Categoria: Escola Dominical

  • Lição 11 – Revista Betel – Jacó vai ao Egito se encontrar com José

    Fonte: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “E disse Israel: Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra”. Gn 45.28

    Verdade Aplicada

    As pegadas na areia do tempo não são deixadas por pessoas sentadas, mas por homens e mulheres que se aventuram em cumprir a vontade de Deus.

    Objetivos da Lição

    ?      Ensinar que Deus provê o necessário para cada situação;

    ?      Mostrar que sempre é ne­cessário buscar a orientação divina; e

    ?      Demonstrar que quando es­tamos na vontade de Deus em qualquer lugar somos abenço­ados.

    Textos de Referência

    Gn 45.26 Então, lhe anuncia­ram, dizendo: José ainda vive e ele também é regente em toda a terra do Egito. E o seu coração desmaiou, porque não os acreditava.

    Gn 46.1 E partiu Israel com tudo quanto tinha, e veio a Berseba, e ofereceu sacrifícios ao Deus de Isaque, seu pai.

    Gn 46.2 E falou Deus a Israel em visões, de noite, e disse: Jacó! Jacó! E ele disse: Eis-me aqui.

    Gn 46.3 E disse: Eu sou Deus, o Deus de teu pai; não temas descer ao Egito, porque eu te farei ali uma grande nação.

    Gn 46.4 E descerei contigo ao Egito e certamente te farei tornar a subir; e José porá a sua mão sobre os teus olhos.

    Gn 46.5 Então, levantou-se Jacó de Berseba; e os filhos de Israel levaram Jacó, seu pai, e seus meninos, e as suas mulheres, nos carros que Faraó enviara para o levar.

    Gn 46.6 E tomaram o seu gado e a sua fazenda que tinham adquirido na terra de Canaã e vieram ao Egito, Jacó e toda a sua semente com ele.

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

    Viagem de Jacó ao Egito (46.1-7)

     

    Temos aqui outro dos grandes marcos da vida de Jacó, um passo importante na formação de Israel como nação. Abraão havia sido avisado de antemão acerca dessa questão, a qual dificilmente poderia ter sido antecipada sem alguma iluminação divina. Seus descendentes teriam de sofrer um período de quatrocentos anos de exílio e provação (Gn 15.13). Israel, em desenvolvi­mento, continuaria no exílio até que os pecados dos habitantes de Canaã preen­chessem a taça do destino. Então o juízo de Deus haveria de feri-los, e eles perderiam seus territórios. E essa terra seria dada a Israel, como sua pátria (Gn 15.16). Esse seria o primeiro dentre quatro grandes exílios previstos para o povo de Israel, a saber: 1. o exílio egípcio, quando Israel estivesse em formação; 2. o exílio assírio, quando se perderam quase totalmente dez das tribos; 3. o exílio babilônico, quando se perderam quase totalmente duas tribos (Judá e Benjamim), mas das quais voltou um remanescente, provenientes de Levi e de todas as demais tribos; 4. o exílio romano, a começar em 132 D. C. (quando todos os judeus foram expulsos da Palestina e dispersos em várias direções). Foi então que os judeus se dividiram em três grupos principais: Judeus asquenazitas (que foram para países da Europa central e oriental); judeus sefarditas (que ficaram em países em torno do Mediterrâneo, além das ilhas britânicas); judeus orientais (que ficaram na região da Arábia para o oriente, até o Japão). Esse quarto exílio começou a ser revertido com a formação do Estado de Israel, em maio de 1948, graças aos esforços do movimento sionista, iniciado por idealistas judeus do século XIX. Mas nem todos os judeus concordam com o sionismo, do que é prova o fato de que a maior parte dos judeus continua longe da Palestina até hoje. Assim, tem prevalecido sempre a providência de Deus.

     

    Apesar de todos os exílios, vicissitudes e perseguições, tem prevalecido o Pacto Abraâmico. Esse pacto é renovado na passagem à nossa frente. Ver a respeito em Gn 15.18. Uma das provisões desse pacto era a necessidade de um território pátrio, onde Israel pudesse viver como nação, e não apenas como tribos nômades. Com base nessa situação, viria a primeira revelação, e, finalmente, o Cristo, descendente de Judá. E, então, Cristo haveria de abençoar todas as nações da terra (Gl 3.14), por meio do evangelho. Antes, porém, Israel teria de residir temporariamente em Gósen, no Egito.

     

    46.1  De Hebrom a Berseba. Jacó precisava tomar uma decisão muito importante. Era certo deixar a terra de Canaã, onde Abraão tinha habitado? Deixá-la não prejudicaria as provi­sões do Pacto Abraâmico? Como esse pacto poderia ter cumprimento se a nação de Israel se formasse no Egito? Jacó buscou luzes. E assim sendo, ele foi a Berseba e ofereceu sacrifícios a Yahweh, o Deus de seu pai, Isaque. Ele estava voltando às suas raízes e buscando respostas. Em Berseba Deus havia aparecido a Abraão (Gn 21.33) e depois a Isaque (Gn 26.23). Esse lugar tinha um santuário, um centro do Yahwismo. Era um lugar apropriado para buscar iluminação a respeito da séria decisão que ele teria de tomar. O próprio Faraó tinha-lhe enviado ricos presentes, convidando-o a vir ao Egito (Gn 45.17 ss.). José achava-se no Egito, e Jacó gostaria muito de ir para perto dele. Mas existem coisas mais importantes do que estar na companhia de um filho amado, como fazer a vontade de Deus, sem importar qual seja essa vontade. Mas se alguém puder estar com um filho amado, ao mesmo tempo em que estiver fazendo a vontade de Deus, tal pessoa será duplamente abençoada. A Jacó, pois, foi dada essa bênção.

     

    Berseba ficava a apenas vinte e seis quilômetros de Hebrom, assim o santu­ário ficava perto, e Jacó sentiu-se impelido a buscar orientação ali.

     

    Deus de seu pai. No hebraico, Elohim.

     

    46.2  Em visões de noite. Algumas vezes as visões são dadas por meio de sonhos, mas é provável que aqui devamos entender a presença divina ou uma teofania. Para receber uma orientação iluminadora, algumas vezes precisamos do toque místico, da iluminação vinda do alto. Jacó era homem de muitas experiências místicas, mediante as quais a presença divina lhe era conferida de variegados modos. Ao que parece, cada movimento importante de Jacó era acompanhado por alguma elevada experiên­cia espiritual, que lhe conferia orientação e poder. Ver Gn 28.11 ss. Quando ia para a companhia de Labão, Jacó tivera a visão da escada que ia dar no céu. Na oportunidade, foi renovado através dele o Pacto Abraâmico (Gn 31.3,11). Quando voltava para Canaã, depois de ter estado com Labão por vinte anos, recebeu outra iluminação direta (Gn 32.1 ss.). Depois de ter-se separado de Labão, já a caminho de Canaã, Jacó recebeu outra experiência mística iluminadora (Gn 35.1). E, então, foi instruído a ir a Betel, habitar ali e erigir um altar. Foi aí que ele se desfez de certos ídolos (sem dúvida, alguns trazidos por Raquel), quando houve uma renovada dedicação ao Senhor.

     

    Eis-me aqui. A resposta da alma à presença de Deus, a prova da consciên­cia da presença divina. A vida espiritual consiste em mais do que estudo, leitura da Bíblia, oração e meditação. Precisamos, igualmente, do toque místico, a pre­sença de Deus conosco, que nos ilumina o caminho.

     

    “A descida ao Egito, que teria tão decisiva significação para a história da nação de Israel, teve motivo não só no desejo de Jacó ver seu filho perdido fazia tanto tempo (Gn 45.28), mas também na revelação divina dada nas visões da noite!’ (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    46.3  Eu sou Deus, o Deus de teu pai. No hebraico, El, Elohim. El indica poder, e Elohim é o Deus Supremo e Poderoso, o plural majestático de El.

     

    “Essa foi a última revelação conferida a Jacó. Depois dessa revelação não há mais registro de outro evento sobrenatural, até a visão da sarça ardente (Êx 3.4). Jacó deveria migrar para o Egito, pois ali os seus descendentes multiplicar-se-iam até se tornarem uma nação. A presença e a bênção de Deus haveriam de acompanhar a ele e a seus descendentes, e, finalmente, haveriam de trazê-los de volta à Terra Prometida. Para o próprio Jacó, além disso, foi dada a promessa de que José cuidaria dele em seu leito de enfermidade e estaria em sua companhia, por ocasião de sua morte” (Ellicott, in loc.).

     

    Naturalmente, em seu leito de morte, Jacó profetizou acerca de seus filhos (Gn 49), um acontecimento inspirado, mediante o qual Jacó foi capaz de prever, em termos gerais, o futuro dos descendentes de seus filhos, e de dar instruções e bênçãos especiais, que fariam suas vidas diferir das de outras pessoas.

     

    Lá eu farei de ti uma grande nação. O Pacto Abraâmico não falharia meramente porque Israel desenvolver-se-ia no Egito. Bem pelo contrário, as duzentas ou trezentas pessoas (possíveis) que poderiam ter descido ao Egito (como o núcleo original da nação de Israel) seriam abençoadas de modo especial por Deus. Deus as protegeria; a nação se desen­volveria, porque o poder de Deus estava com ela.

     

    Temos aqui outra reiteração do Pacto Abraâmico, em seu mais básico elemento, a grande nação oriunda de Abraão. Cada uma dessas ocorrên­cias frisa alguns poucos itens, embora não o pacto em todos os seus aspec­tos.

     

    46.4  Eu descerei contigo. A presença divina far-se-ia patente até mesmo no exílio no Egito. Ao mesmo tempo, havia aquela promessa a longo prazo de um futuro livramento do exílio egípcio. O Pacto Abraâmico incluía o exílio no Egito (Gn 15.13), mas também a eventual libertação desse exílio, no tempo determinado (Gn 15.16).

     

    O Toque Pessoal. José era o filho amado de Jacó, do qual estava separado fazia vinte e quatro anos. Jacó ainda viveria por bons dezessete anos no Egito, em companhia de José, e, então, faleceria. Jacó desceu ao Egito quando estava com cento e trinta anos, e viveria cento e quarenta e sete anos. Ver Gn 47.28. José estaria perto dele quando morresse e fecharia os seus olhos. José “prestaria a ele esse último serviço” (John Gill, in loc.). Portanto, Jacó nada teria que temer, nada do que se lamentar; nenhuma ansiedade para vexá-lo, se chegasse a des­cer ao Egito para ali viver pelo resto de sua vida.

     

    E te farei tornar a subir, certamente. Não devemos pensar aqui no cadáver de Jacó, o qual foi trazido de volta a Macpela, sepultado onde já estavam os corpos de Abraão, Sara, Lia e Isaque, pai de Jacó. Antes, devemos pensar na promessa a longo prazo de que, finalmente, a nação de Israel seria tirada do Egito.

     

    Um de meus filhos queridos teve um sonho perturbador a respeito de minha morte. Ele sonhou que eu era um homem idoso, meus cabelos total­mente encanecidos. Estávamos nas proximidades de uma grande universida­de. Ele voltou do campus e me encontrou morto, ao que parecia, por um ataque de coração. Quando ele me contou o sonho, eu lhe disse: “Por que você está preocupado? Esse é um bom sonho. Viverei até tornar-me um homem idoso, pois meus cabelos estavam totalmente brancos. Morrerei de súbito, de um colapso cardíaco, o que significa que não passarei dias sofren­do. Além disso, eu não gostaria de estar em outra companhia, ao morrer, do que na sua”. Ao ler o texto bíblico à nossa frente, lembro-me desse sonho de meu filho. José, o amado filho de Jacó, estaria com ele até o fim. Não haveria queixas, nem lamentações, nem faltaria coisa alguma. Foi assim que Jacó foi encorajado a ir para o Egito.

     

    46.5  Então se levantou Jacó. Ele já havia recebido a sua resposta, que lhe foi dada no santuário em Berseba. E assim, com toda confiança, preparou-se para descer ao Egito. Reencontrar-se com seu filho amado, José, inspirava a sua mente. Seu alquebrado corpo de cento e trinta anos de idade movimentou-se com lepidez e renovada energia.

     

    Os carros enviados pelo Faraó (Gn 45.19) facilitaram em muito a viagem.

     

    Coisa alguma é dita acerca das esposas de Jacó. É possível que todas elas já tivessem morrido por esse tempo. Mas havia várias famílias a serem transporta­das, com seus filhos e netos. O vs. 27 mostra que havia setenta homens, pelo que o grupo inteiro deve ter consistido em duzentas a trezentas pessoas ao todo, se incluirmos os servos e servas que faziam parte das casas. Temos aí o núcleo que daria início à nação de Israel no Egito. Os varões são alistados, a começar pelo versículo oito.

     

    46.6  O seu gado e os bens. Mas não certos itens como móveis, instrumentos agrícolas etc., visto que o Faraó os tinha encorajado a viajar sem bagagem, porquanto receberiam implementos novos no Egito (ver Gn 45.20). É melhor ser abastado do que não ser abastado. Apesar da escassez de alimentos, Jacó ainda era dono de muitos bens.

     

    Toda a sua descendência. Os setenta nomes masculinos que apare­cem na lista (vs. 27). Eram várias famílias com seus respectivos filhos e netos. Deus faria grandes coisas, a partir daquele dia de pequenos começos.

     

    46.7  Toda a sua descendência. Informações a serem supridas nas listas que aparecem em seguida (vss. 8-27). Quando Jacó desceu ao Egito, esta­va com cento e trinta anos de idade, cento e quinze anos depois de a promessa ter sido feita a Abraão (Gn 12.1-4). Na verdade, os israelitas não estiveram cativos no Egito por quatrocentos e trinta anos. Apenas cerca de duzentos e cinquenta desses anos foram realmente passados em cati­veiro. Essas são cifras aproximadas dadas pela Septuaginta.

     

    Suas filhas e as filhas de seus filhos. O elemento feminino da família de Jacó fica assim vago, porque, usualmente, as mulheres não eram nomeadas nas genealogias. Ver Gn 37.36.

     

    A Família de Jacó (46.8-27) Este texto tem paralelo em Deuteronômio 10.22, que fala em setenta ho­mens. A tradição arredondou o número de homens a setenta, que alguns estudio­sos supõem ser mera aproximação, ao passo que outros pensam em um número simbólico, e não real, de descendentes de Jacó.

     

    “Esta seção, vinda de uma tradição sacerdotal distinta, contém uma lista de descendentes de Jacó, com base no número tradicional de setenta (vs. 27; ver Êx 1.5; Dt 10.22). A maioria dos nomes dos líderes ancestrais de clãs apare­ce na lista sacerdotal do capítulo vinte e seis de Números… o número setenta inclui José e seus dois filhos, que lhe tinham nascido no Egito, além do próprio Jacó” (Oxford Annotated Bible, in loc.).

     

    Enquanto a exposição prosseguir, irei fazendo comparações com as genealogias de Números e de I Crônicas, que abordam os mesmos indivíduos. O vs. 26 diz que o número daqueles que viajaram ao Egito foi de sessenta e seis. Mas o versículo vinte e sete dá o número setenta, porém, como o grande total, ou seja, incluindo os filhos e netos que estavam no Egito.

     

    Cálculos

     

    Filhos e netos de Lia (vs. 15)            33

    Filhos e netos de Zilpa (vs. 18)         16

    Filhos e netos de Raquel (vs. 22)      14

    Filhos e netos de Bila (vs. 25)           07

    Dina, uma filha de Jacó                            01

    71

     

    Er e Onã morreram em Canaã (vs. 12)

    José e dois filhos já estavam no Egito

    (vs. 20); portanto                              -5

     

    Aqueles que migraram para o Egito,

    na companhia de Jacó (vs. 26)         66

    Os que já estavam no Egito              04

     

    Grande total (vs. 27)                         70

     

    Esse total de setenta pessoas era o núcleo da nação de Israel que se desen­volveu no Egito. O trecho de Atos 7.14 dá o número de 75 pessoas. As tradições e os núme­ros variam um pouco. A Septuaginta também fala em setenta e cinco pessoas, pelo que sabemos que Estêvão (Atos 7.14) seguiu a Septuaginta, e não o texto hebraico massorético.

     

    Bibliografia R. N. Champlin

    (mais…)

  • Lição 10 – Revista Betel – Jacó sofre perdas imprevisíveis na família

    Fonte: EBD Areia Branca

    Texto Áureo

    “E enviaram a túnica de várias cores, mandando levá-la a seu pai, e disseram: Temos achado esta túnica; conhece agora se esta será ou não a túnica de teu filho”. Gn 37.32

    Verdade Aplicada

    Para compreendermos o valor da âncora, é preciso enfrentar uma tempestade.

    Objetivos da Lição

    ?      Mostrar que Deus não se es­quece das suas promessas;

    ?      Demonstrar que a confiança em Deus nos faz avançar nos momentos de adversidades; e

    ?      Ensinar que a colheita é o resultado do que plantamos.

    Textos de Referência

    Gn 35.27 E Jacó veio a Isaque, seu pai, a Manre, a Quiriate-Arba (que é Hebrom), onde peregrinaram Abraão e Isaque.

    Gn 37.28 Passando, pois, os mercadores midianitas, tira­ram, e alçaram a José da cova, e venderam José por vinte mo­edas de prata aos ismaelitas, os quais levaram José ao Egito.

    Gn 37.31 Então, tomaram a túnica de José, e mataram um cabrito, e tingiram a túnica no sangue.

    Gn 37.32 E enviaram a túnica de várias cores, e fizeram levá-la a seu pai, e disseram: Temos achado esta túnica; conhece agora se esta será ou não a tú­nica de teu filho.

    Gn 37.33 E conheceu-a e disse: É a túnica de meu filho; uma besta-fera o comeu, certamente foi despedaçado José.

    Gn 37.34 Então, Jacó rasgou as suas vestes, e pôs pano de saco sobre os seus lombos, e lamen­tou a seu filho muitos dias.

    Gn 37.35 E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem;

    Ajuda Versículos

    Ajuda 1

    José Vendido como Escravo (Gn 37.12-28)

     

    A noite antecede ao dia, e assim também José não poderia evitar seu exílio. Seus traiçoeiros irmãos só não se tornaram fratricidas por intervenção do mais misericordioso, Rúben (vs. 21). Em vez de ser morto, José foi vendido como escravo, tal como Jacó, antes dele, por causa da ira de Esaú, tinha sido forçado a exilar-se junto a Labão, em Padã-Arã. Assim, a história estava-se repetindo. A providência de Deus cuidou de ambos os casos. Grandes vitórias esperavam por José — porém estas não ocorreriam de pronto, mas somente depois de muitos sofrimentos e vicissitudes boas e más.

     

    37.12 Em Siquém. Apanha-nos de surpresa o fato de que Jacó tivesse enviado seus filhos de volta a Siquém, cena do rapto de Diná e da matança dos súditos de Hamor (Gn 34). As coisas devem ter-se acalmado consideravelmente para que ele tivesse tido a coragem de fazer tal coisa. Os críticos supõem certa deslocação histórica, pensando que a fonte infor­mativa da história, J, dizia que Jacó e sua família continuavam residindo ali, não sabendo de outras histórias que já o faziam estar em Hebrom.

     

    Siquém ficava a cerca de oitenta quilômetros de Hebrom, e Dotã ficava mais vinte e quatro quilômetros para o norte (vs. 17). Portanto, de acordo com os padrões da época, estavam envolvidas consideráveis distâncias. Alguns estudio­sos opinam que parte da razão para os filhos de Jacó terem sido enviados a Siquém foi averiguar se o território (presumivelmente bom para pasto) oferecia segurança ou não.

     

    As riquezas de Jacó são ilustradas no texto. Por qual razão ele teria procura­do terras de pastagem, distantes mais de cem quilômetros de onde estava, a menos que possuísse grandes rebanhos e precisasse de muito espaço?

     

    37.13 Eis-me aqui. José estava disposto e pronto para ir em sua missão de miseri­córdia. Seus irmãos estavam ausentes, em Siquém. É provável que fizesse algum tempo que Jacó não recebia notícias da parte deles, e estivesse preocupado com o seu bem-estar. A José foi confiada então essa missão de averiguar como estavam as coisas. Isso armou o palco para uma história negra, de ódio e cruelda­de. Jacó não veria mais seu amado filho José por muitos anos, supondo, durante todo esse tempo, que José estivesse morto.

     

    O lugar, Siquém, era perigoso, por causa dos incidentes descritos no capítulo trinta e quatro. E Jacó queria ter certeza de que os seus filhos não tinham sido envolvidos por algum dano, pelo que a missão de José se revestia de considerá­vel importância.

     

    37.14 Os filhos e os rebanhos constituíam toda a riqueza de Jacó, ocupando toda a sua atenção. O bem-estar deles era da máxima importância para Jacó. Na vida de um homem, essas são as coisas mais importantes. Porém, havia uma falha fatal no paraíso de Jacó. Onze irmãos cultivavam o ódio em seu coração contra um irmão. Isso nos faz lembrar de como os irmãos de Jesus, por longo tempo, foram hostis a Ele.

     

    É irônico que os filhos de José estivessem livres de perseguição dos habitan­tes de Siquém, por parte de quem tinham sido tão maltratados, ao passo que José, irmão deles, não estava seguro entre seus irmãos.

     

    Diz o Targum de Jonathan: “Temo que os horeus tenham vindo e os tenham ferido, por haverem matado a Hamor e a Siquém, bem como aos habitantes daquela cidade”.

     

    37.15 Não Estavam Mais em Siquém. José não os encontrou nas proximidades de Siquém, onde Jacó pensara que estariam. Mas um certo homem dali, com quem José se encontrou, sabia que eles se tinham ido para Dotã (vs. 17). Os escritores judeus consideram esse homem um anjo que estava com José para guiá-lo. Mas o texto não indica nada de incomum. O homem pode ter sido um viajante (conforme sugeriu Aben Ezra), ou, então, alguém que arava o campo. Fosse como fosse, José encontraria ajuda para as coisas mais insignificantes, como parte das bênçãos diárias de Deus.

     

    37.16 Dize-me onde. José pediu, e foram-lhe dadas orientações. Coisa pequena, mas importante para o momento. Tudo fazia parte de uma missão mais ampla. Nossas missões envolvem coisas pequenas e coisas grandes.

     

    37.17 Vamos a Dotã. No hebraico, essa palavra significa duas fontes ou festa dupla (aqui e em II Rs 6.13). Ficava cerca de noventa e sete quilômetros ao norte de Jerusalém e a cento e cinco quilômetros de Hebrom. Por ali passava uma rota de caravanas que ia da Síria ao Egito. A região era conhecida por sua excelente pastagem, e, naturalmente, esse fato atraíra até ali os irmãos de José. Essa cidade é deveras antiga, e muitas descobertas arqueológicas têm sido feitas ali. Até hoje, os pastores vêm do sul da Palestina àquela região a fim de dar água e pasto a seus rebanhos. O arqueólogo Free encontrou noventa rebanhos na estrada que vem de Jerusalém.

     

    Começam Dificuldades Sérias. Finalmente, José encontrou-se com seus trai­çoeiros irmãos. Incidente tão corriqueiro em breve redundaria em uma tremenda aventura, com sua mistura de tristeza e alegria, derrota e triunfo.

     

    José era um jovem diferente que atravessou o caminho de seus irmãos. Era diferente deles. E eles haveriam de puni-lo por causa disso. Com frequência, até mesmo em boas famílias, um filho que se destaque provoca a hostilidade de outros membros da família que não querem que ele cresça.

     

    Os menos brilhantes podem desenvolver-se junto com os mais brilhantes; mas é mais fácil criticar e perseguir do que crescer, e, normalmente, as pessoas preferem o caminho da menor resistência. É tão possível a uma pessoa ser magnânima quanto ser maldosa; e ser maldosa concorda melhor com a natureza humana caída. É errado suprimir e distorcer uma personalidade por ser ela dife­rente. A perseguição, quase sempre, é produto de mentes inferiores. E mesmo quando não seja assim, será sempre produto de almas inferiores.

     

    37.18 Conspiraram contra ele. Este versículo é um terror. José era tão odiado que o simples fato de o virem de longe deixou-os irados, o rancor fervendo em seus corações. Se o encontrassem em um elevador (em tempos modernos), tê-lo-iam ignorado. Se o vissem caminhando por uma rua, teriam atravessado a rua para o outro lado. Se o vissem apanhar um ônibus, teriam esperado por outro.

     

    “Entraram em entendimento e traçaram os mais astuciosos métodos que foram capazes de imaginar de tirar-lhe a vida, mas ocultar o homicídio” (John Gill, in loc.).

     

    37.19 Vem lá o tal sonhador! Isso eles disseram para lançarem José no ridículo, desprezando o dom espiritual que Faraó haveria de respeitar e pelo qual o Egito seria salvo de uma fome calamitosa. O profeta José não era honrado entre seus irmãos, tal como Jesus não foi respeitado entre os Seus (Mt 13.57). Quanto a essa e outras questões, José tipificava o Messias. No hebraico temos a expres­são “senhor dos sonhos”, uma frase escarninha em extremo. Eles tinham assassi­nado a muitos siquemitas para vingar a Diná, irmã deles (Gn 34.24-29), mas não consideravam o próprio irmão deles melhor do que os pagãos a quem tinham matado traiçoeiramente.

     

    37.20 Matemo-lo… e diremos. Eles planejaram encobrir um homicídio com uma mentira. Ficamos boquiabertos diante do vil caráter dos irmãos de José, patriarcas de Israel. Somente a graça de Deus poderia insuflar alguma decência em tais indivíduos. Ver no Dicionário os artigos Homicídio e Mentir (Mentiroso). Foi de uma maneira extremamente trivial que eles planejaram quebrar a dois princípios que, posteriormente, fariam parte dos Dez Mandamentos. O relato é tão terrível, retratando com tão negras luzes o caráter daqueles homens, que alguns eruditos têm chegado a pensar que tudo não passa de uma lenda dramática, algo que realmente não pode ter acontecido. “Eles devem ter sido selvagens sem nenhum princípio!” (Adam Clarke, in loc.).

     

    Numa destas cisternas. Escavações feitas para coletar a água da chuva, para efeitos agrícolas e para dessedentar os animais. Ver Jr 38.6. Os intérpre­tes judeus acusaram Simeão de ser o principal instigador do plano, supondo que por esse motivo José mandou deixá-lo amarrado na prisão, no Egito (Gn 42.24). Mas não há como averiguar se essa informação está ou não com a razão.

     

    37.21 Rúben Faz Objeção. Rúben conseguiu convencer os outros a não executa­rem o plano homicida contra José. O vs. 22 mostra que Rúben tinha planejado resgatar José, voltando mais tarde à cisterna, a fim de libertá-lo dali. Portanto, aquele que aparentemente havia estuprado Bila (uma das concubinas de Jacó) pelo menos tinha algum princípio moral. Ver Gn 35.22. Judá também quis pou­par José, mas estava pensando mais em termos de dinheiro, e não em termos de misericórdia (vs. 26). Pelo menos, no caso de Rúben, houve um raio de luz que brilhou no quadro, em tudo mais, tenebroso. O caso de José ilustra a quais profundezas de depravação um homem é capaz de afundar-se.

     

    Josefo pôs nos lábios de Rúben um longo e floreado discurso de defesa, ao explicar esta passagem. E, realmente, é quase certo que Rúben disse alguma coisa eloquente a seus irmãos, desviando do mal seus corações malignos.

     

    37.22 Lançai-o nesta cisterna. Pela providência divina, esta estava seca, pois, se assim não fora, ter-se-ia afogado. Rúben estava pensando na tristeza avassaladora que Jacó sofreria, diante da morte de José. Tinha apenas dezessete anos e era o filho favorito de seu pai. Seu coração comoveu-se, e, então, apresentou um plano alternativo, que parecia decretar a morte de José (até onde os outros irmãos entenderiam a questão), mas daria a Rúben a oportunidade de reverter o curso das más ações dos irmãos de José. O trecho de Gn 42.21 dá-nos a patética mensagem de que José ficou angustiado e começou a implorar por sua vida, o que seus irmãos levaram tão pouco a sério. Eles estavam apanhados no vórtice de seus pecados. Kant baseou um argumento moral sobre a necessidade de recom­pensa ou de retribuição em favor da existência da alma e de sua sobrevivência diante da morte biológica. Em algum ponto, cada homem precisa encontrar-se consigo mesmo, quanto ao bem e quanto ao mal. Cada indivíduo deverá receber recompensa ou punição pelo que tiver praticado, pois, se assim não fora, então viveríamos em um mundo dominado pelo caos. Vendo que nem a recompensa nem o juízo são devidamente aplicados nesta esfera terrena, então deve haver uma “vida além” onde as contas serão devidamente pagas.

     

    Talvez Rúben tenha pensado que poderia pagar algo da dívida de seu peca­do, que cometera contra seu pai, contrabalançando o seu erro mediante um ato de bondade que seria vital para ele. Seja como for, o arrependimento deve incluir, sempre que possível, atos de reparação.

     

    37.23 Uma Maldade Ansiosa por Manifestar-se. Os irmãos de José não hesitaram. Agarraram-no, tiraram-lhe a túnica preciosa, lançaram-no na cisterna e, ato contí­nuo, de corações insensíveis, sentaram-se para comer (vs. 25). Há pessoas más que são tão destituídas de consciência, que ficamos perplexos. Alguns dos mais graves pecados são praticados de maneira a mais trivial e insensível.

     

    …para que sejamos livres dos homens perversos e maus; porque a fé não é de todos” (II Ts 3.2).

     

    37.24 Cisterna, vazia, sem água. Isso por providência divina. As circunstâncias eram dificílimas. Talvez José tenha sido deixado totalmente despido, conforme pensavam alguns intérpretes judeus. Como quer que tenha sido, sua situação era desesperadora.

     

    A Experiência na Cisterna. Todo homem, em algum tempo em sua vida e, provavelmente, por muitas vezes, tem a sua experiência na cisterna. Os peca­dos acham-se no abismo da degradação. Até homens espirituais sofrem rever­sões sérias que os deixam como que em uma cisterna. “Moral e espiritualmen­te… a alma do homem está em um buraco. A percepção do fato pode ocorrer como um choque abrupto. José, em um momento, caminhava sob a luz do dia, em sua túnica multicolorida; no momento seguinte, estava em uma cisterna, em meio à escuridão. Em um momento, parecia de nada precisar; no momento seguinte, já precisava de tudo. Assim acontece à alma humana. Da auto-suficiência, pode ser imersa em total impotência e desesperadora necessidade de Deus. No entanto, no pior momento de José, havia forças insuspeitas que se movimentavam para libertá-lo. . . isso vemos no Salmo 40.2 (Walter Russell Bowie, in loc.):

     

    Tirou-me de um poço de perdição, dum tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos.

     

    O Targum de Jonathan diz que havia serpentes e escorpiões no fundo da cisterna, e Jarchi salientou que ali não havia água. Nesse caso, José morreria de sede, se alguma outra coisa não o matasse primeiro.

     

    37.25 Sentando-se para comer pão. Aqueles homens ímpios e desarrazoados, embora ouvindo os gritos de desespero de José (Gn 42.21), foram capazes de ficar sentados para comer pão. José não merecia ser posto na cisterna. Havia bondade essencial em sua pessoa, e, além disso, tinha uma grande missão a cumprir fora da cisterna. Mas o propósito de Deus atuava para tirá-lo da cisterna. E enquanto os seus irmãos comiam, naquele momento se aproximava uma cara­vana de ismaelitas, que, vindos de Gileade, se encaminhavam para o Egito. Isso livraria José de sua aflição momentânea. Esse foi o primeiro passo no desenvolvi­mento do plano maior. O propósito de Deus opera passo a passo, cada vez aproximando-se mais do seu cumprimento. José estava na trilha certa.

     

    Dotã ficava localizada na rota das caravanas, por onde produtos vindos da Índia e da Ásia Ocidental eram levados ao Egito. “Visto que o lado oriental de Canaã estava coberto pelo grande deserto da Arábia, as caravanas tinham de viajar em uma direção sudoeste até que, tendo vadeado o rio Eufrates, atraves­sassem de Tadmor a Gileade. Dali, a rota tomada conduzia os caravaneiros para além do Jordão, em Beisã, e daí, seguindo para o sul, avançavam até o Egito” (Ellicott, in loc).

     

    Ismaelitas. No vs. 36, eles são chamados “midianitas”. Os Targuns e a versão siríaca dizem “árabes”. Midiã era filho de Abraão e Quetura, e Ismael era filho de Abraão e Hagar. Eruditos antigos e modernos têm lutado com essas variantes, e alguns têm mesmo suposto que José foi vendido por mais de uma vez — de seus irmãos para os ismaelitas; dos ismaelitas para os midianitas — antes de ter chegado ao Egito. Por outra parte, havia uma mistura de povos, apesar de suas origens distintas, e provavelmente o autor sagrado não foi cuida­doso com o uso de adjetivos pátrios.

     

    Arômatas, bálsamo e mirra. Quanto aos arômatas, está em pauta o tragacanto ou estoraque (Gn 30.37), ou seja, especiarias. Mas os estudiosos não concor­dam quanto à identificação exata dos itens envolvidos.

     

    37.26 Judá Pensou em Termos de Dinheiro. De que adiantaria a morte insensata de seu meio-irmão? Ele queria ganhar algum dinheiro, e a aproximação da caravana dava-lhe oportunidade de negociar. Não estava interessado em mostrar dó. Nem aventou: “Sejamos misericordiosos com José”. Mas sugeriu: “Vamos ganhar algum dinheiro com José”. E assim, se José escapasse da morte, seria forçado, devido às mentiras deles, a sofrer a tristeza por uma pseudomorte, enfrentando anos de profunda tristeza. Mas que lhes importava isso? Eles dividiriam as vinte peças de prata (vs. 28). Essa era a sua consolação, enquanto José entraria em uma situação deveras desesperadora. Assim, José foi livrado de um grande mal, apenas para sofrer mal ainda maior. Mas Deus estava com ele, em todas as suas experiências.

     

    Nada acontece por mero acaso. Também não foi por coincidência que surgiu no horizonte a caravana, em um momento tão oportuno. Uma “coincidência” bem colocada pode ser uma pequena piada da providência divina que, através disso, diz: “Surpresa! Vê! Estou contigo!”. Há poder por trás da providência divina, mas esse poder não se faz conspícuo, e somos apanhados de surpresa.

     

    37.27 Pois é nosso irmão. Por essa razão, eles usaram de um pouco de miseri­córdia, mas de olho no dinheiro que ganhariam com a venda de José. Alegraram-se diante da alternativa que os poupou de praticarem o maior mal, e que também lhes daria um lucro pecuniário. Parecia-lhes uma perfeita (má) solução.

     

    Operação Divina. Para os irmãos de José, aquele ato era, definitivamente, o fim do sonhador e de seus sonhos arrogantes. Na verdade, porém, tudo aquilo era apenas parte necessária do cumprimento de seus sonhos precognitivos. O plano não poderia dar certo se José não chegasse ao Egito. E assim, o que eles tinham planejado para o mal, Deus estava fazendo redundar para o bem, exatamente o que José disse muitos anos mais tarde (Gn 50.20). Esse bem operaria em favor não somente de José, de seus irmãos e da vindoura nação de Israel, mas igual­mente de muita gente que seria beneficiada pela presença de José no Egito, pois seriam todos salvos de morrer por inanição.

     

    37.28 Vinte siclos de prata. Siclo era um peso, e não uma moeda. Pesava cerca de 11,7 g. Multiplicando isso por vinte, temos pouco mais de duzentos e trinta gramas de prata. O trecho de Lv 27.5 mostra que esse era o valor de um escravo com menos de vinte anos de idade. Não há como calcular seu valor monetário, de acordo com padrões modernos. Jesus foi vendido por Judas Iscariotes por trinta moedas de prata (Mt 26.15). Portanto, José foi um tipo de Cristo, conforme se vê nas notas sobre o terceiro versículo deste capítulo.

     

    37.29 Volta Rúben à Cisterna Vazia. Não nos é dito por que Rúben não estava comendo com os outros irmãos, nem para onde tinha ido, nem porque agora reaparecia na cena, somente para encontrar vazia a cisterna. Ele tinha planejado retirar José da cisterna e devolvê-lo ao seu pai (vs. 22). Mas seu plano fracassou; e assim, consternado, rasgou suas vestes, um antigo símbolo oriental de profunda consternação, tristeza ou ira. Os intérpretes judeus dizem que Rúben se havia separado dos demais, tinha ido até um monte, e ali estivera esperando que os irmãos se fossem, para que viesse secretamente resgatar a José. Rúben rasgara suas vestes, angustiado. Jacó faria a mesma coisa (vs. 34). Mas um Novo Dia haveria de raiar, a despeito da escuridão daquela noite.

     

    37.30 Não está lá o menino. Teria ele desaparecido? Estaria morto? Agora, que poderia fazer Rúben? Suas perguntas refletiam sua consternação e perplexidade. Admiramo-nos diante do coração calejado de seus irmãos. Mas assim funcionavam as antigas mentes selvagens. Lemos as obras de Homero, a llíada e a Odisséia, e maravilhamo-nos diante do poder e da graça de sua literatura. De fato, tais obras são da mais fina arte poética. Contudo, o que elas refletem? Matanças e mais matanças, golpes de espada sem nenhuma misericórdia. E, então, indagamos se a cena moderna é melhor do que isso. Os homens agora liquidam grandes contingen­tes populacionais, e poucos sentem alguma repulsa ou remorso. Os nossos heróis continuam sendo os que mais matam, e a ciência devota-se a aprimorar os meios de matança. Davi foi chamado homem segundo o coração de Deus, e, no entanto, houve ocasiões em que mostrou ser um matador insensato e sem dó. Calvino iniciou uma denominação cristã, mas tornou-se culpado de muitos homicídios, banimentos e aprisionamentos dos que discordavam de sua doutrina.

     

    Rúben era o irmão mais velho. Jacó haveria de reputá-lo responsável. Ele já havia cometido um grave erro ao forçar Bila, concubina de Jacó. Agora, essa calamidade seria adicionada à outra. No entanto, acima dos resultados que ele temia, Rúben sentia-se genuinamente devastado, diante da perda de José, ao qual chamou de menino, embora já tivesse dezessete anos de idade.

     

    37.31 A Fraude. José fora levado pelos ismaelitas. Mas agora era preciso fingir uma razão para a sua ausência. A túnica preciosa de José foi manchada com o sangue de um bode. Agindo como animais, culparam um animal pela pseudomorte.

     

    Eles praticavam maldade após maldade, em uma produção interminável. Um erro era coberto por outro. Um pecado acaba criando uma cadeia de pecados. Eles tinham cometido um crime contra José, e agora cometeriam um crime contra Jacó. Estavam envenenando seu relacionamento com seu próprio pai; e assim violaram sua posição de filhos.

     

    “Maimônides pensava que uma das razões por que bodes por tantas vezes eram abatidos e usados como ofertas pelo pecado, sob a lei levítica, era relembrar os israelitas desse grande pecado cometido pelos seus patriarcas” (Ellicott, in loc.). Os Targuns de Jonathan e Jarchi observaram que o sangue de um bode é o mais parecido com o sangue humano, pelo que a fraude seria extremamente convincente em sua aplicação.

     

    37.32 A túnica talar tornou-se um emblema de ludibrio e de tristeza. Jacó tinha presenteado José com aquela túnica especial, como sinal de seu amor e favorecimento. Agora lhe era devolvida, pelos traiçoeiros irmãos de José, a fim de lhe partir o coração. E o ludibrio prosseguiu, quando eles deram a entender que talvez a túnica pertencesse a José. Forçaram Jacó a identificá-la! “A mentira deles, uma vez pespegada, contaminou todas as relações dentro da família” (Walter Russell Bowie, in loc). “Quanta deliberada crueldade para torturar os sentimentos do idoso pai, e assim esmagar a sua alma!” (Adam Clarke, in loc.). Lograram êxito, mas esse pecaminoso êxito haveria de enredá-los algum dia. Nem todo sucesso é bem-sucedido. Há supostos sucessos que são o mais doloroso tipo de fracasso. Platão disse que a pior coisa que pode suceder a um homem é que ele pratique o mal, mas nada sofra por isso. Se isso suceder, a alma desse homem aprenderá a tornar-se habitualmente corrupta.

     

    37.33 É a túnica de meu filho. O coração do pai se partiu, e assim, em ato reflexo, Jacó rasgou suas vestes. A túnica preciosa, seu presente especial, tornou-se mensageira de agonia. Somos levados a relembrar a túnica inconsútil de Jesus, que se tornou objeto de um jogo, para se saber com qual soldado romano ela ficaria (Jo 19.23,24). Ambas as vestes tornaram-se emblemas de tristeza e de aparente derrota. “Assim como a túnica estava rasgada, assim também deve estar despedaçado o corpo de José, meu filho amado! E assim pensando, Jacó rasgou suas vestes” (Adam Clarke, in loc.).

     

    “. . .imaginemos como, com o coração pulsando forte, com os membros trêmulos, com as mãos contorcendo-se, com os olhos vertendo lágrimas e com a voz daudicante, ele [Jacó] deve ter proferido essas palavras” (John Gill, in loc.).

     

    37.34 Jacó rasgou as suas vestes. Tal como Rúben tinha feito, e pela mesma razão (vs. 29).

     

    se cingiu de pano-saco. Em lugar de suas vestes usuais, vestiu-se de uma roupa grosseira, símbolo apropriado de sua tristeza e consternação. Provavelmente estão em pauta peles de animais. Ver também Gn 44.12; Jó 1.20 e 16.15.

     

    Por muitos dias. Tantos, que em muito ultrapassaram o período usual de luto. Jarchi falava em vinte e dois anos, até que também desceu ao Egito, e ali encontrou-se com José, vivo!

     

    O trecho de Gn 45.26-28 nos dá alguma ideia da intensa tristeza que Jacó sofreu por causa da questão. Somente ao tomar conhecimento de que José estava vivo, foi que “reviveu-se lhe o espírito” (Gn 45.27).

     

    37.35 Reúne-se a Família de Jacó. Procuraram consolar a Jacó, mas foi tudo inútil. Somente o tempo pode curar certas tristezas. Note-se aqui o plural, todas as suas filhas. Sem dúvida, havia ao menos duas. E Jacó deve ter tido várias filhas, embora somente Diná seja mencionada no livro. O Targum de Jonathan chama essas mulheres de esposas de seus filhos, mas não seria nada incomum se não tivessem sido mencionadas filhas.

     

    Sepultura. No hebraico, sheol (que significa tanto sepultura quanto o “hades” do Novo Testamento). Mas não fica claro o que Jacó quis dizer, pois não se sabe até que ponto tinha evoluído a doutrina do sheol, nos dias de Jacó. Nos tempos mais primitivos, a teologia dos hebreus não incluía crença na alma imaterial e imortal. O Pacto Abraâmico é repetido por cerca de doze vezes no Antigo Testamento, sem nunca fazer promessa de vida eterna no pós-túmulo. Quando o sheol veio a significar algo além da sepultura, indicava uma dimensão de sombras na qual havia uma quase não-existência, em que as sombras de homens (e não almas reais e inteligentes) flutuariam sem rumo. Essa doutrina era paralela à nossa teoria dos fantasmas, em contraste com os espíritos.

     

    Com o tempo, porém, o sheol passou a ser concebido como o lugar das almas desencarnadas, boas e más. Esse lugar teria duas divisões, uma para as almas boas e outra para as almas más. O sheol seria uma espécie de gigantesca caverna subterrânea.

     

    Jacó, pois, parece não ter dado a entender mais do que o fato de que, algum dia, ao morrer, seguiria a José à sepultura (o que corresponde à interpre­tação de nossa versão portuguesa). Ou ele pode ter dado a entender que, à semelhança de José, ele iria para a dimensão das sombras, onde as almas levavam uma vida de quase não-existência. Todavia, ele pode ter querido dizer que se encontraria com José no lado bom do “sheol”, para onde vão verdadei­ras almas humanas. Mas o livro de Gênesis nunca nos fornece um conceito claro a respeito, não sendo provável que seja isso que está em pauta neste texto. Mas os intérpretes que cristianizam o texto dizem-nos que isso é o que está em pauta aqui.

     

    37.36 Os midianitas. Eles são chamados ismaelitas no vs. 25. Talvez um adjetivo pátrio pudesse ser usado intercambiavelmente com o outro, visto que havia misturas raciais. Ou, então, “ismaelitas” fosse um termo genérico para indicar as nações de vida nôma­de no deserto. Ou, então, na opinião de alguns (embora com menores probabili­dades), os ismaelitas tenham revendido José para os midianitas.

     

    Potifar. No egípcio, esse nome é uma forma contraída de Potífera, que signifi­ca “aquele a quem Rá [o deus sol] deu”. Gn 39.1-20. Ele era um oficial militar de Faraó. Os irmãos de José, filho de Jacó, tinham-no vendido para ser escravo. E José terminou ficando na casa de Potifar (sem dúvida, por ter sido comprado por ele). Ali, José mostrou ser um jovem dotado de honestidade, habilidade e ambição para melhorar. Foi assim que Potifar acabou fazendo dele o mordomo de sua casa, entregando-lhe grandes responsabilidades. Porém, a esposa de Potifar voltou os olhos para aquele notável jovem, e, em várias oportunidades, tentou seduzi-lo sexu­almente. Mas José, sendo jovem temente a Deus, resistiu às tentativas. Despreza­da, ela acusou-o de tentar fazer exatamente o que ela havia tentado. Parece que Potifar acreditou nela; ou então, pelo menos, querendo manter a tranquilidade doméstica, lançou José na prisão. A história é narrada no capítulo trinta e nove do Gênesis. Isso aconteceu por volta de 1890 A. C. E nada mais é dito acerca de Potifar na Bíblia.

     

    Na prisão, o carcereiro também reconheceu o valor de José, e terminou por entregar-lhe responsabilidades (Gn 40.3,4). Alguns estudiosos pensam que o carcereiro era o mesmo Potifar, mas a maioria dos eruditos rejeita a ideia.

     

    Bibliografia R. N. Champlin

    (mais…)

  • Lição 6 – Editora Betel – Jacó retorna à sua terra

    Texto Áureo

    “Então tomou Jacó uma pedra, e erigiu-a por coluna”. Gn 31.45

    Verdade Aplicada

    A vontade de Deus é perfeita, boa e agradável.

    Objetivos da Lição

    ?      Demonstrar que Deus é sobe­rano em seus atos;

    ?      Ensinar que Deus protege os seus em todas as situações;

    ?      Mostrar o testemunho de Jacó.

    Textos de Referência

    Gn 31.17 Então, se levantou Jacó, pondo os seus filhos e as suas mulheres sobre os ca­melos,

    Gn 31.18 E levou todo o seu gado e toda a sua fazenda que havia adquirido, o gado que possuía, que alcançara em Padã-Arã, para ir a Isaque, seu pai, à terra de Canaã.

    Gn 31.19 E, havendo Labão ido a tosquiar as suas ovelhas, furtou Raquel os ídolos que seu pai tinha.

    Gn 31.22 E, no terceiro dia, foi anunciado a Labão que Jacó tinha fugido.

    Gn 31.24 Veio, porém, Deus a Labão, o arameu, em sonhos, de noite, e disse-lhe: Guarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem mal.

    Jacó Separa-se de Labão (31:1-55)

    Esta passagem é primordialmente pro­duto da fonte Israelita do Norte (ênfase em sonhos e anjos, uso do nome Elohim para a divindade), depois de uma intro­dução proveniente da narrativa Judia, nos versículos 1-3. A maioria dos erudi­tos críticos atribui o versículo 2 ao escri­tor da fonte Israelita do Norte, porque ele parece dar uma explicação diferente para a decisão, de Jacó, de partir. No versículo 1, somos informados de que era devido aos filhos de Labão, enquanto, no versículo 2, de que era por causa do próprio Labão. Estilisticamente, não há argumentos convincentes para uma mu­dança de fonte. O escritor da fonte Judia facilmente poderia ter atribuído o desassossego de Jacó à atitude mutável de Labão, tanto quanto à de seus filhos. As seções da fonte Israelita do Norte jamais mencionam os filhos de Labão, e alguns expositores chegam à conclusão, devido a isso, de que a opinião da fonte era que ele não tinha nenhum filho varão, só filhas (Skinner). Isto colocaria essa fonte em conflito com o material da fonte Judia, a não ser que se interprete “filhos” como parentes (cf. Speiser). Todavia, o silêncio da fonte Israelita do Norte, a respeito do assunto, pode não significar, necessaria­mente, falta de conhecimento. Os filhos de Labão podiam estar incluídos entre os parentes (v. 23). A referência a Padã-Arã, no versículo 18, geralmente é identi­ficada com a fonte Sacerdotal, visto que nenhuma das fontes populares emprega este nome comumente. Ela é, provavel­mente, editorial, e não de outra fonte.

    O pacto entre Jacó e Labão (v. 43-54) é geralmente considerado como uma com­ posição de materiais das fontes Judia e Israelita do Norte, visto que dois símbo­los são estabelecidos: uma coluna e um montão de pedras, e duas explicações são dadas para o nome “Galeede”. A versão da fonte Israelita do Norte diz que Jacó levantou tanto as pedras quanto a co­luna (v. 45 e 46), e o suposto relato da fonte Judia atribui ambos os atos a Labão (v. 51). Isto leva a uma intricada especulação a respeito de como isso pode ter acontecido, se as narrativas da “co­luna” e do “montão” estavam original­mente separadas (von Rad, Speiser). É melhor considerar esta perícope como uma coerente continuação da narrativa da fonte Israelita do Norte. Jacó e Labão erigiram os monumentos, referindo-se cada um deles, em seus discursos, à parte que havia desempenhado no processo. Visto que ambos participaram da ereção, cada um deles deu nome aos monumen­tos. Num ato final de boa vontade, Labão consentiu em usar o nome dado por Jacó.

    Ordens de Marcha de Jacó (31:1-16)

    Tendo visto que havia perdido o favor de Labão e de seus filhos, Jacó estava pronto para ouvir a direção de Deus para voltar ao lar. A ordem de Deus era oposta à dada a Abraão. Abraão recebe­ra instruções para abandonar a sua terra e a sua parentela; Jacó devia voltar à sua. Assim mesmo, cada geração precisa sa­ber qual é a vontade de Deus para a sua situação em particular.

    Dez vezes mudou o meu salário. Esta é uma expressão figurada de um número grande, indefinido. Por esta declaração ficamos sabendo que Labão revisara muitas vezes o acordo feito com Jacó. Respeitando o aspecto do acordo que lhe era favorável, Labão sempre conservava as ovelhas brancas e as cabras escuras. Algumas vezes, contudo, ele limitava a parte de Jacó apenas às listradas ou às malhadas. Não obstante, cada vez os animais se multiplicavam a favor de Jacó.

    Os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e malhados. Não fora a esperteza de Jacó a responsável pela multiplicação prolífica da espécie de animais que lhe cabia. Deus providen­ciara para que os animais certos se aca­salassem.

    Levanta os teus olhos e vê. Von Rad considera esta expressão, bem como todo o versículo 12, como uma “inserção inep­ta”, feita por um editor posterior, pri­mordialmente porque ela interrompe a declaração de Deus a respeito de si mes­mo. De acordo com a analogia de outras teofanias, o Eis-me aqui da resposta de Jacó devia ser seguido imediatamente por Eu sou o Deus de Betel. Essa alteração de forma é simplesmente uma maneira pela qual o hebraico expressa ênfase. Deus queria que Jacó visse o que estava acontecendo, antes de dirigir a sua aten­ção para si próprio.

    Eu sou o Deus de Betel, onde é literal­mente “Eu sou o Deus Betel, onde”. Obviamente, o texto sofreu durante a transmissão, visto que “onde” não tem um antecedente apropriado. Seguindo a LXX e outras versões antigas, a maioria dos intérpretes concorda com a RSV.

    A reação das esposas de Jacó, ao dis­curso dele, nos versículos 5 a 13, expres­sa tanto a amargura delas contra o seu pai quanto a sua lealdade a Jacó. Se ele estava pensando em partir sem elas, po­dia esquecê-lo. O pai delas as havia ven­dido a ele, e elas também eram proprie­dade dele. Se ele queria partir, elas estavam com ele entusiasticamente.

    A Partida Secreta (31:17-24)

    Jacó escolheu a hora adequada para viajar. Labão e seus filhos estavam ocupados com a tosquia das ovelhas, a três dias de caminho dele.

    Raquel furtou os ídolos que perten­ciam a seu pai. Como observa Speiser, a tradução “furtou” é um pouco forte para a situação. A posse dos deuses do lar ou familiares (heb., teraphim, coisas iner­tes, um termo pejorativo) era prova legal do direito de herança. Visto que Raquel cria que a propriedade devia ser deles, ela se “apropriou” do que considerava ser seu de direito. Isto não fez com que o ato se tornasse menos errado. Os terafins eram estatuetas, algumas vezes em forma humana, talvez de tamanho de um homem (I Sm 19:13,16), embora aqui fossem suficientemente pequenas para Raquel carregá-las e se assentar sobre elas (v. 34).

    Labão, o arameu. Este termo é usado a respeito de Labão, Betuel (28:5) e Jacó (Dt 26:5). No versículo 47, Labão até falou em aramaico. “No entanto, os arameus, como tais, não têm verificação in­dependente, a não ser a partir dos últi­mos séculos do segundo milênio” (Spei­ser, p. 246). Os escritores estavam usan­do uma designação posterior para essas pessoas de época mais remota, ou os arameus estavam em cena muito antes do que geralmente se presume.

    Jacó iludiu a Labão. O hebraico diz, literalmente: “E Jacó furtava o coração de Labão” (cf. II Sm 15:6). Furtar o coração era roubar a mente, remover de outrem a consciência da realidade, enga­nar a outrem, fazê-lo parecer estúpido.

    Seguiu atrás de Jacó jornada de sete dias. A distância entre Harã e Gileade é de cerca de quinhentos e sessenta qui­lômetros. Não é provável que Jacó pudes­se ter chegado tão longe em dez dias, visto que os rebanhos avançavam tão vagarosamente. A palavra “sete” pode ser figurativa. Ela é frequentemente usa­da para designar um período completo de tempo.

    Guarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem mal. Ou Labão não obedeceu à direção de Deus e, assim mesmo, re­preendeu Jacó, o que não é provável, ou “nem bem nem mal” tinha um significa­do diferente do que se possa supor. A proibição de Deus significava que Labão não devia acusar Jacó de nenhuma ação má, quer fosse verdade quer não. Ele não devia dizer-lhe para voltar para casa nem devia eximir-se de vê-lo. No encontro, ele teve todo o cuidado de não acusar Jacó de pecado. Ele simplesmente pediu-lhe para responder a uma série de interrogações a respeito de delitos aparentes!

    A Inquirição de Labão (31:25-35)

    Jacó tinha armado a sua tenda na montanha. Era de se esperar que aqui se achasse o nome da região, talvez Mizpá (31:49), mas, com base na dupla repeti­ção dessa palavra em 31:54, Speiser con­jectura que era um lugar chamado de “Elevação”.

    Armou também Labão com os seus irmãos a sua tenda. O hebraico diz lite­ralmente: “Labão armou os seus ir­mãos”! Obviamente, se requer uma cor­reção textual aqui; ’chlw (tendas) deve ser interpretação em lugar de ’chyw (pa­rentes).

    Que me iludiste. A mesma expressão idiomática, encontrada no versículo 20, pode ser traduzida como “que me fizes­te parecer estúpido”.

    Com alegria e com cânticos. Esta é a única referência do Velho Testamento a esse costume em despedidas. Labão, in­dignado, estava fazendo os papéis in­congruentes de “pai ferido a vingador aturdido” (Kidner). Ele descreveu mi­nuciosamente o antigo costume, mas Jacó sabia que esse não seria o tipo de despedida que Labão teria preparado, se lhe tivesse contado seus planos com antecedência.

    Respondeu-lhe Jacó: Porque tive medo. Labão estivera fazendo perguntas em sucessão tão rápida que Jacó estava apenas começando a responder à sua pri­meira pergunta, a saber, porque ele o fizera parecer tão estúpido, quando La­bão lhe perguntara a respeito dos terafins. Então Jacó respondeu a respeito desse assunto. Labão chamou os terafins de seus “deuses”. Raquel não mos­trou a mesma consideração para com eles, pois sentar-se sobre eles na sua “im­pureza” era o insulto máximo (cf. Lv 15:19 e ss.).

    Com quem achares os teus deuses, po­rém, esse não viverá. Aqui o suspense aumenta. Sem o saber, Jacó estava arris­cando a vida de Raquel, a esposa que mais amava. Mais uma vez esta fonte está retratando Jacó como homem ínte­gro, que não imagina que alguém em sua família pudesse ter roubado algo de La­bão.

    Na albarda do camelo. Speiser traduz a palavra hebraica como “almofadas”, enquanto Driver faz sua versão como “liteira” ou “howdah” (palanquim). Era uma sela especial para mulheres, que podia ser usada como uma espécie de cadeira quando elas estavam nas tendas. Embora ela usualmente tivesse uma co­berta tecida, quando usada em viagem, não é provável que Raquel estivesse sen­tada em um palanquim coberto, quando estava em sua tenda, pois senão ela certa­mente seria suspeita de engano. Se a albarda tinha uma coberta, ela havia sido tirada.

    O incômodo das mulheres. Raquel de­clarou que estava em seu período mens­trual, declaração que podia ser verda­deira.

    A Resposta Irada de Jacó (31:36-42)

    Este discurso é uma obra-prima literá­ria. Pois finalmente Jacó podia defender a sua inocência de qualquer culpa, e o fez com grande eloquência. Toda a frustra­ção represada de vinte anos se abateu espumejante.

    Nesta passagem vemos a vida difícil do pastor (“o Trabalho das minhas mãos”, v. 42), bem como Labão havia maltrata­do Jacó (“a minha aflição”). Era da responsabilidade do pastor providenciar para que os rebanhos tivessem crias sem abortos e que fossem protegidos de animais selvagens e de ladrões humanos. Ele cuidara dos animais durante os opressi­vos dias quentes e as noites miseravel­mente frias, enquanto o seu sono lhe “fugia” dos olhos (v. 40). Algumas vezes o pastor tinha dificuldades para ficar acordado durante a sua vigília; Jacó, por causa do calor e do frio, não podia dor­mir quando queria!

    Labão tornara a sorte dura de Jacó ainda mais difícil, não lhe permitindo comer os cordeiros do rebanho, forçan­do-o a dar contas de todas as perdas e mudando o seu salário repetidamente (“dez vezes”).

    O versículo 42 expressa claramente que o Deus de Isaque e o Deus de Abraão eram o mesmo Deus, pois o verbo “não fora” está no singular, re­querendo um sujeito simples, e não com­posto. Obviamente, Jacó adorava o mes­mo Deus que eles adoravam, pois está se referindo a ele nesta passagem. Nomes diferentes para o mesmo Deus eram usa­dos pelos patriarcas (cf. Sl 18:2 e Ap 15:3, onde termos diferentes são usados para designar o mesmo Deus único). O significado do título Temor de Isaque é obscuro, pois ocorre apenas neste capí­tulo. Speiser o traduz como “o Terrível de Isaque” e relaciona este título com o de “Provação de Isaque”, quando Abraão estava para sacrificá-lo sobre a montanha (Gn 22). Albright sugeriu que significa “Parente”, visto que pala­vras cognatas, em outras línguas do Ori­ente Próximo, têm este significado. Na verdade, esta expressão descreve com exatidão o estilo de vida religiosa de Isaque. Enoque andou “com” Deus (em comunhão íntima), Abraão “diante” de Deus (consciente de sua presença), e Isaque, como servo obediente.

    Hoje me mandarias embora vazio. Jacó disse que Labão teria prevalecido, se Deus não interviesse. Ele deu a Deus o crédito de toda a sua prosperidade, não porque Deus reconhecesse os seus atribu­tos morais, mas porque se apiedara de Jacó em sua aflição.

    O Pacto em Mizpá (31:43-55)

    Tudo o que vês é meu. De início, o leitor é inclinado a sentir simpatia por Labão. O lucro de Jacó fora o prejuízo de Labão, inteiramente. Embora ele não pudesse mais reter a sua descendência, restava uma última responsabilidade: assegurar-se de que ela receberia um tratamento condigno da parte de um homem em quem ele não confiava. Ele insistiu que fizessem um pacto, tendo Deus como testemunha, entre ele e Jacó, garantindo às suas filhas um tratamento condigno.

    Os nomes que Labão e Jacó deram ao lugar do pacto significam a mesma coisa: “montão do testemunho”; Labão usou a língua aramaica, sua língua nativa, e Jacó, o hebraico. Finalmente Labão con­cordou em chamá-lo pelo nome que Jacó lhe dera (Galeede, daí Gileade?), pois queria que tanto Jacó quanto os seus descendentes compreendessem clara­mente o que ele significava. O aspecto mais interessante do pacto é que por ele Jacó deu garantias a Labão, enquanto Labão não garantiu nada. Era fácil fazer um acordo com Jacó. Visto que Labão realmente era o perdedor, este foi para ele um procedimento que salvou as aparências.

    O fato de terem comido depois de terem colocado as pedras (v. 46) e outra vez mais tarde (v. 54) não indica, aqui, duas fontes. Simplesmente significa que eles primeiramente fizeram um acordo amigável com uma refeição social, e de­pois o selaram, mais tarde, no mesmo dia, com uma refeição sacrificial.

    E também Mizpá. A RSV acrescenta “coluna” neste verso. O texto recebido diz: “Portanto ele o chamou de Galeede e Mizpá.” Em outras palavras, Labão deu a “ele” dois nomes. Aparentemente, Jacó e Labão. erigiram uma coluna de pedra (msbh, massebah) e amontoaram pedras ao redor dela, para proteção futura; La­bão deu ao monumento acabado o nome de Galeede e Mizpá (msph), um jogo de palavras com msbh. Ao invés de ser evi­dência de duas narrativas, a coluna e o montão foram combinados em uma só designação, Mizpá, na forma de um obe­lisco completo. O nome Galeede confir­mou o pacto entre os dois homens. Mizpá (torre de vigia) enfatizou a garantia de sua validade futura.

    A famosa “bênção de Mizpá” não foi uma expressão de boa vontade da parte de Labão, mas uma declaração que di­zia, de fato: “Possa Deus conservar você honesto enquanto eu não estou lá para vê-lo.” Ele estava lendo a sua própria desonestidade no comportamento de Jacó. Contudo, isto não significa que as suas palavras não podem ser usadas, hoje em dia, em sentido positivo. A expressão de Labão pode ter uma conotação bem diferente da que ele pretendia. As pala­vras expressando desconfiança em um contexto podem, em outro, ser legitima­mente usadas para pronunciar uma bênção. Temos visto que frequentemente, em Gênesis, as gerações posteriores encon­traram, nas palavras, algum significado que não era aparente a princípio, mas que estava ali para ser discernido em época diferente.

    Este montão é hoje testemunha. Quan­do Labão começou esta declaração, ela soava como se ele estivesse querendo dizer que ele e Jacó não cruzariam aquela linha jamais. Bem no fim da sentença ele acrescentou: “para mal.”

    O Deus do pai deles é expressão con­siderada, por muitos eruditos, como edi­torial (cf. Speiser, von Rad). Visto que ela não aparece na LXX, é considerada como tentativa de explicar a menção do Deus de Abraão e do Deus de Naor. A frase explicativa declara que eles são o mesmo Deus, o Deus de Tera. Esta opi­nião é baseada no fato de que julgue está no plural. Costumeiramente, quando é caracterizado o Deus de Israel, o subs­tantivo plural ’Elohim usa um verbo no singular (cf. Gn 1:1). Algumas vezes, no entanto, quando ’EIohim se refere ao Deus de Israel, é regido por um verbo no plural (cf. 1:26: “Façamos o homem”). Alega a opinião politeísta que tanto La­bão quanto Jacó invocaram o Deus indi­vidual de seus respectivos pais, para tes­temunhar o pacto. Se este fosse o sentido da passagem, por que precisaria o escri­tor mencionar especificamente que Jacó invocou o Temor de seu pai Isaque, mas omitiu o fato de que Labão invocou o seu Deus? A expressão o Deus do pai deles, quer editorial, quer não, afirma que eles serviam ao mesmo Deus. Desta forma, ela precisa ser levada a sério. Este é outro exemplo de concordância gramatical en­tre ’Elohim e o seu verbo, sem implica­ções teológicas especiais. Se a expressão é editorial, ela foi inserida porque era ne­cessária para impedir uma interpretação politeísta. Abraão jamais teria desejado conseguir esposa para Isaque na família de Naor só porque eles eram parentes. Eles adoravam o mesmo Deus.

    Labão… os abençoou. Deve-se notar que ele não abençoou Jacó. Ele não esta­va qualificado nem inclinado a fazê-lo.

    Bibliografia Clyde T. Francisco

    (mais…)

  • Lição 9: Dízimos e ofertas

    Dizimar e ofertar nada mais é que reconhecer o senhorio de Deus sobre os bens materiais sob administração do homem.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo de pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido alvo de distorções da “teologia da prosperidade”, estudaremos hoje a doutrina bíblica dos dízimos e ofertas.

    – Ao contrário do que ensinam os “teólogos da prosperidade”, dízimos e ofertas não são ingressos para uma vida regalada, nem instrumentos de barganha para com Deus.

    I – O ENSINO BÍBLICO A RESPEITO DOS BENS MATERIAIS

    – Para que possamos entender o que a Bíblia diz a respeito da conduta do ser humano frente aos bens materiais é imperioso verificarmos a própria declaração primeira da revelação de Deus ao homem. Em Gn.1:1, a Bíblia deixa claro que Deus criou os céus e a terra, o que repete em Gn.1:31-2:3. Assim, tanto no início quanto no término do relato da criação, a Palavra não deixa qualquer dúvida de que Deus é o Senhor do Universo, ou seja, o dono de tudo.

    – Assim, não deve causar espanto a declaração do salmista (Sl.24:1), segundo a qual “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam”. Com efeito, por ter criado o mundo e tudo o que nele há, Deus é o legítimo dono de todas as coisas.

    – Se isto é assim, o homem é apenas um administrador da criação. Com efeito, ao criar o homem e a mulher, Deus concedeu a eles o domínio sobre toda a criação (Gn.1:26,28), domínio este que não representa senhorio, mas uma autoridade, uma autorização para administrar a criação terrena (observemos que no mandato dado ao ser humano por Deus não se incluem as criações celestiais. É por isso que o salmista afirma que o homem foi feito pouco menor do que os anjos – Sl.8:5).

    – Partindo deste pressuposto, não pode o homem achar-se dono de coisa alguma sobre esta terra e deveria comportar-se desta maneira, ou seja, plenamente consciente de que é apenas um administrador daquilo que Deus lhe deu. É exatamente esta a consciência do cristão, a de que é apenas um mordomo, um despenseiro de Deus ( I Co.4:1,2; Tt.1:7; I Pe.4:10).

    – Assim, se temos a capacidade, dada por Deus, de sujeitarmos à nossa vontade os bens existentes na natureza (e bem, aqui, é tudo o que pode suprir as nossas necessidades e nos trazer alguma utilidade) e isto é o princípio da propriedade (por isso o jurista alemão Windscheid conceituava propriedade como a sujeição absoluta de algo à vontade de uma pessoa), ao mesmo tempo devemos observar que a propriedade não é um fim em si mesma, mas tem a função de, por meio desta sujeição, tornarmo-nos um instrumento da vontade divina.

    – É, por isso, que a propriedade deve ser considerada como um direito natural, um direito inerente à pessoa humana, devendo ser respeitada e garantida, não tendo cabimento nem qualquer respaldo bíblico qualquer iniciativa que tenda a suprimi-la dos indivíduos, mesmo se o fizer em nome de uma suposta igualdade social (como o fizeram os comunistas marxista-leninistas no século XX), por ser algo contrário à ordem estabelecida por Deus ao gênero humano, mas, ao mesmo tempo, não se pode conceber uma propriedade que não tenha por objetivo a realização da vontade divina na humanidade. Assim, tão contrário à Bíblia como a supressão da propriedade privada é a sua exacerbação, a busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas e de posses em detrimento do próximo e da sociedade.

    OBS: “…O capitalismo, como princípio básico, sem os seus abusos, concorda com os ideais do cristianismo. O conceito de propriedade privada era uma das vigas mestras do judaísmo. Cada família contava com a sua propriedade particular, protegidas pelas leis da herança. O ideal era e continua sendo que cada homem tenha a sua própria vinha e a sua própria figueira ( I Rs.4:25; Mq.4:4). Porém, é deveras instrutivo ver como a legislação mosaica também defendia os direitos dos pobres. De acordo com o cristianismo, o conceito de propriedade privada não somente é exposto como normal, mas, igualmente, como meio de proteger o indivíduo de medidas ditatoriais do Estado (…)O Novo Testamento, naturalmente, combate os típicos abusos do capitalismo, como a desconsideração pelos direitos do indivíduo e a escravização dos mais pobres pelos ricos, mediante medidas econômicas.(…)Adam Smith, que tinha um ponto de vista otimista da natureza humana, supunha que, – finalmente, surgiria do mercado livre uma espécie de harmonia automática, visto que o homem seria essencialmente bom em sua natureza, a qual controlaria os seus interesses pessoais. Mas o cristianismo ensina que isso só começa a ser curado com a conversão espiritual. Esse preceito, pois, volta-se tanto contra os abusos do capitalismo como contra o ateísmo do comunismo, sistema este que supõe que o mundo é governado por princípios econômicos, e não por princípios espirituais.” (CHAMPLIN, R.N. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, p.646).

    – Assim, ao mesmo tempo em que a Palavra de Deus garante a cada ser humano a possibilidade de sujeitar bens de acordo com a sua vontade e de deles usufruir para a satisfação de suas necessidades, também estabelece que o objetivo do homem e da mulher não deve ser o acúmulo de riquezas para si ou a sua exaltação por causa dos bens que tenha a seu dispor, mas que tudo isto seja um instrumento para que a glória de Deus se manifeste na administração destes bens que lhe forem confiados por Deus, o único e verdadeiro dono de todas as coisas.

    – Entretanto, o homem sem Deus e, consequentemente, sem uma dimensão da eternidade, tem sua vista obscurecida pelas coisas temporais e passageiras e, portanto, acaba se deixando dominar pela avareza, pelo desejo de acumulação de riquezas, que é uma insensatez total, como deixou bem claro Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21), “porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”(Lc.12:15).

    – Lamentavelmente, não são poucos os que acabam se perdendo na caminhada para o céu por causa dos bens materiais e por causa do dinheiro. A Bíblia revela que a ganância pelas coisas, que a avareza tem sido um obstáculo para muitos alcançarem a salvação, como nos casos do mancebo de qualidade (Mt.19:22; Lc.18:23), de Judas Iscariotes (Lc.22:3-6; Jo.12:4-6), de Ananias e Safira (At.5:1-5,8-10),  de Simão (At.8:18-23) e de muitos outros, como afirmou Paulo em sua carta a Timóteo (I Tm.6:9,10).

    – O dinheiro não é um mal em si.  A riqueza é uma bênção de Deus, tanto que Deus a concedeu a Salomão (I Rs.3:13), mas, e aqui está um caso típico, não podemos pôr nas riquezas o nosso coração (Mt.6:19-21). Devemos, sempre, buscar servir a Deus e Lhe agradar. Esta deve ser a intenção do cristão. Se Deus nos conceder a riqueza, que nós a usemos para agradar a Deus. Se nos der a pobreza, que nós a usemos para agradar a Deus.

    O importante é que não façamos dos bens materiais o objetivo e a intenção de nossas vidas. Quem passa a viver em função dos bens materiais, quem passa a pôr o seu coração nos tesouros desta vida, passa a ser um avarento, um ganancioso e, como tal, será um idólatra (Cl.3:5) e, assim, está fora do reino dos céus (Ap.22:15).

    – Neste ponto, devemos, pois, contrariar ensinamentos a respeito da “opção pelos pobres”, que tem sido o mote da teologia católico-romana, principalmente após o Concílio Vaticano II, com especial ressonância na Igreja Romana da América Latina. Em momento algum, na Bíblia Sagrada, Deus manifesta Sua opção em favor dos pobres, em detrimento aos ricos. A Bíblia, aliás, expressamente, afirma que Deus fez tanto o pobre quanto o rico (Pv.22:2) e seria injusto caso preferisse um ao outro, se ambos são obra de Suas mãos.

    – Buscam os idealizadores desta “opção pelos pobres” fundamentação na passagem do mancebo de qualidade em que Jesus afirma que dificilmente um rico entrará no reino dos céus (Mt.19:212-26). Tal afirmação de Jesus é uma constatação, porquanto a existência de riquezas, diante da natureza pecaminosa do homem, faz com que o ser humano seja mais facilmente enganado pela sensação de autossuficiência, que conduz à perdição eterna, mas, em momento algum, revela que Deus tenha feito uma opção pelos pobres em detrimento dos ricos. Tanto assim é que a Bíblia está repleta de homens que gozavam de confortável situação financeira e que serviam a Deus, como são exemplos, para ficar só no ministério de Jesus, José de Arimateia, Nicodemos e as mulheres que acompanhavam o Mestre e que, diz a Bíblia, serviam-nos com suas fazendas, ou seja, com seus recursos financeiros.

    – A Bíblia nos mostra que a aquisição de bens materiais é uma necessidade para o homem depois da sua queda, pois deverá, do seu trabalho, obter o seu sustento (Gn.3:19). Deste modo, a obtenção dos meios necessários para a nossa sobrevivência deve vir do trabalho. É por isso que Paulo, numa afirmação dura, mas que é a verdade nua e crua, disse que “se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (II Ts.3:10), máxima que foi, inclusive, incorporada em várias Constituições de países comunistas no século XX, mas que traduz um princípio bíblico.

    – Portanto, a primeira fonte de aquisição de bens materiais deve ser o trabalho, devendo, pois, o cristão valorizar o trabalho e buscá-lo como forma de sustento seu e de sua família. É, aliás, este traço da ética cristã que foi objeto de estudo do sociólogo alemão Max Weber, que, em seu livro, “A Ética Protestante e o Capitalismo”, que foi considerado um dos principais livros do século XX (foi considerado a maior obra de ciências humanas daquele século), entendeu que, graças a este valor dado pelos cristãos ao trabalho, em virtude do que diz a seu respeito a Bíblia Sagrada, que foi possível o surgimento dos países desenvolvidos da Europa Ocidental (Inglaterra, França, Holanda e Alemanha, fundamentalmente) e, posteriormente, a grandeza dos Estados Unidos da América.

    – Assim, o cristão deve, sempre, dignificar o trabalho, valorizá-lo e, através dele, obter o seu sustento, levantando-se contra toda estrutura sócio-econômica que venha a desprestigiar o trabalho. Neste passo, é dever de todo cristão incentivar e estimular o aumento da oferta de emprego, bem como resistir a toda prática que vise a supressão de postos de trabalho sem a devida compensação. As políticas compensatórias, ademais, não devem ser de cunho meramente assistencialista, mas devem sempre ser tais que incentivem e estimulem a busca de novos empregos, ainda que se tenha de preparar convenientemente o desempregado.

    – Neste ponto, aliás, como a busca pelos bens materiais deve ser com vistas à satisfação de Deus e não a uma incessante corrida pelo prazer, pelo luxo e pela autossuficiência, temos que há uma clara distinção entre a ética cristã e a ética do capitalismo. O capitalismo é um sistema econômico em que se busca, sempre, o máximo lucro com o menor custo, com o aumento incessante da produção e do consumo. Dentro da lógica do capitalismo, é preciso sempre produzir cada vez mais, com o maior lucro e com a redução crescente dos custos. A ética cristã, entretanto, é bem diversa: não há que se buscar o máximo lucro, mas, bem ao contrário, deve-se buscar o suficiente para se ter uma vida digna, uma vida sossegada, mas sem a “febre do ouro” que tem dominado o mundo de hoje. Diz o sábio Salomão que devemos, sempre, buscar a “porção acostumada de cada dia” (Pv.30:8,9) e ninguém melhor do que Salomão para nos afirmar que a posse de riquezas em demasia não representa bem algum para a alma humana…

    – Não se está aqui afirmando que o cristão não deve procurar uma melhoria de vida, um melhor emprego, capacitar-se para obter melhores posições, ou seja, em absoluto se nega ao servo de Deus a busca de melhores oportunidades, um progresso maior, até porque o filho de Deus não é cauda, mas cabeça (Dt.28:13), mas se está afirmando, isto sim, que não devemos colocar como alvos únicos e exclusivos de nossas vidas uma prosperidade material, como objetivo as benesses desta vida (Pv.27:24). Nunca nos esqueçamos que, se cremos em Cristo só para esta vida, seremos os mais miseráveis de todos os homens! (I Co.15:19).

    – Quando o homem tenta progredir na vida material tendo consciência de que existe uma dimensão eterna, de que é mero administrador do que Deus lhe confiou, ele jamais se comporta de forma nociva ao seu semelhante, jamais busca usar de todos os métodos, lícitos ou não, visando à acumulação de riquezas, pois tem pleno conhecimento de que nu saiu do ventre de sua mãe e de que nu terminará a sua existência (Jó 1:21; I Tm.6:7). Como dizem as Escrituras, aqueles que se envolvem na ilusão das riquezas, trazem para si somente males e problemas, já nesta vida, que dirá quando se encontrar com o reto e supremo Juiz de toda a terra (Pv.28:22; I Tm.6:9; Hb.9:27).

    – Dentro desta perspectiva, o cristão deve, consciente de que o que tem amealhado de bens materiais, é para ser um instrumento de satisfação da vontade divina, administrar o seu patrimônio de forma a obter este agrado de Deus, fazendo-o conforme a Sua Palavra.

    – Em virtude deste ensino bíblico a respeito dos bens materiais, vemos claramente que os propagadores do evangelho da prosperidade esquecem-se de dizer aos seus ouvintes  que, em vindo a prosperidade material solicitada, o “novo rico” não será um senhor de riquezas, não será sequer o proprietário de todos os bens que o Senhor lhe conceder.

    – A mensagem do evangelho da prosperidade faz questão de alardear que Deus tem obrigação de nos dar bens e uma vida regalada, pois ” é o dono de toda prata e de todo o ouro” e que nós somos ” filhos do rei”, o que, em parte, é uma realidade e uma verdade constante das Escrituras, mas não dizem que, quando ganharmos toda esta prosperidade, o Senhor continua sendo Senhor, continua sendo o ” dono de todo o ouro e de toda a prata”, assim como, também, continua sendo o ” Rei dos reis” e ” Senhor dos senhores”, ou seja, ao contrário do que querem fazer crer os evangelistas da prosperidade, ser rico, ser próspero materialmente não é um privilégio ou um direito do cristão, mas, muito mais do que isto, é uma obrigação a mais que o servo do Senhor assume diante do seu Deus. Quem tem riquezas, passa a ser mordomo destas mesmas riquezas diante do Senhor e, como tal, assume muitas outras obrigações que, se pobre fosse, não teria diante de Deus.

    OBS: A partir desta ideia é que se desenvolveu o conceito da ” função social da propriedade”, concebida a partir da doutrina social católica e que encontrou sua expressão jurídica nos ensinos do jurista francês Léon Duguit e que se encontra, hoje, em todas as constituições e legislações dos países, inclusive na Constituição da República Federativa do Brasil. Em nosso país, a propriedade só é considerada direito se atender à sua função social, ou seja, se cumprir com os objetivos maiores a respeito da circulação de bens e de riquezas em nossa sociedade.

    – Já os judeus, na sua compreensão ainda parcial da revelação divina, tinham obtido esta concepção. Diz o enciclopedista judeu Nathan Ausubel que os judeus acreditavam que “…se a pobreza existia, era principalmente a sociedade que deveria ser responsabilizada, uma vez que permitia a opressão dos pobres e fracos. Esta situação era tida como uma violação da lei natural, e a prática difundida da benevolência servia, meramente, como forma de expiação e aprimoramento. Quando o salmista cantava: ‘ A terra é do Senhor e tudo o que nela se encontra’, o princípio daquele direito estava claramente indicado. O mesmo princípio adquiriu força de lei no texto das Escrituras: ‘ Minha é a prata e meu é o ouro, disse o Senhor das Hostes’.

    E., obviamente, uma vez que Deus havia dado a terra com ‘ todas as suas riquezas’ – a prata e o ouro – somente aos ricos e poderosos, os Sábios deduziam daí que Deus tinha uma dívida material para com os pobres que tinham sido deixados de mãos vazias. Por consequência, fazer com que essa dívida fosse paga aos pobres pelos ricos constituía um ato de ‘ justiça’ e, portanto, de ‘ virtude’ [ daí porque da palavra hebraica para caridade, a saber, ‘ tzedakah’, que tem este duplo significado de justiça e de virtude – observação nossa]. Além disso, acreditavam que quando Deus havia dado a riqueza aos abastados, não as havia entregue em caráter definitivo, nem como recompensa por suas ações ou por qualquer mérito especial.

    Era somente para que a retivessem em custódia para os pobres! Os ricos seriam, assim, meros agentes fiscais de Deus, por assim dizer, em favor dos pobres! Estender a tzedakah aos pobres ‘ com todo o coração’ tinha, portanto, a significação intrínseca de um ato de ‘ virtude’. Daí ter-se desenvolvido o axioma que, se os ricos fossem realmente honestos e tementes a Deus, distribuiriam prazerosamente a riqueza que retinham em custódia de Deus, entre os inúmeros credores de Deus – os pobres, os doentes, os desamparados, os necessitados etc.…” (Caridade. In: JUDAICA, v.5, p.114).

    – Como se pode verificar, portanto, a prosperidade material traz ao homem uma nova obrigação, qual seja, a de repartir com o próximo esta sua prosperidade, de maneira a que haja uma melhor distribuição de renda e sejam amenizadas as necessidades do outro. A prosperidade que tem sido pregada por aí é para que alguém viva de forma regalada e despreocupada, desfrutando de um “paraíso terrestre”, algo que apenas revela o grau de egoísmo e de amor do dinheiro destes pretensos ” filhos de Deus conscientes de seus direitos”.  Na verdade, como ensinou o grande reformador João Calvino, “…não há um caminho mais direto (à gratidão)  do que o de tirarmos nossos olhos da vida presente e meditar na imortalidade do céu. Disto se deriva(…) que devemos aprender a suportar a pobreza quieta e pacientemente, e desfrutar a abundância com moderação. Aquele que nos ordena a que usemos este mundo como se não o usássemos, não somente nos proíbe toda falta de moderação em comer e beber, nos prazeres indecorosos e excessivos, na ambição, no orgulho e na fastuosidade em nosso lar, como também em cada cuidado e afeto que faça diminuir nosso nível espiritual ou que ameace destruir nossa devoção.…” (A verdadeira vida cristã, p.73).

    – Nada é mais contrário ao cumprimento da mordomia da prosperidade do que o cristão abençoado pelo Senhor passar a ostentar sua riqueza e a viver regaladamente, esquecido dos mais necessitados e da moderação, que deve acompanhar, como qualidade, o verdadeiro e sincero servo do Senhor. Assim, a prosperidade, antes de ser um privilégio para o cristão, é antes uma nova obrigação, pois a posse de riquezas torna o seu detentor como responsável direto para a melhoria das condições de vida dos menos afortunados. Na história do rico e Lázaro, vemos como o Senhor prestou muita atenção à forma como o rico tratou o pobre mendigo Lázaro durante a sua existência! (Lc.16:19-21,25).

    – Se quisermos ser prósperos materialmente, podemos pedi-lo a Deus que, segundo a Sua vontade (pois não tem qualquer obrigação de enriquecer materialmente quem quer que seja), poderá nos conceder esta bênção, mas, lembremo-nos de que, uma vez tornados ricos, assumiremos a mordomia da prosperidade e deveremos responder diante de Deus pelo uso que fizermos das riquezas que angariarmos.

    II – O SIGNIFICADO DO DÍZIMO NA BÍBLIA

    – Dízimo é palavra portuguesa que traduz palavras hebraicas e gregas das Escrituras cujo significado é o de “décima parte”, “um décimo”.  Dízimo, portanto, segundo a origem da palavra, quer dizer a décima parte, um décimo de algo. Assim, se dividirmos uma laranja em dez partes, cada uma delas será um dízimo da laranja.

    – O dízimo é um ato pelo qual alguém entrega a melhor porção de seu patrimônio para Deus, a fim de ser destinado ao sustento daqueles que estão envolvidos no trabalho do Senhor, como reconhecimento de que Deus é o Senhor de todas as coisas, em agradecimento por Deus ter provido o sustento daquele que está a dizimar, bem como um ato de fidelidade e testemunho do compromisso que existe no relacionamento entre Deus e aquele que está a fazer a oferta.

    – O dízimo, portanto, apresenta-se como um ato pelo qual o homem reconhece que não é dono de coisa alguma que amealhou com o seu trabalho. É por isso que o dízimo é uma demonstração material, um ato efetivo e concreto de mordomia, pois, embora tenha angariado os recursos que chegam à sua mão com seu suor, o homem, ao entregar a décima parte na obra de Deus, diz, com este gesto, que está a reconhecer que do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Sl.24:1).

    – O dízimo, também, é um ato de gratidão a Deus, de agradecimento pela concessão dos meios pelos quais se podem amealhar os recursos financeiros necessários à nossa sobrevivência. Quando dizimamos, estamos agradecendo a Deus, porque Lhe devolvemos a décima parte do que Ele nos deu, para que a Sua obra, que, como uma atividade feita entre os homens, depende de recursos financeiros para a sua manutenção, possa ser realizada. Deus tem escolhido homens e mulheres para que se dediquem ao reino de Deus, para que se envolvam com as tarefas destinadas à salvação e aperfeiçoamento espiritual das vidas e, por causa deste envolvimento, tais pessoas não têm condições de obter, para si, um sustento, de efetuar um trabalho material que lhes possa proporcionar o pão de cada dia. Quando dizimamos, estamos permitindo que estas pessoas possam continuar atendendo ao chamado do Senhor e supram as suas necessidades. Demonstramos estar agradecidos a Deus quando mantemos o sustento daqueles que por Ele foram chamados para dedicação integral à obra do Senhor.

    – O dízimo também é um ato de fidelidade e de compromisso com Deus, pois, à medida que separamos parte do nosso patrimônio para o sustento da obra do Senhor, com certeza estamos demonstrando que não somos indiferentes à obra de Deus, damos uma prova concreta de que estamos comprometidos e envolvidos com os planos e propósitos de Deus para a humanidade. A fé sem obras é morta (Tg.2:17) e, quando dizimamos, estamos praticando uma atitude que mostra que temos uma verdadeira fé, revelamos que amamos a Deus. Não somos indiferentes, como eram os homens dos dias do profeta Malaquias.

    – O dízimo, também, é uma demonstração de honestidade, um indicador de moralidade. Com efeito, ao dizimarmos, reconhecemos, como dissemos, a soberania de Deus sobre todas as coisas, bem assim a propriedade divina sobre os bens materiais. Quando dizimamos, estamos devolvendo a Deus o que Lhe pertence, não retendo aquilo que não é nosso, mas é devido ao Senhor.

    – Visto o que o dízimo é, devemos, agora, observar o que o dízimo não é. O dízimo não é um investimento, como muitos têm pregado por aí. Verdade é que Deus tem prometido bênção de abastança para os dizimistas (Ml.3:10), mas isto não quer dizer que devemos dizimar visando obter maiores lucros, como se o dízimo fosse uma aplicação financeira ou um investimento de grande retorno.

    – Os teólogos da prosperidade têm, muitas vezes, dito que o dízimo ou “o sacrifício” (nome como muitos têm denominado a contribuição bem superior à décima parte, envolvendo, não poucas vezes, todo o patrimônio de alguém, ” o seu tudo” , como dizem) é o caminho mais rápido e eficaz para a riqueza e para a ampla prosperidade material. Não devemos dizimar para nos tornarmos mais ricos, mais prósperos, mas devemos dizimar em gratidão a Deus, em reconhecimento à sua soberania. Dízimo não é investimento, nem um modo santo de se canalizar a ganância, algo que é próprio dos mais miseráveis de todos os homens (I Co.15:19).

    – A bênção da abastança não é o acúmulo de riquezas, mas, sim, a suficiência, a vida digna e razoável sobre a face da Terra, o necessário para a sobrevivência, a “porção acostumada de Agur” (Pv.30:8), algo que o apóstolo Paulo reiterará ao falar da fidelidade nas contribuições, em II Co.8:14,15. Por isso, aliás, o mesmo profeta Malaquias fala da repreensão do devorador (Ml.3:11), ou seja, de todo fator que venha a trazer carência e necessidade aquém do mínimo necessário, como vem, por exemplo, nos dias de Joel (Jl.1).

    – Dízimo não é uma fonte de obrigações para Deus. Muitos acham que, dizimando, criam para Deus obrigações. Assim, entregam seus dízimos porque, assim, Deus estaria obrigado a lhes dar bênçãos de prosperidade material, de saúde ou, até mesmo, de salvação. Pensam que o dízimo vincula Deus a seus caprichos, desejos e aspirações. Pensam até que o dízimo é o caminho para sua salvação. Para estes que assim pensam, podemos fazer uma pequena ilustração. Digamos que sejamos donos de dez bolas e que as confiemos a uma criança nossa conhecida, mandando que ela tome conta delas para nós. Pouco tempo depois, a criança vem e nos entrega uma das dez bolas, e nós a recebemos. Por um acaso, surgiu, aqui, alguma obrigação de nossa parte em relação à criança por causa da nossa bola que ela nos devolveu?  Logicamente que não! Assim ocorre com Deus. Deus recebe de volta algo que Lhe pertence. Estaria Ele, então, obrigado a nos fazer algo que queiramos por causa desta devolução? Deus prometeu dar aos dizimistas a bênção da maior abastança e, com relação a isto, há um dever divino, não em relação a nós ou por causa da nossa vontade, mas em virtude de Seu próprio caráter moral. Maior abastança não significa outra coisa senão ter além do necessário, além do suprimento das necessidades. Vimos, aliás, que, quando isto ocorre, passamos a ter uma obrigação a mais da parte de Deus, qual seja, a de socorrer os necessitados. Assim, ter tantas bênçãos que não tenhamos onde guardá-las (como diz tanto o texto da NVI de Ml.3:8 quanto a própria tradução inglesa do rei Tiago), não é viver regaladamente e no luxo, como propalam os teólogos da prosperidade, mas assumir o encargo de auxiliar os menos afortunados.

    – Dízimo, também, não é meio de salvação. Todo salvo é dizimista, mas nem todo dizimista é salvo. Querer dizer que, com a entrega do dízimo, estaremos dando passo importante para a nossa salvação é o mesmo que dizer que, pelas obras, nós seremos salvos, é ressuscitar o odioso conceito da doutrina das indulgências que fez com que Deus levantasse homens como Martinho Lutero para recuperar a santidade e a biblicidade na Sua Igreja. O dizimista é alguém que compreende que o Senhor é o dono de todas as coisas, mas não é, por isso, alguém que deixe Deus governar a sua própria vida.

    – O próprio Jesus mostrou que não se pode fazer qualquer oferta a Deus sem que, antes, não se esteja em santidade (Mt.5:23,24). Esta é a maior demonstração de que nada podemos oferecer ao Senhor se não estivermos em comunhão com o Senhor, amando a Deus, cumprindo Seus mandamentos (Jo.14:23; 15:14) e, simultaneamente, amando ao próximo (I Jo.4:20,21).

    – Dízimo não é um meio de enriquecimento de inescrupulosos e mercenários da fé. Muitos têm se aproveitado da doutrina do dízimo para amealharem riquezas e fazer do evangelho um negócio rentável e cada vez mais crescente. Esta possibilidade não passou despercebida do Senhor que, em Sua Palavra, já nos primórdios da fé cristã, já advertia os crentes que muitos seriam feitos negócio com palavras fingidas de pessoas inescrupulosas (II Pe.2:3). Antes mesmo de nossa dispensação, o profeta Ezequiel já indicara a existência de pastores infiéis, que têm como objetivo tão somente explorar as ovelhas (Ez.34:4). Todavia, não é por causa destes que devemos de deixar o nosso compromisso diante de Deus. Façamos a nossa parte, que é entregar os dízimos na casa do tesouro (Ml.3:10), ou seja, na nossa igreja local. Este dízimo é santo (Lv.27:32) e pertence a Deus, Que, certamente, tratará com aqueles que o tiverem a incumbência de administrá-lo, pois, além de perderem sua condição de pastores (Ez.34:9,10), melhor lhes fora, diz Jesus, que lhes pusessem ao pescoço uma mó de atafona e fosse lançado ao mar (Lc.17:1).

    – O dízimo, pelo que verificamos, na Bíblia Sagrada, é muito mais do que uma despesa ou um tributo de dez por cento do que ganhamos, é muito mais do que uma simples cláusula contábil. Deus não precisa do nosso dinheiro para sustentar a Sua obra, pois é o dono de todo ouro e de toda a prata (Ag.2:8), mas é através do dízimo que revelamos aquilo que está dentro de nosso homem interior, o conceito que temos de Deus e de nós mesmos, se nos consideramos mordomos do Senhor ou “donos dos nossos próprios narizes”.

    III – O DÍZIMO E A OFERTA NA BÍBLIA

    – Pelo que podemos deduzir das Escrituras Sagradas, desde os primórdios da civilização, ainda na primeira geração de homens após a queda do Éden, havia o costume de se cultuar a Deus com a apresentação de produtos do trabalho humano, como demonstração de gratidão e de reconhecimento da soberania de Deus sobre todas as coisas. Assim, vemos Caim e Abel, os dois filhos mais velhos do primeiro casal, apresentando ofertas ao Senhor, num gesto que se infere fosse costumeiro e resultado do ensino dos pais a estes filhos. Entendemos, desta forma, que o primeiro casal tinha plena consciência de que Deus era o dono de todas as coisas e que o resultado do trabalho humano, que Deus dissera que seria penoso, era fruto da misericórdia divina que, apesar do pecado, não tinha deixado de amparar o homem.

    – De pronto, pois, observamos que a oferta era apenas uma demonstração material de reconhecimento da soberania divina. Não se procurava agradar a Deus com bens, pois Deus, sendo o dono de todas as coisas, não precisava de qualquer bem que lhe seja trazido pelo homem, até porque o bem que, eventualmente, for trazido não é do homem, mas já é do Senhor (I Cr.29:11-14; Sl.24:1). Deus Se agrada do gesto de gratidão e reconhecimento, do que está no coração do homem, não do que está sendo apresentado em termos materiais. Tanto assim é que, ao indagar Caim sobre sua oferta, Deus diz que ele deveria ter feito bem, ou seja, não como um mero formalismo, não como um mero ritual, mas como algo espontâneo e que proviesse do fundo da alma, pois, somente neste caso é que haverá aceitação por parte do Senhor (Gn.4:7). No Novo Testamento, este Deus que não muda nem n’Ele há sombra de variação (Tg.1:17), torna a nos ensinar que Ele ama àquele que dá com alegria (II Co.9:7).

    – Este gesto de reconhecimento da soberania divina através da entrega de uma parcela do produto auferido pelo trabalho, portanto, vem desde o início da história da humanidade e é encontrado, mais tarde, entre os povos do Oriente Próximo. Abraão, diz-nos a Bíblia, deu o dízimo de tudo a Melquisedeque, por reconhecer nele um sacerdote de Deus (Gn.14:20). Isto nos mostra, claramente, que o dízimo era um costume comum aos povos daquela época, pois, não só Abraão deu o dízimo a Melquisedeque, como este o recebeu, o que prova que se tratava de algo público e notório naquela época. Aliás, este costume é relatado pelo historiador grego Heródoto, conhecido como o “pai da História”, em sua obra “História”, em mais de uma passagem, com relação a diferentes povos.

    – Pelo que se pode observar, portanto, o gesto de se dar parte do produto auferido pelo trabalho para a obra de Deus é algo que acompanha a própria história humana, tendo sido fixado o percentual de dez por cento como patamar mínimo de tal contribuição, daí porque ter sido tal parcela sido denominada de “dízimo”.

    – O dízimo, observado que era por Abraão (o que, certamente, mostra que se tratava de prática já existente entre os caldeus que, por sua vez, eram os sucessores diretos da comunidade humana única pós-diluviana), passou a seus descendentes, de modo que vemos, logo em seguida, notícia de que Jacó também conhecia esta prática, tanto que a prometeu (Gn.28:22).

    – Este pequeno relato histórico faz-se necessário porque há muitos que, hodiernamente, afirmam que o dízimo é um dispositivo previsto na lei de Moisés e que, portanto, não é algo que deva ser observado pela Igreja, que vive a dispensação da graça. Criticam as denominações evangélicas que adotam o dízimo, chegando, mesmo, a chamá-los de “judaizantes”, quando não de mercenários. No entanto, pelo que podemos verificar, não só pelas próprias Escrituras, como também na própria história da humanidade, o dízimo é uma instituição que já existia bem antes da lei de Moisés e que não está circunscrita ao povo judeu, o que faz cair por terra todas estas argumentações que são trazidas, às vezes, por pessoas bem-intencionadas, que querem impedir qualquer conotação materialista ao evangelho, mas que, no mais das vezes, apenas se afiguram como justificativas de pessoas que, tal qual nos dias de Malaquias, querem dar vestes teológicas à sua falta de amor a Deus

    – Quando Moisés incluiu o dízimo na lei, por determinação divina, nada mais fez senão incorporar no código legal organizado uma prática que já era costumeira e adotada não só pelos israelitas, como por todos os povos então existentes. Como o dízimo, e isto nos mostram tanto Abraão quanto Jacó, tinha como finalidade a manutenção da obra de Deus, era preciso reconhecer a sua prática e destiná-la para o sustento da tribo de Levi e, dentre os seus membros, aos sacerdotes, já que estes não poderiam se dedicar senão ao serviço do Senhor.

    – A primeira referência que a lei de Moisés faz aos dízimos encontra-se, precisamente, no livro de Levítico, onde estão as normas a respeito dos sacerdotes. O dízimo é tratado no final do livro, a partir do versículo 30 do capítulo 27. Isto é importante porque mostra que, embora Deus não tenha deixado de prever o sustento dos sacerdotes, que estavam envolvidos no culto a Deus, não deveriam pôr o sustento material como prioridade em suas vidas. Deus não deixa de cuidar do assunto, de providenciar os meios, antes de encerrar o código de normas e condutas do sacerdote, mas não coloca isto como algo que deva estar em primeiro lugar. Primeiro deveria vir o dever dos sacerdotes, seu serviço diante de Deus. Depois, o cuidado com o seu sustento.

    – Lamentavelmente, muitos ministros têm cedido ao espírito materialista que impera nos nossos dias, buscando, antes de tudo, ocupar-se de como se sustentar, de como angariar meios para a sua sobrevivência, para só depois se ocupar do seu trabalho diante de Deus. O obreiro é digno do seu salário, mas devemos cuidar das coisas na mesma forma como Deus a estabelece em Sua Palavra.

    – Segundo a norma dada no livro de Levítico, o dízimo de tudo deveria ser separado ao Senhor, pois lhe era santo. A destinação do dízimo, entretanto, encontra-se no livro de Números (Nm.18:20-32). O destino do dízimo deveria ser a tribo de Levi, pois a sua herança no meio do povo de Israel seriam, precisamente, os dízimos das demais tribos (Nm.18:21). Mas, ao mesmo tempo em que os levitas eram os beneficiários dos dízimos, também deveriam dizimar (Nm.18:26), pois também eles eram mordomos e tinham de reconhecer a soberania divina. Os dízimos dos dízimos eram destinados ao sumo sacerdote (Nm.18:28).

    – Os dízimos eram, como se pode observar, destinados ao sustento dos levitas e dos sacerdotes. Esta é a destinação do dízimo segundo as Escrituras. Abraão já o havia dado para um sacerdote e, agora, Moisés determina que os dízimos tenham como finalidade o sustento da tribo separada para o serviço do Senhor, ou seja, a destinação dada pela lei mosaica não é uma inovação instituída por Moisés, não se trata de criação do legislador, nem de uma ordem divina circunscrita à dispensação da lei, mas, antes, é uma característica inerente à própria instituição do dízimo. Assim como dízimo é a décima parte, assim é destinado para o sustento daqueles que, por estarem envolvidos com as coisas de Deus, não têm condições para exercer um trabalho mediante o qual obtenham o próprio sustento.

    – Em Dt.12:5-12, quando Moisés está a repetir a lei à geração que adentraria na Terra Prometida, torna a dizer que o local apropriado para a entrega dos dízimos era a casa do Senhor, reforçando, portanto, a finalidade de tal instituição.

    – Mas, além de o dízimo ser determinado quanto à quantidade e quanto à finalidade, também era determinado quanto à qualidade. Dizia a lei de Moisés que se deveria oferecer “o melhor” (Nm.18:32), ” do melhor deles, a sua santa parte” (Nm.18:29). Bem ao contrário do que acontecia nos dias do profeta Malaquias, a lei prescrevia que somente poderemos demonstrar reconhecimento da soberania de Deus se a porção que separarmos para a obra do Senhor for a melhor, a de primeira qualidade. Não é outro o sentido, aliás, quando se diz que as “primícias da terra” devem ser levadas à presença do Senhor, “primícias” (Nm.18:12), aqui querendo dizer não só os primeiros frutos na ordem de aparecimento, como também na ordem da qualidade (Pv.3:9).

    – Em o Novo Testamento, Jesus sancionou a prática do dízimo. Na sua duríssima crítica aos fariseus, um dos poucos pontos que Jesus aprovou em sua conduta foi, exatamente, o de serem rigorosos no dízimo. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt.23:23).

    – Como se percebe nas declarações de Jesus, o fato de os fariseus dizimarem até mesmo o que era utilizado no tempero de suas comidas, é considerado algo louvável, algo que não deveria ser omitido, que não deveria ser desprezado. Jesus disse que os fariseus deveriam ser tão preocupados com o juízo, a misericórdia e a fé como eram com o dízimo destas mínimas coisas, mas, em momento algum, disse que o dízimo deveria ser omitido, mas, bem ao contrário, afirmou que o dízimo não poderia estar ausente na conduta de um verdadeiro servo de Deus.

    – Assim, não tem qualquer respaldo bíblico o ensinamento que muitos propalam de que o dízimo não pertence à dispensação da Igreja, que não se encontra entre as condutas que devam ser observadas pelos salvos. Jesus disse que não devemos omitir o dízimo e, portanto, se não podemos omitir, devemos praticá-lo. O dízimo faz parte da conduta que Jesus espera de Seus servos.

    – Mas, dizem os adversários do dízimo, que não há qualquer passagem bíblica do Novo Testamento que mostre que os discípulos ou os cristãos, em geral, estivessem dizimando. Dizem eles que há somente registro de coletas, de ofertas alçadas, citando, à saciedade, exemplos vários extraídos não só de Atos dos Apóstolos mas das epístolas paulinas. Assim, dizem estes, o dízimo teria sido abolido por Jesus, pela graça e agora persistiriam apenas as ofertas alçadas ou coletas.

    – Tal entendimento, porém, não se sustenta. Em primeiro lugar, o dízimo,  como vimos, não poderia ter sido abolido pela graça se o próprio Jesus disse que não deveria ser omitido pelos Seus servos. Em segundo lugar, o dízimo somente poderia ser abolido pela graça se tivesse sido uma criação da lei, assim como o sábado, cuja instituição se deve aos dez mandamentos recebidos no Sinai e como sinal entre Deus e Israel. Todavia, como já observamos antes, o dízimo já era uma instituição conhecida e praticada por vários povos antes mesmo da formação da nação israelita.

    – Em terceiro lugar, um pensamento desta natureza decorre do fato de se achar que dízimos e ofertas alçadas são conceitos diversos, diferentes, opostos até. Assim, dízimo seria uma espécie de contribuição, ou seja, a obrigatória porção de um décimo do que se ganha, enquanto que oferta alçada seria uma contribuição voluntária, independente e algo além dos dez por cento. Este conceito, entretanto, não tem, também, respaldo bíblico.

    – Quando vemos a instituição do dízimo na lei de Moisés, percebemos que os dízimos eram entregues em forma de oferta alçada (Nm.18:24). Oferta alçada (que a versão NVI e outras versões bíblicas traduzem por “contribuição”) é um gênero que abrange os dízimos e outras contribuições feitas para o sustento dos sacerdotes. Aliás, os rabinos judeus identificam na lei vinte e duas formas diferentes de contribuição para o sustento dos sacerdotes e levitas, dentre as quais se encontra o dízimo. Assim, quando a Bíblia fala em ofertas alçadas na igreja, não está excluindo os dízimos, pois os dízimos são espécies de ofertas alçadas, cuja característica é a voluntariedade (Ex.25:2,3; 35:5,21,22,24,29;36:3).

    – Em quarto lugar, diz-se que o dízimo seria uma contribuição obrigatória e que, na dispensação da graça, já não vivemos mais a obrigatoriedade, não estamos debaixo do legalismo, mas tudo se faz voluntariamente e por amor. O dízimo, entretanto, como já vimos, não é uma obrigação, mas, tanto quanto as demais contribuições, uma contribuição voluntária, resultado de uma vida de amor a Deus, um ato de gratidão e de reconhecimento da soberania divina.

    – O dízimo é entregue por quem, voluntariamente e com alegria, crê em Deus e reconhece que Ele é Senhor. Não se trata de obrigação alguma, mas, antes, é um gesto de desprendimento, de compromisso para com a obra de Deus. Quem dizima, fixa em, pelo menos, dez por cento o valor com que deve contribuir para a obra de Deus, reconhecendo plenamente o senhorio de Deus sobre a sua vida. Quem não dizima, ainda que contribua, se ficar aquém do valor mínimo com que contribuíram os homens de Deus no passado, como pode dizer que está debaixo da graça de Deus, graça esta que, agora, se revelou plenamente na pessoa de Jesus Cristo? Poderia um servo de Deus na dispensação mais ampla da história da humanidade estar contribuindo menos para a obra de Deus do que os homens das antigas alianças?

    – O dízimo é o primeiro gesto de administração de bens de um cristão fiel, pois, como vimos, é algo que deve ser prioritário, tanto na quantidade quanto na qualidade. O dízimo deve corresponder a dez por cento do ganho do cristão, entendido este como o ganho bruto e não o líquido, como alguns têm defendido. Com efeito, quando declaramos nossa renda ao Governo, declaramos que recebemos aquilo que efetivamente ganhamos, que é o bruto e não o líquido. Ora, se para o Governo, dizemos que nossa renda é nosso ganho bruto, por que o cálculo do dízimo se faria sobre o líquido?

    – O dízimo deve ser entregue na igreja local da qual fazemos parte. Não se trata de dinheiro que tenha outra finalidade senão a de dar o sustento para as pessoas que estão envolvidas integralmente com a obra do Senhor. A obra do Senhor é feita por intermédio da igreja local, que é a agência do reino de Deus aqui na terra. Se somos membros de uma igreja local, ali devemos entregar nossos dízimos, pois é ali que cultuamos a Deus. A Bíblia não estabelece outro lugar senão este para entregarmos os dízimos. Entre os judeus, os dízimos deveriam ser levados a Jerusalém, para o templo, e apenas se permitia que, diante do fato de ser custoso o transporte dos bens até lá, se pudesse convertê-los em dinheiro ou levá-los a cada três anos ao templo, devendo ficar armazenados enquanto não se completasse o período.

    – Não se constitui em dízimo, portanto, a contribuição que se dê a este título para obras assistenciais, para outras igrejas locais às quais não pertencemos, para sustento de obreiros ou quaisquer outras pessoas que estejam “vivendo da obra”. Tais contribuições são ofertas, são contribuições, mas não são dízimo. Não temos o direito, como mordomo, de darmos destinação diversa aos dízimos senão a que foi estabelecida pelo Senhor. Se somos mordomos, somos servos e, portanto, devemos tão somente obedecer ao Senhor e isto implica em não termos o poder de dizermos para onde vai o dízimo, pois ele não é nosso, mas, sim, do Senhor.

    – Constitui-se, também, em atitude que não tem qualquer respaldo bíblico o uso do dízimo como forma de pressão ou retaliação junto ao ministério da igreja local onde servimos a Deus. Muitas pessoas acham que, por entregarem fartos dízimos, que representam boa parte da arrecadação da igreja local, têm o direito de opinar ou de estabelecer as diretrizes para o ministério da igreja local. Na verdade, há, mesmo, ministros do Evangelho que dão satisfações ou procuram agradar um determinado grupo na igreja local por causa do papel que eles representam no sustento seu e da obra do Senhor.

    – Todas estas atitudes são amplamente reprovadas pelas Escrituras, que não admitem a acepção de pessoas e tratam aos que assim procedem como pecadores (Tg.2:1-9). Os dons divinos não se adquirem nem se exercem por dinheiro (At.8:18-23). Na igreja, cuidamos de vidas, de almas e não de cifrões ou de quantias. O dinheiro é necessário, no mundo em que vivemos, para que a obra de Deus se possa realizar, não porque Deus disto precise para cumprir o Seu propósito, mas para o próprio aperfeiçoamento dos santos, para o crescimento espiritual dos crentes e, sobretudo, para a glória de Deus.


    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

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  • Lição 8: O Perigo de Querer Barganhar com Deus

    No seu relacionamento com Deus, Deus não deixa de ser Deus e o homem, de ser homem.

    INTRODUÇÃO

    – Na continuidade no estudo de pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido distorcidos pela teologia da prosperidade, estudaremos hoje a “teologia da barganha” ou “lei da reciprocidade”.

    – Jamais Deus e homem se relacionam numa relação de “toma-lá-dá-cá”, uma das muitas mentiras da teologia da prosperidade.

    I – A SOBERANIA DIVINA

    – Na sequência de nosso estudo neste segundo bloco do trimestre letivo, em que estamos a analisar alguns pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido particularmente distorcidos pelos “teólogos da prosperidade”, estudaremos a questão da chamada “teologia da barganha” ou “lei da reciprocidade”, um dos pontos fundamentais de todo o raciocínio deste falso ensino.

    – Para iniciarmos o estudo deste tema, que tanto prejuízo tem causado aos crentes hodiernos, é preciso, antes de mais nada, rememorarmos o que a Bíblia Sagrada ensina a respeito da soberania divina. O que as Escrituras dizem sobre Deus?

    – A Bíblia nos ensina que Deus é um Ser distinto daqueles que Ele criou. Deus não Se confunde com a Sua criação, ao contrário do que ensinam, equivocadamente, os chamados “panteístas”, aqueles que confundem Deus com a natureza, pensadores, aliás, que estão muito em voga nos nossos dias, principalmente entre os adeptos da Nova Era.

    – Que Deus não Se confunde com a criação vemos logo no primeiro versículo do livro do Gênesis, que nos informa que “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn.1:1). Ao assim descrever o processo da criação, as Escrituras mostram que Deus é distinto dos “céus e a terra”, ou seja, da criação, seja dos seres celestiais, seja dos seres terrenos. Céus e terra tiveram princípio, mas Deus já era desde sempre. Céus e terra foram criados, Deus é o Criador.

    – A esta circunstância os teólogos costumam denominar de “transcendência” de Deus, ou seja, Deus está além da Sua criação, é maior do que ela. A palavra “transcendência” vem do latim “transcendere”, cujo significado é “cruzar a fronteira”. “…Uma das ideias básicas é que a deidade que o indivíduo busca está muito acima do inquiridor. A superioridade e independência do Ser divino é contrastada com a humilde posição do inquiridor, confinado a esta esfera terrestre.…” (CHAMPLIN, R.N. Transcendente, transcendência, transcendentais. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.6, p.474).

    – Esta transcendência divina é muito bem explicitada pelo profeta Isaías que traz uma mensagem divina que mostra como Deus está além do que criou, “in verbis”: “Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos, diz o Senhor, porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos (Is.55:8,9).”

    – O próprio Jesus, em uma de suas múltiplas declarações em que afirma ser Deus, também mostrou que estava além de Seus discípulos, quando, por exemplo, lavou os pés de Seus discípulos. Naquela oportunidade, assim Se manifestou Nosso Senhor: “O que Eu faço não o sabe tu agora, mas tu o saberás depois” (Jo.13:7).

    – Como Deus não Se confunde com a Sua criação, temos que Deus e a criação se relacionam entre si, e, neste relacionamento, há, de pronto, uma assimetria, ou seja, o relacionamento entre Deus e Sua criação não é uma relação de igual para igual, mas um relacionamento onde Deus mantém uma posição superior que jamais pode ser alcançada pelas criaturas. Tanto assim é que, no relacionamento com sua criação, Deus revela a nós algumas qualidades que mostram, claramente, que jamais a criação, mesmo a coroa da criação terrena, que é o homem, pode chegar aos pés do Senhor. Senão vejamos.

    – A primeira dessas qualidades é a onipotência. No relato da criação, vemos que Deus do nada fez tudo, algo que ninguém jamais poderia nem poderá fazer. Deus tem todo o poder, daí porque um de Seus nomes é “Todo-Poderoso” (“ ‘El Shaddai” – ??????- Gn.17:1; 28:3; Jó 5:17; 6:4,14), nome, aliás, que é abundante no livro de Jó, considerado o mais antigo livro das Escrituras. A propósito, “’El-Shaddai” é um título divino característico da época dos patriarcas (Ex.6:3).

    – A onipotência de Deus ensina-nos que Ele tem todo o poder, ou seja, não existe ser mais poderoso do que Ele. Daí porque ter o Senhor, por boca do profeta Isaías, ter afirmado: “operando eu, quem impedirá?” (Is.43:13 “in fine”) ou ter o apóstolo Paulo, ao verificar esta verdade bíblica, ter indagado: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm.8:31), bem como o apóstolo João ter ressaltado que “Filhinhos, sois de Deus e já os tendes vencido, porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo.” (I Jo.4:4).

    – A onipotência de Deus ensina-nos que todo o poder pertence a Deus (Sl.62:11). Um dos graves equívocos do ser humano é tentar construir estruturas de poder fora de Deus. Em Babel, a rebeldia se iniciou quando Ninrode começou a irrogar o poder para si (Gn.10:8). O orgulho, a soberba e a arrogância do homem, que o levam a se achar poderoso e a querer a glória para si, ao invés de reconhecer a onipotência de Deus e a glória que só a Ele é devida, tem sido a principal causa de derrota e fracasso na vida de tantas pessoas. Que Deus nos guarde de assim agirmos, correndo o risco de virarmos animais (Dn.4:30-37), como Nabucodonosor ou sermos comidos de bicho como Herodes (At.12:21-23).

    – A segunda dessas qualidades é a onisciência. Deus conhece e sabe todas as coisas (Sl.139:1-6; I Jo.3:20), nada se Lhe pode ocultar  (Sl.38:9; 139:15,23,24; Mt.6:6). Porque Deus sabe todas as coisas, é ele a fonte de toda a ciência, conhecimento e sabedoria, razão pela qual jamais as manifestações do conhecimento humano, quando verdadeiras, se chocarão com a Palavra de Deus, pois Deus é o próprio autor do conhecimento, da ciência e da sabedoria.

    – A onisciência de Deus, aliada à Sua eternidade, faz-nos conceber a presciência de Deus, ou seja, Deus já sabe, de antemão, o que irá acontecer, porque, para Deus, não há tempo, sempre é presente, um eterno presente. Assim, Deus conhece o futuro, pois, para Ele, passado, presente e futuro são uma só coisa. Por isso, pode nos revelar, como nos revelou, as coisas que ainda iriam acontecer, na dimensão dos homens.

    – A onisciência de Deus traz-nos a necessidade de termos um comportamento distinto dos homens que não conhecem a Deus. Como Deus sabe todas as coisas e conhece tanto o passado, quanto o presente e o futuro, algo que não temos sequer condição de saber, pois nem sempre avaliamos bem o passado (e a memória pode trair-nos, fazendo-nos esquecer aspectos importantes e relevantes deste passado), muitas vezes ficamos atônitos com relação ao presente, sem saber o que fazer e o futuro a nós escapa totalmente, precisamos confiar n’Ele e, nas adversidades e momentos difíceis da vida, lembrar que Deus, e só Ele, sabe todas as coisas. Se bem avaliarmos a onisciência divina, certamente que poderemos marchar na dura caminhada pelo deserto desta vida certos de que, onde quer que as circunstâncias nos levem, a direção e orientação parte de quem sabe todas as coisas e que prometeu que somente nos daria o melhor (Rm.8:27-30).

    – A terceira qualidade ressaltada pelas Escrituras no relacionamento entre Deus e as Suas criaturas é a onipresença, ou seja, Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? Diz o Senhor. Porventura não encho Eu os céus e a terra? Diz o Senhor” (Jr.23:24).

    – Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. Esta presença de Deus é total, pois, como diz a referência que transcrevemos, Ele enche os céus e a terra. Na verdade, como afirmou Salomão na oração que fez para a dedicação do templo, nem mesmo os céus e a terra O podem conter (I Rs.8:27).

    – Esta presença de Deus, porém, não se dá com o mesmo propósito. Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas com diferentes propósitos e finalidades. Assim, por exemplo, Sua presença em Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, assim como no mundo antediluviano, tinha como propósito a verificação do abuso dos limites do pecado, com a determinação de destruição daqueles impenitentes. Já no que se refere ao povo de Israel, como testemunhou Moisés, a presença de Deus tinha o propósito de fazer o povo descansar (Ex.33:14). A presença de Deus é sempre uma bênção para aquele que dirige os seus caminhos segundo a vontade do Senhor (II Rs.3:14; 5:16; 13:23; II Cr.27:6). Seu objetivo, ao mostrar a Sua presença, é mostrar a Sua força aos Seus servos (II Cr.16:9) bem como criar oportunidades para que os que não O conhecem, venham a fazê-lo (At.17:27; Rm.10:6-8).

    – A quarta qualidade ressaltada nas Escrituras no relacionamento entre Deus e Suas criaturas é a Sua fidelidade. Deus é fiel (Dt.7:9; Is.49:7; I Co.1:9; 10:13; I Ts.5:2; II Ts.3:3;  I Pe.4:19; I Jo.1:9; Ap.19:11). A fidelidade de Deus garante-nos que Ele cumpre todos os compromissos assumidos com o homem, que é leal em seus pactos e alianças. Ele vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12). Se o homem falhar, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm.2:13).

    – A quinta qualidade divina em relação a Sua criação é o amor. Deus é amor (I Jo.4:8 “in fine”) e, por isso, Suas ações em relação ao homem sempre foram de amor. Todo o plano da salvação do homem é decorrência deste amor sem igual, sem qualquer comparação (Jo.3:16). O amor divino não é apenas um sentimento, mas um sentimento acompanhado de ações concretas e atitudes reais. Por isso, ao amar o mundo, enviou o Filho para que pudéssemos ter a vida eterna. Por isso, o Filho Se humanizou e morreu em nosso lugar. Por isso, Deus Se fez carne e preço para o pagamento dos nossos pecados e a nossa redenção. Isto é o verdadeiro amor, um amor de gestos, de atitudes, não de palavras ou sentimentos que não ultrapassam o campo das emoções (I Jo.3:18,19).

    – A sexta qualidade divina em relação a Sua criação é a justiça. Deus não somente é amor, mas, também, é justiça. Como já dissemos, uma das maneiras de Deus Se revelar ao homem é por intermédio da consciência, este tribunal que Deus pôs em cada um de nós para nos dizer o que é o certo e o que é o errado, o que é o bem e o que é o mal. Ora, ao estipular o que é o certo e o que é o errado, Deus, também, determinou o que é o justo e o que é o injusto e, como Ser Supremo, assumiu a única posição que Lhe cabe, qual seja, a de justo juiz (Sl.9:8; 50:6; Jr.11:20; II Tm.4:8). Deus é justiça, ou seja, tem de dar a cada um o que é seu (Gn.18:25; Jó 8:3;Sl.31:1; 35:24).

    – Muitos não conseguem entender como Deus pode ser amor e justiça ao mesmo tempo, porque, equivocadamente, acham que ter amor é “ser bonzinho”, é perdoar sempre e invariavelmente, sem jamais aplicar um castigo ou uma penalidade e, muito menos, lançar uma condenação eterna. Para estes, se Deus é amor, todos serão salvos ao final, todos alcançarão a bem-aventurança de viver eternamente ao lado do Senhor. Entretanto, não é isto que nos mostra a Bíblia Sagrada. Deus é amor, e isto provou ao pagar o preço dos nossos pecados, humanizando-Se, morrendo por nós. No entanto, exatamente porque tomou esta atitude radical, a de Se fazer homem para nos salvar, é que, por justiça, deve condenar a tantos quantos se neguem a obedecer-Lhe e a desfrutarem deste amor.

    – Deus, Que não muda, afirmara que, em dando o livre-arbítrio ao homem, faria com que este respondesse pelos seus atos. Assim, todos quantos recusarem o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário terão de responder perante o justo juiz, que tem levado adiante a Sua misericórdia e a Sua verdade. Tendo vindo morrer por nós, tendo levantado um povo para pregar esta boa-nova e tendo enviado a Pessoa do Espírito Santo para convencer os pecadores, Deus mostra que a Sua iniciativa é de amor, que adiante d’Ele vão a misericórdia e a verdade. No entanto, dias chegarão, e estão muito próximos, em que esta oportunidade se findará e em que chegará o momento do acerto de contas, o instante do juízo e da justiça, em que cada um responderá pela opção que fez. Misericórdia e verdade foram à frente, mas a base do trono de Deus é de justiça e de juízo (Sl.89:14; 96:13). Aproveitemos, enquanto é tempo, o ano aceitável do Senhor, antes que chegue o dia da vingança do nosso Deus!

    – A sétima qualidade de Deus em relação à Sua criação é a verdade. Deus é a verdade (Dt.32:4; Jr.10:10). “Verdade”, em hebraico,  é “ ‘emet” (???), cujo significado é o de garantia futura de imutabilidade, de invariabilidade. Ao Se afirmar como a Verdade, Deus mostra aos seres criados que Ele não muda e que o que prometeu, fará. Temos, assim, na Verdade, a demonstração, a um só tempo, da imutabilidade e da fidelidade divinas. Ora, a máxima demonstração da verdade para o homem está na Bíblia Sagrada, na Palavra de Deus, que é a verdade (Jo.17:17). As Escrituras são a suprema garantia que Deus dá ao homem de que é um ser verdadeiro. Por ser a Verdade, Deus abomina a mentira e só é mentiroso aquele que se apartou do Senhor. Daí porque o primeiro ser a se apartar d’Ele, ou seja, o diabo, ser chamado de o pai da mentira, precisamente porque não há verdade nele (Jo.8:44).

    – Pelo que vemos de todas estas qualidades reveladas pelas Escrituras no relacionamento de Deus com a Sua criação, em especial com o homem, não há como vermos uma relação de igualdade entre Deus e o homem, pois se Deus é portador de todo o poder (onipotência), sabe todas as coisas (onisciência), está presente em todos os lugares (onipresença), é fiel (fidelidade), é amor, justiça e verdade, como o homem poderia igualar-se a Ele num relacionamento?

    II – A SALVAÇÃO DO HOMEM TEM ORIGEM EM DEUS

    – Uma das demonstrações desta assimetria no relacionamento entre Deus e o homem está na própria salvação do ser humano.  O homem, ao se envolver com o pecado, entrou em um verdadeiro “beco sem saída”. Ao pecar, tornou-se servo do pecado (Jo.8:34), dominado totalmente por ele (Gn.4:7), sem condição alguma de modificar esta situação.

    – Entretanto, a história não terminou com esta tragédia. Bem ao contrário, a Bíblia Sagrada nos ensina que, mesmo antes da fundação do mundo, dentro de Sua presciência, Deus já havia elaborado um plano para retirar o homem desta situação tão delicada (Ef.1:4; Ap.13:8), a demonstrar, de pronto, que Deus é bem superior ao homem, haja vista que já havia arquitetado a salvação humana antes mesmo que o homem fosse criado.

    – Este plano, já existente mesmo antes da criação do mundo, foi revelado ao homem no dia mesmo de sua queda, quando o Senhor anunciou que haveria de surgir alguém da semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente e tornaria a criar inimizade entre o homem e o mal e, consequentemente, amizade, comunhão entre Deus e o homem (Gn.3:15). Vemos, pois, claramente, que a salvação é algo que sua origem em Deus, que o homem não poderia, por si só, alcançar meios para restaurar a sua comunhão original com o seu Criador. Deus, pelo Seu grande amor, providenciou um plano para trazer o homem de volta ao convívio com Ele.

    – Este plano de Deus para a salvação do homem, revelado à humanidade no momento mesmo da aplicação da penalidade pela prática do pecado, foi sendo executado desde então. O primeiro gesto deste plano foi a proibição de o homem ter acesso à árvore da vida por causa do pecado (Gn.3:22), acompanhado da expulsão do Éden (Gn.3:23). Com estas medidas, Deus impediu que o homem, a exemplo dos anjos pecadores, vivesse numa dimensão eterna, condenado à inevitável e sempiterna separação de Deus, possibilitando ao homem que, mediante o arrependimento enquanto estivesse na dimensão terrena, pudesse desfrutar de uma eternidade com o Senhor.

    – Percebemos, assim, que, o que, à primeira vista, pareceu ser uma crueldade da parte de Deus, foi a manifestação da Sua infinita misericórdia, porquanto, caso o homem ingressasse na dimensão eterna como um pecador, não teria como se salvar, igualando-se, neste ponto, ao diabo e seus anjos, que não podem ser perdoados por causa de seus pecados, vez que habitam a dimensão eterna.

    – A partir de então, o Senhor iniciou a execução de Seu plano que alcançou o seu ápice quando da própria encarnação do Deus Filho, momento que as Escrituras denominam de “a plenitude dos tempos” (Gl.4:4), instante em que Deus cumpre a Sua promessa de providenciar, da semente da mulher, o único e suficiente Salvador, Jesus, o Seu próprio Filho (Mt.1:21; Lc.2:11; Jo.3:16,17; At.4:12). Eis a razão pela qual a Bíblia, mais de uma vez, diz que Deus é o Deus da nossa salvação (I Cr.16:35; Sl.24:5; 51:14), bem como que a salvação d’Ele provém (Sl.3:8; 37:39; 62:1).

    – A salvação, uma vez mais se mostra, foi obtida por intermédio da iniciativa divina. Não só Deus enviou o Seu Filho, como a obra da salvação somente se consumou porque o Filho deu a Sua vida pela humanidade (Jo.10:15-18). A salvação foi consumada na cruz do Calvário, quando Jesus morreu por nós (Jo.19:30;Cl.1:20; Ef.2:13,16). Como diz o poeta sacro: “O meu perdão foi consumado lá na cruz” (primeira estrofe do hino 397 da Harpa Cristã).

    – As Escrituras mostram que Deus é a fonte, a base da nossa salvação. Em diversas passagens, o Senhor é identificado como a “rocha” ou o “rochedo” da salvação, expressão que não apenas revela que Deus dá livramentos aos homens, mas que também n’Ele se encontra o mais importante livramento de que carece o homem depois que pecou: o livramento do domínio do pecado sobre a sua vida (Dt.32:15; II Sm.22:47; Sl.18:46; 62:2,6; 89:26).

    – O homem não tem condições de salvar-se a si próprio. Esta é uma das grandes verdades anunciadas pela doutrina bíblica (Sl.146:3). A Bíblia diz que Deus, ao contemplar os homens desde os céus, não viu justo algum (Sl.14:2,3) e aqueles que, por sua justiça, pudessem, de algum modo, achar graça aos olhos do Senhor, somente o fariam para si mesmos, sem condição alguma de transmitir sua justiça aos demais seres humanos (Ez.14:13-20). Por isso, se a salvação não viesse por intermédio de Deus jamais o homem poderia ter esperança de voltar a ter um convívio eterno com o seu Criador.

    – Mas, precisamente porque a salvação tem origem em Deus, podemos buscá-la e ter a certeza de que seus efeitos são permanentes e duradouros.

    – Notamos, portanto, que, ao contrário do que falam os “teólogos da prosperidade”, a salvação é uma ação que tem iniciativa e consumação em Deus, motivo pelo qual o homem não pode reivindicar quaisquer “direitos legais” decorrentes desta salvação, pois ela é resultado exclusivo do amor de Deus.

    – Por ter origem e consumação em Deus, a salvação revela os atributos divinos, atributos estes que são intransferíveis ao ser humano, como já tivemos ocasião de observar. Destarte, no instante em que o homem se entrega a Cristo Jesus, alcançando a salvação, não está tomando posse de quaisquer “direitos legais”, como ensinam os “teólogos da prosperidade”, mas, sim, passando a desfrutar de um “favor imerecido”, ou seja, da “graça” de Deus.

    – A salvação, por ter origem em Deus, é um ato de amor (Jo.3:16). A salvação é a maior demonstração do amor de Deus ao homem. Há, mesmo, quem diga que Deus permitiu o pecado para revelar este que é um dos Seus principais atributos, que não se revelaria sem que houvesse o pecado. Sem adentrarmos nesta discussão, que está além do que podemos compreender, o certo é que, através da salvação, Deus revela o Seu grande amor para com o homem, este amor incondicional e incompreensível, que se encontra muito além do nosso entendimento. O fato é que Deus nos ama tanto que Se fez homem para pagar o preço dos nossos pecados e nos salvar, para que vivamos com Ele eternamente.

    – A salvação, por ter origem em Deus, é uma manifestação da graça de Deus (Tt.2:11). Deus, por intermédio da salvação, mostra que oferece ao homem um “favor imerecido”, a “graça”. A salvação não vem ao homem porque o homem a mereça (e reside aqui uma das grandes dificuldades dos homens em compreenderem a salvação, pois sempre associam a salvação a algum mérito, o que, evidentemente, está completamente fora dos padrões bíblicos e da revelação divina sobre o assunto), mas porque Deus quis favorecer o homem, por ser um Deus de graça, que foi manifestada em Jesus Cristo (I Co.1:4).

    – O apóstolo Paulo é bem claro ao mostrar que a salvação vem pela graça de Deus (Ef.2:5,8), ou seja, por um favor imerecido de Deus, precisamente para que o homem não se gloriasse, achando que fosse algo que, efetivamente, não é, pois não passa de um miserável pecador (Rm.7:24), cuja justiça não passa de trapos de imundícia (Is.64:6).

    – A propósito, o apóstolo, em suas epístolas, sempre faz questão de mostrar, antes de mais nada, que nosso relacionamento com Deus decorre de Sua graça e de Sua paz (Rm.1:7; I Co.1:3; II Co.1:2; Gl.1:3; Ef.1:2; Fp.1:2; Gl.1:2; Cl.1:2; I Ts.1:1; II Ts.1:2; Fm.3) ou, então, de Sua graça, de Sua paz e de Sua misericórdia (I Tm.1:2; II Tm.1:2; Tt.1:4). Não se está diante de um mero estilo retórico, mas, sim, de uma consciência do apóstolo de que o relacionamento entre Deus e os salvos em Cristo Jesus decorre, primeiramente, da graça do Senhor, trata-se de um “favor imerecido” que nos leva a ter comunhão com Deus, visto que a paz nada mais é que esta completude que se estabelece entre Deus e o homem com a retirada dos pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz do Calvário.

    – Ora, se a salvação oferecida ao homem é resultado da graça de Deus, quando ela é apropriada por aquele que crê em Jesus, continua sendo um “favor imerecido”, não há qualquer modificação em sua essência, até porque, por ter origem em Deus, a salvação é eterna (Is.45:17; Hb.5:9), ou seja, não sujeita a qualquer modificação ao longo do tempo.

    – Portanto, dizer-se que, uma vez salvo, o homem passa a ter “direitos legais” em relação a Deus, que pode “obrigar Deus”, é um contrassenso, visto que a salvação é um “favor imerecido” e, portanto, o homem não assume qualquer posição que lhe permita exigir seja o que for do Senhor, já que está a desfrutar de um “favor imerecido”.

    – A salvação mostra que a deidade do Senhor em todo o Seu esplendor e não é porque nos entregamos ao Senhor Jesus que Ele deixará de ser Deus e de ter todos os atributos que só Ele possui. O fato de ter estabelecido uma aliança com o homem não o faz menos Deus, nem faz com que o homem seja menos homem. A aliança realizada, fruto de Sua iniciativa e por Ele próprio consumada, apenas reafirma a assimetria que existe entre Deus e o homem.

    – A salvação, feita pela graça de Deus, diz-nos o apóstolo, vem “por meio da fé” (Ef.2:8). Ora, quem é o autor e consumador da fé? É o próprio Senhor Jesus (Hb.12:2), que, inclusive, transmite esta fé a cada homem (Rm.10:17), por intermédio da Palavra, que é o próprio Cristo (Jo.1:1; Ap.19:13). Assim, a própria fé é um dom de Deus (Ef.2:8), que nos permite entrar em aliança com Ele, aliança esta feita em Seu sangue vertido na cruz do Calvário por nós (I Co.11:25).

    – Notamos, pois, que o Senhor tudo fez para dar condições para que fôssemos salvos, revelando, uma vez mais, a nossa absoluta incapacidade de tomar parte neste processo e o Seu grande amor, que faz com que queira que nós sejamos salvos e venhamos ao conhecimento da verdade (I Tm.2:4).

    – Diante desta realidade, vemos que ao homem restou, tão somente, crer em Jesus, arrepender-se de seus pecados para alcançar a graça divina, mantendo-se obediente e fiel ao compromisso que assumir de seguir a Cristo até aquele dia. A salvação é um processo onde o homem participa tão somente com o arrependimento, a conversão e a santificação contínua até o dia do arrebatamento da Igreja, quando, com a glorificação, ficará para sempre livre de pecar.

    III – A FALSIDADE DA LEI DA RECIPROCIDADE E A IMPOSSIBILIDADE DE UMA BARGANHA COM DEUS

    – Temos visto que Deus é soberano, Seus atributos com relação à Sua criação mostram que Ele está além das Suas criaturas e que jamais estas poderão a Ele se igualar. Temos visto, também, que, no processo da salvação do homem, Deus igualmente manifesta a Sua soberania, tendo, por Seu amor, permitido ao homem que se salvasse, salvação que é um “favor imerecido” pelo qual o homem volta a ter comunhão com Deus, apropriando-se de uma fé que é dom de Deus, num processo onde tão somente se arrepende dos pecados, converte-se e se mantém separado do pecado até a sua passagem para a dimensão eterna.

    – Dentro deste quadro, é intuitivo até que se perceba que, uma vez salvo, o homem não se apresenta em condição de exigir coisa alguma de Deus. Recebendo a fé vinda pela Palavra de Deus, crendo em Jesus e se arrependendo dos seus pecados, passando a ter uma nova direção e orientação na sua vida, mantendo-se separado do pecado, em comunhão com o Senhor, o homem tem condições de chegar aos céus.

    – Dentro desta realidade, vemos que a relação estabelecida entre Deus e o homem salvo por Cristo Jesus continua sendo uma relação entre Senhor e servo, entre Criador e criatura. No entanto, por causa do perdão dos pecados, o Senhor demonstra todo o Seu amor para o salvo, preparando-o para ir aos céus para com Ele viver para sempre, mas, enquanto isto não ocorre, capacitando-o para ser, aqui na Terra, luz do mundo, sal da terra e instrumento para a salvação de outros seres humanos.

    – Já no tempo da lei, o Senhor mostrava o que pedia ao povo de Deus, “in verbis”: “Agora, pois, ó Israel, que é o que o Senhor, teu Deus, pede de ti, senão que temas o Senhor, teu Deus, e que andes em todos os Seus caminhos, e O ames, e sirvas o Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor e os Seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt.10:12,13).

    – O primeiro ponto que observamos é que o Senhor pede e não exige, como poderia fazê-lo, por ser o Senhor, o Soberano, o dono de todas as coisas (Sl.24:1). Fá-lo porque deu ao homem o livre-arbítrio e, portanto, tudo depende da vontade do homem em servi-l’O, ou não. Certamente que os homens responderão pelos seus atos, mas Deus não força qualquer homem a servi-l’O, pois, como é imutável, não iria Se arrepender de ter feito o homem com livre-arbítrio.

    – Ora, se Deus não força o homem a servi-l’O, sendo o Senhor, como pode o homem “forçar” Deus a tomar esta ou aquela atitude? Notemos aqui como não tem qualquer cabimento a teoria de que o homem, por ser salvo, “toma posse das promessas de Deus” e, por isso, pode “exigir” que Deus faça isto ou aquilo. Se Deus que é Deus não exige, como pode fazê-lo o homem mortal em relação ao Senhor? Resta-nos aqui tão somente lembrar as palavras do profeta Isaías: “Ai daquele que contende com o seu Criador, caco entre outros cacos de barro! Porventura, dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?” (Is.45:9).

    – O segundo ponto que observamos é que o primeiro pedido do Senhor era para que Israel temesse a Deus. “Temer” aqui não é “ter medo”, mas, sim, “considerar”, “ter reverência”, “obediência”. De pronto, vemos que o fato de Israel ter de “temer a Deus”, mostra que Deus continua sendo o Senhor, pois somente se reverencia alguém que está em uma posição superior a sua. É conhecida, em nosso direito civil, a figura do “temor reverencial” que é “…o receio de desgostar ascendente ou pessoa a quem se deve obediência e respeito…”(DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. 9. ed. rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil, p.154).

    – Ora, “temer a Deus” é, portanto, “o receio de desgostar a Deus”, o que, de pronto, leva-nos à conclusão de que, em nosso relacionamento com o Senhor, relacionamento somente possível diante da salvação, nunca podemos de deixar de levar em consideração a vontade do Senhor, o que, de pronto, elimina toda e qualquer possibilidade de “exigirmos” ou “determinarmos” algo a Deus, uma vez que tais comportamentos desconsideram a vontade do Senhor, demonstram que são condutas de quem não teme ao Senhor.

    – Alguém pode, porém, dizer que esta exigência de “temor a Deus” era na época da lei e que, agora, estamos na graça, quando não mais vigoraria tal situação. Ledo engano, porém. A exigência do temor a Deus persiste incólume na nova aliança. Em At.2:43, notamos que uma das características de todo crente na igreja de Jerusalém era, precisamente, o temor, característica presente também nas igrejas que iam surgindo na Judeia, Galileia e Samaria (At.9:31).

    – O apóstolo Paulo afirma, ainda, que, em sua evangelização, sabia que se deve temor a Deus (II Co.5:11), bem como ensina que um dos meios de santificação, esta necessária atitude humana para chegar aos céus, é o temor ao Senhor (II Co.7:1). O apóstolo Pedro não discrepa deste entendimento, dizendo que os crentes devem “andar em temor durante o tempo da sua peregrinação” (I Pe.1:17). Vemos, pois, que o temor prossegue sendo uma atitude indispensável para a Igreja, o povo de Deus da atual dispensação.

    – O terceiro ponto que observamos é que o segundo pedido do Senhor ao Seu povo é para que Seu povo “ande nos Seus caminhos”, ou seja, que seguisse os Seus mandamentos, que foram dados a Israel por Moisés. Hoje em dia, devemos seguir os passos de Cristo Jesus, seguir as Suas pisadas (I Pe.2:21). Aliás, o mandamento deixado pelo Senhor é bem explícito a respeito: “Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo.15:12). Nosso exemplo, nosso padrão de conduta é o Senhor Jesus e devemos andar como Ele andou (I Jo.2:6).

    – E como Jesus andou neste mundo? Exigindo algo do Pai ou fazendo a Sua vontade? Evidentemente que fazendo a vontade do Pai (Jo.5:30; 6:38). Aliás, Cristo chegou a afirmar que a Sua comida era fazer a vontade do Pai (Jo.4:34), indicando que a sobrevivência espiritual de alguém é fazer a vontade de Deus.

    – Portanto, ensinar que se deve desconsiderar a vontade de Deus em nossas atitudes sobre a face da Terra nada mais é que ensinar que não devemos andar como Jesus andou, que não devemos andar em Seus caminhos, em outras palavras, trata-se de um ensino que visa nos distanciar de Deus, tornarmo-nos desagradáveis a Ele!

    – O quarto ponto que observamos é que o terceiro pedido do Senhor ao Seu povo é que O amassem. Ora, amar a Deus, explicou-nos o Senhor Jesus, é guardar a Palavra de Deus (Jo.14:23,24). “Vós sereis Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando” (Jo.15:14), disse o Senhor. Somente demonstraremos amor para com Deus se Lhe formos obedientes e, para tanto, precisamos ouvir a Sua voz, não endurecendo os nossos corações, tentando ao Senhor (Sl.95:7,8; Hb.3:15).

    – Os “teólogos da prosperidade”, entretanto, ensinam exatamente o oposto. Vivem insuflando seus ouvintes a “pôr Deus contra a parede”, a “se revoltarem”, “não aceitarem”, “reivindicarem seus direitos diante de Deus”, ou seja, conclamam o povo a falar diante de Deus, apresentar suas queixas, sem se importar com o que Deus está a dizer. Não é isto, precisamente, fazer como fez Israel em Massá e Meribá, lugares onde os israelitas tentaram a Deus, provocaram-n’O e com Ele contenderam (Ex.17:7), episódio que os fez perder o desfrute da promessa de Abraão e terem de se submeter à lei, que não propicia salvação a homem algum (Gl.3:11)?

    – Quando o homem sai de sua posição de servo e beneficiário da graça de Deus para tentar “conversar de igual para igual” com o Senhor, “exigindo-Lhe direitos”, entra num caminho extremamente perigoso, pois assume uma postura de rebeldia e de dureza de coração diante do Senhor e o resultado é que assina a sua própria sentença de morte, visto que, se formos raciocinar em “termos legais”, estaremos irremediavelmente perdidos, vez que não temos quaisquer “direitos” diante do Senhor.

    – A aliança que o Senhor firmou conosco é uma aliança em que recebemos, imerecidamente, o Seu favor, temos nossos pecados perdoados e a garantia da vida eterna, mas na qual devemos nos submeter à Sua vontade, “amando-O porque Ele nos amou primeiro” (I Jo.4:19). Se existe alguma reciprocidade no relacionamento entre Deus e o homem, esta reciprocidade é o amor e, como Deus nos amou, e prova isto quando Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores (Rm.5:8), também devemos amá-l’O e amar a Deus é guardar a Sua Palavra.

    – Ora, se amar a Deus é guardar a Palavra de Deus, é esconder a Sua Palavra em nossos corações para que não pequemos contra Ele (Sl.119:11), não há qualquer lugar para que nossa vontade produza “palavras inspiradas” aos quais vinculemos o Senhor, como ensinam os “teólogos da confissão positiva”. A Palavra de Deus está dada, não pode ser diminuída nem ampliada (Ap.22:18,19), é a testemunha de Cristo Jesus (Jo.5:39), as Escrituras que nos foram reveladas e que devem ser cridas em sua inteireza, sem quaisquer artifícios hermenêuticos, pois são o próprio Jesus, a completa revelação divina ao homem (Hb.1:1-3).

    – O quinto ponto que observamos neste pedido do Senhor ao Seu povo é que eles deveriam servi-l’O, com toda a sua alma e com todo o seu coração, para guardar os mandamentos do Senhor e os Seus estatutos ordenados para o bem do próprio povo. Vemos, de pronto, aqui que o Senhor deixa bem claro que os israelitas permaneciam servos, apesar de serem o povo de Deus.

    – Tal situação não se alterou com a graça. Muitos gostam de mencionar a expressão de Jesus aos Seus discípulos, segundo a qual não os chamaria mais de servos, mas, sim, de amigos, pois tudo quanto de Seu Pai havia ouvido, tinha-os feito conhecer (Jo.15:15). O fato de termos nos tornado amigos de Cristo, não significa que deixemos de ser Seus servos, porém.

    – A primeira pessoa que é chamada de amigo de Deus nas Escrituras é Abraão (Is.41:8), assim chamado precisamente porque Deus não quis ocultar dele o que faria com as cidades da planície (Gn.18:19). No entanto, o fato de Abraão ser amigo de Deus não fez com que deixasse de ser servo de Deus e o diálogo mantido com o Senhor na intercessão pelos habitantes daquelas cidades mostra como Abraão não deixou da sua condição de servo, apesar de ser amigo do Senhor (Gn.18:23-33). Como se não bastasse isso, o episódio do sacrifício de Isaque mostra claramente como Abraão era temente a Deus e pronto a obedecer-Lhe (Gn.22:12).

    – Na própria passagem em que Jesus disse que passaria a chamar os Seus discípulos de amigos, vemos que o Senhor não deixou de considerá-los Seus servos, pois, em seguida, diz que os havia escolhido e nomeado para que fossem e dessem fruto permanente (Jo.15:16), tendo ainda lhes mandado que se amassem uns aos outros (Jo.15:17), bem como os lembrado que, como servos, não poderiam pretender sofrer menos que o Senhor no mundo (Jo.15:18-20), a confirmar, pois, que eles se mantinham servos, apesar da intimidade de serem chamados de amigos.

    – Os escritores do Novo Testamento, mesmo, fazem questão de mostrar que são servos de Cristo Jesus em seus escritos (Rm.1:1; Fp.1:1; Tt.1:1; Tg.1:1; II Pe.1:1; Jd.1:1; Ap.1:1), tendo o apóstolo Paulo mostrado, mais de uma vez, que o salvo em Cristo Jesus deve, antes de mais nada, ser servo de Deus (I Co.7:22; Gl.1:10; Cl.4:12; II Tm.2:24), tendo o próprio Pedro nos ensinado que, se somos vencidos por Deus, somos servos d’Ele, mas, se formos vencidos pela corrupção, dela seremos servos (II Pe.2:19).

    – Ora, se somos servos, e a palavra grega para “servo” é “doulos” (??????), cujo significado é “escravo”, temos a conclusão de que quem é salvo por Cristo Jesus não tem vontade própria, faz apenas o que lhe for mandado pelo Senhor, é “propriedade de Cristo”, a Ele pertence, não é de si mesmo (I Co.6:19,20).

    – Diante de um tal quadro, vemos que o relacionamento entre Deus e o homem não elimina, em absoluto, a circunstância de que Deus é o Senhor e que o homem, Seu servo; que Deus manda, e o homem, obedece; que Deus determina, e o homem, acata; que Deus abençoa porque quer e o homem é abençoado, sem merecer e na medida que Deus o quiser.

    – Por isso o serviço desejado por Deus a Israel e que se estende à Igreja, que também é formada de servos, é um serviço “com toda a alma e com todo o coração”, ou seja, trata-se de um serviço que envolve todo o homem interior, pois “alma e coração” são expressões que indicam a alma e o espírito, ou seja, toda a sensibilidade, vontade, intelecto, fé e consciência do ser humano.

    – Desta maneira, não há como o homem querer relacionar-se com Deus impondo ao Senhor os seus sentimentos, a sua vontade, o seu intelecto, a sua fé e a sua consciência. Tudo deve ser exercido segundo os parâmetros e as ordens estabelecidas pelo Senhor, uma verdadeira submissão.

    – Estaria, pois, o Senhor escravizando ao homem? Não se teria, pois, uma situação igual àquela que o homem que vive no pecado? Não, não e não! Por primeiro, o homem se submete a Deus voluntariamente, não há qualquer imposição, tudo decorre da vontade humana em se render a Deus. “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mc.8:34b), bem ao contrário do que ocorre na vida pecaminosa, que se manifesta à revelia da vontade do homem: “…eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço, não o aprovo, pois o que quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso faço” (Rm.7:14b,15).

    – Por segundo, este serviço voluntário, livre, com toda alma e coração, para guardar os mandamentos do Senhor e Seus estatutos, traz o bem ao homem, é “para teu bem”, ao contrário do pecado, que é “para morte”: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.

    Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim(…).Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:18-20,24).

    – Portanto, quando passamos a servir a Deus com toda a alma e com todo o coração, fazemo-lo para o nosso bem. E que bem é este? Paulo responde: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm.6:23). Este bem é a “vida eterna”.

    – Deus assume um compromisso com todos os que recebem a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador: a vida eterna. Tudo, pois, que acontece na vida dos salvos nesta Terra contribui para este bem (Rm.8:28). Assim, ainda que haja tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo ou espada, nada disto poderá nos separar do amor de Cristo (Rm.8:35).

    – Destarte, o que vincula Deus ao homem é o compromisso de dar a vida eterna a todos quantos receberem a Cristo Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador, vida eterna esta que será alcançada por todos aqueles que atenderem ao pedido do Senhor e, deste modo, forem tementes a Deus, andarem em todos os Seus caminhos, O amarem e O servirem com todo o seu coração e com toda a sua alma. Em outras palavras: a vida eterna será dada a todos quantos se arrependerem de seus pecados, se converterem de seus maus caminhos e se santificarem até o fim.

    – Como a relação com Deus se mantém assimétrica, mesmo diante da salvação, estamos diante de um verdadeiro “contrato de adesão”, cujas principais características, segundo o grande jurista brasileiro Orlando Gomes (1909-1988) são três: a) a uniformidade, que consiste no intento do predisponente de obter, de número indeterminado de aderentes, a aceitação passiva das mesmas condições, de sorte que seja invariável o conteúdo de todas as relações contratuais; b) a predeterminação, por uma das partes, das cláusulas dos contratos a serem estipulados em série; c) a rigidez das cláusulas, impossibilitando a flexibilidade no cumprimento das avenças (Contratos, 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1996. pp.118/9).

    – Se as grandes empresas neste mundo, devido a seu poderio econômico, impõem aos consumidores a sua vontade, estabelecendo “contratos” conforme a sua vontade, por que Deus, que é onipotente, haveria de Se diminuir diante do homem quando com Ele firmasse uma aliança, aliança esta estabelecida por obra exclusiva do próprio Deus, que propiciou a salvação ao homem sem que o homem merecesse ou sequer fizesse algo além de arrepender-se, converter-se e se manter separado do pecado?

    – Este é o grande equívoco da chamada “lei da reciprocidade”, segundo a qual, uma vez que Deus prometeu bênçãos para o homem ao estabelecer com ele uma aliança, tem de cumprir o que prometeu. Como diz Edir Macedo: “…O ditado popular de que ‘promessa é dívida’ se aplica também para Deus. Tudo aquilo que Ele promete em Sua palavra é uma dívida que tem para com você(…)” (Vida com abundância, p.36 apud GONÇALVES, Edson Poujeaux. A teologia da prosperidade, p.10. Disponível em: http://www.slideshare.net/goiano/teolprosperidade Acesso em 04 jan. 2012).

    – Nesta ideia de reciprocidade, Deus e o homem estão no mesmo nível, o que, evidentemente, não é a realidade. Deus está muito acima do homem e as promessas que faz ao homem são resultado da Sua graça, ou seja, são favores imerecidos que são dados ao homem. Mas, sendo Deus fiel, uma vez tendo prometido, não terá inevitavelmente de cumprir o que prometeu?

    – Sem dúvida alguma, já vimos inclusive neste estudo, que um dos atributos de Deus no Seu relacionamento com a criação é a Sua fidelidade, que faz com que Ele cumpra o que prometeu. Este cumprimento, porém, independe do homem, decorre da própria natureza divina e, portanto, o homem não precisa “cobrar” ou “exigir” tal cumprimento, visto que ele virá inevitavelmente.

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, está demonstrando falta de confiança em Deus, ou seja, mostra que não tem mais fé em Deus e, sem fé, é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus, creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam (Hb.11:6).

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, está deixando de ser um mero servo, que não tem vontade própria, mas que passa a querer questionar o Criador, como se um caco pudesse interpelar o oleiro! Deus é fiel e assim Se revelou aos homens, de modo que devemos, ante Suas promessas, tão somente “esperar com paciência no Senhor” (Sl.40:1), mantendo com o Senhor um relacionamento contínuo, um diálogo aberto, próprio de quem tem intimidade com Deus, por meio da chamada “oração incessante”, que foi aconselhada pelo Senhor Jesus e por Seus apóstolos (Mt.7:7; Lc.11:9; 18:1-8; Ef.6:18; I Ts.5:17), oração que nunca pode desconsiderar que a vontade a ser seguida é sempre a de Deus, não a nossa (Mt.6:10; 26:42; Lc.22:42).

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, esquece-se de que existe para servir a Deus e não o contrário. Deus não é como os deuses dos gentios que, sendo portadores das mesmas paixões e pecados humanos, apenas têm mais poder e podem, a seu bel-prazer, trazer benefícios a este ou aquele que reclama a sua “proteção”, o seu “poder”.

    OBS: Como dizia o filósofo grego Xenófanes (±570-528 a.C.): “Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm” (apud CLEMENTE de Alexandria. Tapeçarias, V, 110. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural. 5.ed., p.36). Neste pensamento, o filósofo grego mostra que os deuses dos gentios eram projeções dos homens, eram seres humanos a quem se dava o poder da imortalidade, mas havia uma essência igual entre homens e deuses, a refletir que o pensamento gentílico era o de igualar homens e deuses, precisamente o que faz a “teologia da prosperidade”.

    – A chamada “lei da reciprocidade” é completamente alheia à verdade bíblica, visto que, se Deus nos tratasse conforme nós O tratamos, estaríamos irremediavelmente perdidos, visto que apenas mereceríamos a condenação eterna. Por Deus ser amor, Ele manifestou tanto a Sua graça como a Sua misericórdia e, assim, recebemos a salvação, precisamente porque Deus não nos tratou segundo o que merecíamos. Como diz o salmista: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos retribuiu segundo as nossas iniquidades” (Sl.103:10).

    – Não é à toa que, como já vimos supra, o apóstolo Paulo, no início de suas epístolas, fazia questão de frisar aos salvos em Cristo Jesus que o relacionamento com Deus era decorrente da graça, da paz e da misericórdia que vinham da parte de Deus e de Cristo. Não há como falarmos em o nosso relacionamento com o Senhor, por Cristo Jesus, se não for a partir da graça, pelo qual nós recebemos de Deus o que não merecemos; da paz, pela qual nós temos comunhão com Deus e pela misericórdia, pela qual nós não recebemos o que merecemos.

    OBS: “…Irmãos, fará mal qualquer um de nós que usar a linguagem do mérito diante de Deus, pois mérito algum temos e, se tivéssemos algum, não precisaríamos orar. Foi bem observado por um antigo teólogo, que o homem que pleiteia seu próprio mérito não ora, mas cobra o seu crédito. Se eu peço a alguém que me pague sua dívida, eu não sou alguém que pede, mas alguém que está a exigir os seus direitos. A oração de um homem que pensa que tem méritos é como se estivesse a entregar uma letra ao Senhor: ele não está apresentando um pedido, mas emitindo uma cobrança. O mérito, com efeito, diz: “Pague-me  o que você deve”. Pouco um homem deste obterá de Deus, pois se o Senhor apenas pagar para nós o que Ele nos deve, o lugar além de tormento será nossa rápida herança. Se durante a vida aqui nós recebermos não mais do que nós merecemos, nós seremos rejeitados e abandonados. O mais vil dos mendicantes obterá mais do que estes banidos. Até mesmo a vida, ela própria, é um presente do Criador, ‘De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um da punição dos seus pecados’. Vamos nos manter numa posição de inferioridade tanto quanto podemos, pois nós ainda temos de reconhecer que ‘As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as Suas misericórdias não têm fim’. Qualquer outra atitude que não a de humildade seria muito mal-vinda e presunçosa na presença do Altíssimo.…” (SPURGEON, Charles Haddon. Humildade: a amiga do orante. Disponível em: http://bible.org/seriespage/humility-friend-prayer-no-1787 Acesso em 11 set. 2010) (tradução nossa de texto original em inglês) (destaque original).

    – Nosso relacionamento com Deus é pautado por estes três parâmetros: a graça, a paz e a misericórdia. Se formos invocar uma “lei de reciprocidade”, se formos “exigir” “direitos legais” junto a Deus, como ensinam os “teólogos da prosperidade”, estaremos abrindo mão destes três elementos dentro dos quais Deus Se relaciona conosco.

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar “favores imerecidos”, o que poderemos receber d’Ele? Nada, absolutamente coisa alguma, pois nada merecemos!

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar a Sua paz, obtida pela fé que Ele gratuitamente nos deu, o que poderemos receber d’Ele? Nada, absolutamente coisa alguma, pois sem a fé que nos é dada pela Palavra, jamais poderemos ser justificados e não teremos como ter comunhão com Deus e Deus não ouve a pecadores (Is.59:2; Jo.9:31).

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar a Sua misericórdia, o que poderemos receber d’Ele? A sentença de morte, pois o que merecemos é isto. Sem a misericórdia divina, seremos consumidos (Lm.3:22,23)! Se alguém tiver alguma dúvida, é só contemplar os juízos divinos ao longo da história da humanidade, como o dilúvio e a destruição das cidades da planície (Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim).

    – Então, como podemos deixar de lado a graça, a paz e a misericórdia do Senhor para entabularmos com Ele um relacionamento baseado na “lei da reciprocidade”, num “toma-lá-dá-cá”, numa barganha, como defendem os “teólogos da prosperidade”? Isto não é senão jogar fora a oferta salvadora do Senhor?

    – A palavra “barganha” significa “fazer troca de mercadorias”, “comerciar”. Assim, para que se possa barganhar algo, é preciso que ambas as partes tenham algo a oferecer, tenham “mercadorias”.

    – Todavia, quando vemos o que a Bíblia diz a respeito de Deus, afirma-nos que tudo é d’Ele (Sl.24:1), inclusive os seres humanos. Assim, o que pode o homem oferecer a Deus. Mas, quando olhamos a Bíblia Sagrada, podemos perguntar, como o salmista: “Que darei eu ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?” (Sl.116:12).

    – O próprio salmista responde: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Pagarei os meus votos ao Senhor, agora, na presença de todo o Seu povo” (Sl.116:13,14). Ou seja: o salmista chegou à conclusão de que nada tinha a oferecer a Deus, já que tudo é d’Ele e, por isso, se contentaria em servir ao Senhor, apropriando-se da salvação (o que, como já vimos, é se arrepender dos pecados, converter-se e se manter em santidade até o fim) e cumprindo tudo quanto houvesse se comprometido a fazer diante do povo de Deus, de forma incondicional e sem esperar qualquer retribuição.

    – Segundo a “teologia da prosperidade”, Deus, ao ter feito promessas aos homens, é “obrigado” a cumpri-las, pois tais promessas teriam gerado “direitos”, que poderiam ser “cobrados” junto a Deus. Assim, segundo estes falsos ensinadores, o homem teria algo, sim, a saber: as “promessas de Deus”.

    – Entretanto, é princípio basilar do direito que só se podem exigir direitos da outra parte quando não se tem cumprido os seus. Então, como pode o homem cobrar algo de Deus se não tem cumprido a sua parte na aliança? O homem jamais cumpriu os pactos celebrados com Deus, não tem condição de fazê-lo por si só. Como, pois, poderia cobrar algo de Deus?

    – Mas, dizem os “teólogos da prosperidade”, que, quando o homem dá dízimos, ofertas, cumpre votos financeiros, está em condições de “exigir” aspromessas de Deus. MS, perguntemos: de quem é o ouro e a prata? De Deus ou dos homens? A Bíblia nos responde: de Deus (Ag.2:8). Se damos algo a Deus, isto, como nos ensina Davi, só é possível porque, antes, Deus no-lo deu (I Cr.29:10-14). Então, quando alguém faz estas coisas, não está dando coisa alguma a Deus, porque não lhe pertence, mais, sim, ao Senhor e, por isso, como poderá cobrar algo em troca?

    – Mas, há ainda uma outra coisa, já analisada no estudo deste trimestre: muitas das propaladas “promessas de Deus” simplesmente inexistem para os que são salvos em Cristo Jesus. O bem prometido pelo Senhor, como já tivemos ocasião de ver neste próprio estudo, é a vida eterna, dom que é gratuito, ou seja, que não exige coisa alguma em troca. As riquezas, a imunidade às doenças não fazem parte destas “promessas” de que seriam os crentes titulares.

    – Pelo que se observa, portanto, o raciocínio da “lei da reciprocidade” e da “teologia da barganha” é completamente antibíblico. Parte-se de uma inexistente situação de igualdade entre Deus e o homem; de uma inexistente situação de “legalidade”, abrindo-se mão da graça, paz e misericórdia de Deus; da inexistente condição de o homem poder cumprir, por si só, a sua parte na aliança firmada com o Senhor e de inexistentes promessas de riquezas materiais e imunidade a doenças para se defender um “toma-lá-dá-cá”. Um verdadeiro “imbroglio” “sem pé nem cabeça”, cuja única finalidade é enriquecer alguns que, esperta e malandramente, têm amealhado fortunas com estes falsos ensinos.

    – Jamais nos esqueçamos de que o nosso relacionamento com Deus é fruto da Sua graça, paz e misericórdia e de que o que Deus nos promete é o “nosso bem”, ou seja, a “vida eterna”. Isto Ele certamente cumprirá, devendo nós, ante a nossa total impotência, tão somente nos apropriar da fé que Ele nos deu pela Sua Palavra, crermos em Cristo Jesus, arrependermo-nos de nossos pecados, convertermo-nos de nossos maus caminhos e nos mantermos em santidade, temendo ao Senhor, até o dia em que Ele nos levará para os céus, pois, quem perseverar até o fim será salvo (Mt.24:13). Esta é a nossa parte na aliança. Estamos dispostos a permanecer fiéis até o fim?

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

    (mais…)

  • LIÇÃO 7 – “TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE”

    Deus nos fortalece não para sermos super-homens, mas para tudo suportarmos até nossa ida para o céu.

    INTRODUÇÃO

    – Na continuidade do estudo dos falsos ensinos da teologia da prosperidade e sua refutação bíblica, analisaremos o triunfalismo, que tem na expressão retirada do contexto da epístola de Paulo aos filipenses que dá título a esta lição um dos principais bordões.
    – As palavras de Paulo nada têm que ver com o triunfalismo propalado pelos teólogos da prosperidade, mas, vistas no contexto, ensina-nos que o salvo sabe tudo suportar, inclusive e em especial as adversidades, na sua jornada terrena para o céu.

    I – O TRIUNFALISMO E SEU FALSO PRESSUPOSTO

    – Um dos mais funestos efeitos da teologia da prosperidade e a sua forma de execução é o “triunfalismo”, que é um comportamento de sutileza típica: aproveitando-se das circunstâncias que estão ao redor do crente, o adversário levanta homens e mulheres que geram expectativas de um “paraíso na terra”, desviando os olhares do povo daquilo que é relevante e permanente: a vida eterna.

    – Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa,  a palavra “triunfalismo” surgiu em nosso idioma em 1965, com o significado de “atitude, crença ou doutrina de que determinado credo religioso é superior a todos os outros”. Mas, em 1980, adquiriu novo significado, a saber, “atitude excessivamente triunfante; sentimento exagerado de triunfo”. Já na própria história da palavra, vemos como é recente a sua infiltração no meio do povo de Deus e como se teve uma distorção dos corretos ensinos provenientes das Escrituras Sagradas.

    – A palavra “triunfalismo” advém de “triunfo”, palavra de origem latina, “triumphus”, que era o nome que recebia “a entrada solene em Roma de um general vitorioso”, e que, por extensão, passou a significar “vitória”. Em Roma, além da entrada solene em Roma, era costumeiro construir “arcos do triunfo”, ou seja, “…um tipo de monumento introduzido pela arquitetura romana originalmente utilizado como um símbolo da vitória em uma determinada batalha. Cada arco do triunfo romano, portanto, remete-se a uma batalha e a um imperador específicos na história romana e sua memória era celebrada através desta construção.…” (WIKIPEDIA. Arco do triunfo.  http://72.14.203.104/search?q=cache:qJ8-DhbWAdgJ:pt.wikipedia.org/wiki/Arco_do_Triunfo+%22arco+do+triunfo%22&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=1  Acesso em 26 abr. 2006).

    – Ao falarmos em “triunfalismo”, portanto, estamos nos referindo a “uma atitude excessivamente triunfante”, a um “sentimento exagerado de triunfo” que tem tomado conta da vida de muitos crentes, que, insuflados por pregadores de um falso evangelho, evangelho este baseado na “teologia da prosperidade”, passam a se considerar “supercrentes”, pessoas que se encontram acima das dificuldades e das adversidades da vida e que, portanto, confundem vida espiritual com prosperidade material e imunidade aos males desta vida.

    – O “triunfalismo” é uma atitude típica dos chamados “movimentos da fé” ou “teologia da prosperidade”. Como já tivemos ocasião de observar neste trimestre, esta falsa doutrina parte da noção de que, na criação do homem, Deus entregou ao homem o domínio sobre a criação terrena, dando-lhe, pois, “direitos” que ele pode reivindicar diante da Divindade. Tanto assim é que, quando do episódio da queda, o que teria havido seria um “legítimo direito” do homem em transferir a Satanás o domínio desta mesma terra. Evidentemente que Deus não iria permitir isto e, por isso, teria elaborado o plano da salvação do homem, a fim de que o homem pudesse, legalmente, reaver o que havia transferido ao diabo.

    – Como Jesus veio ao mundo e cumpriu este desejo do Senhor, o homem que aceita a salvação teria retornado a esta qualidade de “detentor de direitos” diante de Deus e, por isso, não há que se falar em adversidades, dificuldades ou quaisquer outros problemas para o salvo, uma vez que ele tornou a ter os “direitos” que lhe advieram pela “nova criação”. É a partir deste conceito, pois, que surge, no bojo da “teologia da prosperidade”, um triunfalismo, vez que o salvo se sente um “mais do que vencedor”, alguém que “triunfou sobre o diabo” e que, por isso, não tem mais que “pagar coisa alguma ao diabo”, que tem, simplesmente, de “fazer o diabo desaparecer da sua vida, dos seus bens, da sua família e da sua saúde”.

    – Não obstante, não é isso que dizem as Escrituras Sagradas. Relembrando o que já estudamos, vemos que, em primeiro lugar, o homem não é portador de qualquer “direito” diante de Deus. Quando da criação, Deus fez o homem um simples “mordomo”: o domínio sobre a criação terrena não significa, em absoluto, propriedade, mas, sim, poder de administração. Tanto assim é que o homem foi feito “imagem e semelhança de Deus”, ou seja, embora tivesse pontos de contacto com o Senhor, não fora equiparado a Ele, o que, a propósito, é reconhecido pelo próprio Satanás que, valendo-se desta diferença entre Deus e os homens, levou o primeiro casal a desejar ser igual a Deus (cf. Gn.3:5).

    – Ao se verificar o texto de Gn.1:26, vemos que, no hebraico, o verbo utilizado para designar o “domínio” do homem é “radah”(???), ou seja, “governar”, “dar regras”, que, na versão grega da Septuaginta é “archétosan” (?????????), que também significa “governar”, “administrar”. Não bastasse este significado, o texto bíblico mostra claramente que Deus mantém o controle de toda a situação, seja porque, encontramos Deus ordenando ao homem (Gn.2:15-17), seja porque a narrativa bíblica demonstra que o homem só exerce suas faculdades mais excelentes, entre as quais, a de dar nome aos demais seres (que é o símbolo de sua superioridade), sob os auspícios e a devida supervisão do Senhor (cf. Gn.2:19-23).

    – Como se ainda isto não fosse suficiente, as Escrituras são claras ao afirmar que, enquanto o homem tem o governo sobre a criação terrena, o reino, a soberania permanece sendo de Deus, o “dono”, o “proprietário”, ou seja, aquele que tem “poder absoluto sobre a coisa”, pois esta é a noção de propriedade. É o que se verifica no Sl.24:1; 47:8; 59:13; 93:1; 96:10; 97:1; 99:1; Is.52:7 e Ap.19:6, entre outras referências. Nestes trechos, aliás, os verbos são diversos, pois dão a ideia do domínio absoluto. É o verbo “reinar” que está em foco, que, em hebraico é “mashal”(???) e, em grego, “ebasileuein” (???????????).

    – O “triunfalismo”, portanto, perde já na sua base, pois todo o edifício que dá ao homem uma qualidade de “supercrente” parte do pressuposto de que ele é “detentor de direitos” diante de Deus e que, por isso, Deus é “obrigado” a praticar determinadas ações em favor dos “salvos”, por força dos “direitos” existentes no relacionamento entre Deus e a humanidade. Nada mais falso. Se é verdade que Deus nos resgatou do pecado e da perdição eterna, fê-lo porque é amoroso e tudo nos concede por “graça”, ou seja, “favor não merecido”, conceito bem diverso do de “direito”. Para nos utilizarmos da linguagem jurídica, tão ao gosto dos “triunfalistas”, a salvação do homem e as bênçãos decorrentes dela são fruto de uma “liberalidade” divina, não de uma “obrigação”.

    OBS: “Liberalidade”, como nos diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa é “ disposição daquele que, em seus atos ou em suas intenções, dá o que não tem obrigação de dar e sem esperanças de receber nada em troca”. (grifo nosso)

    – A ideia de “triunfo” por parte do ser humano é alheia ao texto bíblico. Na Versão Almeida Revista e Corrigida, a única vez em que aparece a palavra “triunfo” é no Sl.47:1, tradução esta, entretanto, que não é a melhor, vez que a palavra hebraica “rinnah”(???) significa “voz alta”, “clamor”, “alegria”, “júbilo”, sendo estas as palavras utilizadas pelas demais versões, a começar da Almeida Revista e Atualizada.

    – O verbo “triunfar” aparece em dois versículos da Versão Almeida Revista e Corrigida. A primeira vez, em Mt.12:20, quando o evangelista faz referência a uma profecia de Isaías, dizendo que o “servo do Senhor” (ou seja, o Messias) iria “triunfar em juízo”, palavra repetida pela Tradução Brasileira, mas que é tradução de “nikos” (?????), que significa “vitória”, tanto que a Versão Almeida Revista e Atualizada prefere utilizar a palavra “vencedor”. De qualquer maneira, quando se fala em “triunfo”, está-se referindo a Jesus, Ele, sim, o triunfante contra o mal e o pecado.

    – A segunda vez que se fala em “triunfar” na Versão Almeida Revista e Corrigida é no texto de II Co.2:14, um dos textos mais caros aos “triunfalistas”, onde temos o verbo grego “thriambeuonti” (????????????), cujo significado é, efetivamente, “triunfar”. Para que verifiquemos se, neste texto, encontramos base para o pensamento triunfalista, nada melhor que transcrevê-lo para uma devida análise de sua literalidade:

    E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar o cheiro do seu conhecimento.

    – Neste texto, é inegável que a ideia do triunfo está associada à imagem da entrada do general vitorioso em Roma. Temos, assim, a verdadeira reprodução, na Bíblia Sagrada, da cena que dá origem ao “triunfo”. Mas, então o crente pode se comportar como um verdadeiro “general vitorioso”, que entra na sua cidade orgulhoso de sua condição de vitória, pronto a desfrutar das benesses dela decorrentes, ou seja, dos “direitos” resultantes da sua vitória militar, o que, em Roma, quase sempre, significa concessão de poder e de autoridade?

    – A despeito de ter sido esta a interpretação dada pelos “triunfalistas”, o texto não nos autoriza a pensar desta maneira. O apóstolo Paulo, ao nos trazer a imagem do triunfo, está, sim, pondo o crente não na posição do general vitorioso, mas, ao contrário, o crente, diz Paulo, faz parte do “despojo” do vitorioso. Com efeito, quando o general ingressava em Roma, no seu “triunfo”, era seguido pelos bens e prisioneiros que eram capturados durante a guerra.

    OBS: Flávio Josefo dá-nos uma ideia de como isto se dava, quando descreveu o “triunfo” de Tito, o general que destruiu Jerusalém e o templo no ano 70. Diz o historiador judeu: “…O dia de pompa tão soberba chegou e não houve uma só pessoa naquela infinita multidão de povo, que enchia toda Roma, que não quisesse presenciá-la.(…). É impossível descrever a magnificência desse festejo triunfal.(…). Viam-se todas as espécies de vestuários de púrpura (…). Havia estátuas de deuses, das diversas nações, de tamanho surpreendente.(…). Havia ainda várias espécies de animais raros e estimados, pela sua qualidade(…). Nada, porém, causava tanta admiração aos espectadores do que as diversas representações, como grandes armações de três ou quatro andares.(…). Eram imagens de cenas da guerra, as mais notáveis representadas ao natural.(…). Sobre cada uma dessas cidades, estava representado aquele que as havia defendido e de que maneira havia sido aprisionado. Vinham em seguida vários navios; entre a grande quantidade de despojos, os mais notáveis, eram os que tinham sido feitos no templo de Jerusalém; a mesa de ouro, que pesava vários talentos, o candelabro de ouro, feito com tanta arte(…). Simão, filho de Gioras, que depois de ter tomado parte no desfile triunfal, entre os outros escravos,…” (JOSEFO, Flávio. Tradução de Vicente Pedroso. Guerra dos judeus contra os romanos VII, 16,17. In: História dos hebreus, v.3, p.197-8).

    – Ao dizer que Deus nos faz “triunfar em Cristo”, o apóstolo está nos dizendo que fazemos parte do “despojo” de Cristo, ou seja, somos o resultado da Sua vitória sobre o mal e o pecado, da Sua vitória sobre o adversário das nossas almas. O crente é um troféu que Cristo apresenta a Deus como prova da Sua vitória sobre o adversário das nossas almas. Daí porque a expressão da Versão Almeida Revista e Atualizada, qual seja, “nos conduz em triunfo” ou, na Nova Versão Internacional, “nos conduz vitoriosamente em Cristo”, ou seja, somos parte do espetáculo que Deus mostra a todo o universo para celebrar a vitória de Cristo sobre a morte e o inferno. Não é por outro motivo que o escritor aos hebreus nos traz a expressão que Cristo diz ao Pai: “Eis-Me aqui a Mim e aos filhos que Deus Me deu” (Hb.2:13 “in fine”), repetindo as palavras do profeta Isaías (Is.8:18a).

    – Destarte, também este texto, em absoluto, põe o salvo no lugar do “general vitorioso”, nem estabelece qualquer base para que “esmaguemos a cabeça da serpente”, “amarremos o diabo”, ou, muito menos, “exijamos os nossos direitos” diante de Deus, mas, tão somente serve para nos mostrar que o vitorioso é Cristo e que, graças à Sua vitória, fomos por Ele conquistados para desfrutar, na Sua companhia, da vida eterna na cidade celestial.

    II – A VIDA DE COMUNHÃO COM DEUS NÃO NOS IMPEDE DE TERMOS ADVERSIDADES NESTA VIDA

    – A base do “triunfalismo” é dizer que, a partir do momento em que o homem aceita a Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador, não é mais possível que o homem passe a ter problemas na vida sobre a face da Terra, pois a sua comunhão com Deus, a sua salvação lhe traz uma posição de “triunfo”, de vitória sobre o diabo. Portanto, é impossível que o salvo venha a sofrer enfermidades ou quaisquer outras necessidades, em especial, as relativas à vida econômico-financeira.

    – Este raciocínio é antiquíssimo, já se encontrava na teologia distorcida dos “amigos de Jó” e, conforme já foi visto neste trimestre, não representa um pensamento correto a respeito de Deus, como o denunciou o próprio Senhor em Sua conversa com Elifaz (Jó 42:7).

    – A salvação é a maior bênção que um mortal poderia receber. Ela é a solução para o problema insolúvel do homem, qual seja, a sua separação de seu Criador por causa do pecado. Sem condições de resolver esta questão, o homem estava irremediavelmente perdido, mas Deus, desde o instante em que sentenciou o homem pelo seu pecado, prometeu reverter o quadro, o que se deu na pessoa de Cristo Jesus.

    – Assim, a salvação é, sobretudo, uma bênção espiritual, tem a ver com o reatamento do relacionamento entre Deus e o homem e isto é o mais importante, pois a questão da eternidade é fundamental para o ser humano, que não foi criado para deixar de existir, mas cuja existência perdurará para sempre, na companhia de Deus, ou não.

    – Não é por outro motivo que a questão relativa à vida eterna tem de ser tratada prioritariamente pelo ser humano. As Escrituras não cessam de mostrá-lo ao longo de suas páginas. Desde Abel, a Bíblia não nos cansa de mostrar que o segredo da vitória do homem está em buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça (Mt.6:33). Segundo Jesus nos mostrou no sermão do monte, é este o fator distintivo entre os “gentios”, entendidos estes como os que não têm compromisso com Deus e os verdadeiros adoradores do Senhor.

    – Aceitando a Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador, ocorre o maior milagre que poderia acontecer, qual seja, o de passarmos da morte para a vida (Jo.5:24), de sair das trevas e ir para a luz (Jo.3:20,21), tornando-se novas criaturas (II Co.5:17; Gl.6:5), cuja posição, agora, é a de estar nos lugares celestiais em Cristo, onde é abençoado com toda a sorte de bênçãos espirituais(Ef.1:3).

    – Notamos, portanto, que, de pronto, a promessa de Deus que advém da salvação é a do desfrute de todas as bênçãos espirituais. Não há qualquer registro nas Escrituras de promessa de “todas as bênçãos materiais”, mas, sim, de “todas as bênçãos espirituais”. É esta a promessa dada por Deus e Ele vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12). As Escrituras, coerentemente, dão a devida importância e relevância para o aspecto espiritual, pois é isto que temos de buscar em primeiro lugar, isto é o que importa. Aliás, foi esta a ordem de Cristo: “Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará, porque a este o Pai, Deus, o selou” (Jo.6:27).

    – Não só o crente deveria se preocupar em ter uma vida espiritual abundante, cada vez mais crescente, como também deveria, em sua vigilância contínua, zelar, prioritariamente, também pelo seu bem-estar espiritual. É, também, orientação do Senhor: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer, no inferno, a alma e o corpo” (Mt.10:28). Como podemos verificar, a preocupação do cristão deve ser com a sua vida eterna, com o seu relacionamento com Deus, deixando todas as demais coisas, conquanto necessárias, num segundo plano.

    – Esta é a mesma conclusão que tiramos da vida do mais sábio homem que houve sobre a Terra, depois de Jesus. Salomão, no seu livro da velhice, o livro de Eclesiastes, com a autoridade que tem alguém que recebeu de Deus todas as bênçãos materiais possíveis, diz, ao término de sua pregação, que, diante de todas as bênçãos materiais recebidas, de tudo o que granjeou e desfrutou, chegava à conclusão seguinte: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os Seus mandamentos, porque este é o dever de todo o homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Ec.12:13,14). Ao verificar toda “a vida debaixo do sol”, que é o tema do livro de Eclesiastes, Salomão concluiu que tudo o que importa é o nosso relacionamento com Deus, o dever de todo o homem de obedecer-Lhe, pois é diante do Senhor que nos apresentaremos para prestar contas daquilo que fizemos nesta vida

    – Dentro desta perspectiva é que devemos entender que, sobre a face da Terra, a vida nos reserva tanto alegrias quanto tristezas, tanto dias bons quanto dias maus. Quando vemos o que a Bíblia diz a respeito disto, constatamos, para desmentido dos triunfalistas, que o justo não está livre de sofrer contratempos na vida, de ter problemas e dificuldades. As Escrituras, quando falam da adversidade, nunca excluem o justo dele. Senão

    vejamos:

    – No Sl.27:5, o salmista diz que, o dia da adversidade, será escondido no pavilhão de Deus, ou seja, além de o salmista admitir que sofrerá esta adversidade, ainda nos informa que esta adversidade tanto não é prova de que está sem Deus, que será o próprio Deus quem o acalantará durante este período difícil da sua vida. Nem se diga que se trata de um “derrotista”, de um “crente sem fé”, como costumam dizer os triunfalistas, pois quem escreveu este salmo foi Davi, um “homem segundo o coração de Deus”, um exemplo de guerreiro e de vencedor de batalhas e, como se isto não bastasse, num salmo em que se louva a falta de medo, em que se louva a coragem daquele que confia em Deus. Entretanto, a coragem, a fé em Deus não retiram o fato de que o justo passa, sim, por problemas e dificuldades e disto Davi dá testemunho na sua vida.

    – No Sl.35:5, o salmista não só fala que o justo passa por adversidade, como ainda que, por causa da adversidade, os seus inimigos se vangloriavam e festejavam. O salmista, apesar desta situação aflitiva e de confiar que ela será revertida, não deixa de mostrar que se encontra em comunhão com o Senhor, que se humilha e jejua na presença de Deus, não tendo, pois, perdido a sua salvação. Isto, porém, não impediu que houvesse a adversidade.

    – Em Ec.7:14, é dito que Deus fez tanto o dia da prosperidade, quanto o dia da adversidade e, com uma finalidade, a saber: “para que o homem nada ache que tenha de vir depois dele”. Assim, um dos motivos pelos quais Deus permite a todo ser humano passar por adversidades é para que entenda a efemeridade da existência sobre a Terra e o seu correto lugar na ordem do universo. O sábio, pois, faz questão de nos mostrar que esta sucessão de dias se dá a todo o ser humano, indistintamente, seja ele alguém que serve a Deus, seja ele alguém que não O serve.

    – Mas, dirá alguém, que, quando se fala em adversidade, temos o Sl.10:6, onde é dito que “Não serei abalado, porque nunca me verei na adversidade”. Tal pensamento, bem apropriado para os “triunfalistas” que, como veremos, são mestres na arte de retirar textos fora do contexto nas Escrituras para alicerçar seus conceitos, não resiste a uma análise superficial. Quem diz que nunca estará em adversidade, à moda dos triunfalistas? São os ímpios, como vemos a partir do Sl.10:2, onde é dito que “os ímpios, na sua arrogância, perseguem furiosamente o pobre”; no Sl.10:3, diz-se que “o ímpio gloria-se do desejo da sua alma”; no Sl. 10:4, “por causa do seu orgulho, (…) não investiga,…”; no Sl. 10:5, “os seus caminhos são sempre atormentadores”, para então, no versículo 6, dizer que “não será abalada, nunca se verá na adversidade”. Temos, pois, que o texto, tão do gosto dos triunfalistas, mostra-nos, bem ao contrário do que eles desejam, que a ideia de que não se passará jamais por adversidade é uma ideia típica de quem não serve a Deus, é a ideia típica do arrogante, do autossuficiente, daquele que “dispensa Deus” das suas vidas, do orgulhoso, do pecador.

    OBS: A Nova Versão Internacional apresenta um texto que bem traduz as pregações dos triunfalistas dos nossos dias: “…’Nada me abalará! Desgraça alguma me atingirá, nem a mim nem aos meus descendentes’…” (Sl.10:6).

    – O que verificamos, neste Salmo 10, é uma das muitas lições da Bíblia a respeito da evidência de que o justo, apesar de ser justo, nem por isso está livre de passar por adversidades. A “vida debaixo do sol” possui esta característica. Jesus disse aos discípulos que, no mundo, teriam aflições (Jo.16:33), ou seja, “thlipsis” (???????), cujo significado é “angústia”, “problema”, “tribulação”, “perseguição”, expressão que designava o ato de moer o grão para produção de farinha. Tal palavra foi dada aos discípulos, isto é, aos que serviam a Jesus. Esta foi a única garantia e certeza dada por Cristo aos Seus, sendo até uma das “bem-aventuranças” mencionadas no introito do sermão do monte, qual seja, a dos injuriados e perseguidos por causa do nome de Jesus (Mt.5:11,12), como vimos na lição anterior.

    – Como, então, dizer que o crente, se em comunhão com Deus, jamais sofrerá dificuldades? Como afirmar, com base nas Escrituras, que a vida do salvo é imune a qualquer tipo de problema, seja ele enfermidade, conflito familiar, injustiça, carência econômico-financeira, carência afetiva ou outras coisas mais?

    – No mesmo sermão do monte, Jesus fez questão de ensinar Seus discípulos de que as dificuldades ocorridas durante a “vida debaixo do sol” ou “vida debaixo do céu” (Ec.1:13) são de três origens, que tanto ocorrem para os sábios, que são os servos do Senhor, como para os insensatos, que são aqueles que não servem a Deus, a saber (Mt.7:25,27):

    a) dificuldades surgidas por ação direta de Deus, as chamadas provações divinas, que foram representadas pelo Senhor pela chuva, que vem do céu.

    b) dificuldades surgidas por ação direta das hostes espirituais da maldade, as chamadas tentações ou ações malignas, que foram representadas pelo

    Senhor pelos rios, que vêm de debaixo do solo, das regiões inferiores.

    c) dificuldades surgidas da aplicação da “lei da ceifa” (Gl.6:7), ou seja, consequências das atitudes dos próprios homens na sua convivência com o semelhante, que foram representadas pelo Senhor pelos ventos, que vêm dos lados e que, já dizemos agora, embora seja assunto da próxima lição, nada tem que ver com a suposta “lei da reciprocidade” propalada pelos teólogos da prosperidade.

    – Um dos graves erros dos “triunfalistas” está em repetir o gesto do ímpio do Salmo 10, que “não investiga”, ou seja, dentro da teoria “triunfalista”, todo e qualquer mal que sobrevém ao crente seria uma “obra de Satanás”, uma “obra demoníaca”, motivo por que se deve “determinar”, ou seja, na definição dada por R.R. Soares, “… não é ordenar a Deus e sim ao diabo que tire de nós suas garras e desapareça de nossas vidas, de nosso dinheiro e de nossas famílias.” (Curso Fé. Aula 1. Determinação. http://www.ongrace.com/cursofe/licoes.php?id=1 Acesso em 20 abr. 2006).

    – Contudo, Jesus nos ensina que nem sempre uma adversidade é resultado da obra do inimigo. Muito pelo contrário, muitas vezes estamos a padecer por causa de atitudes que nós mesmos tomamos ao longo de nossas vidas, esquecendo-se de que o controle de todas as coisas está nas mãos do Senhor, que não Se deixa escarnecer e que faz valer a Sua soberania, inclusive para que haja o cumprimento da Sua Palavra. Em outras oportunidades, o que está acontecendo nada mais é que uma provação divina, uma permissão divina de sofrimento ao justo para que, por meio desta tribulação, este Seu servo adquira paciência, experiência e esperança, tudo tendo em vista o seu crescimento espiritual (Rm.5:3,4).

    – Não podemos agir como os ímpios, mas, diante de uma dificuldade ou adversidade, proceder a uma investigação, a uma apuração dos fatos, como nos dá a entender o verbo hebraico “darash”(???). É preciso que, ante um problema, paremos e nos examinemos, verifiquemos qual é a causa, a razão de estarmos a passar por isso. Se não for encontrado um caminho mau em nós, após esta sondagem profunda, não só empreendida por nós, mas que encontre, também, a ajuda do Espírito de Deus (cf. Sl.139:23,24), então saberemos que se trata de uma prova divina e, como tal, devemos suportá-la, sabendo que tudo o que se passar será para o nosso bem (Rm.8:28).

    – Os “triunfalistas”, porém, trazem um outro conselho, verdadeiro conselho de ímpio (Sl.1:1), que deve ser evitado, que é o de “determinar”, “recusar”, “não aceitar” a dificuldade. Para tanto, como entendem que tudo o que sobrevier ao crente salvo será obra maligna, exigem que expulsemos o adversário e, “usando da fé”, repudiemos o maligno, usando a “autoridade” que tem o verdadeiro e genuíno crente. Tal situação somente valerá para as hipóteses em que se estiver diante de uma tentação, de uma obra maligna, quando, então, no nosso autoexame, recorrendo ao Senhor, teremos o livramento COMO e QUANDO o Senhor assim o desejar. Se, no entanto, tratar-se de aplicação da “lei da ceifa”, como podemos resistir ao Senhor e à soberania da Sua Palavra? (II Cr.20:6; At.11:17) De igual modo, como lutar contra a provação que nos é posta pelo próprio Deus?

    – “Enfrentar Deus”, “pôr Deus contra a parede”, como defendem os triunfalistas é um comportamento reprovável e absurdo. É a conduta que os ímpios, como nos mostra o Salmo 10, tomam, já que, “em sua presunção, o ímpio não O busca; não há lugar para Deus em nenhum dos seus planos.” (Sl.10:4 NVI). No entanto, como Deus é prioridade em nossos corações, como é Ele a nossa própria razão de viver, jamais poderemos agir como se não O levássemos em consideração. Todavia, é assim que os triunfalistas nos mandam agir, o que, não é preciso sequer dizermos, será a causa de nossa ruína, pois um tal proceder é pura rebelião, e, como sabemos, “…a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria…” (I Sm.15:23 “in medio”). Que Deus nos guarde, pois, porque, como sabemos, os feiticeiros e os idólatras ficarão do lado de fora da cidade santa (cf. Ap.21:8; 22:15).

    – Não fossem já estes conceitos que extraímos da Palavra do Senhor suficientes para demonstrar que a vida espiritual não significa, em absoluto, imunidade a dificuldades e adversidades ao longo da vida, o fato é que a Bíblia, também, nos dá muitos exemplos de homens e mulheres de Deus que, apesar de sua vida de comunhão com o Senhor, sofreram terrivelmente e não foram poupados de adversidades e de problemas na sua “vida debaixo do sol”.

    – É até interessante observar que, na galeria dos chamados “heróis da fé”, ou seja, o capítulo 11 da epístola aos Hebreus, que é como que um “desfile triunfal” dos servos de Deus, uma demonstração de que vale a pena ter fé em Deus, o escritor, a despeito de considerá-los homens e mulheres dignos de nota, verdadeiras testemunhas do Senhor que animam os crentes de todas as gerações a ter uma vida de comunhão com Deus (cf. Hb.12:1-3), não deixa de mostrar que este heroísmo, este triunfo não representou qualquer isenção, por parte de Deus, de dificuldades ou de tribulações, muitas das quais sem sequer a reversão do quadro desfavorável quando o servo do Senhor ainda em vida se encontrava.

    – Assim, a começar por Abel (um dos quais o quadro desfavorável não foi revertido, vez que, pela sua justiça, foi morto sem que tivesse sequer chance de “triunfar”), o escritor fala-nos de diversas personagens, os quais, como aduz ao término da exposição, “…experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb.11:36b-39). Onde, pois, a imunidade diante da adversidade de quem serve a Deus? Não eram todos estes “heróis da fé”? Não são todos estes “testemunhas” que servem de estímulo para nós? Por que, então, não “determinaram” e evitaram o mal sobre suas vidas? Temos, assim, a prova cabal de que a vida de comunhão com Deus jamais significou a impossibilidade de sofrer adversidades e problemas e, por vezes, até mesmo a morte sem que tivesse havido a suplantação da situação adversa.

    – Diante de tão explícito texto, não demoram os triunfalistas em alegar que o escritor aos hebreus está a narrar a situação “antes da morte de Cristo”, quando o “mundo ainda estava legalmente nas mãos de Satanás”. Nada mais falso. Estes homens e mulheres mencionados pelo escritor aos hebreus são os “heróis da fé”, ou seja, embora tenham vivido antes da realização da redenção pelo Senhor Jesus, nela creram e, por causa desta fé, são também santos e se encontram num estado de salvação igual ao nosso. Quem o diz é o próprio escritor, na continuação do texto do capítulo 11, “in verbis”: “Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados”. Como se percebe, tanto estes “heróis” quanto nós devemos ser “aperfeiçoados”, ou seja, gozamos da mesma condição espiritual.

    – Mas os triunfalistas prosseguem, dizendo que o texto nos fala de “alguma coisa melhor a nosso respeito” e esta “coisa melhor” seria a imunidade às “obras do mal”. Na nova aliança, dizem eles, não há que termos o mesmo sofrimento dos patriarcas e dos profetas, pois existe “alguma coisa melhor”. Não resta dúvida de que o escritor aos hebreus nos diz que existe “alguma coisa melhor”. Aliás, esta “alguma coisa melhor” é, precisamente, a mensagem de todo o livro, pois podemos resumir a mensagem crística de Hebreus nas palavras “Jesus é melhor”.

    – Esta “alguma coisa melhor” não é, para tristeza dos triunfalistas, a imunidade a provações ou dificuldades, mas o próprio Jesus. Como, na continuação do texto, mostra-nos o escritor da carta, os crentes, ao contrário dos “heróis da fé”, têm, além do testemunho dos próprios heróis, o exemplo de Jesus (Hb.12:2,3), que foi revelado à Igreja e que ainda não havia sido plenamente revelado aos santos do Antigo Testamento. Esta “alguma coisa melhor” é a possibilidade que temos de olhar para Jesus, que a nós foi revelado, algo que foi muito desejado, mas não alcançado por aqueles justos (Mt.13:17; Lc.10:24) e, diante deste olhar, nos mantermos firmes, apesar de todas as provações e dificuldades que venhamos a enfrentar. Provações e dificuldades? Sim, pois, também para tristeza dos triunfalistas, o escritor aos hebreus, ao falar do exemplo de Cristo, anima os crentes hebreus a resistir na fé apesar de todas as adversidades (Hb.12:4).

    – Por fim, para provarmos que as dificuldades e as adversidades não são coisas que caracterizaram o Antigo Testamento, como defendem os triunfalistas, basta mencionarmos as aflições e sofrimentos dos apóstolos e demais discípulos na igreja primitiva, como o martírio de Estêvão e de Tiago, sem falar nas diversas adversidades do ministério de Paulo (II Co.11:23-27). A conclusão só pode ser, pois, uma: a Bíblia nunca ensinou que o crente não sofre por ter fé em Deus.

    III – O CONTEXTO DA EXPRESSÃO “TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE”

    – Depois de termos visto que o “triunfalismo” não tem qualquer respaldo bíblico, resta-nos analisar este verdadeiro “mantra”, como bem salientou o comentarista, que se tornou o texto de Fp.4:13, o nosso texto áureo e de onde se extraiu o texto desta lição: “Posso todas as coisas n’Aquele que me fortalece”.

    – De forma sutil, os “triunfalistas” tomam este texto isoladamente e, com base nele, dizem que os crentes podem todas as coisas, que, estando em Jesus, são invulneráveis, não podem mais sofrer coisa alguma, removem todo e qualquer obstáculo.

    – Já pelo que vimos neste estudo, compreendemos que uma doutrina assim extraída de Fp.4:13 não tem qualquer fundamento, pois contrariaria toda a Bíblia Sagrada, sem falar que nenhuma doutrina pode ser constituída nas Escrituras com base em um único texto e, mais ainda, fora do contexto.

    – Este ensino que tanto tem perturbado a vida espiritual de milhões de crentes, no entanto, não se estriba sequer no versículo utilizado, pois o contexto do capítulo 4 de Filipenses antes infirma do que confirma o triunfalismo.

    – Por primeiro, lembremos que a carta que Paulo escreveu aos filipenses é uma das “epístolas da prisão”, ou seja, uma das cartas que o apóstolo escreveu quando se encontrava preso em Roma, a sua primeira prisão, Roma que era a etapa final de anos de encarceramento, como vemos registrado a partir do capítulo 21 do livro de Atos dos Apóstolos.

    – Assim, logo de início vemos que jamais o apóstolo Paulo, na condição de preso há anos em virtude do Evangelho, poderia dar um ensino de que nenhuma adversidade pode vir à vida do crente, se ele mesmo se encontrava preso por causa do Evangelho

    – Não bastasse isso, no limiar da carta que Paulo escreve aos filipenses, entendemos o motivo pelo qual o apóstolo escreveu aquela epístola: os filipenses estavam tristes e abalados na fé por causa desta prolongada prisão de Paulo. Paulo lhes escreve exatamente para que eles pudessem entender que o fato de Paulo estar passando por adversidade em nada retirava o poder do Evangelho e, mais ainda, não deveria ser motivo de tristeza mas de alegria.

    – Como, numa carta em que o apóstolo procura mostrar aos filipenses que a adversidade por que passava era motivo de alegria e não de tristeza, poderia o apóstolo ensinar que o crente não passa por dificuldades, e que, se houver adversidade, é porque há pecado? Um total contrassenso que só pode ser defendido por pessoas como os teólogos da prosperidade…

    – Assim é que o apóstolo afirma aos crentes de Filipos: “…E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do Evangelho…” (Fp.1:12), ou ainda, “…E muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões, ousam falar a Palavra mais confiadamente, sem temor.…” (Fp.1:14).

    – O apóstolo ainda mostra aos filipenses que, apesar de toda aquela adversidade ter contribuído para o bem da obra da Deus, o apóstolo não tinha também apego às coisas desta vida. Bem ao contrário do que prega a teologia da prosperidade, Paulo mostrou que a sua esperança não estava nesta vida, embora desejasse viver mais um pouco e tivesse a certeza de que isto iria ocorrer: “…Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne. E tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós para proveito vosso e gozo da fé.…” (Fp.1:21-25).

    – Paulo, pois, não estava “determinando” a sua libertação para “fazer a obra de Deus”. Não estava dizendo para o diabo retirar as suas cadeias, porque já era “salvo” e tinha “direitos” diante de Deus, mas, ao revés, entendia que Deus queria que ele fosse mantido preso, pois isto contribuía para o desenvolvimento da evangelização e que, embora seu desejo fosse ir para o céu, ainda importava que ficasse mais algum tempo fazendo a obra do Senhor sobre a face da Terra.

    – Nesta carta, o apóstolo deseja alegrar os filipenses, retirar-lhes daquela tristeza que a sua prisão lhes causava. Por isso, afirma àqueles crentes que “se regozijassem no Senhor” (Fp.3:1), regozijo que deveria ocorrer mesmo que Paulo fosse martirizado (Fp.2:17,18).

    – O apóstolo faz questão de mostrar aos crentes de Filipos que a vida cristã também envolve adversidades. Após ter mostrado aos filipenses que eles deveriam portar-se dignamente conforme o evangelho de Cristo (Fp.1:27), fez questão de lhes dizer que o crente é chamado tanto para crer em Jesus quanto para padecer por Ele (Fp.1:29). Sim, amados irmãos, o homem que falou que “tudo posso n’Aquele que me fortalece”, fez questão de deixar consignado que os salvos são chamados para sofrer por Jesus!

    OBS: Num sermão sobre Fp.4:13, assim se manifesta o príncipe dos pregadores britânicos do século XIX, Charles Haddon Spurgeon (1839-1892):

    “…’Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece’ Notemos que Paulo aqui quis dizer que ele poderia suportar todas as provações. Não importa quantos sofrimentos seus perseguidores pudessem infligir sobre ele, ele sentiu que era totalmente capaz, através da graça divina, para suportá-los; sem dúvida alguma, embora Paulo tivesse visto o interior de quase todas as prisões romanas, ele jamais soube o que era tremer em qualquer uma delas(…). ‘Eu posso suportar todas as coisas’, ele disse, ‘por causa de Cristo’. Ele esperava diariamente que ele poderia ser levado à morte, e a expectativa diária da morte é mais amarga que a própria morte (…). Todo filho de Deus, pela fé, pode dizer ‘Eu posso sofrer todas as coisas’…” (SPURGEON, Charles H. All-sufficiency magnified [Toda a suficiência exaltada, tradução nossa]. Disponível em: http://www.spurgeongems.org/vols4-6/chs346.pdf Acesso em 29 dez. 2011) (tradução nossa de texto em inglês) (destaques originais). Como é diferente a correta hermenêutica do texto de Fp.4:13 do que falam os teólogos da prosperidade…

    – Na carta, aliás, o apóstolo Paulo menciona um crente de Filipos, o que havia levado a ajuda financeira dos filipenses a Paulo (sim, além de preso, Paulo estava a passar dificuldades financeiras e vivia das ofertas que lhes eram enviadas, inclusive e, em especial, a dos crentes de Filipos – Fp.2:25), Epafrodito, que, apesar de ser crente e fiel, “…esteve doente e quase à morte” (Fp.2:27), sem que tivesse cometido algum pecado, a mostrar que o sofrimento faz parte da vida daqueles que servem a Deus.

    – É este o quadro da carta de Paulo aos filipenses, algo bem diferente, diametralmente oposto mesmo, ao que dizem os falsos pregadores da prosperidade, quando invocam o “tudo posso n’Aquele que me fortalece”. Mas em que contexto Paulo usa esta expressão no final da sua carta?

    – Quando o apóstolo já está concluindo a epístola, apresentando os agradecimentos e fazendo as suas considerações finais, diz que muito se regozijou no Senhor a lembrança dos filipenses a respeito dele e a oportunidade de demonstrá-lo atrás do envio de Epafrodito.

    – O apóstolo, porém, ao falar desta alegria, quis deixar claro que não estava feliz por causa das ofertas que havia recebido dos filipenses, porque “…já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas n’Aquele que me fortalece.” (Fp.4:11b-13).

    – Como se pode verificar, portanto, estas “todas as coisas” de que fala o apóstolo não é bênção sobre bênção, como dizem os triunfalistas, mas, sim, tanto abundância, quanto necessidade; tanto fartura, quanto fome. Paulo havia aprendido da parte de Deus a passar por todas as coisas e suportá-las. Paulo havia aprendido, inclusive, a passar fome, se isto fosse a vontade do Senhor.

    – Quando Paulo disse que “tudo podia n’Aquele que lhe fortalecia”, ele estava a dizer que, independentemente das circunstâncias, ele era capaz de suportar tudo por amor a Cristo, sabendo que “estar com Cristo é bem melhor”, de que devemos estar completamente desapegados das coisas passageiras desta vida.

    – O apóstolo Paulo estava a ensinar os crentes de Filipos de que eles deveriam esforçar-se para atingir um patamar na vida espiritual em que tudo o que se passasse nesta Terra seria indiferente. O crente deveria manter-se assentado “nas regiões celestiais em Cristo”, onde fora posto pelo próprio Senhor e ali desfrutar de “todas as bênçãos espirituais”, como escreveu aos efésios (Ef.1:3), também uma das chamadas “cartas da prisão”.

    – O apóstolo Paulo estava a ensinar os filipenses de que devemos aprender com Cristo e ser completamente desapegados de qualquer coisa desta vida, inclusive do nosso “eu”, vivendo para fazer a vontade de Deus, vivendo para Cristo Jesus, não permitindo que qualquer pensamento ou desejo venha a nos desvirtuar de nossa abnegação por Jesus.

    – Como isto é diferente do que ouvimos por aí a respeito de Fp.4:13. Paulo não estava aí exaltando o seu “eu”, nem tampouco dizendo aos crentes de Filipos que eles deveriam “arrebentar” tudo para fazer prevalecer os seus desejos, pois “nada pode segurar o crente”, mas, bem ao contrário, estava a demonstrar que o salvo deve se conformar à vontade de Deus e saber que isto é o que realmente importa na sua vida, mesmo que isto envolva necessidade, fome e abatimento.

    – Paulo exorta, não só os filipenses, mas a nós todos, visto que este texto passou a fazer parte das Escrituras, a termos o mesmo sentimento de Cristo Jesus que deixou a Sua glória para ser obediente até a morte e morte de cruz (Fp.2:5-8). Por isso, diz que não devemos atentar para o que é propriamente nosso, mas cada qual também para o que é dos outros (Fp.2:4), outros a serem sempre considerados superiores a nós (Fp.2:3).

    – O discurso triunfalista que se lastreia no texto fora de contexto de Fp.4:13, entretanto, quer nos levar ao egoísmo, ao individualismo, ao apego às coisas terrenas, é um ensino completamente distorcido do que ensina a Palavra de Deus. Fujamos disto, amados irmãos!

    – E, para encerrar, vemos que o apóstolo disse que os filipenses bem fizeram em ajudá-lo nas suas necessidades (Fp.4:14) e sua oração foi para que os filipenses tivessem supridas todas as suas necessidades por Deus, que o apóstolo admitiu ser um Deus rico (Fp.4:19).

    – Ora, se Deus é rico, por que o apóstolo Paulo não pediu que também enriquecesse os filipenses, diante de sua generosidade? Porque os filipenses, assim como o apóstolo, deveriam aprender a se contentar com o que tinham (Fp.4:11) e porque Deus, embora seja rico, dono do ouro e da prata (Ag.2:8), não tem o propósito de enriquecer os homens materialmente, mas, sim, de suprir-lhes as necessidades materiais com o suficiente, porque, ao contrário dos perdidos, inimigos da cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas (Fp.3:18,19), os salvos, assim como o apóstolo, tem a sua cidade nos céus donde esperam o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o seu corpo abatido para ser conforme o Seu corpo glorioso segundo o Seu eficaz poder de sujeitar também a Si todas as coisas (Fp.3:20,21). Fazemos parte deste grupo?

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco


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  • Unidade – Um Projeto Divino

    Unidade um Projeto Divino

    Texto Biblico – Efésios 1. 1-8

    Texto Áureo

    “Até que todos cheguemos a unidade de fé” – Efésios 4.13ª

    Introdução

    Nesta lição de hoje estudaremos os planos de Deus para unidade que tem por finalidade; De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; Efésios 1:10.

    1.1 – A Unidade de Propósito

    Nenhuns dos projetos de Deus são falhos ou ineficientes, contemplamos que tudo o que Deus fez, faz e continua a fazer é perfeito e seque uma harmonia sem igual, nada fora de equilíbrio e com princípios estabelecidos pela sua própria lei.

    Basta olhar para a narração da criação em Genesis 1:31a – E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom;

    No céu há uma unidade perfeita  Pai, Filho e Espírito Santo e os santos anjos que receberam esse adjetivo após não caírem nas artimanhas de Lúcifer e permaneceram fieis a Deus.

    Na criação os três participaram em perfeita comunhão, O Pai ordenando através de Sua Palavra (Jesus) e o Espírito Santo (poder de Deus) agindo.  E os anjos como agentes divinos executando seus mandatos numa unidade perfeita.

    Um erro muito comum

    Por anos, muitos cristãos têm vivido sem conhecer qual é o propósito (objetivo) de Deus para com suas vidas. Muitos têm crido, equivocadamente, que nossa meta como cristãos é chegar aos céus. Baseiam-se para isso em textos como os de I Timóteo 2:3-4; II Pedro 3:9 e ainda João 3:16. Vendo a Bíblia com um enfoque humanista, (isto é, o homem no centro), concluem que o propósito de Deus é a salvação dos homens. Tudo gira em torno do homem e de suas necessidades.

    Tudo isso é uma grande contradição. É claro que Deus quer salvar os homens, mas isto foi necessário por causa da queda. Entretanto, necessitamos conhecer a primeira intenção de Deus, o propósito que Ele tinha em seu coração quando fez o homem, pois seu propósito é imutável. DEUS NÃO MUDOU DE PROPÓSITO POR CAUSA DA QUEDA.

    1.2 – Senhor de uma Grande Família

    Efésios 1 5-10 – Versão NVI  – Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado.
    Nele temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus, a qual ele derramou sobre nós com toda a sabedoria e entendimento. E nos revelou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos.

    A vontade absoluta de Deus é que toda a sua criação seja uma grande família no sentido mais amplo e pleno da palavra família.

      a) A intenção de Deus ao criar o homem era de ter uma grande família de muitos filhos à sua própria imagem, e encher a terra com uma família que expressasse a sua glória e autoridade (Gênesis 1:27-28).

    b) Como Adão tinha sido criado à imagem de Deus, e cada ser se reproduzia segundo a sua própria espécie, quando Adão e Eva se multiplicassem, reproduziriam filhos a imagem de Deus.

     

    O Pecado

    O diabo sabendo dos planos de Deus quis estragar e contrariar a vontade de Deus e fez no Éden a primeira secção espírita onde um espírito demoníaco incorporou num animal na serpente e fez o plano de Deus correr perigo. Daí toda a criação de Deus se tornou alvo do juízo de Deus. O homem foi expulso da presença de Deus e sem comunhão com Ele morte eterna.


    Redenção

    Deus não mudou nem muda a Sua vontade esta permanece para sempre, então através de cristo ele restaura e dá procedimento ao seu designo eterno, através de seu Filho Jesus Cristo de Nazaré que nos resgata da condenação e passamos a ser filhos de Deus novamente em toda plenitude  e em unidade com Deus. Obra e propósito este que será consumado quando nos encontramos com Jesus.

    Portanto eu e você podemos nos alegrar no Senhor, pois ele nos resgatou com mão forte para que fossemos todos uma grande família.

    1.3 – O Exemplo negativo de Babel

    Após a queda a ordem imperativa e absoluta de Deus foi que os homens crescessem se multiplicassem e enchessem a terra. Porem o homem pecador já demonstra querer frustrar os planos de Deus como se fosse isto possível.

    Então eles dizem um para o outro, vamos ficar aqui juntos, não vamos nos espalhar, vamos criar o nosso reino e vamos mostrar nossa grandiosidade construindo algo tão imenso que cheque até o céu.

    Arqueólogos dizem que a torre foi uma espécie de Zigurate que é  uma forma de templo, criada pelos sumérios e comum para os babilônios e assírios, pertinente à época do antigo vale da Mesopotâmia e construído na forma de pirâmides terraplanadas. O formato era o de vários andares construídos um sobre o outro, com o diferencial de cada andar possuir área menor que a plataforma inferior sobre a qual foi construído — as plataformas poderiam ser retangulares, ovais ou quadradas, e seu número variava de dois a sete.

     

    Pintura em óleo de 1563

    O centro do zigurate era feito de tijolos queimados, muito mais resistentes, enquanto o exterior da construção mostrava adornos de tijolos cozidos ao Sol, mais fáceis de serem produzidos, porém menos resistentes. Os adornos normalmente eram envidraçados em cores diferentes, possivelmente contendo significação cosmológica. O acesso ao templo, situado no topo do zigurate, se fazia por uma série de rampas construídas no flanco da construção ou por uma rampa espiralada que se estendia desde a base até o cume do edifício. Os exemplos mais antigos de zigurates datam do final do terceiro milênio a.C., enquanto os mais recentes, do século VI a.C., e alguns dos exemplos mais notáveis dessas estruturas incluem as ruínas na cidade de Ur e de Khorsabad na Mesopotâmia.

    E sempre o homem tem tentado construir a sua vida sem Deus seguindo os seus próprios caminhos e agindo sobre influencia do inimigo. Constrói grandes construções para engrandecer seu próprio eu, faz caridades para se afirmar como bom, produz varias cosmovisões, uma que eles amam é o humanismo.

    Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como principais, numa escala de importância. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade.

    E hoje a Babel dos homens continua a ser construída e profeticamente como as profecias predizem o mundo chegara a uma unidade contra Deus através do Anti-Cristo e seus aliados, já podemos observar uma só moeda, um só banco, um só mercado, uma só língua, um só exercito e por ai vai, não há mais fronteiras entre países.

     

     

    Prédio parlamento da União Européia simples coincidência

     

     

    Interior do Parlamento

     

     

    Cartaz que diz “Europa muitas línguas uma só voz”

     

    Mais isto de nada adianta o propósito é divino e que se cumpriram em nós.

    2- A presença de Deus entre os homens

    Deus estabeleceu algumas instituições, que nos servem de modelo de unidade, que nos ensinam a viver em unidade, e é claro que nós poucas vezes atentamos para tão grande importância dessas que podemos chamar de instituições que neste presente século correm risco e perigos diariamente.

    São elas: A família, a nação de Israel e a Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo.

    2.1 – A harmonia da Criação

     

    2.2 A unidade da Família

    A primeira instituição criada por Deus foi a família, portanto tem uma importância muito grande, estudos e a sabedoria nos mostram que se queremos viver numa sociedade melhor, devemos ter cuidado especial pela nossa família, pois ela é que é a célula que forma a sociedade, se tivermos famílias desajustadas logo teremos células doentes que conseqüentemente teremos uma sociedade doentia.

    E esse é o propósito do mal destruir a família, atacando a constantemente devemos nos esforçar o máximo para  manter a nossa família nos moldes  bíblicos.

    Porque vocês acham que ensinam que o casamento não é mais necessário que e possível formar famílias diferentes com pessoas do mesmo sexo.

    A crise financeira força a mãe largar a criação dos filhos e entregá-los muitas das vezes a pessoas libertinas que irão influenciar de maneira negativa no caráter da criança.

    O excesso de entretenimento, nos leva a ter menos tempo para o bom diálogo no lar e a educação de nossos filhos, passamos horas no computador, assistindo TV, ou na rua, na academia, ou jogando uma bola com os amigos.

    Modelos Familiares hoje variam de nuclear a Disneylândia

    Família Nuclear –  Formada por marido, esposa e filhos padrão totalmente nos padrões bíblicos.

    Família casulo: aquela que se fecha em si mesma. Ela se basta.

    Família Disneylândia: aquela que se reúne, principalmente com o grupo familiar maior, só em situações de festas.

    Família clube: aquela que busca nas relações familiares somente um local para relaxar. Os membros dessa família não se envolvem em nada, não se preocupam, por exemplo, em pagar as contas da casa.

    Família moderna: aquela onde há cooperação entre os membros. É o modelo de família que se encontra em maior número no Brasil atual.

    Família tradição: é o modelo em que a figura do pai ainda é a mais importante. O pai manda e os filhos obedecem.

    Família monoparental: chefiada por um dos cônjuge por razão de ausência do outro.

    Família extensa: modelo em que moram todos juntos, ligados por vínculos consangüíneos

    Família reconstituída: modelo em que têm-se por base uma nova união. Exemplo: Pai separado com filho casa-se com uma mulher que também já tem um filho.

    Família aberta: são famílias abertas a qualquer tipo de relacionamento. Exemplo: Pais que aprovam que a filha more com namorado em casa. Tudo depende do tipo de relacionamento existente entre os membros.

    Família invisível: aquela que fala que é mas não é. É o modelo de família de fachada. Nesse exemplo, não há relacionamento entre eles.

    Família fragmentada: Nesse modelo, o genitor mora com avó ou avô da criança, integrando numa mesma casa três gerações.

    Família parceira: tipo de família formada por vínculos afetivos em função de um empreendimento. Nesse modelo, não há vínculo consangüíneo.

    Cuide muito bem da sua família, exemplo de Moises e Zípora: “E aconteceu no caminho, numa estalagem, que o SENHOR o encontrou, e o quis matar. Então, Zípora tomou uma pedra aguda, e circuncidou o prepúcio de seu filho, lançou-o a seus pés e disse: Certamente me és um esposo sanguinário. E desviou-se dele. Então ela disse…” (Veja Êx 4.21-26).

    Nesta passagem Moisés se absteve de exercer seu papel, o de pai, a quem cabia a circuncisão do filho. Ao não faze-lo, ele sobrecarregou a esposa, que teve que pegar uma faca e fazer a necessária cirurgia. A omissão de Moisés fez dele um sanguinário, no sentido que obrigou sua esposa a ser sanguinária (a derramar sangue, tarefa exclusivamente masculina).

    A ameaça de Deus sobre Moisés visava despertar o jovem líder para sua tarefa em casa. A vida em família não pode ficar em segundo plano, nem mesmo em nome de Deus, que não quer este tipo de sacrifício. Como o serviço (excessivo) de Moisés era para Deus, Deus então deu um ultimato, como se dissesse: eu quero obediência, não sacrifício. Moisés entendeu.

    ESCALA DE VALORES PADRAO BIBLICO

    A ordem de prioridades correta é PRIMEIRO LUGAR MEU RELACIONALMENTO PESSOAL COM DEUS,

    Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças.

    EM SEGUNDO LUGAR MINHA FAMÍLIA,

    Mas, se alguém não cuida dos seus, e especialmente dos da sua família, tem negado a fé, e é pior que um incrédulo. (1 Timóteo 5.8 )

    É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, … que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?) (1 Timóteo 3.2,4 e 5)

    EM TERCEIRO LUGAR MEU TRABALHO

    Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: Se alguém não quer trabalhar, também não coma. Pois, de fato, estamos informados de que entre vós há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando; antes se intrometem na vida alheia. A elas, porém, determinamos e exortamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando tranqüilamente, comam o seu próprio pão. (2 Tessalonicenses 3.10-12)

    E POR FIM  O  TRABALHO NA OBRA DO SENHOR.

    não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia. (Hebreus 10.25).

    2.3 – Israel e a unidade

    Deus demonstra através do seu relacionamento com o povo de Israel o seu propósito de ter um povo seu onde ele reina absoluto, mais infelizmente Israel não quis e preferiu ser igual as outras nações queriam um Rei humano, então Saul foi levantado, a história registra a tragédia que foi, depois Davi , Salomão reinos não totalmente perfeitos, com a morte de Salomão os Reinos perderam a unidade e se dividiram em Reino do Norte e Reino do Sul, ambos fracassam e levam o povo de Deus ao cativeiro e em seguida sobre o domínios dos outros países e reis até que o ultimo sobre o domínio dos Romanos, que acabaram por varrer Israel do Mapa.

    Mais Deus ainda não encerrou seus propósito para com Israel e profeticamente em 1948 o estado de Israel ressurge, e até hoje eles lutam para viver do  jeito sem  Deus e sem Jesus, mais há  promessa de Deus para vida deles.

    2.4 – A Igreja é Cristã quando nela há unidade

    A igreja do Senhor Jesus não pode ser mensurada, pois são todos os salvos em Cristo Jesus em torno do planeta, esse o projeto de Deus para toda a humanidade que não falha e não falhará, e importante separar a igreja A, B ou C, se nos olharmos para qualquer uma delas veremos em sua trajetória altos e baixos muito mais baixos do que altos, mais se abrimos nossa visão veremos que ela e que preserva o mundo e é aporta de salvação para toda a humanidade.

    Agora para que ela seja reconhecida como a verdadeira igreja de Cristo comprada e lavada pelo Seu Sangue, tem que haver união fraternal entre seus membros.

    Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós. Efésios 4:4-6

    Um só corpo, fala de unidade dos membros que vivem em comunidade, são diferentes membros mais todos trabalham com o mesmo propósito o bem estar de todo o corpo.

    Movido por um só Espírito, move-se e age na vontade de Deus para os seus desígnios.

    Submissa a um só Senhor que se revela através da sua Eterna Palavra.

    Uma só fé, acreditam nas mesmas coisas e buscam os mesmo objetivos que é agradar ao Senhor.

    Um só batismo,da morte para vida, batismo de arrependimento para remissão dos pecados e se tornar uma nova criatura e poder morar no céu de gloria para todo sempre.

    3. A Vitória é certa em Cristo

    Se olharmos para as instituições criadas por homens seja ela qual for, em nenhuma delas encontrará a perfeita unidade, mais se Jesus está no centro ele produz a verdadeira unidade.

    3.1 Bençãos de Cristo

    Coisas maravilhosas acontecem quando a igreja está em unidade as bênçãos de Deus fluem da igreja para o mundo, impactando a todos pelo poder do evangelho.

    Vejamos o Salmo 133

    Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.
    É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o SENHOR ordena a bênção e a vida para sempre.

    Aqui quero destacar três coisas que acontecem exclusivamente na IGREJA, quando nos reunimos.

    Unção, Benção e Vida para Sempre.

    3.2 Unidade da Igreja por meio de Jesus Cristo

    A unidade da igreja e a reconciliação com Deus e garantida através de Jesus.

    Na cruz com os braços estendidos de um lado Deus do outro a humanidade e Ele uni novamente, e restaura todas as coisas para todo sempre. Portanto vale a pena servir a Deus em unidade, Deus não criou a Igreja atoa por nada ela tem um propósito sublime de ser Deus agindo na Terra nos dias de hoje.Essa e a vontade de Deus e de Jesus confira na Oração Sacerdotal de Jesus.

    João 17- Jesus falou assim e, levantando seus olhos ao céu, disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti;Assim como lhe deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste.E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer. E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra. Agora já têm conhecido que tudo quanto me deste provém de ti; Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam, e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste. Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. E todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas; e nisso sou glorificado. E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse. Mas agora vou para ti, e digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos. Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade. E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim.Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja.

     

     

     

     

     

     

     


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