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  • Lição 9 – A teologia da Prosperidade e o Evangelho puro e simples

    Lição 9 – A teologia da Prosperidade e o Evangelho puro e simples

    mamon

    INTRODUÇÃO

    Testemunhamos, nessas últimas décadas, a expansão de um movimento teológico denominado de Teologia da Prosperidade.

    1. O que é Teologia da Prosperidade

    Nascida nos Estados Unidos, a Teologia da Prosperidade espalhou-se com extrema rapidez pelo Brasil. Seus defensores não se encontram apenas entre os neopentecostais. Tem conquistado adeptos também entre os evangélicos tradicionais seu alastramento representam sérios desafios à Igreja Evangélica Brasileira. Com ênfase nas “bênçãos” e indisfarçável aversão à Cruz (metáfora do sofrimento, dor e perseguição que acompanham os verdadeiros seguidores de Cristo), a Teologia da Prosperidade coloca em xeque a herança protestante.

    1.1.    Seu conteúdo

    Uma fórmula pregada com exagerada ênfase por esse novo credo afirma ser o crente uma pessoa “especial”, subtraída quase às leis da vida e para quem não existiria pobreza e doença. Experimentá-las seria sinal de falta de fé. Saúde e riqueza tornam-se, por assim dizer, sinais genuínos da salvação, do estado de graça do fiel. Daí esse movimento também ser conhecido como Wealth and Health Gospel(Evangelho da Riqueza e Saúde)

    Numa inversão de valores, os profetas da prosperidade colocam a conquista da felicidade no plano terreno como  um super bônus da bem-aventurança cristã, quando a Bíblia exorta-nos a buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça (Mt 6.33). A posse das bênçãos deixa de ser uma promessa dada por Deus para ser um direito, exigido pelo fiel com quem pleiteia uma herança ou reclama um bem.

    Além de apresentar ensinos questionáveis sobre a fé, a oração, e as prioridades da vida cristã, e de relativizar a importância das Escrituras por meio de novas revelações, a teologia da prosperidade, através dos escritos de seus expoentes, apresenta outras ênfases preocupantes no seu entendimento de Deus, Jesus, ser humano e salvação.

    1.2 O Seu Espirito

    O Espirito de Mamon , e o espirito que está por trás da teologia da prosperidade.

    A nota da Bíblia King James (Mt 6.24) comenta o que segue sobre o termo Mamom: “Jesus escolhe uma palavra aramaica Mamom para personificar um dos mais poderosos deuses de todos os tempos: o Dinheiro. O adjetivo Mamom, deriva do verbo aramaico aman (sustentar) e significa amor às riquezas e dedicação avarenta aos interesses mundanos.

    Jesus orienta seus seguidores a investir suas vidas na conquista de bens espirituais agradáveis ao Senhor e adverte para a impossibilidade de servir com lealdade a Deus e ao mesmo tempo amar o deus Dinheiro. Isso não quer dizer que Jesus seja contra os ricos e prósperos, mas sim que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. O dinheiro é para ser usado e as pessoas,  amadas. A inversão desses valores tem sido a razão de muitas desgraças.

    1.3 A mentira da confissão positiva

    Confissão Positiva é como funciona a teologia que prega prosperidade e saúde através do poder da palavra.
    A confissão positiva nos leva aos princípios esotéricos que norteiam todas as seitas holísticas. Baseados em textos bíblicos isolados, esses teólogos afirmam que há poder em nossas palavras pra tudo.

    Veja o que eles pregam:

    1-Deus criou as coisas pela fé
    2-O homem é um deus um pouco menor
    3-Deus perdeu o controle do mundo na queda do homem
    4-O homem assumiu a natureza satânica na queda
    5-Jesus assumiu a natureza satânica na cruz
    6-Jesus precisou morrer espiritualmente
    7-Deus não pode agir sem que autorizemos
    8-A fé nas palavras traz as coisas à existência
    9-Voltamos a natureza divina quando nascemos de novo
    10-Como pequenos deuses, devemos ter do bom e do melhor nesta Terra

    2.A Ignorância, dinheiro e Consumismo.

    “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. “Uma vez que vocês rejeitaram o conhecimento, eu também os rejeito como meus sacerdotes; uma vez que vocês ignoraram a lei do seu Deus, eu também ignorarei seus filhos.” Oséias 4:6
    As pessoas têm sido e estão sendo destruídas, não só por falta de conhecimento, mas porque rejeitam conhecimento. Portanto, o que estava acontecendo com Israel está acontecendo com o mundo inteiro hoje também.
    Precisamos entender que a falta de conhecimento da Palavra de Deus com relação a qualquer assunto pode nos fazer viver na mais profunda ignorância, e é triste ver cristãos que não apreendem as noções e princípios de economia bíblia.
    A Bíblia ensina-nos como enfrentar muitas situações diferentes na vida, incluindo como lidar com o dinheiro. Jesus falou muito sobre esse assunto e a Bíblia refere-se muitas vezes às riquezas (Ec 10.19). O dinheiro pode ser bênção ou maldição, dependendo do uso que dele fazemos. Como administramos o dinheiro afeta a nossa comunhão com o Senhor. O dinheiro é um rival de Cristo pelo senhorio da nossa vida (Lc 16.13,14), além de moldar o nosso caráter.
    Como devemos agir com as finanças?
    Devemos evitar:

    • Dívidas fora do seu alcance (Rm 13.8). O crente não deve fazer dívida. Devemos fazer uma previsão de gastos para não perder o controle. Não devemos nos comparar com os outros, nem cairmos no consumismo desenfreado (1 Tm 6.8-10). Evitar a todo custo, contrair mais dívidas para pagar dívidas; Não aceitar propostas de credores fora de suas reais possibilidades de pagamento; Não dever a agiotas. Dicas: gastar menos, ganhar mais, vender algo que não seja essencial.
    • Ficar por fiador (Pv 17.18; 11.15; 6.1-5; 22.26)
    • Desonestidade. A pessoa que promete pagar é obrigada cumprir a promessa. Aquele que promete e não paga está pecando. (Lc 16.12; Sl 15.4,5; Hb 2.9; Ef 4.1,25; Mt 5.37). A honestidade é parte do caráter cristão (2 Co 8.21; Tt 2.5; Pv 11.1; Jr 17.11). O nome de Deus é blasfemado, quando somos desonestos (Rm 2.21-24).
    • Fazer do objetivo da vida o enriquecimento (1 Tm 6.9; Pv 23.4)

    O que fazer com o dinheiro?

    • Seja “rico para com Deus” (Mt 6.33).
    • Viva dentro dos limites de seu orçamento (Pv 22.7)
    • Pague os impostos e obedeça às leis do governo (Mt 22.17-21).
    • Não ser ganancioso, nem oprimir outros (Tg 2.6-7).
    • Ore pedindo ajuda a Deus (Tg 4.2). Deus supre a necessidade (Mt 5.45). É preciso distinguir entre necessidade e cobiça (Tg 4.3)
    • Procure orientação (Cl 3.16).
    • Não invejar a prosperidade do ímpio (Sl 73).
    • Desfrute sem comprar (Praia, biblioteca, museu, parques públicos).

    Existem coisas que o dinheiro não pode comprar, como uma espiritualidade genuína (At 8.18-20)

    Muitos crêem que a riqueza é um sinal de benção e a pobreza de falta de fé ou pecado.

    Os fariseus escarneciam de Jesus por causa da sua pobreza (Lc 16.14). Essa idéia falsa é desmentida por Cristo (Lc 6.20).

    3.    O Evangelho puro e Simples

    O evangelho que está em voga hoje em dia oferece uma falsa esperança aos pecadores. Promete-lhes que terão a vida eterna apesar de continuarem a viver em rebeldia contra Deus. Na verdade, encoraja as pessoas a reivindicarem Jesus como Salvador, mas podendo deixar para mais tarde o compromisso de obedecê-Lo como Senhor. Promete livramento do inferno mas não necessariamente libertação da iniquidade. Oferece uma  falsa segurança  às pessoas que folgam nos pecados da carne e desprezam o caminho da santidade. Ao fazer separação entre fé e fidelidade, deixa a impressão de que a aquiescência intelectual é tão válida quanto a obediência de todo coração à verdade. Dessa forma, as boas novas de Cristo deram lugar às más novas  de uma  fé  fácil e  traiçoeira, que não faz  qualquer exigência moral para a vida dos pecadores. Não se trata da mesma mensagem proclamada por Jesus!
    Este novo evangelho tem  produzido uma  geração de  cristãos professos cujo comportamento raramente se distingue da rebeldia em que vive o não-regenerado.

    Estatísticas recentes revelam que 1.6 bilhão da população da terra são considerados cristãos. Uma bem conhecida pesquisa de opinião pública indicou que quase um terço de todos os norte-americanos  se declaram nascidos de  novo. Tais números, com  certeza, representam milhões de  pessoas  que  estão tragicamente enganadas. O que eles têm é uma falsa garantia, passível de condenação eterna.

    O testemunho da igreja para o mundo tem sido sacrificado no altar da graça barata. Formas chocantes de imoralidade aberta têm se tornado coisa trivial entre professos cristãos. E por que não? A promessa de vida eterna, sem uma rendição à autoridade divina, alimenta a mesquinhez do coração  não-regenerado.

    Os  entusiásticos convertidos a este novo evangelho crêem que o seu comportamento nada tem a ver com o seu status espiritual — mesmo que permaneçam libertinamente apegados aos tipos mais grosseiros de pecado e de formas de depravação humana.

    Parece que a igreja de nossa geração será lembrada principalmente por causa de uma série de escândalos horripilantes que trouxeram a público as mais indecentes exibições de depravação na vida de alguns dos mais populares televangelistas. E o pior de tudo é a dolorosa consciência de que muitos cristãos olham para esses homens como parte do rebanho,  e não  como  lobos e  falsos  profetas  que  se imiscuíram entre as ovelhas (Mt 7.15). Por que deveríamos crer que pessoas que vivem na prática do adultério, fornicação, homossexualismo, fraude, e todo tipo de intemperança são nascidas de novo?

    O  que  se  precisa  é  de  um  completo  reexame  do  que  seja  o evangelho. Temos de voltar ao fundamento de todo o ensino neotestamentário sobre a salvação — ao evangelho proclamado por Jesus. Penso que muitos ficarão  surpresos ao  descobrir como a mensagem de  Jesus é  radicalmente diferente daquela  que por ventura  tenham aprendido.

    Esboço do Verdadeiro Evangelho

    Ele ensina a Adoração
    Ele salva Pecadores
    Ele cura os enfermos
    Ele desafia as Pessoa
    Ele Busca e Salva o Perdido
    Ele Condena um Coração Endurecido
    Ele Oferece um Jugo Suave
    Ele Chama ao Arrependimento
    Ele Mostra Natureza da Fé Verdadeira
    Ele Ensina o Caminho da Salvação
    Ele Dá a Certeza da Vida ou do Juizo Eterno
    Ele Auxilia no Discipulado
    Ele Mostra o Senhorio de Cristo

  • Lição 8 – O legado de Jesus Cristo para a sua Igreja

    Introdução

    A palavra legado vem do (latim legatum, -i, doação por testamento)

    1. Aquilo que se deixa por testamento a quem não é herdeiro forçoso ou principal.
    2. O que é transmitido a outrem que vem a seguir.

    Estudaremos qual o legado o que Jesus Cristo, o que ele deixou para sua igreja. E que marcas a igreja deve transmitir hoje ao mundo.

    1. O legado histórico

    Visite qualquer parte do mundo hoje em dia. Fale com pessoas de qualquer religião. Não importa o quão comprometidas estejam com a sua religião em particular, se elas conhecem alguma coisa sobre a história terão de admitir que nunca houve um homem como Jesus de Nazaré.

    Ele é a personalidade mais singular de todos os tempos. Jesus Cristo mudou a direção da história.

    Em sua curta existência, apenas 33 anos de idade, foi um homem que mudou os paradigmas da humanidade. Hoje, a história se conta a partir do ano de seu nascimento. E se divide em antes de Cristo (a. C.) e depois de Cristo (d. C).. Reconhecimento inegável do seu papel histórico, independente de crenças e religiões.

    Cristo mudou a história, com seu comportamento manso e amoroso, bem como com suas mensagens de esperança numa vida eterna plena da presença de Deus, para aqueles que o aceitarem como sendo o Filho de Deus.

    Pode-se estudar a personalidade de grandes homens e pensadores da história, através de suas obras, biografias, da vida e fruto de seus discípulos, mas, ninguém teve uma personalidade tão complexa, misteriosa e difícil de ser compreendida, como a de Jesus Cristo. Ele não apenas causou perplexidade nos homens mais cultos de sua época, mas, ainda hoje, suas mensagens são capazes de perturbar a mente de qualquer um que queira estudá-lo livre de dogmas e julgamentos preconcebidos.

    1.1 A história de Jesus nos Evangelhos

    As principais fontes de informação sobre a vida de Jesus são os quatro Evangelhos Canônicos, pertencentes ao Novo Testamento. Escritos originalmente em grego, em diferentes épocas, pelos discípulos  Mateus, Marcos, João e Lucas. Mateus : O intuito de Mateus e apresentar o Senhor Jesus Cristo como sendo o Messias. Jesus Cristo e o cumprimento das profecias do AT no que concerne ao Messias. Marcos: Marcos teve o intuito de apresentar o sofrimento do Homem que na verdade era o Filho de Deus o Senhor Jesus Cristo.  Lucas teve o intuito de apresentar o Senhor Jesus Cristo como o salvador do mundo, ou seja aquele que veio trazer as boas novas da salvação a toda a humanidade.  E João teve a intenção de apresentar o Senhor Jesus Cristo como aquele que veio trazer o conhecimento de Deus através da fé no Senhor Jesus Cristo.

    1.2. A doutrina de Jesus no Novo Testamento

    Nos evangelhos encontramos a doutrina de Jesus, que é superior ao ensinos judaicos orais, tradições ou leis, a doutrina de Cristo pode ser vista no sermão do monte que é bem didático e explicativo daquilo que o Mestre nos ensinou, o padrão do Reino de Deus.

    1.3. A tradição evangélica herdada

    Sera que hoje estamos vivendo os ensinos de Jesus, vivendo como Jesus, falando como Jesus, agindo como Jesus. Todo cristão devia se fazer esta pergunta diariamente, pois se formos honestos nas respostas veremos o quão distante estamos dos ensinos de Cristo.

    2. O legado espiritual

    O legado espiritual que Jesus nos despertou para as coisas espirituais, pois até antes do seu nascimento, o homem estava distanciado de Deus, e Jesus veio para reconciliarmo-nos com Deus, e com Cristo hoje estamos assentados nas regiões celestiais e temos todas as bênçãos espirituais em Cristo a nosso dispor.

    Paulo diz, “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo” (Efésios 1:3). Paulo está nos dizendo, em essência, “Todos os que seguem a Jesus são bem–aventurados, com bênçãos nos lugares celestiais, onde Cristo está”. Que promessa incrível para o povo de Deus.Entretanto, esta promessa torna–se meras palavras se não soubermos o que são estas bênçãos espirituais. Como podemos gozar destas bênçãos que Deus nos promete se não as compreendermos.

    2.1. A justificação pela fé

     

    Visto que a lei não pode justificá-lo, a única esperança do homem é receber “justiça sem lei” (isto, entretanto, não significa injustiça ilegal, nem tampouco religião que permita o pecado; significa sim, uma mudança de posição e condição). Essa é a “justiça de Deus”, isto é, a justiça que Deus concede, sendo também um dom, pois o homem é incapaz de operar a justiça. (Efés. 2:8-10.)

    Mas um dom tem que ser aceito. Como, então, será aceito o dom da justiça? Ou, usando a linguagem teológica: qual é o instrumento que se apropria da justiça de Cristo? A resposta é: “pela fé em Jesus Cristo.” A fé é a mão, por assim dizer, que recebe o que Deus oferece. Que essa fé é a causa instrumental da justificação prova-se pelas seguintes referências: Rom. 3:22; 4: 11; 9:30; Heb. 11:7; Fil. 3:9.

    Os méritos de Cristo são comunicados e seu interesse salvador é assegurado por certos meios. Esses meios necessariamente são estabelecidos por Deus e somente ele os distribui. Esses meios são a fé — o princípio único que a graça de Deus usa para restaurar-nos à sua imagem e ao seu favor. Nascida, como é, no pecado, herdeira da miséria, a alma carece duma transformação radical, tanto por dentro como por fora; tanto diante de Deus como diante de si própria. A transformação diante de Deus denomina-se justificação; a transformação interna espiritual que se segue, chama-se regeneração pelo Espírito Santo. Esta fé é despertada no homem pela influência do Espírito Santo, geralmente em

    conexão com a Palavra. A fé lança mão da promessa divina e apropria-se da salvação. Ela conduz a alma ao descanso em Cristo como Salvador e Sacrifício pelos pecados; concede paz à consciência e dá esperança consoladora do céu. Sendo essa fé viva e de natureza espiritual, e cheia de gratidão para com Cristo, ela é rica em boas obras de toda espécie.

    “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efés. 2:8,9). O homem nenhuma coisa possuía com que comprar sua justificação. Deus não podia condescender em aceitar o que o homem oferecia; o homem também não tinha capacidade para cumprir a exigência divina. Então Deus graciosamente salvou o homem, sem pagar este coisa alguma —”gratuitamente pela sua graça” (Rom. 3:24). Essa graça gratuita é recebida pela fé. Não existe mérito nessa fé, como não cabem elogios ao mendigo que estende a mão para receber uma esmola. Esse método fere a dignidade do homem, mas perante Deus, o homem decaído não tem mais dignidade; o homem não tem possibilidades de acumular bondade suficiente para adquirir a sua salvação. “Nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei” (Rom. 3:20).

    A doutrina da justificação pela graça de Deus, mediante a fé do homem, remove dois perigos: primeiro, o orgulho de autojustiça e de auto-esforço; segundo, o medo de que a pessoa seja fraca demais para conseguir a salvação.

    Se a fé em si não é meritória, representando apenas a mão que se estende para receber a livre graça de Deus, que é então que lhe dá poder, e que garantia oferece ela à pessoa que recebeu esse dom gratuito, de que viverá uma vida de justiça? Importante e poderosa é a fé porque ela une a alma a Cristo, e é justamente nessa união que se descobre o motivo e o poder para a vida de justiça. “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo”(Gál. 3:27). “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gál. 5:24).

    A fé não só recebe passivamente mas também usa de modo ativo aquilo que Deus concede. É assunto próprio do coração (Rom. 10:9,10; vide Mat. 15:19; Prov. 4:23), e quem crê com o coração, crê também com suas emoções, afeições e seus desejos, ao aceitar a oferta divina da salvação. Pela fé, Cristo mora no coração (Efés. 3:17). A fé opera pelo amor (a “obra da fé”… 1Tess. 1:3), isto é, representa um princípio enérgico, bem como uma atitude receptiva. A fé, por conseguinte, é poderoso motivo para a obediência e para todas as boas obras. A fé envolve a vontade e está ligada a todas as boas escolhas e ações, pois “tudo que não é de fé é pecado” (Rom. 14:23).Ela inclui a escolha e a busca da verdade (2 Tess. 2:12) e implica sujeição à justiça de Deus (Rom. 10:3).

    O que se segue representa o ensino bíblico concernente à relação entre fé e obras. A fé se opõe às obras quando por obras entendemos boas obras que a pessoa faz com o intuito de merecer a salvação. (Gál. 3:11.) Entretanto, uma fé viva produzirá obras (Tia. 2:26), tal qual uma árvore viva produzirá frutos. A fé é justificada e aprovada pelas obras (Tia. 2:18), assim como o estado de saúde das raízes duma boa árvore é indicado pelos frutos. A fé se aperfeiçoa pelas obras (Tia. 2:22), assim como a flor se completa ao desabrochar. Em breves palavras, as obras são o resultado da fé, a prova da fé, e a consumação da fé.

    Imagina-se que haja contradição entre os ensinos de Paulo e de Tiago. O primeiro, aparentemente, teria ensinado que a pessoa é justificada pela fé, o último que ela é justificada pelas obras. (Vide Rom. 3:20 e Tia. 2:14-16.) Contudo, uma compreensão do sentido em que eles empregaram os termos, rapidamente fará desvanecer a suposta dificuldade. Paulo está recomendando uma fé viva que confia somente no Senhor; Tiago está denunciado uma fé morta e formal que representa, apenas, um consentimento mental. Paulo está rejeitando as obras mortas da lei, ou obras sem fé; Tiago está louvando as obras vivas que demonstram a vitalidade da fé. A justificação mencionada por Paulo refere-se ao início da vida cristã; Tiago usa a palavra com o significado de vida de obediência e santidade como evidência exterior da salvação. Paulo está combatendo o legalismo, ou a confiança nas obras como meio de salvação; Tiago está combatendo antinomianismo, ou seja, o ensino de que não importa qual seja a conduta da pessoa, uma vez que creia. Paulo e Tiago não são soldados lutando entre si; são soldados da mesma linha de combate, cada qual enfrentando inimigos que os atacam de direções opostas.

    2.2. Bênçãos da salvação
    A primeira benção é a salvação seguida do recebimento do espírito santo.

    Vejamos outras bênçãos:

    1.    Vitória sobre o pecado
    2.    Vitória sobre o diabo e vida abundante
    3.    Viver em santidade.
    4.    Ter comunhão com Deus
    5.    Acesso ao Pai através da Oração.
    6.    Somos habilitados a fazer parte da obra de Deus (Igreja)

    E muitas outra que nós possamos aproveitarmos as bênçãos que estão a nossa disposição, trabalhemos na seara do mestre, a recompensa será maravilhosa e a veremos na posteridade de glória, junto ao Senhor.

    2.3. Um novo padrão ético-moral

    Toda a moral de Jesus, assim, se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os seus ensinos, ele aponta essas duas virtudes como sendo as que conduzem à eterna felicidade.

    3. O legado de autoridade

    Conforme registra Mateus 20.25-28, após o pedido da mãe de Tiago e João para que seus filhos se assentassem, um à direita e o outro à esquerda de Jesus em seu Reino, o Mestre ensinou que entre os seus o padrão a ser seguido é: quem quiser tornar-se grande, seja o servo dos demais; e quem quiser ser o primeiro, seja o último.

    Jesus explica que o padrão por Ele adotado em sua missão redentora: Ele veio ao mundo para servir e não para ser servido e, por isso mesmo, Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome que está acima de todo o nome. Um padrão completamente oposto do que temos visto ultimamente, segundo o qual homens autodenominados líderes se valem do poder e autoridade em benefício próprio, almejando serem servidos pelos liderados, enquanto deveriam se dedicar a servi-los.

    Se o próprio Deus deixou a sua glória e se humilhou para se tornar homem, que direito tem o homem de se considerar superior aos seus semelhantes, mesmo que tenha recebido do próprio Deus uma posição proeminente de liderança e autoridade?

    No Reino, não há um homem no centro do poder, mas unicamente o Senhor Jesus, a quem todos devem desejar servir. Qualquer ação diferente é abuso de autoridade e poder e desprezo ao exemplo de humildade deixado por Cristo.

  • Lição 7 – A intituição do discípulado

    Lição 7 – A intituição do discípulado

    DISCIPULADO

    INTRODUÇÃO

    A “missão educadora” da Igreja, o discipulado, é, ao lado da evangelização, um dos dois pilares fundamentais da Igreja. São duas tarefas indissociáveis, impostas por ordem de nosso Senhor Jesus e que está exarado na passagem de Mateus 28:19,20. O Senhor Jesus disse aos seus discípulos que eles deveriam ir e “ensinar todas as nações”, expressão esta que, em algumas versões, é traduzida por “fazei discípulos”.

    A Igreja deve pregar o Evangelho, mas é preciso, também, que ela “ensine às nações”, “faça discípulos”, cuidado este que era patente nos tempos apostólicos, a ponto de os apóstolos terem chamado para si esta tarefa, considerando, inclusive, não ser razoável deixar de se dedicar à oração e ao ensino da Palavra (At.6:2,4), sem falar no zelo de Barnabé com relação à primeira igreja gentílica, a de Antioquia (At.11:25,26) e dos conselhos que Paulo dá a Timóteo no sentido de jamais se descuidar com o ensino junto aos crentes (I Tm.4:12-16).

    Quando alguém se converte a Cristo e nasce de novo, é um recém-nascido, é uma pessoa que não tem conhecimento algum a respeito das coisas de Deus, a respeito da vida com o Senhor Jesus. Embora tenha recebido uma nova natureza, embora seu espírito tenha se ligado novamente a Deus, ante a remoção dos pecados, é um ser humano e, como tal, precisa ser ensinado a respeito do Senhor, ensino este que deve ser proporcionado pela Igreja, que é a quem o Senhor cometeu esta tarefa sobre a face da Terra. Jesus é quem salva, mas é a Igreja quem deve “fazer discípulos”, quem deve “ensinar”.

    I. A TAREFA DA IGREJA NO DISCIPULADO

    1. A visão da igreja quanto ao discipulado. Criada para ser a agência do reino de Deus aqui na Terra, a Igreja, ao mesmo tempo em que, para os que se encontram fora do reino de Deus, precisa ser a anunciadora da salvação, pregando o Evangelho, deve, para os que já viram e entraram no reino de Deus (Jo.3:3,5), ser a instruidora, aquela que ensina a Palavra de Deus aos que se converteram, a fim de que possam eles crescer espiritualmente e alcançar a unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef.4:13).

    A evangelização (o ato de semear o evangelho) e o discipulado (integração do novo crente) requerem tempo, pelo fato de que ambas as atividades envolvem um processo contínuo e, não apenas, um ato isolado. Além disso, demandam muita oração, esforço, paciência, fé e perseverança para alcançar os resultados desejados.

    A maturidade espiritual do cristão não ocorre de modo rápido e instantâneo, mas progressivamente em Cristo (Cl 1.28, 29). Para que conservemos em nossas igrejas os novos convertidos em Cristo, precisamos trabalhar com amor, dedicação e objetividade. Muito da imaturidade espiritual dos membros da igreja local é resultado da ignorância destes em relação às doutrinas básicas da Bíblia. É o que se denota nos destinatários da carta aos Hebreus -“Porque, devendo já ser mestres em razão do tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar os princípios elementares dos oráculos de Deus, e vos haveis feito tais que precisais de leite, e não de alimento sólido. Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal”(Hb 5.12-14).

    2. O quadriforme método de Jesus.  Mateus 28:19,20 – “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. Observe que neste texto é apresentado o método quadriforme, ordenado por Jesus: indo, fazendo discípulo, batizando e ensinando.  O texto sagrado destaca os verbos em sua forma imperativa. Nota-se que não é uma recomendação ou um conselho, mas uma ordem do nosso Senhor. Assim se destaca o método quadriforme imperativo:

    a) Ide. No sentido de mover-se ao encontro das pessoas, a fim de comunicar a mensagem salvífica do evangelho. Esta determinação verbal está combinada com a do texto de Marcos 16:15: “…Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura”.

    A ordem do Senhor é que devemos ir por todo o mundo. Ir ao encontro do mundo, ir ao encontro dos pecadores, levar-lhes a mensagem da salvação em Cristo Jesus. O homem não tem condições de salvar-se a si próprio e, mais, o deus deste século lhe cegou o entendimento para que não tenha condições de ver a luz do evangelho da glória de Cristo(II Co.4:4). Portanto, é tarefa da Igreja ir ao encontro de judeus e de gentios para lhes anunciar as boas-novas da salvação.

    A ordem do Senhor é para que se pregue a toda criatura, mesmo aquela que, pela sua conduta, pela sua forma de proceder, é alvo de todo ódio, de toda repugnância, de todo o desprezo da sociedade e do mundo. Deve-se pregar a toda a criatura, mesmo que seja a pior pessoa que exista sobre a face da Terra. Não cabe à Igreja julgar os homens e dizer a quem deve, ou não, ser pregada a Palavra. O Senhor foi enfático em dizer que toda criatura deve ouvir a mensagem do Evangelho, seja esta pessoa quem for. É interessante observarmos que, nos dias do profeta Jonas, o Senhor mandou que fosse feita a pregação a todos os ninivitas, sem exceção alguma, ainda que eles fossem os homens mais cruéis que existiam no mundo naquele tempo. Jonas teve de pregar para todos, sem exceção, ainda que muitos, pela sua extrema crueldade e maldade, fossem, na verdade, verdadeiras “bestas-feras”, verdadeiros “animais” (Jn.3:8), que, mesmo sendo o que eram, foram alcançados pela misericórdia divina. Observe o exemplo de Jesus – Ele ia ao encontro dos publicanos e das meretrizes, considerados a escória da sociedade de seu tempo, e nós, o que estamos a fazer?

    b) Fazer discípulos. Este imperativo tem o sentido de “estar com” as pessoas e torná-las seguidoras de Cristo; a tarefa exige que o discipulador acompanhe e conviva com o aprendiz.

    c) Batizar. É o ato físico que confirma o novo discípulo pela sua confissão pública de que Jesus Cristo é o seu Salvador e Senhor.

    O batismo nas águas é uma ordem a ser cumprida por quem se arrependeu dos seus pecados – “Pedro então lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”(At.2:38. Deste modo, não podem ser batizadas crianças recém-nascidas, vez que não têm o discernimento do que é, ou não, pecado e, portanto, não podem se arrepender dos seus pecados, como também não podem ser batizadas pessoas que não tenham demonstrado que, efetivamente, creram no Evangelho e nasceram de novo. Só é lícito o batismo daquele que realmente creu de todo o seu coração – “E indo eles caminhando, chegaram a um lugar onde havia água, e disse o eunuco:Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?; E disse Felipe: é lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus”. (At.8:36,37).

    d) Ensinar as doutrinas da Bíblia. Este imperativo denota o objetivo de aperfeiçoar e preparar o discípulo para a sua jornada na vida cristã. Ensinar aos homens e ensinar-lhes a Palavra de Deus foi o que o Senhor Jesus ordenou aos seus discípulos, quando lhes disse: “… ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado..”(Mt 28:20).

    O pastor Oséas Macedo, na obra Manual de Missões (CPAD, 1997:13), afirma que a tarefa de salvar o mundo não pode ser desassociada do enviar crentes para alcançá-lo. O processo de salvar o mundo começa com enviar. Enviar pessoas capacitadas por Deus para pregar, a fim de que todos possam ouvir, crer e invocar o nome de Jesus para serem salvos. No entanto, a tarefa da igreja não estará completa enquanto o novo crente não for integrado à vida da igreja e tornar-se capaz de ganhar outros para Cristo.

     

    II. DISCIPULADO E DISCÍPULO

    1. Que é discipulado? – O discipulado nada mais é que ensinar a Palavra de Deus aos novos convertidos, àqueles que aceitaram a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador de suas vidas e fazer com que eles, que foram escolhidos por Deus, possam viver de tal maneira que dêem o fruto do Espírito, ou seja, tenham um novo caráter, uma nova maneira de viver que leve as pessoas a glorificar ao nosso Pai que está nos céus, ou seja, vivam de tal maneira que suas ações os transformem em testemunhas de Jesus, em prova de que Jesus salva e, por isso, outras pessoas reconheçam o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, ou seja, o Evangelho (Rm.1:16).

    Quando uma pessoa nasce de novo, encontra-se na mesma posição de Lázaro ressuscitado. Jesus, depois de quatro dias, quando o corpo de Lázaro já estava em decomposição, mostrou o seu poder sobre a morte, fazendo-o ressurgir dos mortos. Milagrosamente, Lázaro saiu da sepultura com vida. Entretanto, é interessante notar que Lázaro foi para fora da sepultura, mas se encontrava ainda todo enfaixado, conforme os costumes judaicos de preparação do cadáver. Jesus não determinou que Lázaro fosse daquele jeito para casa nem tampouco se incumbiu de desligar o ex-defunto. Mandou que aquelas pessoas que estavam ali vendo o milagre tratassem de tirar as faixas de Lázaro, de modo que ele próprio (Lázaro) fosse para a sua casa (Jo.11:44). Assim ocorre com o novo convertido: só Jesus poderia trazê-lo à vida, ou seja, salvá-lo; mas cabe a nós que estamos com Jesus neste mundo tomar as providências necessárias para que o novo crente se desligue de tudo aquilo que estava relacionado com a vida sem Cristo, ou seja, com a morte espiritual, para que ele, individualmente, siga em direção à sua casa, onde já o aguarda o Salvador.

    Foi exatamente isto que Barnabé e Paulo fizeram na igreja de Antioquia, a primeira igreja formada por gentios na história da Cristandade. Barnabé, ao verificar que havia conversão autêntica, tratou de buscar a Paulo e, durante todo um ano, houve o discipulado, ou seja, o ensino da Palavra àqueles novos crentes. O resultado daquele ano de ensino não poderia ser melhor: os novos convertidos passaram a ter uma vida muito semelhante à de Jesus, passaram a ser diferentes dos demais moradores de Antioquia, passaram a ser provas vivas da transformação que o Evangelho produz nas pessoas. Após terem sido ensinados na Palavra e terem mudado de vida, os moradores de Antioquia passaram a notar a diferença e, cumprindo o que disse Jesus a respeito do efeito das boas obras dos seus discípulos, passaram a chamar os discípulos de “cristãos”, isto é, “parecidos com Cristo”, “semelhantes a Cristo”(At.11:26). Eram os homens glorificando ao Pai que está nos céus (Mt.5:16). Era o resultado do ensino da Palavra.

    O “discipulado” não é uma tarefa somente dos novos convertidos, não. Embora muitos considerem que o “discipulado” seja uma tarefa destinada somente aos novos convertidos, ou seja, um período de ensino da Palavra de Deus até o batismo nas águas, temos que a realidade bíblica é bem diferente. Não resta dúvida de que é necessário um discipulado específico para o novo convertido, como, aliás, vimos no episódio da igreja em Antioquia. Entretanto, o discipulado não se encerra com o batismo nas águas do novo convertido que, tendo dado frutos dignos de arrependimento, desce às águas e é inserido na igreja local. O discipulado tem como finalidade o de nos fazer cada vez mais parecidos com o Senhor Jesus; é uma tarefa incessante, que não tem fim.

    Discipular é ensinar a Palavra, é aperfeiçoar os santos, é disciplinar em um caminho. É colocar o Caráter de Cristo em outra pessoa, através do ensino e do exemplo. Assim, somente pode ser considerada encerrada quando alguém tiver atingido a perfeição, pois só alguém perfeito não necessita ser aperfeiçoado. Tanto assim é que o apóstolo Paulo afirma que os dons ministeriais devem ser exercidos até que cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef.4:13). Quem, porventura, chegou a este estágio durante os quase dois mil anos de Igreja? Alguém já chegou à estatura completa de Cristo? Alguém já atingiu a perfeição? Evidentemente que não! Se formos para a história dos grandes homens de Deus, sem dúvida que diríamos que, nos tempos apostólicos, o apóstolo Paulo se encontrava entre aqueles que poderiam ter chegado a este nível. No entanto, o próprio Paulo afirmou que não havia chegado a tal condição (Fp.3:12). Se Paulo que foi mero imitador de Cristo(1 Co 11:1), com recomendação para imitá-lo(Fp 3:17), que  teve uma revelação especial de Jesus, não chegou a esta estatura, quem somos nós para dizer que o fizemos? Por isso, indubitavelmente, o discipulado é uma tarefa que nunca há de terminar na Igreja, visto que seu alvo é inatingível. Podemos, mesmo, afirmar que, ao dizer que o objetivo do discipulado é nos levar à estatura completa de Cristo, estamos aqui diante de uma expressão bíblica cujo significado é um só: “devemos aprender sempre”.

    2. Que significa ser discípulo?  – “Discípulo” significa “aluno”, “aquele que aprende”. A palavra “discípulo”, do grego mathetés, é usada 269 vezes nos Evangelhos e em Atos.  Jesus, a exemplo dos mestres judeus do seu tempo (os chamados “rabis”, hoje denominados de “rabinos”), era seguido pelos seus “alunos”, ou seja, por aqueles que queriam aprender as lições do mestre, por aqueles que esperavam aprender do mestre o conteúdo das Escrituras. João tinha os seus discípulos (Mt.9:14), assim como Jesus. Estes “discípulos” eram pessoas que, fundamentalmente, queria aprender com Jesus, tinham interesse em tomar conhecimento daquilo que Jesus lhes queria transmitir e, por causa deste interesse, recebiam a revelação daquilo que estava oculto às demais pessoas (Mt.13:10,11).

    Ser “discípulo” de Jesus é querer aprender de Jesus e o próprio Jesus enfatizou que é necessário que aprendamos dEle se quisermos encontrar descanso para as nossas almas (Mt.11:29). Somente sendo “discípulo”, ou seja, querendo aprender a respeito de Jesus, que nada mais é que aprender a respeito das Escrituras (Mt.22:29; Jo.5:39), é que teremos acesso à verdade e, por isso, seremos santificados (Jo.17:17), daremos fruto a ponto de sermos reconhecidos como filhos de Deus (At.11:26) e, por causa disto, desfrutaremos da vida eterna com o Senhor(Mt.13:23,43).

    “O discípulo não é mero aprendiz, mas alguém que segue as pisadas de seu Mestre e possui íntimo relacionamento com Ele”.

    Nos Evangelhos, Jesus define a palavra discípulo de cinco maneiras:

    1) Discípulo é um crente que está envolvido com a Palavra de Deus de maneira contínua – “Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos” (Jo 8.31).

    2) Discípulo é aquele que ama sacrificialmente, sem medir esforços – “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35); “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e nós devemos dar a vida pelos irmãos”(1 Jo 3.16).

    3) Discípulo é alguém que permanece diariamente em união frutífera com Cristo – “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” (Jo 15.8).

    4) Discípulo é aquele que assume a sua cruz e segue a Cristo –“ Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.27).

    5) Discípulo é aquele que renuncia tudo que tem – “Assim, pois, todo aquele dentre vós que não renuncia a tudo quanto possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33).

    III. A IGREJA REALIZANDO O DISCIPULADO

    O discipulado, ou seja, o ensino da Palavra de Deus, é uma tarefa fundamental e ininterrupta da Igreja. Observe que “fazer discípulos”, “ensinar as nações” é uma ordem de Jesus, exarada no mesmo texto que diz respeito ao batismo nas águas (que estudamos na lição anterior).

    O ensino da Palavra de Deus, portanto, é uma necessidade, necessidade esta de que deve a igreja local estar sempre consciente, assim  como a de evangelizar. Entretanto, é com tristeza que vemos que, assim como a Igreja está dispersa com respeito à evangelização, como vimos na lição 02, também o está, e até com maior intensidade ainda, com respeito ao ensino da Palavra de Deus.

    1. A Igreja deve selecionar pessoas para o discipulado. Para cumprir a tarefa do ensino da Palavra, é preciso, em primeiro lugar, que a Igreja se veja dotada de homens e mulheres preparados para ensinar. Na igreja de Antioquia, Barnabé ao notar a salvação daqueles crentes, imediatamente viajou para Tarso, para trazer a Paulo, pessoa que ele sabia ser preparada e capaz de ensinar aqueles novos convertidos(At 11:25,26).

    Um dos grandes problemas que temos visto nas igrejas locais da atualidade é o despreparo das pessoas para ensinarem a Palavra de Deus. Quando falamos em preparo, não estamos nos referindo a escolaridade ou a conhecimento secular de alguém, mas, sobretudo, a seu conhecimento bíblico, a sua capacidade de manejar bem a Palavra da Verdade (I Tm.2:15).

    Infelizmente, as atividades de ensino são, quase sempre, as mais desprezadas nas igrejas locais na atualidade. O termômetro desta situação é a Escola Bíblica Dominical, que, segundo pesquisa, apenas 10% dos membros da igreja tem interesse em aprender a Palavra de Deus. Isto é lamentável! Esta situação leva-nos a inferir que é uma das principais razões da frieza espiritual, da influencia mundana e da total desinformação que tem tomado conta do nosso povo nos últimos anos, sem falar nas milhares de vidas que se encontram completamente aprisionados por heresias e falsos ensinos, que têm tomado conta dos nossos púlpitos.

    O descaso com a Escola Bíblica Dominical por parte de muitos pastores e dirigentes de igrejas locais, eles próprios eternos ausentes destas reuniões, leva, muitas vezes, à entrega das classes a pessoas despreparadas, que mal sabem para si, que dirá para os outros. Estamos muito longe do modelo bíblico, em que os apóstolos, apesar de serem os principais nomes da igreja, tomavam para si a responsabilidade do ensino da Palavra, ensino este que era prioritário, tanto que a primeira coisa que Lucas faz notar na igreja primitiva é de que eles “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At.2:42).

    O ensino da Palavra deve ser a atividade interna prioritária, primordial na igreja local. Depois da evangelização, que é voltada para ganhar almas para o Senhor, que é voltada para os que estão fora da igreja local, para a comunidade, a igreja local deve se preocupar é com o aprendizado de seus membros, com o ensino da Palavra. Assim, as reuniões voltadas para os salvos devem ser, prioritariamente, de ensino da Palavra, de ensino doutrinário. Entretanto, o que se tem visto é uma simples leitura da Palavra de Deus em algumas reuniões, quando o é, sem qualquer exposição ou ensino a respeito dela. Não são poucos, aliás, os crentes que nem mesmo levam suas Bíblias para tais reuniões, pois sabem que nem sequer tais Bíblias serão lidas ou abertas. Estamos, lamentavelmente, a viver os tempos tristes anunciados pelo profeta Amós, tempos de fome e de sede da Palavra de Deus (Am.8:11).

    2. A igreja deve concentrar sua atenção sobre os discipuladores. Na força do Senhor, a igreja precisa investir o máximo na preparação de discipuladores, a fim de fazer mais discípulos, e o pastor da igreja é o ponto de partida para a dinâmica do ministério do discipulado.

    O progresso do trabalho do discipulador depende muito da visão do pastor da igreja local. Deve partir dele a tarefa do discipulado; ele deve ser o primeiro a ter prazer em ensinar e a se esmerar no ensino da Palavra. Deve ser alguém sempre pronto a elucidar dúvidas doutrinárias dos irmãos, um assíduo freqüentador da Escola Bíblica Dominical, alguém que demonstra esforço e profundidade doutrinária nos cultos de ensino, como também na pregação da Palavra nas reuniões públicas. Não precisa ser um “doutor em Divindade”, um “erudito”, mas precisa, isto sim, demonstrar conhecimento bíblico, intimidade com as Escrituras, precisa ser um obreiro aprovado, que maneja bem a palavra da verdade, e deve exigir de seus auxiliares este mesmo perfil.

    O dirigente deve incentivar os seus auxiliares no estudo da Bíblia, inclusive, se necessário, fazendo reuniões de estudos bíblicos com eles, a fim de estimulá-los a manejar bem a palavra da verdade. Deve dar atenção especial ao superintendente da Escola Bíblica Dominical e aos professores da EBD, participando das reuniões preparatórias deles sempre que possível, além de assistir às aulas da EBD, verificando, assim, como está sendo ensinada a Palavra na igreja local.

    Com relação aos novos convertidos, é preciso haver um segmento especial da igreja local para deles cuidar. Eles devem ser acompanhados de perto pelos evangelistas da igreja local, que deverão lhes tirar todas as dúvidas que tenham e dar prioridade a que eles aprendam os fundamentos doutrinários, as bases da doutrina cristã. Tais bases estão elencadas pelo escritor aos Hebreus, a saber: arrependimento de obras mortas, fé em Deus, doutrina dos batismos, da imposição das mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno (Hb.6:1,2). Tais ensinamentos devem ser dados, de forma sistemática, preferencialmente na Escola Bíblica Dominical, em classe específica para os novos convertidos, a fim de que eles possam, a um só tempo, ter conhecimento das verdades bíblicas essenciais, como também se acostumar a freqüentar a EBD.

    3. A igreja deve treinar os seus membros para a tarefa do discipulado. A igreja precisa, no discipulado cristão, de uma visão celestial multiplicadora, selecionando e treinando homens e mulheres para que, por suas vidas santas e ungidas e, pelo ensino das verdades cristãs, possam educar os novos discípulos e torná-los aptos para fazer outros. Mas, para se fazer o discipulado, é indispensável que demos o devido valor à Palavra de Deus, Palavra que o próprio Deus engrandeceu a tal ponto de a pôr acima de Si mesmo (Sl.138:2). Sem esta atitude, de nada adiantará desenvolver “cursos teológicos”, “cursos bíblicos”, “cursos de preparação de obreiros” e tantas outras coisas que têm sido inventadas e postas em prática na atualidade. Se as pessoas não se conscientizarem de que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a Palavra que procede da boca de Deus (Mt.4:4), um discipulado não terá êxito em qualquer igreja local. Foi isto que os apóstolos sempre fizeram, a ponto de terem arrogado para si esta tarefa e tê-la posto como prioridade absoluta em seus ministérios.

    O ministério de Jesus é o exemplo para a Igreja, que é o seu corpo: Ele pregou o evangelho às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt.10:6;15:24), como também preparou homens e mulheres que pudessem prosseguir a sua obra (Mt.11:1). Se seu ministério se resumisse tão somente na pregação, ante a rejeição de Israel (Jo.1:11), teria havido um fracasso. Entretanto, o Senhor formou um grupo de discípulos que, revestidos de poder, seriam suas testemunhas até os confins da terra (At.1:8).

    CONCLUSÃO

    A Igreja que não ensinar a Palavra de Deus aos seus integrantes, a começar dos novos convertidos, não estará cumprindo a sua tarefa sobre a face da Terra. Não basta pregar o Evangelho, também é necessário que os novos convertidos a Cristo sejam  devidamente instruídas na Palavra do Senhor, tenham conhecimento das Escrituras, sem o que não se tornarão discípulos de Jesus e quem não for discípulo de Jesus não entrará no céu, pois só aqueles que assim se comportarem poderão dar fruto e, portanto, ser considerados como justos e resplandecerem no reino do Senhor, como o Senhor deixou claro na interpretação que deu da parábola do joio e do trigo.

    “Centenas de pecadores convertem-se anualmente, experimentam o novo nascimento, mas não chegam à maturidade espiritual, pois lhes faltam pais espirituais. Muitos daqueles que permanecem se desenvolvem com anomalias e atrofias éticas e doutrinárias.  Onde estão os discipuladores? Você está disposto a “fazer discípulos”?

    Assim como o recém-nascido necessita de cuidados para desenvolver-se de modo saudável, o novo convertido precisa de cuidados espirituais para chegar à maturidade na fé. Isso só é possível se cada crente assumir o inalienável compromisso de ser um discipulador cristão.

    Alguém em certo lugar afirmou que a igreja é um hospital. Mas perguntamos: “Será que é uma geriatria?” — uma vez que não há renovação de seus membros. “Será que é uma ortopedia?” — uma vez que o corpo está atrofiado. “Será que é uma pediatria?” — pois todos os que nascem recebem os cuidados espirituais necessários. Façamos de nossas igrejas um hospital geral, que trate do ser humano em todas as suas necessidades espirituais”

     

     

  • Lição 6 – O exercício do dom de profecia na igreja atual

    Lição 6 – O exercício do dom de profecia na igreja atual

    profeta

    O que é Dom?

    Para iniciar é  importante estudar a distinção entre Dom de Profecia e Ministério de Profeta, precisamos conceituar biblicamente o termo Dom. A palavra, de acordo com a raiz hebraica nathan e a grega dosis (derivado do verbo didomi), estabelece um significado de dar (ou dotes) no contexto veterotestamentário; e um sentido ativo de “dar” ou um sentido passivo de “dádiva” num contexto neotestamentário; respectivamente (2 Cr 9.15; Jo 3.16)   .
    Particularizando a análise do termo “Dom” na categoria dos “Dons Espirituais”, é factível que três palavras gregas apareçam em 1 Co 12 – 14: “ta pneumatika” (12.1); “ta pneumata” (14.12); “ta charismata” (12.4,9,28,30,31). Esses termos significam, respectivamente, “dons, poderes e manifestações espirituais”; “manifestações do Espírito”; “dons da graça ou dons carismáticos (carismas)”  .

    Dom de Profecia

    O Dom de Profecia, analisado a partir das conceituações citadas acima e de acordo com 1 Co 12.4-27, é um dom ou manifestação espiritual (carismática) que dá a capacidade transcedental ao crente para desempenhar uma função útil no “Corpo de Cristo”. Esse dom não pode ser confundido com os dons ministeriais (conforme os de Efésios 4.11) e, muito menos, com as posições espirituais da igreja primitiva (como Presbíteros [ou Bispos, Pastores] e Diáconos), porém, ambos [os dons] servem para edificar a Igreja e denotar o seu caráter de Unidade, diversidade, distribuitivo, ordeiro, motivador, permanente e valoroso no exercício do uso adequado dos Dons.

    Profecia

    A profecia é uma manifestação do Espírito de Deus e não da mente do homem, e é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso: 1 Co 12.7.

    Embora o dom da profecia nada tenha a ver com os poderes normais do raciocínio humano, pois é algo muito superior, isso não impede que qualquer crente possa exercitá-la: “Porque todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados”, 1 Co 14.31.

    Ainda que nalguns casos o dom da profecia possa ser exercido simultaneamente com a pregação da Palavra, é evidente que esse dom é dotado de um elemento sobrenatural, não devendo, portanto, ser confundido com a simples habilidade de pregar o Evangelho.

    Dada a importância desse dom em face dos demais dons espirituais, e dentro do contexto da doutrina pentecostal, necessário se faz uma análise cuidadosa, no sentido de conceituá-lo no seio da Igreja hoje.

    O apóstolo Paulo adverte os crentes a procurar “com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar” (1 Co 14.1); isto por razões que ele mesmo enumera:

    a. Porque “o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação… O que profetiza edifica a igreja”, 1 Co 14.3,4.

    “Edificação”, “exortação” e “consolação” são os três elementos básicos da profecia, são a razão de ser e de existir desse dom. É evidente que isto contraria a crença tão popular entre nós, de que o principal elemento da profecia é o preditivo (predição do futuro). Certamente, que tanto o Antigo quanto o  Novo Testamento contêm numerosas profecias preditivas, muitas das quais já se cumpriram, e outras estão se cumprindo, e outras ainda se hão de cumprir, No entanto, no conteúdo geral das Escrituras, o elemento preditivo da profecia é relativamente o menor.

    b. Porque ‘‘se todos profetizarem, e algum in-douto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós”, l Co 14.24,25.

    Há algo mais que precisamos ter em mente quanto ao dom de profecia e o seu uso na Igreja hodiemamente:

    a) O dom de profecia nunca deve exercer propósitos diretivos ou de governo sobre a Igreja. No Antigo Testamento, Israel era governado por reis e o culto era dirigido pelos sacerdotes, mas nunca por alguém que se tivesse distinguido por um ministério cem por cento profético. Os profetas eram apenas colaboradores na condução do povo. O mesmo aconteceu corn a Igreja dc Novo Testamento: o seu governo sempre esteve sob a responsabilidade dos presbíteros ou bispos, ou pastores, mas nunca sob a responsabilidade de profetas.

    Escreveu o missionário Eurico Bergstén, que “quando alguém, por meio de profecia, penetra na direção da igreja, mostra que é dominado por influências estranhas. Abre-se, então, uma porta para a perturbação… Quando alguém se faz ‘oráculo de profeta’, para responder a perguntas e orientar os crentes, está usando indevidamente o dom de profecia… O dom de profecia não atinge, nesta dispensação, a faixa de consulta, pois tem uma outra finalidade: a edificação da Igreja”.

    b) Devido a possíveis abusos quanto ao uso do dom da profecia, este dom está sujeito a análise e a conseqüente julgamento. Recomenda o apóstolo Paulo: “…falem dois ou três profetas, e os outros julguem”, 1 Co 14.29.

    Paulo arremata suas advertências quanto ao dom de profecia, dizendo: “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”, 1 Co 14.37.

    O dom de profecia não deve ser desprezado (1 Tm 4.14), mas despertado (2 Tm 2.16), a fim de que a Igreja seja enriquecida: 1 Co 1.57.

    Algumas perguntas sobre a questão:

    Onde vemos no Antigo testamento a promessa do dom de profecia e quando foi iniciado no Novo testamento?

    O Senhor DEUS, através do profeta Joel, prometeu derramar abundantemente do seu ESPÍRITO sobre os seus servos (Jl 2.28-32).

    Tal promessa, que iniciou o seu cumprimento a partir do Dia de Pentecostes e inclui especificamente o dom de profecia (Jl 2.28-32; At 2.16-21).

    Quem pode ter o Dom de Profecia, na Igreja?

    Qualquer crente salvo pode ter o dom de profecia na nova dispensação (1 Co 14.24).

    Independe de idade, sexo, status social e posição na igreja (At 2.17,18), tal como vemos nas quatro filhas de Filipe “que profetizavam” (At 21.9).

    Definição de Dom de Profecia:

    O dom de profecia, aqui abordado, é uma manifestação momentânea e sobrenatural do ESPÍRITO SANTO, como um dos dons espirituais prometidos, e não um ministério.

    O maior valor da profecia é que ela, sendo de DEUS, ao contrário das línguas estranhas (quando não têem a interpretação), uma vez proferida, exorta, edifica e consola a coletividade e não unicamente o que profetiza (1 Co 14.3-5).

    Características do Dom de Profecia:

    A Bíblia ensina que a profecia deve ser julgada na igreja e que o profeta deve obedecer ao ensino bíblico (1 Co 14.29-33).

    Não podemos esquecer que a profecia, nesse contexto, não se reveste da mesma autoridade da dos profetas e apóstolos das Sagradas Escrituras.

    O dom de profecia, na presente era, não é infalível e, portanto, é passível de correção.

    Pode acontecer de o profeta receber a revelação do ESPÍRITO SANTO e, por fraqueza, imaturidade e falta de temor de DEUS, falar além do que devia.

    Quem profetiza, portanto, deve ter o cuidado de falar apenas o que o ESPÍRITO SANTO mandar, não alegando estar “fora de si” ou “descontrolado”, pois “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14.32).

    O nosso DEUS nunca deixou de se comunicar com o seu povo. Ele continua a falar conosco, inclusive por meio do dom de profecia. O Senhor sempre cuida do progresso e edificação de sua Igreja. Por essa razão, JESUS deu à sua Noiva, apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores.

    A profecia, como dom, pode vir de 3 fontes: De DEUS, do homem e de satanás.

    Devem ser julgadas (1 Ts 5:21,22) e controladas para haver ordem no culto; um depois do outro e no máximo três em cada reunião (1 Co 14.31).

    Não devem ser desprezadas(1 Ts 5:20).

    Vêm para edificação, exortação e consolação(1 Co 14:3).

    Línguas + Interpretação = Profecia (1 Co 14:27,13).

    Diferente de profeta, todo profeta profetiza, nem todo que profetiza é profeta (1Co 14:31) e (Ef 4:11)

    Profeta é ministério dado por CRISTO, profecia é manifestação do ESPÍRITO SANTO.

    Profeta prediz alguma coisa que ainda vai acontecer, profecia não prediz nada.

    Todos podem profetizar (1 Co 14.31), mas poucos são chamados para serem profetas. 

    Exemplos de profecias:

    JESUS: “Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas eu vos tornarei a ver, e alegrar-se-á o vosso coração, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará.”(Jo 16:22).

    Paulo: “disse Paulo ao centurião e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos. Então os soldados cortaram os cabos do batel e o deixaram cair. Enquanto amanhecia, Paulo rogava a todos que comessem alguma coisa, dizendo: É já hoje o décimo quarto dia que esperais e permaneceis em jejum, não havendo provado coisa alguma. Rogo-vos, portanto, que comais alguma coisa, porque disso depende a vossa segurança; porque nem um cabelo cairá da cabeça de qualquer de vós.”(At 27:31-34).

     

     

     

     

  • Lição 5 – Liderança em tempo de reforma

    Lição 5 – Liderança em tempo de reforma

    neemias

    As atitudes de Neemias na sua chegada a Jerusalém mostram que estava capacitado para fazer a obra que Deus queria que fizesse em Judá.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo do livro de Neemias, estudaremos hoje o capítulo 2, que nos narra a ida de Neemias até Jerusalém.

    – As atitudes tomadas por Neemias mostram que estava devidamente capacitado pelo Senhor para empreender aquela grande obra que era a restauração da nação judaica.

    I – NEEMIAS PEDE AO REI PARA IR PARA JERUSALÉM

    – Neemias foi buscar a face do Senhor a fim de poder conhecer qual era a vontade divina no caso e, no mês de Nisã, no vigésimo ano do reinado de Artaxerxes, depois de quatro meses de oração, foi acometido de uma singular angústia, de uma tristeza que, ao contrário das outras vezes, não pôde disfarçar diante do rei. Artaxerxes notou que o semblante de Neemias era de tristeza e, como isto nunca antes havia acontecido, perguntou-lhe o que se passava (Ne.2:1,2).

    – Vemos desta afirmação do próprio Neemias que um servo de Deus, ainda que esteja a passar por tribulações, angústias e provações, não deve ser alguém que transmita tristeza ou melancolia aos que estão à sua volta. Muito pelo contrário, o servo do Senhor precisa expressar alegria, uma alegria diferente, pois é a alegria da salvação (Sl.51:12), uma das qualidades do fruto do Espírito Santo (Gl.5:22).

    – Não estamos aqui a dizer que o salvo não passa por tristezas e aflições. O Senhor Jesus só garantiu uma coisa para os Seus seguidores neste mundo – aflições (Jo.16:33). Assim, é evidente que o salvo sempre passará por momentos de dificuldades e de tristezas.

    – O que estamos a dizer é que o salvo, apesar das aflições e tristezas, não pode desanimar nem tampouco desanimar aqueles que estão à sua volta. O Senhor disse que, apesar das aflições, devemos ter “bom ânimo”, ou seja, não podemos perder a esperança da glória, nem tampouco fazer com que nossas dificuldades se transformem em pedra de tropeço para os outros seres humanos. Neemias, apesar de sua aflição, de seu choro contínuo, nunca havia se apresentado triste e abatido diante do rei Artaxerxes. Apresentava-se, sempre, com um semblante alegre, sendo um motivo de prazer e uma boa companhia para o rei.

    – No entanto, naquele dia, por mais que tentasse, Neemias não conseguiu se apresentar com semblante alegre. Aquela tristeza era, sem que ele soubesse, o meio pelo qual o Senhor começaria a responder as suas orações. Neemias, apesar de angustiado e triste (talvez se perguntasse o porquê daquela tristeza maior), não se queixou diante do rei, mas efetuou o seu serviço como costumava fazer.

    – O rei, no entanto, já acostumado com o semblante alegre de Neemias, percebeu aquela mudança de ambiente e, mais do que depressa, perguntou-lhe qual era o motivo daquilo, já que, como Neemias não estava doente, aquilo só podia ser tristeza de coração (Ne.2:2).

    – A indagação do rei era extremamente perigosa. Como sabemos, o copeiro real era aquele que provava tudo quanto seria consumido pelo rei, a fim de evitar que fosse ele envenenado. A demonstração de tristeza de coração por parte de Neemias poderia indicar que ele soubesse de alguma trama ou conspiração contra o rei e, como era um servo leal, sua tristeza poderia ser interpretada como um cumplicidade com os inimigos, mesmo uma impotência diante daquilo, que poderia custar-lhe a vida. Eis o motivo pelo qual Neemias “temeu muito em grande maneira”.

    – Apesar do perigo de vida que estava a correr, Neemias , naquele momento, sentiu da parte do Senhor que ali estava uma oportunidade para relatar ao rei o deplorável estado de seus compatriotas e, com coragem, disse ao rei que o motivo de sua tristeza era o fato de Jerusalém, a cidade de seus pais, estar assolada e as suas portas consumidas a fogo (Ne.2:3). O rei, então, vendo a sinceridade do seu copeiro, perguntou-lhe o que Neemias desejava diante daquele quadro.

    – Vemos, então, que Neemias, diante de tão grande oportunidade, não se precipitou, mostrando ser pessoa extremamente prudente, uma característica que deve ter todo líder. Indagado pelo rei o que queria, fez uma oração a Deus, esta, sim, uma “oração-relâmpago”, uma “oração repentina”, mas que, com muita propriedade, Charles Haddon Spurgeon, o príncipe dos pregadores britânicos do século XIX, denominou de “oração fervorosa”.

    – Nada podemos fazer sem a orientação, a direção e a ajuda do “Deus dos céus”. Neemias havia orado durante quatro meses mas, quando se lhe abriu a oportunidade de fazer seu pedido ao rei, não confiou no poder do rei, a maior autoridade mundial daquele tempo, mas, sim, no “Deus dos céus”. Temos agido da mesma maneira, amados irmãos? Mesmo quando aparentemente se abrem as portas para nós, temos, apesar de tanto tempo de oração, ainda feito uma “oração fervorosa” para o Senhor?

    – Ao término desta oração, com toda certeza o Espírito de Deus deu a Neemias a convicção inabalável de que era ele quem deveria restaurar Jerusalém e, diante disto, o copeiro pediu ao rei que fosse autorizado a ir até Jerusalém e, em nome do rei, reedificasse Jerusalém.

    – No pedido de Neemias, verificamos que, embora reconhecesse a Deus como o Senhor de todas as coisas, o copeiro não menosprezou a autoridade de Artaxerxes, bem sabendo lidar com as leis e costumes vigentes na Pérsia. Ao fazer o pedido, nem sequer mencionou o nome do Senhor, pedindo que o rei, se quisesse e lhe fosse agradável, autorizasse sua ida até Jerusalém para a reedificação da cidade.

    – Que importante lição temos com este gesto de Neemias! Ainda que dirigidos e orientados pelo Senhor, ainda que chamados para mudar uma situação secular de injustiça e de desmando, não podemos nos apresentar como rebeldes, insubordinados ou arrogantes diante das autoridades, pois elas foram constituídas por Deus (Rm.13:1) e resistir-lhes no campo de sua competência é resistir a Deus (Rm.13:2).

    – Vemos com tristeza, na atualidade, que muitos dos servos de Deus não sabem se relacionar convenientemente com as autoridades. Alguns resolvem se submeter cegamente a elas, inclusive naquilo que fazem em contrariedade à Palavra do Senhor, fazendo-o, não raras vezes, em virtude de interesses escusos e reprováveis. Outros, pelo contrário, afrontam-nas, resistindo-lhes naquilo em que estão a fazer precisamente o que lhes é permitido inclusive pela lei de Deus e, nesta afronta, além de resistirem ao próprio Deus, também servem de escândalo na obra de Deus. Saibamos os verdadeiros limites das autoridades e, naquilo para o que foram elas constituídas, sejamos submissos e obedientes, como foi Neemias.

    – O rei Artaxerxes demonstrou ter interesse em atender ao pedido de seu copeiro, mas perguntou a Neemias quando tempo pretendia se ausentar da corte (Ne.2:6). Este, foi, sem dúvida, um importante teste para Neemias. O rei mostrou-se favorável, prova de que estava o Senhor abrindo as portas para que a obra de reedificação de Jerusalém se realizasse, mas, também, o rei mostrou que não pretendia “abrir mão” de seu servidor. Nesta pergunta, também, o rei quis verificar duas coisas muito importantes: se Neemias tinha desejo de se tornar “senhor” de Jerusalém, ou seja, se havia alguma ambição de poder por parte do copeiro e, também, se Neemias tinha ideia do que iria fazer, daí porque ter pedido para que o seu copeiro indicasse um período de ausência.

    – Neemias mostra, claramente, ao apontar um certo tempo para o rei, de que não havia apenas se dedicado à oração ao Senhor, mas que, também, procurara se informar a respeito da situação de Jerusalém e do que seria necessário fazer. Neemias não demonstrou uma “fé cega”, não se deixou levar apenas pelos desejos, mas quis se informar a respeito do que seria necessário para reedificar a cidade, como isso se daria.

    – Agir por fé, amados irmãos, não é deixar tudo aos cuidados do Senhor e não se preparar para aquilo que sente ter sido chamado a fazer. Neemias, em suas orações, recebeu a convicção de que era o homem escolhido por Deus para restaurar a sua nação, por mais que isto fosse algo irrazoável aos olhos humanos, uma vez que era o copeiro do rei e nem sequer tivera contato com os seus compatriotas, embora nem sequer conhecesse ou tivesse estado em Jerusalém alguma vez em sua vida.

    – É neste ponto que vemos o exercício da fé, quando vemos algo que é invisível, quando esperamos algo que não tem a mínima condição de se nos mostrar ou de acontecer (Hb.11:1). No entanto, exatamente por vermos o invisível e esperarmos o que, natural e racionalmente, não pode vir a ocorrer, não podemos ficar de braços cruzados, sem nada fazer. Pelo contrário, Neemias, tomado desta convicção, procurou informar-se do estado de coisas e, mais do que isto, a planejar como se daria a reedificação. Tanto assim é que, quando o rei pede que lhe aponte um tempo, Neemias pôde fazê-lo sem titubeio nem mesmo pedindo “um tempo para pensar”.

    – O planejamento é algo que é indispensável para quem quer exercer um papel de liderança, como, aliás, é algo indispensável para toda e qualquer ação inteligente que se queira fazer. Deus dá-nos o exemplo pois Ele mesmo planejou a salvação da humanidade ainda antes da fundação do mundo (Mt.25:34; Ef.1:4; Ap.13:8; 17:8).

    – Neemias, instado pelo rei, como já tinha um planejamento, apontou, de imediato, um certo tempo e obteve dele a autorização para partir.

    II – NEEMIAS OBTÉM RECURSOS E MEIOS PARA EMPREENDER A OBRA DE REEDIFICAÇÃO PARA JERUSALÉM

    – Após a autorização real para partir para Jerusalém, numa clara demonstração de que havia planejado o que iria fazer, Neemias pediu ao rei que lhe fossem dadas cartas para os governadores dalém do rio para que lhe dessem passagem até Judá (Ne.2:7). Vemos, aqui, mais uma vez, como Neemias tinha plena consciência de se submeter a todas as regras e costumes existentes em seu tempo, apesar de ter a convicção de que estava a fazer a vontade do Senhor e de que tinha, agora, a autorização da autoridade máxima da Pérsia, o próprio rei Artaxerxes.

    – Entretanto, Neemias sabia que não se pode realizar a obra de Deus de qualquer maneira e de modo irresponsável. Embora tivesse a autorização do rei, esta autorização deveria ser bem documentada e Neemias haveria de ter um relacionamento correto e legal para com todos os governadores das terras ao longo das terras que separavam a Pérsia (região que hoje corresponde ao Irã) da Palestina.

    – O Império Persa é conhecido na história por ser um dos primeiros impérios mundiais que se dotou de uma razoável estrutura administrativa. O império era dividido em satrapias, governadas por um sátrapa, que era o governador, aquele que, em nome do rei, administrava uma determinada região do império (cfr. Et.1:1). Assim, Neemias quis se cercar de todos os cuidados para, ao longo da jornada, não ser molestado por qualquer governador e, desta maneira, poder chegar em paz e sem qualquer problema até Jerusalém.

    – Como é importante que o servo de Deus se mostre, diante dos homens, de forma correta e insuspeita. Embora tenhamos um relacionamento íntimo com o Senhor, que conhece o nosso coração, nem por isso devemos nos descuidar de nos mostrar, diante dos homens, como pessoas de bem, como pessoas bem-intencionadas, como portadoras de um bom testemunho. Os homens sem Deus nem salvação não conhecem as realidades espirituais e, por isso, devemos nos mostrar a eles como pessoas de boa índole, como pessoas de bem.

    – Muitos, na atualidade, apesar de terem tido real encontro com o Senhor Jesus, apesar de estarem agindo na direção do Senhor, prejudicam-se a si mesmos e à obra do Senhor quando não tomam o cuidado que tomou Neemias de se precaver, diante das instituições existentes na sua sociedade, de modo a se mostrar a todos, a começar das autoridades, como pessoa de bem, como alguém que estava perfeitamente dentro dos limites da lei e da ordem.

    – Quantos, na atualidade, em nome de um “chamado de Deus”, causam escândalos, descumprindo normas legais, afrontando autoridades e dando lugar ao diabo para que a obra de Deus seja prejudicada. As Escrituras são claras ao afirmar que não podemos dar lugar ao diabo (Ef.4:27) e isto significa, entre outras coisas, que não podemos, em nome de um voluntarismo, de uma indevida “espiritualidade”, nos descuidarmos de cumprir tudo quanto nos é exigido na sociedade e perante o Estado quando formos fazer a obra de Deus. Neemias tinha autorização do rei para ir até Jerusalém, mas, por isso mesmo, não ousou sair de Susã sem portar as devidas cartas para apresentar a todos os governadores que encontraria pelo caminho, em especial os “governadores dalém do rio”, i.e., os governadores que tivessem autoridade do lado de lá do rio Eufrates, quando já se iniciava a Palestina.

    – Isto nos mostra que Neemias, durante o seu tempo de oração, procurou todas as informações que fossem necessárias para levar a efeito a obra de reedificação de Jerusalém. Ciente de seu chamado, Neemias não ficou aguardando as coisas acontecerem, mas, desde o primeiro instante em que sabia que Deus o queria nesta empreitada, tratou de obter todas as informações necessárias para que planejasse aquilo que deveria fazer.

    – Temos nos comportado desta maneira, ou temos aderido a falsas concepções de que basta apenas “orar” que Deus tudo fará por nós. Não resta dúvida de que sem Cristo nada pode ser feito, como já dissemos supra, mas, em momento algum, o Senhor Jesus disse que faria tudo sozinho. Nada podemos fazer sem Ele, mas Ele não é nosso servo para tudo fazer. Lembremo-nos de que aquilo que não podemos fazer, Ele fará, mas aquilo que podemos (e devemos) fazer, cabe a nós fazê-lo. Ninguém poderia ressuscitar Lázaro, mas tirar a pedra alguém poderia fazer e é por isso que Jesus ressuscitou Seu amigo, mas, antes, mandou que os que ali estavam tirassem a pedra. Façamos sempre o que está ao nosso alcance fazer, amados irmãos!

    OBS: Esta ideia de que devemos sempre agir, trabalhar, além de orar, ficou conhecida na máxima de Bento de Núrsia (480-547), o criador da ordem dos beneditinos, cujo lema era “ora et labora”, ou seja, “ora e trabalha”.

    – Além dos cuidados relativos à própria liberdade de locomoção e da demonstração de sua boa índole em sua viagem, perante as autoridades, Neemias também se preocupou em obter do rei os materiais necessários para a construção. Pediu, então, a Artaxerxes que lhe fosse dada uma carta para Asafe, o guarda do jardim do rei, para que lhe fosse fornecida madeira para cobrir as portas do paço da casa e para o muro da cidade e para a causa em que ele houvesse de entrar (Ne.2:8).

    – Por primeiro, não confundamos este Asafe, guarda do jardim do rei, com o salmista de mesmo nome e autor de vários salmos (como os salmos 73 a 83), que viveu na época de Davi, ou seja, centenas de anos antes. Seu nome pode dar a entender que se tratava, também, de um judeu com uma alta posição na corte de Artaxerxes e, assim, pessoa próxima de Neemias, mas que, nem por isso, deveria ajudar o copeiro real sem que o rei mandasse fazê-lo.

    – Temos aqui uma demonstração de que Neemias sabia bem diferenciar amizade de responsabilidades, algo que, infelizmente, muitos salvos não compreendem. O fato de Asafe ser judeu e amigo de Neemias nada tinha que ver com a missão que o Senhor estava a dar a Neemias. Neemias, a despeito de estar a caminho de Jerusalém para reedificar a cidade e de isto ser algo que seria muito caro a seu compatriota Asafe, sabia muito bem que somente poderia retirar madeira para a obra se houvesse uma ordem do rei a respeito. Não havia meios para que Asafe “desse um jeitinho” e o ajudasse. Como seria bom se todos os salvos agissem desta maneira…

    – Ao fazer seu pedido ao rei para que Asafe lhe arrumasse a madeira necessária para a obra, vemos, mais uma vez, que Neemias tinha buscado obter informações do estado das coisas em Jerusalém e do que seria necessário para fazer a reedificação. Neemias não deixou de confiar em Deus e de Lhe atribuir a abertura da oportunidade, tanto que, em suas “memórias”, faz questão de dizer que tudo foi obtido “segundo a boa mão de Deus sobre mim” (Ne.2:8 “in fine”), mas isto não o impediu de ir atrás das informações e de saber que material e onde poderia obter para realizar a obra.

    – Esta precaução, este cuidado em bem planejar, algo que veio antes mesmo de receber a autorização do rei para fazer a viagem, é uma demonstração eloquente da fé de Neemias e a prova de que ter fé não é ser descuidado nem preguiçoso. Como é diferente o proceder de tantos que dizem ter sido chamados por Deus em nossos dias…

    – Devidamente recomendado por cartas do rei, com o material suficiente, Neemias iniciou sua viagem, tendo se apresentado aos governadores dalém do rio. Além disso, também, foi acompanhado de chefes do exército e cavaleiros que lhe foram fornecidos pelo rei Artaxerxes.

    – É interessante aqui fazermos um paralelo entre Esdras e Neemias. Esdras havia deixado Susã treze anos antes e, nos diz o relato do capítulo 8 do livro de Esdras, que o escriba não quis pedir tropas nem soldados ao rei, porque teve vergonha de pedi-lo diante do testemunho que dera a respeito do Senhor (Ed.8:21-23). Por que Neemias aceitou a soldadesca fornecida pelo mesmo Artaxerxes? Teria Esdras fé e Neemias, não?

    – Tanto Esdras quanto Neemias agiram com fé. Por primeiro, é interessante notar que Neemias também não pediu soldados para o rei. Seu pedido foi para ir reedificar Jerusalém, como também cartas para apresentar aos governadores e madeira do jardim do rei. Neemias não pediu soldados. Assim, não podemos dizer que, ao contrário de Esdras, Neemias tivesse pedido soldadesca para Artaxerxes, pois não há registro de que o tenha pedido.

    – Mas, alguém dirá, ainda que não tivesse pedido, quando o rei as ofereceu, não deveria ter ele recusado para mostrar a mesma fé que teve Esdras? Não necessariamente. Esdras havia se notabilizado na corte de Artaxerxes como “escriba da lei do Deus do céu” (Ed.7:12). Assim, Esdras era conhecido como alguém que tinha ensinado a respeito do poder de Deus, das maravilhas que o Senhor havia feito em prol de Israel. Diante desta sua condição de mestre da lei e pregador, ficaria mesmo inconveniente para Esdras vir a pedir tropas para proteger a ele e aos que com ele iriam para Jerusalém. Certamente, poderia ser confrontado por Artaxerxes, que não era um judeu, a respeito daquilo que pregara durante anos na corte. Assim, para não dar escândalo, para não desacreditar o que havia pregado, Esdras preferiu o caminho da oração e do jejum, caminho este que foi aprovado por Deus, que Se moveu pelas orações do povo e realmente os guardou na sua ida a Jerusalém.

    – No caso de Neemias, porém, era diferente. Neemias não se notabilizara na corte do rei da Pérsia como um pregador nem como um ensinador da lei. Embora tivesse um bom testemunho e se apresentasse como um servo de Deus na corte, Neemias não tinha a posição de Esdras e, por isso, não lhe era inconveniente aceitar a soldadesca. Ademais, como era muito bem informado, sabia, de antemão, que haveria oposição à sua empreitada e a presença da soldadesca lhe seria assaz conveniente, não apenas para intimidar os adversários, para mostrar as suas boas intenções e a circunstância de que estava agindo plenamente dentro da lei. Por isso, ao lhe ser oferecida a ajuda militar, não a negou, pois tal aceitação em nada representaria um escândalo diante da obra que estava a realizar.

    – Esta situação diametralmente oposta entre Esdras e Neemias mostra-nos, com clarevidência, que não podemos entender que Deus deve agir da mesma maneira em todas as situações. Ao recusar soldados, Esdras agiu de forma a se dar glória a Deus; ao aceitar soldados, Neemias também agiu de forma a se dar glória a Deus. Isto nos prova de que, como não conhecemos os corações dos homens, não devemos ficar a julgar esta ou aquela situação, só porque difere de uma situação anterior. Deus tem muitas formas de agir e não cabe a nós o julgamento dos outros (Tg.4:11,12). Tomemos, pois, cuidado, amados irmãos!

    – Tanto foi prudente e divinamente orientada a aceitação da soldadesca por parte de Neemias que, em chegando diante dos governadores dalém do rio e apresentando suas cartas, logo surgiu a oposição, visto que, ao tomar conhecimento das intenções de Neemias, Sambalate, o horonita e Tobias, servo amonita, ficaram grandemente desagradados, já que surgira alguém que procurava o bem dos filhos de Israel (Ne.2:10).

    – Não se sabe se já nesta oportunidade, quando se apresentou aos governadores dalém do rio, Neemias tomou conhecimento do desagrado de Sambalate e de Tobias, mas isto nos serve de lição de que, sempre que buscarmos o bem dos filhos de Deus, sempre haverá quem se levante com grande desagrado, visto que o Senhor Jesus foi bem claro ao nos mostrar que as “portas do inferno” jamais deixarão de se levantar contra a Igreja. Pode ser que não percebamos tal oposição logo ao princípio de nossa atividade em prol dos bens dos filhos de Deus, mas não nos iludamos, sempre haverá a oposição do maligno.

    – Nesta palavra, aliás, entendemos qual era a motivação, qual era o objetivo de Neemias: o bem dos filhos de Israel.Tem sido esta a motivação e o objetivo das ações que temos feito na obra do Senhor? Queremos tão somente “o bem dos filhos de Deus”, ou estamos à procura de outros interesses? Somente poderemos trabalhar para o Senhor Jesus com este mesmo objetivo de Neemias: o bem dos filhos de Deus.

    – Há muitos que, hoje em dia, fazem o mesmo que já se fazia nos tempos do apóstolo Paulo, que nos revela que muitos estavam a pregar o Evangelho por inveja e porfia, por contenção, não puramente, mas apenas para acrescentar aflição ao apóstolo em suas prisões (Fp.2:15-17). Certa feita, aliás, vimos e ouvimos um ministro afirmar que estava a pregar o Evangelho numa determinada localidade “por retaliação”! Que situação lamentável. Devemos sempre agir como Neemias, trabalhar para o Senhor Jesus para que se tenha “o bem dos filhos de Israel”.

    – Devidamente credenciado, com os materiais necessários, Neemias se apresentou aos governadores dalém do rio e depois se dirigiu a Jerusalém, tendo ali ficado incógnito e sem qualquer alarde por três dias (Ne.2:11).

    IV – NEEMIAS TOMA CONHECIMENTO DA SITUAÇÃO DE JERUSALÉM E CONVOCA O POVO PARA A OBRA

    – Neemias chegou a Jerusalém sem qualquer estardalhaço. Discreto, ciente de que era escolhido de Deus para aquela obra, não quis se apresentar como “o tal”, como o “restaurador”. Todo servo de Deus deve ter humildade e aguardar o momento certo em que o Senhor o apresentará na posição de liderança. Muitos, infelizmente, ainda que chamados por Deus para serem líderes, querem “aparecer”, querem se sobressair, cuidando para que seu “marketing pessoal” seja estabelecido o quanto antes, esquecendo-se que, na obra do Senhor, a propaganda não é a alma do negócio.

    – Neemias ficou três dias em silêncio após ter chegado a Jerusalém. Não nos diz o que fez neste período, mas podemos deduzir que tenha buscado a Deus, como era seu costume, bem como que revisitara todo o seu planejamento. Findos os três dias, de noite, levantou-se e, na companhia de poucos homens, sem declarar a ninguém o que Deus havia posto em seu coração para fazer em Jerusalém, saiu para ver “in loco” a situação (Ne.2:12).

    – Neemias dá-nos aqui preciosas liçõesde que como devemos agir na obra do Senhor. Por primeiro, não se pode ficar a alardear aquilo que recebemos em nossa intimidade com o Senhor. Neemias havia recebido de Deus uma incumbência e havia recebido esta incumbência, esta tarefa em sua busca particular de Deus quando ainda estava em Susã. Ora, aquilo que é fruto de nossa intimidade com Deus não deve ser propalado aos quatro cantos da Terra.

    – Temos de ter um relacionamento íntimo com o Senhor e este relacionamento deve se manter particular, entre nós e Deus. Neemias bem sabia o que devia fazer, mas não foi proclamando em alto e bom som quando chegou a Jerusalém. Ele não conhecia as pessoas, nem tampouco a cidade, por isso, antes que pudesse divulgar parte daquilo que o Senhor lhe dissera (pois nem tudo era para ser revelado), precisava “tomar pé da situação”.

    – Neemias tinha feito um planejamento em Susã, dentro daquilo que Deus pusera em seu coração, mas ainda não havia tido uma experiência seja com o povo seja com o próprio local em Jerusalém. Umlíder não pode ser apenas um teórico, alguém que trabalha única e exclusivamente com a sua mente e seu homem interior, mas precisa ter contato com a situação real e com o povo que irá liderar. Não é por outro motivo que a Bíblia denomina de “pastores” aos líderes do povo de Deus (Jr.2:8; 3:15; 10:21; 23:1; Ez.34:7-10; Ef.4:11; Hb.13:7,17). O pastor não tem apenas uma liderança mental e contemplativa, mas é necessário que ele “apascente as ovelhas”, ou seja, que se mantenha em constante contato com seus liderados, que as conheça particularmente, que conviva com elas.

    OBS: Um querido irmão que conosco acompanha as aulas do Estudo Preparatório dos Professores de EBD costuma dizer que ser pastor não é ser “almofadinha”, alguém que fica apenas em seu gabinete e que, com sua “malinha 007” passa sem nem sequer cumprimentar as pessoas que alega apascentar, como, infelizmente, temos visto muito por aí…

    – Neemias, então, precisava fazer um “levantamento de campo”, saber o real estado dos muros e das portas de Jerusalém, a fim de que, só então, com a devida verificação do seu planejamento, feito com as informações obtidas em Susã, pudesse revelar seus intentos ao povo de Jerusalém, povo que havia observado durante estes três dias.

    – Como é importante ouvir e observar antes de falar. Já vimos, na lição anterior, que Neemias era um bom ouvinte e, uma vez mais aqui, demonstra esta importante qualidade, indispensável para quem quer liderar. O líder não é aquele que manda, mas, sim, “aquele que leva os demais” a uma direção: “…a função do verdadeiro líder é identificar-se com o que está para fazê-lo cada vez melhor.(…). O líder não deve apenas estudar os assuntos que se lhe apresentam, mas vivê-los para com eles vibrar e poder falar a ponto de suscitar a inteligência em seus mais rudes liderados. Assim, a obra poderá ser vivenciada e desejada em seus corações…” (CARVALHO, Ailton Muniz de. Os dez mandamentos de um líder idôneo para o século XXI, p.18).

    – Neemias, então, na companhia de poucas pessoas, pessoas de sua mais estrita confiança, de noite, para que ninguém o visse, nem mesmo de animais, tendo apenas utilizado um para sua própria montaria, foi até os muros e portas de Jerusalém, para verificar o estado em que se encontravam.

    – É fundamental que, antes de iniciarmos a fazer a obra que o Senhor pôs em nosso coração, tenhamos um amplo conhecimento da situação que iremos enfrentar. Apesar de todas as informações que angariemos, é imperioso que nós mesmos vivenciemos a situação, para que, diante de nossa experiência, possamos bem realizar a tarefa que nos foi dada pelo Senhor. É certo que Deus, na Sua infinita misericórdia, sempre há de revelar aquilo que não formos capazes de descobrir, mas aquilo que pudermos levantar e experimentar, o Senhor não o fará por nós.

    – Saindo pela porta do vale, para a banda da fonte do dragão e para a ponta do monturo, Neemias contemplou os muros de Jerusalém e pôde verificar que estavam fendidos e que suas portas tinham sido consumidas pelo fogo (Ne.2:13). Interessante verificarmos que ele foi em direção à porta do monturo, ou seja, à porta do lixo (a Tradução Brasileira fala em “entrada do esterco”), certamente o lugar mais fétido e pior de toda aquela deplorável situação, numa demonstração de que, quando queremos conhecer a situação real, temos de ir ao pior lugar. Trata-se de uma verdadeira experiência, de uma real vivência da situação, não uma “amostragem” que busque tão somente uma “meia verificação” do que está a ocorrer.

    – Mas Neemias não ficou apenas na “porta do monturo”. Também foi até a porta da fonte e ao viveiro do rei, que eram, presumivelmente, lugares mais aprazíveis, lugar da água, onde se encontrava o “açude do rei” (como nos fala a Versão Almeida Revista e Atualizada). Não se pode fugir do pior ponto da situação para se conhecer a realidade, mas não se pode ficar apenas neste local, é preciso também ver os lugares melhores. É preciso ter uma visão global, total, não baseada em estimativas, mas em reais experiências.

    – Uma boa administração, um bom exercício de liderança não pode dispensar esta experiência da realidade. Se somos chamados por Deus a realizar uma tarefa, uma missão, não podemos nos precipitar. Temos de confiar em Deus e, sem medo de demorar, devemos calmamente, na direção do Senhor, “tomar pé da situação”. Quantos acham que, por terem sido mandados por Deus, podem tudo modificar e tudo mudar de uma hora para a outra. Tenhamos calma, amados irmãos! Sejamos prudentes. Antes é preciso “tomarmos pé da situação”, conhecermos a realidade que se nos apresenta, algo que o Senhor não fará por nós, pois nos dotou de conhecimento e inteligência para tanto. Lembremo-nos disto!

    – A porta da fonte e o viveiro do rei, que eram os “melhores” lugares daquela caótica situação, estavam em estado tão precário, tão ruim que não havia lugar por onde pudesse passar a cavalgadura que estava debaixo de Neemias. Observemos: o que seria o melhor lugar não tinha sequer espaço para que um animal ali passasse, tamanha era a presença de monturo e de ruínas no local.

    – Como não podia passar por ali, Neemias subiu pelo ribeiro e contemplou o muro, tendo, então, voltado e entrado pela porta do vale, a mesma porta por onde havia saído (Ne.2:15).

    – Neemias fez esta inspeção “in loco” sem qualquer comentário, sem abrir a sua boca. Não só os poucos homens que o acompanhavam não puderam saber o que estava a fazer e o que significava aquilo, como também não contou Neemias o que fizera a ninguém, nem aos magistrados, nem os nobres, nem aos judeus em geral (Ne.2:16). Neemias mantinha silêncio total, porque não era hora de falar, mas, sim, de ver e ouvir tudo quanto estava a ocorrer.

    – Voltamos a insistir na importância de deixarmos o falar para um momento subsequente do exercício da liderança. A situação era difícil e não devem ter sido poucas as manifestações de desânimo e de tristeza que Neemias observara naqueles três dias em que estava em Jerusalém. Mas o momento não era de falar e, sim, de ver e ouvir.

    – Salomão ensina-nos que “o homem de entendimento se cala” (Pv.11:12) e que “até o tolo, quando se cala, será reputado por sábio; e o que cerrar os seus lábios, por sábio” (Pv.17:28). Saibamos calar no momento necessário para isto, entre os quais se encontra o do planejamento e do conhecimento da situação real em que nos encontramos para dar início àquilo que Deus nos pôs em seu coração.

    Verificada a situação, devidamente reajustado o planejamento que havia sido feito anteriormente, ante a contemplação da realidade, Neemias, então, chamou os magistrados, os nobres, os judeus e os que faziam a obra para uma reunião. Notemos que Neemias chamou todos os interessados, sem fazer acepção de pessoas. Para que tivesse êxito, Neemias tinha de ter o consentimento de todos.

    – Em nossos dias, na Igreja, que é um corpo (I Co.12:12-27), muito mais do que Neemias, devemos todos buscar o consentimento e a participação de todos os interessados para que possamos bem realizar a obra de Deus. O fato é que, ultimamente, em nome de uma “teocracia”, tem-se alijado boa parte dos salvos das deliberações e das decisões, o que não é correto. Neemias tinha autorização da máxima autoridade daquele tempo para reedificar Jerusalém e estava na direção de Deus, que era quem o escolhera para a realização daquela grande obra, mas não ousou usar de sua “autoridade”, tendo preferido antes obter o consenso de todo o povo, sem o que, sabia ele, nada poderia ser realizado

    – Deus, apesar de ser o Criador de todas as coisas e Senhor de tudo (Sl.19:1), não é um ditador. Muito pelo contrário, tem prazer em compartilhar a existência com o homem e, por isso, convida o homem a esta parceria. Este gesto divino é a demonstração indelével do Seu amor para conosco e tem de ser, necessariamente, imitado pelos Seus servos. Por isso, uma das características da Igreja é a “perseverança na comunhão e no partir do pão”, ou seja, a mantença de uma vida de compartilhamento entre os irmãos, de colaboração mútua, de exercício do amor desinteressado.

    Neemias não impôs coisa alguma ao povo judeu, embora tivesse poder e autoridade, tanto da parte de Deus quanto da dos homens, para fazê-lo. Preferiu obter o apoio e a adesão dos judeus e, por isso, convocou esta reunião, onde, na presença de todos, desde os magistrados, passando pelos nobres, até os judeus em geral, fez uma análise da situação e conclamou o povo à obra.

    OBS: “…Um dos meios, e o mais apropriado para o líder conseguir esse objetivo, é promover reuniões producentes com os seus liderados. Essas reuniões dão a oportunidade aos subordinados de apresentar suas queixas e suas dificuldades, além de fazer sugestões e ouvir as opiniões de seus colegas, em relação aos problemas gerais enfrentados e resolvidos pelo grupo. Tem ainda a vantagem de colocar a liderança, democraticamente, diante de seus subordinados, para colocá-los a par dos planos emergentes da obra e integrá-los. Passarão, assim, a cooperar com convicção no projeto do superior, deixando de ser, apenas, cumpridores de ordens.…” (CARVALHO, Ailton Muniz de. op.cit., p.41).

    Neemias não “dourou a pílula”. Foi bem enfático: “bem vedes a miséria em que estamos” (Ne.2:17). Uma das características do líder é o de dizer necessariamente a verdade. Na obra de Deus, então, que é a própria Verdade (Jr.10:10), não há como sermos bem sucedidos se não falarmos e mostrarmos a verdade.

    – Neemias foi direto ao ponto: o povo judeu vivia um estado de miséria. Se não reconhecermos a nossa situação real, se não assumirmos a nossa integral e total dependência de Deus, jamais poderemos triunfar na obra do Senhor. Aliás, se não assumirmos a nossa maldade e depravação, nem sequer conseguiremos ser salvos. Não nos esqueçamos de que uma das poucas pessoas que saiu da presença de Cristo Jesus sem a salvação foi o mancebo de qualidade, precisamente porque ele se achava bom (Mt.19:16-22; Mc.10:17-22; Lc.18:18-23).

    – Hoje em dia, falta este “choque de realidade” na Igreja. Após termos completado o centenário das Assembleias de Deus, precisamos refletir a respeito do atual estado em que nos encontramos. Sem dúvida, devemos ser gratos a Deus pela extraordinária operação do Espírito Santo em nosso país durante estes cem anos, mas não podemos negar que estamos muito, mas muito distantes do fervor dos primeiros dias. Pesquisa recente indicou que, nos anos 1950, a proporção de crescimento da Igreja era de que um crente ganhava, em média, doze outros para Cristo, por ano, enquanto que, na atualidade, são necessários 144 crentes para ganhar um por ano em média em nosso país. Deixamos de crescer como antes e nosso crescimento tem sido pífio, como mostrou recente pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, que indica que, somados pentecostais e neopentecostais, tivemos, nos últimos dez anos, a mantença de 12% (doze por cento) da população, ou seja, pela primeira vez, não houve crescimento real dos pentecostais. Enquanto isso, o número de evangélicos que “não têm igreja” alcança 14% (quatorze por cento) dos evangélicos, um número estarrecedor, que indica como tem crescido a apostasia no meio do povo.

    – Ao mesmo tempo em que isto acontece, vemos rarear a manifestação dos dons do Espírito Santo em nossas igrejas locais, sem falar que muitos já não são batizados com o Espírito Santo. Enquanto isto, o ingresso do mundanismo em nossas igrejas é visível, além da subversão dos cultos a Deus, levando cada vez mais a um distanciamento de uma espiritualidade sadia em todos os segmentos da Igreja. Por fim, o “analfabetismo bíblico” é assustador, com o total desconhecimento das Escrituras por parte da esmagadora maioria dos crentes que, há muito, não frequentam reuniões de ensino nem Escolas Bíblicas Dominicais.

    – Diante de tal quadro, torna-se urgente que as lideranças façam como Neemias, parem de ficar se digladiando por posições seja na igreja local, seja na sociedade e, bnuscando a direção do Senhor, contemplem a realidade que está a lhes escapar dos olhos e, depois de devidamente orientados pelo Espírito Santo e terem “tomado pé da situação”, venham ao encontro do povo e os reúna para que, juntos, saiamos desta situação de miséria espiritual em que estamos nos envolvendo. Não temos muito tempo, amados irmãos!

    OBS: “…A pergunta que vem agora é: Por que os evangélicos perderam o fôlego? Parafraseando o apóstolo Paulo: Corríeis tão bem, quem vos impediu de continuar a carreira no mesmo ritmo? Isso mesmo: o que aconteceu para uma queda de 40% – de 98 para 40%? Tendo dito isto, gostaria de fazer uma análise do que está acontecendo nesses últimos nove anos com a Igreja Evangélica. Direto ao ponto: O Evangelho da ‘prosperidade’, a novidade introduzida pelas Igrejas Neo-pentecostais na década de 1991-2000 perdeu o encanto e se revelou descartável. A inovação eficiente nos anos 90 trouxe um componente estranho para os primeiros nove anos do nosso século: as pessoas perderam o entusiasmo por ele e aguardam uma outra novidade que agrade aos seus ouvidos. Para mim, o Espírito Santo foi trocado pela “novidade” dos anos 90, mas a energia daquela “prosperidade” minguou, assim como o azeite das lamparinas da Parábola das dez virgens, do Evangelho. Como bem criticou alguns blogueiros da comunidade, a quantidade não trouxe qualidade. Para não ser prolixo, vou concluir. O método que Jesus Cristo usou há 2000 anos ainda se mostra o mais eficiente para nortear a Igreja. Quando ele concluiu seu ministério, estima-se que tivesse 500 discípulos. Discipulado. A TV mostra-se eficiente para evangelizar, mas ela tem um ponto falho: não produz discipulado! Não, porque trata-se de um veículo de entretenimento descartável na sua essência. E, discipulado significa um novo convertido aprendendo com um cristão maduro – em comunhão com o Espírito Santo. Para por isto em prática não é necessário um mega-projeto nem recursos financeiros astronômicos, basta implantar em cada Igreja a volta do discipulado. Ainda não inventaram nada melhor para a prosperidade da Igreja.…” (CRUZUÉ, João. Projeções da população evangélica para 2010. Disponível em: http://olharcristao.blogspot.com/2011/02/projecoes-da-populacao-evangelica-para.html Acesso em 25 ago. 2011).

    – Neemias disse que Jerusalém estava assolada e suas portas queimadas a fogo. Bem mostrou, pois, o quadro de caos que vigorava, mas não se limitou a dar o correto diagnóstico da situação. Muitos até se saem bem quando o assunto é falar da situação real. Bem investigam (como deve fazer todo justo, pois quem não investiga é o ímpio – Sl.10:4), mas se limitam a dar a imagem do caos. Neemias, porém, não viera para desanimar ou simplesmente engrossar o lamento dos judeus. Após ter falado francamente a respeito da situação, traz a mensagem de esperança: “vinde, pois, reedifiquemos o muro de Jerusalém e não estejamos mais em opróbrio” (Ne.2:17).

    Neemias, então, revela parte do que Deus havia posto em seu coração e convida o povo a se juntar a ele para reedificar o muro de Jerusalém e mudar a situação de opróbrio que estavam a viver. Notemos que Neemias usa apropriadamente a primeira pessoa do plural: “reedifiquemos” e “não estejamos em opróbrio”. Neemias não veio dar ordens, mas chamar o povo para que, com ele, mudasse a situação. Neemias põe-se, desde já, como um dos envolvidos na obra que era proposta, o que, certamente, representou uma surpresa e um nítido incentivo para os judeus, pois, afinal de contas, Neemias, que nem sequer morava ou conhecia Jerusalém, tudo deixara em Susã para se irmanar com os seus compatriotas.

    – É muito fácil dar ordens, ainda mais quando autorizado por quem de direito, como é o caso de Neemias. Mas o homem de Deus não deve estar disposto a simplesmente mandar fazer, mas a convidar os demais a que venham fazer juntamente com ele. Temos de ser imitadores de Cristo (I Co.11:1) e, como tal, temos de também trabalhar, pois foi assim que procedeu o Senhor Jesus (Jo.5:17). Temos agido desta maneira?

    – Após ter se identificado com todos os judeus, Neemias, então, dá o seu testemunho diante do povo, mostrando que ali estava não por vontade própria, mas por determinação divina (Ne.2:18). É necessário que o líder dê o seu testemunho de chamada, que mostre aos que estão à sua volta que é o escolhido para estar à frente do povo (e isto que significa “presidir”, ou seja, “estar à frente”), mas tal declaração, sabiamente, foi feita por Neemias depois que tinha já tomado conhecimento da situação real, tanto do povo quanto da cidade desolada.

    – Esta declaração foi feita a todo o povo, pois Neemias reconhecia que estava diante do povo de Deus, do povo tão amado pelo Senhor que o trouxera de Susã para a realização daquela obra. Também devemos, enquanto líderes, falar aos nossos liderados em conjunto, pois, se fomos chamados por Deus, não podemos nos esquecer que o mesmo Espírito Santo que habita em nós, também habita naqueles que serão liderados. Não pode haver “segredos” quanto a este assunto, pois o Espírito hoje habita em todos os salvos. Por isso, duvidemos daqueles que respaldam sua liderança em “visões”, “revelações” que são inalcançáveis aos demais crentes.

    Neemias, apesar de se apresentar como chamado pelo Senhor para esta obra, não tirou a devida glória ao Senhor. Disse que o Senhor lhe fora favorável, reconhecendo que dependia de Deus para a execução daquela tarefa. Neemias era o líder chamado por Deus, mas não se portava como um “super-homem”, pois, efetivamente, não o era. O líder está à frente do povo, mas não está acima do povo, pois acima do povo só pode estar um: o Senhor.

    – Além de se apresentar como chamado por Deus, Neemias também teve a preocupação de mostrar ao povo que ali estava com expressa autorização do rei Artaxerxes. Neemias, em momento algum, queria dar a mínima suspeita de rebelião ao domínio persa. Tinha consciência de que o Senhor havia posto o povo debaixo do jugo da Pérsia e que não havia qualquer demonstração, da parte do Senhor, de alterar esta situação política. Por isso, bem disse para o que tinha vindo: reedificar os muros de Jerusalém e tirar o povo judeu daquela miséria. Era isto e nada mais! Jamais percamos o foco da chamada que Deus nos deu e da tarefa que deveremos desempenhar junto com os demais irmãos.

    O povo judeu reconheceu a integridade e a coragem daquele homem e, a uma só voz, animou-se e aderiu ao projeto: “Levantemo-nos e ediquemos”. Não temos porque, diante do chamado do Senhor, acharmos que não seremos correspondidos pelos autênticos e genuínos servos de Cristo Jesus. Se fomos chamados, o mesmo Espírito que nos chamou também irá agir naqueles que serão os liderados e todos, juntos, faremos a obra do Senhor.

    – Neemias, em sua fala, também demonstrou que estava a querer o bem dos filhos de Israel, como já havia mencionado quando comparecera diante dos governadores dalém do rio e que motivou o desagrado de Sambalate e de Tobias. Sabemos disto porque o texto sagrado nos fala que os judeus “esforçaram as suas mãos para o bem” (Ne.2:18 “in fine”).

    – É fundamental que o líder mostre, com objetividade e transparência, quais os objetivos que pretende na realização da obra que irá fazer. Esta clareza e transparência é fundamental para que haja a união de esforços e a obra se realize. Onde há união, ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre (Sl.133:3) e não há como se obter esta união de forma duradoura sem que se saiba precisamente qual a finalidade que se busca alcançar.

    – O próprio Jesus, diz-nos a Bíblia, tudo suportou pelo gozo que Lhe estava proposto (Hb.12:2). Também os crentes tudo suportam nesta vida de aflições porque sabem que lhes está reservada uma glória que não dá para comparar com as aflições do tempo presente (Rm.8:18). Se assim vive o salvo, como podemos ter a sua colaboração sem que ele tenha consciência dos objetivos que se pretendem atingir?

    – Todos resolveram aderir à proposta de Neemias, porque sabiam que aquele esforço era “para o bem”. Também, neste mundo, nós, como servos do Senhor Jesus, devemos, como Ele, “andar fazendo bem” (At.10:38). Devemos deixar bem claro a todos que nos cercam que nosso esforço é “para o bem”, sem qualquer outro interesse. Temos agido desta maneira?

    – Observemos, ainda, que este bem, ainda que querido por Deus, que, inclusive, criara todas as condições para que a obra fosse possível, dependia do esforço de todos. Bem ao contrário do que dizem os triunfalistas e os teólogos da prosperidade, nada viria “de mão beijada” para o povo judeu. Eles teriam de se esforçar, de fazer aquela grandiosa obra. Deus não estava pronto a num passe imediato fazer os muros de Jerusalém se levantarem, assim como haviam caído os muros de Jericó. Não nos iludamos, amados irmãos: Deus não é nosso empregado, não é nosso serviçal. Ele faz o que ninguém poderia fazer (como capacitar alguém como Neemias e tirá-lo de Susã para liderar o povo em Jerusalém), mas não faz aquilo que podemos fazer (reedificar os muros e as portas de Jerusalém).

    – Assim que todos se comprometeram a reedificar os muros de Jerusalém e a mudar a situação de miséria do povo, não demorou muito para que os inimigos se levantassem.

    – É sempre assim, como já tivemos ocasião de dizer neste estudo. Tendo sabido do comprometimento do povo, ainda que só por informações, Sambalate, Tobias e Gesem, o arábio (percebem como já aumentou o número de inimigos, de dois passamos para três), zombaram dos judeus e os desprezaram, acusando-os de querer rebelar-se contra o rei da Pérsia (Ne.2:19).

    – Não nos deteremos aqui na atuação dos inimigos de Neemias, pois analisaremos minudentemente esta oposição em duas lições (lições 4 e 5), mas, desde já, podemos verificar que a oposição do inimigo não tarda quando há disposição do povo de Deus para realizar uma obra querida pelo Senhor. Não podemos, portanto, nos assustar e nos intimidar quando vêm as zombarias, os desprezos e as calúnias do adversário de nossas almas.

    Nossa reação deve ser a mesma de Neemias que, sem se importar com a oposição, deu testemunho de que “o Deus dos céus é que nos fará prosperar” e que os judeus, que eram servos do Senhor, se levantariam e edificariam Jerusalém uma vez mais (Ne.2:20).

    – Além disto, Neemias foi bem claro ao mandar dizer aos inimigos que “eles não tinham parte, nem justiça, nem memória em Jerusalém”. Neemias continuou sendo fiel à verdade e não teve preocupação alguma em agradar aos homens. Aqueles homens eram de nações inimigas de Israel, não queriam o seu bem, nunca o tinham querido e, inclusive, tinham prazer em contemplar a situação deplorável em que se encontrava o povo judeu. Por isso, não tinham “parte, nem justiça, nem memória em Jerusalém” e, desta maneira, não poderiam cooperar com aquela obra.

    Precisamos ter o mesmo discernimento de Neemias. A obra que ele haveria de realizar é “para o bem dos filhos de Israel” e, deste modo, somente poderia contar com a colaboração e participação dos filhos de Israel. Era uma obra que Deus estava a fazer com o Seu povo e, portanto, não podia, de forma alguma, ter a participação de quem não pertencia ao povo de Deus.

    – Precisamos ter esta compreensão quando começamos a realizar a obra de Deus. Nela não tem parte, nem justiça nem memória aqueles que não pertencem ao povo do Senhor. Quanto prejuízo temos causado ao Senhor quando permitimos que inimigos de Deus venham a cerrar fileira ao nosso lado? Não nos esqueçamos dos malefícios causados pelo “vulgo”, pela “mistura de gente” que saiu do Egito juntamente com Israel (Ex.12:38; Nm.11:4), bem como os povos que habitavam em Canaã e que foram poupados pelos israelitas na conquista da terra (Jz.2:3).

    – Neemias não os amaldiçoou, nem tampouco lhes declarou guerra, mas simplesmente disse que aquela obra era uma obra exclusiva para o povo de Deus. Que assim também procedamos para que tudo seja feito conforme a vontade do Senhor

     

    Ev. Profº Dr. Caramuru Afonso Francisco

     

     

     

  • Lição 4 – João Batista, um homem resignado

    Lição 4 – João Batista, um homem resignado

    Joao batista

    Texto Áureo

    “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; mas aquele que é o menor no Reino dos céus é maior do que ele”. Mt 1.11

    Verdade Aplicada

    João Batista é um gigante da fé que se resignou para preparar o caminho daquele que viria depois dele.

    Esboço

    1. Caracterização Geral
    2. Família e Começo de Vida
    3. Fontes Informativas
    4. Ministério e Mensagem de João Batista
    5. Elias Redivivo
    6. João Batista e Jesus
    7. Seguidores de João Batista
    8. Morte de João Batista

    Bibliografia

    1. Caracterização Geral

    a. O Precursor. João, filho de Zacarias (que era sacerdote) e de Isabel (igualmente de ascendência sacerdotal), foi o precursor de Jesus, o Cristo. As datas de seu nascimento e da inauguração de seu ministério público não podem ser determinadas com precisão. As sugestões variam de 8 a 4 A.C., quanto ao seu nascimento, e de 26 a 28 D.C., quanto ao início de seu ministério público. Lucas informa-nos que João Batista nasceu quando seus pais eram ambos de avançada idade. No evangelho de Lucas temos a bela visão de Zacarias, que mostrou que João seria um vaso especial para servir ao Senhor. Ele nasceu na região montanhosa da Judéia, – onde também passou os primeiros anos de sua vida. Isabel, sua mãe, era parenta (talvez prima) de Maria, mãe de Jesus. João vivia como um asceta, segundo se vê em Mat. 3:4. Vestia-se de maneira similar à de Elias (11 Reis 1:18).

    Alguns estudiosos pensam que João Batista era: a reencarnação de Elias; mas outros, mais acertadamente, dizem que ele meramente cumpriu um ministério como o de Elias. Ou alguém que ministrava no poder e espírito de Elias. João Batista era uma voz no deserto, que conclamava os homens ao  arrependimento, para que eles se voltassem para o Cristo, o Cordeiro de Deus (João 1:23,29). Foi o Batista quem preparou o núcleo inicial dos discípulos de Jesus, os quais, finalmente, se tornaram seus seguidores, quando chegou o tempo aprazado para isso.

    b. A Mensagem de João Batista. Essa mensagem tinha como ênfase principal a necessidade de arrependimento, a breve inauguração do Reino de Deus à face da terra, e o iminente aparecimento do Messias, que haveria de julgar, purificar e unificar o povo de Deus. João Batista identificou Jesus como o Messias prometido, embora pareça ter hesitado quanto a essa identificação, pelo menos durante algum tempo, quando, sofrendo no cárcere, e sob forte desapontamento, chegou a duvidar (Mar. 11:3).

    c. O Batismo de Jesus por João. Entre os que vieram receber o batismo de João, achava-se o próprio Jesus, que quis assim identificar-se com o grupo separado daqueles que buscavam fervorosamente o reino de Deus . Foi nessa oportunidade que João declarou enfaticamente que Jesus era o Messias. Ver Mat. 3: 13-15.

    d. Um Extenso Ministério. Sabemos que o ministério de João Batista não se confinou ao vale do Jordão, O trecho de João 3:23 mostra-nos que ele deixou aquele local e, por algum tempo, pregou batismo de arrependimento em Enom, perto de Salim, onde havia muita água para imergir os penitentes. W.F. Albright (The Archeology of Palestina) diz que esse lugar ficava a sudeste de Nablus, perto das cabeceiras do wadi Far’ah, em território samaritano. Depois disso, João retornou ao território governado por Herodes Ântipas, provavelmente a Peréia. Acabou despertando a hostilidade de Herodes Ântipas, e mais ainda de sua segunda esposa, Herodias, ao denunciar que o casamento deles era ilícito, porquanto ela era esposa de um irmão dele. Por esse motivo, João foi encarcerado na fortaleza de Maquero, na Peréia; e, poucos meses mais tarde, foi executado. Ver Mat. 14:1-12 quanto a essa narrativa.

    e. João Batista e os Essênios. Os eruditos comumente têm-feito a ligação entre João Batista e os essênios. Os seus hábitos ascéticos e os locais onde ele costumava pregar, perto de onde os membros daquela seita se localizavam, bem como as afinidades entre João Batista e os manuscritos do mar Morto, encontrados em Qumran, chegam quase a confirmar essa pura especulação. Um grupo de ascetas essênios residia na margem noroeste do mar Morto; e tanto João Batista como os membros dessa seita residiam no deserto da Judéia; ambos tinham um caráter nitidamente sacerdotal; ambos davam ênfase ao batismo em água como sinal de purificação interna; ambos ensinavam um iminente juizo divino; ambos apelavam para Isaias 40:3 como a autoridade para suas missões. Os eruditos, pois, até hoje continuam a debater essa possível conexão entre o Batista e os essênios. Mas, se porventura João em algum tempo fez parte do grupo, então é certo que ele ultrapassou em muito as limitações do ..,grupo e tornou-se líder de um movimento distinto. E mesmo possível que, bem antes de iniciar- seu ministério, o Batista tivesse tido ligações com eles; o fato, porém, é que o movimento de João Batista nada tinha a ver com os essênios. Em Qumran, o batismo era um rito de iniciação; mas João universalizou a imersão, tornando o sinal daquele movimento que em breve acolheria ao Messias. A mensagem do Batista dirigia-se à nação inteira de Israel. Ele não falava em nenhuma seita separatista e exclusivista. O batismo de João tornou-se uma espécie de ato escatológico, a declaração em favor da crença em um apocalipse que em breve se manifestaria.

    f. João, o Imersor, Tanto o Novo Testamento (no grego), quanto Josefo, chamam João Batista por esse nome. A imersão em água era um elemento essencial e básico em seu ministério. Essa imersão ou batismo era o sinal de arrependimento e de aceitação da mensagem de João como precursor do Messias. Preparava as pessoas para um discipulado sério e especial. Ver Josefo (Anti. 18.5,2).

    g.O Movimento de João Batista. João era homem dotado de grande poder e influência. Os evangelhos acharam por bem mostrar que ele mesmo não era o Messias, e que ele não tinha quaisquer ambições messiânicas. Ver João 1:19-28. E o trecho de Atos 18:25 mostra-nos que o movimento de João Batista teve prosseguimento mesmo após a formação da Igreja cristã. Ver também Atos 19:1-7. A obra intitulada Reconhecimentos Clementinos sugere que o movimento continuou e que chegou a entrar em conflito com grupos cristãos. Alguns estudiosos têmafirmado que a comunidade dos mandeanos  que até hoje sobrevive, teve suas origens nomovimento de João Batista; porém, nada de certo se pode afirmar quanto a esse respeito.

    h. Reconhecimentos Clementinos, Entre a literatura que alegadamente procedeu da pena de Clemente de Roma (embora isso não seja verdade), temos as Homilias que, presumivelmente, preservam os ensinos e os sermões de Clemente de Roma. Também existem dez livros chamados Reconhecimentos Clementinos. Esses volumes, alegadamente, oferecem-nos informes históricos associados a Clemente, com grande abundância de ensinamentos. Entretanto, ambas  essas obras parecem mais ter-se originado entre os gnósticos judeus, datando de algum periodo da porção final do século li D.C. Mas, embora esse material não seja genuinamente clementino, não há razão alguma para duvidarmos que contém alguns informes históricos genuínos, como aquele que diz que o movimento gerado por João Batista continuou até o fim do século II D.C.

    2. Família e Começo de Vida

    João Batista era filho do sacerdote Zacarias, que pertencia ao turno de Abias (I Cr(J. 24:10). Sua mãe, Isabel, também era de familia sacerdotal, pois é até chamada de «das filhas de Arão» (Luc. 1:5). Seu nascimento foi miraculoso, visto que ambos os seus pais eram de idade avançada. Ele nasceu na região montanhosa da Judéia. Maria, mãe de Jesus, foi visitar Isabel, e permaneceu com ela por cerca de três meses. Ver Luc. 1:56. Elas eram parentas (Luc. 1:36).

    Alguns estudiosos pensam que elas eram «primas», conforme a palavra grega correspondente é traduzida; mas outros preferem pensar que o termo grego sungenes não demarca nenhum grau especifico de parentesco, e que pode ser melhor traduzido por «parenta». Esse termo grego é tão indefinido que pode até significar «compatriota». Ver Josefo (Guerras 7.262; Anti. 12.338). Talvez Jesus e João Batista fossem primos em algum grau desconhecido. Praticamente

    nada sabemos acerca da vida de João Batista, antes dele dar inicio a seu ministério público.

    Sabemos somente que ele residia na região montanhosa da Judéia, embora a cidade onde ele residia não seja mencionada nas páginas do Novo Testamento. É evidente que ele vivia sob o voto dos nazireus (vide), permitindo que seus cabelos crescessem e não aparando os cantos da barba. Evitava todo vinho e toda bebida alcoólica, e vivia como asceta. Por isso mesmo, alguns eruditos têm pensado que, pelo menos em algum tempo, antes de iniciar seu ministério. ele

    se tenha associado com os essênios, que habitavam em comunidades separadas, no deserto. Porêm, não há provas conclusivas quanto a essa especulação. O trecho de Lucas 1:80 meramente diz-nos que João cresceu e se tornou forte, habitando no deserto, até o tempo de sua manifestação a Israel.

    3. Fontes  Informativas

    Nossas fontes informativas sobre a vida de João Batista são os quatro evangelhos e algumas poucas citações das obras de Josefo. Há outras alusões, nos ensinos mandeanos e no Josefo Eslavônico. Porém, os informes ali contidos, de acordo com os estudiosos, revestem-se de pouco valor histórico.

    4. Ministério e Mensagem de João Batista

    a. O Precursor de Cristo. A vida de João Batista visava a preencher um propósito todo especial, ou seja, o de ser o precursor do Messias. Tal como se dá no caso do próprio Senhor Jesus, pouco se sabe acerca. do período de preparação de João Batista. João Batista deu inicio ao seu ministério público poucos meses antes do Senhor Jesus iniciar seu próprio ministério. Tal como se deu com o Filho de Deus, João Batista dispunha de curtíssimo prazo para cumprir o seu ministério. Josefo afiança que João Batista era pessoa dotada de grande magnetismo pessoal e força de atração. A vida dele foi como Um brilhante meteoro que apareceu subitamente, brilhou durante um breve período, e desapareceu. Alguns chegaram a pensar que ele seria o Messias prometido, e o primeiro capítulo do evangelho de João cuida em mostrar que essa opinião estava equivocada, porquanto João Batista mesmo nunca fizera tal reivindicação. Todavia, a vida de João Batista foi de tal modo poderosa que outros identificaram-no com Elias. E, em certo sentido, estavam com a razão. Foi o próprio Senhor Jesus quem declarou: «E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir» (Mat. 11:14).

    b. João Batista Foi uma Figura Profética. Ele se assemelhava aos profetas do Antigo Testamento, sobretudo com Elias (ver Mat. 5:4 com 11 Reis 1:8 e Zac. 13:4). Os autores do Novo Testamento ensinaram que ele cumpriu a profecia de Isa. 40:3 (ver Mat. 3:3; 17:10-12; ver também Mal. 3:1 e 4:5).

    Como um homem do destino, João Batista coube dentro dos tempos do cumprimento de promessas messiânicas e, durante um tempo breve mas crucial realizou o seu ministério terreno. Embora fosse grande, do ponto de vista espiritual, é deveras significativo que Jesus tenha afirmado que o menor no Reino de Deus será maior do que ele (Mat. 11:11). Isso nos revela algo sobre a grandiosidade espiritual que o Reino de Deus haverá de trazer.

    c. Um Profeta Asceta. João pode ter vivido ou não sob os votos do nazireado . Seja como for, ele vivia de modo extremamente ascético, vestido, como Elias, com pêlos de camelo e comendo gafanhotos e mel silvestre, e falando acerca de acontecimentos apocalípticos e sobre a necessidade dos homens se arrependerem. Tudo, em João Batista, fazia lembrar Elias. e as multidões vinham ouvi-lo.

    d. Retirada e Reforma. Embora, a exemplo dos essênios, João Batista se tivesse retirado do convívio social, de forma alguma ele se distanciou da sociedade de seus dias. Sua missão consistia em anunciar as condições, àquela sociedade, mediante as quais os homens de então deveriam acolher o Messias e o seu reino. O Batista engolfou Samaria em seu ministério (João 3:23). Se é que João Batista começou entre os essênios (um ponto muito disputado), então, por certo, ele não se limitou a essa «denominação», visto que a sua mensagem profética era universal, e ele não pregava a uma claque fechada, conforme faziam os essênios.

    e. O Messias Anunciado por João Batista. O Novo Testamento deixa claro que João Batista esperava que o Messias estabelecesse o seu reino, pela força, se necessário, e que isso constituiria um acontecimento apocalíptico. De fato, João referia-se a esse advento com termos idênticos àqueles em que os pregadores modernos aludem ao Segundo Advento de Cristo. O Novo Testamento não tenta esconder que o Batista, em certa medida, ficou desapontado diante do modo como Jesus se apresentou publicamente. Jesus não reuniu algum exército, nem se mostrou militante. Ao que parecia, não foi ao menos capaz de proteger o seu homem-chave, ou seja, ao próprio João Batista. Os adversários de Jesus pareciam estar ganhando todas as vitórias. Verdadeiramente, do ângulo de João, as coisas não estavam avançando nada bem. Foi por essa razão que ele enviou mensageiros a Jesus, para que indagassem se ele era, veramente, o Messias, Aquele pelo qual ele, João Batista estava esperando. Ver Mat. f 1:2 ss . João ouvia falar sobre os grandes prodígios de Jesus; mas ali estava ele mesmo, no cárcere. Como poderia ser isso?

    A resposta de Jesus… dificilmente  poderia tê-lo satisfeito. Jesus não foi capaz de anunciar qualquer progresso na revolução! Não tinha reunido nenhum exército; não obtivera qualquer poder político; não havia um numeroso grupo de seguidores dispostos a combater por ele. Tudo quanto Jesus pôde dizer é que os cegos estavam recebendo de volta a visão, que os aleijados estavam andando novamente, que os leprosos estavam sendo purificados, que os surdos estavam ouvindo, que os mortos estavam sendo ressuscitados dos mortos, e que aos pobres estava sendo anunciado o evangelho. Dificilmente esse era o Messias pelo qual João estava esperando! Ou, pelo menos, muitos pensam assim a respeito de João. Não obstante, naquela mesma ocasião, Jesus afirmou que João estava cumprindo a predição de Mal. 3:1: «Eis que eu envio o meu mensageiro que preparará o caminho diante de mim… » Sim, o caminho fora preparado por João; mas o caminho não parecia ser aquele pelo qual João esperava. Não é que o Batista tivesse perdido a fé em sua missão, mas ficou muito desanimado, indagando se Jesus realmente cumpria os requisitos da missão messiânica. Os profetas do Antigo Testamento não sabiam separar a primeira da segunda vindas de Cristo. Pedro alude a isso em I Pedro 1: 11: «•• .investigando atentamente qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias que os seguiriam». Eles não entendiam que, na primeira vinda haveria os «sofrimentos» de Cristo, e que só em sua segunda vinda haverá as «glórias». Esse era o motivo da perplexidade de João Batista.

    f. O Mistério da Cegueira de Israel. Paulo falou, profundamente admirado, sobre essa cegueira, em Rom. 11:2S ss. Ele explicou que a cegueira de Israel era uma necessidade, a fim de que o evangelho pudesse ser anunciado às nações gentílicas também, para que houvesse uma Igreja formada por judeus e gentios, igualmente. Mas, chegado o tempo certo, e removido o véu que agora tapa os olhos do povo judeu, eles haverão de reconhecer que o Senhor Jesus é o Messias prometido. Não obstante, Israel é responsável pelos seus atos. O poder predestinador do Senhor usa a vontade humana sem destrui-la, embora não saibamos precisar como. O décimo primeiro capítulo de Mateus mostra como a mensagem de João Batista e de Jesus caíram em ouvidos surdos, como eles tocaram para o povo, mas eles não dançaram; como eles lamentaram, mas o povo não chorou. João veio como um asceta; mas Jesus, ao contrário, não era asceta. Todavia, nem João Batista e nem Jesus tinham sido devidamente ouvidos. O povo judeu permaneceu na indiferença (Mat, 11:16-19). Nem mesmo os poderosos prodígios de Jesus levaram o povo judeu a arrepender-se (vs, 20 ss). No entanto, um pequeno remanescente acreditou, mediante o poder de Deus; e a esses foram revelados os mistérios do reino de Deus (vs. 25 ss). Ê significativo que dentre esse contexto de rejeição, emergiu aquele belo convite de Jesus, por tantas vezes citado: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. (Mateus 11:28,29).

    g. O Batismo de João. Sem dúvida a imersão aplicada por João Batista era muito mais que algum rito de iniciação, a fim de que membros fossem aceitos em alguma seita (como era o caso entre os essênios), Antes, era um sinal de conversão a Deus, um sinal requerido de que uma pessoa havia abandonado seus antigos caminhos pecaminosos, em preparação .para acolher ao Messias e ao seu reino. Todavia, o batismo de João não era um batismo cristão, com todo o seu simbolismo e significado. Para tanto, era mister que Jesus morresse e ressuscitasse. Mas, à semelhança do batismo cristão, apontava para o arrependimento, a renovação espiritual e a resolução de viver a vida de um piedoso discípulo da retidão. Também havia um intuito messiânico, pelo que estava aliado bem de perto com a fé cristã, que em breve Jesus haveria de trazer. Supomos que aqueles que foram batizados por João, ao se unirem ao movimento cristão, não eram rebatizados. No entanto, houve casos de pessoas, inteiramente ignorantes sobre Cristo e suas reivindicações, que, embora tivessem sido discípulos de João Batista, mais tarde foram novamente batizadas (ver Atos 19:1 ss). Os judeus costumavam batizar os gentios que se convertessem ao judaísmo, imergindo-Ihes totalmente o corpo, o que representava uma completa purificação. Não há que duvidar que esse precedente foi o que determinou o espírito e o modo da imersão aplicada pelo Batista. O evangelho de João destaca o ponto que .João batizava em Enom, perto de Salim. porque ali . havia muita água. Teria sido inteiramente fora de ordem, do ponto de vista dos judeus, se João se pusesse à beira de um rio, com algum candidato ao batismo, para então apanhar uma pequena quantidade de água e a derramar sobre a cabeça do candidato. Isso não seria imersão, mas aspersão.

    A seita de Qumnm (ver Sobre Khlrbet Qamran) praticava um batismo de arrependimento que assinalava os novos convertidos ao seu grupo, permitindo-lhes o ingresso na seita. Porém, isso era meramente uma adaptação da imersão de prosélitos ao judaísmo. O Manual de Disciplina, em seu quinto capítulo, descreve o batismo praticado entre os essênios. Se João Batista estivera, em algum tempo, associado aos essênios, então, naturalmente, teria continuado a prática de batismo, mas o batismo dos essênios não era o verdadeiro precedente de seu batismo, que ia buscar raízes ainda mais longe na história do povo judeu.

    5.Elias Redivivo

    Era doutrina comum entre os judeus do começo do cristianismo que grandes personagens proféticas do Antigo Testamento, teriam mais de uma missão espiritual terrena. Muitos rabinos pensavam que Jeremias fosse a reencarnação de Moisés. E eles esperavam que Elias voltasse a viver como o precursor do Messias. E do próprio Senhor Jesus chegaram a pensar que ele fosse Jeremias ou algum dos antigos profetas. Ver Mat. 16:14. E os discípulos de Jesus tinham consciência da tradição, promovida pelos fariseus, de que Elias deveria retomar à vida, antes da carreira do Messias, envolvendo-se no drama de sua aparição (Mat. 17:10 ss). Jesus, chegado o momento certo, ensinou que Elias já viera a este mundo, na pessoa de João Batista. Alguns intérpretes crêem que João Batista foi uma autêntica reencarnação de Elias; mas outros crêem que o Batista cumpriu o espirito daquela profecia, mas que ele não era o próprio Elias. João Batista declarou que ele mesmo não e-ra Elias (João 1:21). Porém, aqueles que acreditam que João Batista era. realmente, a reencarnação de Elias, salientam que a pessoa reencarnada (com algumas notáveis exceções) usualmente não tem consciência de sua anterior identidade (ou identidades). Eu mesmo não penso que podemos eliminar essa possibilidade sobre bases dogmáticas. Pois o próprio Novo Testamento ensina casos especiais de. reencarnação, com vistas a missões terrenas especiais. As duas testemunhas do Apocalipse (cap, 11) aparecem como quem já tinha outras histórias terrenas. – O anticristo, segundo se lê em Apo. 17:8,11, haverá de subir do hades a fim de cumprir ainda uma outra missão diabólica. Os cristãos antigos pensavam que o anticristo seria Nero redivivo. E muitos crentes ensinam, até hoje, que Elias terá uma outra missão na terra, antes do segundo advento de Cristo.

    João foi cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento (Luc. 1:15).

    Os autores neotestamentários também fazem de João uma figura profética, especificamente como o precursor do Messias. Ê muito significativo, e sem dúvida autêntico, que João, de certa feita, em um momento de desencorajamento, em seu cárcere, duvidou que Jesus teria cumprido os requisitos da missão messiânica, pela qual ele vinha procurando (Mat. 11:2 ss). Porém, não há razão alguma para supormos daí que nunca houve qualquer reversão nessa dúvida de João. Todos nós experimentamos instantes de dúvida e desencorajamento; e João Batista, afinal de contas, era apenas um homem. Seja como for, é significativo que João Batista e Jesus efetuaram ministérios paralelos, embora distintamente separados. Nunca houve uma completa unificação dos dois esforços, mesmo depois que o cristianismo já estava bem firmado. Porém, sabemos, com base nos registros históricos, que muitos seguidores de João Batista bandearam-se para Jesus, e que o próprio João encorajou isso. Tanto Jesus quanto João reivindicavam autoridade divina para suas respectivas missões, e afirmavam outro tanto um acerca do outro (Mat. 21:23-27).

    6. João Batista e Jesus

    Sabe-se que alguns dos primeiros discipulos de Jesus vieram do círculo dos discípulos do Batista (João 1:35 ss), embora o movimento resultante da missão de João Batista tivesse continuado por muito tempo depois dos primórdios do cristianismo. Alguns estudiosos crêem que tanto João Batista quanto Jesus
    estiveram ligados aos essênios, pelo que teriam conexão e amizade antes do ministério público de um e de outro. Como primos em algum grau. também
    pode ter havido alguma forma de contato doméstico social entre eles, antes de iniciarem seus respectivos ministérios públicos. A história tem ocultado essas
    coisas de nós;

    7. Seguidores de João Batista

    a.. João tinha seguidores que formavam um movimento espiritual crescente, antes mesmo do começo do ministério público de Jesus. O primeiro capítulo do evangelho de João mostra-nos isso.

    b. Quando Jesus iniciou o seu ministério público, pelo menos alguns dos principais discípulos de João vieram engrossar o movimento encabeçado por Jesus (João 1:35 ss).

    c. O movimento liderado por João continuou, paralelo ao de Jesus, havendo pontos de contato entre os dois movimentos (Mat. 11:2 ss).

    d. O movimento de João Batista continuou atuante, mesmo depois da morte dele, e entrou até bem dentro da era apostólica. Apolo fora discípulo de João Batista (Atos 18:24 ss). Outros discípulos de João converteram-se ao cristianismo, e assim uniram-se à Igreja primitiva (Atos 19:1-7).

    e. Os Reconhecimentos Clementinos (fim do século 11 D.e.) dão provas de algum conflito entre os posteriores seguidores de João Batista e o cristianismo. Todavia, que certeza se ‘poderia ter se as pessoas que continuaram o movimento Batista eram fiéis às suas idéias? João pode ter sido para elas uma espécie de santo patrono, e não uma figura histórica do movimento deles.

    8- Morte de João Batista

    O relato da morte do Batista é contado em Mar.6:17-29. Essa é a única crônica importante dos evangelhos que não gira especificamente em torno de Jesus. E isso mostra a importância que João Batista tinha para o cristianismo primitivo. E perfeitamente possível que o episódio tenha sido preservado tanto pelos discípulos de Jesus quanto pelos discípulos de João. Josefo fornece-nos outros detalhes sobre a questão, conforme observou-se acima. João, sem dúvida, foi tido como uma ameaça política para a autoridade de Herodes. A execução de João Batista, por ordem de Herodes, não se deveu meramente ao fato de que João objetava ao casamento de Herodes com sua própria cunhada, Herodias. Herodes havia encarcerado João no castelo de Marquero, na margem oriental do mar Morto. Foi então que João mandou indagar a Jesus acerca de suas reivindicações messiânicas (Mat. 11). Herodias, amargurada contra João, por achar que este interferia em sua vida particular, foi a mola que levou Herodes a mandar executar o Batista e, sem dúvida, ela ficou muito satisfeita em ver-se livre daquele empecilho. Herodes, por sua vez, sabia que João era homem reto (Mar. 6:20). Não fizera ainda qualquer violência contra ele, por saber que ele era tão estimado pelo povo comum, e não queria se arriscar a provocar qualquer revolta popular (Mar. 6:20). Porém, Herodias acabou ganhando a parada; e podemos ter a certeza de que Herodes não tentou entravar a vontade dela. Herodias exigiu a cabeça de João Batista como prêmio pela dança tão aplaudida de sua filha. A jovem muito agradara a Herodes e aos convivas meio a1coolizados, que participavam de sua festa de aniversário natalício. Herodes mandou um executor cortar a cabeça de João Batista. E a cabeça de João foi exposta ao público. Quando os discípulos de João souberam o que havia acontecido, obtiveram o seu cadáver e o sepultaram. Em seguida, foram informar Jesus e seus discípulos sobre o que acontecera (Mat, 14:3-12; Mar. 6:17-29). E a noticia teve um profundo efeito sobre o Senhor Jesus. Ao ouvir sobre o acontecido, ele se retirou para a Galiléia, talvez sentindo o perigo contra si mesmo e contra os seus discípulos (Mat. 4: 12). E, sabedor da execução de João, retirou-se para um lugar solitário (Mat. 14:3), sem dúvida a fim de orar e meditar, para meditar  sobre o que faria em seguida, sob aquelas novas circunstancias.

     

    Bibliografia: AM GEY KR KU ND RO(1912) UN.

     

     

     

     

  • Lição 3 – A ignorância de uma geração

    Texto Áureo

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    “E foi também congregada toda aquela geração a seus pais, e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco a obra que fizera a Israel”. Jz 2.10

    Verdade Aplicada

    Toda a geração que desprezar o ensino da vontade do Senhor estará escravizada por uma su­til vã maneira de viver, ficando a mercê do servilismo alheio como aconteceu aos filhos de Israel.

    ISRAEL NO PERÍODO DOS JUÍZES

    Introdução ao período (2:6 – 3:6)

    2:6-10. A morte de Josué. Estes versículos têm seu paralelo em Josué 24:28-31, o que vem fortalecer a opinião, de que 1:1-2:5 provém de fonte separada, que possivelmente foi uti­lizada pelo editor original como pano de fundo da principal porção deste livro. Esta seção, em Josué, conclui o livro, como também o relato da conquista; aqui, porém, esse material introduz o período dos juízes. Todas as pequenas diferenças são explicáveis mantendo-se este fato em mente. Por exemplo, no vers. 7, o adjetivo grandes qualifica as grandes obras feitas pelo Senhor, mas isto não é encontrado em Josué 24:31. A adição é significativa, visto que a apostasia do período dos juízes e muito mais repreensível quando vista através das grandes obras feitas pelo Senhor. Grandes privilégios envolvem grandes responsabilidades.

    O versículo 6 nos ajuda a entender a natureza da conquista. As campanhas unificadas sob o comando de Josué haviam quebrado a coluna dorsal da resistência cananéia, contudo, grande parte da obra de con­quista local havia sido atribuída às tribos individuais. Desse modo, após a cerimônia da renovação da aliança, em Siquém, as tribos des­pedidas por Josué trataram de completar a ocupação dos territórios que lhes haviam sido alocados. Josué 23, que data do período quando Josué era “já velho e entrado em dias” isto é, aproximadamente do mesmo período do capítulo 24, torna claro que as tribos tinham muita batalha pela frente, batalha ferrenha, antes que se pudesse dizer que a terra havia sido conquistada. Alguns problemas associados com a conquista tornam-se menos difíceis quando se mantém em mente que houve estas duas fases.

    Revela-se a influência de Josué na lealdade de Israel ao Senhor durante sua vida, bem como dos anciões ligados a ele. No registro bíblico dá-se ênfase às virtudes e façanhas militares de Josué. Sublinhando tudo isto, contudo, havia obviamente a profunda lealdade ao Senhor, e a integridade de conduta parecida com a de seu grande antecessor, Moisés. Josué, bem como todos os verdadeiros homens de Deus, de todas as eras, constituem o sal da terra, que evita a corrup­ção e assegura a pureza. Mas, cada nova geração deve empenhar-se em sua própria experiência religiosa; não pode continuar na força espiritual de seus heróis do passado. É bem claro que o paganismo nunca esteve longe do povo de Deus durante este período primitivo da história de Israel; e quando Josué e seus companheiros morreram, a nova geração não partilhou de sua fé, nem de sua lembrança dos grandes livramentos que Deus lhes trouxera (2:10).

    Na introdução, sugere-se que o período de Josué e dos anciões que lhe sobreviveram foi de 30 anos. Isto deve ser considerado como mínimo, porque Josué, que morreu aos 110 anos de idade, era jovem à época do êxodo (cf. Êx 33:11). Ele é descrito, aqui, como servo do Senhor (8), designação frequentemente atribuída a Moisés e aplicada, também, a outros importantes líderes da história de Israel, como Davi e os profetas. Implica em vocação para uma missão especial. Não há posição mais elevada, nem mais honrosa, do que a de fiel servo do Senhor (cf. Hb 3:5). Timnate-Heres (9) deve-se ler “Timnate-Sera”, como em Josué 19:50; 24:30; algum escriba obviamente inverteu as consoantes (no hebraico). O local do sepultamento de Josué foi iden­tificado com razoável segurança como sendo a moderna Tibne, a 16 quilômetros a noroeste de Betel.

    2:11-19. O julgamento de Deus sobre a apostasia de Israel. Sumariza-se aqui a história de quase dois séculos, indicando os princípios que regem o relacionamento de Deus com Israel. Durante este pe­ríodo houve um ciclo repetitivo de quatro fases: apostasia, servidão, súplica e livramento. Este é o padrão ilustrado nos capítulos seguin­tes. A nação abandonou o Senhor, crime que envolvia a deslealdade a seus antepassados e esquecimento voluntário das poderosas obras que o Senhor realizara em seu benefício, especialmente o livramento do Egito. Todas as comprovações de suas tradições deveriam ter asse­gurado a fidelidade do povo, mas, ao contrário, voltaram-se para os deuses dos povos no meio dos quais haviam chegado, cuja religião parecia estar mais diretamente voltada para a prosperidade do povo.

    13. Baal filho de El, no panteão cananeu, era o deus das tempestades e das chuvas, sendo, portanto, o controlador da vegetação. Ele era o grande deus ativo, sendo El uma figura um tanto nebulosa; o culto a Baal era largamente difundido no Antigo Oriente Próximo. Notam-se algumas variantes no Velho Testamento como, por exemplo, Baal-Berite (Jz 9:4), Baal-Peor (Nm 25:3), Baal-Gade (Js 11:17), e Baal-Zebube, ou mais provavelmente Baal-Zebul (2 Rs 1:2). Jezabel intro­duziu em Israel o culto a Baal-Melcarte, a variedade fenícia. Hadade era o nome sírio correspondente ao Baal cananita. É por essa razão que os escritores do Velho Testamento agrupam as várias entidades de Baal, um tanto desdenhosamente, sob o nome de Baalim, a forma do plural. O fato de que Baalim também pode significar “maridos”, “proprietários” ou “senhores” dá mais vida à metáfora do adultério (cf. vers. 17), empregada tão frequentemente pelos profetas (por ex.: Os 2:1ss.; 3:1s.; Jr 3:6ss., etc.).

    Astarote, consorte de Baal, é a forma do plural de Astarte, deusa da guerra e da fertilidade, que era adorada como Istar, na Babilônia, e como Anate, no norte da Síria. Nos textos ugaríticos, Anate, com frequência denominada de “virgem”, é irmã de Baal, e grande deusa ativa. Há uma certa fluidez no inter-relacionamento entre os deuses da natureza no Crescente Fértil. A religião destes deuses da fertili­dade era acompanhada por todos os tipos de práticas lascivas, espe­cialmente em Canaã, onde tal religião era tão degradada que incor­porava até sacrifícios de crianças.

    14, 15. O fracasso de Israel em exterminar os cananeus automatica­mente redundou na adoração contínua aos seus deuses. Assim, a na­ção que havia derrotado os soldados da terra, em batalha, sucumbiu às influências débeis dos deuses da terra. O historiador, entretanto, estava profundamente cônscio de que os deuses da terra não tinham existência real, exceto na imaginação de seus adoradores. Só Deus era deus, cuja tristeza soberana diante da infidelidade de Israel era demonstrada na maneira como usava as nações circunvizinhas como vara de punição para Seu próprio povo. Israel era oprimido, escra­vizado e enfraquecido e, mediante a operação da lei de causa e efeito (a exaustão de sua força espiritual pelo culto sensual a Baal se fazia acompanhar de um declínio correspondente em sua vitalidade física e moral), a nação afundava em profunda angústia. O abandono do Senhor da parte deles teve outra consequência: visto que os laços que uniam a nação eram, primordialmente, laços religiosos, derivados da aliança e expressos na adoração no santuário anfictiônico, o enfraque­cimento desses laços conduziu ao enfraquecimento de sua unidade na­cional, ficando o povo desorganizado e dividido.

    16. Não há menção categórica, aqui, de que em sua angústia, os israe­litas se voltaram para o Deus a quem haviam abandonado. Contudo, a regularidade com que isto é observado subsequentemente (3:9, etc.), permite-nos presumir que aqui houve esta volta. Quando a nação clamava ao Senhor, Ele, em Sua misericórdia e magnanimidade, levan­tava juízes para libertá-los de seus opressores. Já observamos que estes homens eram considerados como tendo recebido poderes sobrenaturais da parte de Deus, os quais eram manifestos no livramento do povo e subsequente governo que estabeleciam. Contu­do, até mesmo a influência desses juízes era de pouca duração. Os israelitas tinham memória curta e, quando a crise era debelada, esque­ciam-se tanto da miséria anterior como do estado de arrependimento temporário a que tinham sido induzidos por ela. A “volta ao Senhor” era, pois, um expediente superficial. É possível que todos nos lem­bremos de algo semelhante em nossa própria época, quer na vida da nação (lembremo-nos dos dias de oração nacional, durante as guerras mundiais deste século), quer em nossa própria vida pessoal. Como é fácil usar-se o Deus Todo-Poderoso como se fora corpo de bom­beiros, ou pronto-socorro! A gratidão pelo livramento, tanto do antigo Israel como do Israel espiritual de hoje, deve expressar-se em dedica­ção permanente da vida (cf. Rm 12:1 ss.).

    17. Havia obediência imperfeita até mesmo nos dias dos próprios juízes, atitude esta denominada adultério espiritual: “. . . antes se pros­tituíram após outros deuses, e os adoraram.” Israel, chamado para ser a noiva do Senhor, abandonou-O para seguir seus amantes, isto é, os deuses da fertilidade de Canaã. Esta vivida ilustração da aliança violada do casamento provê o pano de fundo para o livro inteiro do profeta do oitavo século, a Israel, Oséias, e é aplicada por Jeremias, também, quanto à situação desesperadora de Judá, um século e meio mais tarde (Jr 3:1ss.).

    18. Revela-se uma deterioração progressiva, em que cada ciclo suces­sivo se caracteriza por uma caída mais profunda na apostasia e cor­rupção, e por um arrependimento mais superficial do que no ciclo anterior. Tal processo está em harmonia consistente com nossa com­preensão moderna da psicologia do homem. A terminologia muda com o passar dos anos, contudo, os vislumbres profundos do interior da natureza humana, que o Velho Testamento nos proporciona, não podem ser negados. A voz da consciência pode ser abafada pelos su­cessivos atos pecaminosos, e o arrependimento pode tornar-se mais e mais superficial, até a pessoa ver-se enredada por um mau caráter, formado por uma enormidade de maus pensamentos e más ações, de tal forma que é necessário um milagre, para produzir-se um arrepen­dimento genuíno, e uma busca verdadeiramente sincera do Senhor, de todo o coração.

    2:20-23. Os resultados da apostasia contínua. A obrigação de Israel, dentro da aliança sinaítica, era a de prestar lealdade e obediência cegas ao Senhor, que havia feito maravilhas pelo Seu povo. Isto jamais poderia ser considerado oneroso, em vista de seu relacionamento singular com seu Deus-Salvador (Dt 4:32-40), que havia cumprido Sua parte do contrato, ao cumprir a promessa feita aos patriarcas com respeito à Terra Prometida. A desobediência de Israel, contudo, foi seguida pela inevitável punição divina. Para o leitor moderno pode parecer um tanto incongruente que Deus deixasse os povos estrangei­ros dentro das fronteiras de Israel, como punição pela apostasia, e para testar a fidelidade futura da nação, quando a razão mesma do fracasso da nação é atribuída à incapacidade de Israel em eliminar esta população alienígena.

    Esta dificuldade não existia para o historiador israelita, cuja visão da soberania do Senhor governava todas as causas secundárias, estan­do tudo subordinado, e atribuído, diretamente à Sua vontade determinadora. Na situação que mudara, por causa da desobediência de Israel, manifesta-se, ainda, esta soberania: Permitiu-se aos cananeus que permanecessem, a fim de que se testasse de modo adequado a lealdade do povo da aliança. Este foi um exame profundo em que a nação, em geral, não conseguiu aprovação.

    3:1-6, Israel e seus vizinhos. Introduz-se, aqui, mais uma razão suplementar para a presença de consideráveis elementos estrangeiros. Não era apenas uma punição, nem apenas uma oportunidade de testar a fidelidade da nação; eles ali estavam para prover ao povo de Deus experiência na arte marcial. Estas razões não devem ser consideradas como contraditórias entre si, visto que o que ocupava a atenção do historiador sacro era o resultado global, relacionado diretamente ao Senhor, ao invés de um propósito único, dominante de tudo. Israel deveria viver num ambiente hostil, na maior parte de sua história, devido às pressões dos pequenos reinados ao redor ou, num estágio posterior, devido à sua posição estratégica entre os sucessivos poderes mundiais da Assíria, da Babilônia, da Pérsia e da Grécia, de um lado, e do Egito, do outro. O poderio militar era uma necessidade, um objetivo a ser atingido, humanamente falando, se Israel pretendesse sobreviver. Entretanto, a consecução deste poderio militar apenas ra­ramente obscureceu o fato de que a vitória não foi o resultado da força de Israel, mas da obra de Deus a seu favor (por, ex.: 2 Sm 8:6, 14).

    É provável que o historiador original incluiu as listas dos ver s. 3 e 5, O primeiro relaciona quatro nações, enquanto este último re­laciona seis, sendo os cananeus e heveus comuns a ambos, o que sugere que as duas fontes estavam disponíveis ao redator sacro, que não as comparou. Os filisteus estavam estabelecidos em seu estado composto de cinco cidades: Gaza, Ascalom, Asdode, Ecrom e Gate. A seus governadores se dá sempre a designação de seren (senhor), palavra provavelmente relacionada com o grego koiranos, ou tyrannos, o fami­liar tirano da história grega clássica. Já observamos que a ascendên­cia dos filisteus provém da região do mar Egeu. O termo cananeu às vezes designa todos os habitantes originais daquela terra, às vezes aqueles que habitavam nos vales e áreas costeiras. Os sidônios eram cananeus que habitavam a área ao redor de Sidom. Seriam chamados de fenícios, posteriormente. Sidom, nesta época primitiva, tinha maior importância do que Tiro. Os heveus usualmente são identificados com os horeus (Gn 36:2; cf. 36:20, 29), os quais estabeleceram o flores­cente reinado de Mitanni, na Mesopotâmia Superior, na metade do segundo milênio a.C., invadiram terras na direção do sudoeste, até as cordilheiras do Hermom e do Líbano, e até a tetrápolis dos gibeonitas, a noroeste de Jerusalém (Js 9:7, 17). Foram feitas duas sugestões com respeito à entrada de Hamate. Poderia significar o ponto de aces­so entre as montanhas do Líbano ao grande vale sírio, no qual Ha­mate fica, ou, como sugerem alguns eruditos contemporâneos, “Labo de Hamate”, a moderna Lebwe, a 23 quilômetros ao norte-nordeste de Baalbek. Uma identificação menos viável relaciona os heveus com a palavra hebraica para “vila de tendas”, para considerá-los uma comunidade rural. Rodeado por todos estes ele­mentos diversos, Israel seria incapaz de manter sua pureza de raça e de religião; ao invés de permanecer fiel ao Senhor, houve uma rá­pida aceitação dos deuses da natureza, daquela terra, e aceitação também das práticas corruptas a eles associadas. As resoluções e de­clarações de lealdade da parte de Israel para com seu Deus da aliança, desapareciam rapidamente sempre que confrontadas com as forças do erro e da atração sensual.

    Bibliografia A. E. Cundall

  • Lição 2 – A importância do ensino cristão

    Lição 2 – A importância do ensino cristão

    ensino cristão

    Texto Áureo

    “Estes, pois, são os mandamen­tos, os estatutos e os juízos que mandou o Senhor, vosso Deus, para se vos ensinar, para que os fizésseis na terra a que passais a possuir”. Dt 6.1

    Verdade Aplicada

    A educação cristã deve promo­ver entusiasmo, ânimo e vida cristã em abundância.

    Objetivos da Lição

    • Mostrar que não existe genu­íno cristianismo senão através do ensino prático de Jesus Cristo;
    • Indicar quais as esferas em que o ensino cristão deve ser aplicado;
    • Revelar a necessidade de desenvolvermos um caráter, à semelhança de Jesus mediante o ensino.

    Textos de Referência

    Dt 6.6        E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração;

    Dt 6.7        e as intimarás a teus filhos e delas falarás assen­tado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te.

    Dt 6.8        Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por testeiras entre os teus olhos.

    Dt 6.9        E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas.

    Javé é nosso Deus, Javé é Único (6:4-9)

    Este grande livro prossegue agora para dar expressão ao que era o coração da confissão israelita, ou seja, que Javé não era um panteão de deuses, mas Único. Devia, portanto, ser o objeto único da fé e obediência de Israel. A nação não deveria esquecer Javé nem dividir sua lealdade entre outros deuses nos dias de prosperidade. Além do mais, deveria assegurar a continuidade de tal lealdade e da fé revelada na aliança através do ensino diligente às crianças.

    4. Ouve Israel. Israel é convidado a responder a Javé com a mesma plenitude de amor demonstrada por Javé em favor de Seu povo. No Novo Testamento o versículo 5 é apresentado por Jesus como o primeiro e grande mandamento (Mt 22: 36-38. Cf. Mc 12: 29-34; Lc 10: 27, 28). Esta breve passagem (4-9) tem sido conhecida pelos judeus durante sécu­los como o Shema (sema’, ouve em hebraico) e é recitada junto com Deuteronômio 11: 13-21 e Números 15: 37-41 como oração diária. A refe­rência à colocação das leis de Deus como frontal entre os olhos é comen­tada em 6: 8. A prescrição do versículo 4 tem sido considerada como uma maneira positiva de enunciar as ordens negativas dos dois primeiros man­damentos do Decálogo (5: 7-10). Esta confissão central da fé israelita consiste de apenas quatro palavras, Javé, nosso Deus, Javé, Um (A doutrina cristã da Trindade não contradiz este texto, embora envolva uma compreensão diferente do conceito de trindade na Pessoa Divina.). A ex­pressão tem sido entendida de várias maneiras. Traduções possíveis são: Javé nosso Deus, Javé é um”, “Javé é nosso Deus, Javé é um”, “Javé é nosso Deus, Javé somente”. Seja qual for a tradução escolhida, o signi­ficado essencial é claro. Javé deveria ser o único objeto da adoração, lealdade e amor de Israel. A palavra “um” ou “Único” implica em monoteísmo, mesmo que não o afirme com todas as sutilezas da formulação teoló­gica. O monoteísmo bíblico tinha uma expressão prática e existencial que levaria ao abandono de pontos de vista como a monolatria. Mesmo que alguém em Israel admitisse a existência de outros deuses, a afirmação de que somente Javé era Soberano e único objeto da obediência de Israel fazia soar o toque fúnebre para quaisquer posições inferiores ao monoteísmo.

    5. Amarás a Javé teu Deus. A obediência de Israel não deveria sur­gir de um legalismo estéril baseado na necessidade e no dever. Deveria surgir de um relacionamento baseado em amor. É interessante notar que em alguns tratados de suserania uma palavra semelhante é usada para expressar o relacionamento entre o vassalo e seu suserano. O equivalente hebraico deste uso da palavra “amar” ocorre em 1 Reis 5: 1, onde a SBB traduz “Hiram sempre fora amigo de Davi”. Mesmo em tratados se­culares sentia-se a necessidade de um relacionamento mais profundo que o meramente legal. O termo bíblico “amar”, entretanto, tem uma cono­tação muito mais profunda. Oséias usa o verbo para expressar a afeição de Javé por Israel, fazendo uso de poderosas metáforas, extraídas da vi­da doméstica, do relacionamento entre marido e esposa (Os 3: 1) e do relacionamento entre pai e filho (Os 11:1). A extensão do amor do ho­mem a Deus deveria ser total. Israel deveria amar a Deus com todo o seu ser. A expressão de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força é uma das favoritas em Deuteronômio (4: 29; 10: 12; 11: 13; 13: 3; 26: 16; 30: 2, 6, 10), e nos oferece uma percepção parcial da anti­ga psicologia hebraica. O coração era considerado a sede da mente e da vontade bem como de uma vasta gama de emoções. O termo alma é de difícil definição, mas parece ser referir à fonte de vida e vitalidade, ou mesmo do próprio “ser”. Em Gênesis 2: 7 e 19 homens e animais são apresentados como “seres” viventes. * Os dois termos, coração e alma en­tre si indicam que o homem deve amar a Deus sem qualquer reserva em sua devoção. Para dar mais força à ordem, uma terceira expressão é acres­centada, de toda a tua força.

    6. A necessidade de ter a lei de Deus no teu coração ao invés de em simples tábuas de pedra é aqui apresentada (çf 11: 18; Jr 31: 33). A comparação com o Novo Testamento é interessante. O teste do amor de um indivíduo ao Senhor Jesus Cristo é a observância de Seus mandamen­tos; “aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” (Jo 14: 21; cf 1 Jo 5: 2). Tais passagens mostram que a obediência ao mandamento é um subproduto do amor. À objeção de que o amor não pode ser ordenado (5) mas tem que ser espontâneo, deve-se dar a res­posta de que o amor flui da gratidão e da devoção. Amor é uma expressão de lealdade. O homem que ama alegremente ama com todo o seu ser. A presente injunção foi feita para deixar claro a Israel qual era o caráter de seu relacionamento com Javé, seu Senhor. Qualquer coisa menos que ab­soluta devoção e lealdade levaria a uma lealdade dividida, que teria sido impossível. A ordem do amor não pode ser interpretada como prova de que o amor seja menos que espontâneo, mas como prova de que apenas um amor que não é dividido pode ser chamado amor em seu sentido mais verdadeiro.

    7-9. Quando um homem ama a Deus de maneira total, obedece alegremente às Suas palavras que estão gravadas no coração. A exigência do amor a Deus implica em todas as outras, e a disposição de amar a Deus abrange tanto a disposição de obedecer os Seus mandamentos quanto a disposição de comunicar tais mandamentos às gerações seguintes, de mo­do a preservar uma atitude de amor e obediência entre o povo de Deus em todas as épocas (7a, 20ss.). O livro de Deuteronômio dá importância es­pecial à tarefa de ensinar a família (4: 9b; 6: 20-25; 11: 19). As exigên­cias da aliança de Javé devem ser o assunto da conversa a todo o tempo, em casa, no caminho, de noite e de dia. Israel deve ensiná-las diligente­mente, falar delas constantemente, atá-las como sinal em várias partes do corpo, e escrevê-las. O amor de Deus e as exigências de Sua aliança deve­riam ser o interesse central e absorvente de toda a vida do homem.

    8,9. O que fora originariamente dado como uma metáfora tor­nou-se, mais tarde, para os judeus, uma ordem literal. Esta passagem, juntamente com Deuteronômio 11: 13-21 e Êxodo 13: 1-10, 11-16, era escri­ta em pequenos rolos colocados em pequenos invólucros de couro atados à testa e ao braço esquerdo quando o Shema era recitado. A origem dos filactérios (cf. Mt 23: 5) se encontra neste literalismo. Os filactérios eram usados por todos os judeus homens durante o período da ora­ção matutina, exceto aos sábados e dias de festa, que já eram sinais em si mesmos. Posteriormente, outra prática se desenvolveu, a de colocar estas quatro passagens em pequenos recipientes que eram afixados no portal de entrada da casa (a mezüzâ). Cópias antigas de tais documentos foram encontradas nas cavernas de Qumran e em outros lugares. É óbvio que tais práticas devem ter tido significado profundo para algumas pessoas. As breves passagens da Escritura eram “sinais” que representavam todo o conteúdo da lei, que deveria ser ensinado e observado. Quando, porém a prática se reduziu a mero legalismo, o espírito da antiga ordem foi destruí­do. O que movia homens à obediência era o amor de Deus e a lembran­ça de Suas misericórdias passadas. Tais sinais já eram suficientes em si mesmos, sem quaisquer lembretes físicos. A recordação dos atos salva­dores de Deus e a declaração das exigências de Sua aliança seriam suficien­tes para manter vivas a fé e a lealdade.

    A importância de recordar (6:10-25).

    Na fé bíblica a recordação das misericórdias e atos de libertação passados efetuados por Deus é fundamental. Na hora da prosperidade, ou em ocasiões em que tudo vai bem, os homens esquecem a Deus e podem até mesmo abandonar sua lealdade a Javé. Dois aspectos da importância do recordar são agora levantados. Em primeiro lugar há uma declaração negativa: os israelitas são exortados a não esquecer (10-19). Em segun­do lugar, Israel é desafiado a transmitir a seus filhos os grandes fatos da libertação do Egito.

    O perigo do esquecimento (6: 10-19).

    10-13. Em várias passa­gens de Deuteronômio enfatiza-se o fato de que uma civilização agrária estabelecida aguardava Israel quando de sua chegada à terra prometida. Tudo aquilo seria seu sem qualquer esforço de sua parte. Numa terra de pouca irrigação natural, com uma longa estação seca, as reservas de água eram essenciais à vida. Israel, entretanto, já encontraria cisternas cavadas, vinhas e olivais florescendo, cidades e casas construídas, tudo esperando apenas que os israelitas viessem tomar posse (cf 8:7-11; 11: 13-17; 26: 10; 32: 14). Devotar-se a tais tesouros terrenos e esquecer que eram a dádiva do amor de Deus e o cumprimento de Sua promessa aos patriarcas (10) era uma forte tentação para os israelitas. Por isso, Israel não deveria esquecer Javé e seus grandes atos de livramento que haviam resgatado seus antepassados da escravidão do Egito (12). Antes, suas vidas deveriam ser caracterizadas por um santo temor ou reverên­cia — que é a raiz da obediência e a base de atitudes corretas na vida, por um serviço leal surgido dessa reverência, e por fazer de Javé o penhor de sua integridade e honestidade em todas as suas atividades, fazendo votos somente em Seu nome. A história posterior de Israel é cheia de incidentes em que o povo deixou de dar ouvidos a esta admoestação. Por exemplo, durante os prósperos anos do oitavo século AC, Deus era honra­do apenas por cerimônias exteriores; as questões mais importantes de Sua lei eram esquecidas (Am 5:4, 5, 14; 6:1, 4-6; Os 2:5, 8; Is 1:4, 21-23). Numerosos exemplos poderiam ainda ser colhidos na história do povo de Israel e na história da Igreja cristã. Em nossos dias, o nominalismo da igreja na afluente sociedade ocidental dá testemunho eloquente do fato de que em seus dias de prosperidade a Igreja se esquece de Deus.

    14. A tragédia do esquecimento é que Israel viria a se voltar para os deuses das nações vizinhas que, na verdade, nem deuses eram. Eram divindades da natureza e da fertilidade, cujas exigências morais normais nem de longe se podiam comparar com as severas exigências éticas impos­tas por Javé.

    15. Negligenciar deliberadamente a Javé era equivalente a um desa­fio ao grande e soberano Senhor de toda a vida. No terreno secular um vassalo rebelde era castigado por seu suserano. No terreno em que Javé reinava, “maldições” sobrevinham àquele que quebrava a aliança. Javé, que era um Deus zeloso (5: 9), visitaria Seu povo em juízo. A presen­ça de Javé entre seu povo era um estímulo à boa conduta e oferecia um forte incentivo a que Israel andasse em Seus caminhos.

    16. O incidente em Massá (Êx 17: 1-7), no qual Israel tentou a Deus é agora recordado como outra advertência. Tentar a Deus é impor condições a Ele e fazer de Sua resposta à exigência do povo na hora da crise a condição para que Israel continuasse a segui-lo. No deserto, quando o povo precisou de água, os israelitas propuseram a Moisés que o apareci­mento de água fosse um teste para determinar se Javé estava ou não em seu meio (Êx 17: 7). Tal ato, entretanto, é uma impertinência e é oposto à fé, pois recusa os sinais oferecidos por Deus e propõe em seu lugar sinais que sejam aceitáveis aos homens. Ao duvidarem da soberania de Deus na hora da crise ou da necessidade, os israelitas procuraram tomar a inicia­tiva e obrigar Deus a dar provas de Si próprio diante deles por meio de feitos espetaculares que eles mesmos houvessem proposto (cf. 1: 19- 46). Em seus dias, Jesus recusou-Se a oferecer sinais aos escribas e fariseus (Mt 12:38, 39; 16: 1-4; Mc 8: 11, 12; Lc 11: 16, 29, 30; cf 1 Co 1:22).

    17-19. Mais uma vez Israel é exortado a guardar diligentemente as estipulações da aliança, e a fazer aquilo que é reto aos olhos de Javé (17, 18a). Mais uma vez as bênçãos decorrentes da obediência são menciona­das; prosperidade, posse da terra e expulsão de todos os seus inimigos (18b, 19; cf Êx 23:27-32).

    O ensino da fé da aliança (6:20-25).

    20. Mais cedo ou mais tarde, os filhos fatalmente iriam perguntar por que seus pais levavam um tipo de vida diferente daquela vivida pelas nações vizinhas. Prevendo o futuro, Moisés exortou o povo a ter sua resposta pronta quando seus filhos per­guntassem por que razão observavam as estipulações da aliança (testemu­nhos), estatutos e decisões judiciais (juízos) que Javé dera a Israel.

    21-25. A resposta apropriada à pergunta dos filhos seria recitar a narrativa da atividade redentora de Deus na libertação dos antepassados da escravidão no Egito. A crença de Israel em Deus era expressa, assim, não em termos de uma formulação abstrata, mas em termos da atividade dinâmica de Deus. Mesmo as crianças poderiam entender aquela história, pois seu conteúdo era simples: escravidão no Egito (21a), os atos mila­grosos de Deus contra Faraó e o Egito, pelos quais Israel foi liberto (21b, 22), a direção cuidadosa e segura de Deus desde o Egito até à terra prome­tida (23) e finalmente a chegada à terra que Javé jurara dar a seus pais. Este recitativo tem íntima semelhança com outras confissões de fé no Ve­lho Testamento (26: 5-9; Js 24: 2-13) (Este recitativo tem sido chamado por Gerhard von Rad e outros de “Credo Cultual” e tem sido usado para argumentar que o evento do Sinai, que não aparece em Dt 26: 5-9, não era parte da mais primitiva fé israelita. O fato de um elemento de um credo ser omitido, contudo, não significa que não tenha existido. Outra forma li­terária bem conhecida que aparece especialmente em Êxodo liga o evento do êxodo com o evento do Sinai do mesmo modo pelo qual os tratados de suserania ligam o contexto histórico do tratado com as suas estipulações. A verdade completa sobre a crença de Israel só é descoberta por meio da combinação de vários credos diferentes.). Sem dúvida os frequentes recitativos dessa narrativa deram origem a uma formulação litúrgica. Foi à luz de tais atos de livramento que Javé pôde convidar Israel a entrar em aliança consigo e a impor sobre a nação, para seu próprio bem, as obrigações da aliança que Israel presentemente observava e que o distinguia de seus vizi­nhos. Tudo isto seria objeto de inquirição por sucessivas gerações de fi­lhos israelitas. Os mandamentos deveriam ser não um peso a ser carrega­do mas a provisão graciosa de um guia para uma vida feliz, feita por um Soberano benevolente. Assim Javé preservaria a existência de Israel. A obediência à lei divina seria por justiça (sedãqâ) para Israel. Esse con­ceito é de difícil definição. Em algumas passagens do Velho Testamento denota uma norma a ser adotada numa área qualquer. No plural indica “atos salvadores” (Jz 5: 11; 1 Sm 12: 7; Sl 103: 6; Mq 6: 5, etc.). Em ou­tras passagens sedãqâ se refere a uma atitude certa, ou um relacionamen­to certo, para com Javé. Quando Abraão creu em Deus, adotou uma atitude correta que o colocou num relacionamento correto com Deus. No contexto que agora observamos o padrão proposto é conformidade à aliança divina, que resultaria no desfrute das bênçãos da aliança. Tal tipo de raciocínio era tacitamente aceito no mundo secular em relação aos tratados da época, quando vassalos fiéis e leais desfrutavam do favor de seus suseranos. Comparar Salmo 24: 3-5, onde o homem que guarda a lei de Deus recebe bênção do Senhor e a vindicação ou “justiça” (fdàqâ) de seu Deus salvador (Deus da sua salvação). Alternativamente, o termo pode denotar “libertação” ou “salvação”, co­mo em várias passagens do Velho Testamento (Is 41: 10; 46: 13; 51: 1, 5, etc.).

     

    Bibliografia J. A. Thompson

  • Lição 01 – O retorno ao primeiro amor

    betel 

    Texto Áureo

    “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas”. Ap 2.5

    Verdade Aplicada

    O amor era um assunto mui­to importante para a igreja primitiva. Sua ausência era encarada como decadência na vida cristã.

    Objetivos da Lição

    Relembrar as primeiras obras como motivação para uma vida renovada;

    Mostrar que a doutrina e o zelo pela ortodoxia não po­derão substituir o amor de Cristo;

    Ensinar como o cristão pode voltar ao primeiro amor.

    Textos de Referência

    Ap 2.1        Escreve ao anjo da igre­ja que está em Éfeso: Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro:

    Ap 2.2        Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos e o não são e tu os achaste mentirosos;

    Ap 2.3        e sofreste e tens paci­ência; e trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste.

    Ap 2.4        Tenho, porém, contra ti que deixaste a tua primeira caridade.

    A carta a Éfeso — a igreja apostólica (Ap 2:1-7).

    2:1    Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:

    A cidade de Éfeso representa, historicamente, uma das mais vigorosas comunidades cristãs do N.T. Em sua função profética, pois, representa a igreja da era apostólica, dotada de sucesso e poder especiais, embora tivesse caído em vários erros, antes do fim de seu período histórico, o principal dos quais foi o resfriamento de seu amor a Cristo, com o declínio subsequente no serviço e no poder espiritual. As epístolas de Paulo mostram-nos que ela estava longe de ser perfeita; e o livro de Atos mostra-nos que ela estava longe de ser unida, conforme se evidencia nas epístolas aos Gálatas e I e II Coríntios. Contudo, quanto a esses aspectos, a igreja se manteve superior ao que ela mesma foi em épocas posteriores.

    Quando o vidente João escreveu a essa igreja, fê-lo sob as perseguições movidas por Domiciano, embora alguns pensem que a seção deste livro que encerra as sete cartas, tenha sido escrita antes do resto, tendo sido incorporada ao restante. Porém, a carta à igreja de Esmirna quase certamente reflete as perseguições do tempo de Domiciano, o qual foi chamado de «segundo Nero»; e pode-se supor que todas as demais cartas foram escritas ao mesmo tempo.

    «…ao anjo…» Já encontramos a menção a esses seres em Ap 1:16 e 20, onde são chamados de «sete estrelas». O trecho de Ap 1:16 nos fornece explicações detalhadas que são sumariadas aqui, nos pontos abaixo discriminados:

    1. Há aqui certa alusão astrológica (ver 1:16).

    2. São grandes poderes espirituais associados às igrejas, visando a sua proteção e orientação. São instrumentos nas mãos de Cristo, seres angelicais literais, que ministram à igreja, controlando seus ministros, e, pelo menos em alguns casos, servindo de mediadores dos dons espirituais. Por extensão dessa ideia, podemos supor que todas as comunidades locais dos crentes contam com seus próprios anjos guardiões, tal e qual sucede no casos das nações e dos crentes individuais.

    3. Alguns pensam que estariam em foco os «pastores» humanos das igrejas, e não seres sobrenaturais. Apesar disso ser uma interpretação comum, não é provável. Os «pastores», entretanto, provavelmente seriam tidos como instrumentos especiais desses seres angelicais, seus representan­tes, nas assembleias locais.

    4. Também há quem pense que seriam delegados especiais, enviados às sete comunidades cristãs, levando-lhes cópias do livro de Apocalipse. Mas isso é altamente improvável. Antes, devem ser membros «fixos» das igrejas locais ou seres permanentemente vinculados a elas, e não visitantes ocasionais de qualquer espécie.

    5. Não são «bispos» de regiões diversas, que representariam o desenvolvimento «eclesiástico» da igreja.

    6. Não são «missionários itinerantes» ou «instrutores», que exerceriam autoridade especial sobre as comunidades cristãs, atendendo às suas necessidades espirituais.

    7. E nem são essas estrelas meros «símbolos místicos» das igrejas, como se seu intuito fosse apresentar seres vivos de qualquer modalidade. A posição ou posições mais prováveis são a primeira e a segunda, ou mesmo a combinação dessas duas posições.

    O ensinamento que aqui temos, pois, é profundo—a igreja cristã não fica sozinha. Conta com a ajuda de grandes protetores espirituais, guardiães e instrutores angelicais. Isso faz parte da promessa de Cristo, em seu cumprimento: «De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei» (Hb 13:5); e: «E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século» (Mt 28:20). Isso, entretanto, não os transforma em mediadores da «salvação», pois somente Cristo Jesus pode ser tal mediador (ver I Tm 2:5). Contudo, são mediadores de sua presença e de seu poder, enviados para ministrar às assembleias locais, bem como aos crentes individuais (ver Hb 1:14). Cada um desses anjos tem seus «representantes» nas igrejas locais, a saber, pastores, mestres, etc.

    «…igreja…» Elementos comuns nas sete cartas. Cada uma dessas missivas contém os seguintes elementos:

    1. A ordem de escrever, ao anjo de cada assembleia local.

    2. A algum título sublime do Senhor Jesus Cristo, dotado de significado particular, com elementos instrutivos, importante para a igreja local para a qual foi escrita a carta em questão.

    3. Um recado direto ao «anjo» da igreja, com as palavras, «conheço tuas obras», o que lhe assegura que Cristo vigia e se preocupa com conhecimento completo acerca das condições de cada comunidade local.

    4. Promessas aos vencedores; advertências aos seus membros indiferentes, ou que caem em algum erro específico, do qual se recusam a recuperar-se.

    5. O solene refrão: Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça. Isso tenciona fixar a atenção sobre o que é dito, para que se dê plena obediência à instrução assim transmitida.

    6. É o «Espírito» quem profere as palavras de cada carta; pelo que não se trata de meras mensagens humanas.

    7. Cada uma delas envolve uma mensagem profética, que se adapta a um período especial da história da igreja.

    Interpretação acerca do significado do intuito das sete cartas às sete igrejas.

    Consideremos sobre isso os pontos abaixo:

    1. Essas cartas foram enviadas a igrejas locais reais da Ásia Menor, que havia naquela época, e nas quais imperavam as condições ali descritas. Essas cartas, pois, são «historicamente» orientadas, pois as «coisas que são» foram escritas do ponto de vista do autor sagrado.

    2. Essas cartas representam condições que se verificam em qualquer época da história da igreja, pelo que elas são «universalmente» orientadas.

    3. Essas cartas expõem os erros, os triunfos e as condições morais que caracterizam a igreja em qualquer de suas épocas, em suas assembleias locais. São instruções «desligadas da passagem do tempo». Tais instruções são tanto «eclesiásticas» (aplicáveis à «igreja local», em suas necessidades e condições) como «pessoais» (no que se aplica às necessidades dos crentes individuais).

    4. Essas cartas são proféticas quanto a sete estágios da história da igreja, que talvez se devam arrumar como segue:

    a.       Éfeso, a igreja apostólica (século I d.C).

    b.      Esmirna, a igreja perseguida (séculos II e III d.C.)

    c.       Pérgamo, a igreja sob favor imperial (312 a 500 d.C.)

    d.      Tiatira, a igreja da Idade das Trevas (500 d.C. ao século XVI)

    e.       Sardes, a igreja da Reforma e da renascença (séculos XVI a XVIII)

    f.       Filadélfia, a igreja das missões modernas (séculos IX até primórdios do século XXI).

    g.       Laodicéia, a igreja do tempo do fim (meados do século XXI até à vinda de Cristo —sendo essa a igreja morna).

    Por que razão são salientadas 7 igrejas locais em particular? Na Ásia Menor, havia cidades e igrejas mais importantes, nos dias do vidente João, do que algumas das que são aqui alistadas. Por que o autor sagrado selecionou essas sete, excluindo as outras? É possível que não tenha havido qualquer razão específica, ou pode ser que elas tivessem necessidades especiais, que exigiam atenção, mais do que as igrejas locais de outras áreas. Ou então foram escolhidas porque, dentro da ordem em que foram mencionadas, começando e retornando a Éfeso, como que, no mapa, fica formado um círculo geográfico, pelo que elas representariam a igreja inteira. Seriam elas o «círculo perfeito» da igreja, por assim dizer. Naturalmente, além desses raciocínios, supomos que o Espírito Santo orientou nessa escolha, porque as condições ali existentes eram particularmente instrutivas para todas as épocas, ao passo que outra espécie de condições não seria tão «universal» e impressionante. O próprio número «sete»; sugere «perfeição». Trata-se de uma perfeita e completa mensagem de Cristo às suas igrejas.

    «…Éfeso…» Essa cidade fora erguida próximo do mar, no vale do rio Caister, sob as sombras das montanhas Coressos. Nos dias de Paulo, era a maior cidade da província romana da Ásia. Plínio a chamava de «a luz da Ásia». Fica na costa ocidental do que atualmente se chama Turquia Asiática. No tempo dos apóstolos havia uma magnificente estrada de vinte e um metros de largura, ladeada por colunas, que atravessava a cidade até ao porto. Esse porto era importante centro de exportação e importação, no fim da rota de caravanas vindas da Ásia, sendo uma escala natural para quem viajasse do continente asiático até à capital do império, Roma.

    O povoado original parece ser datado do século XII A.C., tendo sido iniciado por colonos jônicos. No ano de 560 A.C., Éfeso foi conquistada pelo rei Croeso. No ano de 557 A.C. foi conquistada pelos persas. Em 133 A.C., tornou-se parte do império de Atalo II, que então doou a Roma. Pérgamo continuou sendo a cabeça titular da província romana assim formada; mas Éfeso, na realidade, era a principal cidade daquela região. Evidentemente tinha uma população de cerca de um terço de milhão de habitantes, na época apostólica.

    Éfeso era um centro religioso, tanto quanto comercial e político. O templo de Diana, erigido antes de 356 A.C, mas restaurado naquele ano, após ter sido destruído por um incêndio, figurava como uma das maravilhas do mundo antigo, até que, finalmente, foi destruído pelos godos, em 260 D.C. Esse templo continha a «imagem» de Diana, a qual, mui provavelmente, era apenas um meteorito que foi esculpido para formar tal imagem. Isso explica sua suposta origem «celestial». Sabemos que nos templos antigos havia «meteoritos», sempre que possível, pois eram considerados sagrados, por terem «caído do céu». O templo de Diana, descoberto por J. T. Wood, no ano de 1870, era quatro vezes mais espaçoso que o Partenon de Atenas, adornado por obras de grandes mestres, como Fídias, Praxíteles e Apeles.

    Nos tempos neotestamentários, havia numerosa colônia de judeus em Éfeso, e esses desfrutavam de posição privilegiada, durante o começo do império. (Ver Josefo, Antiq. xiv.10,12,25). A fé cristã chegou a Éfeso em cerca de 52 D.C. (ver Atos, em seus capítulos dezoito e dezenove, quanto a descrições sobre isso). Paulo esteve ali, durante sua segunda viagem missionária; e então permaneceu mais tarde ali, por cerca de três anos, a mais longa permanência de Paulo em um lugar só, durante todas as suas viagens missionárias. O cristianismo fez de Éfeso um de seus centros mais poderosos. Porém, em oposição à fé cristã, floresciam ali os cultos mágicos; e, antes dos fins do primeiro século de nossa era, foi imposto ali o «culto ao imperador», com as consequentes perseguições contra aqueles que se recusavam a adorar ao imperador romano.

    Por ocasião de sua partida de Éfeso, o apóstolo dos gentios deixou ali a Timóteo, embora não saibamos por quanto tempo este último ali permaneceu. É comum identificar Timóteo com o «anjo» mencionado em Ap 2:1; mas isso é altamente improvável. O «anjo» referido neste livro é bem real, guardião e instrutor da igreja de Éfeso, ainda que seja perfeitamente possível que Timóteo fosse o seu principal instrumento naquela localidade.

    Irineu e Eusébio chamavam Éfeso de lar do idoso apóstolo João; e embora existam tradições em conflito a seu respeito, é, bem provável que o próprio apóstolo João e suas tradições tivessem estado associados ao lugar, de tal modo que o quarto evangelho, as epístolas de João e o livro de Apocalipse tivessem provindo daquela área em geral. Inácio, uma geração depois da era apostólica, escreveu à igreja dali em termos candentes (ver Inácio, Efésios 11). E o lugar tornou-se a sede de longa sucessão de bispos orientais. O terceiro concilio geral teve lugar em Éfeso, no ano de 431 D.C, com o propósito específico de condenar as heresias de Nestório. A igreja de Santa Maria, onde a conferência foi efetuada, conta com ruínas que podem ser vistas até hoje. Pouco depois disso, a cidade começou a declinar, sobretudo por causa da praga de malária. Suas excelentes esculturas foram levadas para outros lugares, principalmente para Constantinopla. E no século XIV, o que restava, foi levado dali pelos turcos, que também dispensaram os seus habitantes que ainda restavam.

    A região anteriormente ocupada por Éfeso, nos nossos dias, é desabitada. O mar, atualmente, fica a mais de onze quilômetros de distância do local original, devido ao acúmulo de detritos e de lama, em seu porto, no decorrer dos séculos. A ilha de Patmos, onde foi desvendado ao vidente João este o livro de Apocalipse, fica cerca de cento e vinte quilômetros de distância.

    «…estas cousas…», isto é, a carta que se segue.

    «…diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas… » Essa declaração já fora feita a respeito de Cristo, em Ap 1:16. As «sete estrelas» são os «sete anjos». Por conseguinte, Cristo: 1. protege às igrejas; 2. guia-as e controla-as; 3. usa-as em seu serviço; e 4. conforme isso é aplicado, todas essas coisas podem ser ditas às igrejas servidas por esses anjos. Portanto, tanto os anjos (ou «estrelas») como as próprias igrejas locais estão inteiramente sujeitos a Cristo, servindo de instrumentos do poder e da glória do Senhor. As «estrelas» estão na «mão» de Cristo, — não em seus «dedos», pois não são meros elementos decorativos, apesar de também serem tais, não tenhamos dúvidas.

    O titulo de Cristo: Cada uma dessas sete comunidades locais recebeu um título ou descrição especial da parte de Cristo, que lhe foi particularmente aplicado. Visto que a carta à comunidade cristã de Éfeso figura em primeiro lugar, o título aqui empregado é mais amplo, porque assim são apresentadas as cartas às sete igrejas. Portanto, a «característica geral» de Jesus Cristo, no que concerne às igrejas locais, o que também figura em Ap 1:16, é reiterado neste ponto. Mas Éfeso contava com poderosa igreja cristã, pelo que, de modo todo especial, era protegida por Cristo, para que o evangelho tivesse um início realmente triunfal naquela região.

    «…anda no meio dos sete candeeiros de ouro…» Notemos que, em Ap 1:20, os sete candeeiros são as «sete igrejas». Portanto, uma vez mais, a descrição de Cristo, no tocante a Éfeso, também se aplica às cartas enviadas a todas as sete igrejas, —o que equivale dizer que essa primeira carta serve de introdução para todas as demais.

    O fato que Cristo «andava» entre os candeeiros simboliza as seguintes verdades:

    1. A presença de Cristo e de seu poder, na igreja, o que tanto se verificou na era apostólica.

    2. A sua cuidadosa vigilância sobre essa época e todas as épocas da igreja, «conhecendo» suas fortalezas e fraquezas.

    3. Esse andar é judicial. Cristo não está satisfeito com a condição da igreja e terá de baixar juízo, se não houver arrependimento.

    4. Sem a «presença» de Cristo, a igreja é apenas uma pilha de pedras, frequentada por não-espirituais. Mas com sua presença, a igreja se torna um templo vivo para habitação do próprio Deus (ver Ef 2:22; ver também 1 Pe 2:5, acerca das «pedras vivas» que compõem a «casa espiritual», o «novo templo»).

    5. Temos aqui o «teísmo», ao invés do «deísmo». Este último ensina que há um Deus, um Criador, uma força superior, mas crê que ele deixou as leis naturais encarregadas do governo de sua criação, não tendo qualquer contato pessoal com a mesma; pelo que também não faz intervenção na história humana, para julgar ou galardoar. O teísmo, em contraste com isso, ensina quê Deus está conosco, particularmente na pessoa de Cristo; que Deus faz interferência na história da humanidade; que recompensa e pune. Cristo é o exemplo supremo da presença de Deus entre os homens, pelo que é a maior prova do teísmo, embora existam outras provas.

    6. É o «Senhor» quem assim guarda à sua igreja e a observa.

    7. Aqueles que aceitam a Cristo como Senhor, são transformados segundo a sua imagem e natureza (ver II Co 3:18).

    O nome de Cristo: Em cada uma das sete cartas do Apocalipse, Cristo dá a si mesmo um nome e uma descrição específicos, aplicável à circunstância particular e à posição espiritual da igreja sob discussão. No caso da igreja em Éfeso, Cristo aparece como aquele que «sustem» na mão os ministros angelicais que ajudam à igreja. É patente que, por meio deles, sustem à própria igreja. Isso alude ao poder de Cristo entre as igrejas, apontando para a sua capacidade de ajudar. Consideremos ainda os pontos abaixo:

    1. Essa circunstância frisa o «senhorio» de Cristo. Pois ninguém tem a Cristo como Salvador, se também não o tem como Senhor.

    2. E isso, por sua vez, fala de «segurança» da igreja. Cristo não permitirá que a igreja, finalmente, pereça.

    3. Cristo «anda entre as igrejas», o que nos assegura a sua presença e comunhão, algo que é típico da igreja apostólica, que exibia a presença e o poder de Cristo acima do que sucedeu à igreja de séculos posteriores.

    4. Isso dá a entender a «atividade divina» na igreja, o que a assiste em sua propagação, mas também em sua operação interna de santificação pessoal.

    5. Os candeeiros exigem constante atenção, a fim de funcionarem corretamente, a fim de darem a luz apropriada, e Cristo dá essa atenção às igrejas. Se não fora assim, a luz da igreja desde há muito ter-se-ia apagado. A igreja apostólica, todavia, foi poderosíssima luz em favor da verdade.

    6. Cristo é tudo para todos (ver Ef 1:23). Esse é o imenso alvo do «mistério da vontade de Deus» (ver Ef 1:10). Cristo demonstrou, na igreja apostólica, como isso pode funcionar.

    2:2    Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua perseverança; sei que não podes suportar os maus, e que puseste à prova os que se dizem apóstolos e não o são, e os achaste mentirosos;

    «…Conheço as tuas obras…» Consideremos aqui os pontos seguintes:

    1. É salientada assim a onisciência de Cristo. Essa declaração é reiterada no caso de todas as sete igrejas.

    2. O interesse de Cristo por sua igreja é focalizado, porque ele «conhece» as suas condições, a fim de louvar ou de repreender à mesma, tudo o que visa produzir modificações espirituais favoráveis.

    3. As «obras» que Jesus «conhece» representam as «condições espirituais em geral» da igreja, e não apenas aquilo que chamamos de «serviço ativo». Portanto, a palavra «obra» neste caso, indica o «caráter geral», a natureza da pessoa que age, mas também aquilo que ela faz. Equivale à expressão vetotestamentária «temor do Senhor», expressão usada a fim de exprimir as condições «espirituais em geral» daquele que professava tentar agradar a Deus, reconhecendo o seu senhorio. O termo geral, «obra» é desdobrado, neste mesmo versículo, para que tenha os seguintes significados:

    a. Labor (serviço ativo, prestado sob pressão).

    b. Paciência (resistência nesse labor, e sob as perseguições).

    c. Ódio e oposição ao mal e aos atos malignos, de homens que pervertem o evangelho e promovem a impiedade em nome de Cristo.

    d. Cristo, que é o Senhor, vê através de todos os disfarces e pretensões, apresentando autêntica avaliação da condição de cada indivíduo, bem como a condição geral de cada assembleia local.

    Ele não vê o que «esperamos ser», nem o que «temos feito», nem o que «pensamos que podemos fazer», e, sim, as nossas condições reais, o nosso caráter. O seu poder, que «tudo vê e tudo sabe», é, ao mesmo tempo, uma ameaça e um conforto. É uma ameaça aos hipócritas e pretensiosos; é uma ameaça para aqueles que brincam com a fé religiosa. Mas é um conforto aos fiéis, que são perseguidos e desprezados por outros, dentro ou fora da igreja. Isso nos promete uma recompensa justa, bem como a contínua ajuda para a concretização dos ideais espirituais do cristianismo.

    «Nossas tristezas, que talvez não possamos relatar, nossas tribulações, que ninguém mais conhece, nossas dificuldades, os ais e as dores que jazem ocultas em nossas almas, nossas fraquezas e nossas lutas íntimas, nossos temores e dúvidas ocultos, nossa honestidade quanto a coisas que outros censuram e criticam, nossos verdadeiros motivos e esforços, que os outros não entendem, tudo é conhecido por nosso amoroso Salvador, o qual pode ser tocado com o senso de nossa debilidade, ordenando-nos que tenhamos bom ânimo, porque a sua graça nos será suficiente». (Seiss, in loc.).

    «O verniz de uma fé formal talvez impressionasse ao mundo, mas não pôde escapar a seu escrutínio (ver At 1:24). Ele também conhece, e aceita amorosamente, os atos não-exibidos e nem requisitados de verdadeiro amor (ver Mt 10:42 e 26:13), e aparecia, em meio a todas as suas falhas, a lealdade genuína a ele (ver Jo 2:17)». (Carpenter, in loc.)

    «…o teu labor…» No grego temos o vocábulo «kopos», que indica «labor até à exaustão», «labuta». A forma verbal, «kopiao», significa «exaurir-se», «trabalhar arduamente», «lutar». Essa palavra descreve os prodigiosos labores da igreja apostólica. Notemos que o trabalho árduo é aqui recomendado. Até mesmo os ímpios veem algo de «nobre» no labor árduo, o que, necessariamente, inclui abnegação, em favor de alguma causa esperançosa e altruísta.

    «Não existe riqueza real senão o labor do homem. Se os montes fossem de ouro e os vales de prata, o mundo não seria mais rico nem um grão de trigo a mais; nenhum conforto isso adicionaria à raça humana». (Percy B. Shelley, Queem Mab).

    «As ações de um homem são apenas um quadro pictórico de seu credo» (Ralph Waldo Emerson).

    «Os atos falam mais alto que as palavras». (Um provérbio popular).

    «Os céus nunca ajudam ao homem que não trabalha». (Sófocles, fragmento).

    «Uma hora de vida, carregada de ações gloriosas e prenhe de nobres riscos, vale mais que anos inteiros daquelas tolas observâncias do decoro comum». (Sir Walter Scott, Count Robert of Paris).

    «A ação nem sempre produz felicidade; mas não há felicidade sem ação». (Benjamim Disraeli).

    «Um homem sem ambição é como uma mulher sem beleza». (Frank Harris).

    O «labor» aqui mencionado, no caso da igreja de Éfeso, alude particularmente aos labores daqueles crentes no evangelho, o qual tomou conta de todos os centros de civilização então conhecidos. (Ver Cl 1:6 quanto a esse fato). Essa intensíssima expressão espiritual fazia parte das «obras gerais» ou caráter cristão daqueles crentes. (Ver Rm 16:12; I Co 16:10 e Gl 4:11 quanto aos labores apostólicos e ministeriais, referidos neste versículo com o termo «labor»). Os crentes efésios eram intensos quanto à sua fé espiritual, o que ficava claramente demonstrado pela magnitude de sua dedicação, produtiva de imensos labores em favor da causa de Cristo.

    «…perseverança…» Isso é mencionado de novo no versículo seguinte. Significa bem mais do que o que se entende pela palavra «paciência», isto é, o «suportar tudo estoicamente». Pelo contrário, significa «constância» sob circunstâncias adversas. Com frequência, nas páginas do N.T., indica fidelidade sob a perseguição. O termo grego é «upomone», «resistência», «permanência», «constância». (Ver II Pe 1:6; Tg 5:7 e II Tm 2:25,26). No dizer de Ellicott (in loc): «Não assinala meramente a resistência, mas também a fraca paciência com que o crente luta contra os vários empecilhos, perseguições e tentações, que lhe sobrevêm em seu conflito contra o mundo interno e externo». Isso esse autor dizia, comentando sobre o trecho de I Ts 1:3. Sabemos que a igreja da era apostólica foi tremendamente perseguida. O livro de Atos deixa isso bem claro. Mas aquela igreja tinha «resistência», em meio mesmo às aflições que lhe foram impostas, pelas autoridades civis e religiosas. As dificuldades daqueles crentes não os levaram a perder a coragem ou a negar a própria fé. Eles labutavam e suportavam firmemente as circunstâncias, sem «se deixarem esmorecer», conforme se sabe no versículo seguinte. Eles participavam dos sofrimentos do evangelho, «como bons soldados de Cristo Jesus», conforme se aprende em II Tm 2:3.

    «…não podes suportar homens maus…» Aqueles crentes podiam «suportar» condições e testes difíceis, mas se recusavam a mostrar «tolerância» em favor de homens que tentavam mudar a natureza «moral» da igreja, tirando do evangelho o seu «imperativo moral». Esses «homens maus», mui provavelmente, são os «nicolaítas», mencionados no sexto versículo deste capítulo, e onde o tema é desenvolvido. Não há que duvidar que havia boa variedade de «falsos apóstolos» e de «falsos mestres», que serviam de praga para a igreja apostólica; mas é razoável supormos que estamos tratando, especialmente, de alguma forma de gnosticismo incipiente. Oito livros do N.T.—Colossense, as três epístolas pastorais, as três epístolas joaninas e Judas—foram escritos contra as diversas formas da primitiva heresia gnóstica; porque essa foi a heresia que assediou a igreja por cerca de cento e cinquenta anos, no começo de sua história. De modo bem geral, pode-se dizer que eles procuravam combinar a filosofia grega, a mitologia e as religiões orientais misteriosas com o cristianismo, além de terem tomado por empréstimo elementos do judaísmo. Alguns deles eram extremamente libertinos (como aqueles contra quem o sexto versículo foi escrito); mas outros eram ascetas extremados. Criam eles que a matéria é o princípio mesmo do mal, pelo que o corpo seria totalmente incapaz de redenção, pois o mesmo participa da matéria. Não faria, diferença, pois, aquilo que os homens fizessem com seus corpos. De fato, poderiam estes até ajudar ao desígnio da mente cósmica, que seria o de destruir, finalmente, à matéria, abusando dos seus próprios corpos. Isso podia ser feito mediante a licenciosidade ou mediante o ascetismo. A maioria desses hereges preferia a licenciosidade, e chegavam até a imaginar, mui loucamente, que os anjos se postavam, invisíveis, a seu lado, influenciando-os a participar de toda a forma de deboche, porque precisavam de ter «experiências», e porque assim degradavam ao princípio do pecado, associado a seus próprios seres. Pensavam eles que tudo isso podia ser praticado, sem que a alma em nada fosse prejudicada, pois seria esse o princípio espiritual no homem, livre do pecado, já que não participa da «matéria». O que tudo isso significa é que a imoralidade de muitas modalidades, mas especialmente aquela praticada com o corpo, se tornou a «doutrina oficial» de algumas igrejas, onde os mestres gnósticos mantinham domínio. Por conseguinte, o evangelho deles desconhecia o «imperativo moral»; o evangelho deles não os tornava espiritualmente melhores.

    No tocante a outras doutrinas, os gnósticos repeliam a fusão da natureza divina com a humana em Jesus, crendo que o Espírito-Cristo (uma emanação angelical) tenha vindo possuir o corpo de Jesus em seu batismo, tendo-o abandonado por ocasião de sua crucificação. As duas pessoas, Jesus e o Espírito-Cristo, pois, não eram a mesma «entidade». Portanto, a «morte» não foi a do Cristo, e sim apenas a do homem Jesus, não tendo, por isso mesmo, qualquer valor «expiatório». Cristo não poderia mesmo ter-se encarnado, diziam os gnósticos, pois, se o fizesse, teria ficado contaminado com a matéria, o princípio mesmo do mal. Aparentemente, os gnósticos eram os homens «maus» que a igreja em Éfeso não permitiu que tivessem acesso a posições de mando e influência.

    Notemos que são virtudes cristãs não só o «amor a Deus» e a «perseverança na prática do bem», mas também o «ódio ao mal» e a recusa de permitir a contaminação dos membros de uma comunidade cristã. Os anciãos de Éfeso não estendiam «cortesia ministerial» a falsos mestres conhecidos. Conta-se a história do apóstolo João, em Éfeso, que se recusava a entrar nos banhos públicos quando Cerinto (um mestre gnóstico) estava presente. Alguém poderia indagar se essa seria uma atitude correta. Sem dúvida estamos na obrigação de procurar conquistar homens como os gnósticos, amando a eles como Deus ama a todos os homens (ver Jo 3:16); mas os crentes de Éfeso estavam com a razão, pelo menos quando não permitiam que tais homens ocupassem posições de autoridade na igreja, e nem os encorajavam em seus caminhos ímpios através de uma «falsa aceitação».

    «…puseste à prova…» Essa «prova» era parcialmente «doutrinária», conforme se vê em I Jo 4:1 e ss. Eles «testavam aos espíritos». Aqueles indivíduos que rejeitavam a doutrina da «encarnação» e o valor subsequente da «expiação», com facilidade eram tidos por mentirosos e falsos apóstolos. Além disso, era aplicado o teste prático. O evangelho anunciado por alguém transformava moralmente a tal pessoa? Em caso negativo, então tal evangelho era falso. O evangelho de alguém incluía o imperativo moral? Em outras palavras, requeria a santidade, já que sem a santificação ninguém jamais verá a Deus (ver Hb 12:14)? Em caso contrário, então tal evangelho era falso. Pode-se observar, em II Ts 2:13, que a «santificação» é elemento absolutamente necessário para a salvação. Jamais poderemos chegar à vida eterna, exceto pelo caminho da santificação. Os mestres gnósticos pensavam que o «conhecimento» é o caminho para a salvação, degradando à fé, ao mesmo tempo que eliminavam totalmente a necessidade de santidade no corpo. Este versículo pode ser comparado com II Jo 10, que proíbe o acolhimento a hereges conhecidos e persistentes na própria casa. Os mestres gnósticos também são focalizados nessa passagem. A «rejeição» aos mesmos, por parte dos crentes autênticos, visava ensinar aos falsos que eles não eram parte legítima da comunidade cristã, já que suas ações e suas doutrinas eram basicamente contrárias às dessa comunidade, tendendo por solapá-las. O presente versículo talvez subentenda alguma forma de «teste eclesiástico», com a subsequente exclusão. Pelo menos, quando os falsos mestres manifestadamente falhavam em mostrar-se cristãos e ajudadores genuínos da igreja, os crentes de Éfeso exerciam pressão sobre os mesmos, para que se retirassem da comunidade dos santos.

    «…e os achaste mentirosos…» Essas palavras podem ser comparadas com I Jo 2:22. O «mentiroso» é aquele que nega a identidade das naturezas divina e humana em Jesus, aquele que «nega ao Filho» e à sua «expiação». O «mentiroso» é aquele que «odeia» a seu irmão, que não tem parte real na comunidade cristã, e é adversário da mesma (ver I Jo 4:20). É também aquele que não aceita o testemunho de Deus Pai concernente ao Filho (isto é sobre a realidade da encarnação do Filho, em Jesus de Nazaré, com identidade de pessoas), o qual, subsequentemente, cumpriu a sua missão expiatória (ver I Jo 5:10).

    «…apóstolos…» A presunção daquela gente era grande, porquanto queriam compartilhar da autoridade dos próprios apóstolos; mas tratava-se de uma reivindicação falsa, pois falavam de modo errôneo e maligno acerca do verdadeiro Jesus Cristo, e suas vidas eram um opróbrio para o seu evangelho.

    Qual seria a identidade desses mentirosos?

    1. Seriam os judaizantes? Essa ideia não é muito provável. Pois os judaizantes pelo menos eram «morais», procurando seguir estritamente a lei de Moisés, embora não estivessem certos em sua teologia.

    2. Alguns supõem que fossem discípulos de Pedro ou de Paulo que tinham assumido grande autoridade para si mesmos; mas isso está completamente fora de consonância com o caráter geral daqueles homens, conforme é sugerido no texto sagrado.

    3. Antes, eram os «nicolaítas», referidos no sexto versículo deste mesmo capítulo, membros prováveis de alguma seita antiga, semelhante à dos gnósticos, e corruptos em sua doutrina e vida diária. Paulo já havia advertido acerca de homens desse naipe. Isso pode ser visto em At 20:20,30, onde se lê: «Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas, para arrastar os discípulos atrás deles».

    Notemos que a defesa da verdade, por parte dos crentes efésios, bem como a sua recusa por permitir que aqueles falsos mestres corrompessem à igreja, é classificada como suas «obras» (como seu caráter cristão geral), juntamente com o seu «labor» e «constância».

    2:3    e tens perseverança e por amor do meu nome sofrestes, e não desfaleceste.

    «…tens perseverança…» Isso já fora dito sobre aqueles crentes, no versículo anterior, onde é usado o mesmo vocábulo grego, Crê-se que, o livro de Apocalipse foi escrito durante a perseguição de Domiciano, o qual foi chamado de «segundo Nero». Muitos cristãos vinham sendo encarcerados, havendo torturas e mortes, por se recusarem eles a adorar ao imperador, o qual se proclamara uma divindade. A igreja apostólica já sofrerá sob as ordens de Nero. O nome desse imperador veio a traduzir «degradação», «crueldade» e «perversão». Ele costumava torturar e queimar aos cristãos até à morte, em seus jardins, somente para entretenimento de seus convivas. Tudo isso a igreja cristã suportou pacientemente e com constância, confiando em Cristo quanto à vitória «final», ainda que esta só se verificasse nas dimensões espirituais da alma. Mas, em última análise, ali é que haverá a verdadeira vida, não sendo coisa de somenos que a vitória seja conquistada somente então. O culto do imperador impunha sua adoração insana aos homens de todos os recantos do império romano. Alguns dos imperadores romanos chegaram mesmo a imaginar-se divinos e, por conseguinte, merecedores de adoração. E os súditos romanos que se recusassem a adorar ao imperador, eram considerados traidores, tendo de sofrer as consequências de seu ato.

    «Todos os homens louvam à paciência, embora poucos se disponham a praticá-la». (Thomas à Kempis, Imitação de Cristo).

    «É na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas» (Lc 21:19).

    «Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossas almas» (Hb 12:3).

    «…suportastes provas por causa do meu nome…» O mesmo vocábulo grego é usado para indicar os «testes» e as «tribulações» suportados, tal como no segundo versículo, e não para indicar que devemos «suportar» a homens malignos. No grego não há objeto para «suportar provas», pois o termo grego «bastadzo» significa «carregar», «suportar», «tolerar», ficando entendido qualquer coisa levada ou suportada. Estão em foco «todas as formas de tribulação», pois o autor sagrado não se referiu, especificamente, ao tipo de fardo que aqueles crentes suportavam, por amor ao nome de Cristo. A perseguição, entretanto, provavelmente é a questão especifica­mente salientada.

    «…por causa do meu nome…» Tudo suportavam porque se apegavam a Cristo como seu Senhor e Salvador, sendo ele o único Rei que tinha o direito de ser adorado. Identificavam-se como «cristãos», leais ao único Rei, Jesus. Por essa razão é que sofriam perseguições. Não observavam às exigências do culto ao imperador.

    «…não te deixaste esmorecer… » Não se «cansavam». Notemos que encontramos aqui a forma verbal de «kopos», a palavra usada, no segundo versículo, para indicar «labor». Aqui indica um «labor até à exaustão».

    2:4    Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor.

    Nunca teríamos imaginado que uma comunidade cristã que acabara de ser descrita como leal nas perseguições sofridas e nos labores, prodigiosa em suas obras, opositora da malignidade, também poderia aparecer como quem «abandonara» o seu primeiro amor a Cristo. Por conseguinte, temos de supor uma das seguintes possibilidades:

    1       A perda do amor, por parte deles, ainda não começara a modificar a conduta deles; mas sem dúvida começaria a fazê-lo em breve, e isso de maneira necessária.

    2       Continuariam a ter grande amor por Cristo, embora não tão grande como antes, e nem tão espontâneo.

    3       Finalmente, grandes coisas, do ponto de vista cristão, poderiam ser motivadas por outras coisas que não o amor, embora certamente essa não seja a condição ideal. O décimo terceiro capítulo da primeira epístola aos Coríntios, mostra-nos que todas as ações cristãs, bem como o exercício de todos os dons espirituais, devem ser inspirados pelo amor, deste recebendo o impulso. Em caso contrário, o valor de todas essas manifestações deve ser posto em dúvida.

    «….contra ti… » Assim como é espantoso que o Senhor Jesus Cristo encontre em nós algo que elogie, assim também é um pensamento solene que ele pode ver em nós muito de condenável. Notemos que a condenação se «segue» ao elogio. Isso faz parte de uma «avaliação honesta». Certamente que precisamos de ambos esses elementos. Se criticarmos aos outros, mas também os elogiarmos pelo que de bom há neles, as nossas críticas se mostrarão carregadas de um poder que transforma os homens para o melhor. Porém, se tão-somente criticarmos aos nossos semelhantes, ignorando qualquer coisa de bom que há neles, poderemos apenas feri-los, piorando o estado deles e adicionando opróbrio a quaisquer vícios que porventura tenham. Por outro lado, se não fizermos outra coisa senão elogiá-los, então eles ficarão estragados e mimados, tendo uma ideia falsa sobre aquilo que realmente são, nada vendo que deva ser modificado, ao passo que, na vida de qualquer indivíduo, sempre haverá coisas que precisam de modificação e aprimoramento.

    «…abandonaste…» No grego é «aphekas», o aoristo de «aphiemi», que significa «partir», «ir-se embora», «relaxar», «dispensar». Essa mesma palavra era usada para indicar o «repúdio» ou divórcio. Os crentes efésios se tinham divorciado do seu primeiro e nobre amor emocional. Contudo, o amor verdadeiro é mais do que emoção. Antes, é um dos aspectos do «fruto do Espírito» (ver Gl 5:22); ou seja, é um produto do desenvolvimento espiritual, sendo esse o solo onde medram todas as demais virtudes espirituais. Os labores dos efésios ainda não se tinham diluído; não se tinham ainda divorciado de seus labores prodigiosos, e nem de sua lealdade a Jesus Cristo, embora sob a perseguição. No entanto, em seus corações, já se tinham divorciado daquela devoção a Cristo que é a real base de todo o trabalho e lealdade cristãos, e que é um autêntico poder espiritual. O quinto versículo deste capítulo contém a ameaça que o «candeeiro» que representava aquela comunidade cristã poderia ser removida, se não se arrependessem. Isso mostra que não poderiam prosseguir por muito tempo, antes que sua falta de devoção a Cristo resultasse na perda da razão mesma de continuarem sendo uma igreja, razão essa que é a de ser uma igreja iluminada para iluminar a este mundo tenebroso. Por esse motivo, todas as suas grandes obras de lealdade seriam reduzidas a nada. A cidade de Éfeso, que já foi capital do cristianismo no mundo gentílico, finalmente perdeu essa distinção. A história mostra-nos que o cristianismo se afastou de Éfeso, do oriente para o ocidente. Hoje em dia, pouquíssimos crentes podem ser encontrados ali.

    A advertência contra o divórcio espiritual: É possível a um crente ter sido cheio do Espírito Santo, mas no entanto, gradualmente, ir cedendo aos apelos da carne, do orgulho pessoal e dos desejos mundanos. Nesse caso, o crente se divorcia daquilo que anteriormente lhe era precioso, não menos do que se dá no caso do homem que perde paulatinamente o amor pela mulher que, antes, era sua «noiva querida», e mais algum tempo percebe que deseja separar toda a vinculação que tem com ela, usualmente com a finalidade de buscar outra mulher. Acabará por encontrar alguém ou alguma coisa com que satisfaça ao seu desejo, porém, isso sucederá tão-somente porque ele se divorciou, no coração, daquela a quem antes amava realmente.

    «…amor…» Existem variedades e níveis diversos de amor, conforme se vê nos seguintes pontos:

    1.      Há o amor de Deus (veja em Jo 3:16), o qual é a fonte de todo outro amor, até mesmo aquele manifestado pelos incrédulos. O Espírito de Deus, atuando no mundo, impede-o de transformar-se em floresta completa, porquanto propaga ao redor o seu amor, e muitas pessoas fazem o que fazem por motivos puramente altruístas.

    2.      Há o amor de Cristo pelo homem, o qual é uma extensão do amor de Deus; e, em sua essência, é a mesma coisa. (Ver II Co 5:14 sobre esse amor, que nos constrange a atitudes que expressam o cristianismo).

    3.      Há o amor do indivíduo por si mesmo, num afeto inteiramente egoísta, pois só se preocupa consigo mesmo.

    4.      Há o amor de um homem por outro ser humano. Quando alguém ama outrem, deseja para o próximo o que deseja para si mesmo, ou transfere o cuidado por si mesmo para outra pessoa, desejando o seu bem-estar, tal como deseja o seu próprio bem-estar. Pode-se imaginar quase qualquer homem a amar um filho ou filha predileto. Por causa de seus cuidados por seu filho, ele fará sacrifícios e procurará protegê-lo. Pensará em como suprir às suas necessidades, e desejará a felicidade de seu filho. Em outras palavras, fará em prol de outra pessoa (sem importar quão mau seja, quanto a outras questões) aquilo que faria por si mesmo. O amor-próprio é fácil; não é muito difícil a transferência desse amor pelo menos a uma outra pessoa. Mas aqueles que amam verdadeiramente são os que descobriram como transferir o amor-próprio para um grande número de pessoas. Aqueles que assim fazem são a isso impelidos pelo Espírito de Deus, sem importar se são ou não discípulos de Cristo, no sentido tradicional.

    5.      Há o amor dirigido a Cristo, o Filho de Deus, ou então a Deus Pai, o que se verifica quando amamos aos nossos semelhantes. (Ver sobre esse conceito em Mt 25:35 e ss.).

    6.      Há o amor do homem a Cristo, ou a Deus Pai, diretamente expresso. Essa modalidade de amor requer um senso altamente desenvolvido, e normalmente se expressa por meios místicos, mediante a ascensão da alma, que passa a contemplar a Deus. Certamente essa foi a forma de amor que o escritor sagrado tinha em mente, neste versículo, embora o contexto contemple muitos resultados «diários» e «práticos» da mesma, como o evangelismo dos perdidos, a vida santa, a lealdade a Cristo e as ações de caridade em favor do próximo.

    Cristo como uma figura distante. Para aqueles crentes efésios, Cristo fora reduzido a uma figura distante, a despeito de continuarem a fazer prodígios espirituais e apesar de seu poder no Espírito. Quantas pessoas hoje em dia, quando pregam, somente atacam várias formas de males, como o mundanismo, o modernismo, o comunismo, embora suas mensagens reflitam pouquíssimo do amor conquistador de Cristo. Tornaram-se polemistas profissionais, mas pouco ou nada sabem do amor construtivo. Perderam a visão do Cristo, em meio à batalha.

    Há um caminho melhor do que esse. Ê o caminho do amor. O amor à semelhança da morte, transforma a tudo quanto toca. Os homens são atraídos pelo amor. As coisas semelhantes se atraem mutuamente. Os homens amam quando são amados. E odeiam quando são odiados.

    Pois limites de pedra não podem conter ao amor,

    E o que o amor pode fazer, isso ousa tentar.

    («Romeu e Julieta», Shakespeare).

    «As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios afogá-lo…» (Ct 8:7).

    «O amor é um símbolo da eternidade. Elimina todo o senso de tempo, destruindo toda a memória de um começo e todo o temor do fim». (Corinne, Madame de Stael).

    O amor concede em um momento O que o labor dificilmente obtém em um século.

    («Torquato Tasso», Goethe)

    «Os estóicos definem o amor como a tentativa de estabelecer uma amizade inspirada pela beleza». (Cícero).

    O amor é um dos aspectos do fruto do Espírito Santo.

    Aprendemos a amar aos outros, a cuidar deles como cuidamos de nós mesmos, na medida em que nos vamos desenvolvendo espiritualmente. Esse desenvolvimento espiritual consiste da nossa transformação segundo a imagem de Cristo, o qual possui amor absoluto, bem como todas as demais virtudes espirituais com perfeição. Quando Cristo vai sendo formado em nós, mediante a comunhão mística com o Espírito Santo, também vamos assumindo a sua própria natureza, moral e metafísica, como também a própria divindade (ver II Pe 1:4). Esse é o nosso mais elevado conceito, o qual jamais é divorciado da ideia do amor. Nesse desenvolvimento espiritual, mui naturalmente aprendemos a amar ao nosso Irmão mais velho, tal como amamos a outros irmãos; e o Espírito Santo o torna real para nós, como uma pessoa. Esses princípios estão acima das realizações humanas, sem a ajuda do Espírito de Deus. (Ver Gl 5:22). Pode-se supor, portanto, que os crentes de Éfeso, embora fossem obreiros cristãos extraordinários, tinham procurado menor e menor comunhão com o Espírito. Suas mentes e suas almas se haviam desviado para coisas menos importantes. A formação de Cristo neles se estagnara, e talvez até tenha revertido, até certo ponto.

    A devoção daqueles crentes se debilitara no período de teste por que passavam. É verdade que a lealdade deles não diminuíra; suas doutrinas não se tinham modificado; suas obras continuavam grandes como antes; mas sua devoção a Cristo empalidecera. A edificação parecia tão boa quanto antes, mas fora atacada por térmitas espirituais, que a tinham esburacado.

    Outras ideias sobre o quarto versículo:

    1.      Consideremos o caso de Maggie. O emprego dela era enfadonho, em uma fábrica. Finalmente ela se casou e começou a trabalhar em sua própria casa, numa ocupação talvez não menos árdua e enfadonha. Após longo tempo, aconteceu-lhe de encontrar-se com uma amiga, na rua. E esta lhe perguntou: «Maggie, você continua trabalhando?» «Não», replicou Maggie, «eu me casei». Ela continuava trabalhando, mas o amor fizera seu trabalho parecer reduzido a nada. O trabalho árduo torna-se uma mera circunstância, quando o amor nos serve de força motivadora.

    2.      O «divórcio», produzido pelo amor que enfraquece, finalmente leva uma comunidade cristã à condição morna e sem interesse espiritual que caracterizava a igreja de Laodicéia. Isso termina em total apostasia. Quão importante, pois, é a devoção a Cristo, inspirada pelo ministério do Espirito Santo em nossas vidas.

    3.      «A religião cristã pode tomar o lugar da devoção pessoal ao Noivo». (Newell, in loc.).
    4.      «O aspecto externo da árvore continuava belo e bem proporcionado como sempre, mas mofo e decadência se tinham instaurado no âmago». (Seiss, in loc.).

    5.      «Primeiro amor… comparar com Jr 2:2. A devoção entusiasta inicial da Igreja por seu Senhor, sob a figura simbólica do amor conjugal». (Vincent, in loc.).

    6.      «A referência óbvia é a perda daquele amor resplendente e todo-absorvente por Jesus, como nosso Salvador pessoal, o qual, no princípio, impelira-os a um serviço consagrado (comparar com Ef 3:16-19 e 4:15,16). Essa ideia é confirmada pelo versículo seguinte, onde a decadência do amor é seguida pela decadência nas obras de justiça. (Ver também Jer. 2:2 e ss.)».

    7.      «Temos aqui o clamor lamentável do Noivo, a relembrar os primeiros dias do amor de sua Noiva, a gentileza de sua juventude, o amor de seus esposórios… É impossível não ver nisso alguma alusão à linguagem do apóstolo Paulo (que deveria ser familiar para os crentes de Éfeso), em Éf 5:23-33, onde o amor humano é apresentado como tipo simbólico do amor divino». (Carpenter, in loc.).

    8.      «Os calorosos sentimentos deles tinham dado lugar a uma ortodoxia sem vida». (Fausset, in loc.).

    9.      «…o amor se esfriará de quase todos» (Mt 24:12).

    10.    «Consideração ciumenta pela pureza moral e doutrinária, lealdade íntima sob os testes, longe da manutenção necessária do espirito de amor, podem coexistir com o espirito de censura, suspeita e contenda. Dai se origina a negligência ao amor fraternal, o que era uma das faltas cardeais do gnosticismo contemporâneo (ver I Jo 2:9 e I Tm 1:5 e ss.)». (Moffatt, in loc.).

    2:5    Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeira obra; e se não, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, te não te arrependem.

    O lembrete divino e piedoso:

    «…Lembra-te…» Exortação à memória piedosa acerca dos dias anteriores, quando a devoção intensa a Cristo era a força motivadora de uma vida piedosa e de um imenso serviço. Notemos a progressão: «relembrar-se», «arrepender-se» e «praticar», os elos dourados da restauração e do progresso da igreja.

    «A verdadeira piedade põe em ação todas as nossas faculdades. Um dos poderes humanos consiste de olharmos para trás, revivendo os acontecimentos e o curso da vida, através da memória. E essa capacidade é a primeira coisa que precisa ser posta em ação, para curar a decadência da vida e do fervor religiosos. As pessoas precisam pensar em seu passado, comparando aquilo que são agora com o que foram. A memória deve relembrar o passado, para que seja posto lado a lado com o presente.

    Quando os apóstolos desejaram levar os crentes judeus à firmeza e constância contínua na fé, ordenavam-lhes que se lembrassem «…dos dias anteriores em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos. Porque não somente vos compadecestes dos encarcerados, como aceitastes com alegria o espólio dos vossos bens…» (Hb 10:32). O Salvador fez a mesma coisa, com alusão aos membros da igreja efésia; e outro tanto deve dar-se no caso de todos nós». (Seiss, in loc.).

    Lembremo-nos de nosso plano mais elevado de realização espiritual. Que tal é a comparação entre aquela condição e a condição de nossa atual vida espiritual? Como primeiro passo de recuperação, procuremos reter a altura antes obtida, e então subamos dali para uma realização espiritual totalmente nova.

    «A percepção de que tem havido declínio, a admissão de que tem havido um lapso, é o primeiro passo de volta ao estado original». (João Bunyan, Graça Abundante).

    «Sempre haverá aguilhões na memória sobre um passado melhor e mais nobre, a espicaçar-nos quando nos temos adaptado a coisas piores e inferiores, a impulsionar-nos a retomar aquilo que perdemos». (Arcebispo Trench).

    «…de onde caístes…» Consideremos estes pontos:

    1. Aqueles crentes tinham caído de sua primeira ardente devoção a Cristo.

    2. Tinham caído de maiores elevações espirituais.

    3. Tinham caído do serviço motivado pelo princípio do amor.

    4. Tinham caído apesar de sua ortodoxia.

    5. Tinham caído a despeito de continuarem a defender a verdade.

    6. Tinham caído apesar de seus labores prodigiosos.

    7. Tinham caído apesar de sua lealdade debaixo da perseguição.

    Percebe-se, através de tais fatos, quão grandes coisas o Senhor espera de nós, e quão profunda pode ser a nossa espiritualidade, embora, ainda assim, possamos ser descritos como quem caiu.

    «…arrepende-te…» O termo grego «metanoeo» significa «mudança de mente», presumivelmente com a correspondente mudança de conduta diária.

    A Natureza Do Arrependimento

    1. Apesar de que esse vocábulo nada mais significa em si mesmo, que uma «mudança-de-mente», nas páginas do N.T., ele adquire muito mais o sentido de «mudança-de-alma», o que se evidencia por meio de atitudes e ações novas.

    2. O arrependimento faz parte da «conversão», e está vinculado ao problema do pecado. (Ver At 20:21, onde a conversão é aludida como algo composto de «arrependimento e fé»). Quando nos convertemos, nos arrependemos. O arrependimento reconhece a natureza prejudicial do pecado, e se rebela contra o mesmo. O Espírito Santo faz essa rebelião tornar-se bem-sucedida. A alma passa a odiar o pecado, embora não possa livrar-se inteiramente do mesmo, senão por ocasião da «parousia» (segunda vinda de Cristo; ver I Jo 1:8). O arrependimento, entretanto, nos conduz a uma santificação de natureza tal que é conseguida a vitória sobre o pecado de maneira que a alma é libertada da servidão a seus vícios. (Ver I Jo 3:9 acerca desse conceito).

    3. O arrependimento é um ato divino: é concedido pelo próprio Deus (ver At 11:18); torna-se realidade por operação do Espírito (ver Zc 12:10), e veio a lume através da missão de Cristo (ver Mt 9:13).

    4. Também é uma reação humana, porquanto os homens são convocados a se arrependerem (ver At 17:30).

    5. Quando genuíno, o arrependimento terá frutos patentes (ver Mt 3:8). É necessariamente acompanhado pela fé (ver At 20:21).

    6. A negligência quanto ao arrependimento resulta no juízo condenatório (ver Ap 2:5,16).

    7. O arrependimento nos leva à vida eterna, pois a conversão resulta na santificação, e a santificação resulta na glorificação e na salvação final (ver II Ts 2:13).

    É o amor divino que nos conclama ao arrependimento, porque grandes são os benefícios do arrependimento, chegando mesmo a deixar a mente humana ofuscada, já que a totalidade da salvação vem por meio dessa atitude, porquanto é do arrependimento que se inicia a salvação. O arrependimento dos perdidos tem prosseguimento no arrependimento dos remidos. A fruição espiritual é o alvo, em ambos os casos; e a fruição espiritual é o desdobramento de nossa grande salvação.

    «O arrependimento não consiste de mera tristeza (embora a tristeza segundo Deus engendre o arrependimento; ver II Co 7:10); mas o arrependimento consiste da mudança de alma. Trata-se do ‘julgamento que temos passado, na presença de Deus, debaixo de sua graça, contra nós mesmos, e contra tudo quanto temos praticado e sido’». (Newell, in loc.).

    Confessemos o mal; tenhamos consciência de sua destrutibilidade; busquemos a mudança positiva no íntimo, a transformação na direção da imagem santa de Jesus Cristo.

    «…volta à prática das primeiras obras…» Literalmente traduzido, o verbo grego seria «faz», e isso no aoristo, o que dá ideia de uma atitude definitiva, a fim de que tais obras sejam constantemente praticadas. As «primeiras obras» não são novas e diferentes modalidades de ação; antes, são as mesmas obras, mas motivadas pelo amor original, de tal maneira que até pareçam novas obras. Mui provavelmente, o vidente João tinha em mente todas as formas diferentes de obras cristãs, como a do evangelismo, a do ensino e a do exercício dos dons espirituais no seio da igreja, que visam a sua edificação; e certamente também estão em foco os atos de bondade, de amor, as práticas altruístas que beneficiam ao próximo. Aqueles irmãos de Éfeso continuavam a praticar todas essas coisas, mas se tinham tornado «diferentes» por serem impelidos por «motivos diferentes». Nada de «ritualista» está aqui em foco. Nenhum «novo» batismo está em pauta, e nem alguma nova confirmação. Antes, é recomendada uma nova devoção, equiparada à devoção original; então, tudo em geral, deverá ser motivado por esse amor rejuvenescido.

    Essa atitude de arrependimento e boas obras pode ser confrontada com a atitude recomendada no Talmude (ver Sanhedrin 32): «Os dois consoladores do homem são o arrependimento e as boas obras».

    «…se não…» A opção nos pertence. A graça divina pode ser acolhida ou repelida. Não podemos subestimar o caos que a vontade pervertida poderá efetuar nas nossas vidas, tal como não podemos subestimar tal atitude da parte dos incrédulos, quanto ao evangelho. Podemos desviar-nos, esfriar na fé, tornar-nos indiferentes, inúteis, ser rejeitados, naufragar e tornar-nos incrédulos e apóstatas. A experiência humana comprova tal possibilidade.

    «…venho a ti…» Consideremos os dois pontos seguintes:

    1. A visitação de Cristo, na igreja de Éfeso (ou em qualquer outra comunidade cristã), para efeito de juízo, está aqui em foco, embora cada caso de visitação seja diferente dos demais casos. Porém, qualquer julgamento severo tende por «remover o testemunho» da pessoa ou da igreja envolvida.

    2. Fica subentendida aqui a «parousia» Quando Cristo voltar, encontrará alguns crentes e igrejas locais despreparados, o que significa que, necessariamente, haverá certo juízo contra os tais. (Ver II Co 5:10 acerca do «julgamento dos crentes verdadeiros»). Cada qual receberá segundo tiver praticado de «bem» ou de «mal».

    «…e removerei do seu lugar o teu candeeiro…» É um fato histórico que o testemunho cristão, antes tão poderoso em Éfeso, desapareceu. O «candeeiro» é a «igreja» e o «testemunho da igreja». A igreja cristã foi removida de Éfeso, e, juntamente com ela, o seu testemunho cristão. Éfeso foi a capital da igreja no mundo gentílico, um poderoso centro de propagação para larga área de atividades. Essa capital foi mudada para o ocidente, e o oriente praticamente se acomodou novamente em suas trevas originais. O escritor de certo comentário, ao descrever uma época cerca de setenta e cinco anos passados, diz-nos que visitou Éfeso, e que ali achou somente três crentes, os quais eram muito ignorantes.

    «Seu candeeiro foi removido do seu lugar por séculos; a esquálida vila islamita mais próxima do antigo sítio da cidade não conta com um único crente, em sua insignificante população; seu templo é uma massa de ruínas disformes; seu porto é uma poça tomada pelos juncos; a galinhola real abunda em meio a seus charcos estagnados e pestilentos; e a malária e o olvido reinam supremos sobre aquele lugar, onde uma antiga civilização resplandeceu, em meio a cenas das mais grosseiras superstições e dos pecados mais degradantes». (Farrar, Life and Work of Paul, ii.43,44).

    Éfeso foi a sede de uma longa linha de bispos orientais. O terceiro concilio geral teve lugar ali, em 431 D.C., a fim de condenar a cristologia de Nestor. Esse concilio se reuniu na igreja de Sta Maria, cujas ruinas até hoje podem ser vistas. Imediatamente em seguida, a cidade entrou em um período de declínio, parcialmente devido a surtos descontrolados de malária. Suas excelentes esculturas foram removidas para outros lugares, principalmente para Constantinopla. No século XIV, os turcos retiraram dali os seus habitantes restantes. Agora a região é escassamente populada, e essa é inteiramente da fé islâmica. No local exato da antiga cidade de Éfeso, restam apenas uma estação de trens e algumas poucas cabanas esparsas.

    Todavia, a igreja original de Éfeso, deu ouvidos à advertência de Cristo, conforme se fica sabendo através da epístola de Inácio aos Efésios, na qual ele os tacha de «dignos de serem bem-aventurados». Em xi.2 dessa epístola, ele expressou o desejo que ele mesmo se achasse «na companhia dos crentes de Éfeso, os quais, outrossim, tinham a mesma atitude mental dos apóstolos, no poder de Cristo». Essa atitude, entretanto, não se manteve, pelo que tiveram lugar as condições acima descritas.

    «Infelizmente, o candeeiro foi removido! O inigualável privilégio de exibir o Cristo, perante este mundo moribundo, perdeu-se para sempre. Diante de mim tenho uma fotografia da atual cidade de Éfeso—um arco arruinado, uma habitação islamita, em um castelo inatingível, em meio a colinas desoladas. Nenhum candeeiro em favor de Cristo, onde Cristo trabalhara por três anos, dia e noite, com lágrimas!»

    «…caso não te arrependas…» Já que somos chamados ao arrependimento, fica entendido que somos capazes de fazê-lo. Deus não impede homem algum de arrepender-se. O intuito inteiro da mensagem do evangelho é contrário a esse conceito. Assim sendo, se alguém busca lugar de arrependimento, sincera e honestamente, haverá de arrepender-se. É conforme disse Moffatt (in loc.): «Fica subentendido que o homem possui o poder de voltar-se e de retornar». O poder da cruz é tão grande que capacita a todos ao arrependimento. (Ver Jo 12:32). Existe uma «graça geral», administrada através da missão remidora de Cristo; há uma «graça específica», que a segue; e ambos esses elementos são poderosos.

    2:6    Tem, porém, isto, que aborreces as obra» dos nicolaítas, as quais eu também aborreço.

    Agora somos levados de volta ao segundo versículo, que fala sobre a «resistência» contra os falsos apóstolos, homens «maus» e «mentirosos», conforme são ali chamados. O segundo versículo apresenta os «líderes» da seita desviada; e este versículo aponta para os «discípulos» deles, ou para a seita em geral. Seja como for, o mais provável é que as pessoas, referidas nos versículos segundo e sexto, sejam as mesmas.

    «…nicolaítas…» Não há certeza absoluta quanto à identidade dessa seita, embora abaixo apresentemos as ideias centrais a respeito:

    1.      O próprio vocábulo, no grego, significa «dominadores do povo». Na opinião de alguns, o povo seriam os «leigos». E daí tiram a suposição que está em foco a manifestação inicial das «ordens sacerdotais» ou «clero». Nesse caso, seria aqui combatida a formação de um clero profissional; e, no décimo quinto versículo deste mesmo capítulo, estão em foco vários desvios da doutrina, em associação a essa circunstância. Mas essa interpretação dificilmente se adapta à situação histórica em que as heresias sérias surgiram. Essa «seita» era de natureza libertina, que procurava solapar o imperativo moral do evangelho. Dificilmente poderíamos dizer que esteja em foco o clero, em seus primeiros passos.
    2. Alguns estudiosos associam essa seita a Nicolau, prosélito de Antioquia, um dos sete discípulos originais de Jerusalém (ver At 6:5). Isso supõe que assim como os doze tiveram um apóstata dentre seu número, que outro tanto sucedeu aos sete. Em favor dessa interpretação há passagens em Irineu i.26 e iii.l 1.1 e em Hipólito (Philos. vii.36). Mas este último dependeu de Irineu. Outros eruditos pensam que o Nicolau original foi meramente indiscreto, pois, possuindo uma bela esposa, e sentindo que outros lhe tinham inveja por essa razão, chamou os apóstolos e outros líderes e ofereceu-a a qualquer deles que a quisesse. No entanto, a maioria dos estudiosos o tem como um apóstata franco. Apesar de ser possível que Nicolau tenha estado associado à Ásia Menor, e com Éfeso em particular, também é possível que o próprio Irineu estava «esclarecendo» este versículo mediante uma conjectura, não havendo, portanto, qualquer confirmação histórica para tal ideia. O apóstolo Nicolau, conforme diz a própria narrativa, tornou-se líder de uma seita gnóstica antinomiana. Parece terem participado de festas idólatras, incorporando imoralidade e sensualidade em suas práticas, no que seguiam à comum tradição gnóstica.

    3. Em época posterior, houve uma seita gnóstica conhecida por «os nicolaítas», a qual é mencionada por Tertuliano (ver Praesc. Haer. 33; Adv. Marc. i.29 e De Pudicitia, 19), que também era de índole gnóstica. Clemente de Alexandria ii.20.118; iii.4.25 e as Constituições Apostólicas vi.8, juntamente com Vitorisino, fizeram a tentativa de mostrar que essas duas seitas não tinham nenhuma vinculação entre isso, e essa posição quase certamente é a correta, ainda que alguns intérpretes tenham imaginado a identificação das duas. O livro de Apocalipse foi escrito muito antes desse tempo, para referir-se à segunda dessas seitas do mesmo nome.

    4. Ou então poderíamos pensar que o Nicolau em foco foi um personagem histórico, que residia em Éfeso ou naquela área em geral, embora não deva ser identificado com o homem do mesmo nome, que era de Jerusalém. Nesse caso, quase certamente, ele foi líder de uma forma de seita gnóstica, de tendências libertinas, embora ele mesmo não seja conhecido na atualidade, fora do presente contexto.

    5. Finalmente, há aqueles que supõem que não devemos imaginar que «Nicolau» fosse o nome de alguma pessoa real e viva, mas que tudo não passa de um título—«dominador do povo» ou «destruidor do povo»— escolhido para representar a heresia que havia em Éfeso e que ameaçava à igreja cristã dali. Até mesmo nesse caso, é quase certo que alguma forma de gnosticismo esteja sob consideração.

    Muitos intérpretes identificam os nicolaítas com os seguidores de Balaão, aludidos no décimo quarto versículo deste capítulo, ou supõem que ambos os grupos eram apenas representantes locais de uma mesma heresia gnóstica. Provavelmente essa posição é a correta. E algo que é quase fora de dúvida é que a heresia da Ásia Menor, quando foi escrito o livro de Apocalipse, e que era uma praga para as igrejas locais, era uma forma de gnosticismo, sem importar o que devemos pensar acerca dos títulos específicos dados a seus ramos. O segundo versículo explica alguns aspectos do gnosticismo, e o trecho de Cl 2:18 tem a nota de sumário sobre essa heresia. Nada menos de oito livros do N.T. foram escritos para combater ao gnosticismo, a saber: Colossenses, as três epístolas pastorais, as três epístolas joaninas e Judas. Os gnósticos criam que a matéria é o princípio mesmo do mal, e que o «sistema deste mundo» visa destruir finalmente à matéria. Poderíamos ajudar nesse processo, mediante o abuso contra o corpo, efetuado através do ascetismo (o tipo de gnosticismo combatido na epístola aos Colossenses), ou através da licenciosidade extrema (o tipo combatido nos outros sete livros mencionados, e que também é a variedade aqui focalizada). Os gnósticos removeram do evangelho o «imperativo moral», não vendo no mesmo nenhuma função «santificadora». Em sua suposta elevada «sabedoria» (mediada pelas artes mágicas, pelo cerimonialismo e por um falso misticismo), imaginavam-se «isentos» das exigências morais. Não há que duvidar que muitos deles usavam passagens de escritos paulinos, como o décimo quarto capítulo da epístola aos Romanos ou o oitavo capítulo da primeira epístola aos Coríntios, para ensinarem que tudo era questão «indiferente», e não meramente a observância externa de dias santificados, carnes, bebidas, etc., conforme Paulo ensinara. Portanto, tinham tendências «antinominianas» extremas. Em outras palavras, não havia lei moral no evangelho deles. Os gnósticos levaram a tal extremo as suas perversões que chegaram a declarar que os anjos vinham assisti-los e influenciá-los a que participassem de todas as formas de deboche, a fim de ganharem «experiência», mediante a qual obteriam «conhecimento». O termo grego «gnosis» significa «conhecimento»; e desse termo é que o nome deles se derivava.

    O evangelho autêntico, naturalmente, se caracteriza por exigências morais mui rígidas. De fato, sem a santificação «…ninguém verá o Senhor» (Hb 12:14). E a «santificação» é uma necessidade imprescindível para a salvação (ver II Ts 2:13). O gnosticismo contava com muitos erros doutrinários, além de erros morais. Se porventura o gnosticismo houvesse ganho a batalha, o cristianismo ter-se-ia tornado apenas em uma outra religião misteriosa, greco-romana oriental.

    «…odeias as obras dos nicolaítas…» Essas «obras» eram suas ações pervertidas e imorais. (Ver Ap 2:14,20). Provavelmente, também devemos compreender aqui o fato que procuravam «solapar» a unidade da igreja, sendo essa uma das obras abominadas. A verdade é que essa heresia continuou solapando à igreja por cento e cinquenta anos. Eles semearam a contenda e a confusão na igreja. (Quanto a evidências acerca disso, na era apostólica, ver I Jo 2:18 ss.).

    Notemos a atitude correta para com o pecado. Os verdadeiros crentes «odeiam» à imoralidade, conforme aqueles crentes odiavam os ataques da citada seita. Portanto, no versículo segundo deste capítulo, lemos que os efésios não podiam «suportar homens maus». Quando somos fiéis a alguém, precisamos repreender seus pecados e erros; mas isso deve ser feito com o intuito de conquistar tal pessoa, e não de afastá-la, pelo que não se pode usar de espírito orgulhoso e altivo, conforme, com frequência, se verifica.

    «Vós, que amais o Senhor, detestai o mal…» (Sl 97:10).

    «Por meio dos teus preceitos consigo entendimento; por isso detesto todo caminho de falsidade». (Sl 119:104).

    «Seis coisas o Senhor aborrece, é a sétima a sua alma abomina… o que semeia contendas entre irmãos» (Pv 6:16-19).

    Outras ideias sobre este sexto versículo:

    1. Dizem alguns que os nicolaítas eram idênticos aos seguidores de Balaão, porque Nicolau seria a tradução de Balaão, para o grego. Vários eruditos têm mantido esse ponto de vista, mas a maioria dos estudiosos modernos rejeita o mesmo. Contudo, não pode haver dúvidas razoáveis que tanto os seguidores de Balaão como os nicolaítas eram ramos representativos do gnosticismo. Não há motivo para duvidarmos da historicidade de tais seitas. Não são mencionadas neste capitulo meramente como símbolos com propósitos didáticos. A história mostra-nos a realidade histórica de variegadas seitas gnósticas.

    2. «É possível que um mesmo ramo antinominiano se tenha dividido em três formas: a. uma forma doutrinária (os nicolaítas); b. uma forma mundanizada (os seguidores de Balaão); e c. uma forma espiritualista (os seguidores de Jezabel)». (Comentário de Lange). Embora talvez não tenhamos motivo para fazer tal divisão, é provável que os vários problemas enfrentados pelas igrejas da Ásia Menor tenham tido uma raiz comum.

    3. A identificação de Nicolau, aludido em Atos 6:6, com a seita aqui mencionada, pode ter sido meramente uma conjectura, da parte de alguns dos primeiros pais da igreja. Por outro lado, poder-se-ia argumentar, logicamente, que não era do interesse da tradição posterior destruir a reputação de qualquer crente neotestamentário revestido de autoridade na igreja. É possível que o próprio Nicolau não fosse culpado de sensualidade, mas apenas indiscreto, porque seu oferecimento de sua própria esposa, a qualquer que quisesse possuí-la, pode ter sido interpretado como uma tentativa de estabelecer uma «comunidade de esposas». (Ver Clemente de Alexandria, Strom. 1.3, Pág. 436 e Eusébio, História Eclesiástica 1.3, cap. 29; quanto à narrativa do ato indiscreto de Nicolau). Algumas seitas gnósticas, na realidade, tinham esposas em comum.

    2:7    Quem tom ouvidos, ouço o que o Espirito diz as igrejas. Ao que vencer, dar-lhe-ei o comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.

    «…Quem tem ouvidos, ouça…» Essa fórmula introduz as «promessas» feitas às igrejas, nesta e nas próximas duas cartas do Apocalipse. Nas outras quatro cartas, porém, a fórmula segue-se às promessas feitas. Sem importar a ordem, trata-se de uma solene chamada, para que se aplique o que se acaba de ouvir. Já que Cristo Jesus é apresentado como quem fala, não admira que a forma de expressão seja similar a declarações genuínas de Jesus, nos evangelhos. (Ver Mc 4:9,23; 7:16; Mt 11:15; 13:9,43; Lc 8:8 e 14:35). A expressão, no dizer de Vincent (in loc.): «…é usada sempre acerca de verdades radicais, grandes princípios básicos e grandes promessas». As sete cartas deveriam ser «lidas» nas igrejas (ver Ap 1:3). Poucas pessoas poderiam «lê-las» pessoalmente. Mas todos poderiam «ouvir» a leitura dessas instruções. Portanto, já que eram capazes de ouvir, porque seu aparelho auditivo estava em funcionamento, então deveriam ter a sabedoria de dar ouvidos e de pôr em prática o que lhes era dito, o que evitaria que fossem condenados.

    O ouvido que ouve. «Um dos mais solenes estudos da Bíblia inteira é aquele concernente ao ‘ouvido que ouve’. No fim dos quarenta anos que passou no deserto, Moisés diz a Israel que embora tivessem visto tantos prodígios, Jeová não lhes dera, como nação, olhos para verem e ouvidos para ouvirem! (Ver Dt 29:4). E quando já se achavam na terra de Canaã, também não deram ouvidos aos mensageiros de Deus, os profetas; e a Isaías foi ordenado que ordenasse judicialmente a que tornasse ‘…insensível o coração deste povo…’, endurecendo lhe os ouvidos e fechando-lhe os olhos, a fim de que não vissem com os olhos, ouvissem com os ouvidos, se convertessem e fossem curados’ (Is 6:10). E Jeremias clama: ‘Ouvi agora isto, ó povo insensato e sem entendimento, que tendes olhos e não vedes, tendes ouvidos e não ouvis’. E continuou ele ainda a dizer que o coração daquela gente engordara devido à prosperidade, que seus ouvidos se embotaram para ouvir (literalmente, ouviam pesadamente, ou seja, de forma lenta e imperfeita), e seus olhos se tinham fechado (no hebraico, ‘ficaram lambuzados’). Essa citação de Isaías não dá lugar à interpretação fatalista sobre esta passagem, mas põe toda a culpa sobre o endurecimento de coração e o despreparo dos ouvintes, motivo por que a pregação da Palavra, neste mundo, serve apenas para maior obscurecimento e condenação dos tais». (Alford, in loc.). Jeová dissera a Ezequiel (12:2): «Filho do homem, tu habitas no meio da casa rebelde, que tem olhos para ver, e não vê, tem ouvidos para ouvir, e não ouves…» O ouvir sem a devida reação positiva produz a ilusão fatal—a capacidade dos homens se esquecerem do que diz Tg 1:22,24. «Não me quiseram ouvir» é a constante queixa de Deus, através dos profetas.

    Nosso Senhor chegou até a dizer para seus discípulos, no barco (ver Mc 8:17,18): «…ainda não considerastes, nem compreendestes? tendes o coração endurecido? tendo olhos, não vedes? e, tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais…» Sim, a verdade divina nos entra pelos ouvidos; e aquele ato da vontade, que dá acolhida à Palavra, se chama «dar ouvidos», o que, algumas vezes, envolve a «inclinação» do ouvido (para longe de tudo o mais).

    Ora, por nada menos de sete vezes nos evangelhos, e por oito vezes neste livro de Apocalipse—sete vezes para essas igrejas! reboa aquela chamada vital, aberta e particular, para quem quisesse ter ouvidos abertos: ‘Quem tem ouvidos, que ouça!’

    Não sabeis que a maioria dos leitores e ouvintes do livro de Apocalipse não ‘ouvirá’ realmente, no sentido tencionado pelo Senhor—um deixar cair no ouvido, pessoal, separando’ palavra por palavra?

    «Seiss observou como segue: ‘Pescadores e cobradores de impostos, ao darem ouvidos a Jesus, terminaram sentados em tronos apostólicos, ministrando quais sacerdotes e ministros da dispensação, ampla como o mundo e duradoura como o tempo’» (Newell, in loc.).

    «…O Espírito diz…» No livro de Apocalipse, tal como no N.T., inteiro, o Espírito Santo é o «alter ego de Cristo», o seu porta-voz, o poder divino que dá prosseguimento à sua obra, dentro e fora da igreja. O «Espírito Santo» não é a mesma coisa que os «sete espíritos». (Ver acerca dos «sete espíritos», em Ap 1:4).

    «…às igrejas…» Quais? As sete igrejas da Ásia Menor, para onde foi originalmente enviado o livro de Apocalipse, em que cada delas recebeu uma «carta», constante nos capítulos dois e três deste livro. Naturalmente, elas representam a «igreja universal».

    «…ao vencedor…» Consideremos os pontos seguintes, a esse respeito:

    1. O vencedor seria o que permanecesse fiel a Cristo, opondo-se aos hereges gnósticos.

    2. Seria aquele que desse ouvidos à admoestação de retornar ao «primeiro amor» e à prática das «primeiras obras».

    3. Seria aquele que repelisse a mensagem sem moral dos nicolaítas (gnósticos), mantendo a pureza de fé e de prática.

    4. Seria aquele que permanecesse constante, sob as perseguições.

    5. Seria aquele que, conforme se vê em todas essas cartas, fizesse o que lhe é dito que faça, opondo-se ao que lhe fosse ordenado opor-se.

    Todo Crente Genuíno É Um Vencedor

    1. Com base em Ef 6:11 e ss., aprendemos que não existe crente verdadeiro que também não seja um soldado. Ora, o soldado está envolvido em uma guerra, não sendo mero espectador dos lances. Conta com a armadura de Deus e a usa. Domina e vence o mal.

    2. Coisa alguma foi prometida àqueles que não se mostrarem vencedores nessa luta. Cada uma das sete epístolas do Apocalipse promete algo ao «vencedor». Nenhuma promessa é oferecida a qualquer outra qualidade de pessoa.

    3. Cristo é o vencedor-mor. Ele é o nosso exemplo. Ver Ap 3:21; 5:5 e 17:14 quanto a esse título, que lhe é aplicado. Ver acerca da metáfora baseada na vida militar, em Ef 6:10-20.

    «…dar-lhe-ei…» Temos aqui, no original grego, o tempo futuro do verbo «didomi», o que se repete em Ap 2:10,17,23,26,28; 3:8,21; 6:4; 11:3 e 21:6, onde há várias promessas feitas por Cristo. A Cristo foi dado todo o «poder» ou «autoridade» (ver Mt 28:18). Cristo pode dar esse galardão agora, mas certamente o fará quando de sua segunda vinda (ver I Ts 4:15), ou quando do juízo final (ver II Co 5:10).

    «…se alimente da árvore da vida…» A promessa. João, o vidente, leva-nos de volta ao jardim do Éden, e assegura-nos que aquilo que foi «espiritualmente perdido» através do pecado, pode ser recuperado em Cristo, e, de fato, será recuperado por todos os «vencedores». A questão do «comer» é simbólica, apontando para a obtenção da vida eterna e da nutrição espiritual, com satisfação de toda e cada necessidade. Comparemos com o comer do Pão da vida, em João 6:48. Aquele que se alimenta desse Pão, assume a própria forma de vida e a própria natureza do Filho, porquanto seus efeitos alimentares são transformadores. Espiritualiza ao ser inteiro, de tal modo que este vem a participar de toda a plenitude de Deus, de sua modalidade de vida (ver Jo 5:25,26 e 6:57), de sua natureza e atributos (ver Ef 3:19). Isso, naturalmente, envolve muito mais que a restauração do que se perdera no «Éden». Obteremos certa forma da «imortalidade», aquele tipo de vida que possui o próprio Deus Pai. Naturalmente, não há neste ponto qualquer alusão a alguma árvore literal. Essa «árvore» simboliza a transmissão da vida eterna aos homens. (Ver Jo 3:15 quanto a esse conceito). Nos capítulos vigésimo primeiro e vigésimo segundo deste capítulo, é descrito o «novo paraíso». Portanto, neste ponto, nos é assegurado que, nesse novo Paraíso, na qualidade de cidadãos do mundo eterno e celestial, teremos uma imensa vida espiritual, a própria vida «independente» e «necessária», a vida que tem em si mesma a origem da vida, que não pode deixar de existir.

    Portanto, se Adão tornou-se um ser mortal, embora, antes do pecado fosse um imortal de baixa categoria, em Cristo, tornamo-nos imortais da mais elevada categoria, participantes da própria vida de Deus Pai; assim sendo, seremos mais altos do que os próprios anjos, tal como o Filho de Deus é muito mais elevado do que eles, os quais são referidos apenas como fumaça ou chamas, em comparação com Cristo. (Ver Hb 1:7).

    É deveras lamentável que, na igreja evangélica de hoje em dia, a «salvação» é reduzida apenas ao perdão de pecados e à futura mudança de endereço para os céus. Na verdade, a salvação consiste daquilo que acontece conosco, a espiritualização dos nossos próprios seres, mediante a qual assumimos, mui literalmente, a própria espécie da natureza de Cristo, ou seja, compartilharemos de seus atributos e de sua glória. Isso é o que está envolvido no fato que nos alimentaremos da árvore da vida, nos mundos eternos. (Pode-se ver o simbolismo místico da «árvore», em Pv 3:18; 13:12; 11:30 e 15:4).

    «O comer da árvore da vida expressa a participação na vida eterna. O simbolismo da árvore da vida aparece em todas as mitologias, desde a índia até à Escandinávia. Os rabinos judeus e islamitas chamavam o vinho de ‘árvore da provação’. O Zend Avasta tem a sua própria árvore da vida, chamada de ‘Destruidora da Morte’. Ela medraria próximo às águas da vida, e o beber de sua seiva conferiria a imortalidade. A árvore da vida dos hindus é retratada como árvore que medra de dentro de um grande mar, em meio à expansão das águas. Teria três galhos, cada um coroado por um sol, denotando os três poderes da criação, da preservação e da renovação, após a destruição. Em uma outra apresentação, Buda aparece a meditar, assentado debaixo de uma árvore com três galhos, cada um dos quais, por sua vez, tem três ramos. Um dos cilindros babilônicos, descobertos por Layard, representa três sacerdotisas a juntarem o fruto do que parece ser uma palmeira, com três ramos de cada lado. Ator, a Vênus dos egípcios, aparece meio oculta nos ramos do pessegueiro sagrado, entregando o seu fruto às almas que partem, bem como a dar-lhes a bebida do céu, mediante um vaso, de onde as correntes da vida descem sobre o espírito, uma figura ao pé da árvore, como se fora um falcão, com uma cabeça humana e com mãos estendidas. Na mitologia norueguesa, há uma figura proeminente, Igdrasil, a árvore-cinza da existência; suas raízes estão no reino de Hela, ou Morte, seu tronco atinge os céus, e sua copa se espalha pelo universo inteiro. A seus pés, no reino de Morte, estão assentadas três Noms ou Sortes, o Passado, o Presente e o Futuro, a regarem suas raízes com água retirada do poço sagrado. Comparar com Ap 12:2,14,19. Virgílio, dirigindo-se a Dante, ao terminar a descida no monte do Purgatório, diz:

    Aquela doce maçã, embora com tantos ramos,

    E que os mortais perseguem com zelo,

    Hoje satisfará aos teus desejos.

    (Purgatório, xxvii.115-117) (Vincent, in loc.).

    «A narrativa do livro de Gênesis fala de uma árvore, cujo fruto foi proibido. A mensagem aos crentes de Éfeso fala de uma ‘árvore da vida’, que os crentes vitoriosos receberão permissão de comer. Após a provação vem a satisfação. Existem certas coisas que só podem ser dadas aos homens, em segurança, depois de haverem sido disciplinados, mediante firmeza, sob as pressões da vida, quando chegam à força autêntica. O crente deseja satisfazer às condições para comer da árvore da vida. Essa árvore sugere uma disciplina nobre, e não a concupiscência desregrada. Francis Thompson, em um poema intitulado ‘Her Portrait’, fala sobre:

    Um triste músico…

    A tocar a ouvidos alheios, que não davam valor

    À música não-compreendida do firmamento.

    «É um pensamento que nos faz meditar sobre aquele que mostra que o ou­vido precisa ser treinado para a música celestial, da mesma maneira que o paladar deve ser treinado para o alimento celestial». (Hough, in loc.).

    «A vitória pessoal sobre o mal é o condição sem a qual ninguém comerá da árvore da vida». (Charles, in loc.). Trata-se da mesma verdade, declarada sob outros termos, em Hb 12:14: «Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor». A santificação é absolutamente necessária à salvação, conforme se aprende em II Ts 2:13 e Rm 6:22.

    Aqueles que evitassem as libertinagens dos nicolaítas, eventualmente ficariam plenamente satisfeitos com a abundância da árvore da vida. (Isso pode ser comparado ao trecho de Ap 22:2,14, quanto a sobre a «árvore da vida»). Foi o madeiro da árvore da cruz que possibilitou a realidade da árvore da vida (ver Cl 1:20). Mas essa vitória deve ser aplicada, mediante a lealdade a Cristo, na batalha contra o mal e na aquisição de sua própria santidade, através do poder do Espírito Santo. O pecado humano terminou a possibilidade de chegarmos naturalmente à árvore da vida (ver Gn 3:24). Mas Cristo, em sua missão terrena, reverteu essa derrota. Todavia, a sua vitória só será compartilhada pelos vencedores, no sentido que participarão de sua própria vida e natureza. O primeiro capítulo da epístola aos Efésios mostra que todos, de alguma maneira, em uma grande restauração geral, tendo a Cristo como Senhor e Cabeça, haverão de receber benefícios do que ele realizou.

    O paraíso de Deus. Tal como sucede a muitos conceitos que foram elaborados através dos séculos, o do paraíso não tem um único sentido simples, e, sim, diversos significados, dependendo do autor, a saber:

    1. O próprio vocábulo vem do persa, e tem o sentido de «jardim», terreno ou celestial, ou seja, um «lugar de deleite», de «descanso», de «refrigério». Na Septuaginta grega, o termo foi aplicado ao Jardim do Éden. (Ver Gn 2 e ss.; Filo; Josefo. Antiq. 1,37; Oráculos Sibilinos 1,24; 26,30).

    2. Foi apenas natural que o termo viesse a ser aplicado aos conceitos do após-vida, quando as almas justas encontrarem um lugar de descanso dotado de magnificente beleza, riquezas, e vida eterna. Por isso, os rabinos faziam dele um equivalente ao «seio de Abraão»; ou seja, a porção boa do hades. Esse uso se reflete em Lc 16:22, e talvez também em Lc 23:43. Outro tanto figura em En. 32,3; Testamento de Levi 18:10; Sib. or. fgm. 3,48, e muitas passagens das pseudoepígrafes do A.T.

    3. Os judeus supunham que existem sete céus, e, presumivelmente, tudo, com exceção da própria habitação de Deus, poderia ser chamado de «paraíso». Seja como for, o «paraíso» indicava um estado «intermediário», e não a habitação mesma da divindade. Portanto, em II Co 12:2,4, é quase certo que Paulo identifica o «terceiro» céu (dentre muitos níveis celestes), com o «paraíso».

    4. Mas, sendo muito flexível essa palavra, não é de estranhar que seja usada para indicar a presença de Deus, os céus mais elevados, mui provavelmente o que está em foco no presente versículo. (Ver as descrições sobre a «Nova Jerusalém», a capital dos novos céus e da nova terra, nos capítulos vinte e um e vinte e dois do presente livro, podendo-se observar que a «árvore da vida» estará localizada ali. Portanto, a «Nova Jerusalém» é identificada com o «paraíso», pelo vidente João.

    Os únicos empregos desse vocábulo, nas páginas do N.T., são aqueles sobre os quais já fizemos alusão, na discussão acima, Lc 23:43; II Co 12:4 e Ap 2:7. E, em todos esses três casos, os usos são diferentes.

    Para o vidente João, o paraíso é o Éden celestial, onde os remidos participarão da vida eterna, o que chamamos de «céus» ou «lugares celestiais», embora, em outros trechos, mais adiante, ele identifique esse paraíso com a Nova Jerusalém, a qual será um lugar específico dos lugares celestiais. Ali é que se encontrará o paraíso «de Deus», o que dá a entender que ali os homens serão conduzidos à presença de Deus, ou seja, à sua própria habitação, com suas bênçãos prodigiosas, o que não poderá ser atingido, a não ser mediante a vitória que obtemos por meio de Cristo.

    Bibliografia R. N. Champlin

  • Lição 1 – Editora Betel – Chaves para a leitura do Apocalipse

    Texto Áureo 

    “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou e as notificou a João seu servo”. Ap 1.1

    Verdade Aplicada 

    O Apocalipse é um livro aberto, cheio de símbolos, profecias, juízos e condenações, mas re­levante, majestoso e apoteótico.

    Objetivos da Lição

    • Introduzir de modo provei­toso e prazeroso o estudo do Apocalipse.
    • Oferecer informação à identi­ficação correta de personagens e fatos do Apocalipse.
    • Corrigir possíveis erros de interpretação.

    Textos de Referência

    Ap 1.3        Bem-aventurado aque­le que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guar­dam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.

    Ap 1.12      E virei-me para ver quem falava comigo. E, virando-me, vi sete castiçais de ouro;

    Ap 1.13      E, no meio dos sete castiçais, um semelhante ao Filho do Homem, vestido até os pés de uma veste comprida e cingido pelo peito com um cinto de ouro.

    Ap 1.14      E a sua cabeça e ca­belos eram brancos como lã branca, como a neve, e os olhos, como chama de fogo;

    Ap 1.15      E os seus pés, seme­lhantes a latão reluzente, como se tivesse sido refinado numa fornalha; e a sua voz, como a voz de muitas águas.

    Ap 1.16      E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.

    A Relevância do Apocalipse

    “Sobe para aqui”, diz-lhe a misteriosa voz (Ap 4:1); e João é transportado para dentro de regiões tão estranhas e remotas que muitos cris­tãos hesitam em explorá-las com ele. Os evangelhos e as cartas são ter­ritórios mais familiares e mais acessíveis. Será que este extraordiná­rio livro do fim da Bíblia, pertencente (em mais de um sentido) a um mundo inteiramente diferente, tem algo a ver com o pragmatismo de vida do século XXI?

    Desde o princípio, no entanto, o livro do Apocalipse afirma ter sido escrito para o benefício, não de uma minoria da igreja, mas de todos; e não para a sua própria época somente, mas para a igreja em todas as épocas. Como todo o resto da Bíblia, o Apocalipse fala hoje.

    A Relevância do Título

    Os dois volumes de história escritos por Lucas (o Evangelho e Atos dos Apóstolos) foram escritos para uma pessoa chamada Teófilo (Lc 1:3; At 1:1). Apesar disso, não temos nenhuma dúvida de que o que foi escrito para Teófilo é para leitores de qualquer época. As cartas de Paulo foram escritas especificamente a grupos de cristãos espalha­dos pelo Império Romano. Entendemos que o que o apóstolo escre­veu a eles se aplica igualmente a nós. Todos os escritos do novo Tes­tamento foram destinados especificamente para os cristãos do primei­ro século, mas não hesitamos em aceitar sua relevância para os cris­tãos modernos. Ora, se agimos assim a respeito dos livros que foram escritos especificamente para pessoas ou grupos de pessoas, quanto mais as partes do Novo Testamento que foram escritas especificamente para os cristãos em geral!

    O título (Ap 1:1-3) diz que o livro do Apocalipse é desse tipo. É a revelação de Jesus Cristo, dada por Deus aos seus servos. Se eusou um dos que servem ao Senhor, então este livro é para mim, ape­sar do conteúdo me parecer irrelevante à primeira vista. É necessário perseverar na leitura para que eu venha a alcançar a bênção prometi­da pelo autor (1:3).

    A Relevância da Saudação

    Apesar de no título João indicar que a sua mensagem é para os ser­vos de Cristo em geral, na dedicatória (1:4-8) ele diz estar escreven­do em particular para as sete igrejas na Ásia. O que João envia àque­las igrejas é algo mais do que as breves cartas contidas nos capítulos 2 e 3. O livro inteiro é a carta e na frase final do livro aparecem as pa­lavras de despedida (22:21). Assim, tanto a frase do título “aos seus servos” como a frase da dedicatória “às sete igrejas que se encontram na Ásia” referem-se ao livro do Apocalipse como um todo. O que João escreve em forma de carta a um grupo de igrejas do primeiro século é de fato uma mensagem a todos os cristãos sem distinção. O princí­pio e o fim do Apocalipse colocam-no na mesma categoria das car­tas de Pedro e de Paulo, de Tiago e de Judas, escritas, a princípio, em função de situações enfrentadas pela igreja primitiva, mas que conti­nham verdades apostólicas que, na intenção de Deus, deveriam ser­vir à igreja em todas as épocas. O Apocalipse não é um mero apêndi­ce à coleção de cartas que constituem a parte central do Novo Testa­mento. É, na realidade, a última e a mais grandiosa de todas essas car­tas. O Apocalipse é tão abrangedor quanto Romanos, tão glorioso quanto Efésios, tão prático quanto Tiago e Filemon, e tão relevante para o mundo moderno quanto qualquer uma delas.

    A Relevância da Cena de Abertura

    Vamos agora deixar de lado o título e a dedicatória (1:1-8) e vamos roubar uma prévia da primeira cena do grande drama onde vemos o Cristo vivo (ressurreto) ditando a João as cartas para as sete igrejas. A igreja em Pérgamo ele diz: “Tenho, todavia, contra ti algumas coi­sas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão (2:14). A igreja em Tiatira ele diz: “Tenho, porém, contra ti o tolerares que esta mulher, Jezabel…. (2:20). Vejamos o que podemos aprender des­ses versículos.

    Foi no tempo de Moisés, provavelmente no século XIII a.C., que Balaão iludiu o povo de Deus com um ensino falso. Em Pérgamo, 1.300 anos mais tarde, encontramos o mesmo falso ensino iludindo novamente o povo de Deus. Foi no nono século a.C. que Jezabel, esposa do rei Aca­be, causou semelhante confusão no meio do povo de Israel. Novecen­tos anos mais tarde encontramos, em Tiatira, não somente os ensinos de Jezabel, mas a sua própria pessoa uma vez mais em evidência.

    É evidente que Cristo não está falando da reencarnação de Je­zabel, mas sim da repetição de um modelo. A história bíblica está re­pleta de repetições desse tipo. Assim, por exemplo, a pregação de Je­sus repete as circunstâncias da pregação de Jonas (Mt 12:39ss), e o erguimento do filho do homem sobre a cruz repete o levantamento da serpente de bronze por Moisés (Jo 3:14). Da mesma forma João Ba­tista não somente relembra, mas em certo sentido é o profeta Elias que viveu séculos antes (Mt 11:14).

    A carta aos Hebreus, cuja raiz está no Antigo Testamento, apre­senta muitos outros exemplos. A mensagem de Deus, que veio com urgência através da boca de Davi, dizendo: “hoje, se ouvirdes a sua voz…., era uma mensagem tão urgente para os cristãos hebreus que a ouviram mil anos depois de Davi, como havia sido para os contem­porâneos de Moisés que a ouviram trezentos anos antes de Davi (Hb 3:7—4:10). Adentrando mais no passado verificamos que o juramen­to feito por Deus a Abraão tem para nós o mesmo valor e força que teve para Abraão (Hb 6:13-18). E voltando ao mais remoto ponto da história humana vemos Abel expressar sua fé no sacrifício que ofere­ceu a Deus, e que mesmo hoje “depois de morto, ainda fala” (Hb 11:4). Assim como em todas as gerações a má influência de Balaão e Jeza­bel pode reaparecer, Deus também, em sua misericórdia, repete cons­tantemente as grandes verdades da salvação; como o profeta disse, elas “renovam-se a cada manhã” (Lm 3:23).

    Precisamos, então, dar pleno significado ao tempo presente dos verbos a que acabamos de nos referir. A urgência de Hebreus 3:7, que pode ser traduzida “o Espírito Santo está dizendo:hoje…se ouvirdes a sua voz’” pode ser comparada à frase sete vezes repetida em Apoca­lipse 2 e 3, que poderíamos traduzir de maneira semelhante: “ouvi o que o Espírito Santo está dizendo às igrejas”. O que temos em Apoca­lipse 2 e 3 é uma reafirmação de certas verdades do mundo espiritual, tão reais nos dias de João como haviam sido nos dias de Jezabel, e não menos relevantes para nós hoje. A promessa de bênção, no princípio e no fim do Apocalipse (1:3; 22:7) é para todos aqueles que leem, ou­vem e guardam as palavras desta profecia, sem distinção de tempo.

    Uma Consequência Importante

    Se é, de fato, assim, chegamos então a uma conclusão de certa importância.

    Antes mesmo de chegar ao segundo versículo do primeiro capí­tulo, defrontamo-nos com três questões importantes que há tempo vêm exercitando a mente dos críticos e comentaristas. O nome Apocalip­se (apokalypsis, no grego) não somente nos diz que é uma revelação de grandes verdades acerca de Jesus Cristo, mas também vincula o li­vro a um tipo particular de literatura judaica chamada “literatura apocalíptica”. A pergunta que se segue em função desta relação é: Até que ponto João pretendia que o seu livro fosse lido como sendo uma lite­ratura apocalíptica? E, por causa disso, quanto é necessário conhecer sobre a literatura apocalíptica para que se possa entender o Apo­calipse de João? A segunda questão é o próprio João. Será ele, de fa­to, João, o apóstolo, o filho de Zebedeu, o mesmo que escreveu o evan­gelho e as três cartas, ou será que esta visão tradicional dos fatos é vul­nerável, o que significa que o autor poderia ter sido outra pessoa, mas com o mesmo nome e com a mesma autoridade. A terceira questão é pertinente aos “servos” a quem o livro é endereçado. É evidente que poderíamos entender melhor o livro se pudéssemos saber exatamen­te quem são os servos e quais as circunstâncias e necessidades às quais João estava se dirigindo.

    O fato de que questões como essas foram tratadas de forma su­mária na introdução não quer dizer que não sejam importantes; mas faz-se necessária uma advertência. Quando o leitor se depara com algo que lhe parece obscuro no livro do Apocalipse, ele pode ser levado a pensar: “se eu tão somente tivesse um conhecimento mais profundo da literatura judaica, ou da história romana, ou da filosofia grega, es­ses mistérios estariam esclarecidos”. Tenho certeza de que isso é ilu­sório. Pois o número de servos do Senhor equipados com este tipo de conhecimento será sempre relativamente pequeno porque “não foram chamados muitos sábios” (1 Co 1:26), e a mensagem do Apocalipse, como já vimos, é endereçada a todos os servos do Senhor sem distin­ção. O valor principal do livro deve ser, portanto, de tal espécie que mesmo os cristãos sem grande cultura possam tirar proveito.

    Este fato não deprecia o valor da pesquisa bíblica e, muito me­nos, exalta o anti-intelectualismo; o estudo das Escrituras exige o uso máximo possível da mente do cristão. Mas é para reafirmar que o requisitado mais importante para o entendimento destes grandes mistérios é um conhecimento, como o que o próprio João tinha da palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo (Ap 1:2 e 9). Para a maio­ria dos que resolveram estudar o Apocalipse de João, aquela Palavrae aquele Testemunho foram a única fonte de iluminação: a Bíblia nas mãos, e o Espírito Santo no coração. É mantendo este foco de ilumi­nação no centro do caminho a ser percorrido, em vez de utilizar-se da pequena luz que os estudos críticos lançam sobre o escuro, é que “quem quer que por ele caminhe não errará, nem mesmo o louco” (Is 35:8).

    O Título (1:1-3)

    Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer, e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João, 2o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu.3 Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo.

    Esta não é a revelação de João: ele é apenas o repórter, mas é do Senhor Jesus Cristo; e mesmo Jesus não é a fonte desta revelação, pois, como podemos ver muitas vezes no Evangelho de João, o Senhor Je­sus recebe-a do Pai. Mesmo passando por cinco estágios de transmis­são: do Pai para o Filho, do Filho para o anjo, do anjo para o escri­tor e daí para os leitores, a revelação é apresentada claramente como a “palavra de Deus e o testemunho de Jesus”. Esta última frase des­creve o que estava para ser mostrado a João na ilha de Patmos. Já no versículo 9, onde a frase “a palavra de Deus e o testemunho de Jesus” ocorrem novamente, não se faz referência ao que João veria, mas ao porquê de ter sido isolado na ilha. João já ouvira Deus falar e já ti­nha visto e ouvido Cristo dar testemunho da veracidade das palavras de Deus. Ele não negaria esta sua experiência cristã, nem poderia fazê-lo, e por isso foi enviado para o exílio. Agora João receberia novamente a palavra e o testemunho, uma mensagem genuína da parte de Deus que no tempo devido deveria ser lida em voz alta nos cultos, como ou­tras porções das Escrituras (v.3). Esta revelação, em certo sentido, não traria nenhuma novidade, simplesmente seria uma recapitulação da fé cristã que João já possuía. Esta seria, porém, a última vez que Deus repetiria os padrões da verdade e o faria utilizando-se de um po­der devastador e um indescritível esplendor.

    Esses versículos desencorajam as visões “futuristas” do Apoca­lipse. Com certeza o livro trata de muitas coisas que ainda jazem no futuro. Mas note-se que a João foram mostradas “as coisas que embreve devem acontecer”. Esta última frase é emprestada da literatura apocalíptica pré-cristã e sutilmente modificada por João. A revelação dada a Daniel consistia no que haveria de acontecer nos últimos dias (Dn 2:28). A igreja primitiva acreditava que o início da era cristã e o princípio dos últimos dias, mencionados por Daniel, aconteceram simultaneamente (At 2:16ss; 3:24). É verdade que a palavra “breve” pode ser traduzida pela expressão “de repente” e dessa forma poder-se-ia argumentar que os eventos profetizados por João, quando começassem a acontecer, se sucederiam rapidamente, mas que poderiam co­meçar a acontecer só muito depois dos dias de João. De acordo com este ponto de vista, a maior parte do Apocalipse não estaria cumpri­da até o dia de hoje. Mas o versículo, como é apresentado, não se re­fere a um tempo futuro muito distante. Quando nos deparamos com a frase de Daniel “o que há de acontecer nos últimos dias “mudada por João para “as coisas que em breve devem acontecer” logo enten­demos qual é a intenção de João. Sua intenção é mostrar que os eventos preditos para um futuro distante por Daniel devem agora, nos dias de João, acontecer em breve. Neste contexto podemos entender melhor a expressão “o tempo está próximo” (v.3).

    Tempo para quê?, poderíamos perguntar. Tempo para o início do fim e dos eventos a ele relacionados? Tempo para o início de uma longa série de acontecimentos que eventualmente anunciarão o fim do mun­do? Tempo para alguma tribulação imediata ou perseguição que será um tipo de presságio do fim? Não é dito a João, de imediato, a que a expressão se refere.

    Mas é digno de nota o que Daniel tinha em mente quando falou dos eventos que haveriam de ocorrer nos últimos dias. A profecia de Daniel estava baseada em um sonho de Nabucodonozor no qual ha­via sido mostrado ao rei, em forma de uma grande estátua, a suces­são dos impérios mundiais, começando com o seu. De acordo com a profecia, nos dias do último daqueles impérios mundiais “o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído” (Dn 2:44).

    E João viu a chegada dos últimos dias. O estabelecimento do rei­no de Deus foi iniciado com a vinda de Cristo, e a promessa feita por Daniel de que “este reino não passará para outro povo: esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2:44), começou também a ser cumprida. O cumprimento de pro­fecias é um processo e não algo que vem de imediato; é um processo muitas vezes prolongado, não súbito, como podemos observar ape­sar dos eventos, que levam ao clímax, moverem-se bastante rápido. Oprocesso que leva ao clímax ocupa toda a era da pregação do Evan­gelho, indo da inauguração do reino (Ap 12:10) até o seu triunfo fi­nal (Ap 11:15). Se o que Daniel previu para os últimos dias é o que o anjo está trazendo para João, então o tempo está, de fato, próximo. Ao chegar a carta aos destinatários, nas igrejas da Ásia, eles poderão afirmar que “estas coisas estão, de fato, acontecendo agora”. É esta característica imediata dos escritos de João que sempre cativou os lei­tores mais dedicados. Portanto, o Apocalipse pode revelar, hoje, no sé­culo XXI, a realidade presente do conflito existente entre o reino des­te mundo e o reino do nosso Senhor.

    A Dedicatória (1:4-8)

    João, às sete igrejas que se encontram na Ásia: Graça e paz a vós ou­tros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono, 5e da parte de Jesus Cris­to, a fiel testemunha, o primogênito dos mortos, e o soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados, 6e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém. 7Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém. 8Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-poderoso.

    Pelo menos dez igrejas haviam sido estabelecidas na província da Ásia quando João escreveu o Apocalipse, portanto deve ter havido alguma razão para que ele escolhesse sete delas. Por agora queremos simplesmente apontar o fato de que o número de igrejas às quais João se diri­giu (cujo significado simbólico será considerado mais adiante ainda em ebdareiabranca.com), bem como a ordem na qual elas são apresentadas (que, ao que tudo indica, parece ser mais uma questão de simetria de estilo do que de geografia) parecem indicar que a mensagem é para a igreja em geral.

    João abre a sua dedicatória com um tipo de saudação que pode ser encontrado na maioria das cartas no Novo Testamento. Pelo fato de dirigir-se a um público bastante grande, sua descrição dos remeten­tes é bastante impressionante. Graça e paz vêm, neste caso, do Deus triuno e cada uma das pessoas da trindade é mencionada por sua vez.

    A descrição de Deus, o pai, que relembra o nome divino dado a Moisés em Êxodo 3:14, demonstra a particularidade de certa porção da linguagem utilizada por João. A gramática do versículo 4 foi sua­vizada na versão ERAB. O que João verdadeiramente escreveu no gre­go seria o seguinte em português: “Graça e paz da parte de ele que é… Será que realmente João deveria ter usado “de ele” em vez de “dele” ou “daquele”? É possível que João estivesse vendo Deus como alguém que é sempre “ele”, o único sujeito de todas as sentenças, que gover­na todo o conteúdo do que está escrito, não sendo “ele” mesmo con­trolado por nada. Nem mesmo pelas leis gramaticais. Encontramos no Apocalipse muitas declarações, muito mais explícitas do que es­ta, do que o escritor da carta aos Hebreus chamou de “a imutabilida­de do seu propósito” (Hb 6:17). De qualquer forma os erros grama­ticais do Apocalipse estão somente na superfície, e podem ser resul­tado da impressionante sequência de visões que o escritor teve. No fun­do, os erros gramaticais são perfeitamente coerentes com a verdade e formam uma peculiar gramática do espírito.

    Aliás, o Espírito que está diante do trono, o centro da trindade, e que conhece as profundezas de Deus (1 Co 2: 10ss), é mencionado a seguir. A visão de João o levará para dentro do santuário celestial, do qual o tabernáculo no deserto era uma cópia e uma sombra (Hb 8:5). E talvez a ordem de apresentação da trindade de um modo pouco costumeiro (Pai, Espírito Santo, Filho) corresponda ao plano do san­tuário terrestre em que a arca no santo dos santos representa o trono de Deus; o castiçal de sete hastes no lugar santo representa o Espírito Santo; e no átrio frontal ficava o altar de bronze com os sacerdotes e sacrifícios, ambos representantes do trabalho redentor de Cristo.

    Se a descrição do Pai contém um dos primeiros solecismos da par­te de João, a descrição do Espírito Santo contém um dos primeiros mistérios. “Sete espíritos” — seria esta uma expressão para representar o Espírito na sua natureza essencial, da mesma forma como as sete igrejas representam a única e verdadeira igreja? Ou será que eles repre­sentam o Espírito igualmente presente em cada uma das igrejas? (Ver 5:6). Ou será que representam os sete dons do Espírito apresentados em Isaías 11:2? Não sabemos com certeza. Todavia somos avisados de antemão que as chaves que abrem certas portas do Apocalipse são de difícil acesso.

    Deus, o Filho, recebe uma descrição mais completa. As raízes da descrição encontram-se no Salmo 89:27,37 e a passagem apresenta o triplo ministério de Jesus como profeta, sacerdote e rei. Com Cris­to a trindade chega à terra e a teologia (v.5) torna-se louvor (vs.5b e 6). Jesus Cristo é o profeta que veio ao mundo para dar testemunho do evangelho da salvação. Apesar da palavra testemunho ser a pala­vra grega martis, o pensamento básico não está relacionado à morte de Cristo e, sim, ao testemunho que ele dá. A vinda de Cristo é uma amável deferência da parte dele para conosco. Ele é o Sacerdote que se ofereceu a si mesmo e que morreu para depois ressuscitar, não so­mente para si, mas para todos os filhos de Deus. Ter sido lavado no seu sangue (ERC) é uma metáfora bíblica aceitável encontrada, por exemplo, em 7:14; mas a ERAB diz: “pelo seu sangue nos libertou”, tradução que não somente tem uma melhor sustentação nos manuscritos originais, como ainda associa o nosso texto aos acontecimen­tos descritos no livro de Êxodo, tais como a morte do cordeiro pascal e a redenção de Israel do jugo egípcio. No Calvário foi efetuada uma redenção muito mais abrangente. E seus benefícios são para nós. Agora o Senhor é exaltado como Rei dos reis, e da mesma forma como Is­rael foi libertado da escravidão para se tornar um reino de sacerdotes (Êx 19:6; Ap 5:9-10), é dada a nós a oportunidade de compartilhar do reinado do Senhor. Um dia o Senhor voltará, como ele mesmo afir­mou. Aliás, foi o próprio Senhor, e não João, que primeiro juntou esta dupla figura profética que envolve as nuvens e a lamentação das tri­bos da terra associadas à sua segunda vinda (Dn 7:13; Zc 12:10; Mt 24:30). Aqueles que o traspassaram irão reconhecê-lo e lamentarão a oportunidade perdida de salvação. Mas seu próprio povo estará a esperá-lo, sabendo que ele é o “Alfa e o Ômega”, o princípio e o fim de todas as coisas. E assim o trabalho do Senhor estará terminado.

    Este é o Deus Todo-poderoso que está enviando graça e paz a nós, seus servos, na longa carta que se segue. Graça e paz em vez de per­plexidade e confusão é o que promete o Senhor a todos que com es­pírito confiante o procurarem para serem abençoados. O Apocalipse é um verdadeiro drama. Depois do título e da dedicatória que formam o prólogo, as cortinas são abertas e o drama começa.

    Bibliografia M. Wilcock

    Fonte:http://www.ebdareiabranca.com/2012/2trimestre/licao01.html




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