Categoria: Editora CPAD

  • LIÇÃO Nº 12 – Revista CPAD – O PROPÓSITO DA VERDADEIRA PROSPERIDADE

    A verdadeira prosperidade tem como propósito a comunhão com Deus.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo da verdade prosperidade, estudaremos hoje qual é o seu propósito.

    Deus concede a prosperidade para o homem para que ele ame ao Senhor e ao próximo como a si mesmo.

    I – O PROPÓSITO DIVINO PARA O HOMEM

    – Na sequência do estudo deste último bloco, em que estamos a analisar a verdadeira prosperidade, estudaremos, nesta oportunidade, o seu propósito.

    – A palavra “propósito”, diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, significa “intenção de (fazer algo); projeto, desígnio; aquilo que se busca alcançar quando se faz alguma coisa; objetivo, finalidade, intuito; aquilo a que alguém se propôs, por que se decidiu; decisão, determinação, resolução”. É uma palavra originada do latim “”prospoitum”, “aquilo que é posto diante, exposto à vista, apresentado, proposto, oferecido, anunciado, declarado, referido, relatado, contado, narrado, fixado, marcado, determinado”.

    – Pelo que se pode verificar, pois, de pronto, é que o “propósito” é uma “proposta”, ou seja, algo que alguém oferece, projeta, planeja, propõe a outrem. Neste sentido, o “propósito de Deus” nada mais é aquilo que o Senhor planejou, projetou, propôs às criaturas. Em relação ao ser humano, pois, o propósito de Deus foi aquilo que o Senhor quis em relação ao ser humano, desde o instante mesmo da sua criação.

    – É fácil notarmos que o propósito de Deus em relação ao homem se encontra em Gn.1:28, quando o Senhor, ao criar o homem, os abençoou (macho e fêmea), revelando-lhes o Seu propósito, qual seja, o de frutificar, multiplicar-se, encher a terra, bem como  sujeitá-la e dominar sobre toda a criação terrena. O homem seria, pois, o mordomo de Deus sobre a face da Terra, o Seu administrador.

    – Para se desincumbir desta tarefa, o Senhor criou as mais amplas condições favoráveis para o homem, formando um jardim no Éden onde pôs o homem. A prosperidade criada para o primeiro casal, num lugar de delícias onde havia bem-estar espiritual, material e psíquico, sob a condição da obediência ao Senhor, mostra, claramente, que aquele ambiente de fartura, abundância e felicidade tinha como finalidade o cumprimento do propósito divino, ou seja, de frutificação, multiplicação, povoamento e sujeição do planeta e dominação sobre toda a criação terrena.

    O ambiente favorável na Terra, portanto, nada mais era que um instrumento para que se cumprisse o propósito divino. O bem-estar material e psíquico tinha como única razão de ser a criação de meios para que se pudesse, prazerosamente, atingir os objetivos previamente traçados pelo Senhor ao ser humano.

    Deus, na Sua infinita bondade e misericórdia, nada impôs ao homem, mas tão somente “propôs”. Aqui é que se encontra o propósito divino: é uma proposta, uma oferta que fez ao homem, deixando, porém, ao homem o livre-arbítrio, ou seja, o poder de atender, ou não, à proposta divina, o poder de obedecer-Lhe, ou não.

    Por isso, todo aquele ambiente de delícias foi mantido sob condição, representada pela árvore da ciência do bem e do mal. Se o primeiro casal cumprisse tudo quanto o Senhor lhe havia determinado, ou seja, que não comesse do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, permaneceria em comunhão com o Senhor e desfrutaria das condições amplamente favoráveis para que cumprisse o propósito estabelecido por Deus. Se, no entanto, desobedecesse, perderia aquelas condições e não conseguiria atingir o propósito divino.

    – Foi, infelizmente, o que aconteceu. O primeiro casal não obedeceu ao Senhor e, por isso, perdeu as condições favoráveis de que desfrutava e, sem as quais, jamais conseguiria cumprir o propósito divino. Como consequência disto, foi expulso do jardim do Éden, sendo-lhe também negado o acesso à árvore da vida, o símbolo da comunhão com Deus. Não pôde mais frutificar, sendo que a multiplicação e o povoamento da Terra se deram em condições penosas, sem que se pudesse dominar e sujeitar a Terra como anteriormente previsto.

    A perda da comunhão com Deus significou, também, a perda da comunhão entre os próprios homens, que passaram a ter um relacionamento conflituoso, a começar do primeiro casal, com a dominação do macho sobre a fêmea. Por terem cometido o pecado, os homens passaram a ser escravos do pecado (Gn.4:7; Jo.8:34), o que os impedia de agirem fraternalmente e de forma bondosa, visto que a imaginação do pensamento de seus corações passou a ser má continuamente (Gn.6:5).

    – Esta triste realidade do divórcio entre o propósito divino e o propósito do homem no pecado é bem revelada no livro de Jeremias, onde a palavra “propósito” encontrada na Versão Almeida Revista e Corrigida é tradução, em quase todas as oportunidades, da palavra “sheriyruwth” (?????), cujo significado é “imaginação” (como é traduzida na Versão do Rei Tiago), “obstinação” e “dureza” (como se encontra na Versão Internacional e na Bíblia de Jerusalém), “raciocínio rebelde” e “rebeldia” (como se encontra na Nova Versão Internacional) (Jr.3:17; 7:24; 9:14; 11:8; 13:10; 16:12; 23:17).

    OBS: A única passagem em Jeremias em que a palavra “propósito” é tradução de outro termo hebraico é Jr.18:12 onde o termo hebraico é “machashabah” (?????), que a NVI traduz por “planos”, o que também faz a Versão do Rei Tiago, a Nova Versão Internacional e a Bíblia de Jerusalém.

    – Distante de Deus, o homem não poderia, mesmo, ter o mesmo propósito do Senhor e, escravizado no pecado, passa a ter apenas como objetivo em sua vida o fazer mal ao próximo, o de praticar a maldade, o de satisfazer os desejos perversos e incontroláveis de sua natureza pecaminosa, a “carne” de que tanto fala o apóstolo Paulo, a satisfação de suas “paixões e concupiscências” (Gl.5:24), que geram a morte (Rm.7:5), o que o salmista chama de “mau propósito” no Sl.140:8, tradução aqui da palavra hebraica “zamam” (???), que a Versão do Rio Tiago traduz por “plano maligno” e que a Nova Versão Internacional e a Bíblia de Jerusalém traduzem tão somente por “plano”.

    – Já o propósito divino, despido de qualquer maldade ou egoísmo, é estabelecido para tudo que há debaixo do céu, como nos mostra Salomão (Ec.3:1). É a palavra hebraica “chephets” (???), cujo significado é “delícia”, “bom desejo”, “desejo prazeroso”, que é repetido em Ec.8:6, onde o pregador ainda acrescenta que, apesar de haver um “bom desejo” para quem guarda o mandamento (Ec.8:5), há, também, “uma grande infelicidade para o homem” (segundo a versão da Bíblia de Jerusalém).

    – Notamos, portanto, que o homem, ao desobedecer a Deus e enveredar pelo caminho do pecado, tomou uma decisão que lhe retirou a oportunidade de cumprir o propósito estabelecido por Deus para ele e nada que faça, em busca da obtenção deste objetivo, será alcançado, pois a malignidade de sua natureza pecaminosa o leva, inevitavelmente, a tão somente satisfazer a carne, com suas paixões e concupiscências, ou seja, a atingir o propósito maligno que o domina. E, no pecado, o que aguarda o homem é tão somente a morte, pois é este o resultado de sua desastrada decisão, o seu “propósito” que é contra ele próprio, como se vê nos textos de Is.19:17 e 29:15, onde a palavra “propósito” é tradução do hebraico “ ‘etsah” (???), cujo significado é “decisão”, “desígnio”, como se encontra na Nova Versão Internacional e na Bíblia de Jerusalém.

    – Entretanto, é propósito de Deus restaurar a comunhão do homem com Ele. Isto já demonstrou no instante mesmo do juízo em virtude do pecado, quando revelou ao primeiro casal que viria a “semente da mulher” que restabeleceria a amizade entre Deus e o homem (Gn.3:15), propósito este que é devido única e exclusivamente a Deus e independe das obras humanas (Rm.9:11).

    OBS: Em Rm.9:11, a palavra “propósito” é tradução do grego “próthesis” (????????), cujo significado é “apresentação”, “plano”, “resolução”.

    – Por isso, quando analisamos o propósito divino, temos de ter plena consciência de que é Seu intento reatar o relacionamento com o homem e que isso somente é possível mediante a retirada do pecado, que é quem faz divisão entre Deus e o homem (Is.59:2). Por isso, nada que é oferecido ao homem por Deus pode ter como resultado a satisfação da carne, dos desejos incontidos da natureza pecaminosa do homem.

    – Em sendo assim, vemos, claramente, que a pregação apresentada pela “teologia da prosperidade”, que, de forma muito apropriada foi chamada pelo professor Aristóteles Torres de Alencar Filho (Assembleia de Deus – Ministério do Ipiranga, São Paulo/SP) como “teologia da avareza”, não pode, de forma alguma, ser considerada como proveniente de Deus e inserta em Seu propósito.

    – Com efeito, a partir do momento em que se defende a obtenção de riquezas materiais para o desfrute de todos os desejos humanos, está-se diante de uma satisfação da concupiscência e das paixões humanas, ou seja, está-se diante da satisfação da carne e isto, à evidência, tem a ver com a imaginação continuamente má dos pensamentos dos corações dos homens e nunca com o propósito divino. Ora, a satisfação das concupiscências nada mais é que a manutenção do homem sob a escravidão do pecado e um tal ensino somente pode ter origem nas hostes malignas, jamais em Deus.

    O propósito de Deus para o homem é o de livrá-lo do domínio do pecado, de libertá-lo mediante o encontro pessoal com Cristo Jesus, a Verdade (Jo.8:32,36) e, mediante esta libertação do pecado, fazer com que o homem volte a ter comunhão com o seu Criador e, desta forma, possa cumprir o propósito a ele estabelecido de frutificação, multiplicação, povoamento e sujeição da Terra e domínio sobre a criação terrena. Não é por outro motivo que o Senhor diz que nos escolheu para que vamos e demos fruto permanente (Jo.15:16).

    II – COMO DEVE SER O HOMEM QUE ATENDE AO PROPÓSITO DIVINO

    Com o retorno à comunhão com Deus, o homem é abençoado com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Ef.1:3), pois Deus nos escolheu para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor (Ef.1:4).

    – Assim, o propósito de Deus é que, uma vez salvos por Cristo Jesus, nós sejamos santos e irrepreensíveis diante d’Ele, ou seja, a salvação tem como objetivo fazer-nos separados do pecado enquanto peregrinarmos nesta Terra, não tendo motivo algum para sermos censurados diante de Deus.

    Ser santo é ser separado do pecado, é voltar a ser imagem e semelhança de Deus, pois Deus é santo (Lv.11:44,45; 19:2; 20:26; 21:8; Is.6:3). Ora, o homem, por si próprio não pode alcançar a santidade, necessita ser santificado pelo Senhor (Lv.21:15,23; 22:9,16; Ez.37:28; I Co.1:2; 6:11; Hb.10:10,14).

    Para ser santificado, o homem precisa manter uma vida de comunhão com o Senhor, santificando-se durante todo o tempo de vida sobre a face da Terra (Ap.22:11) por meio da Palavra de Deus (Jo.17:17), da oração (I Tm.4:5), do jejum (Mc.2:20), do temor a Deus (II Co.7:1) e da participação digna na ceia do Senhor (I Co.11:23-29).

    – A separação do pecado, ou seja, a santificação, que é contínua e condição “sine qua non” para se ver o Senhor (Hb.12:14), exige de cada um de nós que não nos conformemos com este mundo, mas que sejamos transformados pela renovação do nosso entendimento, a fim de que experimentemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm.12:2).

    – Ora, isto é que utilizar-se da “razão”, pois o “culto racional” é este sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm.12:1), caracterizado por esta disposição de não nos conformarmos a este mundo, ou seja, de não termos a mesma mentalidade, os mesmos valores mundanos. Entretanto, não é isto que apregoa a teologia da prosperidade.

    – Com efeito, a teologia da prosperidade adota os valores mundanos do “ter” em detrimento do “ser”, da idolatria do dinheiro e das posses, os valores do materialismo que, no sistema capitalista dominante em nossos dias, significa os valores do consumismo e do hedonismo desenfreados, onde as pessoas valem pelo que têm pelo que consomem, pelo que possuem, pelo que gastam, onde o prazer imediato dita as regras, sem sequer se medirem as consequências.

    Quando há o estímulo ao consumo, à posse de bens materiais, à busca do prazer imediato como se isto fosse “felicidade”, estamos nos conformando ao mundo, estamos assumindo a forma, o modo de vida do mundo e, obviamente, isto é a própria negação da santificação, a própria recusa de se separar do pecado, visto que o mundo está no maligno (I Jo.5:19b).

    – Quando priorizamos a ida a “shopping centers” em detrimento de um momento para estarmos com o Senhor e, pior do que isto, quando vamos a uma suposta reunião de culto a Deus para adquirirmos condição de, oportunamente, irmos nos deleitar nos prazeres mundanos, estamos a mostrar que jamais cultuamos a Deus, mas que estamos servindo à cobiça decorrente do “amor do dinheiro”. Que Deus nos livre disto, amados irmãos!

    – O propósito de Deus é que nos santifiquemos, que nos separaremos continuadamente, cada vez mais do pecado, mudando nossa forma de viver a fim de que, a cada instante, a cada momento nos aproximemos mais e mais do Senhor, fazendo aquilo que Lhe é agradável.

    – Mas, além de sermos santos, precisamos ser irrepreensíveis diante de Deus, diz-nos o apóstolo (Ef.1:4).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos um coração reto diante de Deus (At.8:21), coração este que será reto, entre outras coisas, se não acharmos que os dons de Deus se adquirem por dinheiro (At.8:20), ou seja, exatamente o contrário do que prega a teologia da prosperidade. Quem segue tais falsos ensinamentos, a exemplo do ex-mago Simão, não tem coração reto diante de Deus e, por isso, não tem parte nem sorte na Palavra de Deus e, por conseguinte, não está em comunhão com o Senhor. Lembremo-nos disto, amados irmãos!

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos uma vida de oração. Quando vivemos de acordo com a vontade de Deus, nossas orações sobem à presença de Deus e estão em memória diante d’Ele (At.10:31; Ap.8:3,4). A oração é uma demonstração da nossa completa e eterna dependência do Senhor. Devemos entender que, pela salvação, estamos nos lugares celestiais em Cristo e, portanto, a oração é o meio pelo qual podemos entrar perante o Senhor, perante o Seu trono de graça, para buscar a satisfação das nossas necessidades, para desfrutarmos da comunhão que temos com Ele (Hb.4:16).

    – Aqui, mais uma vez, vemos que a teologia da prosperidade procura nos desviar do propósito divino para o homem, já que transforma a oração em “imposição a Deus”, em “cobrança de direitos”, em “determinações” e “decretos”, algo totalmente divorciado da realidade bíblica, que nos ensina que, quando oramos, quando entramos no trono da graça, fazemo-lo para alcançar a graça e a misericórdia do Senhor, para que sejamos ajudados em tempo oportuno (Hb.4:16).

    – Em vez de “reivindicar direitos”, o que o salvo faz é clamar, pedir para que receba o que não merece (graça) e não receba o que está a merecer (misericórdia). As orações são petições que precisam ser conhecidas diante de Deus, com súplicas e ações de graças (Fp.4:6) e orações por todos os homens, em especial para os que estão em eminência, porque é isto é bom e agradável a Deus (I Tm.2:1-3).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos uma vida de ajuda aos necessitados. Além das orações de Cornélio, estavam, também, em memória diante de Deus as suas esmolas (At.10:31). Para sermos irrepreensíveis diante do Senhor, precisamos demonstrar nosso amor ao próximo, ajudando os necessitados.

    – Se realmente estamos em comunhão com Deus e, diante desta comunhão, o amor de Deus é derramado em nossos corações (Rm.5:5) e a prova da presença do amor divino em nós é que amamos uns aos outros (I Jo.3:11,14). O apóstolo João é bem explícito: “Quem pois tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele a caridade de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (I Jo.3:17,18).

    – No entanto, a teologia da prosperidade é egoísta, defende a busca desenfreada pelos “bens do mundo”, mas não tem uma só palavra de incentivo ou estímulo à ajuda aos necessitados. Os “testemunhos” que são veiculados pela mídia falam da acumulação de riquezas por parte dos “que têm fé”, mas, em momento algum, mostram estes “campeões de fé” ajudando quem precisa. Pelo contrário, os desprovidos de recursos são chamados de “incrédulos”, de “homens de pouca fé”, de “pecadores”.

    – O que se tem, lamentavelmente, é um ensino e um incentivo para que todos se tornem  novos “Cains”, que não se sintam “guardadores do seu irmão”, que não estejam nem um pouco preocupados ou incomodados com o sofrimento do próximo. São ensinos que procuram fazer realçar nos salvos o velho homem que já foi crucificado com Cristo (Rm.6:6), são pregações que querem transformar os salvos em “pessoas do maligno” (I Jo.3:12).

    OBS: “…Akiva ben José, o Sábio da Mishnah do século II [Mishnah – as tradições orais dos judeus – Mt.15:2 — que foram reduzidas a escrito depois da destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C., observação nossa], prezava acima de todos os mandamentos das Escrituras aquele que dizia: ‘Ama a teu semelhante como a ti mesmo’. Dizia ele que nisso se encerrava a quintessência de toda a Torah porque equiparava o amor divino de Deus com o amor terreno do homem, considerando os dois como um exercício duplo e ativo da virtude. No Talmud [segundo livro sagrado do judaísmo, que contém a tradição oral e o seu comentário, observação nossa], Deus, que representa o papel de Pai extremoso, diz aos judeus: ‘Meus filhos, meus filhos, haverá qualquer coisa que eu peça para mim a vocês? Só exijo que amem uns aos outros’. Esse princípio afirmativo do amor tornou-se o fundamento para os subsequentes valores éticos judaicos dos quais os ensinamentos de Jesus se derivaram.(…). O Guarda de Teu Irmão (Kol Israel Chaverim). Todos em Israel são companheiros. Assim dizem os credos da solidariedade judaica de grupo que foram enunciados com convicção profunda pelo povo judeu durante dois mil anos. Daí advem a obrigação fundamental de todo irmão proteger e cuidar do bem-estar do outro.…” (Valores éticos judaicos. In: A JUDAICA, v.6, pp.898-9).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós uma boa consciência (At.23:1). A consciência, esta “voz de Deus em nós”, é uma das faculdades do espírito humano, que nos indica o que é certo e o que é errado. A “boa consciência” é o espírito que está em comunhão com Deus e, por isso, segue a direção e a orientação do Espírito Santo (Rm.8:1,2).Quem tem boa consciência inclina-se para as coisas do espírito e não para as coisas da carne (Rm.8:5) e a inclinação do espírito é “vida e paz” (Rm.8:6b).

    – A teologia da prosperidade leva os homens a se inclinar para as coisas da carne, como já temos visto, uma vez que levam os homens a correrem atrás da satisfação dos prazeres mundanos, das paixões e concupiscências, pois o “amor do dinheiro” leva o homem a muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e na ruína (I Tm.6:9), faz com que o homem se desvie da fé e se traspasse a si mesmo com muitas dores (I Tm.6:10). Em suma: a teologia da prosperidade leva o homem à morte, pois a inclinação da carne é morte (Rm.8:6a).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós fé, mas não a fé que se está a propalar pelos teólogos da prosperidade, que não é fé mas, sim, uma arrogância, uma dureza de coração diante da Palavra do Senhor. A “fé inteligente” que se prega por aí é uma autoconfiança, uma petulância diante do Senhor, uma “imposição” dos caprichos e desejos próprios ao Senhor, “um pensamento positivo” que se impõe a tudo e a todos. A fé de que fala a Bíblia, porém, provém do próprio Deus (Ef.2:8), da Sua Palavra (Rm.10:17) e é a confiança em Deus, a certeza de que tudo quanto Deus permite que nos aconteça é para o nosso bem (Jr.29:11; Rm.8:28). Não é um instrumento para dirigir o Senhor, mas, bem ao contrário, a tranquilidade que advém do fato de deixar que sejamos totalmente dirigidos por Ele (Sl.37:3-5).

    – A teologia da prosperidade, ao defender a “fé inteligente”, o “pensamento positivo”, a “confissão positiva”, está a nos levar tão somente ao “propósito humano”, às já aludidas imaginações continuamente más dos nossos corações, pois o coração do homem é enganoso (Jr.17:9) e fonte de toda a sorte de pecados (Mt.15:18,19). O “propósito humano” é, como já se viu supra, “dureza de coração”, é fechar-se à voz do Senhor, ou seja, é precisamente o contrário da fé. Não é por outro motivo que o apóstolo Paulo diz que quem está na carne não pode agradar a Deus (Rm.8:8), posição oposta a quem tem a verdadeira e genuína fé (Hb.11:6).

    – Quando damos vazão ao nosso coração, aos desejos de nossa natureza pecaminosa, deixando de atender à voz do Senhor para querermos ser atendidos por Ele em nossos caprichos e desejos, selamos, com nossa obstinação, a nossa perdição, a exemplo do que fizeram os israelitas da geração do êxodo que, por sua obstinação em Massá e Meribá (Ex.17:7; Sl.95:8; Hb.3:7,8), acabaram tombando no deserto (Hb.3:15-17), uma vez que tal obstinação não revelou fé, mas, bem ao contrário, incredulidade (Hb.3:19).

    Ser irrepreensível diante de Deus é saber suportar as aflições e tribulações, aguardando o seu término apenas quando da volta de Cristo Jesus. O apóstolo Paulo assim ensinou aos tessalonicenses, lembrando-lhes que, apesar do grande crescimento da fé e do amor entre aqueles crentes, nem por isso deixavam eles de sofrer aflições e perseguições, sofrimentos aqueles que somente teriam garantia de superação quando da volta do Senhor  para arrebatar a Igreja (II Ts.1:3-7).

    – A teologia da prosperidade, ao revés, ensina que o caminho do Evangelho não tem sofrimento, sendo de todos conhecido o bordão “pare de sofrer”, que se encontra nas portas dos templos de uma denominação que segue esta falsa teologia. Não só a Bíblia não fala em parada de sofrimento, como diz que saber suportar a perseguição advinda deste mundo, que nos aborrece por sermos fiéis ao Senhor (Jo.15:18-20), é uma bem-aventurança, uma característica do discípulo genuíno e autêntico do Senhor Jesus (Mt.5:10-12). Aliás, os apóstolos ensinavam que, por muitas tribulações nos importar entrar no reino de Deus(At.14:22).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que exerçamos piedade para com a nossa própria família bem como a recompensar os pais (I Tm.5:4). De nada adianta querermos fazer o bem ao próximo se deixamos os mais próximos a nós, que são os nossos familiares. Devemos ser piedosos, ou seja, dentro do significado da palavra grega “eusebeo” (???????), adorar a Deus, mostrar reverência e respeito ao Senhor, cuidando dos nossos familiares, em especial dos nossos pais, a quem devemos recompensar pelo cuidado que tiveram conosco.

    – Mais uma vez vemos como devemos estar atentos ao cuidado do nosso próximo, algo bem diverso do egoísmo e individualismo dominantes na pregação da teologia da prosperidade, atitude que é própria dos homens que andam sem Deus e sem salvação, que amam tão somente a si próprios e que são desobedientes a pais e mães (Rm.1:29-31; II Tm.3:2).

    Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que sejamos “o homem encoberto no coração, no incorruptível trajo de um espírito manso e quieto” (I Pe.3:4), ou seja, uma pessoa que prime por viver em santidade, na absoluta dependência de Deus e não na ostentação externa, precisamente o contrário do que ensina a teologia da prosperidade. O que é precioso diante de Deus são “as qualidades pessoais internas”, “o homem oculto no íntimo do coração”, a “incorruptibilidade de um espírito dócil e tranquilo” (como traduziu a Bíblia de Jerusalém).

    – Mas tanto a santidade quanto a irrepreensibilidade que temos de ter diante de Deus, cumprindo assim o propósito divino estabelecido para o homem, devem ser exercidas “em caridade” ou “em amor” (Ef.1:4).

    O amor é o ambiente onde seremos santos e irrepreensíveis diante de Deus. O amor de que aqui se fala é o amor de Deus, que foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm.5:5), o amor descrito pelo apóstolo Paulo no capítulo 13 da sua primeira epístola aos coríntios.

    O amor divino é, primeiramente, sofredor (I Co.13:4), ou seja, sabe suportar o sofrimento, o que, como já vimos, permite, pois, que o salvo seja irrepreensível diante de Deus (II Ts.1:3-7). Quem não suporta o sofrimento, quem vive correndo atrás de uma vida sem qualquer dificuldade revela, com esta atitude, que não tem o amor de Deus em seu coração.

    O amor divino é, em segundo lugar, benigno (I Co.13:4), ou seja, deseja o bem, quer o bem do outro. Por querer bem ao outro, o salvo pratica boas obras, ajuda o próximo, leva-o em conta, a começar por dar condições ao que o outro alcance a salvação em Cristo Jesus, o maior bem que um ser humano pode obter, sendo, pois, alguém que ajuda a sustentar a obra do Senhor sobre a face da Terra.

    O amor divino não é invejoso (I Co.13:4), ou seja, o salvo em Cristo Jesus não tem inveja do próximo, principalmente daquilo que o outro venha a possuir. A “teologia da prosperidade”, entretanto, incentiva os salvos a invejarem os que têm posses, a cobiçar os bens dos outros, inclusive tendo-os por bem-aventurados e felizes, como, aliás, faziam os judeus nos dias de Malaquias (Ml.3:14,15). Tal atitude é reprovável diante de Deus e indício de desvio espiritual (Sl.73:1-3).

    O amor divino não trata com leviandade (I Co.13:4), ou seja, para se utilizar aqui da expressão da Bíblia de Jerusalém, “não se ostenta”. O salvo em Cristo Jesus não quer “aparecer”, não quer ser “estrela”, não quer “ser cabeça e não cauda”, mas quer, simplesmente, que o Senhor apareça, que o Senhor seja glorificado. A busca por riquezas para que haja uma “ostentação” não é atitude de quem tenha o amor de Deus no coração.

    O amor divino não se ensoberbece (I Co.13:4), ou seja, “não incha de orgulho”. A abundância material desmedida traz, como consequência, ensina-nos Agur, a soberba, a tentação de se achar que não se depende de Deus, que se é autossuficiente (Pv.30:9a), o que significa a ruína do homem. A soberba leva o homem a se fechar para o próximo, a pensar somente em si, mentalidade que corresponde aos que estão perdidos, não a quem tem Cristo Jesus em seu coração (II Tm.3:2).

    O amor divino não se porta com indecência (I Co.13:5), ou seja, uma vez mais se utilizando da Bíblia de Jerusalém, “nada faz de inconveniente”. A cobiça pelos bens materiais gera no ser humano uma insatisfação permanente, uma insaciabilidade que faz com que venha a cometer desatinos e loucuras para ter cada vez maior enriquecimento (I Tm.6:9), que o tornará um insensato espiritual, como ensinou o Senhor Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21).

    O amor divino não busca os seus interesses (I Co.13:5), mas, sim, os interesses de Cristo Jesus (Fp.2:21). Quem tem o amor de Deus em seu coração não vive para si, mas vive para Cristo, pois não mais vive, o Senhor Jesus é que vive nele (Gl.2:20). Quem corre atrás de riquezas e benesses materiais mantém o seu ego ativo e não mais crucificado com Cristo e, sem a autonegação, não se poderá seguir a Jesus (Mc.8:34; Lc.9:23).

    O amor divino não se irrita (I Co.13:5), ou seja, quem tem o amor de Deus em seu coração não fica irritado, não perde a paz, nem tampouco a tranquilidade, porque tem paz com Deus e a paz de Deus. Quem, no entanto, confia nas riquezas e as busca facilmente se perturba.

    O amor divino não suspeita mal (I Co.13:5), ou seja, conforme diz a Bíblia de Jerusalém, “não guarda rancor”, porque é benigno, quer bem a todos e a todos tem por inocente até prova em contrário. À evidência, quem tem como finalidade de vida a posse de bens materiais sempre há de suspeitar o outro, sempre há de achar que alguém lhe quer tomar o que tem, assim como ele próprio busca sempre amealhar para si mais e mais bens materiais.

    O amor divino, por fim, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade (I Co.13:6), ou seja, busca sempre a prevalência da verdade, que é Cristo (Jo.14:6), não ficando contente com qualquer situação de injustiça, mesmo que ela o favoreça. Quem, porém, quer amealhar para si bens materiais, fica contente quando os bens vêm para si, mesmo que isto tenha ocorrido numa situação de injustiça.

    – Como se pode perceber, portanto, a posse do amor de Deus, que é o único meio pelo qual se consegue ser santo e irrepreensível diante de Deus, nada tem que ver com a busca de bens materiais. Ao contrário, como nos ensina o Senhor Jesus, quem ama as riquezas nunca poderá amar a Deus (Mt.6:24).

    III – O PAPEL DA PROSPERIDADE MATERIAL ANTE O PROPÓSITO DIVINO PARA O HOMEM

    – Tendo visto qual é o propósito de Deus para o homem e como o homem pode atingir este propósito, ante a salvação em Cristo Jesus, resta-nos, para concluir este estudo, observar qual o papel da prosperidade material ante este propósito do Senhor para a humanidade.

    – Se o propósito de Deus para o homem é abençoá-lo, em Cristo, com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo para que sejamos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor, que papel tem a prosperidade material neste propósito?

    – A resposta é quase que intuitiva. A prosperidade material nada significa na realização do propósito divino para o homem. A nossa salvação não depende dos bens materiais, nem é acompanhada por eles, uma vez que, em alcançando a salvação em Cristo Jesus, somos levados aos lugares celestiais em Cristo, onde desfrutaremos de todas as bênçãos espirituais e, para tanto, não precisamos de bens materiais.

    – Bem disse o salmista que todos os bens do mundo são insuficientes para a redenção de uma só alma e a sua posse não livrará o homem da perdição (Sl.49:6-9). Por isso, não só não se pode adquirir a salvação com bens materiais, como também não há qualquer necessidade de o salvo possuir bens materiais para comprovação da sua salvação. Nossa redenção custou preço muito mais alto: o sangue de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (I Pe.1:18,19).

    – Para termos as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo com o fim de sermos santos e irrepreensíveis diante de Deus em amor não necessitamos de bens materiais e, por isso, a salvação não traz, como consequência, o enriquecimento material, como apregoam os falsos arautos da teologia da prosperidade.

    – Não se faz necessário, de forma alguma, que se tenha abundância de bens materiais nem tampouco saúde física imune a enfermidades para que se alcancem as bênçãos decorrentes da salvação, que são espirituais, nem tampouco para que se atinja a santidade e irrepreensibilidade em amor para o que fomos salvos.

    Se, porém, o Senhor, que é o dono do ouro e da prata (Ag.2:8), quiser, por Sua vontade, conceder a algum salvo a prosperidade material, o que pode ocorrer já que a Deus pertencem todos os bens materiais, esta abundância tem como finalidade cumprirmos o propósito estatuído pelo Senhor com a nossa salvação, ou seja, o de sermos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor.

    – Deste modo, a quem Deus conceder riquezas materiais, bênção que pode dar mas que não decorre, em absoluto, da salvação em Cristo Jesus, mas da vontade de Deus para com aquela pessoa, deve o beneficiário da abundância de bens usar a sua riqueza para a santidade e a irrepreensibilidade diante de Deus em amor.

    – Para tanto, a abundância deve ser exercida, em primeiro lugar, com o devido cuidado para que ela não se torne em instrumento de pecado. Jamais o rico salvo poderá usufruir da sua riqueza para a satisfação das paixões e concupiscências da carne. Não deve se servir das riquezas para pecar. Este, aliás, foi o grande erro de Salomão.

    Em segundo lugar, o rico salvo não pode folgar nas riquezas que possui, mas, sim, folgar com a verdade, alegrar-se na Palavra de Deus (Sl.119:14). O rico salvo não pode confiar nas suas riquezas, não pode pôr nelas o seu coração, mas continuar a confiar em Deus e a tê-lo como a razão de sua vida (Sl.62:10). Um dos grandes riscos da riqueza é a avareza, que é a idolatria do dinheiro (Cl.3:5).

    Em terceiro lugar, o rico salvo não pode, em absoluto, achar que as suas riquezas são um “passaporte para o céu”, achando que, com o seu dinheiro, poderá conquistar as bênçãos espirituais ou qualquer privilégio na obra do Senhor. Pensar assim é não ter o coração reto diante de Deus (At.8:20,21). Tentar manipular a obra de Deus por causa de seus bens materiais é perder sorte e parte com o Senhor.

    Em quarto lugar, o rico salvo tem de pôr suas riquezas a serviço da obra de Deus e dos necessitados, tornando-as instrumento do amor de Deus. As riquezas materiais são concedidas aos homens para que eles, por meio delas, exerçam o amor de Deus, cuidando tanto da obra de Deus, a fim de que a humanidade alcance a salvação em Cristo Jesus, como também ajudando os menos afortunados, mostrando assim o amor ao próximo. Ao rico salvo é dada a oportunidade de imitar a Cristo que, sendo rico, por amor de nós, Se fez pobre para que enriquecêssemos (II Co.8:9).

    – Tal atitude não empobrecerá o rico salvo pois, se Deus lhe deu riquezas é precisamente para que ele cumpra tal mister, pois a sua riqueza não provém senão da vontade de Deus. Lembremo-nos de Jó, cuja beneficência para com os necessitados em momento algum lhe trouxe pobreza (Jó 29:12-16), ou, mesmo, dos pobres crentes da Macedônia que, mesmo ajudando os necessitados, nem por isso ficaram menos pobres (II Co.8:1-3).

    – A prosperidade material, portanto, quando dada por Deus a alguém, é apenas um instrumento secundário para que, dentro deste mundo, onde o dinheiro é necessário, se persiga o propósito divino ao homem. Tal propósito independe da posse de bens materiais mas, quando o Senhor no-la conceda, é com a única e exclusiva finalidade de mostrar, nas coisas desta vida, a busca deste sublime propósito.

    – Por isso, não busquemos as coisas deste mundo, mas, sim, as “coisas de cima”, o que realmente Deus nos preparou como consequências da salvação (Cl.3:1-3) mas, se o Senhor, por Sua vontade, conceder-nos “coisas da terra”, que as utilizemos para serem instrumentos que nos auxiliem a não só buscar as “coisas de cima”, mas que outros também as possam procurar.

    Caramuru Afonso Francisco

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  • LIÇÃO Nº 10 – Revista EBD – UMA IGREJA VERDADEIRAMENTE PRÓSPERA

    A prosperidade da Igreja mede-se pelo cumprimento de seu propósito diante de Deus.

    INTRODUÇÃO

    – No início do terceiro e último bloco deste trimestre letivo, estudaremos qual é a verdadeira prosperidade bíblica.

    Para entendermos que é a verdadeira prosperidade bíblica, é preciso sabermos qual o propósito da Igreja sobre a face da Terra.

    I – ISRAEL E A IGREJA

    – Damos início ao terceiro e último bloco do estudo deste trimestre, em que estaremos a estudar a verdadeira prosperidade bíblica, depois de vermos o que é prosperidade na Bíblia e os principais pontos que a “teologia da prosperidade” tem distorcido da sã doutrina para ensinar as suas falácias.

    – Ao estudarmos a doutrina bíblica da prosperidade, faz-se preciso, de pronto, verificarmos qual o propósito de Deus para a Igreja, visto que a prosperidade, como vimos, é um estado de felicidade, de abundância, de fartura, sobretudo espiritual, que somente advém ao homem quando ele está em paz com Deus, quando cumpre o propósito estabelecido pelo Senhor ao ser humano.

    – Com a entrada do pecado no mundo, o homem deixou de cumprir os propósitos estabelecidos por Deus a ele, tendo, porém, o Senhor iniciado a executar o plano para a salvação da humanidade, já previsto desde antes da fundação do mundo, a fim de propiciar ao homem a oportunidade de se reconciliar com o seu Criador.

    – Neste propósito para a salvação do homem, o Senhor teve, na terra, desde os primórdios, um povo através do qual manifestasse o Seu amor para com todos os homens. Assim, a descendência de Sete foi a primeira linhagem piedosa da Terra, pois, com ela, se começou a invocar o nome do Senhor (Gn.4:26), linhagem, porém, que cedo se perverteu com os descendentes de Caim (Gn.6:1,2) e que levou o Senhor a destruir toda a raça humana com o dilúvio (Gn.6:6,7), com exceção de Noé e de sua família (Gn.6:8).

    – Após o dilúvio, com Noé e sua família, o Senhor repovoou a terra, mas esta comunidade única pós-diluviana também se rebelou contra o Senhor, que, então, espalhou a todos sobre a face da Terra com o juízo de Babel (Gn.11:1-9). Desta comunidade única é que surgiram as nações que há sobre a face da Terra, que formam os “gentios” mencionados nas Escrituras.

    – Como os “gentios” haviam se rebelado contra Deus, o Senhor decidiu, então, formar uma nação que fosse sua “propriedade peculiar dentre os povos”, “um povo santo e reino sacerdotal” (Ex.19:5,6) e, por isso, chamou Abrão de Ur dos caldeus para dar início à execução deste projeto. Com Abraão, Isaque e Jacó, Deus dá início à formação do povo de Israel.

    Através de Israel, portanto, o Senhor queria Se fazer conhecido das nações e promover a reconciliação da humanidade com o seu Criador. Escolheu a terra de Canaã para a instalação deste povo e lhe deu a lei a fim de que, pelo seu viver diferente, todas as nações pudessem entender que há um único Deus, Senhor de todas as coisas e que é preciso obedecer-Lhe para que o homem alcance o propósito estabelecido pelo Senhor.

    – Como temos visto ao longo deste trimestre, o fato de Israel ser uma nação biológica e física, fez com que muitas das bênçãos prometidas por Deus a este povo fossem materiais, pois, se assim não fosse, não haveria como o Senhor mostrar aos demais povos a Sua existência e a falsidade dos demais deuses adorados pelas demais gentes.

    – Mesmo assim, como também já vimos ao longo deste trimestre, Deus não deixou de dar prioridade ao aspecto espiritual do relacionamento com o Seu povo, não fazendo de Israel um “império”, tendo, mesmo no auge da história de Israel, nos reinados de Davi e Salomão, demonstrado, claramente, que o Seu povo tinha por proeminência o relacionamento com Deus, uma atitude espiritual diferenciada, um “modus vivendi” completamente diverso do que havia entre as demais nações.

    O papel de Israel era ser “povo santo” e “reino sacerdotal”, ou seja, sua função sobre a face da Terra era o de ser um “povo separado do pecado” e um “reino de sacerdotes”, i.e., “reino formado por mediadores entre Deus e os homens”. Assim, os israelitas se distinguiam dos demais povos porque adoravam a um único Deus e não tinham os costumes pecaminosos dos demais povos como a idolatria, a luxúria e tantas outras coisas presentes em todas as demais nações; porque nem sequer tinham um rei, pois o rei era o próprio Senhor e, por fim, um povo que buscava levar os demais povos a um contato com este único Deus, sem qualquer intenção de dominação, como faziam os demais povos, que, inclusive, não se preocupavam que os povos dominados continuassem a servir aos seus deuses.

    – Infelizmente, Israel falhou neste propósito estabelecido pelo Senhor. Embora no monte Sinai tivessem assumido o compromisso de servir a Deus e a aceitar a lei, os israelitas logo quebraram a aliança ali firmada (Ex.24:5-8). Quarenta dias depois desta aliança, os israelitas já adoraram um bezerro de ouro (Ex.32) e, como resultado disto, somente uma tribo foi chamada para exercer o sacerdócio, a tribo de Levi (Nm.3:1-13).

    – Como se não bastasse a perda da qualidade sacerdotal de todo o povo de Israel, os israelitas, ao ingressarem na Terra Prometida, não destruíram totalmente os povos que ali habitavam e, como resultado disto, acabaram se envolvendo com a idolatria, deixando, também, de viver separados do pecado (Jz.2:1-6,10-23), envolvimento que os fez sofrer as maldições já previstas na lei (Dt.28:15-68) e que levaram à destruição das dez tribos do norte (II Rs.17:1-23) e ao cativeiro das três tribos do sul por setenta anos na Babilônia (II Cr.36:15-23).

    OBS: Os levitas, quando Jeroboão estabeleceu o culto aos bezerros de ouro instalados em Betel e Dã, deixaram o reino do norte e foram habitar com as tribos de Judá e de Benjamim no reino do sul, por isso falamos em três tribos do Sul (I Rs.11:13-15). Lembramos que a tribo de José é contada como duas tribos: Manassés e Efraim (Js.14:4). Por isso, a soma dá treze e não doze tribos.

    – Mas, a própria condição de “reino” diferente foi também retirada de Israel. Os israelitas nunca foram submissos ao Senhor, tanto que, no período dos juízes, faziam o que bem queriam (Jz.21:25), em vez de servirem a Deus, o seu verdadeiro rei (I Sm.8:7). E isto se intensificou quando o povo pediu a Samuel, o último juiz, que fosse constituído “um rei sobre eles, para que ele os julgasse como o tinham todas as nações” (I Sm.8:5).

    – Israel, então, passou a ter reis como todas as demais nações, perdendo, também, esta nota distintiva. Se, no início, os israelitas se submeteram à vontade divina na escolha do rei, o fato é que, pelo menos o reino do norte passou, num determinado instante (a partir do fim da dinastia de Jeú, cf. II Rs.15:8-12), a escolher seus reis sem qualquer consulta ao Senhor (cf. Os.8:4), descaracterizando-se, por completo, pois, o papel que Israel deveria exercer entre as nações.

    Diante da total inobservância por Israel dos compromissos que havia assumido no monte Sinai, renovados quando da entrada em Canaã nos montes Gerizim e Ebal, o Senhor não deixou de advertir Seu povo de que necessária era uma nova aliança, um novo concerto, para que se mantivesse o propósito divino para a salvação da humanidade.

    – O descumprimento da lei por Israel fez com que aquela aliança firmada no Sinai se tornasse “velha”, ou seja, “perto de se acabar” (Hb.8:13), motivo pelo qual Deus levantou profetas anunciando que haveria uma “nova aliança”, um “novo concerto” (Jr.31:31-33), a fim de que Israel pudesse cumprir o seu papel de “povo santo e reino sacerdotal”.

    – Esta nova aliança, este novo tempo seria estabelecido pelo Messias, pelo Filho de Davi, que passou a ser ansiosamente guardado pelo povo de Israel, que, com o cativeiro da Babilônia, entendeu que a velha aliança tinha perdido a sua eficácia, já que o povo, embora tivesse sido mantido existente, ainda que identificada somente em três tribos inteiras, voltou para Canaã mas sem independência política, servindo a outras nações dali por diante (Ne.9:36-38).

    – Entretanto, ao retornarem do cativeiro, os judeus (agora assim chamados visto que o remanescente era do reino de Judá – II Rs.16:6; Ed.4:12), embora tivessem abandonado a idolatria, continuaram a se misturar com os povos das terras, o que foi erradicado tanto por Esdras e Neemias, mas deixaram de servir a Deus com entusiasmo, passando a uma indiferença que foi duramente denunciada pelo profeta Malaquias e que levou o Senhor a um silêncio profético de mais ou menos quatrocentos anos.

    – Depois deste silêncio profético, Deus levanta João Batista com a mensagem de arrependimento aos judeus, a fim de que eles pudessem receber o novo concerto. A mensagem de João Batista era inovadora, pois mostrava aos judeus que eles não se salvariam apenas pela etnia, mas tinham de se arrepender de seus pecados (Mt.3:7-9; Lc.3:7,8).

    – Na sua pregação, João Batista torna mais explícito algo que já era anunciado pelos profetas que o haviam antecedido, ou seja, de que, em o novo concerto, na nova aliança, haveria também alcance aos gentios. João diz que Deus poderia “suscitar das pedras filhos a Abraão” e que “a árvore que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt.3:10; Lc.3:9), dando a entender que, se Israel não se convertesse, a “filiação de Abraão” passaria a outros povos.

    – Esta mensagem de João corroborava o que já havia sido dito por Isaías que anunciava que o Messias, o “Servo do Senhor” seria “chamado em justiça, tomado pela mão, guardado e dado por concerto do povo e para luz dos gentios” (Is.42:6) e, porque “Israel não se deixou ajuntar” (Is.49:5), seria “luz dos gentios, para ser a salvação do Senhor até à extremidade da terra” (Is.49:6).

    O Senhor Jesus, o Messias prometido, veio, então, devidamente apresentado por João Batista (Jo.1:26-34), “para as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.15:24), oferecendo-lhes o novo concerto, a nova aliança, para que tivessem a lei do Senhor inscrita em seus corações.

    – Entretanto, Israel O rejeitou (Jo.1:11; 11:46-53), de forma que a nova aliança foi destinada, como profetizado, a todos quantos creram em Cristo e aceitaram esta oferta, tanto judeus quanto gentios (Is.49:6; Jo.1:12; Ef.2:11-16).

    – Ocorreu, então, o que Jesus já havia sinalizado na parábola da figueira estéril (Lc.13:6-9), ou seja, após três anos de ministério, a figueira, que é Israel, não aceitou a oferta do Messias e, por isso, foi cortada, como, aliás, já havia sido dito por João Batista e, no lugar do corte, foi enxertado o zambujeiro, feito participante da raiz e da seiva da oliveira, que é Cristo Jesus (Rm.11:17-21), ou seja, os gentios, que, juntamente com os judeus que creram, formaram um novo povo de Deus: a Igreja.

    – É importante salientar que, apesar de Israel ter rejeitado a Deus, o Senhor não rejeitou o Seu povo (Rm.11:1-5), até porque não cumpriu ele, ainda, o propósito de ser “povo santo e reino sacerdotal” do Senhor, de forma que há promessa para a salvação do remanescente de Israel, não por etnia, mas por fé em Cristo Jesus (Rm.11:23-32).

    – Por isso, razão não têm alguns estudiosos das Escrituras que não aceitam a existência de “dois povos de Deus”, defendendo que Israel foi substituído pela Igreja e que, portanto, não há mais qualquer papel de Israel no plano de Deus para a humanidade.

    – O apóstolo Paulo, sendo o “apóstolo dos gentios” (Rm.11:13), deixou isto bem claro, ao mostrar que o fato de a Igreja ter surgido em virtude da rejeição de Israel, isto em nada retira o papel que Deus reservou a Israel, papel este que será concretizado e cumprido quando do fim da “plenitude dos gentios”, que é a dispensação da graça, quando, então, se cumprirão todas as profecias messiânicas, com o reino milenial de Cristo.

    – Israel não deixou de ser o povo de Deus e a manutenção da identidade ao longo destes séculos é a maior prova disto. Israel está em “estado de profundo sono espiritual” (Rm.11:8) até o instante em que receber vida para ser “o povo santo e o reino sacerdotal” que Deus disse que seria, nunca tendo deixado de ser “a propriedade peculiar de Deus dentre as nações”.

    – No entanto, ante a vinda do Messias e a rejeição por Israel, o Senhor constituiu entre aqueles que receberam a Cristo Jesus como único e suficiente Senhor e Salvador, um povo, formado de judeus e gentios, que são os legítimos “filhos da promessa”, que são os autênticos “filhos de Abraão”, filhos espirituais, a trazer a salvação proporcionada por Jesus. Este é o “Israel de Deus” mencionado por Paulo em Gl.6:16, um povo formado de “novas criaturas” (Gl.6:15), um povo que está “em Cristo Jesus”, na “videira verdadeira” (Jo.15:1-5), um povo para quem “o mundo está crucificado para eles e eles para o mundo” (Gl.6:14).

    – Por isso, a humanidade, aos olhos de Deus, constitui-se de três povos: gentios, judeus e a Igreja (I Co.10:32). Os gentios, aqueles que se rebelaram contra Deus e se mantêm em seus delitos e pecados; os judeus, aqueles que rejeitaram Jesus como o Messias e que se encontram “em profundo sono espiritual”; a Igreja, aqueles judeus e gentios que creram em Jesus como único e suficiente Senhor e Salvador e que desfrutam do perdão dos pecados e da comunhão com Deus.

    – Isto explica, pois, que o que Deus tem reservado para Israel nem sempre é para a Igreja, como já tivemos ocasião de estudar na lição 5 deste trimestre e que não se pode, de modo algum, entender que a prosperidade prevista para Israel seja automaticamente transferida para a Igreja.

    – Israel estava, e ainda está, sob a lei, visto que rejeitou o novo concerto e, por isso, seu patamar não alcançou a “bênção de Abraão”. A Igreja, por sua vez, tendo aceitado a graça que veio por Jesus (Jo.1:17), encontrou o nível, a dimensão da promessa dada a Abraão (Gl.3:14). E qual é esta bênção? É a justificação pela fé, a comunhão com Deus, o perdão dos pecados, a filiação divina, a vida eterna (Gl.3:26; Rm.4:3,23-25; Rm.8:1,2; Jo.5:24).

    II – A IGREJA E A SUA MISSÃO

    – Entendida a distinção entre Israel e a Igreja, temos de verificar qual é o papel que Deus reservou para a Igreja sobre a face da Terra. Ao revelar o “mistério da Igreja”, Jesus disse que “edificaria a Sua Igreja e as portas do inferno não prevaleceriam contra ela” (Mt.16:18). O Senhor, então, de pronto, mostrava que a Igreja seria um povo edificado por Ele, pertencente a Ele e que seria combatido pelo maligno, pelo príncipe deste século.

    – Este combate tem sua razão de ser, pois, o objetivo da Igreja, como nos explica o apóstolo Paulo, é ser um povo que “tenha acesso ao Pai em um mesmo Espírito, crescendo bem ajustado como templo santo no Santo, edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef.2:18-22).

    A Igreja é “o corpo de Cristo” (I Co.12:27) e, como tal, devemos evangelizar a paz, como Ele o fez (Ef.2:17) e nos ordenou fazer (Mt.28:18-20; Mc.16:15). Como “corpo de Cristo”, devemos dar fruto permanente para Deus (Jo.15:16; Rm.7:4).

    Como “corpo de Cristo”, devemos prosseguir o que Jesus fez, enquanto esteve em corpo físico sobre esta Terra, ou seja, “andar fazendo bem e curar todos os oprimidos do diabo” (At.10:38).

    Como “corpo de Cristo”, temos de prosseguir o tríplice ofício desempenhado por Jesus enquanto esteve aqui na Terra, qual seja, o de “rei” (Jo.18:37), o de “profeta” (Jo.9:17) e o de “sacerdote” (Hb.6:20).

    – Jesus, ao exercer este tríplice ofício, cumpriu o que estava determinado para Israel. Os israelitas, conforme já vimos, deveriam ser “povo santo e reino sacerdotal”, ou seja, deveriam exercer o papel de “reino”, de “sacerdotes” e de “profetas”. No entanto, fracassaram em todos estes papéis.

    – À Igreja, agora, como “corpo de Cristo”, cabe desempenhar este tríplice ofício. A Igreja é “um reino que não é deste mundo” (Jo.18:36), “o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncie as virtudes d’Aquele que a chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Pe.2:9).

    A primeira razão de ser da Igreja, portanto, é a pregação do Evangelho aos judeus e aos gentios, ou seja, a anúncio da boa-nova, da boa notícia de que Deus enviou o Seu Filho ao mundo para que todo aquele que n’Ele crê não pereça mas tenha a vida eterna (Jo.3:16). Jesus deixou isto bem claro ao determinar aos discípulos que pregassem o Evangelho a toda a criatura por todo o mundo (Mc.16:15).

    -A Igreja existe para pregar o Evangelho, para continuar a pregação de Jesus (Mc.1:14,15). Este, aliás, é um dos motivos pelos quais a Igreja é chamada de “o corpo de Cristo”, pois deve continuar a fazer o que Jesus fez. Enquanto esteve em Seu ministério terreno, o Senhor ia por todas as partes de Israel pregando o Evangelho, mas, agora, já que os Seus não o receberam, mandou que a Igreja prosseguisse este Seu trabalho, continuando a pregar o Evangelho, só que agora a todas as nações, inclusive aos judeus.

    – Mas a Igreja não serve apenas para pregar o Evangelho. Tem ela também a tarefa de integrar as pessoas que aceitam a salvação no seu interior. Embora a salvação seja imediata e uma operação do Espírito Santo, o fato é que o crente não pode ser deixado à mercê, isolado e sozinho no mundo. Muito pelo contrário, assim que alguém aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador, tem de ser integrado na igreja local, no grupo social onde passará os dias aguardando a volta de Cristo(At.2:41,44).

    – Outra função importantíssima que é a do aperfeiçoamento dos santos (Ef.4:11-16), a começar pelo discipulado (At.11:25,26). O crescimento espiritual do salvo somente se dá na igreja local. Este é o modelo bíblico, de modo que sem qualquer respaldo nas Escrituras o falso ensino do “self-service”, tão em voga nos nossos dias, segundo o qual se pode servir a Deus “sozinho”, pois “antes só do que mal acompanhado”. Muitos têm se decepcionado com escândalos, intrigas e injustiças nas igrejas locais, que, como todo grupo social de seres humanos, têm defeitos e problemas (que o digam as igrejas que receberam epístolas dos apóstolos…) e, em meio a estas decepções, não vigiam e se deixam enganar por esta doutrina demoníaca. Precisamos uns dos outros para crescermos espiritualmente, para perseverarmos na fé.

    – A Igreja, como é o povo de Deus na Terra na atual dispensação, é o único povo que pode adorar a Deus, visto que está em comunhão com Ele, já que seus pecados foram tirados por Jesus (Jo.1:29; Rm.5:1). É, portanto, dever da Igreja adorar a Deus, em espírito e em verdade, já que o Pai procura tais adoradores (Jo.4:23). Deve, portanto, a Igreja cumprir este dever de adoração.

    – A Igreja é uma nação santa, é o sal da terra e luz do mundo (Mt.5:13,14) e, por isso, por ainda estar no mundo, embora dele não seja (Jo.17:11,15,16), torna-se o porta-voz natural de Deus para os gentios e para os judeus. A Igreja é a “boca” de Deus para o mundo e, por isso, temos o dever de proclamar a Palavra, de dizer ao mundo qual é a vontade de Deus em todos os assuntos e questões que se apresentarem enquanto perdurar a nossa jornada, a nossa peregrinação. Por isso, tem a Igreja uma missão profética, deve proclamar a Palavra de Deus e exigir o seu cumprimento por grandes e pequenos, sem receio, a exemplo do que faziam os profetas do Antigo Testamento.

    – Como a Igreja foi chamada para dar fruto e fruto permanente (Jo.15:16), frutos, aliás, que são diferentes dos outros povos (Mt.7:15-20), porque se trata do fruto do Espírito (Gl.5:22) e só a Igreja tem e recebeu o Espírito Santo (Jo.14:17), temos que o comportamento da Igreja é diferente do comportamento dos demais homens, sejam judeus, sejam gentios, de sorte que a Igreja acaba por ter, também, uma missão ética, o dever de se portar de modo a não dar escândalo aos outros povos (I Co.10:32), tendo de ter uma conduta que identifique a sua comunhão com o Pai (Mt.5:16).

    – Também por estar no mundo e por se apresentar em grupos sociais, as chamadas “igrejas locais”, a Igreja acaba tendo de ter um papel perante a sociedade, como, aliás, todo grupo social. Os grupos sociais estão reunidos na sociedade, que é o grupo maior, o grupo que tem, por fim, promover a felicidade, o bem-estar, o chamado bem comum. As igrejas locais não fogem a esta obrigação, que decorre da sua própria natureza de ser parte da sociedade. Deus não nos tirou do mundo nem Jesus quis que isto se fizesse (Jo.17:15) e, diante desta realidade, assim como fez Nosso Senhor, devemos, também, ter uma atuação social digna de nota, que sirva de testemunho de nossa comunhão com Deus.

    – Dissemos, há pouco, que a Igreja é o lugar que o Senhor designou para que sirvamos a Ele, pois, isoladamente, ninguém consegue desenvolver-se espiritualmente e chegar até a glorificação, último estágio de nossa salvação. As imperfeições humanas são tantas que o Senhor fez com que nos uníssemos nas igrejas locais, a fim de que cada um ajudasse o outro a crescer espiritualmente e a resistir ao mal até aquele grande dia.

    – Tem-se, portanto, que é dever de cada integrante da Igreja ajudar uns aos outros, por intermédio do aconselhamento cristão (Rm.15:14; Cl.3:16; I Ts.5:11; Hb.3:13; 10:25);  consolar uns aos outros, por intermédio da visitação (I Ts.4:18; Hb.10:24; Tg.5:16);  promover a comunhão uns com os outros, por intermédio da conciliação (Mt.18:15-17;Ef.5:21; Cl.3:13). Afinal de contas, o mandamento deixado pelo Senhor, que é a cabeça da Igreja (Ef.1:22; 5:23) outro não é senão: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo.15:12).

    – Aliás, a Bíblia ensina-nos que devemos nos amar uns aos outros (Jo.13:35), preferirmo-nos em honra uns aos outros (Rm.12:10), recebermo-nos uns aos outros (Rm.15:7), saudarmo-nos uns aos outros (Rm.16:16), servimo-nos uns aos outros pela caridade (Gl.5:13), suportarmo-nos uns aos outros em amor (Ef.4:2; Cl.3:13), perdoarmo-nos uns aos outros (Ef.4:32; Cl.3:13), sujeitarmo-nos uns aos outros no temor de Deus (Ef.5:21), ensinarmos e admoestarmo-nos uns aos outros (Cl.3:16; Hb.10:25), não mentirmos uns aos outros (Cl.3:9), consolarmo-nos uns aos outros (I Ts.4:18), exortamo-nos e edificarmo-nos uns aos outros (I Ts.5:11; Hb.3:13), considerarmo-nos uns aos outros para nos estimularmos à caridade e às obas obras (Hb.10:24), confessarmos as culpas uns aos outros (Tg.5:16). Diante de tantas recomendações bíblicas, como podemos crer na doutrina do “self-service”?

    – Sendo a Igreja a coluna e firmeza da verdade (I Tm.3:14-16), ao mesmo tempo em que tem o dever de proclamar a Palavra, exigindo de gentios e de judeus a observância das Escrituras, internamente, a Igreja deve preservar a sã doutrina (II Tm.4:1-5; Tt.2:7-10), lutando tenazmente contra os falsos mestres que se introduzem no seu meio (II Pe.2:1-3; Jd.4), conservando, assim, a massa pura, não permitindo que se ponha nela o fermento arruinador (Mt.13:33; 16:6,11; Mc.8:15; Lc.12:1).

    – A Igreja, ainda, como é um organismo vivo, visto que tem vida abundante e está sempre a crescer (Jo.10:10; Cl.2:19), não pode permitir que as coisas desta vida venham a matar a vida espiritual de seus membros. Por isso, é necessário que a Igreja mantenha os seus membros avivados, proporcionando um ambiente de avivamento espiritual contínuo, demonstrando, assim, ter vida em si mesmo, já que é o corpo de Cristo (Jo.5:26).

    – Por fim, a Igreja deve, também, ministrar o “remédio” aos que estiverem espiritualmente doentes e enfraquecidos, aplicando a necessária disciplina divina para a restauração daqueles que se afastarem da comunhão com o Senhor, antes que sejam de todo cortados da videira verdadeira. Por isso, deve impedir a morte espiritual, exercendo a devida disciplina sobre os membros em particular do corpo de Cristo (Mt.18:15-22).

    III – A IGREJA VERDADEIRAMENTE PRÓSPERA

    – Pelo que pudemos observar, então, das atividades que a Igreja, enquanto corpo de Cristo, deve desempenhar sobre a face da Terra, não vemos, em momento algum, que esteja entre elas a de ajuntar tesouros nesta Terra ou de assumir posições de influência ou dominação sócio-político-econômica entre judeus e gentios.

    A Igreja será próspera, ou seja, feliz, bem-sucedida, cumpridora dos propósitos estabelecidos pelo Senhor a ela, se bem executar todas estas ações que a ela são determinadas, com destaque para a evangelização e o aperfeiçoamento dos santos.

    Para bem realizar tais tarefas, a Igreja tem necessidade é da operação do Espírito Santo, que o Senhor mandou para que ela não ficasse órfã neste mundo (Jo.14:18). O Espírito Santo, que habita na Igreja e está em cada salvo (Jo.14:17), é suficiente para que a Igreja possa se desincumbir de suas obrigações, de seus deveres como povo de Deus.

    A verdadeira prosperidade da Igreja está, pois, em receber e manter o Espírito Santo como seu guia e condutor (Jo.14:26; 16:13,14) até o dia em que Ele a levará ao encontro do Senhor Jesus nos ares.

    – Por isso, em cada igreja local, faz-se necessário que se trabalhe intensamente para que os salvos estejam cheios do Espírito Santo, avivados, como já dissemos supra. É tarefa daqueles que foram postos à frente do povo de Deus que se esforcem para que os salvos tenham cada vez mais intimidade com o Senhor, por intermédio da Palavra de Deus, da oração, do jejum, da busca do batismo com o Espírito Santo e dos dons espirituais.

    – Todavia, o que se tem presenciado é que, seguindo os falsos ensinos da “teologia da prosperidade”, muitos têm desviado o foco e as atenções dos crentes para “as coisas desta vida”. Em vez de fazerem de cada crente “geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido para anunciar as virtudes de Jesus Cristo”, tais pessoas têm levado os salvos a buscar os bens materiais, a tentar a satisfação com as riquezas desta terra.

    – Embora o Senhor seja o dono de toda a prata e de todo o ouro (Ag.2:8), Ele não constituiu a Igreja para ser “depositária” destes bens aqui na Terra. O Senhor quer que a Igreja seja, sim, “depositária do Evangelho”, seja a guardiã das boas-novas de salvação da humanidade na pessoa de Jesus.

    – Sendo o “dono do ouro e da prata”, o Senhor faz com que, nesta tarefa, a Igreja independa de recursos econômico-financeiros para realizar a Sua obra. É certo que dá recursos econômico-financeiros às diversas organizações em que está o Seu povo a fim de que se possa realizar a pregação do Evangelho e o aperfeiçoamento dos santos, mas não manda, em absoluto, que os crentes entesourem as riquezas materiais ou delas desfrutem para seu próprio deleite.

    – Quando vemos o apóstolo Paulo pregando o Evangelho em Roma em uma casa alugada (At.28:30), bem percebemos como Deus faz as coisas. Era propósito do Senhor que o apóstolo fosse a então capital do mundo pregar a Sua Palavra (At.23:11) e, portanto, providenciou para que ele para lá fosse como prisioneiro em um navio (At.27:1) e que, estando em Roma, pregasse as boas-novas de salvação tendo suas despesas pagas pelos crentes de Filipo (Fp.2:25).

    – Deus, assim, mostra que cumpre a Sua promessa de suficiência aos Seus servos, inclusive para que se possa realizar a Sua obra. Prova, assim, que é o dono de todas as coisas e que, portanto, não deve a Igreja preocupar-se em amealhar patrimônio ou tesouros terrenos, devendo, tão somente, cumprir o propósito estabelecido para ela, a sua missão.

    – Fazer com que os crentes passem a se preocupar com as coisas desta vida, que corram atrás de comida, bebida e vestido nada mais é que tornar os salvos em Cristo Jesus em gentios, pois é esta a finalidade da vida entre eles (Mt.6:31,32), em outras palavras: é fazer os integrantes da Igreja renegarem a própria salvação.

    Fazer parte da Igreja é deixar de fazer parte do mundo e, se estamos no mundo, é para sermos “novas criaturas”, para efetuarmos todas as missões que o Senhor destinou para o Seu povo, que não são poucas, como já tivemos ocasião de verificar.

    Fazer parte da Igreja é ter a esperança na cidade que está nos céus (Fp.3:20,21) e, portanto, não esperar em Cristo para as coisas desta vida (I Co.15:19) e, se o fizermos, seremos os mais miseráveis de todos os homens pois, tendo ingressado “nos lugares celestiais em Cristo”, onde estão “todas as bênçãos espirituais” (Ef.1:3), desviamo-nos do santo mandamento e do caminho da justiça, indo a um último estado que é pior do que o anterior à salvação, cumprindo-se, então, o provérbio :”o cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (II Pe.2:18-22).

    – Muitas “fontes sem água, nuvens levadas pela força do vento, para os quais a escuridão das trevas eternamente se reserva” (II Pe.2:17) têm desviado muitos salvos do caminho santo e os levado a este “espojadouro de lama” que são as “campanhas de prosperidade” e toda a sorte de peripécias que se têm criado visando estimular a ganância e o materialismo entre os que cristãos se dizem ser.

    – Uma igreja verdadeiramente próspera não é aquela que vê seus membros galgarem posições na sociedade nem tampouco terem elevação da sua renda, mas, sim, a igreja cujos membros cada vez mais se santificam e se aproximam do Senhor Jesus, onde há um enriquecimento em Cristo Jesus, em toda a palavra, em todo o conhecimento, com a confirmação do testemunho de Cristo entre os salvos, onde nenhum dom falta e onde o que se espera é a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (I Co.1:5-7).

    Uma igreja verdadeiramente próspera é aquela que, embora não tenha prata nem ouro, tem o poder de Deus para realizar sinais e maravilhas com intuito de transformar vidas e convertê-las a Cristo Jesus (At.3:6; 4:4).

    Uma igreja verdadeiramente próspera é aquela que apresenta um testemunho que a diferencia de gentios e de judeus (At.5:12,13), que demonstre conversão a Deus para servi-l’O (I Ts.1:9).

    Uma igreja verdadeiramente próspera não é uma igreja que se entenda materialmente rica e que nada tem falta, pois, quando isto acontece, está-se, a exemplo de Laodiceia, diante de uma igreja que é, na verdade, desgraçada, miserável, pobre, cega e nua (Ap.3:17). A propósito, como diz Russell Shedd: “A igreja local da cidade rica já abraçara a acomodada atitude prevalecente da soberba das riquezas. Imaginava que possuía grandes riquezas espirituais e virtudes cristãs. As riquezas materiais produzem uma conformidade fatal com os padrões morais mundanos (cf. Os.12:8; Lc.1:53).” (BÍBLIA SHEDD, com. Ap.3:17, p.1763).

    O enriquecimento que se tem de ter na Igreja é o enriquecimento espiritual, que só é obtido mediante “o ouro provado no fogo”, ou seja, mediante a purificação obtida pela comunhão com o Senhor, “…a verdadeira riqueza celestial, sem máculas nem tristezas (Mt.6:19,20; Lc.12:21).…” (BÍBLIA SHEDD, com. Ap.3:18, p.1763). “…O ouro, o mais precioso dos metais, representa, na Bíblia, a glória de Deus. Quando uma igreja é esforçada na Obra do Senhor, trabalhando não com intuito apenas de se mostrar ao mundo, de competir, ostentando seus talentos ou habilidades, mas trabalhando para glória de Deus, para edificação da igreja, e para a salvação dos perdidos, este trabalho representa ouro, prata e pedras preciosas para Deus (I Co.3:10-15)…” (OLIVEIRA, José Serafim de. Desvendando o Apocalipse, p.28).

    – Por isso, uma igreja verdadeiramente próspera é aquela que efetivamente trabalha para ganhar almas para o Senhor Jesus, que não descansa enquanto o Senhor não vier, a alcançar os perdidos, sejam judeus ou gentios, levando-lhes a Palavra do Senhor.

    – Não há prosperidade se não se cumprir o propósito do Senhor e não há como uma igreja ser verdadeiramente próspera se não cumprir toda a missão que o Senhor lhe confiou. Temos buscado a verdadeira prosperidade em nossa igreja local?

    Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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  • LIÇÃO Nº 11 – Revista CPAD – COMO ALCANÇAR A VERDADEIRA PROSPERIDADE

    A verdadeira prosperidade alcança-se pela observância da Palavra de Deus.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo deste trimestre, analisaremos hoje como alcançar a verdadeira prosperidade.

    A verdadeira prosperidade é alcançada quando obedecemos à Palavra de Deus.

    I – A VERDADEIRA PROSPERIDADE INICIA-SE COM A RESTAURAÇÃO DA COMUNHÃO COM DEUS

    – Neste último bloco do trimestre, estamos a estudar o que é a verdadeira prosperidade e, na lição anterior, vimos quando se está diante de uma Igreja verdadeiramente próspera. Nesta lição, veremos como a verdadeira prosperidade pode ser alcançada.

    – Lembramo-nos de que, no início do estudo deste tema, vimos que o homem foi criado num ambiente de prosperidade. O primeiro casal foi posto no jardim que Deus formou no Éden e vivia prosperamente. Quando falamos em alcançar a verdadeira prosperidade, estamos, naturalmente, falando no retorno a este estado primeiro da humanidade, que foi interrompido com a entrada do pecado no mundo.

    – Temos, pois, como intuitivo que, para que tenhamos a possibilidade de restauração do ambiente próspero que Deus destinou para a humanidade, que, por primeiro, venhamos a retirar a causa de toda a perda daquele estado primitivo, ou seja, a remoção do pecado.

    – O pecado estabeleceu uma inimizade entre Deus e o homem (Gn.3:15) e tal inimizade somente pode ser extirpada mediante a “semente da mulher”. Por isso, ao apresentar a Cristo diante do povo, João Batista foi claríssimo ao dizer que ali estava “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo.1:29). É em Cristo, a posteridade de Abraão (Gl.3:16), que todas as nações da Terra são benditas (Gn.12:3).

    – Não há como restauramos o ambiente próspero inicialmente criado para o homem por Deus se não desobstruirmos o caminho da árvore da vida, cujo acesso se tornou impossível após o pecado (Gn.3:22-24), o que somente se pode fazer mediante a fé em Cristo Jesus e o consequente arrependimento dos pecados, tema do anúncio do Evangelho (Mc.1:14,15; Lc.24:46,47; At.3:18-21).

    Para que se possa, portanto, alcançar a verdadeira prosperidade é mister que, em primeiríssimo lugar, haja arrependimento dos pecados e conversão, com a resposta positiva ao anúncio do Evangelho e a crença de que Jesus é o Senhor e Salvador do mundo. Deve-se, pois, para se alcançar a verdadeira prosperidade, entregar-se a Cristo Jesus e reconhecê-l’O como único e suficiente Senhor e Salvador.

    A verdadeira prosperidade inicia-se na circunstância de tudo deixarmos, de tudo abandonarmos por Cristo Jesus. O Senhor Jesus, mesmo, assim o ensinou, como vemos em Mc.10:29,30: “Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de Mim e do Evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e, no século futuro, a vida eterna.”

    – Percebamos que o Senhor é bem claro ao afirmar que, a partir do momento em que tudo deixamos, em que nos negamos a nós mesmos para segui-l’O, aceitando a proposta pregada pelo Evangelho, iniciamos o caminho para a prosperidade, que é o “cem vezes tanto” aludido pelo Senhor, mas não um cêntuplo materialista, como é ensinado pelos falsos pregadores da prosperidade, mas um “cêntuplo” que, inclusive, não impede a perseguição, mas que nos conduz à vida eterna.

    – O cêntuplo, que é a fartura prometida pelo Senhor Jesus, é um novo estado espiritual, o estado da comunhão com Deus, uma nova dimensão de relacionamento com o Senhor, pois passamos a estar “nos lugares celestiais em Cristo”, onde somos abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef.1:3).

    – O cêntuplo é a máxima frutificação do homem (Mt.13:23), objetivo primeiro de Deus para o ser humano (Gn.1:28), frutificação que nada mais é do que produzir frutos de justiça para glória e louvor de Deus (Fp.1:11), frutos dignos de arrependimento (Mt.3:8; Lc.3:8).

     

    Quando nos negamos a nós mesmos, tomamos a nossa cruz e passamos a seguir a Cristo Jesus (Mt.16:24; Mc.8:34; Lc.9:23), damos início à prosperidade, pois abandonamos o pecado e, deste modo, passamos a ter livre acesso à arvore da vida, entramos novamente em comunhão com Deus e, deste modo, passamos a ser um com o Senhor (Jo.17:21) e o mundo passa a entender que Cristo foi enviado pelo Pai e que é o Senhor e Salvador do mundo.

    – O resultado desta comunhão com Deus é que passamos a ser luz do mundo e sal da terra, realizando boas obras e os homens passam a glorificar a Deus (Mt.5:13-16) e a prosperidade que nos alcançou é compartilhada com os demais homens, com nítida modificação no “modus vivendi” de todos os que nos cercam, como está a provar a história da humanidade, que teve inegável incremento e mudança com a propagação do Evangelho, não só no aspecto espiritual, mas, também, com repercussões nos campos moral, social, cultural e econômico.

    – O primeiro passo para se alcançar a prosperidade, pois, está no arrependimento dos pecados e na conversão, um processo que é imediato na medida em que depende da fé em Cristo Jesus, que vem pelo ouvir pela Palavra de Deus (Rm.10:17), mas que é tão somente o início de um processo, o processo da salvação, que perdura até a vinda de Cristo para arrebatar a Sua Igreja ou, então, individualmente falando, a partida de cada um para a eternidade. Por isso, o Senhor diz que a salvação está na “perseverança até o fim” (Mt.24:13).

    – Neste processo da salvação, o estágio que mais se estende no tempo é o da “santificação progressiva”, ou seja, a contínua e cada vez mais intensa separação do pecado (Ap.22:11), que, juntamente com o embaraço, está sempre a nos rodear de perto (Hb.12:1). Estamos, pois, diante de uma constante luta contra o mundo, a carne (a nossa natureza pecaminosa) e o diabo, para que nos mantenhamos separados do pecado, em santidade, para que persistamos fiéis até a morte (Ap.2:10).

    O segundo passo, pois, para a prosperidade é a santificação, a manutenção de nossa separação do pecado, o inconformismo com este mundo e a constante transformação pela renovação do nosso entendimento (Rm.12:2).

    – Quando vemos a quase ausência de mensagens de santificação em nossos púlpitos nestes dias finais da dispensação da graça, a falta de prioridade e ênfase a busca de u’a maior intimidade com o Senhor por meio de atividades espirituais como a oração, a meditação e aprendizado das Escrituras, a busca do batismo com o Espírito Santo e dos dons espirituais, verificamos quão distantes estamos da verdadeira prosperidade e como há imensa necessidade de as lideranças acordarem para terem um povo verdadeiramente próspero.

    – No Éden, em toda viração do dia, o Senhor vinha entrar em contato mais próximo com o primeiro casal (Gn.3:8) e isto deve ser uma característica da vida próspera de todos quantos aceitaram a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador. Não foi por outro motivo que o Senhor Jesus prometeu estar conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt.28:20).

    – Tendo acesso à árvore da vida, tendo passado da morte para a vida (Jo.5:24), é absolutamente necessário que nos encontremos diariamente com o Senhor, por intermédio dos meios de santificação, a saber: a Palavra de Deus (Jo.17:17), a oração (I Tm.4:15; o jejum (Mc.2:18-20), o temor a Deus (II Co.7:1) e a participação digna na ceia do Senhor (I Co.11:23-29).

    – A prosperidade, ao exigir a santificação como segundo passo, está também a nos impor o crescimento espiritual, crescimento que é constante e contínuo, pois nosso alvo é chegarmos todos “à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef.4:13), fator que, decididamente, somente será alcançado quando da nossa glorificação no dia do arrebatamento da Igreja.

    – Por isso, apesar de toda a sua estatura espiritual, o apóstolo Paulo foi bem claro ao afirmar que não se considerava perfeito e que prosseguia buscando este estágio (Fp.3:12,13), estágio que somente viria com a sua morte física (II Tm.4:7,8).

    Grande perigo que se apresenta no alcance da prosperidade é, portanto, o comodismo, a satisfação com o que já se alcançou na vida espiritual e que leva a uma sensação de autossuficiência, a uma acomodação. Neste ponto, corre-se o risco de se raciocinar como o anjo da igreja em Laodiceia e de se entender que se é rico e de que nada mais tem falta, caminho célere para se alcançar a desgraça espiritual (Ap.3:17).

    – Quando se entende que se atingiu um patamar espiritual suficiente e que não é mais necessário crescer espiritualmente, buscar mais a face do Senhor, entra-se num campo extremamente perigoso, pois não há mais vontade de se separar do pecado. Quem não caminha em direção a Deus, caminha em direção ao mundo, não se pode ser estático no mundo espiritual. O resultado é que se inicia uma decadência espiritual, uma mistura com o pecado e é por isso que o anjo da igreja de Laodiceia era chamado de “morno”, pois, ao estancar a sua progressão espiritual, passou a se misturar rapidamente com o pecado.

    – Moisés, inspirado por Deus, em seu último cântico, falou desta triste realidade, ao mostrar que Israel, após ter engordado, deu coices, deixando e desprezando a Deus (Dt.32:15), tendo como triste consequência o próprio desprezo divino (Dt.32:19,20). Assim também ocorre com muitos crentes que, tendo alcançado as bênçãos espirituais, envaidecem-se e acabam deixando o próprio Senhor. Tomemos cuidado, amados irmãos!

    II – A VERDADEIRA PROSPERIDADE TEM REPERCUSSÃO NA VIDA SOBRE A FACE DA TERRA

    – Embora a verdadeira prosperidade esteja vinculada à comunhão com Deus, tem ela repercussão na vida que estamos a levar sobre a face da Terra. No Éden, além do acesso à árvore da vida, Deus plantou no jardim que formou “toda árvore agradável à vista” e “toda árvore boa para comida” (Gn.2:9), ou seja, havia bem-estar psíquico e físico para o homem.

    A comunhão com Deus, restabelecida com o perdão dos nossos pecados quando reconhecemos a Cristo como nosso Senhor e Salvador, vem acompanhada de uma vida psíquica e física favorável. Assim que temos nosso encontro com o Senhor Jesus, passamos a gozar de um equilíbrio psíquico, eis que nossa alma passa a ser governado pelo espírito humano, vivificado e controlado pelo Espírito Santo (Rm.8:1), bem como se passa a ter a “bênção da abastança”, ou seja, passamos a ter a promessa divina de que teremos o suficiente para nossa manutenção nesta Terra, o suficiente para comida, bebida e vestido, com o que devemos, inclusive, nos contentar (I Tm.6:8).

    – A prosperidade envolve, pois, de um lado, o equilíbrio psíquico, que advém do fato de sermos controlados pelo Espírito Santo, que derrama sobre nós o amor de Deus (Rm.5:5), o que nos leva a ter uma vida baseada no amor divino, base de todo o comportamento que passa a ser seguido pelo discípulo de Jesus Cristo. Não é por outro motivo, aliás, que o sábio Salomão chama todo desequilíbrio psíquico de “aflição de espírito” (Ec.1:17).

    – De outro lado, a prosperidade envolve a “suficiência material”, a “benção da abastança”, ou seja, o suficiente para sobrevivermos fisicamente nesta Terra, o suficiente para nossa subsistência em termos de comida, bebida e vestido.

    Esta bênção da abastança, no entanto, é dada pelo Senhor dentro dos parâmetros estabelecidos quando da criação do homem, ou seja, tem como base o trabalho, característica que nos faz, inclusive, semelhantes a Deus, que é um ser trabalhador (Jo.5:17).

    – Já no Éden, antes mesmo do pecado, o homem foi chamado para trabalhar, pois deveria lavrar e guardar o jardim (Gn.2:15), trabalho que, com o pecado, tornou-se penoso e absolutamente necessário para a sobrevivência (Gn.3:17-19). Não foi outra a razão da expressão do apóstolo Paulo aos tessalonicenses: “…se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (II Ts.3:10 “in fine”).

    A prosperidade advinda da comunhão com Deus, portanto, não dispensa a necessidade do trabalho, antes a reforça, pois, quando alguém passa a servir a Deus entende que todo o trabalho que realizar não é para o seu empregador, mas, sim, uma atividade feita para o próprio Senhor (Ef.6:5,6).

    – No entanto, o inimigo de nossas almas tem disseminado, entre os homens, uma mentalidade em tudo contrária ao que nos ensinam as Escrituras Sagradas. Quando se fala em “prosperidade”, de imediato vem a ideia de se ter muito mais do que o suficiente para a sobrevivência e tudo isto amealhado com o trabalho dos outros. O que todos desejam, no mundo, é “sombra e água fresca”, ou seja, terem do bom e do melhor, muito além do necessário, obtido não pelo próprio trabalho, mas, sim, pela exploração do trabalho alheio, pela apropriação do que foi feito por outras pessoas.

    – A prosperidade material propalada e almejada pelos seguidores da “teologia da prosperidade” e pelos gentios, em geral, é o acúmulo de riquezas por meio da colocação de pessoas à disposição dos que enriquecem, a redução dos homens a meras mercadorias, o que foi eficazmente conseguido pelo sistema capitalista, que é, sem dúvida, o sistema econômico que, hoje já consolidado em todo o mundo, baseará o governo do Anticristo, como nos mostra o cenário constante de Apocalipse 18.

    OBS: E não pensem os amados que o sistema socialista, que rivalizou com o capitalista durante todo o século XX seja diferente. Como disse o jornalista e humorista Millôr Fernandes certa feita: “O contrário da exploração da mesa pela cadeira é a exploração da cadeira pela mesa. O capitalismo é a exploração do homem pelo homem e o socialismo, exatamente o contrário”.

    – Deus abençoa o homem que passa a ter comunhão com Ele, prometendo-lhe a suficiência, o necessário para a sua sobrevivência e isto faz parte da prosperidade, mas, para alcançar esta suficiência, faz-se necessário que o homem trabalhe, pois ainda estamos neste mundo, sofrendo as consequências do pecado, uma das quais é a necessidade do trabalho para a nossa sobrevivência.

    – Esta realidade é tanta que, mesmo quando o Senhor Se encarregou de providenciar o sustento do povo de Israel no deserto, nem por isso o povo israelita deixou de trabalhar. Embora o maná viesse diariamente da parte de Deus, sem que houvesse qualquer necessidade de cultivo ou produção, mesmo assim Israel tinha de se levantar, antes do nascer do sol, para fazer a colheita do maná, com exceção do dia de sábado (Ex.16:4,16,21).

     

    – Não há, pois, base bíblica alguma para qualquer ensino que diga que uma pessoa salva por Cristo Jesus estará dispensada do trabalho, que a bênção de Deus será tal que ela poderá viver completamente na ociosidade, apenas “desfrutando daquilo que Deus lhe deu”. Tudo isto é mentira, amados irmãos!

    – Se a prosperidade nos restaura o estado de comunhão com Deus que havia antes do pecado, isto nos levará, inevitavelmente, a um estado onde o trabalho é existente, não havendo, pois, lugar algum para o ócio. A ociosidade, aliás, é uma característica da sociedade de Sodoma, cuja impenitência foi tal que o Senhor a destruiu com fogo e enxofre (Ez.16:49). Lembremo-nos disto, amados irmãos!

    – Esta obrigatoriedade do trabalho envolve a todos, inclusive os que se dedicam à obra de Deus. Os que foram chamados pelo Senhor para se dedicarem, em tempo integral, a cuidar do povo de Deus também devem trabalhar, pois o cuidado no apascentar das ovelhas é um trabalho, cuja execução é muito bem verificada pelo Senhor (Ez.34:1-4). Por isso, não há problema algum em se assalariar aqueles que dedicam suas vidas no apascentar as ovelhas do Senhor Jesus, desde que realmente trabalhem (I Tm.5:18) e se contentem com o necessário, visto que também a eles não é lícito estabelecer uma vida regalada à custa da exploração dos servos do Senhor.

    – Vezes há, porém, em que as circunstâncias farão que até mesmo estes obreiros tenham de se dedicar ao trabalho secular, como foi o caso do apóstolo Paulo (II Co.11:8,9; I Ts.2:9), seja porque não há condições de a igreja mantê-los, seja para evitar murmurações e escândalos.

    III – PRINCÍPIOS DE ADMINISTRAÇÃO DO DINHEIRO

    – Havendo uma repercussão material na prosperidade, vez que estamos neste mundo, embora dele não sejamos, é natural que a Bíblia Sagrada contenha princípios a respeito da administração dos bens materiais.

    – Para que possamos entender o que a Bíblia diz a respeito da conduta do ser humano frente aos bens materiais é imperioso verificarmos a própria declaração primeira da revelação de Deus ao homem. Em Gn.1:1, a Bíblia deixa claro que Deus criou os céus e a terra, o que repete em Gn.1:31-2:3. Assim, tanto no início quanto no término do relato da criação, a Palavra não deixa qualquer dúvida de que Deus é o Senhor do Universo, ou seja, o dono de tudo.

    – Assim, não deve causar espanto a declaração do salmista (Sl.24:1), segundo a qual “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam”. Com efeito, por ter criado o mundo e tudo o que nele há, Deus é o legítimo dono de todas as coisas.

    – Se isto é assim, o homem é apenas um administrador da criação. Com efeito, ao criar o homem e a mulher, Deus concedeu a eles o domínio sobre toda a criação (Gn.1:26,28), domínio este que não representa senhorio, mas uma autoridade, uma autorização para administrar a criação terrena (observemos que no mandato dado ao ser humano por Deus não se incluem as criações celestiais. É por isso que o salmista afirma que o homem foi feito pouco menor do que os anjos – Sl.8:5).

    – Partindo deste pressuposto, não pode o homem achar-se dono de coisa alguma sobre esta terra e deveria comportar-se desta maneira, ou seja, plenamente consciente de que é apenas um administrador daquilo que Deus lhe deu. É exatamente esta a consciência do cristão, a de que é apenas um mordomo, um despenseiro de Deus ( I Co.4:1,2; Tt.1:7; I Pe.4:10).

    – Assim, se temos a capacidade, dada por Deus, de sujeitarmos à nossa vontade os bens existentes na natureza (e bem, aqui, é tudo o que pode suprir as nossas necessidades e nos trazer alguma utilidade) e isto é o princípio da propriedade (por isso o jurista alemão Windscheid conceituava propriedade como a sujeição absoluta de algo à vontade de uma pessoa), ao mesmo tempo devemos observar que a propriedade não é um fim em si mesma, mas tem a função de, por meio desta sujeição, tornarmo-nos um instrumento da vontade divina.

    – É, por isso, que a propriedade deve ser considerada como um direito natural, um direito inerente à pessoa humana, devendo ser respeitada e garantida, não tendo cabimento nem qualquer respaldo bíblico qualquer iniciativa que tenda a suprimi-la dos indivíduos, mesmo se o fizer em nome de uma suposta igualdade social (como o fizeram os comunistas marxista-leninistas no século XX), por ser algo contrário à ordem estabelecida por Deus ao gênero humano, mas, ao mesmo tempo, não se pode conceber uma propriedade que não tenha por objetivo a realização da vontade divina na humanidade. Assim, tão contrário à Bíblia como a supressão da propriedade privada é a sua exacerbação, a busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas e de posses em detrimento do próximo e da sociedade.

    OBS: “…O capitalismo, como princípio básico, sem os seus abusos, concorda com os ideais do cristianismo. O conceito de propriedade privada era uma das vigas mestras do judaísmo. Cada família contava com a sua propriedade particular, protegidas pelas leis da herança. O ideal era e continua sendo que cada homem tenha a sua própria vinha e a sua própria figueira ( I Rs.4:25; Mq.4:4). Porém, é deveras instrutivo ver como a legislação mosaica também defendia os direitos dos pobres. De acordo com o cristianismo, o conceito de propriedade privada não somente é exposto como normal, mas, igualmente, como meio de proteger o indivíduo de medidas ditatoriais do Estado…O Novo Testamento, naturalmente, combate os típicos abusos do capitalismo, como a desconsideração pelos direitos do indivíduo e a escravização dos mais pobres pelos ricos, mediante medidas econômicas….Adam Smith, que tinha um ponto de vista otimista da natureza humana, supunha que, – finalmente, surgiria do mercado livre uma espécie de harmonia automática, visto que o homem seria essencialmente bom em sua natureza, a qual controlaria os seus interesses pessoais. Mas o cristianismo ensina que isso só começa a ser curado com a conversão espiritual. Esse preceito, pois, volta-se tanto contra os abusos do capitalismo como contra o ateísmo do comunismo, sistema este que supõe que o mundo é governado por princípios econômicos, e não por princípios espirituais.” (CHAMPLIN R.N.. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, p.646).

    – Assim, ao mesmo tempo em que a Palavra de Deus garante a cada ser humano a possibilidade de sujeitar bens de acordo com a sua vontade e de deles usufruir para a satisfação de suas necessidades, também estabelece que o objetivo do homem e da mulher não deve ser o acúmulo de riquezas para si ou a sua exaltação por causa dos bens que tenha a seu dispor, mas que tudo isto seja um instrumento para que a glória de Deus se manifeste na administração destes bens que lhe forem confiados por Deus, o único e verdadeiro dono de todas as coisas.

    – Entretanto, o homem sem Deus e, consequentemente, sem uma dimensão da eternidade, tem sua vista obscurecida pelas coisas temporais e passageiras e, portanto, acaba se deixando dominar pela avareza, pelo desejo de acumulação de riquezas, que é uma insensatez total, como deixou bem claro Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21), “porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”(Lc.12:15).

    – Lamentavelmente, não são poucos os que acabam se perdendo na caminhada para o céu por causa dos bens materiais e por causa do dinheiro. A Bíblia revela que a ganância pelas coisas, que a avareza tem sido um obstáculo para muitos alcançarem a salvação, como nos casos do mancebo de qualidade (Mt.19:22; Lc.18:23), de Judas Iscariotes (Lc.22:3-6; Jo.12:4-6), de Ananias e Safira (At.5:1-5,8-10),  de Simão (At.8:18-23) e de muitos outros, como afirmou Paulo em sua carta a Timóteo (I Tm.6:9,10).

    O dinheiro não é um mal em si. Ariqueza é uma bênção de Deus, tanto que Deus a concedeu a Salomão (I Rs.3:13), mas, e aqui está um caso típico, não podemos pôr nas riquezas o nosso coração (Mt.6:19-21). Devemos, sempre, buscar servir a Deus e Lhe agradar. Esta deve ser a intenção do cristão. Se Deus nos conceder a riqueza, que nós a usemos para agradar a Deus. Se nos der a pobreza, que nós a usemos para agradar a Deus. O importante é que não façamos dos bens materiais o objetivo e a intenção de nossas vidas. Quem passa a viver em função dos bens materiais, quem passa a pôr o seu coração nos tesouros desta vida, passa a ser um avarento, um ganancioso e, como tal, será um idólatra (Cl.3:5) e, assim, está fora do reino dos céus (Ap.22:15).

    – Neste ponto, devemos, pois, contrariar ensinamentos a respeito da “opção pelos pobres”, que tem sido o mote da teologia católico-romana, principalmente após o Concílio Vaticano II, com especial ressonância na Igreja Romana da América Latina. Em momento algum, na Bíblia Sagrada, Deus manifesta Sua opção em favor dos pobres, em detrimento aos ricos. A Bíblia, aliás, expressamente, afirma que Deus fez tanto o pobre quanto o rico (Pv.22:2) e seria injusto caso preferisse um ao outro, se ambos são obra de Suas mãos.

    – Buscam os idealizadores desta “opção pelos pobres” fundamentação na passagem do mancebo de qualidade em que Jesus afirma que dificilmente um rico entrará no reino dos céus (Mt.19:212-26). Tal afirmação de Jesus é uma constatação, porquanto a existência de riquezas, diante da natureza pecaminosa do homem, faz com que o ser humano seja mais facilmente enganado pela sensação de autossuficiência, que conduz à perdição eterna, mas, em momento algum, revela que Deus tenha feito uma opção pelos pobres em detrimento dos ricos. Tanto assim é que a Bíblia está repleta de homens que gozavam de confortável situação financeira e que serviam a Deus, como são exemplos, para ficar só no ministério de Jesus, José de Arimateia, Nicodemos e as mulheres que acompanhavam o Mestre e que, diz a Bíblia, serviam-nos com suas fazendas, ou seja, com seus recursos financeiros.

    – A Bíblia nos mostra que a aquisição de bens materiais é uma necessidade para o homem depois da sua queda, pois deverá, do seu trabalho, obter o seu sustento (Gn.3:19). Deste modo, a obtenção dos meios necessários para a nossa sobrevivência deve vir do trabalho. É por isso que Paulo, numa afirmação dura, mas que é a verdade nua e crua, disse que “se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (II Ts.3:10), máxima que foi, inclusive, incorporada em várias Constituições de países comunistas no século XX, mas que traduz um princípio bíblico.

    – Portanto, a primeira fonte de aquisição de bens materiais deve ser o trabalho, devendo, pois, o cristão valorizar o trabalho e buscá-lo como forma de sustento seu e de sua família. É, aliás, este traço da ética cristã que foi objeto de estudo do sociólogo alemão Max Weber, que, em seu livro, “A Ética Protestante e o Capitalismo”, que foi considerado um dos principais livros do século XX (foi considerado a maior obra de ciências humanas daquele século), entendeu que, graças a este valor dado pelos cristãos ao trabalho, em virtude do que diz a seu respeito a Bíblia Sagrada, que foi possível o surgimento dos países desenvolvidos da Europa Ocidental (Inglaterra, França, Holanda e Alemanha, fundamentalmente) e, posteriormente, a grandeza dos Estados Unidos da América.

    – Assim, o cristão deve, sempre, dignificar o trabalho, valorizá-lo e, através dele, obter o seu sustento, levantando-se contra toda estrutura sócio-econômica que venha a desprestigiar o trabalho. Neste passo, é dever de todo cristão incentivar e estimular o aumento da oferta de emprego, bem como resistir a toda prática que vise a supressão de postos de trabalho sem a devida compensação. As políticas compensatórias, ademais, não devem ser de cunho meramente assistencialista, mas devem sempre ser tais que incentivem e estimulem a busca de novos empregos, ainda que se tenha de preparar convenientemente o desempregado.

    – Neste ponto, aliás, como a busca pelos bens materiais deve ser com vistas à satisfação de Deus e não a uma incessante corrida pelo prazer, pelo luxo e pela autossuficiência, temos que há uma clara distinção entre a ética cristã e a ética do capitalismo. O capitalismo é um sistema econômico em que se busca, sempre, o máximo lucro com o menor custo, com o aumento incessante da produção e do consumo. Dentro da lógica do capitalismo, é preciso sempre produzir cada vez mais, com o maior lucro e com a redução crescente dos custos. A ética cristã, entretanto, é bem diversa: não há que se buscar o máximo lucro, mas, bem ao contrário, deve-se buscar o suficiente para se ter uma vida digna, uma vida sossegada, mas sem a “febre do ouro” que tem dominado o mundo de hoje. Diz o sábio Agur que devemos, sempre, buscar a “porção acostumada de cada dia” (Pv.30:8,9).

    – Não se está aqui afirmando que o cristão não deve procurar uma melhoria de vida, um melhor emprego, capacitar-se para obter melhores posições, ou seja, em absoluto se nega ao servo de Deus a busca de melhores oportunidades, um progresso maior, até porque o filho de Deus não é cauda, mas cabeça (Dt.28:13), mas se está afirmando, isto sim, que não devemos colocar como alvos únicos e exclusivos de nossas vidas uma prosperidade material, como objetivo as benesses desta vida (Pv.27:24). Nunca nos esqueçamos que, se cremos em Cristo só para esta vida, seremos os mais miseráveis de todos os homens! (I Co.15:19).

    – Quando o homem tenta progredir na vida material tendo consciência de que existe uma dimensão eterna, de que é mero administrador do que Deus lhe confiou, ele jamais se comporta de forma nociva ao seu semelhante, jamais busca usar de todos os métodos, lícitos ou não, visando à acumulação de riquezas, pois tem pleno conhecimento de que nu saiu do ventre de sua mãe e de que nu terminará a sua existência (Jó 1:21; I Tm.6:7). Como dizem as Escrituras, aqueles que se envolvem na ilusão das riquezas, trazem para si somente males e problemas, já nesta vida, que dirá quando se encontrar com o reto e supremo Juiz de toda a terra (Pv.28:22; I Tm.6:9; Hb.9:27).

    – Dentro desta perspectiva, o cristão deve, consciente de que o que tem amealhado de bens materiais, é para ser um instrumento de satisfação da vontade divina, administrar o seu patrimônio de forma a obter este agrado de Deus, fazendo-o conforme a Sua Palavra.

    – Em primeiro lugar, como devemos ser imitadores de Cristo (I Co.11:1), devemos ver como Jesus administrava as suas finanças. Ao contrário do que muitos pensam, Jesus não era uma pessoa totalmente despreocupada ou alienada em relação aos bens materiais. Não era preso a eles, como o cristão não deve sê-lo também, mas jamais mostrou ser pessoa que não tivesse organizadas as suas finanças. Vemos que Jesus tinha uma bolsa, ou seja, um verdadeiro caixa para a assistência social (Jo.12:5,6), bem assim tinha um grupo de mulheres que sustentava o Seu ministério com recursos (Lc.8:3), tendo, inclusive, tido o cuidado de recolher o tributo que lhe foi cobrado (Mt.17:24-27). Jesus sempre foi uma pessoa responsável para com o que tinha de administrar, tanto que, às vésperas da morte, tratou de deixar amparada a Sua mãe, que era Sua responsabilidade, como filho primogênito (Jo.19:26,27).

    – Em segundo lugar, devemos, na organização de nossas finanças, partir de um princípio fundamental, qual seja, o de que não podemos, em hipótese alguma, gastar mais do que ganhamos. Deus nos concede a bênção da abastança, ou seja, o necessário, o suficiente para sermos um instrumento Seu neste mundo. Assim, como bons administradores, devemos ser fiéis (I Co.4:2) e isto significa sermos cumpridores de nossas obrigações para com Deus, com a família e com a sociedade. A fidelidade que se exige do servo de Deus também alcança o aspecto financeiro e, num mundo materialista como o que vivemos, esta fidelidade é a que mais fará realçar o nome do Senhor entre os incrédulos. Nunca nos esqueçamos de que os homens devem nos considerar ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus (I Co.4:1) e ver as nossas obras e, ao vê-las, glorificar ao nome do nosso Pai (Mt.5:16) e, repetimos, isto passa necessariamente pelo aspecto financeiro de nossas vidas.

     

    – A fidelidade começa em reconhecermos a soberania de Deus em nossas vidas. Como já temos dito, o verdadeiro cristão reconhece que é apenas um mordomo dos bens divinos que lhe foram confiados e, deste modo, tem noção e consciência de que Deus é o dono de tudo que temos e de tudo que somos. Este reconhecimento se dá, na prática da vida financeira, mediante a entrega do dízimo. O dízimo é o primeiro gesto de administração de bens de um cristão fiel. É um ato pelo qual se reconhece que Deus é o Senhor, como foi  estudado na lição 9.

    A segunda atitude de um cristão fiel nas finanças, após a entrega do dízimo ao Senhor, é a separação do necessário para o sustento e educação de seus filhos. Com efeito, os filhos são herança do Senhor (Sl.127:3) e os pais têm uma grande responsabilidade em relação a eles, que não vieram ao mundo senão por nossa causa. Devemos ter o mesmo cuidado que o servo exemplar que era Jó tinha com relação a seus filhos (Jó 1:4,5). Isto inclui, inclusive, aqueles servos de Deus que, por um motivo ou outro, têm de pagar pensões alimentícias a filhos com quem não convivem. Trata-se de despesa prioritária e que, depois do dízimo, deve ser imediatamente cumprida pelo cristão fiel.

     

    A terceira atitude de um cristão fiel nas finanças é o pagamento de suas obrigações. O cristão fiel é santo e diferente do mundo. Os ímpios se caracterizam, diz a Bíblia, por serem infiéis nos contratos (Rm.1:31). Por isso, deve o cristão ser muito cauteloso ao contrair obrigações, fugindo do consumismo que tem dominado as consciências dos homens sem Deus. Graças a uma eficaz publicidade e a pregação da busca de bens materiais a qualquer custo, as pessoas ingressam numa corrida pelo consumo sem medir as consequências. O resultado é o endividamento sem medida, a inserção das pessoas nos diversos órgãos de restrição ao crédito (SPC, SERASA etc.), o que faz com que as pessoas sejam aviltadas em sua dignidade e, não poucas vezes, levadas a situações angustiantes. Lamentavelmente, muitos cristãos têm se deixado levar por esta “febre consumista” e já não são poucos os crentes que têm seus “nomes sujos” na praça e que são tratados como “caloteiros”, envergonhando o Evangelho e dando motivo para que o nome do Senhor seja blasfemado. Tudo como consequência de uma má administração dos bens. Devemos ter todo o cuidado na montagem do orçamento doméstico, para assumir apenas obrigações que possamos cumprir. Devemos fugir das compras a prazo, salvo nos casos de extrema necessidade como habitação, porquanto os juros (notadamente no Brasil, que é o paraíso dos juros altos) evoluem de forma muito maior que os salários e o endividamento se tornará, certamente, impagável. Neste particular, o papel da mulher no lar é fundamental (Pv.31:11).

    OBS: “…A atitude consumista não leva em conta toda a verdade sobre o homem: nem a verdade histórica nem a verdade interior e metafísica. Antes, é uma fuga dessa verdade. Deus criou o homem para a felicidade. Sim ! Mas a felicidade do homem não é a mesma coisa que o prazer ! O homem de orientação ‘consumística’ perde, nesse gozo do prazer, a dimensão plena de sua humanidade, perde a consciência do sentido mais profundo da vida. Essa orientação do progresso mata, portanto, no homem, aquilo que é mais profunda e mais essencialmente humano…” (JOÃO PAULO II. Meditações, p.125).

    – Se o cristão for empresário, dentre as suas obrigações, a primeira a ser cumprida é o pagamento do salário de seus empregados, obrigação que não pode atrasar sequer um dia, pois isto fará com que Deus requererá esta atitude do empregador (Tg.5:1-5).

    OBS: ” Tiago critica agora os proprietários que se enriquecem à custa dos trabalhadores. Visando unicamente ao lucro, esses latifundiários cometem graves injustiças sociais: retenção do salário devido aos operários (cf. Dt.24,14); acumulação de riquezas que não revertem para o bem comum, mas servem unicamente para uma vida regalada e luxuosa; opressão jurídica e condenações conseguidas graças ao suborno contra os pobres inocentes que não têm meios de defesa. Fruto do roubo e da injustiça, o tesouro amontoado pelos ricos será testemunho que os condenará na hora do julgamento.” (BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral, Tg.5:1,6, p.1565-6)

    – Ensina Salomão, o homem mais sábio que já existiu, que o homem não deve ser fiador de pessoa alguma. Trata-se de uma obrigação que o cristão não deve assumir e muito menos a igreja local exigir de seus membros (Pv.6:1-5, 11:15). Hoje já muitas outras formas de se garantir dívidas, de modo que não se trata de questão de vida ou de morte a constituição de fiança por parte de alguém.

    OBS: ” Este versículo (Pv.6:1, observação nossa) é uma advertência para que ninguém seja ‘fiador’ de um amigo (cf. 11.15; 17.18; 22.26). Ser fiador significa aceitar a responsabilidade pela dívida doutra pessoa, se esta deixa de pagá-la. Esse ato torna a situação financeira do co-signatário dependente dos atos do amigo e fica sujeita a fatos que escapam ao seu controle. Pode levar à pobreza (cf.22.26,27) e à perda de amizades vitalícias. Isso não significa, porém, que devemos recusar-nos a ajudar alguém que esteja realmente sofrendo, sem meios para atender às necessidades básicas da vida (Ex.22.14; Lv.25.35; Mt.5.42). Quanto aos pobres, não devemos emprestar e sim dar-lhes (cf. Mt.14.21; Mc.10.21..)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. com. Pv.6.1, p.935-6).

    O cristão, também, deve pagar os tributos, pois devemos dar ao governo que lhe é devido (Mt.22:17-21; Rm.13:7). Sabemos que o sistema tributário do Brasil é um dos mais injustos, senão o mais injusto, do mundo, mas isto não nos autoriza a sonegarmos tributos, porquanto, como filhos de Deus, estamos sujeitos à ordenação humana e devemos cumprir com as obrigações tributárias (Mt.17:24-27; I Pe.2:13). Nada impede, entretanto, o cristão de participar de movimentos ordeiros e legais que visem a uma maior justiça tributária. Aliás, o cristão sincero e verdadeiro deve sempre lutar pelo que é justo (Fp.4:8).

    A quarta atitude de um cristão fiel nas finanças é o suprimento das necessidades de seu lar. Necessidade é o que é preciso. É o suprimento do que, realmente, faz-se preciso para uma vida digna, como alimentação, habitação, despesas com tributos, preços públicos, transportes, saúde, educação e previdência social. Devemos, repetimos, fugir daquilo que não é necessário, do supérfluo e do dispensável. Na aquisição de bens, o cristão deve ser econômico, pesquisar e pechinchar preços, tendo, aqui, mais uma vez, papel fundamental a mulher no lar (Pv.31:13,14,18). Neste ponto, vemos que o cristão deve ser previdente e sempre ter uma poupança para os dias de adversidade (Pv.31:21).

    A quinta atitude de um cristão fiel nas finanças é a voluntariedade e a disposição em ajudar os necessitados, compartilhando com eles o seu pão, pois é este o objetivo divino quando nos dá além do necessário para nossa subsistência (II Co.8:14; Ef.4:28).

    – O cristão deve ser generoso, usando parte de sua economia para sustentar o necessitado. Neste particular, interessante o pensamento de um pastor que, recentemente, nos fez ver que o maior pecado de um cristão que se comporte como um consumista e que gaste com bens supérfluos está em desperdiçar recursos que, como não lhe está fazendo falta no suprimento das necessidades essenciais, poderia ser direcionada para a ajuda aos mais necessitados.

    – Como dissemos, Jesus tinha uma caixa de assistência durante o Seu ministério e cada cristão deve contribuir para a ajuda aos domésticos da fé e aos demais seres humanos. É de uma administração cautelosa que surgirão os recursos que poderão mitigar as dificuldades dos mais necessitados. Neste contexto, também, estão as ofertas alçadas que se devem dar nas igrejas, bem assim as contribuições específicas para determinadas obras na casa do Senhor e para a obra missionária. Seria muito bom que, na administração de seus bens, o cristão pudesse dedicar sempre uma parcela fixa de seu rendimento para esta parte. Lembremo-nos de que vivemos no país de maior desigualdade social do mundo e que, como cristãos, devemos demonstrar o amor de Deus que há em nossos corações.

    – Atendendo a estes princípios bíblicos da administração do dinheiro, manteremos aquilo que Deus nos tem dado e o usaremos para a glória do Senhor. O ex-chefe da Igreja Romana, João Paulo II, costumava dizer que os “dons” de Deus tornavam-se “empenhos”, ou seja, em interesse, em grande disposição para a concretização, a realização de algo. Assim, uma vez tendo recebido de Deus bens materiais, devemos ter a disposição de empregá-los para a glória do nome do Senhor e não para nosso deleite, para o nosso prazer. Assim agindo, alcançaremos, em todas as áreas, a prosperidade que nos é prometida pelo Senhor.

    Ev. Profº Dr. Caramuru Afonso Francisco

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