensamento” e “Ciência Cristã”, dos quais, para os fins desta lição, interessa-nos particularmente o movimento “Ciência Cristã”

    O movimento “Ciência Cristã” foi fundado pela norte-americana Mary Baker Glover Patterson Eddy(1821-1910) (este nome longo é o resultado dos três casamentos que teve durante sua vida), natural de Bow, no estado de New Hampshire, uma antiga paciente de Quimby, que,  em 1° de fevereiro de 1866, sofreu uma queda no gelo ficando sem sentidos por algumas horas. O médico diagnosticara como choque traumático e possível deslocamento da espinha. Mary não tomou os remédios receitados. Nesse período, passou a ler os Evangelhos em sua casa. Lendo a cura do paralítico por Jesus, e, ainda influenciada pelas ideias de Quimby, a quem fora buscar solução para os seus ataques nervosos e seu mal da espinha em 1862, sentiu-se curada. Este é o milagre básico da Ciência Cristã e adquiriu o título de “A Queda Milagrosa em Lynn” (CENTRO APOLOGÉTICO CRISTÃO DE PESQUISAS-CACP. Ciência cristã: a arte da cura pela mente. http://www.google.com/search?q=cache:ctQSSzSQyEIJ:www.cacp.org.br/ciencia_crista.htm+%22Mary+Baker+Eddy%22&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=1 Acesso em 19 abr. 2006).

    - Depois da morte de Quimby, Eddy diz ter descoberto os fatos importantes relacionados com o espírito e com a superioridade deste sobre a matéria, denominando de “ciência cristã” esta sua descoberta, que deu origem à doutrina que se encontra no seu livro “Ciência e saúde com a chave das Escrituras”, cuja primeira edição é de 1875. Em 1879, fundou a Igreja do Cristo Cientista, da qual foi eleita presidenta, sendo, em 1881, eleita pastora.

    - Eddy apresentou diversas doutrinas contrárias às Escrituras, de modo que sua “ciência cristã” não pode ser reconhecida nem como ciência, vez que é refutada pelos cientistas, que a consideram uma prática ocultista, nem como “cristã”, na medida que não põe a Cristo no Seu legítimo lugar de único e suficiente Senhor e Salvador do mundo. Pelo contrário, a própria Eddy escreveu que “…Ninguém pode tomar o lugar da Virgem Maria, o lugar de Jesus Cristo, o lugar da autora de Ciência e Saúde, a descobridora da Ciência Cristã" (Retrospection and Introspection, p. 70). …” (CACP, end. cit.).

    – Dentre as muitas heresias ensinadas por Eddy, destacamos as seguintes, todas elas extraídas do artigo já mencionado do Centro Apologético Cristão de Pesquisas:

    a) “Um Cientista Cristão necessita da minha obra Ciência e Saúde como seu livro-texto, e o mesmo acontece com todos os seus alunos e pacientes” (Ciência e Saúde, p. 456).: “Onde quer que uma Igreja da Ciência Cristã seja estabelecida, o seu Pastor é a Bíblia e o meu Livro” (Misc. Writings, p. 383).  – Vemos aqui que Eddy coloca a Bíblia abaixo dos seus escritos, que seriam indispensáveis para a obtenção da saúde física e espiritual, o que é uma nítida característica de uma heresia

    b) “A virgem-mãe concebeu essa ideia de Deus, e deu a seu ideal o nome Jesus – isto é, Josué, ou Salvador” (idem, 29). “O Cristo, como ideia espiritual ou verdadeira de Deus, vem hoje, como outrora, pregando o Evangelho aos pobres, curando os doentes e expulsando males” (idem, 347). – Há, aqui, uma nítida negação da humanidade de Jesus, o que caracteriza a atuação do “espírito do anticristo” (I Jo.4:3).

    c) O Cristo morou eternamente como ideia no seio de Deus, o Princípio divino do homem Jesus, e a mulher percebeu essa ideia espiritual, se bem que de começo fracamente desenvolvida” (idem, p. 29). – Aqui Eddy é fiel a seu “inspirador” Quimby, distinguindo duas pessoas em Jesus e Cristo.

    – Para Mary Baker Eddy, “…uma doença era sempre uma ilusão mental que poderia ser curada por meio de uma mais clara percepção de Deus…”(Mary Baker Eddy.In: WIKIPÉDIA. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mary_Baker_EddyAcesso em 19 abr. 2006). Assim como Quimby, portanto, concebia a doença como o fruto de uma falsa crença do homem e, a partir do instante em que o homem deixasse de crer na doença, passando a ter fé, mediante uma iluminação espiritual, atingiria a cura inevitavelmente.

    – Temos, portanto, ainda que de forma sucinta, observado que, assim como Quimby, Mary Eddy também se encontrava completamente fora da sã doutrina, produzindo frutos relacionados com a esta falsidade.

    III – A HISTÓRIA DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE: ESSEK WILLIAM KENYON E SUAS PRINCIPAIS DOUTRINAS

    – Pois bem, uma das pessoas que se aproximará dos ensinos de Eddy é Essek William Kenyon (1867-1948), natural de Saratoga, no estado norte-americano de New York. Durante sua infância e adolescência não frequentou igreja alguma. Por volta dos 20 anos de idade, tornou-se membro da igreja metodista em Amsterdam, New York, mas, logo em seguida, abandona a igreja, passando-se a considerar um “agnóstico” (i.e., pessoa que entende ser impossível conhecer algo que vá além da experiência, o que inclui a pessoa de Deus), casando-se com Ewa Spurling, que também era agnóstica. Antes de se casar, porém, frequentou, em Boston, a Escola de Oratória de Ralph WaldoEmerson(1803-1882), conhecido filósofo agnóstico americano. Depois de se casar, Essek e Ewa passaram a frequentar a igreja da Rua Clarendon, também em New York e aceitaram a Cristo por volta de 1893. Ainda neste ano, Kenyon se uniria aos Batistas da Boa Vontade, passando a pastorear uma pequena congregação em Elmira, New York.

    – Kenyon fundou, em 1898, um instituto bíblico, denominado Instituto Bíblico Betel, que existiu até 1923. Sua mulher o deixou em 1902, mas houve reatamento dos dois em 1910, tendo Ewa morrido em 1914. Kenyon, então, casa-se novamente, com Alice M. Whitney, com quem terá um casal de filhos. Mudou-se em 1924 para a Califórnia onde passou a se identificar como “Dr. E.W. Kenyon de Massachussets”, embora não tivesse qualquer educação teológica formal. Em 1930, sua mulher Alice o abandonou, acusando-se de manter romances com outras mulheres, quando ele se encontrava no auge de sua popularidade. Kenyon, então, muda-se para Seattle, onde passa o restante dos seus dias, dirigindo a Sociedade Publicadora do Evangelho de Kenyon, que, atualmente, está sediada em Kirkland, Washington.

    Kenyon exerceu nítida influência, durante a sua vida, sobre grandes nomes que se tornariam os pregadores mais conhecidos do chamado “movimento da fé”, entre os quais se destacam Kenneth Hagin, Tommy L. Osborn e F.F. Bosworth. O estudo de seu pensamento, portanto, é fundamental para termos ideia exata do que significa a “teologia da prosperidade”.

    – Um dos principais ensinos de Kenyon, onde se percebe a nítida influência de Quimby e de Eddy é o de que “…pecado e doença são um só. Eles não podem dominar a nova criatura(…).O que Deus diz, é. Se você é uma nova criatura, então não há condenação para você. Se não há condenação, a doença não pode ser Senhora sobre você.…”(KENYON, E.W. Jesus, o curador. http://posword.org/articles/kenyon/kenyon03.shtml Acesso em 19 abr. 2006).  Para Kenyon, a redenção “…está baseada sobre o fato de que Deus lançou nossos pecados e doenças sobre Jesus…” (A realidade da redenção. http://posword.org/articles/kenyon/kenyon08.shtml Acesso em 19 abr. 2006).

    – No entanto, quando observamos as Escrituras Sagradas, vemos que, embora o pecado tenha gerado, entre suas consequências, a morte física (cf. Gn.3:19) e, por conseguinte, as doenças sejam resultado desta penalidade, não é menos exato de que a doença não significa necessariamente que haja pecado. A Bíblia tem exemplos de pessoas que, embora estivessem doentes, estavam em comunhão com Deus, como são os caso de Jó, Eliseu (II Rs.13:14), do cego de nascença (Jo.9:3) e de Timóteo (I Tm.5:23).

    – Outro ensino de Kenyon é de que a salvação nos livrou da pobreza e da necessidade, advindo daí o desdobramento materialista que caracteriza a “teologia da prosperidade”. Segundo suas palavras: “…Virá a hora em que você saberá que a necessidade e a pobre são coisas do passado…” (KENYON, E.W. O que nós somos em Cristo. http://posword.org/articles/kenyon/inchrken.shtml Acesso em 19 abr. 2006).

    – No entanto, quando observamos as Escrituras Sagradas, vemos que, embora o pecado tenha gerado, entre suas consequências, a necessidade do trabalho para a sobrevivência do homem e a penosidade deste mesmo trabalho (Gn.3:18,19), não é menos exato de que a pobreza não significa necessariamente que haja pecado. Aliás, pelo contrário, a pobreza foi considerada por Jesus como um obstáculo a menos para a salvação, visto que afirmou que os ricos teriam maior dificuldade para servir ao Senhor (Mc.10:25; Lc.18:25). Na própria igreja primitiva, havia aqueles crentes que viviam da assistência social, ou seja, da caridade pública e nem por isso tinham deixado de ser crentes (At.6:1,2). Os crentes da Judeia estavam passando necessidade a ponto de o apóstolo Paulo fazer uma coleta em seu favor e este fato não o impediu de serem considerados como verdadeiros e genuínos servos do Senhor, chamados, inclusive, de santos (Rm15:26). Aliás, o mesmo Paulo testifica que Jesus Se fez pobre (II Co.8:9), precisamente Aquele que nunca pecou (Hb.4:15).

    – Kenyon também ensinou que Jesus, para nos remir, não só sofreu no Calvário, morrendo por nós, como também teve de sofrer no Hades, sede do domínio de Satanás, até que Seus direitos fossem reclamados, quando, então, o diabo não pôde mais detê-l’O e Ele ressurgiu.”… Veja, Jesus foi feito pecado com nosso pecado. Ele Se tornou nosso substituto. Nós morremos com Ele. Fomos sepultados com Ele. Fomos julgados com Ele. Ele foi para o lugar que nós deveriam ter ido e lá Ele sofreu até que os clamores de justiça contra nós fossem encontrados, até que todos os clamores fossem satisfeitos. Então, a sepultura não pôde mais detê-l’O(…). O trabalho foi aceito, terminado por Jesus quando Ele sentou à mão direita do Pai. Ele não foi terminado na cruz. Ele começou na cruz, mas foi consumado quando o sangue foi aceito e Cristo assentado.…” (A realidade da redenção, op.cit.).

    – Temos aqui um tema que seria muito bem desenvolvido pelos outros “pregadores da fé”, que não encontra qualquer respaldo bíblico. A morte de Jesus foi suficiente para alcançar a nossa justificação (Rm.5:10). Não se fez necessário “acerto de contas” algum no Hades com Satanás para que Jesus obtivesse o perdão dos nossos pecados, uma vez que a dívida que o homem tinha era com Deus e não com o diabo. O pecado é desobediência contra o Senhor, é injustiça e é um problema que diz respeito ao relacionamento entre Deus e os homens (Is.59:2). O diabo nada tem, nada representa neste processo, sendo apenas um ser que procura matar, roubar e destruir o homem (Jo.10:10), mantendo-o iludido com relação às coisas de Deus (II Co.4:4). Jesus completou a Sua obra salvadora no Calvário, como Ele mesmo disse (Jo.19:30), não havendo sequer um “lugar” onde o diabo reine, como pressupôs Kenyon, até porque o Hades é o lugar dos mortos e, pela história que Jesus nos conta do rico e de Lázaro, o diabo ali não está (Lc.16:19-31), mas, sim, nas regiões celestiais (Ef.6:12), de onde será defenestrado, junto com os seus anjos, quando chegar a Nova Jerusalém, para receber os santos arrebatados pelo Senhor (Ap.12:7-12).

    – A morte de Jesus foi suficiente para tirar o pecado do mundo, pois, se não fosse assim, o véu do templo não se teria, naquele momento exato da morte do Senhor, se rasgado de alto a baixo (Mt.26:50,51). A ressurreição de Jesus, além de ser cumprimento da Palavra do Senhor, já vaticinada desde os profetas (Sl.16:8,11; At.2:31; I Co.15:3), é a garantia de que o Seu sacrifício foi aceito e que o pecado do mundo foi tirado(I Co.15:14). Assim também Sua ascensão aos céus, que é a Sua glorificação, é confirmação da Palavra do Senhor (Jo.14:1-3) e uma necessidade para que houvesse a dispensação da graça, a demonstração plena do amor de Deus à humanidade (cf. Rm.9-11).

    – Kenyon é claro ao dizer que o plano da redenção abrange três partes: Deus, o homem e o diabo, de forma que Deus precisa ser justo em relação a Si mesmo, ao homem e ao diabo:”… O plano da Redenção não pode ser entendido a menos que o leiamos de um ponto de vista legal. Neste plano da Redenção, há três partes para o contrato: Deus, o homem e o diabo. Deus deve ser justo conSigo mesmo, com o homem e com o diabo…” (Reclamando nossos direitos. http://posword.org/articles/kenyon/claim.shtml Acesso em 19 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês).

    – A partir desta noção, Kenyon afirma um dos pontos que é um dos cernes da “teologia da prosperidade”, a saber: “Nós entendemos que Deus criou o homem, pondo-o aqui na Terra e que Ele lhe conferiu alguns direitos legais. Direitos legais que são conferidos são mais facilmente confiscados do que aqueles que vêm por natureza. Estes direitos o homem transferiu para Satanás, inimigo de Deus. Isto trouxe o diabo para o plano de modo que se deve tratar com ele e todo o esquema da Redenção é a busca de Deus para redimir a raça humana do pecado de Adão e fazê-lo sobre uma base equitativa que satisfaça perfeitamente os clamores de Justiça, encontre as necessidades do homem e derrote Satanás em bases legais. A queda do homem foi um ato legal, isto é, Adão tinha o direito legal de transferir a autoridade e do domínio que Deus tinha posto em suas mãos para as mãos de um outro. Isto dá a Satanás o direito legal de ditar regras ao homem e à criação…” ( Reclamando nossos direitos. op.cit.)

    – É esta a ideia-mestra de todas as “determinações”, “declarações” e “exigências” que caracterizam os “pregadores da fé”. Para Kenyon, Deus ao instituir o homem como Seu mordomo, deu “direitos legais” ao homem, que foram, com a queda, transferidos a Satanás que, “legalmente”, hoje domina a terra e a criação terrena. A redenção seria uma fórmula pela qual Deus tomasse estes “direitos” de Satanás, mas de forma legal e justa, livrando o homem do domínio satânico.

    – No entanto, tal pensamento não tem o menor respaldo bíblico. Deus nunca deixou de ser o Ser Soberano, o Ser Supremo. Quando a Bíblia nos diz que o homem foi constituído como ser que dominaria sobre as demais criaturas terrenas (cf. Gn.1:26-28), tal deve ser compreendido dentro do princípio de que o homem é “imagem e semelhança de Deus”, ou seja, de que jamais o homem teria “direitos legais” diante de Deus, mas o homem foi feito um “mordomo”, ou seja, um servo que era superior às demais criaturas divinas mas que não deixava de ser servo, tanto que, ao conscientizar o homem de que ele era “livre”, Deus o fez por meio de uma ordem (cf. Gn.2:16,17), deixando bem claro quem era a autoridade, quem mandava e quem deveria obedecer.

    – Deus não entregou o domínio da Terra ao homem, como ensinou Kenyon, pois, se assim fosse, a Bíblia não diria que a terra e a sua plenitude são do Senhor (Sl.24:1), devendo nós prestar atenção ao emprego do verbo no tempo presente, a indicar que a terra não “foi” ou “era” do Senhor, mas que é d’Ele, não tendo tido a queda do homem o poder de alterar coisa alguma a respeito. Não há passagem alguma das Escrituras que mostre que o homem se tornou, em algum momento, senhor da terra ou da criação terrena, de forma que, como não houve tal delegação, todo o raciocínio de Kenyon não tem fundamentação bíblica.

    – Procuram alguns defender este ponto-de-vista, argumentando que a Bíblia chama o diabo de “deus deste século”(II Co.4:4), “príncipe deste mundo” (Jo.12:31; 14:30; 16:11), “pai”(Jo.8:44), esquecidos que estas expressões dizem respeito ao “mundo espiritual”, ou seja, ao mundo do mal e do pecado, onde o diabo domina, ainda que transitoriamente, pois quem peca se faz servo do pecado (Jo.8:34), não tendo condições de escapar da natureza pecaminosa que tem dentro de si (Rm.7:15-24). Trata-se, porém, de uma escravidão provocada pelo pecado de cada homem (Tg.1:14,15), que faz com que o homem seja dominado pelo pecado (Gn.4:7), fazendo com que o homem faça os desejos do diabo (Jo.8:44). Agora, isto nada tem que ver com a soberania que Deus tem em relação a todo o universo, nem tampouco confere direito algum ao diabo, que, ao dominar o homem pecador, está apenas em meio ao seu mundo de iniquidade, ou seja, de injustiça. Não, pois, qualquer legalidade, qualquer direito por parte do diabo, que é um intruso, que se aproveita da brecha que o homem lhe deu para se apoderar da vontade humana, brecha esta, entretanto, que é resultado do pecado do homem, que o separou de Deus (Is.59:2).

    – Ao dizer que o homem, ao pecar, transferiu direitos a Satanás e que o plano da redenção tem em vista a recuperação destes direitos de uma forma legal, Kenyon traz uma das principais características do “movimento da fé”, que é a defesa de que o homem, uma vez redimido por Cristo, é detentor de “direitos” diante de Deus. Temos, assim, a um só tempo, a provar o caráter herético destes ensinos, a concessão de “direitos” e de “possibilidade de reivindicações” do diabo e do homem em relação a Deus, um indevido e inadmissível apequenamento da figura de Deus. Tanto assim é que, se formos levar o pensamento de Kenyon às últimas consequências, veremos que o homem poderia “legalmente” pecar e que cabe a Deus arrumar um jeito para que “legalmente” o diabo seja satisfeito e o homem, salvo. Que absurdo!

    – Kenyon, mostrando uma vez mais seu débito para com os movimentos de Quimby e de Eddy, defende a ideia de que “como Deus está em nós”, nós passamos a fazer parte da “divindade”, não podendo, pois, ter qualquer espécie de sofrimento ou de dor: “…Nós recebemos o dom da justiça. Nós recebemos a abundância da graça. Nós reinamos como reis no reino da vida e do amor.(…). O complexo de inferioridade que vem da consciência do pecado foi destruído e a consciência do Filho tomou seu lugar. Não se pode ter um espírito servil e desfrutar da realidade da filiação. Nós somos mestres, vencedores, dominadores porque estamos n’Ele. Nós temos Sua habilidade, Sua sabedoria, Sua força, Seu amor. Espiritualmente, nós somos homens livres. Nós habitamos em Deus e Deus habita em nós.(…). Esperar diante de Deus por poder ou por alguma bênção especial que você tenha ouvido é desnecessário porque você a tem em você, se você recebeu o Espírito Santo, a fonte de todas as experiências.” (God-Inside Minded, que poderíamos traduzir como “Tendo a vontade de Deus em nosso interior”. http://posword.org/articles/kenyon/kenyon10.shtml Acesso em 20 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês). “…Nós temos nossa Redenção. Não há coisa alguma que tenhamos de orar ou pedir…” (Levantado com Ele. http://posword.org/articles/kenyon/raised.shtml Acesso em 20 abr. 2006).

    – Percebemos, portanto, que, para Kenyon, a salvação nos equipara ao próprio Deus, visto que passamos a ter o Espírito Santo e, por isso, nada pode mais nos abalar, estamos praticamente divinizados e é a isto que se denominou de “confissão positiva”, ou seja, a salvação nos traz “direitos”, “afirmações”, “poderes” que, praticamente, nos equipara a Deus. Este tipo de pensamento justifica o nome de “evangelho da Nova Era” que alguns estudiosos deram ao “movimento da fé”, visto que, no fundo, utilizando-se de uma “roupagem evangélica”, chega a mesma conclusão que o movimento Nova Era, qual seja, a de que o homem pode se tornar deus.

    OBS: Célebre é a frase de Kenyon, que depois foi repetida por Kenneth Hagin: “…Todo homem que ‘nasceu de novo’ é uma encarnação e a Cristandade é um milagre. O crente é tão Encarnação quanto o foi Jesus de Nazaré…” (O Pai e Sua família. 17.ed., p.20 apud HANEGRAAF, Hank. What’s wrong with the faith movement(part one): E.W. Kenyon and the twelve apostles of another gospel http://www.google.com/search?q=cache:btit4XLNYqAJ:www.equip.org/free/DC755-1.htm+%22Essek+William+Kenyon%22&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=2 Acesso em 20 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês). Esta mesma expressão, segundo Hanegraaff, é utilizada por Kenneth Hagin no seu artigo “A Encarnação”, da revista “The Word of  Faith”, de dezembro de 1980, na página 14.

    – Este pensamento, bem propício para quem foi influenciado por ideias de que podemos “curar pela mente”, como defendiam Quimby e Eddy, não tem qualquer respaldo bíblico. A salvação não nos faz tornar “pequenos deuses”, mas, sim, “filhos de Deus”, que não deixam, porém, de ser homens e, por isso mesmo, submissos ao Senhor. Quando alcançamos a salvação, retomamos a imagem e semelhança de Deus originais, a posição perdida pelo primeiro casal, que, como se vê, claramente, no livro do Gênesis, era uma posição de absoluta subserviência a Deus, como “mordomos” da criação terrena.

    – O próprio Jesus, ao descrever a condição humana no estado eterno, ou seja, após o desaparecimento destes céus e terra, disse que nós seremos “como os anjos que estão nos céus’ (Mc.12:25), descartando, assim, qualquer “igualdade” entre os redimidos e a Divindade. No Apocalipse, aliás, o Senhor ratifica este entendimento, ao dizer que os vencedores se sentarão no trono d’Ele, enquanto que o próprio Senhor Se sentou no trono do Pai (Ap.3:21), o que explica que há uma diferença hierárquica entre o Filho e a Igreja, tanto assim que o Filho é a cabeça da Igreja (Ef. 1:22; 5:23), não havendo outro nome que seja superior ao nome de Jesus (Fp.2:9-11). Se somos filhos de Deus, somos filhos por adoção (Rm.8:15), motivo por que sempre Lhe seremos inferiores.

    OBS: A “divinização” do homem evidencia-se tanto na “teologia da prosperidade” que, ao invés de seus pregadores dizerem que, ao nos ver, Deus vê Jesus e, por isso, não olha para nossas imperfeições e fraquezas, Deus  nos vê em Jesus, numa completa inversão de valores, como podemos observar neste texto de Kenyon: “…Na mente de Deus, todos nós estamos em Cristo agora. Ele nos vê n’Ele…”(Levantados com Ele. op.cit.).

    – Sendo assim, temos, ao contrário do que ensina Kenyon, de aguardar a vontade de Deus para conseguirmos as bênçãos, pois nem sempre é vontade de Deus no-las conceder, pois os caminhos e pensamentos de Deus estão além dos nossos caminhos e pensamentos. Jesus, sendo Jesus, teve negado um pedido Seu no jardim do Getsêmane, enquanto que os gigantes espirituais das Escrituras, todos, sem exceção, nunca tiveram seus desejos plenamente satisfeitos por Deus, precisamente para que se demonstrasse que o homem, mesmo quando em comunhão com o Senhor, continua sendo homem e, portanto, subserviente à Divindade. Senão vejamos:

    a) Enoque – este grande homem de Deus foi tomado pelo Senhor, depois de ter andado com Deus. Foi poupado da morte não por sua vontade, mas porque Deus assim o quis. As Escrituras são claras a respeito: “Deus para Si o tomou” (Gn.5:24 “in fine”; Hb.11:5).

    b) Moisés – este profeta, que tinha tanta intimidade com Deus (Dt.34:10), foi proibido até de orar para entrar na Terra Prometida, seu grande desejo e anelo (Dt.3:26).

    c) Elias – o grande profeta, poupado da morte, aliás, contra a sua vontade (I Rs.19:4), não pôde “determinar” qualquer bênção para seu sucessor Eliseu (II Rs.2:9,10).

    d) João Batista – o maior homem nascido de mulher não teve respondida a sua pergunta feita a Jesus que, ao revés, tomou providências para fortalecer a fé do profeta encarcerado (Mt.11:3,4).

    e) Pedro, Tiago e João – os apóstolos do “círculo íntimo” de Jesus não fizeram o que quiseram: Pedro, no final de sua vida, foi levado para onde não queria (Jo.21:18); Tiago foi um dos primeiros mártires da Igreja (At.12:1,2) e João encontrou-se preso por causa do Evangelho na ilha de Patmos (Ap.1:9).

    IV – HISTÓRIA DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE: KENNETH HAGIN E A PROPAGAÇÃO DAS DOUTRINAS DA CONFISSÃO POSITIVA

    Se Essek William Kenyon é o principal idealizador da “teologia da prosperidade”, coube a Kenneth Hagin a sua divulgação maciça por todo o mundo, até porque, como já vimos, Kenyon, em virtude de seus problemas familiares, acabou se recolhendo ao estado norte-americano de Washington na parte final de sua vida.

    – Kenneth Erwin Hagin (1917-2003) nasceu em McKinney, no estado norte-americano do Texas. Durante a infância, foi pessoa acometida de diversas enfermidades. Em abril de 1933, teria tido uma dramática experiência, que o levou à conversão, quando, por três vezes, teria morrido, vendo os horrores do inferno e retornando à vida. Em 1934, teria também se levantado do “leito da morte” pela “revelação da fé na Palavra de Deus”. Em 1936, pregou seu primeiro sermão, como pastor de uma pequena igreja em Roland, Texas, cidade próxima a sua terra natal. Pastoreou, depois, outras cinco igrejas no Texas, até tornar-se ministro itinerante. Em 1966, mudou-se para Tulsa, no estado norte-americano do Oklahoma, onde montou a sede do seu ministério. Hagin não teve formação acadêmica, tendo obtido seu título de “doutor” de forma honorífica pela Universidade Oral Roberts.

    Os ensinamentos de Hagin são, basicamente, os mesmos de Kenyon. Aliás, segundo se descobriu em 1983, Hagin copiou vários escritos de Kenyon, em verdadeiro caso de plágio e não só de Kenyon mas de outros escritores, também, o que, talvez, explique a grande semelhança, identidade até, de pensamentos e ideias, o que, de pronto, mostra que não se está diante de alguém que tenha frutos dignos de arrependimento e de conversão. Como diz Hank Hanegraaff, grande estudioso das heresias, os ensinos de Hagin apresentam um outro componente a infirmá-los: Hagin sempre apelou para “revelações” e “visões” para corroborar seus pensamentos, tendo, mesmo, dito que teve a “visita pessoal de Cristo” por cerca de sete vezes durante o seu ministério. A sua própria conversão é decorrente de uma experiência sobrenatural solitária.

    – Com Hagin, porém, temos a configuração do falso ensino da “palavra da fé”, conceito tão importante que é o próprio título da principal revista do ministério criado por Hagin, num desenvolvimento das teses apresentadas por Kenyon. Reside aqui a ideia da “confissão positiva”, ou seja, como dizia Kenyon, “o que eu confesso, eu possuo”.

    OBS: Esta “palavra da fé”, aliás, foi o ensinamento acolhido, entre outras, pela Igreja Internacional da Graça de Deus, como se vê do site do Ministério R.R. Soares, que ora transcrevemos: “…Em 02 de dezembro de 1984, após ler o livro de Kenneth Hagin, O Nome de Jesus, a Igreja da Graça começou a pôr em prática a Determinação, e a partir daí, foram bênçãos atrás de bênçãos…” (http://www.google.com/search?q=cache:TgnOkP_9kY8J:www.ongrace.com/rrsoares/ministerio.php+%22kenneth+hagin%22&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=9 Acesso em 20 abr. 2006).

    – Hagin alega que esta ideia a respeito da “palavra da fé” foi resultado de uma aparição de Jesus a ele, em Phoenix, Arizona, quando lhe foram reveladas as “chaves para que o povo obtivesse de Deus o que desejasse” (HAGIN, K. How to Write Your Own Ticket With God, p. 1-5 apud HOWARD, J. Kenneth Hagin Ministries: where’s the faith? http://www.google.com/search?q=cache:vi0uuSk0ym4J:www.xmark.com/focus/Pages/hagin.html+%22kenneth+hagin%22&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=18 Acesso em 20 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês). De pronto, sem ainda adentrar ao mérito desta “doutrina”, observamos que a mesma se origina em uma “aparição”, em uma “visão” e, o que é mais importante, quando o próprio Hagin afirma que se encontrava aborrecido porque via os ímpios prosperarem, enquanto os membros de sua igreja passavam por dificuldades.

    OBS: “…”Eu costumava me preocupar quando eu via pessoas não salvas obtendo resultados, mas os membros da minha igreja não obtinham resultados. Então clareou em mim o que os pecadores estavam fazendo. Eles estavam cooperado com a lei de Deus – a lei da fé…” (HAGIN, K. Tendo fé em sua fé, p.4,5 apud HOWARD, J. op.cit.) (tradução nossa do texto original em inglês).

    – Ora, não devemos nos perturbar com a prosperidade dos ímpios. Devemos confiar em Deus e saber que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados pelo Seu decreto (Rm.8:28). Se atentarmos para a prosperidade dos ímpios, que é uma prosperidade puramente material e que finda aqui, corremos o risco de nos desviarmos dos caminhos do Senhor, como nos ensina o salmista Asafe (Sl.73). Vemos que, infelizmente, não foi o caminho seguido por Hagin que, excessivamente preocupado com tais circunstâncias, acabou sendo presa fácil de uma “aparição”, que traria um falso ensinamento para o meio do povo de Deus.

    – Com efeito, o pedido do cristão, enquanto servo de Deus, em termos de prosperidade material, deve ser o sábio pedido de Agur, qual seja, o de ter o suficiente para uma sobrevivência digna e independente da caridade pública (Pv.30:7-9), pedido, aliás, que foi ratificado por Jesus quando nos ensinou a orar (Mt.6:11), até porque a prioridade, em nossas vidas, é o reino de Deus e a sua justiça (Mt.6:31-33). A busca incessante pela satisfação dos desejos e necessidades desta vida, ao invés de mostrar a “palavra da fé”, na verdade é uma demonstração de falta de fé (Mt.6:30).

    – Para se obter o que se deseja de Deus, diz Hagin, é preciso fazer quatro coisas, as chamadas “regras da fé” ou “fórmulas da fé”, a saber:

    a) confessar o que você quer

    b) crer que você tem aquilo que você quer

    c) receber o que você quer

    d) contar aos outros que você tem o que você quer

    – De pronto, observamos que a vontade de Deus não é levada em consideração. Tudo gira em torno do que “você quer”, sem que se indague se o que se quer é o que Deus quer, uma vez que, apesar de sermos filhos de Deus, não fomos despidos de uma vontade própria, como Jesus mesmo nos ensinou, seja ao nos ensinar a orar, seja no jardim do Getsêmane. Temos, mais uma vez, evidenciado que a doutrina da confissão positiva diviniza o homem, dá uma “roupagem evangélica” para o desejo pecaminoso de se ser independente de Deus.

    – Esta “divinização” teria sido confirmada pelo próprio Jesus nesta “aparição” em Phoenix, Arizona, onde teria dito a Hagin que  “…sua ação derrota ou impõe. De acordo com a sua ação, você recebe ou fica sem receber…”(op.cit.). Como afirma Jay Howard, um pensamento desta natureza leva-nos à seguinte conclusão: “…Sr. Hagin está nos dizendo que se você faz algo errado na fórmula, você realiza uma ação particular ou obsta uma outra ação particular que impede Deus de liberar a coisa que você confessou. Em outras palavras, você necessitará julgar por você mesmo durante o processo qual é a ação correta para realizar o que assegurará a você seu objetivo confessado (seja ele bens materiais ou a cura física). O corolário seria, se você realiza a ação errada, isto anulará a habilidade de Deus para liberar o que você pediu. É tudo por sua conta! …” (HOWARD. J. op.cit.)

    – Segundo a teologia da prosperidade, pois, a força da mente do salvo é suficiente para que obtenhamos o que deseja o nosso coração, o que nos mostra que o que se tem aqui é a simples aplicação do conceito do “pensamento que cura” ou da “cura da mente” desenvolvidos por Quimby e por Eddy, ideias estas que não têm qualquer respaldo das Escrituras. Aliás, antes de recorrermos a “fórmulas de fé”, ao “pensamento positivo”, devemos sempre nos lembrar o que diz a Bíblia sobre os desejos humanos: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr.17:9).

    – Partindo desta ideia da “força da mente”, que é expressa através de “fórmulas de fé”, chegamos à ideia de “rhema”, palavra grega que significa “palavra” e que, para Hagin, seria distinta de “logos”, cujo significado também é “palavra”. Entretanto, diz Hagin, enquanto que “logos” representaria a Palavra de Deus, ou seja, as Escrituras, “rhema” representaria a “Palavra Oral”, ou seja, a palavra que é proferida aos crentes em revelação ou inspiração em todas as épocas.

    – A ênfase dada a este “poder da palavra” é tanta que Hagin denominou seu centro bíblico de “Rhema”, havendo centros de treinamento em vários países do mundo. “A palavra da fé”, seria, pois, “rhema”, a palavra falada, dotada da mesma autoridade que as Escrituras. De pronto, vemos que, sob esta “denominação”, Hagin procura dar legitimidade a suas “visões” e “revelações”, esquecendo-se que a Palavra foi completamente revelada por meio do Filho (Hb.1:1).

    OBS: “…Rhema é a palavra falada de Deus e denota o ensino ou expressões vocais nas quais Deus, através de alguém, declara a Sua mente. Rhema é a instrução divina pelos pregadores do evangelho, palavras de profecia e anúncio profético…” (THE LATTER RAIN PAGE. Rhema. http://www.google.com/search?q=cache:zRBmDQ8uJ5wJ:latter-rain.com/theology/rhema.htm+rhema,+logos&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=14Acesso em 20 abr. 2006) (tradução nossa de texto em inglês). Como se verifica desta definição, há nítida contrariedade às Escrituras Sagradas, vez que, como Jesus já nos disse, o ministério profético durou até João (Mt.11:13; Lc.16:16) e o dons de profecia existentes, ministerial e espiritual, nada mais fazem que expor a Palavra para a edificação da igreja e do crente, despidas tais mensagens de autoridade própria, devendo ser confrontadas com a própria Bíblia Sagrada (cf. I Co.14:29).

    – Entretanto, quando verificamos a distinção que Hagin faz entre “rhema” e “logos”, para justificar esta palavra poderosa, da fé que “remove montanhas”, ao observarmos os textos das Escrituras, vemos que ela não se sustenta. Passagens há em que se utiliza “rhema” e outras em que se utiliza “logos” e que não correspondem às distinções feitas por Hagin.

    –  “Rhema” é a “palavra da fé”,  e, por isso, a Bíblia diz que “a fé é um dom de Deus” (Ef.2:8). As Escrituras dizem que a “fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm.10:17). E, ao contemplarmos o texto grego deste versículo, veremos que ali está escrito “hara hé pístis ex ákons, é dè ákoé diá rhematos Kristou”, ou seja, a palavra de Deus que dá origem à fé é “rhema” e não “logos”. Portanto,  “rhema” seria a palavra dirigida diretamente ao crente por Deus, que lhe traria a salvação.

    OBS: Aliás, quando observamos o texto grego, vemos que melhor é a tradução feita pela versão Almeida Revista e Atualizada, a saber: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.”

    – Mas, se assim é, por que, então, Pedro, no dia de Pentecostes, pregou as Escrituras (At.2:14-36)? Por que o apóstolo Paulo faz questão de dizer que tudo quanto pregava, fazia “segundo as Escrituras” (I Co.15:3) ? Simplesmente porque os apóstolos sabiam que a revelação completa de Deus havia sido o Senhor Jesus e que tudo quanto ocorrera com Ele havia sido, antes, predito pelas Escrituras. “Logos” é o próprio Deus (Jo.1:1), que Se fez carne e habitou entre nós (Jo.1:14), não havendo, portanto, necessidade alguma de uma revelação direta suplementar.

    – E que dizer, então, de Hb.4:12, onde se diz que “A palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos, e intenções do coração?” Sem dúvida alguma, esta definição da “palavra” está perfeitamente adequada à palavra “oral diretamente dirigida ao crente”. Consultemos, então, o original grego: “Zon gar ho logos tou theou kai energés kai tomóteros hyper pasan machairan distomon kai diiknoumenos archi merismon psyches kai pneumatos, harmon te kai myelon, kai kritikos enthymeseon kai ennoion kardias”. Percebemos que esta “palavra” é tradução de “logos” e não de “rhema”. O texto bíblico, pois, não se coaduna com o ensino do sr. Hagin.

    – As Escrituras ensinam-nos que nós somos servos do Senhor, simples ramos da videira verdadeira (Jo.15:1-3,16), sendo que a Palavra de Deus (seja “rhema”, seja “logos”, a Bíblia a denomina por ambas as palavras) tem o condão de nos fazer dependentes do Senhor, de nos manter limpos, ligado à videira, sem qualquer domínio ou autonomia em relação a Deus. Esta palavra, que é o próprio Filho, o testemunho do Filho, ela é viva e eficaz, continua a ser levada pela pregação e a ser a fonte do convencimento do Espírito Santo para a salvação de almas, bem assim para o aperfeiçoamento dos santos, que por meio dela, são impedidos de ser destruídos (Os.4:6). Não se faz necessário que haja qualquer revelação direta suplementar, pois ela é completa e suficiente para a salvação e o crescimento do cristão.

    – Observemos, aliás, que os sinais e maravilhas que se produzem na obra de Deus são para “confirmação da palavra” (Mc.16:20), palavra que, no grego, é “lógon”. A demonstração do poder de Deus, portanto, indispensável para a completude do evangelho, é feita por Deus para confirmação do “logos”, não havendo que se falar numa “palavra direta” denominada de “rhema”.

    – Por isso, “rhema”, na teologia da prosperidade, acaba sendo menos uma palavra de Deus e mais uma demonstração da força de vontade do homem. Vejamos o que diz, por exemplo, este texto de um seguidor desta “doutrina”: “…Rhema carrega uma conotação espiritual que o diferencia de logos. Ele também leva a uma aplicação para o contexto específico de nossas vidas. Por exemplo, nós podemos estar lutando com um problema na nossa vida e durante nosso tempo de repouso nós lemos um versículo que ‘fala’ diretamente para a situação com que estamos lidando. Aquela porção da Escritura tornou-se ‘uma palavra Rhema’ de Deus para nós considerando nossa situação. Nós, então, podemos levantar em fé no Rhema que Deus nos deu e confessá-lo sempre que o diabo tentar nos atacar.…” (COOK, Paul. A espada do Espírito. http://www.porn-free.org/sword_of_the_Spirit.htm Acesso em 20 abr. 2006). Como podemos observar, menos do que a orientação divina, a ideia de “rhema” diz que a Palavra só se torna ativa se tiver a “confissão”, a “determinação” do crente. É a “fé do crente” que torna eficaz a palavra que lhe foi dirigida. Deus ocupa um lugar menor, o que vale, mesmo, é a vontade do homem. Mais uma vez, voltamos à constatação de que há verdadeira e indevida “divinização” do salvo por parte da “teologia da prosperidade”.

    – Por isso, via de regra, os teólogos da prosperidade costumam fazer uma ilustração de que “Logos” seria o dínamo, a fonte geradora de energia, enquanto que “Rhema” seria “a luz”. “Logos” seria “…o potencial completo de tudo o que Deus é — algo capaz de fazer ou falar qualquer coisa mas sem que qualquer ação esteja envolvida…” (ROACH, Elwin R. The Word. http://www.hisremnant.org/roach/TheWord2.htmlAcesso em 20 abr. 2006), enquanto que Rhema seriam “…porções de logos sendo manifestadas na forma de palavras faladas…”(ROACH, Elwin.R. op.cit.). Há, portanto, uma equivalência entre Deus e o homem: se o homem não agir, de nada adianta o gerador; se não houver Deus, o homem também não pode “acender a luz”. Que petulância destes teólogos, que se esqueceram que, para Deus, o querer e o efetuar são o mesmo e realizados conforme a Sua vontade (Fp.2:13).

    – Dentro deste contexto é que surge a ideia da “determinação”. Como explica o missionário R.R. Soares, na lição 1 do seu Curso de Fé: “…aqui está a primeira lição. Não precisamos pedir a bênção e sim determinar, exigir, mandar, ou seja: tomar posse daquilo que aprendemos pela Palavra que nos pertence. Há muita coisa nova que vamos aprender nestas lições sobre a fé, e sempre que aprendemos algo, devemos colocar logo em prática. Não devemos ser lerdos em tomar posse daquilo que é nosso. Quando o Senhor nos dá uma revelação, junto a ela Ele nos dá a bênção.(…). A partir de agora, não precisamos mais orar pedindo a cura, a prosperidade ou a vitória sobre as tentações. Mas, determinar ou exigir que o mal saia da nossa vida.…” (Curso Fé. Aula 1. Determinação. http://www.ongrace.com/cursofe/licoes.php?id=1 Acesso em 20 abr. 2006).

    – Ora, como podemos verificar, uma vez “descoberta” a bênção, o que se dá por meio de “rhema”, não há que se falar em outra atitude senão a “determinação”, ou seja, a “confissão” que faz com que tomemos posse da bênção e, portanto, obtenhamos aquilo que desejamos. É esta a essência da chamada teologia da prosperidade. Tudo, portanto, depende de nós, desta nossa “determinação”, até porque, segundo o missionário R.R. Soares, em Jo.14:13, a palavra “pedirdes em meu nome”, “segundo os entendidos em língua grega”, seria melhor traduzida por “determinardes”.

    – No entanto, quando vamos ao grego, a saber, “aitesete”(????????), vemos que tal palavra significa, mesmo, “pedirdes”, “suplicardes”, “requererdes”, “implorardes”, ou seja, em momento algum se deixa de ter o significado de “pedido”, de “reconhecimento de autoridade superior”.

    – Para ainda poder dar coerência a seu pensamento, os teólogos da prosperidade ainda afirmam que a determinação não é, em absoluto, em relação a Deus, pois de Deus nada se exige, mas se trata de uma determinação dirigida a Satanás, “in verbis”: “…É claro que não podemos exigir de Deus. Não podemos mandar que Deus faça isto ou aquilo. Ele é o Senhor e nós servos. Mas, determinar não é ordenar a Deus e sim ao diabo que tire de nós suas garras e desapareça de nossas vidas, de nosso dinheiro e de nossas famílias. Determinar é obedecer ao Senhor. Quando agimos assim, descobrimos que este é o modo de fazer o inimigo nos obedecer. Quando determinamos em o Nome de Jesus, o poder de Deus entra em ação realizando aquilo que queremos.…” (Curso Fé. Aula 1 – Determinação. op.cit.).

    – Agora, se estamos salvos por Jesus, como entender que estejamos sob o domínio de Satanás? São os próprios teólogos da prosperidade que ensinam que agora temos “direitos legais” por causa da redenção. Como servos de Deus, vivendo em harmonia com o Senhor, temos promessas de bênção sobre o nosso patrimônio (Dt.28:1-14). Além do mais, enquanto não formos glorificados, haverá, sempre, uma luta contínua e renhida entre a Igreja e o adversário e suas hostes (Mt.16:18; Ef.6:12,13), cabendo a nós, tão somente, lutar o bom combate até acabarmos a carreira, guardando a fé (II Tm.4:7,8).

    – Então, se somos salvos e, portanto, estamos debaixo da proteção divina, que é permanente e imutável (Sl.91:1,2; Jo.6:37; 10:28), cabe-nos, tão somente, confiar no Senhor, manter-nos separados do pecado, lutarmos contra o mal, fazermos a vontade do Senhor até que Ele venha, sabendo que tudo o que acontecer, nas nossas vidas, coopera para o bem daqueles que amam a Deus e que são chamados pelo Seu decreto (Rm.8:28). As adversidades existirão e não representarão, de forma alguma, um ataque do diabo sobre nós, a menos que seja com permissão divina, precisamente para que o mal se converta em bem. Deus é fiel e se Ele prometeu dar-nos o necessário para que alcancemos a glorificação, último estágio de nossa salvação, devemos tão somente obedecer-Lhe e seguir-Lhe a direção.

    – Dizer que o salvo tem coisas que o diabo está de posse e que podemos tomar com base na “determinação” é, portanto, algo que não tem razão de ser diante do que nos ensinam as Escrituras. Por primeiro, porque nada temos. Como ensinou o patriarca Jó, nada é nosso, tudo é do Senhor (Jó 1:21), de forma que devemos ser desapegados às coisas desta vida, mormente quando sabemos que nossas almas já pertencem ao Senhor e com Ele viveremos eternamente.

    – Por segundo, se o diabo roubou algo que estava sob nossa administração, fê-lo por uma de duas razões: ou porque Deus o permitiu e, neste passo, isto tem uma finalidade de crescimento espiritual para nós e, no momento exato, Deus no-lo devolverá ou, como fez com Jó, dará a nós até mais o que administrávamos antes, ou, então, Deus está efetuando justiça, visto que tudo o que homem ceifa, isto também semeia (Gl.6:7,8) e, assim, devemos louvar a Deus e glorificá-lO porque aquilo que nós não podíamos fazer, que era a salvação da nossa alma, Jesus já fez por nós e, mesmo sendo desapossados de bens ou saúde, temos a certeza de que viveremos eternamente com Ele na glória.

    – Notamos, pois, que não resta qualquer “determinação” a ser feita ao diabo na vida do crente. Tudo o que se fizer será por pura ganância, por avareza ou por arrogância, pois o desejado será algo que Deus não nos deu, tanto que se encontra nas mãos do inimigo, que poder algum tem sobre nós.

    – Mas, poderia alguém dizer, então não devemos expulsar demônios, lutar contra as hostes espirituais da maldade? É lógico que podemos fazê-lo, é este um dos sinais que confirmam a nossa filiação divina. Agora, não se trata aqui de “determinação” alguma, mas de uso do poder que Deus nos confiou. Como servos do Senhor, devemos lutar contra as obras do diabo, obras estas, porém, que não são materiais, embora possam se expressar de forma material (como é o caso de enfermidades malignas), mas, sim, espirituais. Todavia, tudo faremos segundo a vontade do Senhor e para a honra e glória do Seu nome. E o Senhor operará se assim o desejar.

    – Os dias em que vivemos são difíceis e há um materialismo e um individualismo, promovidos pelo espírito do anticristo, a infestar a nossa sociedade. Em meio a tantas dificuldades, a pregação de um evangelho que promete autoridade divina, isenção de doenças e dificuldades, bem como prosperidade financeira, é algo que seduz, principalmente aqueles que, tendo um contato superficial com a Palavra de Deus, se deixam levar pelas interpretações dúbias e pelos arranjos intencionais de versículos bíblicos.

    – A falta do conhecimento da Palavra de Deus entre os crentes, o domínio dos meios de comunicação por pregadores da prosperidade (até porque este tipo de mensagem tem altos índices de audiência, a incentivar as empresas de comunicação a ceder-lhes horário) e as dificuldades crescentes destes tempos finais da dispensação da graça são fatores que fazem aumentar a propagação da “teologia da prosperidade”, que é, sem dúvida alguma, a maior chaga, a maior erva daninha, junto com o “triunfalismo” no meio do povo do Senhor.

    – Somente se voltarmos ao estudo da Palavra e à pregação do evangelho genuíno, com a devida santificação, para que haja, inclusive, a satisfação das necessidades físicas e materiais do povo, pois tais bênçãos estão, sim, entre as prometidas pelo Senhor à Igreja, poderemos estancar as grandes feridas causadas por esta teologia que tem sido a maior arma do inimigo para provocar no povo o sentimento de decepção com Deus, pois, ardilosamente, Satanás tem levantado estas pregações mirabolantes, com as quais Deus não tem qualquer compromisso, pois fora de Sua Palavra (cf. Jr.1:12) e, depois, quando as pessoas continuam doentes e pobres, faz o adversário nelas nascer um sentimento de revolta para com Deus e de total descrença nas Escrituras, criando-se, assim, um vazio espiritual propício para a crença no “super-homem” que está para se manifestar.

    – Como diz Elwin R. Roach, “…Não há coisa alguma errada com os cristãos sendo pensadores positivos e é uma boa coisa viver uma vida positiva em Cristo, sabendo que “maior é O que está em nós, do que o que está no mundo”. Mas nós não deveríamos confundir nossa pensamento positivo natural como sendo aquela coisa que resolverá todos os nossos problemas terrenos e que nos põe no assento de um Cadillac novo todo ano…”

    (Elwin R. Roach. The Word. http://www.hisremnant.org/roach/TheWord1.htmlAcesso em 20 abr. 2006).

    – Durante este trimestre, estudaremos qual é a verdadeira prosperidade bíblica e, certamente, estaremos em condição de ajudar aqueles que, inadvertidamente, têm achado que o Evangelho lhes traz abundância e fartura materiais.

    Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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  • Whitney Houston

    A noite antes de sua morte, Whitney Houston subiu ao palco para cantar sua última canção ” Sim, Jesus me ama “(Sim, Jesus me ama). era sexta-feira, em um show de Kelly Price & Friends antes da entrega de Grammy, que Whitney tinha planejado assistir. Neste concerto Houston subiu ao palco e cantou gospel Cancon espontaneamente “Sim, Jesus me ama” testemunhar em que ela havia colocado a sua fé .

    Pouco depois ele foi encontrado morto no quarto andar de Hilton Hotel em Beverly Hills. Whitney Houston foi criado como batista, mas também freqüentou igrejas pentecostais. Após seu casamento com Bobby Brown a sua vida estava mergulhada na tragédia vinda ao vício em drogas.

    Depois de ter tido uma vida cristã devota ao senhor Jesus, muitos se perguntam onde Whitney Houston estaria agora: estaria ela no céu ou no inferno?

    Dias antes de morrer, ela teria se tornado bastante espiritual e dito aos amigos sobre sua fé e desejo de “ver Jesus”, segundo o TMZ.

    Segundo a pastora e cantora gospel, amiga de Whitney, Kimberly Burrell, Whitney está agora no céu e comemorando com Deus.

    “Whitney sabia como ir até Deus, Whitney sabia como orar e eu estou confiante de que em seus tempos difíceis, quaisquer que ela tenha passado, ela sabia como ir até Deus”, disse Burrell ao CNN nesta terça-feira.

    Whitney Houston foi encontrada morta no quarto do hotel Beverly Hilton no sábado, 11 de fevereiro. As hipóteses para a sua morte até o momento são de que ela teria se afogado ou tido uma overdose.

    Houston cresceu como batista mas também atendia à igreja pentecostal durante o seu crescimento. Com 11 anos ela fez parte do coro da igreja New Hope Baptist Church em Newark, Nova Jersey. Ela deixou a todos maravilhados com a performance das canções “Guide Me, O Thou Great Jehovah”.

    Mas de uma cristã devota, a estrela da música mudou para uma “viciada em drogas”, quando se casou com Bobby Brown. A famosa cantora começou desde então a enfrentar muitos problemas relacionados com o vício das drogas e álcool.

    Apesar de sua grande caída na fé, Houston não culpava o “diabo” pela trágica mudança. Ela havia revelado em uma entrevista anterior com Diane Sawyer que o maior “diabo” era ela.

    “Ninguém me obrigada a fazer qualquer coisa que eu não queira fazer. É minha decisão. O maior diabo sou eu”.

    Mas isso não elimina colaboração de Satanás em sua morte. O apologista brasileiro, Johnny Bernardo, do Instituto de Pesquisas Religiosas (INPR), relembra que Satanás atua de diversas formas, direta ou indiretamente, para destruir a humanidade.

    “Satanás atua direta e indiretamente na destruição da humanidade, não temos qualquer dúvida. São inúmeros os meios utilizados: drogas, bebida alcoólica, doenças sexualmente transmissíveis etc”, disse ele ao The Christian Post.

    Bernardo afirma que o que aconteceu com Whitney é o mesmo que vem acontecendo com inúmeros cantores pop e a cantora britânica Amy Winehouse: “Rápido enriquecimento seguido de uma sensação de falta de paz e solidão”.

    Elvis Presley e Whitney Houston são dois exemplos apontados pelo apologista como figuras do meio gospel que foram impedidos de ajudar o mundo se aproximar mais do Evangelho.

    A causa de sua morte e sua relação com o propósito com Deus, entretanto, continuará a ser um mistério. Não se pode afirmar se ela conseguiu ou não “reservar” seu espaço no céu depois de sua mudança de vida com Jesus. Segundo Bernardo, é uma opinião pessoal dizer se ela está no céu ou no inferno.

    “Um dia saberemos de todas as coisas. Por enquanto, cabe a nós orarmos pelos familiares e incentivarmos o evangelismo nos mais diversos níveis da sociedade – e o mundo pop star não está isente de nosso alcance.”


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  • Crítica não transforma nada, e somente satisfaz aquele que fala…

     

    O meio cristão está abarrotado de acidez.

    Confundimos exortação com crítica boa e barata.

    Nossa exortação muitas vezes se expressa em olhar para a vida alheia e apontar aquilo que pensamos estar fora de um padrão.

    Há muito mais trave que cisco.

    Aquilo que é conversado nos corredores das igrejas, aquilo que é falado em alguns púlpitos e aquilo que é escrito em blogs cristãos expressa isto.

    Se você der uma varrida nos maiores blogs cristãos você vai perceber que eles vivem de apontar os erros dos “grandes” pastores da cena evangélica. A exortação predileta da irmã é apontar a roupa curta da outra. A grande verdade na boca do irmão é como o ministro de louvor desafina…

    Há muita crítica falsa no meio evangélico.

    Crítica não transforma nada, e somente satisfaz aquele que fala…

    A verdadeira exortação acontece quando dizemos algo buscando transformar verdadeiramente a vida das pessoas…

    A linha entre o apontamento falso e a exortação verdadeira não é tênue. Há um abismo entre eles.

    Bem verdade, muitas vezes é gostoso falar mal de alguém. Nos sentimos melhores ao apontar o erro alheio. Eles estão sujos e nós limpos.

    A igreja está abarrotada de pessoas que querem apontar os erros sem se importar que a vida das pessoas melhore. Que os erros sejam corrigidos…

    Essa é o abismo que separa a falsidade da exortação. Você não carrega em suas palavras acidez, mas uma alternativa de transformação.

    E não tem nada a ver com o tom que você fala. Há acidez em palavras mansas e há verdade na grosseria.

    Tem a ver com o que há no coração.

    A igreja precisa mais de construtores do que de cínicos.

    Mais de pessoas que fazem as coisas acontecerem do que de pessoas que criticam tudo e todos de braços cruzados.

    Há de se ter cuidado com pessoas, blogs e tudo mais que apontam os erros alheios e não oferecem com suas próprias vidas uma alternativa correta e verdadeira de comportamento.

     

    Fonte: http://www.papodelouco.com.br/papo_de_louco/critica-boa-e-barata/

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  • Rumo ao Armagedom – Putin promete rearmamento "sem precedentes" da Rússia

    Há um ano, o governo russo já havia anunciado um amplo plano de modernização do exército por cerca de € 500 bilhões

    Segundo as profecias bíblicas, a Rússia e os muçulmanos vão formar um grande bloco de países –o GOGUE e MAGOGUE – Ez.cap.38 e 39, além de Dn.11:40-45, que invadirão Israel, pouco antes ou pouco depois do Arrebatamento da Igreja.

    Fonte; Revista Exame dia 20/02/2012

    Atual primeiro-ministro põe como prioridade a necessidade de responder à implantação de um escudo antimísseis na Europa pelos EUA

    Vladimir Putin prometeu um rearmamento “sem precedentes” da Rússia diante dos Estados Unidos e um avanço do complexo militar-industrial que quer colocar, como na URSS, no centro do desenvolvimento do país, em um texto publicado nesta segunda-feira no âmbito da eleição presidencial.

    O atual primeiro-ministro Vladimir Putin, que foi chefe de Estado de 2000 a 2008 e é candidato à presidência, põe como prioridade a necessidade de responder à implantação de um escudo antimísseis na Europa pelos Estados Unidos e Otan mediante o “reforço do sistema de defesa aérea e espacial do país”.

    “Na próxima década serão destinados 23 bilhões de rublos (590 bilhões de euros, 773 bilhões de dólares) a estes objetivos (de rearmamento)”, informa este longo texto publicado pelo jornal oficial Rosiskaya Gazeta, consagrado totalmente à questão militar.

    “Temos que construir um novo exército. Moderno, capaz de ser mobilizado a qualquer momento”, escreveu, considerando que o exército russo foi deixado de lado nos anos 1990 “no momento em que outros países aumentavam constantemente suas capacidades militares”.

    “Temos que superar completamente este atraso. Retomar um status de líder em todas as tecnologias militares”, destacou Putin, citando o terreno espacial, a guerra no “ciberespaço”, assim como as armas do futuro com efeito “geofísico, por raios, ondas, genes, psicofísico”.

    “A renovação do complexo militar industrial se converterá em uma locomotiva para o desenvolvimento dos mais diversos setores”, disse Putin, quase certo de voltar no dia 4 de março ao Kremlim, que precisou deixar em 2008 ao estar impossibilitado pela Constituição de conquistar um terceiro mandato.

    “Pretende-se que o renascimento do complexo militar-industrial seja um jugo para a economia, um peso insuperável que em seu tempo teria arruinado a URSS”, comentou.

    “Estou convencido de que isto é um profundo erro”, escreveu o ex-agente do KGB (serviço de inteligência soviético), que, em 2005, classificou a explosão da União Soviética como a “maior catástrofe geopolítica do século XX”.

    “A URSS morreu por ter esmagado as tendências do mercado na economia (…). Não temos que repetir os erros do passado”, destacou Putin, considerando que os novos investimentos no campo militar desta vez devem ser o “motor da modernização de toda a economia”.

    No entanto, esta perspectiva foi colocada em xeque pelos especialistas. Segundo Alexander Konovalov, presidente do Instituto de Análises Estratégicas de Moscou, “a ideia de que se pode realizar um salto à frente na economia graças ao complexo militar-industrial está superada desde os anos 1950”.

    Putin anunciou o “renascimento” da marinha russa, em particular no Extremo Oriente e no Grande Norte.

    Retomou também a acusação recorrente na Rússia contra os Estados Unidos sem nomeá-los, segundo a qual “ocorrem” deliberadamente conflitos ou zonas de instabilidade perto de suas fronteiras e o direito internacional nas crise mundiais é cada vez menos respeitado.

    Putin também anunciou a entrega em dez anos de “400 mísseis balísticos modernos, 8 submarinos estratégicos, 20 submarinos polivalentes, mais de 50 navios de superfície, cerca de cem veículos espaciais com função militar, mais de 600 aviões modernos, mais de 1.000 helicópteros, 28 baterias antiaéreas S-400…”.

    Os salários dos militares foram “praticamente multiplicados por três” no dia 1 de janeiro, e o exército russo – 1 milhão de homens – se tornará profissional para ter apenas 145 mil recrutas em 2020, anunciou.

    Há um ano, o governo russo já havia anunciado um amplo plano de modernização do exército por cerca de 500 bilhões de euros (cerca de 661 bilhões de dólares).

     

     

     

     


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  • Subsidio EBD Central Gospel – Lição 8 – Moises – Um profeta sem igual

    Texto Bíblico – Êxodo 3 1-6

    Introdução

    O cenário que encontramos no início do livro de êxodo é descrito nos versículos abaixo:

    Êxodo: 1. 6-8 Ora, morreram José, todos os seus irmãos e toda aquela geração.

    Os israelitas, porém, eram férteis, proliferaram, tornaram-se numerosos fortaleceram se muito, tanto que encheram o país. Então subiu ao trono do Egito um novo rei, que nada sabia sobre José.

    Após a morte de José e de sua geração, a liderança do Egito muda, dando inicio a XVIII dinastia que  foi criada após a expulsão dos Hicsos, povos de origem asiática, e que comandaram o Egito por quase duzentos anos, então sobe ao poder os governantes de Tebas e que consideravam suspeitos os israelitas que ocupavam a terra de Gósen na região oriental do Delta. Então é compreensível que os egípcios nativos não confiassem neles, pois haviam se estabelecido ali no tempo do domínio dos hicsos, eram etnicamente aparentados e tinha sidos favorecidos por eles.

    Então o novo Faraó começou a oprimir o povo de Deus, até o estado de escravidão, pois como eles eram um povo e chegaram ao poder, os hebreus também podiam tomar o trono. Versículos 9 e 10;

    Mais quanto mais eles oprimiam os hebreus mais o povo crescia e se fortalecia, então estrategicamente chamou duas chefes das parteiras e ordenou que na hora do parto das hebréias , se o bebê fosse menino elas o matariam, mais ambas não cumpriram a ordem e mentiram a Faraó dizendo que as mulheres hebréias eram mais espertas então elas tinham seus filhos sem ajuda das parteiras. E Deus abençoou as parteiras. Versículos 15 ao 21

    Aplicação:

    1° Arma de guerra – Controle Populacional existe uma teoria que a Europa em alguns anos se tornará totalmente mulçumana, conforme mostra o vídeo abaixo; E como a incentivo dos países ocidentais a prática de aborto e planejamento familiar.

    2° Aqui apreendemos que as vezes teremos que  escolher o mal menor como alternativa ética exemplo: Suponhamos que alguém esteja sendo perseguido por ser cristão e perguntam se aquela pessoa esta em sua casa, o que você responderia ?   Também vemos os limites da obediência civil, A desobediência civil é justificada na Bíblia somente quando as autoridades intencionalmente se opõem ao evangelho de Jesus para cometerem injustiças (cf. At 4.18,19), e criam leis anti-cristã.

    Na ultima cartada o Faraó baixa um decreto que todo menino hebreu que nascesse seria jogado no rio Nilo. Versículo 22

    Nascimento de Moises – 1ª fase da sua vida

    O povo de Deus viveu no Egito 400 anos de escravidão, mais Deus ainda tinha a sua promessa para o povo hebreu, de que seria levantado um libertador, para tira-los da escravidão.

    No meio deste contexto nasce Moises, os descendentes de Levi, filho de Jacó, Anrão e Joquebede, tiveram um lindo filho e como a ordem era jogar os meninos recém nascidos no Nilo a sua família o escondeu durante três meses. Mas quando não conseguiu mais esconde-lo, fez um cesto de junco e calafetou-o com betume e piche, para a água não entrar. Quando

    o cesto estava terminado, ela colocou o nenê dentro, e colocou-o na água do rio. E entre os juncos, deixou sua filha Miriã, escondida por perto, para ver o que ia acontecer. O tempo se passou, e o cesto, com sua carga preciosa, continuou flutuando na água, com a irmã sempre observando de repente, a princesa, filha de  Faraó, desceu para tomar banho. Aproximando-se a este lugar, ela viu o cesto entre os juncos. Mandou uma criada ir buscá-lo e quando o abriu, o menino estava chorando. A princesa ficou com pena, reconhecendo ser ele o filhinho de algum

    hebreu (israelita), mas, apesar do mandamento do rei, ela decidiu ficar com a criança.

    Neste momento Miriã aproximou-se da princesa e perguntou:

    ?  A senhora quer que eu vá chamar uma ama para o nenê?

    A princesa disse que “sim”, e Miriã foi chamar a mãe da criança. Imagine! A

    própria mãe foi contratada e recebeu um salário da princesa, para amamentar e criar o

    seu próprio filho. Quando o menino ficou já grande, sua mãe levou-o para viver no

    palácio real. A princesa deu-lhe o nome de Moisés, que significa “tirado das águas”.

    Êxodo 2. 1-11

    Quem era a filha de Faraó? Há duas explicações populares. (1) Alguns acreditam que Hatshepsut foi a mulher que tirou o Moisés do rio. Seu marido foi o Faraó Tutmosis II. (Isto coincidiria com a data do êxodo considerado anterior.) Aparentemente Hatshepsut não podia ter filhos, assim Tutmosis teve um com outra mulher, que chegou a ser herdeiro ao trono. Hatsepsut teria considerado o Moisés um presente dos deuses, já que agora tinha seu próprio filho, que seria o herdeiro legítimo ao trono. (2) Muitos pensam que a princesa que resgatou ao bebê Moisés era a filha do Ramesés II, um Faraó especialmente cruel que teria feito miserável a vida dos escravos hebreus. (Isto coincidiria com a data do êxodo considerado posterior.)

    Na corte de Faraó, Moisés recebeu o mais elevado ensino civil e militar. O rei resolvera fazer de seu neto adotivo o seu sucessor no trono, e o jovem foi educado para a sua elevada posição. “E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios; e era poderoso em suas palavras e obras.” Atos 7:22. Sua habilidade como chefe militar tornou-o favorito dos exércitos do Egito, e era geralmente considerado personagem notável. Satanás fora derrotado em seu propósito. O mesmo decreto que condenava as crianças hebréias à morte, tinha sido encaminhado por Deus de modo a favorecer o ensino e educação do futuro chefe de Seu povo.

    Josefo afirma que Moisés crescia e demonstrava muito mais espírito e inteligência que o permitido por sua idade: “Mesmo brincando, dava sinais de que um dia seria alguém extraordinário” (2005, p.140). A princesa fê-lo educar, afirma Josefo, “com grande desvelo, e quanto mais os hebreus se alegravam tanto mais os egípcios se atemorizavam” (2005, p.140). Afirma o historiador judeu, que Moisés foi ordenado general de todo o exército egípcio para lutar contra os etíopes que, aos poucos, invadiam e conquistavam as terras egípcias. Destacando-se como estrategista militar eficiente, acrescenta Josefo, que o Faraó invejou a Moisés e a fama do mesmo que percorria todo o Egito.

    A tradição judia recolhimento no discurso do Esteban divide a vida do Moisés em três períodos: quarenta anos no Egito (At 7.23), quarenta no Madián (7.30), e quarenta no deserto a partir do êxodo (7.36). Isto soma um total de cento e vinte anos, o que corresponde à cifra dada no Dt 34.7.

    Sua tentativa de Libertar Israel e o deserto – 2° fase de sua vida

    A respeito desta mudança decisiva na vida do Moisés, cf Hb 11.24-26. Seu desprezo santo das honras e dos prazeres da corte egípcia, ele recusou ser chamado filho da filha de Faraó. A tentação era realmente muito forte. Ele teve uma oportunidade justa (como dizemos) para fazer sua fortuna, e ter sido útil a Israel também, com o seu interesse na corte. Ele avaliou-se muito mais a sua honra e a vantagem de ser um filho de Abraão do que ser filho da filha de Faraó.

    Sua preocupação com os seus irmãos pobres em cativeiro, ele escolhe sofrer aflição, ele olhou para as suas cargas como aquele que não só tinha pena deles, mas estava decidido a se aventurar com eles.

    Porém, quando completou 40 anos, ao visitar os seus irmãos hebreus, Moisés mata um egípcio que maltratava um dos escravos hebreus (Êx 2.11,12).

    Moisés nessa época já houvera discernido a vontade de Deus para sua vida. Atos dos Apóstolos afirma que Moisés “cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus lhes havia de dar a liberdade pela sua mão; mas eles não entenderam” (7.25). Pouco tempo depois ao arbitrar e interferir na querela entre dois hebreus, Moisés descobre que o fato de ter matado um egípcio já se tornara assunto corrente. Temeu pela sua vida, e com muita razão, pois a lei que prevalecia nesse período era “olho por olho, dente por dente”. Faraó soube do caso; sente-se traído por Moisés e decreta-lhe a morte (Êx 2.15). O literato da Epístola aos Hebreus vislumbra a fé de Moisés ao se retirar do Egito: “Pela fé, deixou o Egito, não temendo a ira do rei; porque ficou firme, como vendo o invisível” (11.27). Segundo o biblicista Charles Pfeiffer, “tentando redimir Israel à sua maneira e na sua hora, Moisés fracassou. Mas na hora de Deus ele foi chamado para libertar à maneira de Deus e pelo poder de Deus” (1990, p.70).

    Lições do Deserto

    Depois de 40 anos de vida palaciana, no Egito, Moisés foi obrigado a fugir do palácio de faraó e viver no deserto, por ter matado um egípcio em defesa de um hebreu. Até essa experiência com o Senhor no monte Horebe, ele viveu mais 40 anos no deserto. Para muitos, um desastre, um tremendo castigo.

    Como muitos, Moisés deve ter-se achado um fracasso. “Caiu” de príncipe no palácio, para pastor de ovelhas no deserto. Mas o que ele não sabia, como muitos não sabem, é que Deus tinha Seus planos. E os planos de Deus não são de fracasso, mas de vitórias e conquistas.

    Moisés estava num deserto sim, porém estava nos planos de Deus. Deus pode usar um deserto para formar seus nobres, valentes e conquistadores! Deserto não precisa ser local de fracasso, mas o grande laboratório de Deus para forjar um caráter de excelência em seus filhos. Podemos tirar lições valiosas no deserto.

    1-      DESERTO É LUGAR PARA DEUS COLOCAR UM CORAÇÃO NOBRE NOS SEUS ESCOLHIDOS (v. 1 a)

    2- DESERTO É O LUGAR ONDE OS NOBRES DE DEUS VÊEM AS MARAVILHAS DE DEUS (v.2):

    3- DESERTO É LUGAR PARA O HOMEM OUVIR A VOZ DE DEUS (v.4)

    4- DESERTO É LUGAR PARA O HOMEM RESPONDER AO CHAMADO DE DEUS (v.4):

    5- QUANDO DEUS SE REVELA AO HOMEM, ATÉ O SEU DESERTO SE TORNA SOLO SANTO (v.5-6):

    6-      DESERTO PODE SER O LOCAL IDEAL PARA OS NOBRES DE DEUS SEREM COMISSIONADOS E CONSOLIDADOS POR ELE (v.10-12)

    3ª fase de sua vida

    Monte Horeb é outro nome para o monte Sinaí, onde Deus revelaria ao povo sua lei (3.12)

    Deus falou com o Moisés de uma fonte inesperada: uma sarça ardente. Quando Moisés a viu, foi investigar. Também Deus usa às vezes fontes inesperadas quando se comunica conosco, já seja que utilize pessoas, pensamentos ou experiências. Esteja disposto a investigar, seja receptivo às surpresas de Deus.

    Moisés viu uma sarça ardente e falou com Deus. Muita gente na Bíblia experimentou aparições de Deus em uma forma visível (não necessariamente humana). Abraão viu um forno fumegante e uma tocha acesa (Gen_15:17); Jacó lutou com um varão (Gen_32:24-29). Quando os escravos foram liberados do Egito, Deus os guiou com uma coluna de nuvem e de fogo (Gen_13:17-22). Deus realizou tais aparições para animar a sua nova nação, guiá-los e provar a confiabilidade de sua mensagem verbal.

    Deus ordenou ao Moisés tirar suas sandálias e cobrir seu rosto. Tirar o calçado era um ato de reverência que comunicava sua própria indignidade ante Deus. Deus é nosso amigo, mas além disso é nosso Senhor soberano. Aproximar-se do de uma maneira frívola mostra uma falta de respeito e de sinceridade. Quando vai a Deus em adoração, lhe aproxima casualmente ou vem ante O como se fora um hóspede convidado ante um rei? Às vezes devemos trocar nossa atitude de modo que seja a apropriada quando nos aproximamos do Deus Santo.

    “Os lugares do cananeo” é a terra do Israel e Jordânia hoje. Cananeos era um termo que se dava às diversas tribos que viviam nessa terra.

    Moisés se desculpou porque se sentia incapaz para a tarefa que Deus lhe encomendou. Era natural nele que se sentisse assim. Sim, era incapaz por si só. Mas Deus não lhe estava pedindo ao Moisés que trabalhasse sozinho. Ofereceu-lhe outros recursos para ajudá-lo (Deus mesmo, Arão, e o dom especial de fazer milagres). Deus nos chama com freqüência para que realizemos tarefas que parecem muito difíceis, mas não nos pede que as façamos sozinhos. Deus nos oferece seus recursos, ao igual ao fez com o Moisés. Não devemos nos ocultar detrás de nossas deficiências, como ele, a não ser olhar além de nós mesmos e ver os grandes recursos disponíveis. Então podemos permitir que Deus utilize nossas contribuições.

    3.13-15 Os egípcios tinham muitos deuses de muitos nomes diferentes. Moisés queria saber o nome de Deus para que o povo hebreu soubesse quem exatamente o tinha mandado. Deus se chamou a si mesmo EU SOU, um apelativo que descrevia seu poder eterno e seu caráter inalterável. Em um mundo onde os valores, a moral e as leis trocam constantemente, podemos encontrar estabilidade e segurança em nosso Deus que nunca troca. O Deus que apareceu ante o Moisés é o mesmo que pode viver em nós hoje em dia. Hb_13:8 diz que Deus é o mesmo “ontem, hoje e pelos séculos”. Como a natureza de Deus é estável e confiável, temos a liberdade de segui-lo e desfrutá-lo, em lugar de passar o tempo tratando de imaginar como é O.

    3.14, 15 Jeová, ou Yavé, deriva da palavra hebréia que corresponde a EU SOU. Deus lhe estava recordando ao Moisés as promessas de seu pacto feitas ao Abraão (Gen_12:1-3; Gen_12:15; 17), ao Isaque (Gen_26:2-5) e ao Jacó (Gen_28:13-15). E utilizou o nome EU SOU para mostrar sua natureza incambiable. O que Deus prometeu aos grandes patriarcas, centenas de anos antes, cumpriria-o através do Moisés.

    3.16-17 Deus instruiu ao Moisés para que lhe dissesse ao povo o que tinha visto e ouvido na sarça ardente. Nosso Deus é um Deus que atua e fala. Uma de suas maneiras mais convincentes de lhes falar com outros é descrevendo o que tem feito e como falou a seu povo. Se você está tratando de lhes explicar a outros a respeito de Deus, lhes fale do que tem feito em sua vida ou nas vidas daqueles personagens da Bíblia.

    3.17 A terra “que flui leite e mel” é uma descrição de uma expressão poética que expressa a beleza e produtividade da terra prometida.

     

     

     

     

     

     

     

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  • Ministério Público Federal aumenta pressão em Malafaia por “homofobia”

    Procurador federal diz que Malafaia fez discurso de “ódio” e “incitação de violência em relação aos homossexuais” e quer adotar medidas para que “Malafaia não faça mais discursos que poderiam ser considerados homofóbicos”. Procurador também quer penalizar rede de televisão que transmitir qualquer crítica bíblica de Malafaia ao homossexualismo

    Julio Severo: As declarações de Silas Malafaia sobre aborto e homossexualismo estão incomodando. E cada vez que um telepastor prega contra o aborto e o homossexualismo, o PT espuma.Declaração do homem sinistro do PT, Gilberto Carvalho, apontou que o PT está se preparando para um confronto com telepastores pentecostais e neopentecostais, pelo simples motivo de que o PT não conseguiu fechar a boca desses homens com relação a dois importantes elementos de sua agenda: a sacralização do assassinato de bebês em gestação e a sacralização da atividade sexual homossexual.Carvalho reconheceu que toda a oposição política ao PT e ao socialismo está liquidada no Brasil. Mesmo tendo apoio eleitoral da população, inclusive de pastores (tradicionais, pentecostais e neopentecostais), o PT está preocupado com telepastores pentecostais e neopentecostais que, como Malafaia, não abrem mão das duas questões tão queridas para o PT e para os socialistas.

    Silas Malafaia, um dos maiores telepastores do Brasil, não abre mão de posturas bíblicas públicas contra o aborto e o homossexualismo

    Malafaia já votou no PT, mas não abre mão de posturas bíblicas públicas nessas questões.R.R. Soares e outros telepastores igualmente votaram no PT, mas quando indagados sobre aborto e homossexualismo, não têm medo de dar respostas públicas embasadas na ética bíblica.Essa ousadia bíblica está incomodando o PT, que quer ser senhor da verdade em tudo, até nessas questões. Para o PT, é insuportável que os telepastores consigam direcionar a população a defender a ética moral em conflito com a ética imoral do socialismo.Mesmo sem ter intenção, Carvalho foi profético ao dizer que haverá um confronto entre telepastores e o PT. Enquanto isso, esse confronto vai sendo feito com o uso e abuso do Ministério Público Federal e outros órgãos federais já amplamente à disposição dos interesses de militantes esquerdistas e homossexualistas.

    A matéria abaixo, com sua habitual tendenciosidade esquerdista, é do jornal Falha de S. Paulo:

    Malafaia chama de ‘absurda’ a ação que o acusa de homofobia

    O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, classificou de “absurda” a ação na qual o Ministério Público Federal em São Paulo que pede sua retratação por um discurso considerado homofóbico.

    Em hipótese alguma vou pedir retratação, pois isso é um absurdo. Os gays manipularam a minha fala para me incriminar, e sou eu que tenho de pedir retratação? Isto deve ser uma brincadeira“,

    afirma o pastor, em nota. Segundo o pastor, querem “rasgar” a Constituição para beneficiar os homossexuais.

    Vou às últimas consequências na Justiça.”

    Os comentários de Malafaia foram feitos em julho de 2011 no programa “Vitória em Cristo”, que é exibido na TV Bandeirantes em horário comprado por ele. Em meio ao debate sobre a proposta de lei para criminalizar a homofobia, o pastor falava sobre a Marcha para Jesus e a Parada Gay, eventos que aconteceram em junho em São Paulo. “Os caras na Parada Gay ridicularizaram símbolos da Igreja Católica e ninguém fala nada. É para a Igreja Católica ‘entrar de pau’ em cima desses caras, sabe? ‘Baixar o porrete’ em cima pra esses caras aprender. É uma vergonha”, afirma o pastor no programa.

    Para o procurador Jefferson Aparecido Dias, mais do que expressar sua opinião, o pastor fez um discurso de ódio.

    A ação também foi movida contra a TV Bandeirantes. De acordo com o procurador, a emissora deve impedir que mensagens homofóbicas sejam exibidas em sua programação.

    A Band afirma que vai se pronunciar “oportunamente através do seu departamento jurídico”. “As gírias ‘entrar de pau’ e ‘baixar o porrete’ têm claro conteúdo homofóbico, por incitar a violência em relação aos homossexuais“, afirma o procurador na ação.

    Aparecido Dias pede a retratação do pastor na TV, que deve ter, no mínimo, o dobro do tempo usado para fazer os comentários. Ele ainda quer que Malafaia não faça mais discursos que poderiam ser considerados homofóbicos.

    Durante o inquérito, o pastor afirmou que fez uma “crítica severa a determinadas atitudes de determinadas pessoas desse segmento social, acrescida também de reflexão e crítica sobre a ausência de posicionamento adequado por parte das pessoas atingidas”.

    Ele ainda disse que as expressões “baixar o porrete” ou “entrar de pau” significam “formular críticas, tomar providências legais”. Segundo o procurador, durante o inquérito o pastor pediu que os fiéis da sua igreja enviassem e-mails ao responsável pelo caso. Aparecido Dias relata ter recebido centenas de mensagens.

    Da mesma forma que seus seguidores atenderam prontamente o seu apelo para o envio de tais e-mails, o que poderá acontecer se eles decidirem, literalmente, “entrar de pau” ou “baixar o porrete” em homossexuais?”, questiona o procurador.

    Fonte: www.juliosevero.com

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