Categoria: Estudos

  • Princípios Norteadores da Educação Cristã no Século XXI

    Gabriele Greggersen

    I. VIDA E OBRA DE C. S. LEWIS
    Nascido em Belfast, Irlanda, C. S. Lewis (1897-1963) é considerado um dos maiores pensadores, escritores e apologetas cristãos do século XX, com grande capacidade de projeção para o futuro. Sua vastíssima obra, mais conhecida no meio cristão pelos seus livros teológicos, também ficou famosa por outro gênero, o do romance ou ficção. O sucesso imediato de Cartas de um Diabo a seu Aprendiz foi reconhecido pela celebrada revista Time. Lewis também ficou famoso por sua ficção científica (da sua trilogia espacial, Longe do Planeta Silencioso e Perelandra já estão traduzidos para o português) e pelas histórias tão preciosas para o público infantil (e também para os adultos) narradas nas Crônicas de Nárnia.1

    Mas a melhor idéia que se pode ter da história desse catedrático e crítico literário de Oxford (Magdalene College, 1925-1954) e Cambridge (como professor de literatura inglesa medieval e renascentista) pode ser obtida da leitura de sua autobiografia Surprised by Joy,2 recentemente traduzida e lançada, com muito sucesso, no mercado nacional. Esse livro explica a total coerência do autor, em meio à grande variedade de gêneros literários utilizados, sendo os princípios fundamentais da doutrina cristã também sintetizados nas suas quatro principais obras apologéticas: Cristianismo Puro e Simples, O Problema do Sofrimento, Milagres e O Grande Abismo.3

    As obras de Lewis são constantemente reeditadas no exterior,4 inspirando muitos estudiosos a elaborar compilações, revisões, estudos e palestras a respeito desse autor e de seu pensamento. Atualmente existe até uma lista de discussão na Internet em torno de suas idéias, além de sociedades fundadas a partir de uma visão cristã do mundo inspirada por ele. Há ainda um filme cinematográfico de Richard Attenborough, Shadowlands (“Terra das Sombras”), em sua homenagem, que pode ser encontrado em videotecas e é freqüentemente visto na programação da TV por assinatura.

    II. CONTRIBUIÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA
    Para se ter uma noção do potencial de projeção das idéias desse autor para a educação do século XXI (e particularmente para a educação cristã), é preciso mencionar que, nos Estados Unidos, por exemplo, as Crônicas de Nárnia foram recentemente recomendadas no currículo das escolas e universidades de alguns estados, como leitura obrigatória em diversos cursos oferecidos por reconhecidas instituições de ensino, despertando o interesse de estudantes e intelectuais de todos os níveis e áreas. A ampla popularidade conquistada pelo autor, através de educadores e da grande diversidade de sua obra, é um indício da importância da sua mensagem para o campo educacional.

    A sua autobiografia, que teve sucesso quase que imediato no mercado brasileiro, confessional ou não, revela a ênfase dada pelo autor à educação. Embora a sua experiência escolar não tivesse sido das melhores (ou quem sabe precisamente por isso), Lewis levou até o fim o seu projeto pedagógico cristão de resgate do sentido que pode haver nas escolas, e que pode ser alcançado através da literatura e, particularmente, dos contos-de-fada, como explica um dos especialistas nas idéias do autor:

    …o sentido está intimamente relacionado com o papel da imaginação e com o fato de que todo o universo é uma criação dependente de Deus. Costumamos ver a razão como o veículo da verdade, e a imaginação, do sentido. A razão e a imaginação têm, ambos, a sua própria autonomia … A ficção é, para Lewis, a construção do sentido. Ela reflete a criatividade maior de Deus, quando deu origem ao seu universo e o relacionou a nós mesmos. O sentido é o cerne das coisas e dos fatos.5

    Nos capítulos a seguir procuraremos explicitar melhor os princípios acima sintetizados, aplicando-os à Educação Cristã.

    III. PRINCÍPIOS BÁSICOS DA EDUCAÇÃO CRISTÃ DE C. S. LEWIS

    A. Apre(e)nder pelo sofrimento
    Se considerarmos a vastidão das obras de Lewis, perguntar-nos-emos o que o teria impelido a escrever tantos livros (sem falar das milhares de cartas que escrevia a seus leitores) e de forma tão diversificada! E como poderíamos tornar acessível a sua contribuição ao educador brasileiro, no limiar de um novo século? Para responder em parte a essa questão, devemos considerar a história de vida do autor, marcada pela dor desde menino, com a morte de sua mãe, o que deu inicio à sua insistente e contínua busca de “alegria” (curiosamente também o nome de sua futura esposa, Joy). Assim, por exemplo, em O Problema do Sofrimento, Lewis aborda diretamente a questão clássica que o mundo secular levanta contra o cristianismo: “Se Deus existe, como pode haver tanta injustiça, fome e miséria no mundo?”

    Não há dúvida de que a vida muitas vezes é cruel e, se quisermos ser realistas, teremos que contar com obstáculos constantes, muitas vezes dolorosos, que nos trazem de volta à vida concreta, destruindo nossas fantasias a respeito de um mundo idealizado e abstrato, como se vê nesse exemplo, citado por Lewis:

    Móveis feitos de sonho são o único tipo em que nunca tropeçamos ou esbarramos com o joelho. Nós todos conhecemos um casamento feliz. Mas como a esposa é diferente daquela donzela imaginária dos sonhos da nossa adolescência! Tão pouco adaptada a todos os nossos desejos extravagantes e por esta mesma razão (entre outras) tão incomparavelmente melhor.6

    O próprio Deus, que é um ser real e concreto, escolheu manifestar-se ao homem em forma material e concreta, apesar de ser igualmente capaz de usar um sonho para nos comunicar algo. Assim, para os cristãos, uma das primeiras lições a serem aprendidas é que o ser humano não pode viver de sonhos e devemos aprender a lidar com as nossas limitações, que muitas vezes implicam em dor e sofrimento:

    É lógico que fomos instruídos em como lidar com o sofrimento — oferecendo-o a Deus em Cristo como mui singela, modesta mesmo, participação no sofrimento de Cristo; por outro lado, como é duro praticá-lo, não é mesmo?7

    Devido a essa dureza da vida é que autores como Kreeft procuram ajudar-nos a enxergar o outro lado do sofrimento, já quase esquecido pela maioria dos seres humanos. Isso pode vir a tornar-se uma excelente oportunidade para aprender, como ele expressa no seguinte trecho de uma de suas primorosas obras, na qual busca uma interação com o leitor:

    Leitor: Então, prazer sem sofrimento é possível para Deus. Por que não nos é possível?

    Autor: Boa pergunta.

    Leitor: Você tem uma boa resposta?

    Autor: Acho que sim. Mesmo no Jardim do Éden, antes que houvesse pecado, morte e sofrimento, estávamos sujeitos ao tempo, tínhamos de crescer, de aprender. Mas aquilo era um prazer. Depois que pecamos, aprender tornou-se doloroso, porque aprender significa submeter a mente à realidade.8

    A missão prioritária do educador, portanto, é a de “resgate” (por mais desgastado que o termo possa estar) da realidade, “doa a quem doer,” da forma mais “didática” possível, abrindo portas que permitam enfocá-la e interpretá-la mais adequadamente. A realidade da “dureza da vida” deve ser levada em conta, certamente. Mas a vida não se limita a isso. Como observa Lewis, devemos ajudar o educando a superar esse nível da desilusão e animá-lo para uma nova aventura em busca do sentido mais profundo das coisas.

    De acordo com Kreeft, o sofrimento pode, nesse sentido, adquirir uma feição totalmente nova para nós:

    O outro significado do mistério — positivo — é o encontrado em Jó. Deus tem seus motivos para deixar que coisas ruins aconteçam a pessoas boas. Mas ele não diz isso a Jó, que não consegue descobrir nada. Aqui, o obscuro é subjetivo, não objetivo. Aqui, nossas mentes estão no escuro, mas Deus é a luz… No mistério das Escrituras, a realidade é a luz e nós estamos no escuro. De fato, estamos no escuro precisamente porque realidade é luz, muita luz. Assim como Agostinho e Tomás de Aquino gostavam de repetir, somos como morcegos ou corujas: enxergamos bem as sombras, mas não o sol. Pelo excesso de luz, o sol nos cega.9

    Hoje, mais do que nunca, é necessário lembrar aos que se queixam da dureza da vida que as coisas não são obscuras por si mesmas, mas porque, de fato, perderam algo e sofrem as conseqüências dessa falta. E, como nós mesmos temos essa carência, somos vulneráveis às preocupações cotidianas. De acordo com as cartas de Lewis a uma amiga americana, um dos maiores desafios é aprender a viver as preocupações do dia, sem transferi-las do passado ou do futuro:

    Suponho que viver a vida a cada dia (…) é precisamente o que nós temos que aprender — mesmo quando o velho Adão em mim às vezes alega que, se Deus quisesse me fazer viver como os lírios do campo, por que não me deu a mesma dose de nervos e imaginação que eles! Ou será esse precisamente o ponto, o propósito exato deste paradoxo divino e audacioso chamado ser humano — fazer, dotado de razão, tudo aquilo que outros seres fazem sem ela?10

    Então, para aprendermos a enfrentar o desafio de viver a vida, temos a necessidade de compreendê-la, de apreender a sua lógica interna, sua ratio (a tradução latina de logos) ou razão de ser mais profunda, “aplicando corretamente a inteligência” a ela (que é um dos conceitos de “estudar” no Dicionário Aurélio). A razão, longe de ser um empecilho à fé, pode vir a se tornar um grande instrumento para o homem perceber o lado bom que há nas coisas e assim viver de modo menos depressivo, desesperançoso e auto-depreciativo do que vem vivendo neste final de século. E o grande desafio do educador do presente e do futuro é o de ponderar todas essas coisas e descobrir meios criativos para representar o seu sentido mais profundo de forma perceptível ao educando, transformando a sala-de-aula numa aula viva, e a qualidade do ensino em qualidade de vida.

    B. Apre(e)nder pela razão
    Uma das melhores formas de lidar com as coisas é explaná-las ou explicá-las, ou seja, tirar as suas plicas (prega, dobra, vinco, em latim), como se aplaina um papel todo amarrotado (daí também derivam-se complicar, replicar, aplicar, duplicar, etc.), exprimindo-as por meio da linguagem. Essa é uma das razões pelas quais Lewis escrevia tanto: para, aplicando o método da simplicidade, clareza e gratidão (que é o estilo distintivo dos autores “clássicos” da filosofia cristã como George MacDonald, Tolkien, Chesterton, etc.) traduzir a experiência viva em literatura e, assim, representar as coisas como elas são, que é o primeiro passo para aprender a lidar com elas. Dessa forma, Lewis também realiza o sentido profundo do imperativo de Paulo de “considerar todas as coisas e reter o que é bom” (ver 1 Ts 5.21).

    Em The Allegory of Love,11 Lewis denuncia o mau uso que se pode fazer da mente e da imaginação de que ela se vale para representar a realidade. É interessante notar, a partir da literatura medieval e renascentista, os extremos em que cai o homem quando busca a felicidade onde ela não pode ser encontrada. Um desses extremos pode ser chamado de simbolismo, que é uma espécie de dualismo reducionista que exalta o símbolo da mulher amada como uma divindade capaz de eliminar todo tipo de mal e de substituir a própria realidade.

    No capítulo 2 desse livro, Lewis explica que o simbolismo ou sacramentalismo é a tentativa de interpretar ou enxergar um modelo visível por detrás do que é invisível. Trata-se de uma espécie de “ocultismo” ou vontade de desvendar tudo o que está oculto atrás das coisas, como podemos observar no seguinte exemplo da literatura: “Todo o transitório é apenas uma metáfora” (Goethe).

    Por outro lado, há os que, quando percebem que embaixo da casca da cebola podemos encontrar apenas outra casca de cebola, passam a duvidar até mesmo do conceito de cebola, recaindo no irracionalismo, que nega até o eterno: “Todo o eterno é apenas uma metáfora” (Nietzsche).

    Acontece que o invisível não pode ser interpretado em nada que seja visível. Na verdade, as coisas materiais é que são símbolos ou imagens de uma realidade mais concreta, que não deixamos de enxergar porque se escondem, mas porque vão além da nossa capacidade de visão. Por isso é que toda tentativa de interpretação humana das imagens sempre continuará sendo uma tentativa, e toda linguagem humana, uma metáfora. O problema, então, não está nas coisas que se ocultam, mas no olho do ser humano, que não as vê, e na sua capacidade de expressão imperfeita. E isso não muda em nada o fato de que a cebola é uma cebola.

    O verdadeiro sabor do texto medieval não é nada simbolista (como grande parte dos textos renascentistas, por exemplo) nesse ponto:

    Tipicamente o homem medieval não era um sonhador ou aventureiro espiritual; ele era um organizador, um codificador, um ser sistemático. Seu ideal poderia ser resumido com nada mais do que a velha e familiar máxima: “Um lugar para cada coisa e cada coisa no seu (devido) lugar.”12

    O homem moderno, ao contrário, é capaz de se perder em meio a infinitas redes de significados éticos e sociais metafóricos. É certo que o homem medieval não tinha tanta ciência, mas tinha muito maior transcendência, a partir da astronomia antiga de um Ptolomeu e, principalmente, de um Aristóteles, com seu pressuposto de que qualquer movimento ou espaço só pode existir se partir de um Primum Mobile ou Motor Imóvel, o primeiro impulso, a força de ignição do Universo. Antes mesmo de Newton, os antigos já discutiam a questão einsteiniana do “ovo de colombo,” que, em termos de Newton, encontra-se na 2ª lei do movimento: “Todo corpo permanece em seu estado de repouso ou Movimento Uniforme em linha reta, a menos que seja obrigado a mudar seu estado por forças impressas nele.”13

    Segundo Lewis, para além do homem antigo e do renascentista, quando o homem medieval olha para o céu estrelado depois de uma festa, não imagina as camadas ou misturas de gases que poderiam estar separando a terra da lua; ele não vê um grande e silencioso vazio, mas um mundo invisível repleto de almas.

    O homem medieval vê um Mundo para além dos muros da catedral, do castelo ou da cidadela, que também chamamos de céu (heavens). Ele vive, por assim dizer, como quem está do lado de fora dos muros da grande cidadela.

    Do lado de fora do muro — é este o ponto. Voltando por um pouco à experiência que eu mencionava no início, de olhar para as estrelas após uma ópera ou festa:

    Todo o contraste entre a experiência medieval e a nossa própria só aparece agora. Pois, o que quer que sintamos, certamente sentimos que estamos olhando para fora; para fora de algum lugar quente e iluminado e para uma desolação escura, fria e indiferente; para fora de uma casa, em direção ao mar escuro e solitário. Mas o homem medieval sentia que estava olhando para dentro. Aqui é o lado de fora. A órbita da lua é a parede da cidade. A noite abre as portas por alguns instantes e nós pegamos alguns lances da pompa que está ocorrendo do lado de dentro; ficamos só olhando, como animais ficam de olho no fogo daquele acampamento em que não podem entrar, como os bárbaros ficam de olho naquela cidade…14

    A título de contraste, entre outras obras renascentistas (de Spencer e de Milton, no qual se especializou), Lewis destaca a grande obra de Dante sob três aspectos: o significado “metafísico” do sorriso, o imaginário da Divina Comédia e a apreciação de alguns epígonos, corretores de certos equívocos por ele cometidos.

    O sentido medieval é, novamente, o mais fácil de ser reconhecido:

    É fácil reconhecer em que sentido os sorrisos de Dante eram “metafísicos.” A relação entre estes dois elementos é real, ontológica, inteligível e o material não precisa ser, em si mesmo, belo; pode até vir a ser grotesco – como, por exemplo, quando o tempo é representado por uma árvore que cresce para baixo em um vaso que representa o Primum Mobile (Paradiso, XXVII, 118).15

    Em sua detalhada análise das imagens usadas por Dante nesta obra, não é complicado reconhecer o predomínio dos frutos do jardim (garden) em relação às paisagens (landscape):

    Talvez esta seja uma característica da Idade Média antes de ser de Dante. Os poetas medievais interessam-se por árvores, flores, feras, pássaros e rios e não muito freqüentemente, penso eu, por paisagens. E quando alguns se mostram interessados, são geralmente de origem alemã.16

    E, de fato, as imagens usadas na Divina Comédia, por exemplo, são de grande concretude, luminosidade, movimento ou peso, o que sugere um estilo medieval extremamente concreto e metafórico, ao invés do romântico, intrínseco a autores renascentistas.17

    Para Lewis, os símbolos são referenciais indicadores de uma realidade muito mais concreta e maravilhosa do que eles podem ser — signos não valem nada por si mesmos (o que não tira sua importância e utilidade). Por isso é que ele “joga” tanto com as imagens nas Crônicas de Nárnia, fazendo uma verdadeira “miscelânea” de personagens mitológicos, lendários, realistas, etc.

    Ao contrário dos que simplesmente descartam toda imaginação, exaltando uma espécie de literatura dos “fatos,” insossa e enfadonha, Lewis pretende mostrar quão ridículo é o tipo de inversão da realidade e, conseqüentemente, dos valores que o homem cultiva, exaltando os meios em lugar dos fins (que são, na verdade, a real fonte de inspiração dos símbolos).

    Como ele comenta no prefácio (infelizmente não incluído na edição brasileira) das Cartas do Diabo ao seu Aprendiz, a tática do diabo é precisamente provocar-nos com suas acrobacias, ou a temê-lo ou a desprezá-lo, para desviar-nos do Ser onipotente: Há dois erros acerca dos demônios, nos quais nossa espécie pode cair. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar e nutrir um interesse excessivo e doentio por eles. Os próprios diabos ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros e saúdam o materialista ou o mágico, com o mesmo deleite.18

    A leitura da primeira carta desse fascinante livro já basta para compreendermos a diabólica jogada da inversão dos valores (que nos deixa estarrecidos diante de atrocidades cometidas por crianças e adolescentes, nas escolas de hoje): convencer o “paciente” de que as coisas boas não são, na verdade, tão boas assim e as ruins não são totalmente ruins ou já foram ruins um dia, mas hoje é diferente… Dessa forma, instauram-se dualismos que procuram substituir ou confundir coisas boas e ruins. O relativo passa a ser posto como absoluto (recaindo num falso “moralismo”), enquanto que o absoluto é relativizado. Veja como o diabo velho Screwtape19 em pessoa, das Cartas do Diabo a seu Aprendiz, procura explicar ao seu “ingênuo” aprendiz essa manobra:

    Parece que supões que a argumentação é a maneira de mantê-lo longe das garras do Inimigo. Isto poderia ser assim se ele vivesse há alguns séculos. Nesta época, os humanos ainda sabiam muito bem quando uma coisa era comprovada e quando não era; e se era comprovada, acreditavam nela. Eles ainda relacionavam o pensar com o fazer, e estavam preparados para alterar seu modo de vida como resultado de uma sucessão de pensamentos. Mas, com a imprensa semanal e outras armas do gênero, conseguimos alterar isto em grande medida. Teu homem foi acostumado, desde garoto, a ter uma dezena de filosofias incompatíveis dançando em sua cabeça. Ele não pensa em doutrinas como prioritariamente “verdadeiras” ou “falsas,” mas como “acadêmicas” ou “práticas”, “superadas” ou “contemporâneas”, “convencionais” ou “desumanas.” Jargão, não argumento, é o teu melhor aliado em mantê-lo longe da Igreja.20

    Stott nos mostra como esta tática diabólica de evitar toda argumentação lógica se traduz em algumas igrejas:

    O espírito do anti-intelectualismo é corrente hoje em dia. No mundo moderno multiplicam-se os pragmatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer idéia não é: “É verdade?,” mas sim: “Será que funciona?” Os jovens têm a tendência de ser ativistas, dedicados na defesa de uma causa, todavia nem sempre verificam com cuidado se sua causa é um fim digno de sua dedicação, ou se o modo como procedem é o melhor meio para alcançá-lo… Este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge freqüentemente para perturbar a Igreja Cristã. Considera a teologia com desprazer e desconfiança.21

    A prática anti-intelectualista de muitas igrejas de hoje receberia certamente, assim, muitos elogios da parte do monstruosamente “racionalista,” mas ao mesmo tempo irracional, personagem de Lewis. Apesar dos medos e receios que isso possa levantar, é fundamental e urgente resgatarmos as práticas do debate saudável e livre de idéias e a argumentação dentro de algumas comunidades cristãs, pois é isso precisamente que o diabo mais teme, já que sabe muito bem que não tem razão alguma. As coisas estão completa e radicalmente separadas de Deus, desde a queda, mas não há nada na criação que seja essencialmente mau, pelo simples fato de o mal não possuir a essência ou a lógica (ratio) interna das coisas criadas por Deus, que foram cuidadosamente pensadas e projetadas por ele através do Logos (Cristo). A natureza do mal é outra. Por isso é que o castor de O Leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa insiste em explicar às crianças que a natureza da feiticeira não é humana, apesar das aparências que mantém. Graças a Deus, o mal é impotente para destruir o reflexo do Criador nas coisas. Por isso é que Deus, de certa forma, é ainda mais “assustador” do que o diabo.

    A partir da visão equilibrada de Lewis e autores correlatos, é preciso considerar que o extremo oposto do racionalismo, o anti-intelectualismo (monstruosidade não menos nefasta do que o racionalismo), tem tido livre acesso às salas-de-aula de certas comunidades, como tem sido constatado por alguns educadores cristãos e equipes sérias, preocupadas e empenhadas em garantir o nível de ensino das escolas dominicais na atualidade e para o futuro.22 Pois, quando ocorre de simplesmente ignorarmos a necessidade humana de compreender as coisas através da razão, considerando “suspeito” todo e qualquer questionamento ou argumentação nos encontros dominicais, recaímos no maniqueísmo, correndo um sério risco de nos tornarmos “presas fáceis” de qualquer “vento de doutrina.” A melhor maneira de evitarmos esse tipo de perigo é aprender a empregar a mente da forma correta, nem que, para isso, tenhamos que quebrar certos paradigmas há muito assentados.

    É precisamente no sentido de manter ilesos os paradigmas estéreis, aparentemente “bem comportados,” que evitam a renovação ou reforma das idéias anacrônicas nos meios cristãos, que o diabo velho Screwtape procura instruir o seu aprendiz a sempre manter seu paciente humano longe de debates mais sérios. E explica por que:

    O problema com a argumentação é que ela leva toda a batalha para o campo do Inimigo. Ele também pode argumentar; enquanto que no campo da propaganda realmente prática, do tipo que estou sugerindo, ele tem se mostrado há séculos muito inferior a Nosso Pai Cá Embaixo. Pelo próprio fato de argumentar, tu despertas a razão do paciente; e uma vez desperta, quem pode prever o resultado? Mesmo se uma determinada série de pensamentos possa ser desvirtuada para terminar nos favorecendo, tu perceberás que tens reforçado no teu paciente o hábito fatal de prestar atenção a questões universais e afastado sua atenção do fluxo das experiências imediatas dos sentidos. Tua obrigação é fixar sua atenção no fluxo.23

    Uma das estratégia prediletas do diabo é, assim, desviar a atenção do paciente das coisas essenciais e evitar que ele procure compreendê-las; não deixá-lo refletir sobre as coisas como realmente são, fazendo-o prestar atenção somente nas manifestações externas ou na forma como ele mesmo as percebe subjetivamente. A percepção da realidade objetiva ou concreta das coisas é, em suma, o grande “perigo” do qual o diabo foge a todo custo (pois é precisamente esta experiência concreta, totalmente humana e existencial que Deus e os homens têm em comum, e que pode, de repente, aproximá-los):

    Ensine-o a chamar-lhe “vida real” e não o deixe perguntar o que se quer dizer com “real”… Tu não percebes o quanto são presos pela pressão da experiência comum… Uma vez tive um paciente, um bom ateísta, que costumava ler no Museu Britânico. Um dia, enquanto lia, vi um encadeamento de pensamentos em sua mente começando a ir no caminho errado. O Inimigo, é claro, estava no seu calcanhar num instante. Antes de perceber o que sucedia, vi meus vinte anos de trabalho começarem a ruir. Se tivesse perdido o sangue-frio e começado uma defesa por meio de argumentação, estaria perdido. Mas não fui idiota. Ataquei imediatamente na parte do homem que estava sob meu maior controle e sugeri que já era tempo de comer algo. O Inimigo presumivelmente fez a contra-sugestão (tu sabes que nunca se consegue escutar tudo o que ele diz a eles?) de que isto era mais importante do que um lanche. Pelo menos acho que foi isto que ele sugeriu, pois quando eu disse: “Bem, na verdade algo demasiadamente importante para tratar no final de uma manhã,” o paciente animou-se consideravelmente; e quando acrescentei: “muito melhor voltar depois do lanche e abordar o tema com a mente descansada,” ele já estava a meio caminho da porta. Assim que chegou à rua, a batalha estava ganha. Mostrei-lhe um garoto gritando as manchetes do jornal do dia… e, antes que ele chegasse ao fim dos degraus, eu lhe havia fixado numa convicção inalterável de que, sejam quais forem as idéias esquisitas que possam vir à mente de uma pessoa quando está sozinha com seus livros, uma saudável dose de “vida real” (…) é o bastante para mostrar que todo “aquele tipo de coisa” simplesmente não poderia ser verdade… Hoje ele está salvo na casa de Nosso Pai.24

    Essa mesma lógica do desvio e do engano, da substituição do real por algo aparentemente mais importante, é empregada no último trecho da carta, que é quase um tributo a Whitehead, inventor do sábio provérbio: às vezes não se enxerga o bosque, de tantas árvores:

    Graças a passos que pusemos em funcionamento há séculos, eles acham quase impossível acreditar no não-familiar, enquanto que o familiar está diante dos olhos. Insista sobre o caráter comum das coisas com ele. Acima de tudo, não tente usar a ciência (quero dizer, as autênticas ciências) como uma defesa contra o cristianismo. Elas certamente o encorajarão a pensar acerca de realidades que ele não pode tocar nem ver. Tem havido casos tristes entre os físicos modernos. Se tiver de dedicar-se superficialmente à ciência, mantenha-o ocupado com economia e sociologia; não o deixe afastar-se daquela inestimável “vida real.” Mas o melhor de tudo é não deixá-lo ler sobre ciências, mas sim dar-lhe uma idéia geral de que conhece tudo, e que tudo que captou em conversas e leituras casuais é “resultado da moderna investigação.” Lembra que tu estás aí para confundi-lo. Pela maneira que alguns de teus jovens demônios falam, suporíamos que nosso trabalho é ensinar! Teu afetuoso tio…25

    C. Apre(e)nder contemplativo
    Para os clássicos da literatura, “ver a vida como ela é” não significa olhá-la com ceticismo, como para algum corpo morto, mas olhá-la com admiração (que é um dos sentidos da paixão), ou seja, contemplar o reflexo do Criador, dirigindo o olhar (mirar no espanhol) do leitor para o que vai “além” dos fatos nus e crus.

    Apesar de defensor da “lógica das coisas” e da argumentação, é preciso deixar claro que Lewis não é um racionalista que rejeita qualquer tipo de contemplação ou conhecimento pela fé. Pelo contrário, todo o seu esforço concentrou-se em mostrar aos racionalistas a importância da abertura para a totalidade do real, que muitas vezes não é tão “lógica” quanto gostaríamos, exigindo mais fé do que notamos ou admitimos, como comentam Odero & Odero, parafraseando Chesterton:

    Segundo Chesterton, a fonte de erros mais freqüente do mundo está no fato de que as coisas são “quase razoáveis,” sem chegar a sê-lo completamente. A vida não é ilógica em si, mas assim acaba parecendo ser para os lógicos, porque aparenta ter mais regularidade matemática do que, de fato, possui. Daí a importância de contrastar o pensamento com a realidade para buscar a verdade. Como podemos ver, este é um tema que freqüentemente aparece nas obras de Lewis. Em seu livro Ortodoxia, Chesterton trata de forma genial desse mesmo e tão importante assunto: O homem de hoje sempre se tem preocupado mais com a verdade do que com a coerência.26

    A falta de consistência e coerência entre o que se professa e o que se vive é apontada por Lewis como um dos grandes obstáculos à criação literária da atualidade. O consumismo, o individualismo egocêntrico e a falta de consideração, tanto das limitações da natureza humana quanto do seu lado positivo, são obstáculos que precisam ser combatidos pelo crítico literário:

    A maior arte do crítico é a de sair de si mesmo e deixar que a humanidade decida. Nosso dever é mostrar aos outros a obra que eles alegam admirar ou desprezar, como realmente é, descrevendo, quase que definindo seu caráter, para depois deixar que eles mesmos julguem (agora muito melhor informados). A certa altura, o crítico é até avisado para não adotar um rígido perfeccionismo. Ele deve manter sua idéia de excelência, de perfeição, mas, ao mesmo tempo, estar disposto e acessível ao segundo melhor que se oferece. Ele deve, em uma palavra, ter o caráter que [George] MacDonald atribuía a Deus, e Chesterton, seguindo-o, ao crítico; aquele que é “fácil de agradar, mas difícil de satisfazer.”27

    D. Apre(e)nder imaginativo
    Como dizíamos, parafraseando Chesterton, o melhor método para se apreender a realidade das coisas, que tão freqüentemente nos escapa numa abordagem direta, é o contraste (por exemplo, não podemos dizer o que é e no que implica a luz ou a energia, mas podemos constatar e determinar o que é o conceito e implicação da sua falta). Para o que não podemos captar pela razão, resta-nos a aceitação pela fé, ou a procura por uma via alternativa de aproximação, a via da imaginação. Na literatura não há melhor método de contraste do que os contos-de-fada, que consideram as coisas não diretamente como elas são ou se explicam, mas indiretamente, como elas não são, ou como foram vocacionadas a ser. Os contos-de-fada, longe de representar uma infantilização ou banalização da realidade, revelam-se como um poderoso recurso didático, capaz de ensinar verdades “éticas” muito mais adultas do que podemos supor. Por isso é que todo bom crítico e educador amadurecido sabe apreciá-los:

    Nós que ainda apreciamos os contos-de-fada temos menos razões para querermos voltar às atitudes infantis. Conservamos o bom da infância, sem abrir mão de certos prazeres adultos.28

    Lewis mesmo confessa que o seu lado “imaginativo” era, de fato, o mais amadurecido:

    O homem imaginativo em mim é mais velho, mais continuamente operativo e, neste sentido, mais fundamental do que qualquer um dos outros, o religioso e o crítico. Ele me fez, pela primeira vez, aventurar-me como poeta. Ele é que, numa réplica à poesia dos outros, tornou-me um crítico e, em defesa a esta réplica, tornou-me muitas vezes um crítico paradoxal. Foi ele que, após a minha conversão, levou-me a encarnar minha fé religiosa em formas simbólicas ou mitopoéticas de um Screwtape, até um tipo de ficção científica teológica. E é claro que foi ele que me levou, nos últimos anos, a escrever a série de contos narnianos, destinados a crianças; não porque eu estivesse preocupado com o que elas queriam ouvir, o que me comprometeria a fazer adaptações (o que felizmente não foi necessário…), mas porque o conto-de-fadas foi o melhor gênero literário que eu encontrei para expressar o que pretendia dizer.29

    Por outro lado, quem é que hoje em dia ainda se dá ao luxo de ler “contos da carochinha” (que já adquiriram um forte sentido pejorativo)? A falta de um realismo equilibrado predominante deve-se em parte à falta de leitura ou à limitação à literatura insossa “dos fatos,” que nos leva à inversão de valores. Essa inversão, por sua vez, gera uma alienação e desarticulação da teoria e da prática, que, justificando-se cada qual a si mesma, perde o seu efetivo valor, recaindo alternadamente nos extremos do dogmatismo e do ativismo:

    Lembre-se de que acreditar na virtude do “fazer pelo fazer” é um traço (…) do espírito moderno: o sentimento de preocupação pode não passar de inquietações ou oscilações auto-afirmativas da nossa auto-imagem. Como (George) MacDonald já dizia, “o sagrado pode ter um viés do profano.” E, ao nos empenharmos em cumprir deveres desnecessários, podemos estar nos tornando menos dispostos para cumprir com os nossos verdadeiros compromissos, cometendo, assim, um tipo de injustiça. Temos que dar uma chance não somente a Maria, mas também a Marta!30

    Se observarmos as práticas de ensino nas escolas de hoje, veremos o império do exagero e da falta de moderação (o inchaço de currículos, o fazer pelo fazer, a falta de continuidade, organicidade, integração entre as práticas educacionais e o faz-de-conta). O realismo, a objetividade e a coerência no planejamento do ensino (na seleção de conteúdos, procedimentos metodológicos e atividades educacionais para cada fim proposto) são virtudes em franca extinção nos meios educacionais de hoje. Mesmo nas igrejas podemos observar práticas pedagógicas de pouco nexo com a filosofia cristã de vida. Nesse sentido, Lewis é duro, direto e enfático em sua exortação contra os chamados “educadores cristãos”:

    Quando os educadores cristãos fazem questão de lembrar a seus irmãos a importância da constituição do lar cristão — e penso que a lembrança é perfeitamente pertinente — a primeira coisa a se fazer é acabar com o “faz-de-conta” em torno da vida do lar…: 1. Nenhuma organização ou modo de vida, não importa qual seja, tem uma tendência natural para o bem, e isso desde a queda do homem… 2. É preciso considerar com cuidado o conceito de “conversão” ou “consagração da vida em família,” que deve significar algo além da preservação do “amor,” no sentido de afeição natural. 3. Devemos reconhecer os perigos eminentes contidos na principal característica da vida doméstica, que é, no senso comum, colocada como sua atração principal: de ser o lugar onde “nos revelamos como realmente somos.” 4. Como as pessoas devem, então, comportar-se em casa? 5. Finalmente, podemos ensinar que, se o lar é para ser um instrumento da graça, deve ser também um lugar que mantém certas regras? Não pode haver vida em comum sem regras. A única alternativa à regra não é a liberdade, mas uma ilegítima (e muitas vezes inconsciente) tirania do membro mais egoísta sobre os outros.31

    Sendo uma filosofia do sentido da vida, o cristianismo é a mais didática de todas as teologias, pois para fazermos frente aos desafios da vida e das mudanças históricas, o melhor meio é, partindo dos “fatos nus e crus,” abrir portas para o sentido mais profundo das coisas, para o seu verdadeiro destino e vocação.

    Assim, o que se espera do educador cristão autêntico é que pare de queixar-se da falta de tempo e recursos e busque a coerência entre o que professa e as práticas concretas do seu cotidiano. Pois:

    se nós realmente acreditamos naquilo em que dizemos crer — se realmente cremos que o nosso lar está em outro lugar e que esta vida é uma “peregrinação em sua busca,” por que não olhamos para frente, rumo à chegada?32

    Foi quando Lewis parou de correr atrás da sua concepção de felicidade e olhou para a realidade, que deu a chance que Deus esperava para surpreendê-lo com algo ainda maior do que era capaz de sonhar: o amor verdadeiro, do qual esteve fugindo todo o tempo.

    Nesse sentido é que grandes psicanalistas, como Bruno Bettelheim, têm insistido em afirmar que os contos-de-fada, longe de ser uma mera forma de “escapismo” ou meio de fuga diante dos problemas da vida real, são altamente didáticos e até terapêuticos.33 Aliás, a literatura, particularmente a imaginativa, tem este misterioso e aparentemente contraditório poder de captar a essência da experiência humana (permeada pela dor e o sofrimento) e transformá-la em sabedoria de vida. É isso que se pode constatar, ao menos, nas parábolas bíblicas. A educação pela imaginação, exemplificada nos contos-de-fada e nas parábolas, abriga um poderoso potencial pedagógico ainda pouco explorado ou mal aplicado nos meios educacionais.

    Não se trata, entretanto, de uma receita mágica. Para se obter bons resultados com essa metodologia, principalmente no mundo atual, dominado pelo imediatismo e consumismo (é perfeitamente possível, por exemplo, que uma criança ouça um provérbio, ou uma parábola como a do O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa sem chegar a nenhuma conclusão mais profunda!), é preciso que se adote uma postura didática adequada. Nesse sentido é que a imagem de Cristo é tão ilustrativa. Nas palavras do tão simpático personagem, o castor, ele não fica exibindo toda a sua glória a todo instante, nem fica a explicar as coisas nos seus mínimos detalhes a todo o mundo. Ele escolhe muito bem os momentos e as palavras certas para dar o seu recado. Assim, tudo que está relacionado ao nome de Aslan permanece coberto de uma aura de mistério. Trata-se de um animal realmente feroz, um ser selvagem, caçador, que não é domesticável. Por outro lado, Aslan é, ao mesmo tempo “Bom, muito bom!” Essa imagem contém todos os elementos essenciais de Cristo na doutrina cristã. Não é para menos que Lewis diz, em uma de suas cartas, que O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é a sua obra principal e mais amadurecida.

    Nessa linha de pensamento, G. K. Chesterton diz que a postura certa é a que, com moderação, considera os dois lados, da razão e bom senso e da imaginação e criatividade, deixando Deus iluminar ambos com sua mente. Esta é a moral dos contos-de-fada (e é nessa filosofia que se fundamenta igualmente a “filosofia da educação” narniana), que não passam do “país ensolarado do senso comum,” onde não há “leis,” regras ou classificações. Estas, de fato, são generalizações totalmente anti-intelectuais, de tão raramente que ocorrem na realidade (se é que ocorrem), nas quais não é o homem que cria a ciência, elaborando juízos sobre a natureza, mas a ciência é que cria o homem, julgando a natureza a partir de um pressuposto sobrenatural. No mundo das fadas, as palavras de ordem são “charme”, “magia”, “encanto,” expressando o princípio da incerteza e do mistério, que nos torna mais humildes e gratos pela vida, trazendo-nos de volta ao chão da realidade, que é o da ignorância e do esquecimento até de nós mesmos:

    Ame o Senhor nosso Deus, mas não tente conhecer-se a si mesmo. Somos todos vítimas da mesma calamidade intelectual; todos nós esquecemos nossos nomes; todos nós esquecemos o que realmente somos. Tudo o que chamamos de bom senso, racionalidade, praticidade e positivismo justifica-se pelo simples fato de que, devido a certos pontos mortos da nossa história de vida, esquecemos que esquecemos… Conforme explicava, os contos-de-fada fundaram em mim duas convicções: em primeiro lugar, este mundo é um lugar selvagem e chocante, que poderia ter sido muito diferente, mas que doravante é bastante prazeroso; em segundo lugar, antes desta selvageria e prazer, devemos ser modestos o suficiente para nos submeter, com simplicidade, aos limites do mistério. Sempre acreditei que o mundo envolvesse magia; hoje penso que é mais provável que envolva um mágico.34

    Em síntese, o que Chesterton diz é: a babá que narra os contos-de-fadas é a guardiã da tradição e da própria democratização da sabedoria e do conhecimento. Nada há de mais plausível e confiável do que os contos-de-fadas, que nos fazem ver as coisas como realmente são: encantadoras demais para podermos racionalizá-las, restando-nos apenas admirá-las, glorificando o Criador.

    E. Apre(e)nder pela literatura
    O segredo da didática de Lewis, então, parece encontrar-se nessa tentativa de traduzir em literatura imaginativa e bem humorada, que também apela para a razão, o que aprendeu por experiência: que, embora possa vir a tornar-se um caminho enganoso, se perdermos a moderação, admirando a criatura em lugar do Criador (vaidade das vaidades), a literatura tem o potencial ainda pouco explorado pelos educadores de motivar o educando a buscar algo que vai além da letra morta, e nos conduzir de volta ao caminho rumo ao nosso lar esquecido.

    A maior prova disso encontra-se na própria conversão de Lewis. Depois de cair no ceticismo ou anti-intelectualismo, após a descoberta de que a felicidade não se encontrava nas coisas que buscava, de repente acabou fazendo uma descoberta ainda maior: que a felicidade encontra-se para além dessas coisas, que não passam de sinais (daí vem ensinar) indicativos do caminho que leva a ela. Por esse exemplo de vida podemos notar que, precisamente por não ser “domesticável,” Deus se manifesta, sem pedir licença, a quem ele quiser e da forma que ele escolher.

    F. Aprendendo a aprender
    A metodologia proposta por Lewis na sua literatura, que parte sempre da experiência viva e real, traduzida e capturada pela linguagem imaginativa, visa abrir mais e mais caminhos ou vias de comunicação do evangelho ao ser humano. Essa metodologia das “portas abertas” tem o potencial de alcançar tanto cristãos desmotivados ou amortecidos pelo desânimo, quanto não cristãos, que esqueceram que Cristo é a única fonte da alegria verdadeira, capaz de preencher os vazios da natureza caída, reconciliando o homem com Deus e consigo mesmo. Evidentemente, essa felicidade, que podemos esperançosamente manter em mira através da literatura, nunca será totalmente realizada neste mundo, que, por isso mesmo, não passa de uma “terra das sombras” da verdadeira realidade que ainda está por vir.

    Assim, podemos dizer, em síntese, que, de acordo com Lewis, a melhor maneira de o educador cristão preparar-se para o século XXI é “ver as coisas como são,” aplicando a literatura, método ainda pouco desenvolvido na educação cristã, como meio para abrir oportunidades à discussão de conceitos fundamentais, tais como realidade, razão, fé e imaginação. Dessa maneira, se poderá construir um projeto pedagógico capaz de nortear todos os educadores cristãos interessados em aprender a fazer frente aos desafios futuros, equipando-se com fé, razão, coragem e muita imaginação.

  • As Crônicas de Nárnia, lançadas pela Editora Martins Fontes na bienal do livro de 1997, é uma série de contos infantis que inclui: O Sobrinho do Mago, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (que se encontra em desenho animado pela Reborn Vídeo), O Cavalo e seu Menino, Príncipe Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada, A Cadeira de Prata e A Última Batalha. C. S. Lewis, Surprised by Joy (Nova York: Harcourt Brace, 1954), traduzido como Surpreendido pela Alegria (São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1998). Da coleção de “Pensadores Clássicos” da Editora Mundo Cristão. Dessa coleção podemos citar ainda O Grande Abismo, além da coleção das Crônicas de Nárnia, hoje editadas pela Editora Martins Fontes. Outras obras de Lewis são Cristianismo Puro e Simples (ABU Editora) e O Peso da Glória (Vida Nova). Ainda que isso não seja bem verdade no Brasil, onde grande parte desses livros já se encontram esgotados, eles continuam bastante citados e aplicados, tanto nas Escolas Dominicais e reuniões diversas nas igrejas, quanto nos meios estudantis cristãos ou não. Colin Duriez, The J. R. R. Tolkien Handbook: A Comprehensive Guide to His Life, Writings, and World of Middle-Earth (Grand Rapids: Baker, 1992), 130. C. S. Lewis, Letters to Malcolm (Nova York: Harcourt Brace, 1963), 76. C. S. Lewis, Letters to an American Lady, ed. Clyde S. Kilby (Grand Rapids: Eerdmans, 1971), 55. A carta é de 26/4/56. Peter Kreeft, Buscar Sentido no Sofrimento (São Paulo: Edições Loyola, 1995), 100. Ibid., 61. Lewis, Letters to an American Lady, 79 (carta de 30/10/58). C. S. Lewis, The Allegory of Love (Oxford: Clarendon Press, 1936). C. S. Lewis, Studies in Medieval & Renaissance Literature (Cambridge: Cambridge University Press, 1996; 4a. edição), 44. Tomás de Aquino, Summa Contra Gentiles, em Os Pensadores, Vol VIII (São Paulo: Abril Cultural, 1973). Lewis, Studies in Medieval & Renaissance Literature, 59. Ibid., 72. Ibid., 82. Guilherme de Lorris (1200-40), poeta francês autor dos primeiros quatro mil versos de 22.000 do poema Le roman de la rose. A segunda parte foi escrita pelo poeta também francês Jean de Meun. C. S. Lewis, Cartas do Diabo a seu Aprendiz (Petrópolis: Vozes, 1996), 9. A Loyola manteve o nome original em inglês Screwtape. De fato, é difícil expressar a totalidade do significado desse nome em português, que lembra “verme”, “lombriga,” enfim, um parasita asqueroso que vai se enrolando em torno de si mesmo. Lewis, Cartas do Diabo a seu Aprendiz, 11. John R. Stott, Crer é também Pensar (São Paulo: ABU Editora, 1978), 7-8. Somente para citar um exemplo, devemos mencionar a excelente revista Didaquê, usada como material didático em escolas dominicais de diversas denominações, por todo o Brasil. Lewis, Cartas do Diabo a seu Aprendiz, 12 Ibid., 12-13. Ibid., 13-14. Odero & Odero, Imagen del Hombre (Pamplona: EUNSA, 1993), 369. C. S. Lewis, An Experiment in Criticism (Cambridge: Cambridge University Press, 1961), 120. Lewis, Letters to an American Lady, 16 (carta de 22/6/53). Walter Hooper, C. S. Lewis, A Companion and Guide (São Francisco: Harper Collins, 1996). Ibid., 53 (carta de 19/3/56). C. S. Lewis, God in the Dock: Essays on Theology and Ethics, ed. W. Hooper (Grand Rapids: Eerdmans, 1970), 284ss. Lewis, Letters to an American Lady, 84 (carta de 7/6/59). Os relatos completos das experiências impressionantes de Bruno Bettelheim com o tratamento de crianças deficientes mentais a partir dos contos-de-fadas pode ser lido na sua obra: A Psicanálise dos Contos de Fadas (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980). Ele diz: “É uma característica dos contos de fadas colocar um dilema existencial de forma breve e categórica. Isto permite à criança aprender o problema em sua forma mais essencial, onde uma trama mais complexa confundiria o assunto para ela. O conto-de-fadas simplifica todas as situações” (p. 15). G. K. Chesterton, “Orthodoxy,” texto eletrônico disponível na internet no endereço: http://www.dur.ac.uk/~dcs0mpw/gkc/books/ortho14.txt Fonte: Revista Fides Reformata


  • Pr. Gabriele Greggersen, fez mestrado e doutorado (tese: “A Antropologia Filosófica de ‘O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa’ e a Pedagogia de C. S.Lewis”) na área de História e Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Atualmente é professora de Didática e Metodologia no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper e em outras faculdades, além de fazer palestras e prestar consultoria pedagógica por todo o Brasil.

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  • AS TRÊS PALAVRAS QUE TRANSFORMAM UM RELACIONAMENTO

    Por: Edmilson Cerqueira

    Louvado seja Deus porque um dia Ele nos deu uma família e um lar. Louvado seja Deus porque mesmo com as lutas, dificuldades e tribulações, Ele também nos dá força e resistência para superarmos todas as crises e prosseguirmos a nossa vida em família, com amor e esperança de um futuro melhor.

    Nossa oração é que o amor, a graça e a paz do Senhor Jesus estejam reinando plenamente em sua vida e em seu lar.

    Você já pensou que muitas vezes falamos coisas que magoam e entristecem a Deus e ao nosso semelhante?

    Por causa disto, quantos vivem mal relacionados porque não conseguem se expressar positivamente, isto é, sem agressividades!

    Vivem sempre brigando, discutindo, sempre com palavras duras e ríspidas, que só trazem à tona coisas amargas, produzindo confusão e criando situações bastante desagradáveis.

    O apóstolo Tiago, irmão de Nosso Senhor Jesus Cristo, aprendeu muitas coisas com relação ao uso da palavra e ele mesmo nos ensina, dizendo o seguinte:

    (Ler Tiago 3.1-10)

    Conta-se que um rei muito poderoso iria receber um grande amigo em seu palácio. Então ele foi ao chefe da cozinha e ordenou que preparasse a melhor comida. No dia da visita o cozinheiro serviu “língua ao molho madeira”, para muitos um prato muito saboroso e apreciadíssimo.

    Passado algum tempo o rei recebeu a visita de um terrível inimigo. Então ordenou ao cozinheiro que fizesse a pior comida.

    Qual foi a surpresa de Sua Majestade ao observar que o cozinheiro preparara o mesmo prato! “Língua ao molho madeira”.

    Indignado o rei chamou o cozinheiro e perguntou-lhe:

    Como pode, cozinheiro, servir a mesma comida ao melhor amigo e ao pior inimigo? Eu pedi a melhor refeição para o amigo e a pior para o inimigo e você trouxe a mesma comida: “Língua”?!

    O humilde vassalo respondeu:

    É que a língua meu rei, num momento pode trazer paz, alegria, felicidade para aqueles a quem queremos bem e, em seguida, a mesma língua pode trazer guerra, tristeza e infelicidade a quem não queremos bem.

    Realmente, a Bíblia nos ensina e recomenda que é muito bom conviver com as pessoas que têm boas palavras em suas bocas. A Bíblia diz no livro de Provérbios 16.24: “Favos de mel são as palavras suaves, doces para a alma, saúde para os ossos”.

    Nada custa uma boa e sincera palavra, principalmente se vem antecipada por um alegre sorriso.

    Até ao receberem um gracioso “olá!”, “bom dia!”, “como vai?”, as pessoas se sentem felizes e têm um sentimento que estão sendo valorizadas.

    Quantos casais têm trocado palavras ríspidas e ofensivas, quebrando um relacionamento e trazendo conseqüências desagradáveis para a família e para o lar?

    Quantos pais têm ofendido seus filhos, humilhando-os com palavras duras, às vezes até mesmo diante de seus amigos?

    Quantos filhos, preocupados apenas consigo mesmos, entristecem e desonrando seus pais deixando um rastro de dor e lágrimas?

    Quando isto acontecer, devemos, humildemente reconhecer nosso erro e confessá-lo e, a seguir, pedir perdão.

    Daí então transmitir para o semelhante o amor que Deus coloca em nossos corações, o qual deve ser caracterizado pelas nossas atitudes diárias.

    Finalmente, as três palavras que transformam um relacionamento tênue, enfraquecido pelo rancor, apodrecido pelas mágoas, ofensas e tristezas, as três palavras que transformam uma inimizade contrária à vontade de Deus por um relacionamento saudável, carinhoso, amoroso, que se baseia na vontade soberana de Deus, são:

    ERREI!
    POR FAVOR, ME PERDOE!
    EU TE AMO!

    Por que não experimentar estas atitudes ainda hoje?

    Pr. Edmilson Cerqueira ,
    Pastor da Primeira Igreja Batista do Anil, RJ

     

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  • Unidade – Um Projeto Divino

    Unidade um Projeto Divino

    Texto Biblico – Efésios 1. 1-8

    Texto Áureo

    “Até que todos cheguemos a unidade de fé” – Efésios 4.13ª

    Introdução

    Nesta lição de hoje estudaremos os planos de Deus para unidade que tem por finalidade; De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; Efésios 1:10.

    1.1 – A Unidade de Propósito

    Nenhuns dos projetos de Deus são falhos ou ineficientes, contemplamos que tudo o que Deus fez, faz e continua a fazer é perfeito e seque uma harmonia sem igual, nada fora de equilíbrio e com princípios estabelecidos pela sua própria lei.

    Basta olhar para a narração da criação em Genesis 1:31a – E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom;

    No céu há uma unidade perfeita  Pai, Filho e Espírito Santo e os santos anjos que receberam esse adjetivo após não caírem nas artimanhas de Lúcifer e permaneceram fieis a Deus.

    Na criação os três participaram em perfeita comunhão, O Pai ordenando através de Sua Palavra (Jesus) e o Espírito Santo (poder de Deus) agindo.  E os anjos como agentes divinos executando seus mandatos numa unidade perfeita.

    Um erro muito comum

    Por anos, muitos cristãos têm vivido sem conhecer qual é o propósito (objetivo) de Deus para com suas vidas. Muitos têm crido, equivocadamente, que nossa meta como cristãos é chegar aos céus. Baseiam-se para isso em textos como os de I Timóteo 2:3-4; II Pedro 3:9 e ainda João 3:16. Vendo a Bíblia com um enfoque humanista, (isto é, o homem no centro), concluem que o propósito de Deus é a salvação dos homens. Tudo gira em torno do homem e de suas necessidades.

    Tudo isso é uma grande contradição. É claro que Deus quer salvar os homens, mas isto foi necessário por causa da queda. Entretanto, necessitamos conhecer a primeira intenção de Deus, o propósito que Ele tinha em seu coração quando fez o homem, pois seu propósito é imutável. DEUS NÃO MUDOU DE PROPÓSITO POR CAUSA DA QUEDA.

    1.2 – Senhor de uma Grande Família

    Efésios 1 5-10 – Versão NVI  – Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado.
    Nele temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus, a qual ele derramou sobre nós com toda a sabedoria e entendimento. E nos revelou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos.

    A vontade absoluta de Deus é que toda a sua criação seja uma grande família no sentido mais amplo e pleno da palavra família.

      a) A intenção de Deus ao criar o homem era de ter uma grande família de muitos filhos à sua própria imagem, e encher a terra com uma família que expressasse a sua glória e autoridade (Gênesis 1:27-28).

    b) Como Adão tinha sido criado à imagem de Deus, e cada ser se reproduzia segundo a sua própria espécie, quando Adão e Eva se multiplicassem, reproduziriam filhos a imagem de Deus.

     

    O Pecado

    O diabo sabendo dos planos de Deus quis estragar e contrariar a vontade de Deus e fez no Éden a primeira secção espírita onde um espírito demoníaco incorporou num animal na serpente e fez o plano de Deus correr perigo. Daí toda a criação de Deus se tornou alvo do juízo de Deus. O homem foi expulso da presença de Deus e sem comunhão com Ele morte eterna.


    Redenção

    Deus não mudou nem muda a Sua vontade esta permanece para sempre, então através de cristo ele restaura e dá procedimento ao seu designo eterno, através de seu Filho Jesus Cristo de Nazaré que nos resgata da condenação e passamos a ser filhos de Deus novamente em toda plenitude  e em unidade com Deus. Obra e propósito este que será consumado quando nos encontramos com Jesus.

    Portanto eu e você podemos nos alegrar no Senhor, pois ele nos resgatou com mão forte para que fossemos todos uma grande família.

    1.3 – O Exemplo negativo de Babel

    Após a queda a ordem imperativa e absoluta de Deus foi que os homens crescessem se multiplicassem e enchessem a terra. Porem o homem pecador já demonstra querer frustrar os planos de Deus como se fosse isto possível.

    Então eles dizem um para o outro, vamos ficar aqui juntos, não vamos nos espalhar, vamos criar o nosso reino e vamos mostrar nossa grandiosidade construindo algo tão imenso que cheque até o céu.

    Arqueólogos dizem que a torre foi uma espécie de Zigurate que é  uma forma de templo, criada pelos sumérios e comum para os babilônios e assírios, pertinente à época do antigo vale da Mesopotâmia e construído na forma de pirâmides terraplanadas. O formato era o de vários andares construídos um sobre o outro, com o diferencial de cada andar possuir área menor que a plataforma inferior sobre a qual foi construído — as plataformas poderiam ser retangulares, ovais ou quadradas, e seu número variava de dois a sete.

     

    Pintura em óleo de 1563

    O centro do zigurate era feito de tijolos queimados, muito mais resistentes, enquanto o exterior da construção mostrava adornos de tijolos cozidos ao Sol, mais fáceis de serem produzidos, porém menos resistentes. Os adornos normalmente eram envidraçados em cores diferentes, possivelmente contendo significação cosmológica. O acesso ao templo, situado no topo do zigurate, se fazia por uma série de rampas construídas no flanco da construção ou por uma rampa espiralada que se estendia desde a base até o cume do edifício. Os exemplos mais antigos de zigurates datam do final do terceiro milênio a.C., enquanto os mais recentes, do século VI a.C., e alguns dos exemplos mais notáveis dessas estruturas incluem as ruínas na cidade de Ur e de Khorsabad na Mesopotâmia.

    E sempre o homem tem tentado construir a sua vida sem Deus seguindo os seus próprios caminhos e agindo sobre influencia do inimigo. Constrói grandes construções para engrandecer seu próprio eu, faz caridades para se afirmar como bom, produz varias cosmovisões, uma que eles amam é o humanismo.

    Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como principais, numa escala de importância. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade.

    E hoje a Babel dos homens continua a ser construída e profeticamente como as profecias predizem o mundo chegara a uma unidade contra Deus através do Anti-Cristo e seus aliados, já podemos observar uma só moeda, um só banco, um só mercado, uma só língua, um só exercito e por ai vai, não há mais fronteiras entre países.

     

     

    Prédio parlamento da União Européia simples coincidência

     

     

    Interior do Parlamento

     

     

    Cartaz que diz “Europa muitas línguas uma só voz”

     

    Mais isto de nada adianta o propósito é divino e que se cumpriram em nós.

    2- A presença de Deus entre os homens

    Deus estabeleceu algumas instituições, que nos servem de modelo de unidade, que nos ensinam a viver em unidade, e é claro que nós poucas vezes atentamos para tão grande importância dessas que podemos chamar de instituições que neste presente século correm risco e perigos diariamente.

    São elas: A família, a nação de Israel e a Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo.

    2.1 – A harmonia da Criação

     

    2.2 A unidade da Família

    A primeira instituição criada por Deus foi a família, portanto tem uma importância muito grande, estudos e a sabedoria nos mostram que se queremos viver numa sociedade melhor, devemos ter cuidado especial pela nossa família, pois ela é que é a célula que forma a sociedade, se tivermos famílias desajustadas logo teremos células doentes que conseqüentemente teremos uma sociedade doentia.

    E esse é o propósito do mal destruir a família, atacando a constantemente devemos nos esforçar o máximo para  manter a nossa família nos moldes  bíblicos.

    Porque vocês acham que ensinam que o casamento não é mais necessário que e possível formar famílias diferentes com pessoas do mesmo sexo.

    A crise financeira força a mãe largar a criação dos filhos e entregá-los muitas das vezes a pessoas libertinas que irão influenciar de maneira negativa no caráter da criança.

    O excesso de entretenimento, nos leva a ter menos tempo para o bom diálogo no lar e a educação de nossos filhos, passamos horas no computador, assistindo TV, ou na rua, na academia, ou jogando uma bola com os amigos.

    Modelos Familiares hoje variam de nuclear a Disneylândia

    Família Nuclear –  Formada por marido, esposa e filhos padrão totalmente nos padrões bíblicos.

    Família casulo: aquela que se fecha em si mesma. Ela se basta.

    Família Disneylândia: aquela que se reúne, principalmente com o grupo familiar maior, só em situações de festas.

    Família clube: aquela que busca nas relações familiares somente um local para relaxar. Os membros dessa família não se envolvem em nada, não se preocupam, por exemplo, em pagar as contas da casa.

    Família moderna: aquela onde há cooperação entre os membros. É o modelo de família que se encontra em maior número no Brasil atual.

    Família tradição: é o modelo em que a figura do pai ainda é a mais importante. O pai manda e os filhos obedecem.

    Família monoparental: chefiada por um dos cônjuge por razão de ausência do outro.

    Família extensa: modelo em que moram todos juntos, ligados por vínculos consangüíneos

    Família reconstituída: modelo em que têm-se por base uma nova união. Exemplo: Pai separado com filho casa-se com uma mulher que também já tem um filho.

    Família aberta: são famílias abertas a qualquer tipo de relacionamento. Exemplo: Pais que aprovam que a filha more com namorado em casa. Tudo depende do tipo de relacionamento existente entre os membros.

    Família invisível: aquela que fala que é mas não é. É o modelo de família de fachada. Nesse exemplo, não há relacionamento entre eles.

    Família fragmentada: Nesse modelo, o genitor mora com avó ou avô da criança, integrando numa mesma casa três gerações.

    Família parceira: tipo de família formada por vínculos afetivos em função de um empreendimento. Nesse modelo, não há vínculo consangüíneo.

    Cuide muito bem da sua família, exemplo de Moises e Zípora: “E aconteceu no caminho, numa estalagem, que o SENHOR o encontrou, e o quis matar. Então, Zípora tomou uma pedra aguda, e circuncidou o prepúcio de seu filho, lançou-o a seus pés e disse: Certamente me és um esposo sanguinário. E desviou-se dele. Então ela disse…” (Veja Êx 4.21-26).

    Nesta passagem Moisés se absteve de exercer seu papel, o de pai, a quem cabia a circuncisão do filho. Ao não faze-lo, ele sobrecarregou a esposa, que teve que pegar uma faca e fazer a necessária cirurgia. A omissão de Moisés fez dele um sanguinário, no sentido que obrigou sua esposa a ser sanguinária (a derramar sangue, tarefa exclusivamente masculina).

    A ameaça de Deus sobre Moisés visava despertar o jovem líder para sua tarefa em casa. A vida em família não pode ficar em segundo plano, nem mesmo em nome de Deus, que não quer este tipo de sacrifício. Como o serviço (excessivo) de Moisés era para Deus, Deus então deu um ultimato, como se dissesse: eu quero obediência, não sacrifício. Moisés entendeu.

    ESCALA DE VALORES PADRAO BIBLICO

    A ordem de prioridades correta é PRIMEIRO LUGAR MEU RELACIONALMENTO PESSOAL COM DEUS,

    Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças.

    EM SEGUNDO LUGAR MINHA FAMÍLIA,

    Mas, se alguém não cuida dos seus, e especialmente dos da sua família, tem negado a fé, e é pior que um incrédulo. (1 Timóteo 5.8 )

    É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, … que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?) (1 Timóteo 3.2,4 e 5)

    EM TERCEIRO LUGAR MEU TRABALHO

    Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: Se alguém não quer trabalhar, também não coma. Pois, de fato, estamos informados de que entre vós há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando; antes se intrometem na vida alheia. A elas, porém, determinamos e exortamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando tranqüilamente, comam o seu próprio pão. (2 Tessalonicenses 3.10-12)

    E POR FIM  O  TRABALHO NA OBRA DO SENHOR.

    não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia. (Hebreus 10.25).

    2.3 – Israel e a unidade

    Deus demonstra através do seu relacionamento com o povo de Israel o seu propósito de ter um povo seu onde ele reina absoluto, mais infelizmente Israel não quis e preferiu ser igual as outras nações queriam um Rei humano, então Saul foi levantado, a história registra a tragédia que foi, depois Davi , Salomão reinos não totalmente perfeitos, com a morte de Salomão os Reinos perderam a unidade e se dividiram em Reino do Norte e Reino do Sul, ambos fracassam e levam o povo de Deus ao cativeiro e em seguida sobre o domínios dos outros países e reis até que o ultimo sobre o domínio dos Romanos, que acabaram por varrer Israel do Mapa.

    Mais Deus ainda não encerrou seus propósito para com Israel e profeticamente em 1948 o estado de Israel ressurge, e até hoje eles lutam para viver do  jeito sem  Deus e sem Jesus, mais há  promessa de Deus para vida deles.

    2.4 – A Igreja é Cristã quando nela há unidade

    A igreja do Senhor Jesus não pode ser mensurada, pois são todos os salvos em Cristo Jesus em torno do planeta, esse o projeto de Deus para toda a humanidade que não falha e não falhará, e importante separar a igreja A, B ou C, se nos olharmos para qualquer uma delas veremos em sua trajetória altos e baixos muito mais baixos do que altos, mais se abrimos nossa visão veremos que ela e que preserva o mundo e é aporta de salvação para toda a humanidade.

    Agora para que ela seja reconhecida como a verdadeira igreja de Cristo comprada e lavada pelo Seu Sangue, tem que haver união fraternal entre seus membros.

    Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós. Efésios 4:4-6

    Um só corpo, fala de unidade dos membros que vivem em comunidade, são diferentes membros mais todos trabalham com o mesmo propósito o bem estar de todo o corpo.

    Movido por um só Espírito, move-se e age na vontade de Deus para os seus desígnios.

    Submissa a um só Senhor que se revela através da sua Eterna Palavra.

    Uma só fé, acreditam nas mesmas coisas e buscam os mesmo objetivos que é agradar ao Senhor.

    Um só batismo,da morte para vida, batismo de arrependimento para remissão dos pecados e se tornar uma nova criatura e poder morar no céu de gloria para todo sempre.

    3. A Vitória é certa em Cristo

    Se olharmos para as instituições criadas por homens seja ela qual for, em nenhuma delas encontrará a perfeita unidade, mais se Jesus está no centro ele produz a verdadeira unidade.

    3.1 Bençãos de Cristo

    Coisas maravilhosas acontecem quando a igreja está em unidade as bênçãos de Deus fluem da igreja para o mundo, impactando a todos pelo poder do evangelho.

    Vejamos o Salmo 133

    Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.
    É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o SENHOR ordena a bênção e a vida para sempre.

    Aqui quero destacar três coisas que acontecem exclusivamente na IGREJA, quando nos reunimos.

    Unção, Benção e Vida para Sempre.

    3.2 Unidade da Igreja por meio de Jesus Cristo

    A unidade da igreja e a reconciliação com Deus e garantida através de Jesus.

    Na cruz com os braços estendidos de um lado Deus do outro a humanidade e Ele uni novamente, e restaura todas as coisas para todo sempre. Portanto vale a pena servir a Deus em unidade, Deus não criou a Igreja atoa por nada ela tem um propósito sublime de ser Deus agindo na Terra nos dias de hoje.Essa e a vontade de Deus e de Jesus confira na Oração Sacerdotal de Jesus.

    João 17- Jesus falou assim e, levantando seus olhos ao céu, disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti;Assim como lhe deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste.E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer. E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra. Agora já têm conhecido que tudo quanto me deste provém de ti; Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam, e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste. Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. E todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas; e nisso sou glorificado. E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse. Mas agora vou para ti, e digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos. Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade. E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim.Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja.

     

     

     

     

     

     

     


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  • Ofertando da Substância

    A alegria de ofertar sacrificialmente é um dos valores perdidos no meio da prosperidade. Eu freqüentemente vi meus pais dando além daquilo que era confortável para eles. E não sei com quanto freqüência meus filhos me vêem contribuindo de forma sacrifical ao Reino de Deus. Provérbios 3:9 nos ensina a honrar o Senhor com os nossos bens, com a essência daquilo que possuímos. Normalmente, ofertamos da sobra, mas ele deseja da substância. Há uma diferença.


    – Larry L. Kiser em Fundamentalist Journal (March 1989) (“Jornal Fundamentalista”). Christianity Today, Vol. 33, no. 8.

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  • Qual foi o pecado de Cam?

    Por Esdras Bentho

    Muitas pessoas ignoram a correta interpretação da bênção e maldição de Noé sobre os seus filhos. Na maioria das vezes por desconhecer as línguas originais e pelo fato de usarem o texto bíblico sem refletir corretamente a respeito de seu significado. Muitas distorções surgem dessa eisegese, que força o texto a dizer o que não diz para servir de pretexto e prova para debates contemporâneos. O presente artigo pretende dar uma resposta aos desvios de análise e interpretação dessa passagem, colocada no cenário hodierno para justificar o debate em torno de certa polêmica.

    Após as narrativas que estabelecem a aliança de Deus com Noé e seus filhos, segue-se uma tragédia na família de Noé (Gn 9.20-29). Um resumo dos fatos sucedidos facilitará a compreensão da narrativa:

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