Categoria: Editora Betel

  • Lição 13 – Revista Betel – Jacó Profetiza o futuro das tribos de Israel

    Fone: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “Depois, chamou Jacó a seus filhos e disse: Ajuntai-vos, e anunciar-vos-ei o que vos há de acontecer nos derradeiros dias”. Gn 49.1

    Verdade Aplicada

    Como Povo de Deus neste mundo, devemos nos ocupar com o futuro, mas nunca nos preocupar com ele.

    Objetivos da Lição

    ?      Ensinar que o Senhor tem um futuro glorioso para o seu povo;

    ?      Mostrar que a Palavra do Se­nhor se cumpre; e

    ?      Apresentar o glorioso cami­nho do Senhor.

    Textos de Referência

    Gn 49.3 Rúben, tu és meu primogênito, minha força e o princípio de meu vigor, o mais excelente em alteza e o mais excelente em poder.

    Gn 49.8 Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de seus inimi­gos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão.

    Gn 49.19 Quanto a Gade, uma tropa o acometerá; mas ele a acometerá por fim.

    Gn 49.20 De Aser, o seu pão será abundante e ele dará de­lícias reais.

    Gn 49.22 José é um ramo frutífero, junto à fonte; seus ramos correm sobre o muro.

    Gn 49.27 Benjamim é lobo que despedaça; pela manhã, comerá a presa e, à tarde, re­partirá o despojo.

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

    Jacó Abençoa Seus Filhos e Morre (49.1-33)

    Os críticos supõem que o poema se tenha originado de certo número de oráculos originais e independentes que pertenceri­am às tribos (de um período posterior), os quais um redator teria coligido, transfor­mando-os em bênção de Jacó para seus filhos. Os eruditos conservadores, toda­via, rejeitam essa fragmentação, como também a ideia de que se trata de uma compreensão tardia, e não de uma previsão.

    A bênção foi dada mediante discernimento profético e iluminação divina, prevendo, em lances bem amplos, a história de cada tribo de Israel, dali por diante. O Pacto Abraâmico (ver Gn 15.18) garantiria o sucesso de cada tribo como uma unidade formadora de Israel, porquanto essa nação deveria desenvolver-se de acordo com o plano divino. Israel tornar-se-ia o agente por meio do qual Deus daria sua mensagem que beneficiaria todas as nações. O Messias levaria essa mensagem à sua plena fruição, tornando-a eficaz para todos os povos (ver Gl 3.14).

     

    49.1,2 Começo do Oráculo. A natureza inerente e a vida de cada patriarca seria o fator determinante de como cada tribo (descendente dele) desenvolver-se-ia. Nesse conceito temos uma espécie de genética espiritual, e não somente de genética física. Além disso, por trás de tal desenvolvimento havia o propósito divino, que se manifesta mediante a Sua providência. Destinos os mais variegados seriam concretiza­dos em consonância com as qualidades morais, como também de acordo com as qualidades espirituais. Este capítulo lança um rápido vislumbre das opera­ções de Deus no tocante a Israel, A fidelidade seria um fator importante. Have­ria muitas debilidades e falhas, mas a vontade de Deus acabaria por triunfar, finalmente; de outra sorte, o Pacto Abraâmico redundaria em fracasso.

     

    Nos dias vindouros. O poema em seguida é apresentado como uma profecia. John Gill diz que “os dias vindouros significam dali por diante, até a vinda do Messias, o qual figura na profecia”. Vemos aqui uma espécie de galeria de tipos humanos, bons e maus, e também indiferentes; mas o propósito divino atuaria através de todos os elementos, cumprindo um propósito. Deus usa o livre-arbítrio humano, mas sem destruí-lo, embora não saibamos dizer como isso pode acontecer.

     

    O Poder das Palavras de um Homem Moribundo. Os hebreus acreditavam que as palavras de um homem moribundo revestiam-se de poder todo especial. E isso seria tanto mais verdade no caso de um dos patriarcas de Israel.

     

    49.3 Rúben. Ele era o filho primogênito de Jacó. Mas por haver violentado Bila, concubina de seu pai, perdeu aquele direito, o qual foi transferido para Efraim (conforme alguns pensam) ou para Judá (de acordo com outros). Como primogênito e devido a qualidades inerentes, ele tinha vários pontos excelentes. Mas perdeu essa posição por seu momento de desvario no tocante a Bila. O território da tribo de Rúben ficava a leste do mar Morto. Essa era uma das tribos liderantes; mas ainda no começo de sua história os rubenitas foram engolfados pelos moabitas (Jz 5.15,16; Dt 33.6). E foi assim que, finalmente, como tribo, Rúben não seria “o mais excelente” (vs. 4).

     

    Excelências. “. . .dignidade, poder, autoridade na família, proeminência sobre seus irmãos, uma dupla porção dos bens, sucessão no governo, e, conforme é comumente entendido em todos os Targuns, o exercício do sacerdócio” (John Gill, in loc.). Se (vs. 4) ele não tivesse pecado como pecou, teria obtido essas excelências.

     

    “É um claro fato histórico que nenhum rei, juiz ou profeta, até onde ficou registrado, teve origem na tribo de Rúben” (Ellicott, in loc.).

     

    49.4 Impetuoso como a água. Destarte, ele não se mostraria excelente, a des­peito de todas as suas vantagens. Não deveríamos olvidar seus atos de miseri­córdia, quando ele tentou impedir seus irmãos que queriam prejudicar José (Gn 37.22,29). Ele era forte quanto à misericórdia e ao amor, e esse ponto não deve ser deduzido dele. Mas era homem moralmente fraco e permitia que suas paixões o dominassem, a ponto de haver atacado sexualmente Bila (Gn 35.22). Digo aqui atacado, porque não é provável que Bila, concubina de Jacó por muitos anos, tenha consentido o ato. Seu ato desvairado custou caríssimo a Rúben. Sua tribo herdou sua fraqueza moral e instabilidade.

     

    José, nas pessoas de Efraim e Manassés, ao que tudo indica, recebeu a dupla porção do direito de primogenitura, de tal maneira que o ato de abençoar veio a ser ligado à menção aos dois filhos de José.

     

    49.5 Simeão e Levi. Havia a tribo de Levi, que era a décima terceira tribo. No entanto, os levitas perderam sua condição oficial de tribo, quando lhes foi vedado ter um território, a fim de que pudessem tornar-se a tribo sacerdotal. Ver Nm 1.47 ss. José não teve uma tribo com seu nome, mas teve duas tribos, uma em nome de Efraim, e outra em nome de Manassés, ambos seus filhos. Por conseguinte, dos doze filhos de Jacó, dez deles produziram tribos oficiais. A essas foram adicionadas as tribos de Efraim e Manassés, aos quais Jacó adotara como seus próprios filhos. Isso completou o número de doze tribos.

     

    “Simeão e Levi aparecem aqui juntos por terem liderado o ataque contra os siquemitas com armas de violência (Gn 34.25-30). Levi, que antes formava uma tribo, acabou tornando-se uma classe sacerdotal (Êx 32.26-29; Dt 10.8,9). Simeão, com a passagem do tempo, foi absorvido pela tribo de Judá” (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    Jacó Condenou a Violência. No decurso de sua vida inteira, Jacó envolveu-se somente em uma aventura militar (Gn 48.22); e isso por pura necessidade. Observemos que três versículos foram dedicados a essa questão. Jacó falou com veemência contra a violência. A violência produziu efeitos negativos a longo prazo entre as tribos que descendiam daqueles homens violentos.

     

    49.6 Poeticamente, o patriarca continuou vergastando as atitudes violentas. Ele invoca sua própria alma, sua vida interior e as suas intenções, a nada terem que ver com os conselhos secretos vis dos violentos. Sua honra não deveria ser maculada mediante a união com os tais; mediante o contato com as matanças e atos destrutivos de tais pessoas. Por inspiração, o texto nos fornece um juízo moral, do ponto de vista divino, contra os atos violentos de Simeão e Levi. Ambas as tribos deles descendentes posteriormente foram dispersas. Simeão desintegrou-se, e suas terras foram engolfadas pela tribo de Judá e a própria tribo foi absorvida (Js 19.1,9). No entanto, visto que a tribo de Levi tornou-se a tribo sacerdotal, acabou ficando com uma parte melhor (Js 21).

     

    No seu conselho. No hebraico temos o termo sod, “tapetezinho”, ou seja, o colchão fino dos orientais. Duas pessoas que se sentassem em tal colchão estariam em comunhão íntima, em liga, por assim dizer. Jacó não queria participar da liga violenta deles.

     

    Mataram homens. Traiçoeiramente, eles mataram muitos, quando estes não podiam defender-se — um ato insensato e repelente.

     

    Jarretaram touros. Simeão e Levi não somente destruíram vidas humanas, mas também aleijaram animais e destroçaram coisas, em seu furor descontrolado. Alguns pensam que o autor sagrado falava aqui metaforicamente, indicando Siquém, a quem teriam torturado e matado sem nenhum sinal de misericórdia.

     

    Algumas versões dizem aqui “escavaram uma parede”. Isso se deve a uma confusão entre as palavras hebraicas shor, “boi,” e shur, “parede”. Se a menção é mesmo a uma parede, então devemos pensar não na muralha da cidade de Siquém, o que seria um feito demasiado para dois homens, e, sim, em alguma parede da casa de Hamor, pai de Siquém. O episódio que causou tantos crimes está registrado no capítulo trinta e quatro do Gênesis.

     

    49.7 Furor… ira. O furor deles era “forte”, e a ira deles era “dura”. Ambas as atitudes negativas mereciam uma maldição.

     

    Esta passagem “… parece atribuir o quase completo desaparecimento das tribos que tinham os seus nomes ligados a uma guerra fratricida entre eles. Simeão, em tempos históricos, tornou-se apenas um clã dentro da tribo de Judá… e da tribo de Levi restou somente o sacerdócio” (Cuthbert A. Simpson, in loc.).

     

    Jacó estava com a razão, pois, quando, em sua indignação, declarou: “Vós me afligistes e me fizestes odioso entre os moradores desta terra…” (Gn 34.30).

     

    “Em qualquer nação, quando os homens se alcoolizam com o poder e deixam à solta a violência, pode repetir-se o pecado mortal de Simeão e Levi, o qual deve ser denunciado e, se não houver arrependimento, leva fatalmente à condenação’ (Walter Russell Bowie, in loc.).

     

    Eles tinham tratado o próprio irmão deles, José, da mesma maneira sem dó (Gn 42.21).

     

    Dividi-los-ei… e os espalharei. Haveriam de receber o mesmo tratamento que tinham dado a outros. “No deserto, os simeonitas diminuíram de cinquenta e nove mil e trezentos para vinte e dois mil (Gn 26.14). E após a conquista da terra de Canaã eles estavam tão débeis que apenas quinze cidades lhes foram alocadas, e mesmo assim elas estavam dispersas dentro do território de Judá. E foi assim que acabaram mesclando-se e foram absorvidos, embora alguns se tenham retirado, tornando-se nômades no deserto de Parã. No caso de Levi, entretanto, a maldição foi transformada em uma bênção, em face da fidelida­de da tribo em uma ocasião muito testadora (Êx 37.26-28)” (Ellicott, in loc.).

     

    “Levi não recebeu herança, exceto quarenta e oito cidades espalhadas por diferentes partes da terra de Canaã” (Adam Clarke, in loc). Estritamente falando, Levi deixou de ser uma tribo quando se tornou uma classe sacerdotal. Ver Gn 49.5.

     

    49.8 A Exaltação de Judá. A tribo de Judá obteria vitórias sobre inimigos externos e internos, e exerceria poder sobre as demais tribos. Foi exatamente o que suce­deu nos dias de Davi. Salomão deu início a um período de paz, tendo vencido guerras com forças estrangeiras, e a capital da nação continuou sendo Jerusalém (desde os dias de seu pai, Davi). Os críticos supõem que as informações dadas neste versículo nos ajudem a datar a escrita do livro de Gênesis, ou seja, após a época de Davi. Mas os eruditos conservadores entendem que temos aqui uma profecia sobre a liderança da tribo de Judá.

     

    … te louvarão. Portanto, temos aqui um jogo de palavras com o nome de Judá, que significa louvor. “Louvor será louvado.” Ver Js 14.11; 15.1; Jz 1.1,2 quanto a vitórias militares decisivas dessa tribo. Ver também Sl 18.40. O leão era o emblema da tribo de Judá. Ver Nm 2.3; Ez 1.10. Davi obteve notáveis vitórias. Ele era da tribo de Judá. Ver I Cr 14.16. O Messias é o Leão da tribo de Judá (Ap 5.5).

     

    … se inclinarão a ti. Judá produziu certo número de reis, obtendo assim a posição suprema e sendo reverenciado pelas outras tribos. O Rei Messias culmi­nou a linhagem em sua glória máxima. As maiores bênçãos foram reservadas para Judá e para José. Essas tribos descendiam dos grandes patriarcas, e a história encarregou-se de exibir suas qualidades. José foi um dos grandes heróis de Israel; e não menos heroico foi Davi, da linhagem de Judá. Grande é aquela nação cujos heróis são realmente grandes homens, não meramente em seus feitos militares, mas também em justiça e na espiritualidade.

     

    A excelência que deveria caber a Rúben terminou sendo de Judá.

     

    Judá é a única tribo que se tem projetado até os tempos modernos. As tribos do norte, Israel, perderam-se para sempre por ocasião do cativeiro assírio. Devem ter ficado apenas alguns remanescentes daquelas tribos no reino do sul, Judá. Terminado o cativeiro babilônico, foi um remanescente de Judá (com traços de outras tribos, mormente Benjamim e Levi) que repovoou a Terra Santa. Em consequência, essa tribo vem atravessando os séculos do longo cativeiro romano, que começou em 132 D. C. E foram descendentes desse cativeiro que estabele­ceram o moderno sionismo (fins do século XIX), que redundou na formação do estado de Israel (em maio de 1948).

     

    No Apocalipse, temos previsão de uma reorganização futura das tribos de Israel, durante o período da Tribulação, estendendo-se pelo milênio adentro. Ver Ap 7.1-8. Interessante é observar que ali a tribo de Efraim é chamada “José” (a tribo de Manassés é uma tribo distinta da tribo de José), a tribo de Levi torna-se uma tribo com todos os direitos, e a tribo de Dã não é mencionada. Nessa reorganização, a tribo de Judá ocupa o primeiro lugar.

     

    49.9 Judá é leãozinho. Nessa metáfora achamos uma ilustração do vigor juvenil e do poder dessa tribo. O leão cresce alimentando-se de presas, sendo o rei das savanas, motivo pelo qual os outros animais se lhe sujeitam.

     

    Deita-se como leão, e como leoa. É a leoa que caça, por ser mais lépida, embora o leão é que fique com “a parte do leão”. O leão é um animal muito feroz, e ninguém ousa despertá-lo ou agitá-lo, por causa de sua força e ferocidade. A fim de proteger seus filhotes, a leoa recebeu uma natureza ainda mais irritável que o macho da espécie, pelo que é mais fácil despertar-lhe a violência. O leão é o rei dos animais, e isso ajusta-se bem como ilustração de Judá em sua excelên­cia e predomínio sobre outras criaturas. No Apocalipse, temos um dos títulos do Messias, “o leão da tribo de Judá” (Ap 5.5). Isso Lhe garante vitória sobre todos os inimigos, como protetor dos justos. Comparar essas duas últimas linhas com Nm 24.9, um trecho quase idêntico, provavelmente uma citação de outro poe­ma.

     

    Os filhos de Jacó usavam um sinete pendurado ao pescoço. Cada sinete tinha seu emblema (ver Gn 38.18), e podemos supor que o emblema da tribo de Judá era o leão. A comparação de Judá com o leão pode ter sido sugerida por essa circunstância.

     

    49.10 O cetro. Ou seja, o cajado do dirigente (Nm 24.17), símbolo de autoridade tribal e real. Tratava-se de um cajado adornado com entalhes e transferido de pai para filho. Ver sobre Gn 38.18, sobre o cajado de Judá. A princípio, esse emblema apontava para organização tribal e autoridade, e, então, veio a indicar domínio nacional. Muitos reis surgiram dentre a tribo de Judá, começando por Davi, e chegando até o Messias, o Rei eterno.

     

    Até que venha Siló. Os intérpretes não concordam quanto ao sentido da palavra Siló, nem quanto ao seu emprego neste ponto. Mas todos pensam que temos aqui uma antiga predição e expectação messiânica; porém não se sabe em qual sentido exato devemos entender essa predição. Siló era nome de uma cida­de da tribo de Efraim, e não da tribo de Judá, assim o texto não pode indicar que o poder permaneceria com Judá até que o Messias chegasse à cidade de Siló. Aqui um breve sumário dessas ideias:

     

    1.      Não está em foco a cidade de Siló, em Efraim.

    2.      Talvez devamos entender Siló como um substantivo próprio, um título do Messias. Esse título significa “pacífico” ou “pacificador”. Se essa é a verdadei­ra interpretação, então temos aqui o Messias como o Príncipe da Paz (Is 9.6).

    3.      Ou o termo pode ser entendido como um adjetivo, ligado ao substantivo “ce­tro”. Ou seja, temos aqui a frase “o cetro, a quem pertence”. Nesse caso, o sentido seria que o cetro não se apartaria de Judá até que fosse dado, tornan­do-se possessão daquele que deveria vir, e a quem realmente pertence. Isso significa que o poder real persistiria em Judá até que viesse o Messias, a quem realmente pertencia a autoridade. Se essa é a interpretação correta, então o versículo é um paralelo de Ezequiel 21.26, onde virtualmente a mes­ma expressão refere-se à coroa. Cf. Is 11.1-9.

    4.      Ou, então, devemos entender como “até Siló”, embora essa fosse uma locali­dade de Efraim, o que significaria que o domínio do Messias ampliar-se-ia a todas as tribos e lugares. Siló foi um centro de fé religiosa em Israel. O Messias substituiria todas as formas religiosas, unificando-as.

     

    Todos concordam que temos aqui uma declaração messiânica (e os críticos dizem que foi adicionada ao texto em algum tempo posterior, quando essa expectação se tornara comum). Mas de que maneira e com qual sentido exato, não podemos estar certos.

     

    49.11 Fertilidade e Abundância. Isso deveria caracterizar a carreira do Messias, do que a vinha e a uva são símbolos. O suco da uva seria tão abundante que Suas vestes seriam lavadas nele. Um viajor, que estivesse chegando, cansado e sujo, poderia amarrar seu jumento a uma videira a fim de lavar suas vestes sujas no suco da uva, tão abundante ele seria. Grande prosperidade, pois, foi prometida a Judá, culminando no bem-estar que o Messias traria.

    Sangue de uvas. Devemos entender aqui “sangue” como o suco da uva, pois no Oriente a uva vermelha é mais apreciada do que a uva branca. Portanto, essa abundância seria acompanhada por classe, estilo, excelência. “Certas regi­ões do território de Judá eram famosas por seus vinhos primorosos, especialmen­te Engedi (ver Ct 1.14).” Os intérpretes cristãos pensam que a “jumenta” é aqui um símbolo dos povos gentílicos. Nesse caso, está em foco a missão universal de Cristo. Ele estenderia Sua prosperidade a todos os povos; e o próprio Novo Testamento serve de ilustração disso. Seja como for, a maior parte dos Targuns e os antigos intérpretes judeus viam este versículo por um prisma messiânico. Ver Is 53.1; Ap 19.16; Eclesiástico 39.31 e 50.16.

     

    49.12 Não devemos pensar aqui em intoxicação alcoólica, e, sim, em abundância, uma metáfora um tanto desajeitada. Os olhos dos membros da tribo de Judá seriam avermelhados de vinho: abundância, mas enfatizada de uma forma dife­rente, a mensagem do versículo anterior. Por igual modo, o outro alimento básico, o leite, também seria abundante, de tal modo que os dentes dos judaítas seriam brancos de tanto tomarem leite. A Vulgata diz “brilhante” em vez de vermelho, e isso é uma interpretação, ou mesmo uma tradução direta. Alguns estudiosos pensam que a interpretação verdadeira é a seguinte: “Seus olhos serão mais resplendentes do que o vinho; seus dentes mais brancos do que o leite”. Tal opulência é predita no que concerne ao milênio (Is 61.6,7; 65.21-25; Zc 3.10). Todavia, alguns pensam que esse versículo não chega a envolver o milênio em seu alcance. De qualquer modo, as bênçãos em Cristo são riquíssimas, e essas bênçãos vêm através de Judá a Sua tribo.

     

    49.13 Zebulom. Essa tribo merece apenas um versículo, ao contrário de Judá e José (vss. 22 ss.). Zebulom ocuparia uma posição geográfica favorável, com acesso ao mar Mediterrâneo, o que lhe produziria riquezas. Sua expansão levaria a tribo às fronteiras com Aser (ver o vs. 20).

     

    Sidom. Ver sobre esse lugar, em Gn 10.15. “Zebulom e Issacar… sugariam a abundância dos mares” (Ellicott, in loc.). Sidom, um porto marítimo, daria acesso à abundância.

     

    49.14 Issacar. Essa tribo mereceu uma profecia breve e não muito lisonjeira. Como um jumento forte, ela seria forçada a carregar duas cargas (uma de cada lado), o que significa que seria sujeitada a trabalho forçado em favor de outros, uma virtual tribo escravizada. Os críticos veem nessas declarações certo escárnio, alusivo à submissão confortável de Issacar ao domínio estrangeiro, ao preço de sua liber­dade pessoal. Essa tribo, por grande parte de sua história, mostrou-se subservi­ente aos cananeus. “Seu verdadeiro caráter era preguiçoso, inativo e lugar-co­mum, e Jacó comparou-a a um jumento forte. Os homens da tribo serviriam apenas de burro de carga, como se fossem um cavalo de puxar carroça, atado a duas cargas” (Ellicott, in loc.). Não havia altos ideais nem luta pela excelência em Issacar.

     

    49.15 O Repouso Era Bom e a Terra Era Deliciosa. Assim, deleitosamente, Issacar continuaria vivendo sem tensões, desfrutando uma vida amena, em­bora laboriosa, sem nenhuma grande crise, sem ter de tomar decisões, sem ter de lutar. O quadro pintado pelo autor é o de um povo situado em uma rica região agrícola, de produção abundante, mas trabalhando para outros, verga­do sob o trabalho, a fim de poder manter uma vida geralmente próspera e amena.

     

    Essa tribo possuía o vale de Esdrelom (Jezreel), bem como os frutíferos montes de Gilboa, um lugar fértil, embora sujeito a invasões por parte de potên­cias estrangeiras.

     

    Tributos. Essa tribo teria de pagar um preço para poder manter sua vida confortável.

     

    49.16 . Dã haveria de tornar-se uma tribo auto-suficiente, dotada de autodeterminação, que julgaria causas entre seu povo. Há nisso um jogo de palavras, pois a palavra hebraica para significa “julgamento”. Alguns estudiosos veem aqui alguma alusão a Sansão (Jz 13.2; 15.20), o qual julgou o povo de Israel por vinte anos. Nesse caso, Dã é aqui visto como quem julgaria a nação inteira, por algum tempo.

     

    49.17 Embora possuidora da capacidade de autogovernar-se e até mesmo de julgar e prover justiça para toda a nação de Israel, Dã haveria de escolher métodos traiçoeiros, conforme faz uma serpente à beira do caminho, que, sem dó, pica as patas do pobre cavalo que por ali passa. Nos dias dos juízes, Dã foi a primeira tribo a aceitar a idolatria (Jz 18.30). Dã era uma tribo que atraiçoava a justiça, esquecida do Juiz de todos. Alguns eruditos pensam que a alusão aqui é à esperteza nas táticas de guerra, que Dã haveria de usar. Talvez haja uma referência a Cerastes, uma serpente difícil de divisar, por causa de seu colorido. Diodoro Sículo (Bibhothec. 1.3 par. 183) dizia que essa serpente tinha uma picada mortífera. Ver o capítulo dezoito do livro de Juízes. “Fica entendido que essa tribo faria a maior parte de suas conquistas mediante a astúcia e o estratagema, e não por seu valor próprio” (Adam Clarke, in ioc.). Ver também Jz 16.26-30 quanto a esse aspecto do caráter da tribo.

     

    49.18 Esta excelente declaração consiste em uma ejaculação incorporada de súbito no texto (os críticos dizem que se trata de uma “glosa ejaculatória” posterior). Os intérpretes têm procurado encontrar sua conexão com os versículos anteriores e posteriores. Mas parece que temos aqui um suspiro de Jacó, uma espécie de gemido interior. Entre suas predições atinentes a seus filhos, algumas eram boas e outras eram más; algumas delas encorajavam, e outras desencorajavam. E então, de repente, seu espírito elevou-se ao Senhor, fonte originária de tudo quanto é bom (Tg 1.17). É como se ele tivesse dito: “Abençoa-nos, Senhor, em meio a todas essas vicissitudes da vida, a fim de que meu filho amado possa resistir a tudo por quanto terá de passar. Dá-nos a Tua salvação, a Tua graça, acima de todas essas dificuldades”. Jacó convocou a si mesmo e a seus filhos para reconhecerem sua dependência ao Senhor, que haveria de livrá-los de todos os seus apertos e de assegurar-lhes bem-estar. Alguns eruditos pensam aqui na esperança messiânica, que faria a história de Israel atingir seu ponto culminante, a redenção segundo os termos de Ana (Lc 2.38).

     

    A víbora que pica subitamente (vs. 17) talvez tenha feito a mente de Jacó volver-se para o Senhor. Estamos cercados de males por toda parte, e carecemos da proteção e da orientação divina. Oh, Senhor, concede-nos tal graça! Satanás está sempre pronto para morder o calcanhar (Gn 3.15), mas o Senhor está sempre presente para esmagar a cabeça da serpente.

     

    49.19 Gade. Uma única frase é dada a respeito dessa tribo: finalmente, haverá a vitória! Mas antes, seria acometida por guerrilheiros. Essa sequência de aconte­cimentos é importante para todos os homens, e tão comum na experiência humana. “Uma alusão aos ataques frequentes vindos do deserto, contra a re­gião de Gileade, a leste do rio Jordão, onde se estabeleceu a tribo de Gade” (Cuthbert A. Simpson, in ioc.). Aqui também há um jogo de palavras, porquanto, no hebraico, Gade significa “fortuna”, “sorte”. Embora cercados por tropas hos­tis, os gaditas teriam a boa sorte de, finalmente, as vencerem. Ver Js 1.12-18; 4.12,13; 22.1-4, quanto às vicissitudes enfrentadas por essa tribo. Ver também Jz 10.7,8; cap. 11 e Jr 49.1.

     

    Venceriam, Afinal. “Os gaditas, juntamente com os rubenitas e a meia-tribo de Manassés, venceram os hagarenos e os árabes… e habitaram nos territórios antes ocupados por aqueles. E assim foi, até o cativeiro das dez tribos do norte (I Cr 5.18 ss.)” (John Gill, in Ioc.).

     

    49.20 Aser. Pão será abundante. . . delícias reais. Devemos pensar aqui em grande abundância, soprando para todos quantos tivessem necessidade, além de finos acepipes. O território que coube à tribo de Aser, ao norte do monte Carmelo, era um lugar extraordinariamente fértil. Ver Dt 33.24. Essas terras eram uma faixa costei­ra entre o monte Carmelo e a Fenícia, uma região que produzia muito alimento e delicias reais. O vale de Aser era chamado de ‘Vale da gordura”. Começava a cerca de oito quilômetros de Ptolemaida e chegava ao mar da Galiléia, em uma extensão de cerca de dezesseis quilômetros. Alimentos próprios para reis eram ali produzi­dos. O rei Salomão contava com intendentes que iam até ali em busca de provisões de boca (I Rs 4.16). E alguns estudiosos veem aqui uma referência histórica direta àquele fato, e não uma previsão sobre ele. Um dos sentidos possíveis do nome Aser é feliz ou abençoado, o que subentende sua posterior abundância de víveres.

     

    49.21 Naftali. Gazela solta. Liberdade e fertilidade são as ideias destacadas aqui. “Pala­vras formosas”, de acordo com certas traduções, aparece como “gazelas formo­sas”. Talvez a referência seja ao terebinto, cujo topo é belo e verdejante (confor­me diz a Septuaginta). Isso também poderia referir-se à expansão territorial (Dt 33.23). A mente solta alude à liberdade, vitalidade, energia, atividade desimpedi­da. Adam Clarke (in Ioc.) afirma que devemos pensar aqui em uma prole numero­sa, por parte das famílias da tribo de Naftali. Dos quatro filhos de Naftali, Jazeel, Guni, Jezer e Silém (Gn 46.24), no decurso de duzentos e cinquenta anos, havia cinquenta e três mil e quatrocentos homens em idade e com capacidade de ir à guerra, o que era incomum no tocante à produção de descendentes. Ver Nm 1.42.

     

    Palavras. Se temos aqui a correta compreensão do texto hebraico, isso poderia referir-se a uma inteligência lúcida, capaz de guiar seus exércitos ou realizar outros propósitos, pacíficos. Também poderia haver uma tendência às letras, por parte dos homens da tribo. Os intérpretes cristãos veem nessas “pala­vras formosas” a pregação eventual do evangelho, as Boas-Novas de Deus a todos os homens, que haveriam de reboar por toda a nação de Israel, resultante da realização do Messias, Jesus de Nazaré.

     

    49.22 José. Embora ele não viesse a produzir nenhuma tribo com seu nome, contri­buiria com duas tribos, através de seus filhos Efraim e Manassés. José (e seus descendentes) receberam longa e detalhada bênção, paralela à de Judá. Judá e José foram os únicos que receberam um pronunciamento mais detalhado por parte de Jacó, como vimos em ebdareiabranca.

     

    Os críticos veem nessa bênção dada a José uma adição posterior ao poema original, cujo intuito visava a salientar a preeminência das tribos descendentes de seus filhos (o que se vê em Gn 48.20 ss., em uma pequena seção separada do resto, que serve de introdução às demais bênçãos). Os conservadores, porém, não veem motivos para pôr em dúvida o fluxo natural das bênçãos, nem a sua integridade original. A “casa de José” foi dividida nas tribos de Manassés e de Efraim, conforme se vê em Dt 33.13-17.

     

    Ramo frutífero. Esse ramo dividiu-se em dois ramículos (Efraim e Manassés), o que produziu uma prosperidade incomum. José teve mais descendentes do que qualquer de seus outros irmãos. Ver Nm 1.32-34. Havia mais de setenta mil homens com idade e habilidades para ir à guerra. Está em foco a frutificação geral, material e espiritual, igualmente, e não mera posteridade. José era o filho preferido de Jacó, aquele que mais produziu, atingindo o lugar mais alto de honra e poder.

     

    Junto à fonte. Haveria abundante suprimento de água, de tal modo que os ramos da tribo cresceriam bem, frutificando com abundância, trepando por cima do muro — tudo isso é símbolo de fertilidade, abundância e produção. Cf. Sl 1.3. Essa trepadeira, plantada à beira de águas, produziu seus frutos com abundância, e suas folhas não se ressecavam.

     

    49.23 Os flecheiros lhe dão amargura. Adversários violentos e cheios de ódio tentaram exterminar a José. Entre esses estavam seus próprios irmãos, no passa­do; em seguida, a esposa de Potifar. E podemos supor que, como homem forte do Egito, ele tinha inimigos postados em lugares importantes. Mas, apesar de todos os esforços desses adversários, ele foi mantido seguro e em prosperidade. O Targum de Jonathan afirma que os magos do Egito o invejavam e lhe causaram dificuldades. Nos dias de seus filhos e suas tribos, no Egito, houve ataques da parte de inimigos, e eles tiveram de enfrentar tempos difíceis, quando os desas­tres tê-los-iam engolfado, não fora a proteção divina.

     

    O autor sagrado compara José a um guerreiro, poderoso demais para os seus inimigos, embora o atacassem à distância, por serem flecheiros que lhe atiravam, com grande ódio, os seus dardos inflamados.

     

    49.24 “A vitória na batalha foi experiência tida por Josué, Débora e Samuel, todos eles pertencentes à tribo de Efraim; e também por Gideão e Jefté, ambos da tribo de Manassés” (Allen P. Ross, in loc.).

     

    Deus estava com José de modo muito especial, conforme a série de nomes divinos dados aqui indica claramente:

     

    Poderoso de Jacó. Ver sobre o Deus Todo-poderoso, em Gn 17.1, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o qual também era seu Deus, pleno de força, que entregou armas de guerra nos braços de José. No hebraico, temos aqui El Shaddai.

     

    Pastor. O Senhor é imortalizado como o “Pastor” no Salmo 23 e no capítulo dez de João. José, como pastor, protegia suas ovelhas e provia o necessário para elas. Isso ele fazia com amor e com interesse constante. Essa era a sua profissão e a sua paixão. Assim também, Deus é o nosso Pastor: são enfatizados aqui supri­mento abundante e proteção. Os eruditos cristãos veem em tudo isso uma referência messiânica. Jesus Cristo cuida de Seu rebanho, formado por judeus e gentios regenerados, os quais estão Nele.

     

    Pedra de Israel. Temos aqui um emblema de poder e proteção, uma base inabalável em períodos atribulados. Ver Dt 32.4 ss. (especialmente os vss. 15,18,30); I Sm 2.2; II Sm 23.3; Sl 18.2; 89.26; I Co 10.4. “Rocha eterna, foi na cruz, que morreste Tu, Jesus.” Assim diz um antigo hino evangélico.

     

    49.25 Pelo Deus de teu pai. Ver Gn 24.12 e 28.13 quanto ao Deus de Abraão; Gn 48.16, quanto ao Deus de Abraão e Isaque; e Êx 3.6,16, quanto ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó. O acúmulo de patriarcas, leais à aliança com o mesmo Deus, assinala o distintivo monoteismo que foi desenvolvido pelos hebreus. E esse Deus era o Deus de poder e provisão. A ideia de todo-poder, que figura no versículo anterior, é aqui repetida.

    Bênçãos dos altos céus. Tanto as bênçãos temporais, como a chuva, o orvalho, o sol, condições atmosféricas favoráveis para a fertilização do solo, quan­to as bênçãos espirituais, como orientação, proteção e favor divino, que fazem o crente cumprir com êxito a sua missão neste mundo.

     

    Bênçãos das profundezas. Ou seja, do oceano subterrâneo (Gn 1.2,6), que os antigos consideravam uma fonte de fertilidade. Ademais, das profundezas brotavam os mananciais, as fontes de águas, que manariam do oceano subterrâneo. Alguns eruditos incluem aqui a ideia das minas e dos minerais, produtos que podem ser extraídos do subsolo e são fontes de prosperidade material.

     

    Bênçãos dos seios e da madre. Está em pauta a fertilidade humana. As tribos de Efraim e Manassés tornaram-se muito numerosas e poderosas (ver Nm 1.32-34). O número dos descendentes de José era maior que o número de descendentes de qualquer outro de seus irmãos. “Efraim e Manassés se haviam multiplicado tanto nos dias de Josué, que um único e comum território não teria sido suficiente para eles. Ver sobre a queixa deles, em Josué 17.14” (Adam Clarke, in loc.).

     

    49.26 Jacó havia prosperado muito mais que seu pai, Isaque, e mesmo mais que o seu avô, Abraão. Suas riquezas perdurariam para sempre, como duradouros são os montes eternos, que não se desgastam com o passar dos séculos. Sua poste­ridade perduraria por eras incontáveis, futuro afora, ultrapassando os céus e a terra, que desapareceriam em decadência. José haveria de herdar essa herança eterna e riquíssima. Quando falamos nas realidades espirituais, então podemos tomar essas palavras em sentido literal, e não apenas poético.

     

    Essas bênçãos extraordinárias repousariam sobre a cabeça de José como se fossem uma coroa, porque havia sido mandado ao Egito, tornando-se a segunda autoridade dali, recebendo domínio sobre os seus irmãos. E tal como fora distinguido deles fisicamente, em glória terrestre, assim também, na bênção divina, continuaria a distinguir-se deles.

     

    “A bênção ancestral ultrapassava até mesmo a majestade e a fertilidade das colinas de Efraim” (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    No Targum de Jerusalém, a palavra montes é interpretada como se indicasse Abraão e Isaque, ao passo que colinas seria uma alusão a Sara, Rebeca, Raquel e Lia. As bênçãos dadas a José, pois, seriam superiores às bênçãos que haviam sido dadas àqueles notáveis santos do passado.

     

    José como Tipo de Cristo. Essa palavra de exaltação, na verdade, foi endereçada à pessoa de Cristo, aqui simbolizado por José.

     

    49.27 Benjamim. Benjamim seria um guerreiro incansável, arrasador e irresistível. Ele foi “elogia­do em face de seus hábitos predatórios e seu cometimento na guerra. A diferen­ça entre essa caracterização (que encontra apoio nos capítulos dezenove a vinte e um de Juízes), e o conceito de Benjamim, na história de José, pode ser percebida. Na última linha parece haver uma alusão à coragem de Saul (cf. II Sm 1.25)” (Cuthbert A. Simpson, in loc.). Consideremos os cruéis benjamitas de Juízes 20, bem como os feitos de Saul, um benjamita, em I Sm 9.1,2; 19.10 e 22.17. De certa feita, contando somente com vinte e seis mil homens, ele derrotou um exército inimigo de quatrocentos mil homens (ver Jz 20.15-25). Alguns dos pais da Igreja aplicaram essa profecia, indiretamente, ao após­tolo Paulo (um benjamita), o qual, antes de converter-se, participou da matança de pessoas inocentes. Mas depois, em um sentido espiritual, ele continuou sendo um guerreiro, em favor do bem, e, quase sozinho, levantou a Igreja cristã no mundo gentílico. Alguns eruditos veem Benjamim como um tipo de Cristo, o qual, como um guerreiro, esmaga os inimigos e os poderes das trevas (ver Cl 2.15 e Ap 19.11,15).

     

    49.28 As doze tribos de Israel. Doze é o nome governamental. Na verdade, porém, as tribos eram treze, se incluirmos Levi. Mas essa tribo ficou destituída de terras e tornou-se na classe sacerdotal em Israel. Ver Nm 1.47 ss. Além disso, apesar de José ter sido um dos patriarcas, não houve uma tribo com seu nome. Antes, ele gerou Efraim e Manassés, os quais se tornaram chefes de duas tribos. Isso posto, o número de descendentes de José foi maior que o número de descendentes de qualquer de seus irmãos (Nm 1.32-34). Assim, temos onze filhos de Jacó como tribos; tirando Levi, ficam dez tribos; adicionan­do Efraim e Manassés, ficam doze. Mas Jacó abençoou a catorze, porque, embora não tivesse uma tribo com seu nome, no sentido estrito, José recebeu a bênção maior e mais longa; e Levi, embora mais tarde se tivesse tornado a classe sacerdotal, não sendo oficialmente considerado uma tribo, também foi abençoado.

     

    No livro de Juízes, vemos as tribos essencialmente autônomas, como se fossem estados de uma frouxa federação ou comunidade. Sob Davi, as tribos foram unificadas, uma situação que prosseguiu até a divisão da nação em duas, nos dias de Reoboão, neto de Davi: o reino do norte (dez das tribos), chamado Israel; e o reino do sul (duas das tribos), chamado Judá. Somente esse reino do sul se tem projetado até os tempos modernos. O moderno estado de Israel con­siste em um núcleo formado pelas tribos de Judá e Benjamim, com um elemento regular de Levi, além de salpicos de todas as outras tribos.

     

    A Morte de Jacó (49.29-33)

     

    A longa e produtiva vida desse patriarca chegou ao fim. Ele pôde ver todos os seus filhos bem criados, bem-educados e ocupados em suas respectivas missões. Oh, Senhor, concede-nos tal graça! Foram-lhe conferidas longa vida e muita atividade, até o fim. Foi-lhe concedido o privilégio de ver sua própria missão efetuada, levada à plena fruição. Assim sendo, ao mesmo tempo em que ia abençoando outros, foi extraordinariamente abençoado ele mesmo. Os oráculos que ele apresentou, à semelhança daque­les de Noé, olhavam profeticamente para o futuro destino de seus filhos e da nação que estavam produzindo. Jacó foi capaz de ver a mão do Senhor atuan­do em tudo. Jacó foi homem acostumado a ver a providência de Deus.

     

    Na caverna. Em Macpela (vs. 30). Efrom. O heteu. Na história profana, os heteus são conhecidos como hititas. Ver a história da compra dessa caverna (e do campo em torno dela), no capítulo vinte e três de Gênesis.

     

    Um dos instintos da idade avançada é a pessoa voltar às suas raízes. Quando a morte se aproxima, é um instinto humano comum querer ser sepulta­do na terra do nascimento. “É como se a solidão da morte fosse, até certo ponto, vencida, e como se o laço com o passado formativo fosse refeito. Isso empresta um aspecto sacrossanto ao lugar de sepultamento de uma pessoa” (Walter Russell Bowie, in loc.).

     

    Eu me reúno ao meu povo. Ver em Gn 25.8,17. Ver também Gn 35.29, bem como o vs. 33 deste capítulo. Nisso pode haver um indício da crença na vida pós-túmulo, uma doutrina que, na época, ainda não fora desenvolvida na teologia dos hebreus, e só começou a ter expressão clara nos Salmos e nos Profetas.

     

    Com meus pais. O vs. 31 nos mostra quais pessoas foram sepultadas na caverna de Macpela.

     

    49.30,31 Campo de Macpela. Curiosamente, as Escrituras não registram a morte de Rebeca. Supomos que, pelo tempo em que Jacó voltou do território de Labão, ela já tinha morrido. Estes versículos revelam-nos, porém, que ela também estava sepultada na caver­na da família. As outras pessoas ali sepultadas foram Abraão, Sara, Isaque e Lia. Mas José, que morreu e foi embalsamado no Egito, foi sepultado em Siquém, tendo sido os seus ossos transportados por Moisés para fora do Egito. Ver Js 24.32.

     

    Sepultamentos em Macpela. Sara (Gn 23.19); Abraão (25.8,9); Isaque (35.27- 29); Rebeca (49.31); Lia (49.31) e Jacó (50.13).

     

    49.32 O terreno foi comprado para tornar-se sepulcro da família. Curiosamente, os árabes é que possuem atualmente o local, com sua caverna.

     

    49.33 Terminara a Missão de Jacó. Jacó terminou de proferir suas bênçãos e suas ordens. Tudo estava bem. Não havia do que se lamentar, e coisa alguma precisa­va ainda ser feita.

     

    E expirou. Provavelmente, uma tradução correta. A King James Version fala aqui em “fantasma”, mas a Revised Standard Version também fala em “expirar”, Este versículo não indica necessariamente que o espírito imaterial de Jacó abandonou o seu corpo, embora alguns entendam a questão por esse prisma. Cf. Gn 25.8,17; 35.29. No caso da morte de Raquel (Gn 35.18), “saiu-lhe a alma” e alguns eruditos também pensam que isso indica uma alma imaterial. No hebraico, a palavra alma pode indicar apenas a respi­ração ou o princípio vital que anima o corpo vivo. Todavia, com a passagem do tempo, a palavra hebraica nephesh veio a indicar a alma imortal e imaterial, que pode viver fora do corpo físico. Embora possa haver laivos de crença na imortalidade, na antiga teologia dos hebreus (na época dos patriarcas), na­quele tempo a doutrina ainda não se tinha desenvolvido o bastante. Tal desenvolvimento só ocorreu mais tarde.

     

    Foi reunido ao seu povo. Ver as notas sobre essa expressão, no vs. 29 deste capítulo.

     

    Bibliografia R. N. Champlin

    (mais…)

  • Lição 12 – Revista Betel – Jacó abençoa os filhos de José

    Fonte: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “Mas Israel estendeu a sua mão direita e a pôs sobre a cabeça de Efraim, ainda que era o menor, e a sua esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as suas mãos avisadamente, ainda que Manassés era o primogênito”. Gn 48.14

    Verdade Aplicada

    Se vemos a mão de Deus em todas as coisas, devemos dei­xar nas mãos de Deus todas as coisas.

    Objetivos da Lição

    ?      Mostrar as promessas de Deus fortalece os seus filhos;

    ?      Ensinar a depender de Deus; e

    ?      Apresentar os pais abençoan­do os filhos.

    Textos de Referência

    Gn 48.3 E Jacó disse a José: O Deus Todo-poderoso me apare­ceu em Luz, na terra de Canaã, e me abençoou,

    Gn 48.4 E me disse: Eis que te farei frutificar e multiplicar, e te porei por multidão de povos, e darei esta terra à tua semente depois de ti, em possessão per­pétua.

    Gn 48.13 E tomou José a am­bos, a Efraim na sua mão direita, à esquerda de Israel, e a Manas­sés na sua mão esquerda, à direi­ta de Israel, e fê-los chegar a ele.

    Gn 48.14 Mas Israel estendeu a sua mão direita e a pôs sobre a cabeça de Efraim, ainda que era o menor, e a sua esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as suas mãos avisadamente, ainda que Manassés fosse o primogênito.

    Gn 48.18 E José disse a seu pai: Não assim, meu pai, porque este é o primogênito; põe a tua mão direita sobre a sua cabeça.

    Gn 48.19 Mas seu pai o recusou e disse: Eu o sei, filho meu, eu o sei; também ele será um povo e também ele será grande; con­tudo, o seu irmão menor será maior que ele, e a sua semente será uma multidão de nações.

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

     

    Ajuda 2

    Os Filhos de José Entre os Doze 48.1-7

     

    A refe­rência a Luz (Betel) faz lembrar o relato da fonte Sacerdotal desse episódio (35: 9-15). Esta perícope aparentemente apresenta uma versão diferente da constante no capítulo 35, pois no versí­culo 4 aparecem “povos”, enquanto “nações” ocorrem no capítulo 35, e nota-se a adição de perpétua à oferta da terra.

     

    Nesta bênção, Jacó deu tanto a Efraim como a Manassés direito de participar em pé de igualdade com as doze tribos. Nessa época isso significava que Jacó estava reivindicando 13 filhos. Nunca haveria mais do que doze tribos, todavia, embora a relação parecesse ser diferente em épocas diferentes. Foi feita a decla­ração adicional de que quaisquer outros filhos nascidos a José no futuro também seriam contados como família de Efraim ou de Manassés.

     

    Muita discussão se levantou a respeite da razão por que Jacó mencionou Raquel neste contexto (v. 7). Davies atribui esta menção às memórias que ocorreram a Jacó ao ver os dois netos. Von Rad não vê nenhuma “relação reconhecível com o que se segue ou antecede”. Speiser crê que “a sua pertinência é facilmente indi­cada”. Visto que a morte roubara de Jacó a sua amada Raquel, ele sentia-se justificado em substituir os filhos que Raquel poderia ter tido por dois de seus netos. A expressão “para minha triste­za”, constante no v. 7, na versão RSY inglesa (“morreu-me Raquel no cami­nho, para minha tristeza”), é a chave da melancólica opinião de Jacó a respeito da vida, no decorrer dos anos que se passa­ram desde a morte dela.

     

    As Bênçãos de Efraim e Manassés (48.8-22)

     

    A bênção de Jacó foi pronunciada em vários estágios. Primeiro ele abraçou afetuosamente os netos (v. 10), tendo-os, aparentemente, entre os joelhos (e não sobre estes). Em seguida, José tirou os seus filhos de entre os joelhos de Jacó e, colocando Manassés à sua esquerda e Efraim à sua direita, ajoelhou-se com eles, prostrando-se diante de seu pai. Estavam todos em uma posição correta, para receberem a bênção de Jacó. Foi por estar com os olhos fechados e a cabeça curvada que José não viu Jacó cruzar as mãos (heb., entrançar), colocando a mão direita sobre a cabeça do neto mais novo, preparando-se para a inversão da bênção esperada. Se estava cego, como é que Jacó sabia qual deles era Efraim? Ele sabia como José os colocara, ou não estava completamente cego. Quando José abriu os olhos, viu o que havia aconte­cido e apresentou a sua objeção.

     

    A inversão da bênção é reminiscente do engano de Isaque, mas aqui o próprio patriarca fez a modificação. Essa mano­bra previa a história das tribos de Efraim e Manassés, pois, logo depois do estabe­lecimento permanente em Canaã, Efraim havia conseguido a ascendência. Em Números 26, uma lista mais antiga, Ma­nassés é colocado antes de Efraim; em Números 1, geralmente considerada como posterior, a ordem é inversa. Pos­teriormente, Oséias usaria o título de Efraim como sinônimo de Israel (Os 4:17; 5:3).

     

    A bênção está na forma de hino litúrgico, mas, ao invés de usar a segunda pessoa, este hino emprega frases participiais, para retratar o Deus que está sendo descrito. Tanto o estilo quanto o vocabulário fazem lembrar Isaías 40 a 55, mas este hino é definidamente mais antigo do que a passagem de Isaías e provavelmente a influenciou. A bênção expressa três ênfases: a presença de Deus com os pais, como ele cuidou de Jacó, e uma invocação para que ele perpetue os nomes patriarcais na prosperidade de seus descendentes.

     

    A referência mais importante é o anjo que me tem livrado, que é claramente Deus aparecendo em forma humana. O único incidente ocorrido nesta conexão fora em Peniel. Aquele a quem Jacó temia poderia tê-lo matado, se não se tivesse tornado o seu redentor. Esta é go’el, uma das grandes palavras do Velho Testamento, aparecendo aqui pela primeira vez. Significa o “parente mais próximo”, o responsável por defender a vida, integridade ou propriedade de um parente, e que tinha a responsabilidade de vingar a sua morte. Aqui Jacó chamou o anjo de Deus de go’el (cf. Rt 1-3; Is 40-55; 59:20; Jó 19:25). Alguns exposi­tores mais antigos igualam este “anjo redentor” com Jesus Cristo, mas dificilmente esta é a maneira como deve ser entendida a sua relação com esta passa­gem. É melhor considerar que a ideia expressa aqui alcançou o seu significado maior em Cristo. Em sua obra de salva­ção, Deus tornou-se um redentor no sen­tido que vai além de qualquer coisa que Jacó tenha imaginado.

     

    A segunda declaração, nesta bênção, é mais individualista (v. 20). Os pronomes são da segunda pessoa do singular. A ênfase em que todo o Israel se abençoará, ao desejar ser tão afortunado quanto Efraim e Manassés, possivelmente data esta passagem em uma época de prosperidade nacional, mais provavelmente o reinado de Jeroboão II, nos meados do oitavo século a.C.

     

    Um pedaço de terra, literalmente “um ombro”, é um mistério para os comen­taristas. Em nenhuma outra passagem de Gênesis se menciona esta expressão, e pode ter provindo de tradição mais antiga, não mais existente na literatura do Velho Testamento, a respeito de uma conquista desconhecida de Jacó. Isso, contudo, não diminui a sua importância. A expressão “um pedaço de terra” (shechem) é a mesma que costumeiramente é traduzida como “Siquém”, mas o uso de “um” com ela parece excluir o nome próprio. Fosse o pedaço de terra “shechem” (monte Gerizim) ou a pró­pria Siquém, o local é o mesmo. A alusão mais natural seria à conquista de Siquém por Simeão e Levi, mas o fato de Jacó ter reprovado essa conquista, tanto em sua narrativa (cap. 34) quanto na bênção (49:5), parece contradizer esta aplicação. Contudo, pode ser que, depois de longos anos no Egito, Jacó pudesse considerar nostalgicamente aquele “pedaço de terra” como sua propriedade por direito, embora a sua conquista fosse questio­nável ou merecedores de culpa os seus participantes.

     

    Bibliografia C. T. Francisco

    (mais…)

  • Lição 11 – Revista Betel – Jacó vai ao Egito se encontrar com José

    Fonte: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “E disse Israel: Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra”. Gn 45.28

    Verdade Aplicada

    As pegadas na areia do tempo não são deixadas por pessoas sentadas, mas por homens e mulheres que se aventuram em cumprir a vontade de Deus.

    Objetivos da Lição

    ?      Ensinar que Deus provê o necessário para cada situação;

    ?      Mostrar que sempre é ne­cessário buscar a orientação divina; e

    ?      Demonstrar que quando es­tamos na vontade de Deus em qualquer lugar somos abenço­ados.

    Textos de Referência

    Gn 45.26 Então, lhe anuncia­ram, dizendo: José ainda vive e ele também é regente em toda a terra do Egito. E o seu coração desmaiou, porque não os acreditava.

    Gn 46.1 E partiu Israel com tudo quanto tinha, e veio a Berseba, e ofereceu sacrifícios ao Deus de Isaque, seu pai.

    Gn 46.2 E falou Deus a Israel em visões, de noite, e disse: Jacó! Jacó! E ele disse: Eis-me aqui.

    Gn 46.3 E disse: Eu sou Deus, o Deus de teu pai; não temas descer ao Egito, porque eu te farei ali uma grande nação.

    Gn 46.4 E descerei contigo ao Egito e certamente te farei tornar a subir; e José porá a sua mão sobre os teus olhos.

    Gn 46.5 Então, levantou-se Jacó de Berseba; e os filhos de Israel levaram Jacó, seu pai, e seus meninos, e as suas mulheres, nos carros que Faraó enviara para o levar.

    Gn 46.6 E tomaram o seu gado e a sua fazenda que tinham adquirido na terra de Canaã e vieram ao Egito, Jacó e toda a sua semente com ele.

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

    Viagem de Jacó ao Egito (46.1-7)

     

    Temos aqui outro dos grandes marcos da vida de Jacó, um passo importante na formação de Israel como nação. Abraão havia sido avisado de antemão acerca dessa questão, a qual dificilmente poderia ter sido antecipada sem alguma iluminação divina. Seus descendentes teriam de sofrer um período de quatrocentos anos de exílio e provação (Gn 15.13). Israel, em desenvolvi­mento, continuaria no exílio até que os pecados dos habitantes de Canaã preen­chessem a taça do destino. Então o juízo de Deus haveria de feri-los, e eles perderiam seus territórios. E essa terra seria dada a Israel, como sua pátria (Gn 15.16). Esse seria o primeiro dentre quatro grandes exílios previstos para o povo de Israel, a saber: 1. o exílio egípcio, quando Israel estivesse em formação; 2. o exílio assírio, quando se perderam quase totalmente dez das tribos; 3. o exílio babilônico, quando se perderam quase totalmente duas tribos (Judá e Benjamim), mas das quais voltou um remanescente, provenientes de Levi e de todas as demais tribos; 4. o exílio romano, a começar em 132 D. C. (quando todos os judeus foram expulsos da Palestina e dispersos em várias direções). Foi então que os judeus se dividiram em três grupos principais: Judeus asquenazitas (que foram para países da Europa central e oriental); judeus sefarditas (que ficaram em países em torno do Mediterrâneo, além das ilhas britânicas); judeus orientais (que ficaram na região da Arábia para o oriente, até o Japão). Esse quarto exílio começou a ser revertido com a formação do Estado de Israel, em maio de 1948, graças aos esforços do movimento sionista, iniciado por idealistas judeus do século XIX. Mas nem todos os judeus concordam com o sionismo, do que é prova o fato de que a maior parte dos judeus continua longe da Palestina até hoje. Assim, tem prevalecido sempre a providência de Deus.

     

    Apesar de todos os exílios, vicissitudes e perseguições, tem prevalecido o Pacto Abraâmico. Esse pacto é renovado na passagem à nossa frente. Ver a respeito em Gn 15.18. Uma das provisões desse pacto era a necessidade de um território pátrio, onde Israel pudesse viver como nação, e não apenas como tribos nômades. Com base nessa situação, viria a primeira revelação, e, finalmente, o Cristo, descendente de Judá. E, então, Cristo haveria de abençoar todas as nações da terra (Gl 3.14), por meio do evangelho. Antes, porém, Israel teria de residir temporariamente em Gósen, no Egito.

     

    46.1  De Hebrom a Berseba. Jacó precisava tomar uma decisão muito importante. Era certo deixar a terra de Canaã, onde Abraão tinha habitado? Deixá-la não prejudicaria as provi­sões do Pacto Abraâmico? Como esse pacto poderia ter cumprimento se a nação de Israel se formasse no Egito? Jacó buscou luzes. E assim sendo, ele foi a Berseba e ofereceu sacrifícios a Yahweh, o Deus de seu pai, Isaque. Ele estava voltando às suas raízes e buscando respostas. Em Berseba Deus havia aparecido a Abraão (Gn 21.33) e depois a Isaque (Gn 26.23). Esse lugar tinha um santuário, um centro do Yahwismo. Era um lugar apropriado para buscar iluminação a respeito da séria decisão que ele teria de tomar. O próprio Faraó tinha-lhe enviado ricos presentes, convidando-o a vir ao Egito (Gn 45.17 ss.). José achava-se no Egito, e Jacó gostaria muito de ir para perto dele. Mas existem coisas mais importantes do que estar na companhia de um filho amado, como fazer a vontade de Deus, sem importar qual seja essa vontade. Mas se alguém puder estar com um filho amado, ao mesmo tempo em que estiver fazendo a vontade de Deus, tal pessoa será duplamente abençoada. A Jacó, pois, foi dada essa bênção.

     

    Berseba ficava a apenas vinte e seis quilômetros de Hebrom, assim o santu­ário ficava perto, e Jacó sentiu-se impelido a buscar orientação ali.

     

    Deus de seu pai. No hebraico, Elohim.

     

    46.2  Em visões de noite. Algumas vezes as visões são dadas por meio de sonhos, mas é provável que aqui devamos entender a presença divina ou uma teofania. Para receber uma orientação iluminadora, algumas vezes precisamos do toque místico, da iluminação vinda do alto. Jacó era homem de muitas experiências místicas, mediante as quais a presença divina lhe era conferida de variegados modos. Ao que parece, cada movimento importante de Jacó era acompanhado por alguma elevada experiên­cia espiritual, que lhe conferia orientação e poder. Ver Gn 28.11 ss. Quando ia para a companhia de Labão, Jacó tivera a visão da escada que ia dar no céu. Na oportunidade, foi renovado através dele o Pacto Abraâmico (Gn 31.3,11). Quando voltava para Canaã, depois de ter estado com Labão por vinte anos, recebeu outra iluminação direta (Gn 32.1 ss.). Depois de ter-se separado de Labão, já a caminho de Canaã, Jacó recebeu outra experiência mística iluminadora (Gn 35.1). E, então, foi instruído a ir a Betel, habitar ali e erigir um altar. Foi aí que ele se desfez de certos ídolos (sem dúvida, alguns trazidos por Raquel), quando houve uma renovada dedicação ao Senhor.

     

    Eis-me aqui. A resposta da alma à presença de Deus, a prova da consciên­cia da presença divina. A vida espiritual consiste em mais do que estudo, leitura da Bíblia, oração e meditação. Precisamos, igualmente, do toque místico, a pre­sença de Deus conosco, que nos ilumina o caminho.

     

    “A descida ao Egito, que teria tão decisiva significação para a história da nação de Israel, teve motivo não só no desejo de Jacó ver seu filho perdido fazia tanto tempo (Gn 45.28), mas também na revelação divina dada nas visões da noite!’ (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    46.3  Eu sou Deus, o Deus de teu pai. No hebraico, El, Elohim. El indica poder, e Elohim é o Deus Supremo e Poderoso, o plural majestático de El.

     

    “Essa foi a última revelação conferida a Jacó. Depois dessa revelação não há mais registro de outro evento sobrenatural, até a visão da sarça ardente (Êx 3.4). Jacó deveria migrar para o Egito, pois ali os seus descendentes multiplicar-se-iam até se tornarem uma nação. A presença e a bênção de Deus haveriam de acompanhar a ele e a seus descendentes, e, finalmente, haveriam de trazê-los de volta à Terra Prometida. Para o próprio Jacó, além disso, foi dada a promessa de que José cuidaria dele em seu leito de enfermidade e estaria em sua companhia, por ocasião de sua morte” (Ellicott, in loc.).

     

    Naturalmente, em seu leito de morte, Jacó profetizou acerca de seus filhos (Gn 49), um acontecimento inspirado, mediante o qual Jacó foi capaz de prever, em termos gerais, o futuro dos descendentes de seus filhos, e de dar instruções e bênçãos especiais, que fariam suas vidas diferir das de outras pessoas.

     

    Lá eu farei de ti uma grande nação. O Pacto Abraâmico não falharia meramente porque Israel desenvolver-se-ia no Egito. Bem pelo contrário, as duzentas ou trezentas pessoas (possíveis) que poderiam ter descido ao Egito (como o núcleo original da nação de Israel) seriam abençoadas de modo especial por Deus. Deus as protegeria; a nação se desen­volveria, porque o poder de Deus estava com ela.

     

    Temos aqui outra reiteração do Pacto Abraâmico, em seu mais básico elemento, a grande nação oriunda de Abraão. Cada uma dessas ocorrên­cias frisa alguns poucos itens, embora não o pacto em todos os seus aspec­tos.

     

    46.4  Eu descerei contigo. A presença divina far-se-ia patente até mesmo no exílio no Egito. Ao mesmo tempo, havia aquela promessa a longo prazo de um futuro livramento do exílio egípcio. O Pacto Abraâmico incluía o exílio no Egito (Gn 15.13), mas também a eventual libertação desse exílio, no tempo determinado (Gn 15.16).

     

    O Toque Pessoal. José era o filho amado de Jacó, do qual estava separado fazia vinte e quatro anos. Jacó ainda viveria por bons dezessete anos no Egito, em companhia de José, e, então, faleceria. Jacó desceu ao Egito quando estava com cento e trinta anos, e viveria cento e quarenta e sete anos. Ver Gn 47.28. José estaria perto dele quando morresse e fecharia os seus olhos. José “prestaria a ele esse último serviço” (John Gill, in loc.). Portanto, Jacó nada teria que temer, nada do que se lamentar; nenhuma ansiedade para vexá-lo, se chegasse a des­cer ao Egito para ali viver pelo resto de sua vida.

     

    E te farei tornar a subir, certamente. Não devemos pensar aqui no cadáver de Jacó, o qual foi trazido de volta a Macpela, sepultado onde já estavam os corpos de Abraão, Sara, Lia e Isaque, pai de Jacó. Antes, devemos pensar na promessa a longo prazo de que, finalmente, a nação de Israel seria tirada do Egito.

     

    Um de meus filhos queridos teve um sonho perturbador a respeito de minha morte. Ele sonhou que eu era um homem idoso, meus cabelos total­mente encanecidos. Estávamos nas proximidades de uma grande universida­de. Ele voltou do campus e me encontrou morto, ao que parecia, por um ataque de coração. Quando ele me contou o sonho, eu lhe disse: “Por que você está preocupado? Esse é um bom sonho. Viverei até tornar-me um homem idoso, pois meus cabelos estavam totalmente brancos. Morrerei de súbito, de um colapso cardíaco, o que significa que não passarei dias sofren­do. Além disso, eu não gostaria de estar em outra companhia, ao morrer, do que na sua”. Ao ler o texto bíblico à nossa frente, lembro-me desse sonho de meu filho. José, o amado filho de Jacó, estaria com ele até o fim. Não haveria queixas, nem lamentações, nem faltaria coisa alguma. Foi assim que Jacó foi encorajado a ir para o Egito.

     

    46.5  Então se levantou Jacó. Ele já havia recebido a sua resposta, que lhe foi dada no santuário em Berseba. E assim, com toda confiança, preparou-se para descer ao Egito. Reencontrar-se com seu filho amado, José, inspirava a sua mente. Seu alquebrado corpo de cento e trinta anos de idade movimentou-se com lepidez e renovada energia.

     

    Os carros enviados pelo Faraó (Gn 45.19) facilitaram em muito a viagem.

     

    Coisa alguma é dita acerca das esposas de Jacó. É possível que todas elas já tivessem morrido por esse tempo. Mas havia várias famílias a serem transporta­das, com seus filhos e netos. O vs. 27 mostra que havia setenta homens, pelo que o grupo inteiro deve ter consistido em duzentas a trezentas pessoas ao todo, se incluirmos os servos e servas que faziam parte das casas. Temos aí o núcleo que daria início à nação de Israel no Egito. Os varões são alistados, a começar pelo versículo oito.

     

    46.6  O seu gado e os bens. Mas não certos itens como móveis, instrumentos agrícolas etc., visto que o Faraó os tinha encorajado a viajar sem bagagem, porquanto receberiam implementos novos no Egito (ver Gn 45.20). É melhor ser abastado do que não ser abastado. Apesar da escassez de alimentos, Jacó ainda era dono de muitos bens.

     

    Toda a sua descendência. Os setenta nomes masculinos que apare­cem na lista (vs. 27). Eram várias famílias com seus respectivos filhos e netos. Deus faria grandes coisas, a partir daquele dia de pequenos começos.

     

    46.7  Toda a sua descendência. Informações a serem supridas nas listas que aparecem em seguida (vss. 8-27). Quando Jacó desceu ao Egito, esta­va com cento e trinta anos de idade, cento e quinze anos depois de a promessa ter sido feita a Abraão (Gn 12.1-4). Na verdade, os israelitas não estiveram cativos no Egito por quatrocentos e trinta anos. Apenas cerca de duzentos e cinquenta desses anos foram realmente passados em cati­veiro. Essas são cifras aproximadas dadas pela Septuaginta.

     

    Suas filhas e as filhas de seus filhos. O elemento feminino da família de Jacó fica assim vago, porque, usualmente, as mulheres não eram nomeadas nas genealogias. Ver Gn 37.36.

     

    A Família de Jacó (46.8-27) Este texto tem paralelo em Deuteronômio 10.22, que fala em setenta ho­mens. A tradição arredondou o número de homens a setenta, que alguns estudio­sos supõem ser mera aproximação, ao passo que outros pensam em um número simbólico, e não real, de descendentes de Jacó.

     

    “Esta seção, vinda de uma tradição sacerdotal distinta, contém uma lista de descendentes de Jacó, com base no número tradicional de setenta (vs. 27; ver Êx 1.5; Dt 10.22). A maioria dos nomes dos líderes ancestrais de clãs apare­ce na lista sacerdotal do capítulo vinte e seis de Números… o número setenta inclui José e seus dois filhos, que lhe tinham nascido no Egito, além do próprio Jacó” (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    Enquanto a exposição prosseguir, irei fazendo comparações com as genealogias de Números e de I Crônicas, que abordam os mesmos indivíduos. O vs. 26 diz que o número daqueles que viajaram ao Egito foi de sessenta e seis. Mas o versículo vinte e sete dá o número setenta, porém, como o grande total, ou seja, incluindo os filhos e netos que estavam no Egito.

     

    Cálculos

     

    Filhos e netos de Lia (vs. 15)            33

    Filhos e netos de Zilpa (vs. 18)         16

    Filhos e netos de Raquel (vs. 22)      14

    Filhos e netos de Bila (vs. 25)           07

    Dina, uma filha de Jacó                            01

    71

     

    Er e Onã morreram em Canaã (vs. 12)

    José e dois filhos já estavam no Egito

    (vs. 20); portanto                              -5

     

    Aqueles que migraram para o Egito,

    na companhia de Jacó (vs. 26)         66

    Os que já estavam no Egito              04

     

    Grande total (vs. 27)                         70

     

    Esse total de setenta pessoas era o núcleo da nação de Israel que se desen­volveu no Egito. O trecho de Atos 7.14 dá o número de 75 pessoas. As tradições e os núme­ros variam um pouco. A Septuaginta também fala em setenta e cinco pessoas, pelo que sabemos que Estêvão (Atos 7.14) seguiu a Septuaginta, e não o texto hebraico massorético.

     

    Bibliografia R. N. Champlin

    (mais…)

  • Lição 10 – Revista Betel – Jacó sofre perdas imprevisíveis na família

    Fonte: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “E enviaram a túnica de várias cores, mandando levá-la a seu pai, e disseram: Temos achado esta túnica; conhece agora se esta será ou não a túnica de teu filho”. Gn 37.32

    Verdade Aplicada

    Para compreendermos o valor da âncora, é preciso enfrentar uma tempestade.

    Objetivos da Lição

    ?      Mostrar que Deus não se es­quece das suas promessas;

    ?      Demonstrar que a confiança em Deus nos faz avançar nos momentos de adversidades; e

    ?      Ensinar que a colheita é o resultado do que plantamos.

    Textos de Referência

    Gn 35.27 E Jacó veio a Isaque, seu pai, a Manre, a Quiriate-Arba (que é Hebrom), onde peregrinaram Abraão e Isaque.

    Gn 37.28 Passando, pois, os mercadores midianitas, tira­ram, e alçaram a José da cova, e venderam José por vinte mo­edas de prata aos ismaelitas, os quais levaram José ao Egito.

    Gn 37.31 Então, tomaram a túnica de José, e mataram um cabrito, e tingiram a túnica no sangue.

    Gn 37.32 E enviaram a túnica de várias cores, e fizeram levá-la a seu pai, e disseram: Temos achado esta túnica; conhece agora se esta será ou não a tú­nica de teu filho.

    Gn 37.33 E conheceu-a e disse: É a túnica de meu filho; uma besta-fera o comeu, certamente foi despedaçado José.

    Gn 37.34 Então, Jacó rasgou as suas vestes, e pôs pano de saco sobre os seus lombos, e lamen­tou a seu filho muitos dias.

    Gn 37.35 E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem;

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

    José Vendido como Escravo (Gn 37.12-28)

     

    A noite antecede ao dia, e assim também José não poderia evitar seu exílio. Seus traiçoeiros irmãos só não se tornaram fratricidas por intervenção do mais misericordioso, Rúben (vs. 21). Em vez de ser morto, José foi vendido como escravo, tal como Jacó, antes dele, por causa da ira de Esaú, tinha sido forçado a exilar-se junto a Labão, em Padã-Arã. Assim, a história estava-se repetindo. A providência de Deus cuidou de ambos os casos. Grandes vitórias esperavam por José — porém estas não ocorreriam de pronto, mas somente depois de muitos sofrimentos e vicissitudes boas e más.

     

    37.12 Em Siquém. Apanha-nos de surpresa o fato de que Jacó tivesse enviado seus filhos de volta a Siquém, cena do rapto de Diná e da matança dos súditos de Hamor (Gn 34). As coisas devem ter-se acalmado consideravelmente para que ele tivesse tido a coragem de fazer tal coisa. Os críticos supõem certa deslocação histórica, pensando que a fonte infor­mativa da história, J, dizia que Jacó e sua família continuavam residindo ali, não sabendo de outras histórias que já o faziam estar em Hebrom.

     

    Siquém ficava a cerca de oitenta quilômetros de Hebrom, e Dotã ficava mais vinte e quatro quilômetros para o norte (vs. 17). Portanto, de acordo com os padrões da época, estavam envolvidas consideráveis distâncias. Alguns estudio­sos opinam que parte da razão para os filhos de Jacó terem sido enviados a Siquém foi averiguar se o território (presumivelmente bom para pasto) oferecia segurança ou não.

     

    As riquezas de Jacó são ilustradas no texto. Por qual razão ele teria procura­do terras de pastagem, distantes mais de cem quilômetros de onde estava, a menos que possuísse grandes rebanhos e precisasse de muito espaço?

     

    37.13 Eis-me aqui. José estava disposto e pronto para ir em sua missão de miseri­córdia. Seus irmãos estavam ausentes, em Siquém. É provável que fizesse algum tempo que Jacó não recebia notícias da parte deles, e estivesse preocupado com o seu bem-estar. A José foi confiada então essa missão de averiguar como estavam as coisas. Isso armou o palco para uma história negra, de ódio e cruelda­de. Jacó não veria mais seu amado filho José por muitos anos, supondo, durante todo esse tempo, que José estivesse morto.

     

    O lugar, Siquém, era perigoso, por causa dos incidentes descritos no capítulo trinta e quatro. E Jacó queria ter certeza de que os seus filhos não tinham sido envolvidos por algum dano, pelo que a missão de José se revestia de considerá­vel importância.

     

    37.14 Os filhos e os rebanhos constituíam toda a riqueza de Jacó, ocupando toda a sua atenção. O bem-estar deles era da máxima importância para Jacó. Na vida de um homem, essas são as coisas mais importantes. Porém, havia uma falha fatal no paraíso de Jacó. Onze irmãos cultivavam o ódio em seu coração contra um irmão. Isso nos faz lembrar de como os irmãos de Jesus, por longo tempo, foram hostis a Ele.

     

    É irônico que os filhos de José estivessem livres de perseguição dos habitan­tes de Siquém, por parte de quem tinham sido tão maltratados, ao passo que José, irmão deles, não estava seguro entre seus irmãos.

     

    Diz o Targum de Jonathan: “Temo que os horeus tenham vindo e os tenham ferido, por haverem matado a Hamor e a Siquém, bem como aos habitantes daquela cidade”.

     

    37.15 Não Estavam Mais em Siquém. José não os encontrou nas proximidades de Siquém, onde Jacó pensara que estariam. Mas um certo homem dali, com quem José se encontrou, sabia que eles se tinham ido para Dotã (vs. 17). Os escritores judeus consideram esse homem um anjo que estava com José para guiá-lo. Mas o texto não indica nada de incomum. O homem pode ter sido um viajante (conforme sugeriu Aben Ezra), ou, então, alguém que arava o campo. Fosse como fosse, José encontraria ajuda para as coisas mais insignificantes, como parte das bênçãos diárias de Deus.

     

    37.16 Dize-me onde. José pediu, e foram-lhe dadas orientações. Coisa pequena, mas importante para o momento. Tudo fazia parte de uma missão mais ampla. Nossas missões envolvem coisas pequenas e coisas grandes.

     

    37.17 Vamos a Dotã. No hebraico, essa palavra significa duas fontes ou festa dupla (aqui e em II Rs 6.13). Ficava cerca de noventa e sete quilômetros ao norte de Jerusalém e a cento e cinco quilômetros de Hebrom. Por ali passava uma rota de caravanas que ia da Síria ao Egito. A região era conhecida por sua excelente pastagem, e, naturalmente, esse fato atraíra até ali os irmãos de José. Essa cidade é deveras antiga, e muitas descobertas arqueológicas têm sido feitas ali. Até hoje, os pastores vêm do sul da Palestina àquela região a fim de dar água e pasto a seus rebanhos. O arqueólogo Free encontrou noventa rebanhos na estrada que vem de Jerusalém.

     

    Começam Dificuldades Sérias. Finalmente, José encontrou-se com seus trai­çoeiros irmãos. Incidente tão corriqueiro em breve redundaria em uma tremenda aventura, com sua mistura de tristeza e alegria, derrota e triunfo.

     

    José era um jovem diferente que atravessou o caminho de seus irmãos. Era diferente deles. E eles haveriam de puni-lo por causa disso. Com frequência, até mesmo em boas famílias, um filho que se destaque provoca a hostilidade de outros membros da família que não querem que ele cresça.

     

    Os menos brilhantes podem desenvolver-se junto com os mais brilhantes; mas é mais fácil criticar e perseguir do que crescer, e, normalmente, as pessoas preferem o caminho da menor resistência. É tão possível a uma pessoa ser magnânima quanto ser maldosa; e ser maldosa concorda melhor com a natureza humana caída. É errado suprimir e distorcer uma personalidade por ser ela dife­rente. A perseguição, quase sempre, é produto de mentes inferiores. E mesmo quando não seja assim, será sempre produto de almas inferiores.

     

    37.18 Conspiraram contra ele. Este versículo é um terror. José era tão odiado que o simples fato de o virem de longe deixou-os irados, o rancor fervendo em seus corações. Se o encontrassem em um elevador (em tempos modernos), tê-lo-iam ignorado. Se o vissem caminhando por uma rua, teriam atravessado a rua para o outro lado. Se o vissem apanhar um ônibus, teriam esperado por outro.

     

    “Entraram em entendimento e traçaram os mais astuciosos métodos que foram capazes de imaginar de tirar-lhe a vida, mas ocultar o homicídio” (John Gill, in loc.).

     

    37.19 Vem lá o tal sonhador! Isso eles disseram para lançarem José no ridículo, desprezando o dom espiritual que Faraó haveria de respeitar e pelo qual o Egito seria salvo de uma fome calamitosa. O profeta José não era honrado entre seus irmãos, tal como Jesus não foi respeitado entre os Seus (Mt 13.57). Quanto a essa e outras questões, José tipificava o Messias. No hebraico temos a expres­são “senhor dos sonhos”, uma frase escarninha em extremo. Eles tinham assassi­nado a muitos siquemitas para vingar a Diná, irmã deles (Gn 34.24-29), mas não consideravam o próprio irmão deles melhor do que os pagãos a quem tinham matado traiçoeiramente.

     

    37.20 Matemo-lo… e diremos. Eles planejaram encobrir um homicídio com uma mentira. Ficamos boquiabertos diante do vil caráter dos irmãos de José, patriarcas de Israel. Somente a graça de Deus poderia insuflar alguma decência em tais indivíduos. Ver no Dicionário os artigos Homicídio e Mentir (Mentiroso). Foi de uma maneira extremamente trivial que eles planejaram quebrar a dois princípios que, posteriormente, fariam parte dos Dez Mandamentos. O relato é tão terrível, retratando com tão negras luzes o caráter daqueles homens, que alguns eruditos têm chegado a pensar que tudo não passa de uma lenda dramática, algo que realmente não pode ter acontecido. “Eles devem ter sido selvagens sem nenhum princípio!” (Adam Clarke, in loc.).

     

    Numa destas cisternas. Escavações feitas para coletar a água da chuva, para efeitos agrícolas e para dessedentar os animais. Ver Jr 38.6. Os intérpre­tes judeus acusaram Simeão de ser o principal instigador do plano, supondo que por esse motivo José mandou deixá-lo amarrado na prisão, no Egito (Gn 42.24). Mas não há como averiguar se essa informação está ou não com a razão.

     

    37.21 Rúben Faz Objeção. Rúben conseguiu convencer os outros a não executa­rem o plano homicida contra José. O vs. 22 mostra que Rúben tinha planejado resgatar José, voltando mais tarde à cisterna, a fim de libertá-lo dali. Portanto, aquele que aparentemente havia estuprado Bila (uma das concubinas de Jacó) pelo menos tinha algum princípio moral. Ver Gn 35.22. Judá também quis pou­par José, mas estava pensando mais em termos de dinheiro, e não em termos de misericórdia (vs. 26). Pelo menos, no caso de Rúben, houve um raio de luz que brilhou no quadro, em tudo mais, tenebroso. O caso de José ilustra a quais profundezas de depravação um homem é capaz de afundar-se.

     

    Josefo pôs nos lábios de Rúben um longo e floreado discurso de defesa, ao explicar esta passagem. E, realmente, é quase certo que Rúben disse alguma coisa eloquente a seus irmãos, desviando do mal seus corações malignos.

     

    37.22 Lançai-o nesta cisterna. Pela providência divina, esta estava seca, pois, se assim não fora, ter-se-ia afogado. Rúben estava pensando na tristeza avassaladora que Jacó sofreria, diante da morte de José. Tinha apenas dezessete anos e era o filho favorito de seu pai. Seu coração comoveu-se, e, então, apresentou um plano alternativo, que parecia decretar a morte de José (até onde os outros irmãos entenderiam a questão), mas daria a Rúben a oportunidade de reverter o curso das más ações dos irmãos de José. O trecho de Gn 42.21 dá-nos a patética mensagem de que José ficou angustiado e começou a implorar por sua vida, o que seus irmãos levaram tão pouco a sério. Eles estavam apanhados no vórtice de seus pecados. Kant baseou um argumento moral sobre a necessidade de recom­pensa ou de retribuição em favor da existência da alma e de sua sobrevivência diante da morte biológica. Em algum ponto, cada homem precisa encontrar-se consigo mesmo, quanto ao bem e quanto ao mal. Cada indivíduo deverá receber recompensa ou punição pelo que tiver praticado, pois, se assim não fora, então viveríamos em um mundo dominado pelo caos. Vendo que nem a recompensa nem o juízo são devidamente aplicados nesta esfera terrena, então deve haver uma “vida além” onde as contas serão devidamente pagas.

     

    Talvez Rúben tenha pensado que poderia pagar algo da dívida de seu peca­do, que cometera contra seu pai, contrabalançando o seu erro mediante um ato de bondade que seria vital para ele. Seja como for, o arrependimento deve incluir, sempre que possível, atos de reparação.

     

    37.23 Uma Maldade Ansiosa por Manifestar-se. Os irmãos de José não hesitaram. Agarraram-no, tiraram-lhe a túnica preciosa, lançaram-no na cisterna e, ato contí­nuo, de corações insensíveis, sentaram-se para comer (vs. 25). Há pessoas más que são tão destituídas de consciência, que ficamos perplexos. Alguns dos mais graves pecados são praticados de maneira a mais trivial e insensível.

     

    …para que sejamos livres dos homens perversos e maus; porque a fé não é de todos” (II Ts 3.2).

     

    37.24 Cisterna, vazia, sem água. Isso por providência divina. As circunstâncias eram dificílimas. Talvez José tenha sido deixado totalmente despido, conforme pensavam alguns intérpretes judeus. Como quer que tenha sido, sua situação era desesperadora.

     

    A Experiência na Cisterna. Todo homem, em algum tempo em sua vida e, provavelmente, por muitas vezes, tem a sua experiência na cisterna. Os peca­dos acham-se no abismo da degradação. Até homens espirituais sofrem rever­sões sérias que os deixam como que em uma cisterna. “Moral e espiritualmen­te… a alma do homem está em um buraco. A percepção do fato pode ocorrer como um choque abrupto. José, em um momento, caminhava sob a luz do dia, em sua túnica multicolorida; no momento seguinte, estava em uma cisterna, em meio à escuridão. Em um momento, parecia de nada precisar; no momento seguinte, já precisava de tudo. Assim acontece à alma humana. Da auto-suficiência, pode ser imersa em total impotência e desesperadora necessidade de Deus. No entanto, no pior momento de José, havia forças insuspeitas que se movimentavam para libertá-lo. . . isso vemos no Salmo 40.2 (Walter Russell Bowie, in loc.):

     

    Tirou-me de um poço de perdição, dum tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos.

     

    O Targum de Jonathan diz que havia serpentes e escorpiões no fundo da cisterna, e Jarchi salientou que ali não havia água. Nesse caso, José morreria de sede, se alguma outra coisa não o matasse primeiro.

     

    37.25 Sentando-se para comer pão. Aqueles homens ímpios e desarrazoados, embora ouvindo os gritos de desespero de José (Gn 42.21), foram capazes de ficar sentados para comer pão. José não merecia ser posto na cisterna. Havia bondade essencial em sua pessoa, e, além disso, tinha uma grande missão a cumprir fora da cisterna. Mas o propósito de Deus atuava para tirá-lo da cisterna. E enquanto os seus irmãos comiam, naquele momento se aproximava uma cara­vana de ismaelitas, que, vindos de Gileade, se encaminhavam para o Egito. Isso livraria José de sua aflição momentânea. Esse foi o primeiro passo no desenvolvi­mento do plano maior. O propósito de Deus opera passo a passo, cada vez aproximando-se mais do seu cumprimento. José estava na trilha certa.

     

    Dotã ficava localizada na rota das caravanas, por onde produtos vindos da Índia e da Ásia Ocidental eram levados ao Egito. “Visto que o lado oriental de Canaã estava coberto pelo grande deserto da Arábia, as caravanas tinham de viajar em uma direção sudoeste até que, tendo vadeado o rio Eufrates, atraves­sassem de Tadmor a Gileade. Dali, a rota tomada conduzia os caravaneiros para além do Jordão, em Beisã, e daí, seguindo para o sul, avançavam até o Egito” (Ellicott, in loc).

     

    Ismaelitas. No vs. 36, eles são chamados “midianitas”. Os Targuns e a versão siríaca dizem “árabes”. Midiã era filho de Abraão e Quetura, e Ismael era filho de Abraão e Hagar. Eruditos antigos e modernos têm lutado com essas variantes, e alguns têm mesmo suposto que José foi vendido por mais de uma vez — de seus irmãos para os ismaelitas; dos ismaelitas para os midianitas — antes de ter chegado ao Egito. Por outra parte, havia uma mistura de povos, apesar de suas origens distintas, e provavelmente o autor sagrado não foi cuida­doso com o uso de adjetivos pátrios.

     

    Arômatas, bálsamo e mirra. Quanto aos arômatas, está em pauta o tragacanto ou estoraque (Gn 30.37), ou seja, especiarias. Mas os estudiosos não concor­dam quanto à identificação exata dos itens envolvidos.

     

    37.26 Judá Pensou em Termos de Dinheiro. De que adiantaria a morte insensata de seu meio-irmão? Ele queria ganhar algum dinheiro, e a aproximação da caravana dava-lhe oportunidade de negociar. Não estava interessado em mostrar dó. Nem aventou: “Sejamos misericordiosos com José”. Mas sugeriu: “Vamos ganhar algum dinheiro com José”. E assim, se José escapasse da morte, seria forçado, devido às mentiras deles, a sofrer a tristeza por uma pseudomorte, enfrentando anos de profunda tristeza. Mas que lhes importava isso? Eles dividiriam as vinte peças de prata (vs. 28). Essa era a sua consolação, enquanto José entraria em uma situação deveras desesperadora. Assim, José foi livrado de um grande mal, apenas para sofrer mal ainda maior. Mas Deus estava com ele, em todas as suas experiências.

     

    Nada acontece por mero acaso. Também não foi por coincidência que surgiu no horizonte a caravana, em um momento tão oportuno. Uma “coincidência” bem colocada pode ser uma pequena piada da providência divina que, através disso, diz: “Surpresa! Vê! Estou contigo!”. Há poder por trás da providência divina, mas esse poder não se faz conspícuo, e somos apanhados de surpresa.

     

    37.27 Pois é nosso irmão. Por essa razão, eles usaram de um pouco de miseri­córdia, mas de olho no dinheiro que ganhariam com a venda de José. Alegraram-se diante da alternativa que os poupou de praticarem o maior mal, e que também lhes daria um lucro pecuniário. Parecia-lhes uma perfeita (má) solução.

     

    Operação Divina. Para os irmãos de José, aquele ato era, definitivamente, o fim do sonhador e de seus sonhos arrogantes. Na verdade, porém, tudo aquilo era apenas parte necessária do cumprimento de seus sonhos precognitivos. O plano não poderia dar certo se José não chegasse ao Egito. E assim, o que eles tinham planejado para o mal, Deus estava fazendo redundar para o bem, exatamente o que José disse muitos anos mais tarde (Gn 50.20). Esse bem operaria em favor não somente de José, de seus irmãos e da vindoura nação de Israel, mas igual­mente de muita gente que seria beneficiada pela presença de José no Egito, pois seriam todos salvos de morrer por inanição.

     

    37.28 Vinte siclos de prata. Siclo era um peso, e não uma moeda. Pesava cerca de 11,7 g. Multiplicando isso por vinte, temos pouco mais de duzentos e trinta gramas de prata. O trecho de Lv 27.5 mostra que esse era o valor de um escravo com menos de vinte anos de idade. Não há como calcular seu valor monetário, de acordo com padrões modernos. Jesus foi vendido por Judas Iscariotes por trinta moedas de prata (Mt 26.15). Portanto, José foi um tipo de Cristo, conforme se vê nas notas sobre o terceiro versículo deste capítulo.

     

    37.29 Volta Rúben à Cisterna Vazia. Não nos é dito por que Rúben não estava comendo com os outros irmãos, nem para onde tinha ido, nem porque agora reaparecia na cena, somente para encontrar vazia a cisterna. Ele tinha planejado retirar José da cisterna e devolvê-lo ao seu pai (vs. 22). Mas seu plano fracassou; e assim, consternado, rasgou suas vestes, um antigo símbolo oriental de profunda consternação, tristeza ou ira. Os intérpretes judeus dizem que Rúben se havia separado dos demais, tinha ido até um monte, e ali estivera esperando que os irmãos se fossem, para que viesse secretamente resgatar a José. Rúben rasgara suas vestes, angustiado. Jacó faria a mesma coisa (vs. 34). Mas um Novo Dia haveria de raiar, a despeito da escuridão daquela noite.

     

    37.30 Não está lá o menino. Teria ele desaparecido? Estaria morto? Agora, que poderia fazer Rúben? Suas perguntas refletiam sua consternação e perplexidade. Admiramo-nos diante do coração calejado de seus irmãos. Mas assim funcionavam as antigas mentes selvagens. Lemos as obras de Homero, a llíada e a Odisséia, e maravilhamo-nos diante do poder e da graça de sua literatura. De fato, tais obras são da mais fina arte poética. Contudo, o que elas refletem? Matanças e mais matanças, golpes de espada sem nenhuma misericórdia. E, então, indagamos se a cena moderna é melhor do que isso. Os homens agora liquidam grandes contingen­tes populacionais, e poucos sentem alguma repulsa ou remorso. Os nossos heróis continuam sendo os que mais matam, e a ciência devota-se a aprimorar os meios de matança. Davi foi chamado homem segundo o coração de Deus, e, no entanto, houve ocasiões em que mostrou ser um matador insensato e sem dó. Calvino iniciou uma denominação cristã, mas tornou-se culpado de muitos homicídios, banimentos e aprisionamentos dos que discordavam de sua doutrina.

     

    Rúben era o irmão mais velho. Jacó haveria de reputá-lo responsável. Ele já havia cometido um grave erro ao forçar Bila, concubina de Jacó. Agora, essa calamidade seria adicionada à outra. No entanto, acima dos resultados que ele temia, Rúben sentia-se genuinamente devastado, diante da perda de José, ao qual chamou de menino, embora já tivesse dezessete anos de idade.

     

    37.31 A Fraude. José fora levado pelos ismaelitas. Mas agora era preciso fingir uma razão para a sua ausência. A túnica preciosa de José foi manchada com o sangue de um bode. Agindo como animais, culparam um animal pela pseudomorte.

     

    Eles praticavam maldade após maldade, em uma produção interminável. Um erro era coberto por outro. Um pecado acaba criando uma cadeia de pecados. Eles tinham cometido um crime contra José, e agora cometeriam um crime contra Jacó. Estavam envenenando seu relacionamento com seu próprio pai; e assim violaram sua posição de filhos.

     

    “Maimônides pensava que uma das razões por que bodes por tantas vezes eram abatidos e usados como ofertas pelo pecado, sob a lei levítica, era relembrar os israelitas desse grande pecado cometido pelos seus patriarcas” (Ellicott, in loc.). Os Targuns de Jonathan e Jarchi observaram que o sangue de um bode é o mais parecido com o sangue humano, pelo que a fraude seria extremamente convincente em sua aplicação.

     

    37.32 A túnica talar tornou-se um emblema de ludibrio e de tristeza. Jacó tinha presenteado José com aquela túnica especial, como sinal de seu amor e favorecimento. Agora lhe era devolvida, pelos traiçoeiros irmãos de José, a fim de lhe partir o coração. E o ludibrio prosseguiu, quando eles deram a entender que talvez a túnica pertencesse a José. Forçaram Jacó a identificá-la! “A mentira deles, uma vez pespegada, contaminou todas as relações dentro da família” (Walter Russell Bowie, in loc). “Quanta deliberada crueldade para torturar os sentimentos do idoso pai, e assim esmagar a sua alma!” (Adam Clarke, in loc.). Lograram êxito, mas esse pecaminoso êxito haveria de enredá-los algum dia. Nem todo sucesso é bem-sucedido. Há supostos sucessos que são o mais doloroso tipo de fracasso. Platão disse que a pior coisa que pode suceder a um homem é que ele pratique o mal, mas nada sofra por isso. Se isso suceder, a alma desse homem aprenderá a tornar-se habitualmente corrupta.

     

    37.33 É a túnica de meu filho. O coração do pai se partiu, e assim, em ato reflexo, Jacó rasgou suas vestes. A túnica preciosa, seu presente especial, tornou-se mensageira de agonia. Somos levados a relembrar a túnica inconsútil de Jesus, que se tornou objeto de um jogo, para se saber com qual soldado romano ela ficaria (Jo 19.23,24). Ambas as vestes tornaram-se emblemas de tristeza e de aparente derrota. “Assim como a túnica estava rasgada, assim também deve estar despedaçado o corpo de José, meu filho amado! E assim pensando, Jacó rasgou suas vestes” (Adam Clarke, in loc.).

     

    “. . .imaginemos como, com o coração pulsando forte, com os membros trêmulos, com as mãos contorcendo-se, com os olhos vertendo lágrimas e com a voz daudicante, ele [Jacó] deve ter proferido essas palavras” (John Gill, in loc.).

     

    37.34 Jacó rasgou as suas vestes. Tal como Rúben tinha feito, e pela mesma razão (vs. 29).

     

    se cingiu de pano-saco. Em lugar de suas vestes usuais, vestiu-se de uma roupa grosseira, símbolo apropriado de sua tristeza e consternação. Provavelmente estão em pauta peles de animais. Ver também Gn 44.12; Jó 1.20 e 16.15.

     

    Por muitos dias. Tantos, que em muito ultrapassaram o período usual de luto. Jarchi falava em vinte e dois anos, até que também desceu ao Egito, e ali encontrou-se com José, vivo!

     

    O trecho de Gn 45.26-28 nos dá alguma ideia da intensa tristeza que Jacó sofreu por causa da questão. Somente ao tomar conhecimento de que José estava vivo, foi que “reviveu-se lhe o espírito” (Gn 45.27).

     

    37.35 Reúne-se a Família de Jacó. Procuraram consolar a Jacó, mas foi tudo inútil. Somente o tempo pode curar certas tristezas. Note-se aqui o plural, todas as suas filhas. Sem dúvida, havia ao menos duas. E Jacó deve ter tido várias filhas, embora somente Diná seja mencionada no livro. O Targum de Jonathan chama essas mulheres de esposas de seus filhos, mas não seria nada incomum se não tivessem sido mencionadas filhas.

     

    Sepultura. No hebraico, sheol (que significa tanto sepultura quanto o “hades” do Novo Testamento). Mas não fica claro o que Jacó quis dizer, pois não se sabe até que ponto tinha evoluído a doutrina do sheol, nos dias de Jacó. Nos tempos mais primitivos, a teologia dos hebreus não incluía crença na alma imaterial e imortal. O Pacto Abraâmico é repetido por cerca de doze vezes no Antigo Testamento, sem nunca fazer promessa de vida eterna no pós-túmulo. Quando o sheol veio a significar algo além da sepultura, indicava uma dimensão de sombras na qual havia uma quase não-existência, em que as sombras de homens (e não almas reais e inteligentes) flutuariam sem rumo. Essa doutrina era paralela à nossa teoria dos fantasmas, em contraste com os espíritos.

     

    Com o tempo, porém, o sheol passou a ser concebido como o lugar das almas desencarnadas, boas e más. Esse lugar teria duas divisões, uma para as almas boas e outra para as almas más. O sheol seria uma espécie de gigantesca caverna subterrânea.

     

    Jacó, pois, parece não ter dado a entender mais do que o fato de que, algum dia, ao morrer, seguiria a José à sepultura (o que corresponde à interpre­tação de nossa versão portuguesa). Ou ele pode ter dado a entender que, à semelhança de José, ele iria para a dimensão das sombras, onde as almas levavam uma vida de quase não-existência. Todavia, ele pode ter querido dizer que se encontraria com José no lado bom do “sheol”, para onde vão verdadei­ras almas humanas. Mas o livro de Gênesis nunca nos fornece um conceito claro a respeito, não sendo provável que seja isso que está em pauta neste texto. Mas os intérpretes que cristianizam o texto dizem-nos que isso é o que está em pauta aqui.

     

    37.36 Os midianitas. Eles são chamados ismaelitas no vs. 25. Talvez um adjetivo pátrio pudesse ser usado intercambiavelmente com o outro, visto que havia misturas raciais. Ou, então, “ismaelitas” fosse um termo genérico para indicar as nações de vida nôma­de no deserto. Ou, então, na opinião de alguns (embora com menores probabili­dades), os ismaelitas tenham revendido José para os midianitas.

     

    Potifar. No egípcio, esse nome é uma forma contraída de Potífera, que signifi­ca “aquele a quem Rá [o deus sol] deu”. Gn 39.1-20. Ele era um oficial militar de Faraó. Os irmãos de José, filho de Jacó, tinham-no vendido para ser escravo. E José terminou ficando na casa de Potifar (sem dúvida, por ter sido comprado por ele). Ali, José mostrou ser um jovem dotado de honestidade, habilidade e ambição para melhorar. Foi assim que Potifar acabou fazendo dele o mordomo de sua casa, entregando-lhe grandes responsabilidades. Porém, a esposa de Potifar voltou os olhos para aquele notável jovem, e, em várias oportunidades, tentou seduzi-lo sexu­almente. Mas José, sendo jovem temente a Deus, resistiu às tentativas. Despreza­da, ela acusou-o de tentar fazer exatamente o que ela havia tentado. Parece que Potifar acreditou nela; ou então, pelo menos, querendo manter a tranquilidade doméstica, lançou José na prisão. A história é narrada no capítulo trinta e nove do Gênesis. Isso aconteceu por volta de 1890 A. C. E nada mais é dito acerca de Potifar na Bíblia.

     

    Na prisão, o carcereiro também reconheceu o valor de José, e terminou por entregar-lhe responsabilidades (Gn 40.3,4). Alguns estudiosos pensam que o carcereiro era o mesmo Potifar, mas a maioria dos eruditos rejeita a ideia.

     

    Bibliografia R. N. Champlin

    (mais…)

  • Lição 6 – Editora Betel – Jacó retorna à sua terra

    Texto Áureo

    “Então tomou Jacó uma pedra, e erigiu-a por coluna”. Gn 31.45

    Verdade Aplicada

    A vontade de Deus é perfeita, boa e agradável.

    Objetivos da Lição

    ?      Demonstrar que Deus é sobe­rano em seus atos;

    ?      Ensinar que Deus protege os seus em todas as situações;

    ?      Mostrar o testemunho de Jacó.

    Textos de Referência

    Gn 31.17 Então, se levantou Jacó, pondo os seus filhos e as suas mulheres sobre os ca­melos,

    Gn 31.18 E levou todo o seu gado e toda a sua fazenda que havia adquirido, o gado que possuía, que alcançara em Padã-Arã, para ir a Isaque, seu pai, à terra de Canaã.

    Gn 31.19 E, havendo Labão ido a tosquiar as suas ovelhas, furtou Raquel os ídolos que seu pai tinha.

    Gn 31.22 E, no terceiro dia, foi anunciado a Labão que Jacó tinha fugido.

    Gn 31.24 Veio, porém, Deus a Labão, o arameu, em sonhos, de noite, e disse-lhe: Guarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem mal.

    Jacó Separa-se de Labão (31:1-55)

    Esta passagem é primordialmente pro­duto da fonte Israelita do Norte (ênfase em sonhos e anjos, uso do nome Elohim para a divindade), depois de uma intro­dução proveniente da narrativa Judia, nos versículos 1-3. A maioria dos erudi­tos críticos atribui o versículo 2 ao escri­tor da fonte Israelita do Norte, porque ele parece dar uma explicação diferente para a decisão, de Jacó, de partir. No versículo 1, somos informados de que era devido aos filhos de Labão, enquanto, no versículo 2, de que era por causa do próprio Labão. Estilisticamente, não há argumentos convincentes para uma mu­dança de fonte. O escritor da fonte Judia facilmente poderia ter atribuído o desassossego de Jacó à atitude mutável de Labão, tanto quanto à de seus filhos. As seções da fonte Israelita do Norte jamais mencionam os filhos de Labão, e alguns expositores chegam à conclusão, devido a isso, de que a opinião da fonte era que ele não tinha nenhum filho varão, só filhas (Skinner). Isto colocaria essa fonte em conflito com o material da fonte Judia, a não ser que se interprete “filhos” como parentes (cf. Speiser). Todavia, o silêncio da fonte Israelita do Norte, a respeito do assunto, pode não significar, necessaria­mente, falta de conhecimento. Os filhos de Labão podiam estar incluídos entre os parentes (v. 23). A referência a Padã-Arã, no versículo 18, geralmente é identi­ficada com a fonte Sacerdotal, visto que nenhuma das fontes populares emprega este nome comumente. Ela é, provavel­mente, editorial, e não de outra fonte.

    O pacto entre Jacó e Labão (v. 43-54) é geralmente considerado como uma com­ posição de materiais das fontes Judia e Israelita do Norte, visto que dois símbo­los são estabelecidos: uma coluna e um montão de pedras, e duas explicações são dadas para o nome “Galeede”. A versão da fonte Israelita do Norte diz que Jacó levantou tanto as pedras quanto a co­luna (v. 45 e 46), e o suposto relato da fonte Judia atribui ambos os atos a Labão (v. 51). Isto leva a uma intricada especulação a respeito de como isso pode ter acontecido, se as narrativas da “co­luna” e do “montão” estavam original­mente separadas (von Rad, Speiser). É melhor considerar esta perícope como uma coerente continuação da narrativa da fonte Israelita do Norte. Jacó e Labão erigiram os monumentos, referindo-se cada um deles, em seus discursos, à parte que havia desempenhado no processo. Visto que ambos participaram da ereção, cada um deles deu nome aos monumen­tos. Num ato final de boa vontade, Labão consentiu em usar o nome dado por Jacó.

    Ordens de Marcha de Jacó (31:1-16)

    Tendo visto que havia perdido o favor de Labão e de seus filhos, Jacó estava pronto para ouvir a direção de Deus para voltar ao lar. A ordem de Deus era oposta à dada a Abraão. Abraão recebe­ra instruções para abandonar a sua terra e a sua parentela; Jacó devia voltar à sua. Assim mesmo, cada geração precisa sa­ber qual é a vontade de Deus para a sua situação em particular.

    Dez vezes mudou o meu salário. Esta é uma expressão figurada de um número grande, indefinido. Por esta declaração ficamos sabendo que Labão revisara muitas vezes o acordo feito com Jacó. Respeitando o aspecto do acordo que lhe era favorável, Labão sempre conservava as ovelhas brancas e as cabras escuras. Algumas vezes, contudo, ele limitava a parte de Jacó apenas às listradas ou às malhadas. Não obstante, cada vez os animais se multiplicavam a favor de Jacó.

    Os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e malhados. Não fora a esperteza de Jacó a responsável pela multiplicação prolífica da espécie de animais que lhe cabia. Deus providen­ciara para que os animais certos se aca­salassem.

    Levanta os teus olhos e vê. Von Rad considera esta expressão, bem como todo o versículo 12, como uma “inserção inep­ta”, feita por um editor posterior, pri­mordialmente porque ela interrompe a declaração de Deus a respeito de si mes­mo. De acordo com a analogia de outras teofanias, o Eis-me aqui da resposta de Jacó devia ser seguido imediatamente por Eu sou o Deus de Betel. Essa alteração de forma é simplesmente uma maneira pela qual o hebraico expressa ênfase. Deus queria que Jacó visse o que estava acontecendo, antes de dirigir a sua aten­ção para si próprio.

    Eu sou o Deus de Betel, onde é literal­mente “Eu sou o Deus Betel, onde”. Obviamente, o texto sofreu durante a transmissão, visto que “onde” não tem um antecedente apropriado. Seguindo a LXX e outras versões antigas, a maioria dos intérpretes concorda com a RSV.

    A reação das esposas de Jacó, ao dis­curso dele, nos versículos 5 a 13, expres­sa tanto a amargura delas contra o seu pai quanto a sua lealdade a Jacó. Se ele estava pensando em partir sem elas, po­dia esquecê-lo. O pai delas as havia ven­dido a ele, e elas também eram proprie­dade dele. Se ele queria partir, elas estavam com ele entusiasticamente.

    A Partida Secreta (31:17-24)

    Jacó escolheu a hora adequada para viajar. Labão e seus filhos estavam ocupados com a tosquia das ovelhas, a três dias de caminho dele.

    Raquel furtou os ídolos que perten­ciam a seu pai. Como observa Speiser, a tradução “furtou” é um pouco forte para a situação. A posse dos deuses do lar ou familiares (heb., teraphim, coisas iner­tes, um termo pejorativo) era prova legal do direito de herança. Visto que Raquel cria que a propriedade devia ser deles, ela se “apropriou” do que considerava ser seu de direito. Isto não fez com que o ato se tornasse menos errado. Os terafins eram estatuetas, algumas vezes em forma humana, talvez de tamanho de um homem (I Sm 19:13,16), embora aqui fossem suficientemente pequenas para Raquel carregá-las e se assentar sobre elas (v. 34).

    Labão, o arameu. Este termo é usado a respeito de Labão, Betuel (28:5) e Jacó (Dt 26:5). No versículo 47, Labão até falou em aramaico. “No entanto, os arameus, como tais, não têm verificação in­dependente, a não ser a partir dos últi­mos séculos do segundo milênio” (Spei­ser, p. 246). Os escritores estavam usan­do uma designação posterior para essas pessoas de época mais remota, ou os arameus estavam em cena muito antes do que geralmente se presume.

    Jacó iludiu a Labão. O hebraico diz, literalmente: “E Jacó furtava o coração de Labão” (cf. II Sm 15:6). Furtar o coração era roubar a mente, remover de outrem a consciência da realidade, enga­nar a outrem, fazê-lo parecer estúpido.

    Seguiu atrás de Jacó jornada de sete dias. A distância entre Harã e Gileade é de cerca de quinhentos e sessenta qui­lômetros. Não é provável que Jacó pudes­se ter chegado tão longe em dez dias, visto que os rebanhos avançavam tão vagarosamente. A palavra “sete” pode ser figurativa. Ela é frequentemente usa­da para designar um período completo de tempo.

    Guarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem mal. Ou Labão não obedeceu à direção de Deus e, assim mesmo, re­preendeu Jacó, o que não é provável, ou “nem bem nem mal” tinha um significa­do diferente do que se possa supor. A proibição de Deus significava que Labão não devia acusar Jacó de nenhuma ação má, quer fosse verdade quer não. Ele não devia dizer-lhe para voltar para casa nem devia eximir-se de vê-lo. No encontro, ele teve todo o cuidado de não acusar Jacó de pecado. Ele simplesmente pediu-lhe para responder a uma série de interrogações a respeito de delitos aparentes!

    A Inquirição de Labão (31:25-35)

    Jacó tinha armado a sua tenda na montanha. Era de se esperar que aqui se achasse o nome da região, talvez Mizpá (31:49), mas, com base na dupla repeti­ção dessa palavra em 31:54, Speiser con­jectura que era um lugar chamado de “Elevação”.

    Armou também Labão com os seus irmãos a sua tenda. O hebraico diz lite­ralmente: “Labão armou os seus ir­mãos”! Obviamente, se requer uma cor­reção textual aqui; ’chlw (tendas) deve ser interpretação em lugar de ’chyw (pa­rentes).

    Que me iludiste. A mesma expressão idiomática, encontrada no versículo 20, pode ser traduzida como “que me fizes­te parecer estúpido”.

    Com alegria e com cânticos. Esta é a única referência do Velho Testamento a esse costume em despedidas. Labão, in­dignado, estava fazendo os papéis in­congruentes de “pai ferido a vingador aturdido” (Kidner). Ele descreveu mi­nuciosamente o antigo costume, mas Jacó sabia que esse não seria o tipo de despedida que Labão teria preparado, se lhe tivesse contado seus planos com antecedência.

    Respondeu-lhe Jacó: Porque tive medo. Labão estivera fazendo perguntas em sucessão tão rápida que Jacó estava apenas começando a responder à sua pri­meira pergunta, a saber, porque ele o fizera parecer tão estúpido, quando La­bão lhe perguntara a respeito dos terafins. Então Jacó respondeu a respeito desse assunto. Labão chamou os terafins de seus “deuses”. Raquel não mos­trou a mesma consideração para com eles, pois sentar-se sobre eles na sua “im­pureza” era o insulto máximo (cf. Lv 15:19 e ss.).

    Com quem achares os teus deuses, po­rém, esse não viverá. Aqui o suspense aumenta. Sem o saber, Jacó estava arris­cando a vida de Raquel, a esposa que mais amava. Mais uma vez esta fonte está retratando Jacó como homem ínte­gro, que não imagina que alguém em sua família pudesse ter roubado algo de La­bão.

    Na albarda do camelo. Speiser traduz a palavra hebraica como “almofadas”, enquanto Driver faz sua versão como “liteira” ou “howdah” (palanquim). Era uma sela especial para mulheres, que podia ser usada como uma espécie de cadeira quando elas estavam nas tendas. Embora ela usualmente tivesse uma co­berta tecida, quando usada em viagem, não é provável que Raquel estivesse sen­tada em um palanquim coberto, quando estava em sua tenda, pois senão ela certa­mente seria suspeita de engano. Se a albarda tinha uma coberta, ela havia sido tirada.

    O incômodo das mulheres. Raquel de­clarou que estava em seu período mens­trual, declaração que podia ser verda­deira.

    A Resposta Irada de Jacó (31:36-42)

    Este discurso é uma obra-prima literá­ria. Pois finalmente Jacó podia defender a sua inocência de qualquer culpa, e o fez com grande eloquência. Toda a frustra­ção represada de vinte anos se abateu espumejante.

    Nesta passagem vemos a vida difícil do pastor (“o Trabalho das minhas mãos”, v. 42), bem como Labão havia maltrata­do Jacó (“a minha aflição”). Era da responsabilidade do pastor providenciar para que os rebanhos tivessem crias sem abortos e que fossem protegidos de animais selvagens e de ladrões humanos. Ele cuidara dos animais durante os opressi­vos dias quentes e as noites miseravel­mente frias, enquanto o seu sono lhe “fugia” dos olhos (v. 40). Algumas vezes o pastor tinha dificuldades para ficar acordado durante a sua vigília; Jacó, por causa do calor e do frio, não podia dor­mir quando queria!

    Labão tornara a sorte dura de Jacó ainda mais difícil, não lhe permitindo comer os cordeiros do rebanho, forçan­do-o a dar contas de todas as perdas e mudando o seu salário repetidamente (“dez vezes”).

    O versículo 42 expressa claramente que o Deus de Isaque e o Deus de Abraão eram o mesmo Deus, pois o verbo “não fora” está no singular, re­querendo um sujeito simples, e não com­posto. Obviamente, Jacó adorava o mes­mo Deus que eles adoravam, pois está se referindo a ele nesta passagem. Nomes diferentes para o mesmo Deus eram usa­dos pelos patriarcas (cf. Sl 18:2 e Ap 15:3, onde termos diferentes são usados para designar o mesmo Deus único). O significado do título Temor de Isaque é obscuro, pois ocorre apenas neste capí­tulo. Speiser o traduz como “o Terrível de Isaque” e relaciona este título com o de “Provação de Isaque”, quando Abraão estava para sacrificá-lo sobre a montanha (Gn 22). Albright sugeriu que significa “Parente”, visto que pala­vras cognatas, em outras línguas do Ori­ente Próximo, têm este significado. Na verdade, esta expressão descreve com exatidão o estilo de vida religiosa de Isaque. Enoque andou “com” Deus (em comunhão íntima), Abraão “diante” de Deus (consciente de sua presença), e Isaque, como servo obediente.

    Hoje me mandarias embora vazio. Jacó disse que Labão teria prevalecido, se Deus não interviesse. Ele deu a Deus o crédito de toda a sua prosperidade, não porque Deus reconhecesse os seus atribu­tos morais, mas porque se apiedara de Jacó em sua aflição.

    O Pacto em Mizpá (31:43-55)

    Tudo o que vês é meu. De início, o leitor é inclinado a sentir simpatia por Labão. O lucro de Jacó fora o prejuízo de Labão, inteiramente. Embora ele não pudesse mais reter a sua descendência, restava uma última responsabilidade: assegurar-se de que ela receberia um tratamento condigno da parte de um homem em quem ele não confiava. Ele insistiu que fizessem um pacto, tendo Deus como testemunha, entre ele e Jacó, garantindo às suas filhas um tratamento condigno.

    Os nomes que Labão e Jacó deram ao lugar do pacto significam a mesma coisa: “montão do testemunho”; Labão usou a língua aramaica, sua língua nativa, e Jacó, o hebraico. Finalmente Labão con­cordou em chamá-lo pelo nome que Jacó lhe dera (Galeede, daí Gileade?), pois queria que tanto Jacó quanto os seus descendentes compreendessem clara­mente o que ele significava. O aspecto mais interessante do pacto é que por ele Jacó deu garantias a Labão, enquanto Labão não garantiu nada. Era fácil fazer um acordo com Jacó. Visto que Labão realmente era o perdedor, este foi para ele um procedimento que salvou as aparências.

    O fato de terem comido depois de terem colocado as pedras (v. 46) e outra vez mais tarde (v. 54) não indica, aqui, duas fontes. Simplesmente significa que eles primeiramente fizeram um acordo amigável com uma refeição social, e de­pois o selaram, mais tarde, no mesmo dia, com uma refeição sacrificial.

    E também Mizpá. A RSV acrescenta “coluna” neste verso. O texto recebido diz: “Portanto ele o chamou de Galeede e Mizpá.” Em outras palavras, Labão deu a “ele” dois nomes. Aparentemente, Jacó e Labão. erigiram uma coluna de pedra (msbh, massebah) e amontoaram pedras ao redor dela, para proteção futura; La­bão deu ao monumento acabado o nome de Galeede e Mizpá (msph), um jogo de palavras com msbh. Ao invés de ser evi­dência de duas narrativas, a coluna e o montão foram combinados em uma só designação, Mizpá, na forma de um obe­lisco completo. O nome Galeede confir­mou o pacto entre os dois homens. Mizpá (torre de vigia) enfatizou a garantia de sua validade futura.

    A famosa “bênção de Mizpá” não foi uma expressão de boa vontade da parte de Labão, mas uma declaração que di­zia, de fato: “Possa Deus conservar você honesto enquanto eu não estou lá para vê-lo.” Ele estava lendo a sua própria desonestidade no comportamento de Jacó. Contudo, isto não significa que as suas palavras não podem ser usadas, hoje em dia, em sentido positivo. A expressão de Labão pode ter uma conotação bem diferente da que ele pretendia. As pala­vras expressando desconfiança em um contexto podem, em outro, ser legitima­mente usadas para pronunciar uma bênção. Temos visto que frequentemente, em Gênesis, as gerações posteriores encon­traram, nas palavras, algum significado que não era aparente a princípio, mas que estava ali para ser discernido em época diferente.

    Este montão é hoje testemunha. Quan­do Labão começou esta declaração, ela soava como se ele estivesse querendo dizer que ele e Jacó não cruzariam aquela linha jamais. Bem no fim da sentença ele acrescentou: “para mal.”

    O Deus do pai deles é expressão con­siderada, por muitos eruditos, como edi­torial (cf. Speiser, von Rad). Visto que ela não aparece na LXX, é considerada como tentativa de explicar a menção do Deus de Abraão e do Deus de Naor. A frase explicativa declara que eles são o mesmo Deus, o Deus de Tera. Esta opi­nião é baseada no fato de que julgue está no plural. Costumeiramente, quando é caracterizado o Deus de Israel, o subs­tantivo plural ’Elohim usa um verbo no singular (cf. Gn 1:1). Algumas vezes, no entanto, quando ’EIohim se refere ao Deus de Israel, é regido por um verbo no plural (cf. 1:26: “Façamos o homem”). Alega a opinião politeísta que tanto La­bão quanto Jacó invocaram o Deus indi­vidual de seus respectivos pais, para tes­temunhar o pacto. Se este fosse o sentido da passagem, por que precisaria o escri­tor mencionar especificamente que Jacó invocou o Temor de seu pai Isaque, mas omitiu o fato de que Labão invocou o seu Deus? A expressão o Deus do pai deles, quer editorial, quer não, afirma que eles serviam ao mesmo Deus. Desta forma, ela precisa ser levada a sério. Este é outro exemplo de concordância gramatical en­tre ’Elohim e o seu verbo, sem implica­ções teológicas especiais. Se a expressão é editorial, ela foi inserida porque era ne­cessária para impedir uma interpretação politeísta. Abraão jamais teria desejado conseguir esposa para Isaque na família de Naor só porque eles eram parentes. Eles adoravam o mesmo Deus.

    Labão… os abençoou. Deve-se notar que ele não abençoou Jacó. Ele não esta­va qualificado nem inclinado a fazê-lo.

    Bibliografia Clyde T. Francisco

    (mais…)