Categoria: Prosperidade

  • Lição 9: Dízimos e ofertas

    Dizimar e ofertar nada mais é que reconhecer o senhorio de Deus sobre os bens materiais sob administração do homem.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo de pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido alvo de distorções da “teologia da prosperidade”, estudaremos hoje a doutrina bíblica dos dízimos e ofertas.

    – Ao contrário do que ensinam os “teólogos da prosperidade”, dízimos e ofertas não são ingressos para uma vida regalada, nem instrumentos de barganha para com Deus.

    I – O ENSINO BÍBLICO A RESPEITO DOS BENS MATERIAIS

    – Para que possamos entender o que a Bíblia diz a respeito da conduta do ser humano frente aos bens materiais é imperioso verificarmos a própria declaração primeira da revelação de Deus ao homem. Em Gn.1:1, a Bíblia deixa claro que Deus criou os céus e a terra, o que repete em Gn.1:31-2:3. Assim, tanto no início quanto no término do relato da criação, a Palavra não deixa qualquer dúvida de que Deus é o Senhor do Universo, ou seja, o dono de tudo.

    – Assim, não deve causar espanto a declaração do salmista (Sl.24:1), segundo a qual “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam”. Com efeito, por ter criado o mundo e tudo o que nele há, Deus é o legítimo dono de todas as coisas.

    – Se isto é assim, o homem é apenas um administrador da criação. Com efeito, ao criar o homem e a mulher, Deus concedeu a eles o domínio sobre toda a criação (Gn.1:26,28), domínio este que não representa senhorio, mas uma autoridade, uma autorização para administrar a criação terrena (observemos que no mandato dado ao ser humano por Deus não se incluem as criações celestiais. É por isso que o salmista afirma que o homem foi feito pouco menor do que os anjos – Sl.8:5).

    – Partindo deste pressuposto, não pode o homem achar-se dono de coisa alguma sobre esta terra e deveria comportar-se desta maneira, ou seja, plenamente consciente de que é apenas um administrador daquilo que Deus lhe deu. É exatamente esta a consciência do cristão, a de que é apenas um mordomo, um despenseiro de Deus ( I Co.4:1,2; Tt.1:7; I Pe.4:10).

    – Assim, se temos a capacidade, dada por Deus, de sujeitarmos à nossa vontade os bens existentes na natureza (e bem, aqui, é tudo o que pode suprir as nossas necessidades e nos trazer alguma utilidade) e isto é o princípio da propriedade (por isso o jurista alemão Windscheid conceituava propriedade como a sujeição absoluta de algo à vontade de uma pessoa), ao mesmo tempo devemos observar que a propriedade não é um fim em si mesma, mas tem a função de, por meio desta sujeição, tornarmo-nos um instrumento da vontade divina.

    – É, por isso, que a propriedade deve ser considerada como um direito natural, um direito inerente à pessoa humana, devendo ser respeitada e garantida, não tendo cabimento nem qualquer respaldo bíblico qualquer iniciativa que tenda a suprimi-la dos indivíduos, mesmo se o fizer em nome de uma suposta igualdade social (como o fizeram os comunistas marxista-leninistas no século XX), por ser algo contrário à ordem estabelecida por Deus ao gênero humano, mas, ao mesmo tempo, não se pode conceber uma propriedade que não tenha por objetivo a realização da vontade divina na humanidade. Assim, tão contrário à Bíblia como a supressão da propriedade privada é a sua exacerbação, a busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas e de posses em detrimento do próximo e da sociedade.

    OBS: “…O capitalismo, como princípio básico, sem os seus abusos, concorda com os ideais do cristianismo. O conceito de propriedade privada era uma das vigas mestras do judaísmo. Cada família contava com a sua propriedade particular, protegidas pelas leis da herança. O ideal era e continua sendo que cada homem tenha a sua própria vinha e a sua própria figueira ( I Rs.4:25; Mq.4:4). Porém, é deveras instrutivo ver como a legislação mosaica também defendia os direitos dos pobres. De acordo com o cristianismo, o conceito de propriedade privada não somente é exposto como normal, mas, igualmente, como meio de proteger o indivíduo de medidas ditatoriais do Estado (…)O Novo Testamento, naturalmente, combate os típicos abusos do capitalismo, como a desconsideração pelos direitos do indivíduo e a escravização dos mais pobres pelos ricos, mediante medidas econômicas.(…)Adam Smith, que tinha um ponto de vista otimista da natureza humana, supunha que, – finalmente, surgiria do mercado livre uma espécie de harmonia automática, visto que o homem seria essencialmente bom em sua natureza, a qual controlaria os seus interesses pessoais. Mas o cristianismo ensina que isso só começa a ser curado com a conversão espiritual. Esse preceito, pois, volta-se tanto contra os abusos do capitalismo como contra o ateísmo do comunismo, sistema este que supõe que o mundo é governado por princípios econômicos, e não por princípios espirituais.” (CHAMPLIN, R.N. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, p.646).

    – Assim, ao mesmo tempo em que a Palavra de Deus garante a cada ser humano a possibilidade de sujeitar bens de acordo com a sua vontade e de deles usufruir para a satisfação de suas necessidades, também estabelece que o objetivo do homem e da mulher não deve ser o acúmulo de riquezas para si ou a sua exaltação por causa dos bens que tenha a seu dispor, mas que tudo isto seja um instrumento para que a glória de Deus se manifeste na administração destes bens que lhe forem confiados por Deus, o único e verdadeiro dono de todas as coisas.

    – Entretanto, o homem sem Deus e, consequentemente, sem uma dimensão da eternidade, tem sua vista obscurecida pelas coisas temporais e passageiras e, portanto, acaba se deixando dominar pela avareza, pelo desejo de acumulação de riquezas, que é uma insensatez total, como deixou bem claro Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21), “porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”(Lc.12:15).

    – Lamentavelmente, não são poucos os que acabam se perdendo na caminhada para o céu por causa dos bens materiais e por causa do dinheiro. A Bíblia revela que a ganância pelas coisas, que a avareza tem sido um obstáculo para muitos alcançarem a salvação, como nos casos do mancebo de qualidade (Mt.19:22; Lc.18:23), de Judas Iscariotes (Lc.22:3-6; Jo.12:4-6), de Ananias e Safira (At.5:1-5,8-10),  de Simão (At.8:18-23) e de muitos outros, como afirmou Paulo em sua carta a Timóteo (I Tm.6:9,10).

    – O dinheiro não é um mal em si.  A riqueza é uma bênção de Deus, tanto que Deus a concedeu a Salomão (I Rs.3:13), mas, e aqui está um caso típico, não podemos pôr nas riquezas o nosso coração (Mt.6:19-21). Devemos, sempre, buscar servir a Deus e Lhe agradar. Esta deve ser a intenção do cristão. Se Deus nos conceder a riqueza, que nós a usemos para agradar a Deus. Se nos der a pobreza, que nós a usemos para agradar a Deus.

    O importante é que não façamos dos bens materiais o objetivo e a intenção de nossas vidas. Quem passa a viver em função dos bens materiais, quem passa a pôr o seu coração nos tesouros desta vida, passa a ser um avarento, um ganancioso e, como tal, será um idólatra (Cl.3:5) e, assim, está fora do reino dos céus (Ap.22:15).

    – Neste ponto, devemos, pois, contrariar ensinamentos a respeito da “opção pelos pobres”, que tem sido o mote da teologia católico-romana, principalmente após o Concílio Vaticano II, com especial ressonância na Igreja Romana da América Latina. Em momento algum, na Bíblia Sagrada, Deus manifesta Sua opção em favor dos pobres, em detrimento aos ricos. A Bíblia, aliás, expressamente, afirma que Deus fez tanto o pobre quanto o rico (Pv.22:2) e seria injusto caso preferisse um ao outro, se ambos são obra de Suas mãos.

    – Buscam os idealizadores desta “opção pelos pobres” fundamentação na passagem do mancebo de qualidade em que Jesus afirma que dificilmente um rico entrará no reino dos céus (Mt.19:212-26). Tal afirmação de Jesus é uma constatação, porquanto a existência de riquezas, diante da natureza pecaminosa do homem, faz com que o ser humano seja mais facilmente enganado pela sensação de autossuficiência, que conduz à perdição eterna, mas, em momento algum, revela que Deus tenha feito uma opção pelos pobres em detrimento dos ricos. Tanto assim é que a Bíblia está repleta de homens que gozavam de confortável situação financeira e que serviam a Deus, como são exemplos, para ficar só no ministério de Jesus, José de Arimateia, Nicodemos e as mulheres que acompanhavam o Mestre e que, diz a Bíblia, serviam-nos com suas fazendas, ou seja, com seus recursos financeiros.

    – A Bíblia nos mostra que a aquisição de bens materiais é uma necessidade para o homem depois da sua queda, pois deverá, do seu trabalho, obter o seu sustento (Gn.3:19). Deste modo, a obtenção dos meios necessários para a nossa sobrevivência deve vir do trabalho. É por isso que Paulo, numa afirmação dura, mas que é a verdade nua e crua, disse que “se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (II Ts.3:10), máxima que foi, inclusive, incorporada em várias Constituições de países comunistas no século XX, mas que traduz um princípio bíblico.

    – Portanto, a primeira fonte de aquisição de bens materiais deve ser o trabalho, devendo, pois, o cristão valorizar o trabalho e buscá-lo como forma de sustento seu e de sua família. É, aliás, este traço da ética cristã que foi objeto de estudo do sociólogo alemão Max Weber, que, em seu livro, “A Ética Protestante e o Capitalismo”, que foi considerado um dos principais livros do século XX (foi considerado a maior obra de ciências humanas daquele século), entendeu que, graças a este valor dado pelos cristãos ao trabalho, em virtude do que diz a seu respeito a Bíblia Sagrada, que foi possível o surgimento dos países desenvolvidos da Europa Ocidental (Inglaterra, França, Holanda e Alemanha, fundamentalmente) e, posteriormente, a grandeza dos Estados Unidos da América.

    – Assim, o cristão deve, sempre, dignificar o trabalho, valorizá-lo e, através dele, obter o seu sustento, levantando-se contra toda estrutura sócio-econômica que venha a desprestigiar o trabalho. Neste passo, é dever de todo cristão incentivar e estimular o aumento da oferta de emprego, bem como resistir a toda prática que vise a supressão de postos de trabalho sem a devida compensação. As políticas compensatórias, ademais, não devem ser de cunho meramente assistencialista, mas devem sempre ser tais que incentivem e estimulem a busca de novos empregos, ainda que se tenha de preparar convenientemente o desempregado.

    – Neste ponto, aliás, como a busca pelos bens materiais deve ser com vistas à satisfação de Deus e não a uma incessante corrida pelo prazer, pelo luxo e pela autossuficiência, temos que há uma clara distinção entre a ética cristã e a ética do capitalismo. O capitalismo é um sistema econômico em que se busca, sempre, o máximo lucro com o menor custo, com o aumento incessante da produção e do consumo. Dentro da lógica do capitalismo, é preciso sempre produzir cada vez mais, com o maior lucro e com a redução crescente dos custos. A ética cristã, entretanto, é bem diversa: não há que se buscar o máximo lucro, mas, bem ao contrário, deve-se buscar o suficiente para se ter uma vida digna, uma vida sossegada, mas sem a “febre do ouro” que tem dominado o mundo de hoje. Diz o sábio Salomão que devemos, sempre, buscar a “porção acostumada de cada dia” (Pv.30:8,9) e ninguém melhor do que Salomão para nos afirmar que a posse de riquezas em demasia não representa bem algum para a alma humana…

    – Não se está aqui afirmando que o cristão não deve procurar uma melhoria de vida, um melhor emprego, capacitar-se para obter melhores posições, ou seja, em absoluto se nega ao servo de Deus a busca de melhores oportunidades, um progresso maior, até porque o filho de Deus não é cauda, mas cabeça (Dt.28:13), mas se está afirmando, isto sim, que não devemos colocar como alvos únicos e exclusivos de nossas vidas uma prosperidade material, como objetivo as benesses desta vida (Pv.27:24). Nunca nos esqueçamos que, se cremos em Cristo só para esta vida, seremos os mais miseráveis de todos os homens! (I Co.15:19).

    – Quando o homem tenta progredir na vida material tendo consciência de que existe uma dimensão eterna, de que é mero administrador do que Deus lhe confiou, ele jamais se comporta de forma nociva ao seu semelhante, jamais busca usar de todos os métodos, lícitos ou não, visando à acumulação de riquezas, pois tem pleno conhecimento de que nu saiu do ventre de sua mãe e de que nu terminará a sua existência (Jó 1:21; I Tm.6:7). Como dizem as Escrituras, aqueles que se envolvem na ilusão das riquezas, trazem para si somente males e problemas, já nesta vida, que dirá quando se encontrar com o reto e supremo Juiz de toda a terra (Pv.28:22; I Tm.6:9; Hb.9:27).

    – Dentro desta perspectiva, o cristão deve, consciente de que o que tem amealhado de bens materiais, é para ser um instrumento de satisfação da vontade divina, administrar o seu patrimônio de forma a obter este agrado de Deus, fazendo-o conforme a Sua Palavra.

    – Em virtude deste ensino bíblico a respeito dos bens materiais, vemos claramente que os propagadores do evangelho da prosperidade esquecem-se de dizer aos seus ouvintes  que, em vindo a prosperidade material solicitada, o “novo rico” não será um senhor de riquezas, não será sequer o proprietário de todos os bens que o Senhor lhe conceder.

    – A mensagem do evangelho da prosperidade faz questão de alardear que Deus tem obrigação de nos dar bens e uma vida regalada, pois ” é o dono de toda prata e de todo o ouro” e que nós somos ” filhos do rei”, o que, em parte, é uma realidade e uma verdade constante das Escrituras, mas não dizem que, quando ganharmos toda esta prosperidade, o Senhor continua sendo Senhor, continua sendo o ” dono de todo o ouro e de toda a prata”, assim como, também, continua sendo o ” Rei dos reis” e ” Senhor dos senhores”, ou seja, ao contrário do que querem fazer crer os evangelistas da prosperidade, ser rico, ser próspero materialmente não é um privilégio ou um direito do cristão, mas, muito mais do que isto, é uma obrigação a mais que o servo do Senhor assume diante do seu Deus. Quem tem riquezas, passa a ser mordomo destas mesmas riquezas diante do Senhor e, como tal, assume muitas outras obrigações que, se pobre fosse, não teria diante de Deus.

    OBS: A partir desta ideia é que se desenvolveu o conceito da ” função social da propriedade”, concebida a partir da doutrina social católica e que encontrou sua expressão jurídica nos ensinos do jurista francês Léon Duguit e que se encontra, hoje, em todas as constituições e legislações dos países, inclusive na Constituição da República Federativa do Brasil. Em nosso país, a propriedade só é considerada direito se atender à sua função social, ou seja, se cumprir com os objetivos maiores a respeito da circulação de bens e de riquezas em nossa sociedade.

    – Já os judeus, na sua compreensão ainda parcial da revelação divina, tinham obtido esta concepção. Diz o enciclopedista judeu Nathan Ausubel que os judeus acreditavam que “…se a pobreza existia, era principalmente a sociedade que deveria ser responsabilizada, uma vez que permitia a opressão dos pobres e fracos. Esta situação era tida como uma violação da lei natural, e a prática difundida da benevolência servia, meramente, como forma de expiação e aprimoramento. Quando o salmista cantava: ‘ A terra é do Senhor e tudo o que nela se encontra’, o princípio daquele direito estava claramente indicado. O mesmo princípio adquiriu força de lei no texto das Escrituras: ‘ Minha é a prata e meu é o ouro, disse o Senhor das Hostes’.

    E., obviamente, uma vez que Deus havia dado a terra com ‘ todas as suas riquezas’ – a prata e o ouro – somente aos ricos e poderosos, os Sábios deduziam daí que Deus tinha uma dívida material para com os pobres que tinham sido deixados de mãos vazias. Por consequência, fazer com que essa dívida fosse paga aos pobres pelos ricos constituía um ato de ‘ justiça’ e, portanto, de ‘ virtude’ [ daí porque da palavra hebraica para caridade, a saber, ‘ tzedakah’, que tem este duplo significado de justiça e de virtude – observação nossa]. Além disso, acreditavam que quando Deus havia dado a riqueza aos abastados, não as havia entregue em caráter definitivo, nem como recompensa por suas ações ou por qualquer mérito especial.

    Era somente para que a retivessem em custódia para os pobres! Os ricos seriam, assim, meros agentes fiscais de Deus, por assim dizer, em favor dos pobres! Estender a tzedakah aos pobres ‘ com todo o coração’ tinha, portanto, a significação intrínseca de um ato de ‘ virtude’. Daí ter-se desenvolvido o axioma que, se os ricos fossem realmente honestos e tementes a Deus, distribuiriam prazerosamente a riqueza que retinham em custódia de Deus, entre os inúmeros credores de Deus – os pobres, os doentes, os desamparados, os necessitados etc.…” (Caridade. In: JUDAICA, v.5, p.114).

    – Como se pode verificar, portanto, a prosperidade material traz ao homem uma nova obrigação, qual seja, a de repartir com o próximo esta sua prosperidade, de maneira a que haja uma melhor distribuição de renda e sejam amenizadas as necessidades do outro. A prosperidade que tem sido pregada por aí é para que alguém viva de forma regalada e despreocupada, desfrutando de um “paraíso terrestre”, algo que apenas revela o grau de egoísmo e de amor do dinheiro destes pretensos ” filhos de Deus conscientes de seus direitos”.  Na verdade, como ensinou o grande reformador João Calvino, “…não há um caminho mais direto (à gratidão)  do que o de tirarmos nossos olhos da vida presente e meditar na imortalidade do céu. Disto se deriva(…) que devemos aprender a suportar a pobreza quieta e pacientemente, e desfrutar a abundância com moderação. Aquele que nos ordena a que usemos este mundo como se não o usássemos, não somente nos proíbe toda falta de moderação em comer e beber, nos prazeres indecorosos e excessivos, na ambição, no orgulho e na fastuosidade em nosso lar, como também em cada cuidado e afeto que faça diminuir nosso nível espiritual ou que ameace destruir nossa devoção.…” (A verdadeira vida cristã, p.73).

    – Nada é mais contrário ao cumprimento da mordomia da prosperidade do que o cristão abençoado pelo Senhor passar a ostentar sua riqueza e a viver regaladamente, esquecido dos mais necessitados e da moderação, que deve acompanhar, como qualidade, o verdadeiro e sincero servo do Senhor. Assim, a prosperidade, antes de ser um privilégio para o cristão, é antes uma nova obrigação, pois a posse de riquezas torna o seu detentor como responsável direto para a melhoria das condições de vida dos menos afortunados. Na história do rico e Lázaro, vemos como o Senhor prestou muita atenção à forma como o rico tratou o pobre mendigo Lázaro durante a sua existência! (Lc.16:19-21,25).

    – Se quisermos ser prósperos materialmente, podemos pedi-lo a Deus que, segundo a Sua vontade (pois não tem qualquer obrigação de enriquecer materialmente quem quer que seja), poderá nos conceder esta bênção, mas, lembremo-nos de que, uma vez tornados ricos, assumiremos a mordomia da prosperidade e deveremos responder diante de Deus pelo uso que fizermos das riquezas que angariarmos.

    II – O SIGNIFICADO DO DÍZIMO NA BÍBLIA

    – Dízimo é palavra portuguesa que traduz palavras hebraicas e gregas das Escrituras cujo significado é o de “décima parte”, “um décimo”.  Dízimo, portanto, segundo a origem da palavra, quer dizer a décima parte, um décimo de algo. Assim, se dividirmos uma laranja em dez partes, cada uma delas será um dízimo da laranja.

    – O dízimo é um ato pelo qual alguém entrega a melhor porção de seu patrimônio para Deus, a fim de ser destinado ao sustento daqueles que estão envolvidos no trabalho do Senhor, como reconhecimento de que Deus é o Senhor de todas as coisas, em agradecimento por Deus ter provido o sustento daquele que está a dizimar, bem como um ato de fidelidade e testemunho do compromisso que existe no relacionamento entre Deus e aquele que está a fazer a oferta.

    – O dízimo, portanto, apresenta-se como um ato pelo qual o homem reconhece que não é dono de coisa alguma que amealhou com o seu trabalho. É por isso que o dízimo é uma demonstração material, um ato efetivo e concreto de mordomia, pois, embora tenha angariado os recursos que chegam à sua mão com seu suor, o homem, ao entregar a décima parte na obra de Deus, diz, com este gesto, que está a reconhecer que do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Sl.24:1).

    – O dízimo, também, é um ato de gratidão a Deus, de agradecimento pela concessão dos meios pelos quais se podem amealhar os recursos financeiros necessários à nossa sobrevivência. Quando dizimamos, estamos agradecendo a Deus, porque Lhe devolvemos a décima parte do que Ele nos deu, para que a Sua obra, que, como uma atividade feita entre os homens, depende de recursos financeiros para a sua manutenção, possa ser realizada. Deus tem escolhido homens e mulheres para que se dediquem ao reino de Deus, para que se envolvam com as tarefas destinadas à salvação e aperfeiçoamento espiritual das vidas e, por causa deste envolvimento, tais pessoas não têm condições de obter, para si, um sustento, de efetuar um trabalho material que lhes possa proporcionar o pão de cada dia. Quando dizimamos, estamos permitindo que estas pessoas possam continuar atendendo ao chamado do Senhor e supram as suas necessidades. Demonstramos estar agradecidos a Deus quando mantemos o sustento daqueles que por Ele foram chamados para dedicação integral à obra do Senhor.

    – O dízimo também é um ato de fidelidade e de compromisso com Deus, pois, à medida que separamos parte do nosso patrimônio para o sustento da obra do Senhor, com certeza estamos demonstrando que não somos indiferentes à obra de Deus, damos uma prova concreta de que estamos comprometidos e envolvidos com os planos e propósitos de Deus para a humanidade. A fé sem obras é morta (Tg.2:17) e, quando dizimamos, estamos praticando uma atitude que mostra que temos uma verdadeira fé, revelamos que amamos a Deus. Não somos indiferentes, como eram os homens dos dias do profeta Malaquias.

    – O dízimo, também, é uma demonstração de honestidade, um indicador de moralidade. Com efeito, ao dizimarmos, reconhecemos, como dissemos, a soberania de Deus sobre todas as coisas, bem assim a propriedade divina sobre os bens materiais. Quando dizimamos, estamos devolvendo a Deus o que Lhe pertence, não retendo aquilo que não é nosso, mas é devido ao Senhor.

    – Visto o que o dízimo é, devemos, agora, observar o que o dízimo não é. O dízimo não é um investimento, como muitos têm pregado por aí. Verdade é que Deus tem prometido bênção de abastança para os dizimistas (Ml.3:10), mas isto não quer dizer que devemos dizimar visando obter maiores lucros, como se o dízimo fosse uma aplicação financeira ou um investimento de grande retorno.

    – Os teólogos da prosperidade têm, muitas vezes, dito que o dízimo ou “o sacrifício” (nome como muitos têm denominado a contribuição bem superior à décima parte, envolvendo, não poucas vezes, todo o patrimônio de alguém, ” o seu tudo” , como dizem) é o caminho mais rápido e eficaz para a riqueza e para a ampla prosperidade material. Não devemos dizimar para nos tornarmos mais ricos, mais prósperos, mas devemos dizimar em gratidão a Deus, em reconhecimento à sua soberania. Dízimo não é investimento, nem um modo santo de se canalizar a ganância, algo que é próprio dos mais miseráveis de todos os homens (I Co.15:19).

    – A bênção da abastança não é o acúmulo de riquezas, mas, sim, a suficiência, a vida digna e razoável sobre a face da Terra, o necessário para a sobrevivência, a “porção acostumada de Agur” (Pv.30:8), algo que o apóstolo Paulo reiterará ao falar da fidelidade nas contribuições, em II Co.8:14,15. Por isso, aliás, o mesmo profeta Malaquias fala da repreensão do devorador (Ml.3:11), ou seja, de todo fator que venha a trazer carência e necessidade aquém do mínimo necessário, como vem, por exemplo, nos dias de Joel (Jl.1).

    – Dízimo não é uma fonte de obrigações para Deus. Muitos acham que, dizimando, criam para Deus obrigações. Assim, entregam seus dízimos porque, assim, Deus estaria obrigado a lhes dar bênçãos de prosperidade material, de saúde ou, até mesmo, de salvação. Pensam que o dízimo vincula Deus a seus caprichos, desejos e aspirações. Pensam até que o dízimo é o caminho para sua salvação. Para estes que assim pensam, podemos fazer uma pequena ilustração. Digamos que sejamos donos de dez bolas e que as confiemos a uma criança nossa conhecida, mandando que ela tome conta delas para nós. Pouco tempo depois, a criança vem e nos entrega uma das dez bolas, e nós a recebemos. Por um acaso, surgiu, aqui, alguma obrigação de nossa parte em relação à criança por causa da nossa bola que ela nos devolveu?  Logicamente que não! Assim ocorre com Deus. Deus recebe de volta algo que Lhe pertence. Estaria Ele, então, obrigado a nos fazer algo que queiramos por causa desta devolução? Deus prometeu dar aos dizimistas a bênção da maior abastança e, com relação a isto, há um dever divino, não em relação a nós ou por causa da nossa vontade, mas em virtude de Seu próprio caráter moral. Maior abastança não significa outra coisa senão ter além do necessário, além do suprimento das necessidades. Vimos, aliás, que, quando isto ocorre, passamos a ter uma obrigação a mais da parte de Deus, qual seja, a de socorrer os necessitados. Assim, ter tantas bênçãos que não tenhamos onde guardá-las (como diz tanto o texto da NVI de Ml.3:8 quanto a própria tradução inglesa do rei Tiago), não é viver regaladamente e no luxo, como propalam os teólogos da prosperidade, mas assumir o encargo de auxiliar os menos afortunados.

    – Dízimo, também, não é meio de salvação. Todo salvo é dizimista, mas nem todo dizimista é salvo. Querer dizer que, com a entrega do dízimo, estaremos dando passo importante para a nossa salvação é o mesmo que dizer que, pelas obras, nós seremos salvos, é ressuscitar o odioso conceito da doutrina das indulgências que fez com que Deus levantasse homens como Martinho Lutero para recuperar a santidade e a biblicidade na Sua Igreja. O dizimista é alguém que compreende que o Senhor é o dono de todas as coisas, mas não é, por isso, alguém que deixe Deus governar a sua própria vida.

    – O próprio Jesus mostrou que não se pode fazer qualquer oferta a Deus sem que, antes, não se esteja em santidade (Mt.5:23,24). Esta é a maior demonstração de que nada podemos oferecer ao Senhor se não estivermos em comunhão com o Senhor, amando a Deus, cumprindo Seus mandamentos (Jo.14:23; 15:14) e, simultaneamente, amando ao próximo (I Jo.4:20,21).

    – Dízimo não é um meio de enriquecimento de inescrupulosos e mercenários da fé. Muitos têm se aproveitado da doutrina do dízimo para amealharem riquezas e fazer do evangelho um negócio rentável e cada vez mais crescente. Esta possibilidade não passou despercebida do Senhor que, em Sua Palavra, já nos primórdios da fé cristã, já advertia os crentes que muitos seriam feitos negócio com palavras fingidas de pessoas inescrupulosas (II Pe.2:3). Antes mesmo de nossa dispensação, o profeta Ezequiel já indicara a existência de pastores infiéis, que têm como objetivo tão somente explorar as ovelhas (Ez.34:4). Todavia, não é por causa destes que devemos de deixar o nosso compromisso diante de Deus. Façamos a nossa parte, que é entregar os dízimos na casa do tesouro (Ml.3:10), ou seja, na nossa igreja local. Este dízimo é santo (Lv.27:32) e pertence a Deus, Que, certamente, tratará com aqueles que o tiverem a incumbência de administrá-lo, pois, além de perderem sua condição de pastores (Ez.34:9,10), melhor lhes fora, diz Jesus, que lhes pusessem ao pescoço uma mó de atafona e fosse lançado ao mar (Lc.17:1).

    – O dízimo, pelo que verificamos, na Bíblia Sagrada, é muito mais do que uma despesa ou um tributo de dez por cento do que ganhamos, é muito mais do que uma simples cláusula contábil. Deus não precisa do nosso dinheiro para sustentar a Sua obra, pois é o dono de todo ouro e de toda a prata (Ag.2:8), mas é através do dízimo que revelamos aquilo que está dentro de nosso homem interior, o conceito que temos de Deus e de nós mesmos, se nos consideramos mordomos do Senhor ou “donos dos nossos próprios narizes”.

    III – O DÍZIMO E A OFERTA NA BÍBLIA

    – Pelo que podemos deduzir das Escrituras Sagradas, desde os primórdios da civilização, ainda na primeira geração de homens após a queda do Éden, havia o costume de se cultuar a Deus com a apresentação de produtos do trabalho humano, como demonstração de gratidão e de reconhecimento da soberania de Deus sobre todas as coisas. Assim, vemos Caim e Abel, os dois filhos mais velhos do primeiro casal, apresentando ofertas ao Senhor, num gesto que se infere fosse costumeiro e resultado do ensino dos pais a estes filhos. Entendemos, desta forma, que o primeiro casal tinha plena consciência de que Deus era o dono de todas as coisas e que o resultado do trabalho humano, que Deus dissera que seria penoso, era fruto da misericórdia divina que, apesar do pecado, não tinha deixado de amparar o homem.

    – De pronto, pois, observamos que a oferta era apenas uma demonstração material de reconhecimento da soberania divina. Não se procurava agradar a Deus com bens, pois Deus, sendo o dono de todas as coisas, não precisava de qualquer bem que lhe seja trazido pelo homem, até porque o bem que, eventualmente, for trazido não é do homem, mas já é do Senhor (I Cr.29:11-14; Sl.24:1). Deus Se agrada do gesto de gratidão e reconhecimento, do que está no coração do homem, não do que está sendo apresentado em termos materiais. Tanto assim é que, ao indagar Caim sobre sua oferta, Deus diz que ele deveria ter feito bem, ou seja, não como um mero formalismo, não como um mero ritual, mas como algo espontâneo e que proviesse do fundo da alma, pois, somente neste caso é que haverá aceitação por parte do Senhor (Gn.4:7). No Novo Testamento, este Deus que não muda nem n’Ele há sombra de variação (Tg.1:17), torna a nos ensinar que Ele ama àquele que dá com alegria (II Co.9:7).

    – Este gesto de reconhecimento da soberania divina através da entrega de uma parcela do produto auferido pelo trabalho, portanto, vem desde o início da história da humanidade e é encontrado, mais tarde, entre os povos do Oriente Próximo. Abraão, diz-nos a Bíblia, deu o dízimo de tudo a Melquisedeque, por reconhecer nele um sacerdote de Deus (Gn.14:20). Isto nos mostra, claramente, que o dízimo era um costume comum aos povos daquela época, pois, não só Abraão deu o dízimo a Melquisedeque, como este o recebeu, o que prova que se tratava de algo público e notório naquela época. Aliás, este costume é relatado pelo historiador grego Heródoto, conhecido como o “pai da História”, em sua obra “História”, em mais de uma passagem, com relação a diferentes povos.

    – Pelo que se pode observar, portanto, o gesto de se dar parte do produto auferido pelo trabalho para a obra de Deus é algo que acompanha a própria história humana, tendo sido fixado o percentual de dez por cento como patamar mínimo de tal contribuição, daí porque ter sido tal parcela sido denominada de “dízimo”.

    – O dízimo, observado que era por Abraão (o que, certamente, mostra que se tratava de prática já existente entre os caldeus que, por sua vez, eram os sucessores diretos da comunidade humana única pós-diluviana), passou a seus descendentes, de modo que vemos, logo em seguida, notícia de que Jacó também conhecia esta prática, tanto que a prometeu (Gn.28:22).

    – Este pequeno relato histórico faz-se necessário porque há muitos que, hodiernamente, afirmam que o dízimo é um dispositivo previsto na lei de Moisés e que, portanto, não é algo que deva ser observado pela Igreja, que vive a dispensação da graça. Criticam as denominações evangélicas que adotam o dízimo, chegando, mesmo, a chamá-los de “judaizantes”, quando não de mercenários. No entanto, pelo que podemos verificar, não só pelas próprias Escrituras, como também na própria história da humanidade, o dízimo é uma instituição que já existia bem antes da lei de Moisés e que não está circunscrita ao povo judeu, o que faz cair por terra todas estas argumentações que são trazidas, às vezes, por pessoas bem-intencionadas, que querem impedir qualquer conotação materialista ao evangelho, mas que, no mais das vezes, apenas se afiguram como justificativas de pessoas que, tal qual nos dias de Malaquias, querem dar vestes teológicas à sua falta de amor a Deus

    – Quando Moisés incluiu o dízimo na lei, por determinação divina, nada mais fez senão incorporar no código legal organizado uma prática que já era costumeira e adotada não só pelos israelitas, como por todos os povos então existentes. Como o dízimo, e isto nos mostram tanto Abraão quanto Jacó, tinha como finalidade a manutenção da obra de Deus, era preciso reconhecer a sua prática e destiná-la para o sustento da tribo de Levi e, dentre os seus membros, aos sacerdotes, já que estes não poderiam se dedicar senão ao serviço do Senhor.

    – A primeira referência que a lei de Moisés faz aos dízimos encontra-se, precisamente, no livro de Levítico, onde estão as normas a respeito dos sacerdotes. O dízimo é tratado no final do livro, a partir do versículo 30 do capítulo 27. Isto é importante porque mostra que, embora Deus não tenha deixado de prever o sustento dos sacerdotes, que estavam envolvidos no culto a Deus, não deveriam pôr o sustento material como prioridade em suas vidas. Deus não deixa de cuidar do assunto, de providenciar os meios, antes de encerrar o código de normas e condutas do sacerdote, mas não coloca isto como algo que deva estar em primeiro lugar. Primeiro deveria vir o dever dos sacerdotes, seu serviço diante de Deus. Depois, o cuidado com o seu sustento.

    – Lamentavelmente, muitos ministros têm cedido ao espírito materialista que impera nos nossos dias, buscando, antes de tudo, ocupar-se de como se sustentar, de como angariar meios para a sua sobrevivência, para só depois se ocupar do seu trabalho diante de Deus. O obreiro é digno do seu salário, mas devemos cuidar das coisas na mesma forma como Deus a estabelece em Sua Palavra.

    – Segundo a norma dada no livro de Levítico, o dízimo de tudo deveria ser separado ao Senhor, pois lhe era santo. A destinação do dízimo, entretanto, encontra-se no livro de Números (Nm.18:20-32). O destino do dízimo deveria ser a tribo de Levi, pois a sua herança no meio do povo de Israel seriam, precisamente, os dízimos das demais tribos (Nm.18:21). Mas, ao mesmo tempo em que os levitas eram os beneficiários dos dízimos, também deveriam dizimar (Nm.18:26), pois também eles eram mordomos e tinham de reconhecer a soberania divina. Os dízimos dos dízimos eram destinados ao sumo sacerdote (Nm.18:28).

    – Os dízimos eram, como se pode observar, destinados ao sustento dos levitas e dos sacerdotes. Esta é a destinação do dízimo segundo as Escrituras. Abraão já o havia dado para um sacerdote e, agora, Moisés determina que os dízimos tenham como finalidade o sustento da tribo separada para o serviço do Senhor, ou seja, a destinação dada pela lei mosaica não é uma inovação instituída por Moisés, não se trata de criação do legislador, nem de uma ordem divina circunscrita à dispensação da lei, mas, antes, é uma característica inerente à própria instituição do dízimo. Assim como dízimo é a décima parte, assim é destinado para o sustento daqueles que, por estarem envolvidos com as coisas de Deus, não têm condições para exercer um trabalho mediante o qual obtenham o próprio sustento.

    – Em Dt.12:5-12, quando Moisés está a repetir a lei à geração que adentraria na Terra Prometida, torna a dizer que o local apropriado para a entrega dos dízimos era a casa do Senhor, reforçando, portanto, a finalidade de tal instituição.

    – Mas, além de o dízimo ser determinado quanto à quantidade e quanto à finalidade, também era determinado quanto à qualidade. Dizia a lei de Moisés que se deveria oferecer “o melhor” (Nm.18:32), ” do melhor deles, a sua santa parte” (Nm.18:29). Bem ao contrário do que acontecia nos dias do profeta Malaquias, a lei prescrevia que somente poderemos demonstrar reconhecimento da soberania de Deus se a porção que separarmos para a obra do Senhor for a melhor, a de primeira qualidade. Não é outro o sentido, aliás, quando se diz que as “primícias da terra” devem ser levadas à presença do Senhor, “primícias” (Nm.18:12), aqui querendo dizer não só os primeiros frutos na ordem de aparecimento, como também na ordem da qualidade (Pv.3:9).

    – Em o Novo Testamento, Jesus sancionou a prática do dízimo. Na sua duríssima crítica aos fariseus, um dos poucos pontos que Jesus aprovou em sua conduta foi, exatamente, o de serem rigorosos no dízimo. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt.23:23).

    – Como se percebe nas declarações de Jesus, o fato de os fariseus dizimarem até mesmo o que era utilizado no tempero de suas comidas, é considerado algo louvável, algo que não deveria ser omitido, que não deveria ser desprezado. Jesus disse que os fariseus deveriam ser tão preocupados com o juízo, a misericórdia e a fé como eram com o dízimo destas mínimas coisas, mas, em momento algum, disse que o dízimo deveria ser omitido, mas, bem ao contrário, afirmou que o dízimo não poderia estar ausente na conduta de um verdadeiro servo de Deus.

    – Assim, não tem qualquer respaldo bíblico o ensinamento que muitos propalam de que o dízimo não pertence à dispensação da Igreja, que não se encontra entre as condutas que devam ser observadas pelos salvos. Jesus disse que não devemos omitir o dízimo e, portanto, se não podemos omitir, devemos praticá-lo. O dízimo faz parte da conduta que Jesus espera de Seus servos.

    – Mas, dizem os adversários do dízimo, que não há qualquer passagem bíblica do Novo Testamento que mostre que os discípulos ou os cristãos, em geral, estivessem dizimando. Dizem eles que há somente registro de coletas, de ofertas alçadas, citando, à saciedade, exemplos vários extraídos não só de Atos dos Apóstolos mas das epístolas paulinas. Assim, dizem estes, o dízimo teria sido abolido por Jesus, pela graça e agora persistiriam apenas as ofertas alçadas ou coletas.

    – Tal entendimento, porém, não se sustenta. Em primeiro lugar, o dízimo,  como vimos, não poderia ter sido abolido pela graça se o próprio Jesus disse que não deveria ser omitido pelos Seus servos. Em segundo lugar, o dízimo somente poderia ser abolido pela graça se tivesse sido uma criação da lei, assim como o sábado, cuja instituição se deve aos dez mandamentos recebidos no Sinai e como sinal entre Deus e Israel. Todavia, como já observamos antes, o dízimo já era uma instituição conhecida e praticada por vários povos antes mesmo da formação da nação israelita.

    – Em terceiro lugar, um pensamento desta natureza decorre do fato de se achar que dízimos e ofertas alçadas são conceitos diversos, diferentes, opostos até. Assim, dízimo seria uma espécie de contribuição, ou seja, a obrigatória porção de um décimo do que se ganha, enquanto que oferta alçada seria uma contribuição voluntária, independente e algo além dos dez por cento. Este conceito, entretanto, não tem, também, respaldo bíblico.

    – Quando vemos a instituição do dízimo na lei de Moisés, percebemos que os dízimos eram entregues em forma de oferta alçada (Nm.18:24). Oferta alçada (que a versão NVI e outras versões bíblicas traduzem por “contribuição”) é um gênero que abrange os dízimos e outras contribuições feitas para o sustento dos sacerdotes. Aliás, os rabinos judeus identificam na lei vinte e duas formas diferentes de contribuição para o sustento dos sacerdotes e levitas, dentre as quais se encontra o dízimo. Assim, quando a Bíblia fala em ofertas alçadas na igreja, não está excluindo os dízimos, pois os dízimos são espécies de ofertas alçadas, cuja característica é a voluntariedade (Ex.25:2,3; 35:5,21,22,24,29;36:3).

    – Em quarto lugar, diz-se que o dízimo seria uma contribuição obrigatória e que, na dispensação da graça, já não vivemos mais a obrigatoriedade, não estamos debaixo do legalismo, mas tudo se faz voluntariamente e por amor. O dízimo, entretanto, como já vimos, não é uma obrigação, mas, tanto quanto as demais contribuições, uma contribuição voluntária, resultado de uma vida de amor a Deus, um ato de gratidão e de reconhecimento da soberania divina.

    – O dízimo é entregue por quem, voluntariamente e com alegria, crê em Deus e reconhece que Ele é Senhor. Não se trata de obrigação alguma, mas, antes, é um gesto de desprendimento, de compromisso para com a obra de Deus. Quem dizima, fixa em, pelo menos, dez por cento o valor com que deve contribuir para a obra de Deus, reconhecendo plenamente o senhorio de Deus sobre a sua vida. Quem não dizima, ainda que contribua, se ficar aquém do valor mínimo com que contribuíram os homens de Deus no passado, como pode dizer que está debaixo da graça de Deus, graça esta que, agora, se revelou plenamente na pessoa de Jesus Cristo? Poderia um servo de Deus na dispensação mais ampla da história da humanidade estar contribuindo menos para a obra de Deus do que os homens das antigas alianças?

    – O dízimo é o primeiro gesto de administração de bens de um cristão fiel, pois, como vimos, é algo que deve ser prioritário, tanto na quantidade quanto na qualidade. O dízimo deve corresponder a dez por cento do ganho do cristão, entendido este como o ganho bruto e não o líquido, como alguns têm defendido. Com efeito, quando declaramos nossa renda ao Governo, declaramos que recebemos aquilo que efetivamente ganhamos, que é o bruto e não o líquido. Ora, se para o Governo, dizemos que nossa renda é nosso ganho bruto, por que o cálculo do dízimo se faria sobre o líquido?

    – O dízimo deve ser entregue na igreja local da qual fazemos parte. Não se trata de dinheiro que tenha outra finalidade senão a de dar o sustento para as pessoas que estão envolvidas integralmente com a obra do Senhor. A obra do Senhor é feita por intermédio da igreja local, que é a agência do reino de Deus aqui na terra. Se somos membros de uma igreja local, ali devemos entregar nossos dízimos, pois é ali que cultuamos a Deus. A Bíblia não estabelece outro lugar senão este para entregarmos os dízimos. Entre os judeus, os dízimos deveriam ser levados a Jerusalém, para o templo, e apenas se permitia que, diante do fato de ser custoso o transporte dos bens até lá, se pudesse convertê-los em dinheiro ou levá-los a cada três anos ao templo, devendo ficar armazenados enquanto não se completasse o período.

    – Não se constitui em dízimo, portanto, a contribuição que se dê a este título para obras assistenciais, para outras igrejas locais às quais não pertencemos, para sustento de obreiros ou quaisquer outras pessoas que estejam “vivendo da obra”. Tais contribuições são ofertas, são contribuições, mas não são dízimo. Não temos o direito, como mordomo, de darmos destinação diversa aos dízimos senão a que foi estabelecida pelo Senhor. Se somos mordomos, somos servos e, portanto, devemos tão somente obedecer ao Senhor e isto implica em não termos o poder de dizermos para onde vai o dízimo, pois ele não é nosso, mas, sim, do Senhor.

    – Constitui-se, também, em atitude que não tem qualquer respaldo bíblico o uso do dízimo como forma de pressão ou retaliação junto ao ministério da igreja local onde servimos a Deus. Muitas pessoas acham que, por entregarem fartos dízimos, que representam boa parte da arrecadação da igreja local, têm o direito de opinar ou de estabelecer as diretrizes para o ministério da igreja local. Na verdade, há, mesmo, ministros do Evangelho que dão satisfações ou procuram agradar um determinado grupo na igreja local por causa do papel que eles representam no sustento seu e da obra do Senhor.

    – Todas estas atitudes são amplamente reprovadas pelas Escrituras, que não admitem a acepção de pessoas e tratam aos que assim procedem como pecadores (Tg.2:1-9). Os dons divinos não se adquirem nem se exercem por dinheiro (At.8:18-23). Na igreja, cuidamos de vidas, de almas e não de cifrões ou de quantias. O dinheiro é necessário, no mundo em que vivemos, para que a obra de Deus se possa realizar, não porque Deus disto precise para cumprir o Seu propósito, mas para o próprio aperfeiçoamento dos santos, para o crescimento espiritual dos crentes e, sobretudo, para a glória de Deus.


    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

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  • Lição 8: O Perigo de Querer Barganhar com Deus

    No seu relacionamento com Deus, Deus não deixa de ser Deus e o homem, de ser homem.

    INTRODUÇÃO

    – Na continuidade no estudo de pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido distorcidos pela teologia da prosperidade, estudaremos hoje a “teologia da barganha” ou “lei da reciprocidade”.

    – Jamais Deus e homem se relacionam numa relação de “toma-lá-dá-cá”, uma das muitas mentiras da teologia da prosperidade.

    I – A SOBERANIA DIVINA

    – Na sequência de nosso estudo neste segundo bloco do trimestre letivo, em que estamos a analisar alguns pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido particularmente distorcidos pelos “teólogos da prosperidade”, estudaremos a questão da chamada “teologia da barganha” ou “lei da reciprocidade”, um dos pontos fundamentais de todo o raciocínio deste falso ensino.

    – Para iniciarmos o estudo deste tema, que tanto prejuízo tem causado aos crentes hodiernos, é preciso, antes de mais nada, rememorarmos o que a Bíblia Sagrada ensina a respeito da soberania divina. O que as Escrituras dizem sobre Deus?

    – A Bíblia nos ensina que Deus é um Ser distinto daqueles que Ele criou. Deus não Se confunde com a Sua criação, ao contrário do que ensinam, equivocadamente, os chamados “panteístas”, aqueles que confundem Deus com a natureza, pensadores, aliás, que estão muito em voga nos nossos dias, principalmente entre os adeptos da Nova Era.

    – Que Deus não Se confunde com a criação vemos logo no primeiro versículo do livro do Gênesis, que nos informa que “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn.1:1). Ao assim descrever o processo da criação, as Escrituras mostram que Deus é distinto dos “céus e a terra”, ou seja, da criação, seja dos seres celestiais, seja dos seres terrenos. Céus e terra tiveram princípio, mas Deus já era desde sempre. Céus e terra foram criados, Deus é o Criador.

    – A esta circunstância os teólogos costumam denominar de “transcendência” de Deus, ou seja, Deus está além da Sua criação, é maior do que ela. A palavra “transcendência” vem do latim “transcendere”, cujo significado é “cruzar a fronteira”. “…Uma das ideias básicas é que a deidade que o indivíduo busca está muito acima do inquiridor. A superioridade e independência do Ser divino é contrastada com a humilde posição do inquiridor, confinado a esta esfera terrestre.…” (CHAMPLIN, R.N. Transcendente, transcendência, transcendentais. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.6, p.474).

    – Esta transcendência divina é muito bem explicitada pelo profeta Isaías que traz uma mensagem divina que mostra como Deus está além do que criou, “in verbis”: “Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos, diz o Senhor, porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos (Is.55:8,9).”

    – O próprio Jesus, em uma de suas múltiplas declarações em que afirma ser Deus, também mostrou que estava além de Seus discípulos, quando, por exemplo, lavou os pés de Seus discípulos. Naquela oportunidade, assim Se manifestou Nosso Senhor: “O que Eu faço não o sabe tu agora, mas tu o saberás depois” (Jo.13:7).

    – Como Deus não Se confunde com a Sua criação, temos que Deus e a criação se relacionam entre si, e, neste relacionamento, há, de pronto, uma assimetria, ou seja, o relacionamento entre Deus e Sua criação não é uma relação de igual para igual, mas um relacionamento onde Deus mantém uma posição superior que jamais pode ser alcançada pelas criaturas. Tanto assim é que, no relacionamento com sua criação, Deus revela a nós algumas qualidades que mostram, claramente, que jamais a criação, mesmo a coroa da criação terrena, que é o homem, pode chegar aos pés do Senhor. Senão vejamos.

    – A primeira dessas qualidades é a onipotência. No relato da criação, vemos que Deus do nada fez tudo, algo que ninguém jamais poderia nem poderá fazer. Deus tem todo o poder, daí porque um de Seus nomes é “Todo-Poderoso” (“ ‘El Shaddai” – ??????- Gn.17:1; 28:3; Jó 5:17; 6:4,14), nome, aliás, que é abundante no livro de Jó, considerado o mais antigo livro das Escrituras. A propósito, “’El-Shaddai” é um título divino característico da época dos patriarcas (Ex.6:3).

    – A onipotência de Deus ensina-nos que Ele tem todo o poder, ou seja, não existe ser mais poderoso do que Ele. Daí porque ter o Senhor, por boca do profeta Isaías, ter afirmado: “operando eu, quem impedirá?” (Is.43:13 “in fine”) ou ter o apóstolo Paulo, ao verificar esta verdade bíblica, ter indagado: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm.8:31), bem como o apóstolo João ter ressaltado que “Filhinhos, sois de Deus e já os tendes vencido, porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo.” (I Jo.4:4).

    – A onipotência de Deus ensina-nos que todo o poder pertence a Deus (Sl.62:11). Um dos graves equívocos do ser humano é tentar construir estruturas de poder fora de Deus. Em Babel, a rebeldia se iniciou quando Ninrode começou a irrogar o poder para si (Gn.10:8). O orgulho, a soberba e a arrogância do homem, que o levam a se achar poderoso e a querer a glória para si, ao invés de reconhecer a onipotência de Deus e a glória que só a Ele é devida, tem sido a principal causa de derrota e fracasso na vida de tantas pessoas. Que Deus nos guarde de assim agirmos, correndo o risco de virarmos animais (Dn.4:30-37), como Nabucodonosor ou sermos comidos de bicho como Herodes (At.12:21-23).

    – A segunda dessas qualidades é a onisciência. Deus conhece e sabe todas as coisas (Sl.139:1-6; I Jo.3:20), nada se Lhe pode ocultar  (Sl.38:9; 139:15,23,24; Mt.6:6). Porque Deus sabe todas as coisas, é ele a fonte de toda a ciência, conhecimento e sabedoria, razão pela qual jamais as manifestações do conhecimento humano, quando verdadeiras, se chocarão com a Palavra de Deus, pois Deus é o próprio autor do conhecimento, da ciência e da sabedoria.

    – A onisciência de Deus, aliada à Sua eternidade, faz-nos conceber a presciência de Deus, ou seja, Deus já sabe, de antemão, o que irá acontecer, porque, para Deus, não há tempo, sempre é presente, um eterno presente. Assim, Deus conhece o futuro, pois, para Ele, passado, presente e futuro são uma só coisa. Por isso, pode nos revelar, como nos revelou, as coisas que ainda iriam acontecer, na dimensão dos homens.

    – A onisciência de Deus traz-nos a necessidade de termos um comportamento distinto dos homens que não conhecem a Deus. Como Deus sabe todas as coisas e conhece tanto o passado, quanto o presente e o futuro, algo que não temos sequer condição de saber, pois nem sempre avaliamos bem o passado (e a memória pode trair-nos, fazendo-nos esquecer aspectos importantes e relevantes deste passado), muitas vezes ficamos atônitos com relação ao presente, sem saber o que fazer e o futuro a nós escapa totalmente, precisamos confiar n’Ele e, nas adversidades e momentos difíceis da vida, lembrar que Deus, e só Ele, sabe todas as coisas. Se bem avaliarmos a onisciência divina, certamente que poderemos marchar na dura caminhada pelo deserto desta vida certos de que, onde quer que as circunstâncias nos levem, a direção e orientação parte de quem sabe todas as coisas e que prometeu que somente nos daria o melhor (Rm.8:27-30).

    – A terceira qualidade ressaltada pelas Escrituras no relacionamento entre Deus e as Suas criaturas é a onipresença, ou seja, Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? Diz o Senhor. Porventura não encho Eu os céus e a terra? Diz o Senhor” (Jr.23:24).

    – Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. Esta presença de Deus é total, pois, como diz a referência que transcrevemos, Ele enche os céus e a terra. Na verdade, como afirmou Salomão na oração que fez para a dedicação do templo, nem mesmo os céus e a terra O podem conter (I Rs.8:27).

    – Esta presença de Deus, porém, não se dá com o mesmo propósito. Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas com diferentes propósitos e finalidades. Assim, por exemplo, Sua presença em Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, assim como no mundo antediluviano, tinha como propósito a verificação do abuso dos limites do pecado, com a determinação de destruição daqueles impenitentes. Já no que se refere ao povo de Israel, como testemunhou Moisés, a presença de Deus tinha o propósito de fazer o povo descansar (Ex.33:14). A presença de Deus é sempre uma bênção para aquele que dirige os seus caminhos segundo a vontade do Senhor (II Rs.3:14; 5:16; 13:23; II Cr.27:6). Seu objetivo, ao mostrar a Sua presença, é mostrar a Sua força aos Seus servos (II Cr.16:9) bem como criar oportunidades para que os que não O conhecem, venham a fazê-lo (At.17:27; Rm.10:6-8).

    – A quarta qualidade ressaltada nas Escrituras no relacionamento entre Deus e Suas criaturas é a Sua fidelidade. Deus é fiel (Dt.7:9; Is.49:7; I Co.1:9; 10:13; I Ts.5:2; II Ts.3:3;  I Pe.4:19; I Jo.1:9; Ap.19:11). A fidelidade de Deus garante-nos que Ele cumpre todos os compromissos assumidos com o homem, que é leal em seus pactos e alianças. Ele vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12). Se o homem falhar, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm.2:13).

    – A quinta qualidade divina em relação a Sua criação é o amor. Deus é amor (I Jo.4:8 “in fine”) e, por isso, Suas ações em relação ao homem sempre foram de amor. Todo o plano da salvação do homem é decorrência deste amor sem igual, sem qualquer comparação (Jo.3:16). O amor divino não é apenas um sentimento, mas um sentimento acompanhado de ações concretas e atitudes reais. Por isso, ao amar o mundo, enviou o Filho para que pudéssemos ter a vida eterna. Por isso, o Filho Se humanizou e morreu em nosso lugar. Por isso, Deus Se fez carne e preço para o pagamento dos nossos pecados e a nossa redenção. Isto é o verdadeiro amor, um amor de gestos, de atitudes, não de palavras ou sentimentos que não ultrapassam o campo das emoções (I Jo.3:18,19).

    – A sexta qualidade divina em relação a Sua criação é a justiça. Deus não somente é amor, mas, também, é justiça. Como já dissemos, uma das maneiras de Deus Se revelar ao homem é por intermédio da consciência, este tribunal que Deus pôs em cada um de nós para nos dizer o que é o certo e o que é o errado, o que é o bem e o que é o mal. Ora, ao estipular o que é o certo e o que é o errado, Deus, também, determinou o que é o justo e o que é o injusto e, como Ser Supremo, assumiu a única posição que Lhe cabe, qual seja, a de justo juiz (Sl.9:8; 50:6; Jr.11:20; II Tm.4:8). Deus é justiça, ou seja, tem de dar a cada um o que é seu (Gn.18:25; Jó 8:3;Sl.31:1; 35:24).

    – Muitos não conseguem entender como Deus pode ser amor e justiça ao mesmo tempo, porque, equivocadamente, acham que ter amor é “ser bonzinho”, é perdoar sempre e invariavelmente, sem jamais aplicar um castigo ou uma penalidade e, muito menos, lançar uma condenação eterna. Para estes, se Deus é amor, todos serão salvos ao final, todos alcançarão a bem-aventurança de viver eternamente ao lado do Senhor. Entretanto, não é isto que nos mostra a Bíblia Sagrada. Deus é amor, e isto provou ao pagar o preço dos nossos pecados, humanizando-Se, morrendo por nós. No entanto, exatamente porque tomou esta atitude radical, a de Se fazer homem para nos salvar, é que, por justiça, deve condenar a tantos quantos se neguem a obedecer-Lhe e a desfrutarem deste amor.

    – Deus, Que não muda, afirmara que, em dando o livre-arbítrio ao homem, faria com que este respondesse pelos seus atos. Assim, todos quantos recusarem o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário terão de responder perante o justo juiz, que tem levado adiante a Sua misericórdia e a Sua verdade. Tendo vindo morrer por nós, tendo levantado um povo para pregar esta boa-nova e tendo enviado a Pessoa do Espírito Santo para convencer os pecadores, Deus mostra que a Sua iniciativa é de amor, que adiante d’Ele vão a misericórdia e a verdade. No entanto, dias chegarão, e estão muito próximos, em que esta oportunidade se findará e em que chegará o momento do acerto de contas, o instante do juízo e da justiça, em que cada um responderá pela opção que fez. Misericórdia e verdade foram à frente, mas a base do trono de Deus é de justiça e de juízo (Sl.89:14; 96:13). Aproveitemos, enquanto é tempo, o ano aceitável do Senhor, antes que chegue o dia da vingança do nosso Deus!

    – A sétima qualidade de Deus em relação à Sua criação é a verdade. Deus é a verdade (Dt.32:4; Jr.10:10). “Verdade”, em hebraico,  é “ ‘emet” (???), cujo significado é o de garantia futura de imutabilidade, de invariabilidade. Ao Se afirmar como a Verdade, Deus mostra aos seres criados que Ele não muda e que o que prometeu, fará. Temos, assim, na Verdade, a demonstração, a um só tempo, da imutabilidade e da fidelidade divinas. Ora, a máxima demonstração da verdade para o homem está na Bíblia Sagrada, na Palavra de Deus, que é a verdade (Jo.17:17). As Escrituras são a suprema garantia que Deus dá ao homem de que é um ser verdadeiro. Por ser a Verdade, Deus abomina a mentira e só é mentiroso aquele que se apartou do Senhor. Daí porque o primeiro ser a se apartar d’Ele, ou seja, o diabo, ser chamado de o pai da mentira, precisamente porque não há verdade nele (Jo.8:44).

    – Pelo que vemos de todas estas qualidades reveladas pelas Escrituras no relacionamento de Deus com a Sua criação, em especial com o homem, não há como vermos uma relação de igualdade entre Deus e o homem, pois se Deus é portador de todo o poder (onipotência), sabe todas as coisas (onisciência), está presente em todos os lugares (onipresença), é fiel (fidelidade), é amor, justiça e verdade, como o homem poderia igualar-se a Ele num relacionamento?

    II – A SALVAÇÃO DO HOMEM TEM ORIGEM EM DEUS

    – Uma das demonstrações desta assimetria no relacionamento entre Deus e o homem está na própria salvação do ser humano.  O homem, ao se envolver com o pecado, entrou em um verdadeiro “beco sem saída”. Ao pecar, tornou-se servo do pecado (Jo.8:34), dominado totalmente por ele (Gn.4:7), sem condição alguma de modificar esta situação.

    – Entretanto, a história não terminou com esta tragédia. Bem ao contrário, a Bíblia Sagrada nos ensina que, mesmo antes da fundação do mundo, dentro de Sua presciência, Deus já havia elaborado um plano para retirar o homem desta situação tão delicada (Ef.1:4; Ap.13:8), a demonstrar, de pronto, que Deus é bem superior ao homem, haja vista que já havia arquitetado a salvação humana antes mesmo que o homem fosse criado.

    – Este plano, já existente mesmo antes da criação do mundo, foi revelado ao homem no dia mesmo de sua queda, quando o Senhor anunciou que haveria de surgir alguém da semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente e tornaria a criar inimizade entre o homem e o mal e, consequentemente, amizade, comunhão entre Deus e o homem (Gn.3:15). Vemos, pois, claramente, que a salvação é algo que sua origem em Deus, que o homem não poderia, por si só, alcançar meios para restaurar a sua comunhão original com o seu Criador. Deus, pelo Seu grande amor, providenciou um plano para trazer o homem de volta ao convívio com Ele.

    – Este plano de Deus para a salvação do homem, revelado à humanidade no momento mesmo da aplicação da penalidade pela prática do pecado, foi sendo executado desde então. O primeiro gesto deste plano foi a proibição de o homem ter acesso à árvore da vida por causa do pecado (Gn.3:22), acompanhado da expulsão do Éden (Gn.3:23). Com estas medidas, Deus impediu que o homem, a exemplo dos anjos pecadores, vivesse numa dimensão eterna, condenado à inevitável e sempiterna separação de Deus, possibilitando ao homem que, mediante o arrependimento enquanto estivesse na dimensão terrena, pudesse desfrutar de uma eternidade com o Senhor.

    – Percebemos, assim, que, o que, à primeira vista, pareceu ser uma crueldade da parte de Deus, foi a manifestação da Sua infinita misericórdia, porquanto, caso o homem ingressasse na dimensão eterna como um pecador, não teria como se salvar, igualando-se, neste ponto, ao diabo e seus anjos, que não podem ser perdoados por causa de seus pecados, vez que habitam a dimensão eterna.

    – A partir de então, o Senhor iniciou a execução de Seu plano que alcançou o seu ápice quando da própria encarnação do Deus Filho, momento que as Escrituras denominam de “a plenitude dos tempos” (Gl.4:4), instante em que Deus cumpre a Sua promessa de providenciar, da semente da mulher, o único e suficiente Salvador, Jesus, o Seu próprio Filho (Mt.1:21; Lc.2:11; Jo.3:16,17; At.4:12). Eis a razão pela qual a Bíblia, mais de uma vez, diz que Deus é o Deus da nossa salvação (I Cr.16:35; Sl.24:5; 51:14), bem como que a salvação d’Ele provém (Sl.3:8; 37:39; 62:1).

    – A salvação, uma vez mais se mostra, foi obtida por intermédio da iniciativa divina. Não só Deus enviou o Seu Filho, como a obra da salvação somente se consumou porque o Filho deu a Sua vida pela humanidade (Jo.10:15-18). A salvação foi consumada na cruz do Calvário, quando Jesus morreu por nós (Jo.19:30;Cl.1:20; Ef.2:13,16). Como diz o poeta sacro: “O meu perdão foi consumado lá na cruz” (primeira estrofe do hino 397 da Harpa Cristã).

    – As Escrituras mostram que Deus é a fonte, a base da nossa salvação. Em diversas passagens, o Senhor é identificado como a “rocha” ou o “rochedo” da salvação, expressão que não apenas revela que Deus dá livramentos aos homens, mas que também n’Ele se encontra o mais importante livramento de que carece o homem depois que pecou: o livramento do domínio do pecado sobre a sua vida (Dt.32:15; II Sm.22:47; Sl.18:46; 62:2,6; 89:26).

    – O homem não tem condições de salvar-se a si próprio. Esta é uma das grandes verdades anunciadas pela doutrina bíblica (Sl.146:3). A Bíblia diz que Deus, ao contemplar os homens desde os céus, não viu justo algum (Sl.14:2,3) e aqueles que, por sua justiça, pudessem, de algum modo, achar graça aos olhos do Senhor, somente o fariam para si mesmos, sem condição alguma de transmitir sua justiça aos demais seres humanos (Ez.14:13-20). Por isso, se a salvação não viesse por intermédio de Deus jamais o homem poderia ter esperança de voltar a ter um convívio eterno com o seu Criador.

    – Mas, precisamente porque a salvação tem origem em Deus, podemos buscá-la e ter a certeza de que seus efeitos são permanentes e duradouros.

    – Notamos, portanto, que, ao contrário do que falam os “teólogos da prosperidade”, a salvação é uma ação que tem iniciativa e consumação em Deus, motivo pelo qual o homem não pode reivindicar quaisquer “direitos legais” decorrentes desta salvação, pois ela é resultado exclusivo do amor de Deus.

    – Por ter origem e consumação em Deus, a salvação revela os atributos divinos, atributos estes que são intransferíveis ao ser humano, como já tivemos ocasião de observar. Destarte, no instante em que o homem se entrega a Cristo Jesus, alcançando a salvação, não está tomando posse de quaisquer “direitos legais”, como ensinam os “teólogos da prosperidade”, mas, sim, passando a desfrutar de um “favor imerecido”, ou seja, da “graça” de Deus.

    – A salvação, por ter origem em Deus, é um ato de amor (Jo.3:16). A salvação é a maior demonstração do amor de Deus ao homem. Há, mesmo, quem diga que Deus permitiu o pecado para revelar este que é um dos Seus principais atributos, que não se revelaria sem que houvesse o pecado. Sem adentrarmos nesta discussão, que está além do que podemos compreender, o certo é que, através da salvação, Deus revela o Seu grande amor para com o homem, este amor incondicional e incompreensível, que se encontra muito além do nosso entendimento. O fato é que Deus nos ama tanto que Se fez homem para pagar o preço dos nossos pecados e nos salvar, para que vivamos com Ele eternamente.

    – A salvação, por ter origem em Deus, é uma manifestação da graça de Deus (Tt.2:11). Deus, por intermédio da salvação, mostra que oferece ao homem um “favor imerecido”, a “graça”. A salvação não vem ao homem porque o homem a mereça (e reside aqui uma das grandes dificuldades dos homens em compreenderem a salvação, pois sempre associam a salvação a algum mérito, o que, evidentemente, está completamente fora dos padrões bíblicos e da revelação divina sobre o assunto), mas porque Deus quis favorecer o homem, por ser um Deus de graça, que foi manifestada em Jesus Cristo (I Co.1:4).

    – O apóstolo Paulo é bem claro ao mostrar que a salvação vem pela graça de Deus (Ef.2:5,8), ou seja, por um favor imerecido de Deus, precisamente para que o homem não se gloriasse, achando que fosse algo que, efetivamente, não é, pois não passa de um miserável pecador (Rm.7:24), cuja justiça não passa de trapos de imundícia (Is.64:6).

    – A propósito, o apóstolo, em suas epístolas, sempre faz questão de mostrar, antes de mais nada, que nosso relacionamento com Deus decorre de Sua graça e de Sua paz (Rm.1:7; I Co.1:3; II Co.1:2; Gl.1:3; Ef.1:2; Fp.1:2; Gl.1:2; Cl.1:2; I Ts.1:1; II Ts.1:2; Fm.3) ou, então, de Sua graça, de Sua paz e de Sua misericórdia (I Tm.1:2; II Tm.1:2; Tt.1:4). Não se está diante de um mero estilo retórico, mas, sim, de uma consciência do apóstolo de que o relacionamento entre Deus e os salvos em Cristo Jesus decorre, primeiramente, da graça do Senhor, trata-se de um “favor imerecido” que nos leva a ter comunhão com Deus, visto que a paz nada mais é que esta completude que se estabelece entre Deus e o homem com a retirada dos pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz do Calvário.

    – Ora, se a salvação oferecida ao homem é resultado da graça de Deus, quando ela é apropriada por aquele que crê em Jesus, continua sendo um “favor imerecido”, não há qualquer modificação em sua essência, até porque, por ter origem em Deus, a salvação é eterna (Is.45:17; Hb.5:9), ou seja, não sujeita a qualquer modificação ao longo do tempo.

    – Portanto, dizer-se que, uma vez salvo, o homem passa a ter “direitos legais” em relação a Deus, que pode “obrigar Deus”, é um contrassenso, visto que a salvação é um “favor imerecido” e, portanto, o homem não assume qualquer posição que lhe permita exigir seja o que for do Senhor, já que está a desfrutar de um “favor imerecido”.

    – A salvação mostra que a deidade do Senhor em todo o Seu esplendor e não é porque nos entregamos ao Senhor Jesus que Ele deixará de ser Deus e de ter todos os atributos que só Ele possui. O fato de ter estabelecido uma aliança com o homem não o faz menos Deus, nem faz com que o homem seja menos homem. A aliança realizada, fruto de Sua iniciativa e por Ele próprio consumada, apenas reafirma a assimetria que existe entre Deus e o homem.

    – A salvação, feita pela graça de Deus, diz-nos o apóstolo, vem “por meio da fé” (Ef.2:8). Ora, quem é o autor e consumador da fé? É o próprio Senhor Jesus (Hb.12:2), que, inclusive, transmite esta fé a cada homem (Rm.10:17), por intermédio da Palavra, que é o próprio Cristo (Jo.1:1; Ap.19:13). Assim, a própria fé é um dom de Deus (Ef.2:8), que nos permite entrar em aliança com Ele, aliança esta feita em Seu sangue vertido na cruz do Calvário por nós (I Co.11:25).

    – Notamos, pois, que o Senhor tudo fez para dar condições para que fôssemos salvos, revelando, uma vez mais, a nossa absoluta incapacidade de tomar parte neste processo e o Seu grande amor, que faz com que queira que nós sejamos salvos e venhamos ao conhecimento da verdade (I Tm.2:4).

    – Diante desta realidade, vemos que ao homem restou, tão somente, crer em Jesus, arrepender-se de seus pecados para alcançar a graça divina, mantendo-se obediente e fiel ao compromisso que assumir de seguir a Cristo até aquele dia. A salvação é um processo onde o homem participa tão somente com o arrependimento, a conversão e a santificação contínua até o dia do arrebatamento da Igreja, quando, com a glorificação, ficará para sempre livre de pecar.

    III – A FALSIDADE DA LEI DA RECIPROCIDADE E A IMPOSSIBILIDADE DE UMA BARGANHA COM DEUS

    – Temos visto que Deus é soberano, Seus atributos com relação à Sua criação mostram que Ele está além das Suas criaturas e que jamais estas poderão a Ele se igualar. Temos visto, também, que, no processo da salvação do homem, Deus igualmente manifesta a Sua soberania, tendo, por Seu amor, permitido ao homem que se salvasse, salvação que é um “favor imerecido” pelo qual o homem volta a ter comunhão com Deus, apropriando-se de uma fé que é dom de Deus, num processo onde tão somente se arrepende dos pecados, converte-se e se mantém separado do pecado até a sua passagem para a dimensão eterna.

    – Dentro deste quadro, é intuitivo até que se perceba que, uma vez salvo, o homem não se apresenta em condição de exigir coisa alguma de Deus. Recebendo a fé vinda pela Palavra de Deus, crendo em Jesus e se arrependendo dos seus pecados, passando a ter uma nova direção e orientação na sua vida, mantendo-se separado do pecado, em comunhão com o Senhor, o homem tem condições de chegar aos céus.

    – Dentro desta realidade, vemos que a relação estabelecida entre Deus e o homem salvo por Cristo Jesus continua sendo uma relação entre Senhor e servo, entre Criador e criatura. No entanto, por causa do perdão dos pecados, o Senhor demonstra todo o Seu amor para o salvo, preparando-o para ir aos céus para com Ele viver para sempre, mas, enquanto isto não ocorre, capacitando-o para ser, aqui na Terra, luz do mundo, sal da terra e instrumento para a salvação de outros seres humanos.

    – Já no tempo da lei, o Senhor mostrava o que pedia ao povo de Deus, “in verbis”: “Agora, pois, ó Israel, que é o que o Senhor, teu Deus, pede de ti, senão que temas o Senhor, teu Deus, e que andes em todos os Seus caminhos, e O ames, e sirvas o Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor e os Seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt.10:12,13).

    – O primeiro ponto que observamos é que o Senhor pede e não exige, como poderia fazê-lo, por ser o Senhor, o Soberano, o dono de todas as coisas (Sl.24:1). Fá-lo porque deu ao homem o livre-arbítrio e, portanto, tudo depende da vontade do homem em servi-l’O, ou não. Certamente que os homens responderão pelos seus atos, mas Deus não força qualquer homem a servi-l’O, pois, como é imutável, não iria Se arrepender de ter feito o homem com livre-arbítrio.

    – Ora, se Deus não força o homem a servi-l’O, sendo o Senhor, como pode o homem “forçar” Deus a tomar esta ou aquela atitude? Notemos aqui como não tem qualquer cabimento a teoria de que o homem, por ser salvo, “toma posse das promessas de Deus” e, por isso, pode “exigir” que Deus faça isto ou aquilo. Se Deus que é Deus não exige, como pode fazê-lo o homem mortal em relação ao Senhor? Resta-nos aqui tão somente lembrar as palavras do profeta Isaías: “Ai daquele que contende com o seu Criador, caco entre outros cacos de barro! Porventura, dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?” (Is.45:9).

    – O segundo ponto que observamos é que o primeiro pedido do Senhor era para que Israel temesse a Deus. “Temer” aqui não é “ter medo”, mas, sim, “considerar”, “ter reverência”, “obediência”. De pronto, vemos que o fato de Israel ter de “temer a Deus”, mostra que Deus continua sendo o Senhor, pois somente se reverencia alguém que está em uma posição superior a sua. É conhecida, em nosso direito civil, a figura do “temor reverencial” que é “…o receio de desgostar ascendente ou pessoa a quem se deve obediência e respeito…”(DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. 9. ed. rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil, p.154).

    – Ora, “temer a Deus” é, portanto, “o receio de desgostar a Deus”, o que, de pronto, leva-nos à conclusão de que, em nosso relacionamento com o Senhor, relacionamento somente possível diante da salvação, nunca podemos de deixar de levar em consideração a vontade do Senhor, o que, de pronto, elimina toda e qualquer possibilidade de “exigirmos” ou “determinarmos” algo a Deus, uma vez que tais comportamentos desconsideram a vontade do Senhor, demonstram que são condutas de quem não teme ao Senhor.

    – Alguém pode, porém, dizer que esta exigência de “temor a Deus” era na época da lei e que, agora, estamos na graça, quando não mais vigoraria tal situação. Ledo engano, porém. A exigência do temor a Deus persiste incólume na nova aliança. Em At.2:43, notamos que uma das características de todo crente na igreja de Jerusalém era, precisamente, o temor, característica presente também nas igrejas que iam surgindo na Judeia, Galileia e Samaria (At.9:31).

    – O apóstolo Paulo afirma, ainda, que, em sua evangelização, sabia que se deve temor a Deus (II Co.5:11), bem como ensina que um dos meios de santificação, esta necessária atitude humana para chegar aos céus, é o temor ao Senhor (II Co.7:1). O apóstolo Pedro não discrepa deste entendimento, dizendo que os crentes devem “andar em temor durante o tempo da sua peregrinação” (I Pe.1:17). Vemos, pois, que o temor prossegue sendo uma atitude indispensável para a Igreja, o povo de Deus da atual dispensação.

    – O terceiro ponto que observamos é que o segundo pedido do Senhor ao Seu povo é para que Seu povo “ande nos Seus caminhos”, ou seja, que seguisse os Seus mandamentos, que foram dados a Israel por Moisés. Hoje em dia, devemos seguir os passos de Cristo Jesus, seguir as Suas pisadas (I Pe.2:21). Aliás, o mandamento deixado pelo Senhor é bem explícito a respeito: “Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo.15:12). Nosso exemplo, nosso padrão de conduta é o Senhor Jesus e devemos andar como Ele andou (I Jo.2:6).

    – E como Jesus andou neste mundo? Exigindo algo do Pai ou fazendo a Sua vontade? Evidentemente que fazendo a vontade do Pai (Jo.5:30; 6:38). Aliás, Cristo chegou a afirmar que a Sua comida era fazer a vontade do Pai (Jo.4:34), indicando que a sobrevivência espiritual de alguém é fazer a vontade de Deus.

    – Portanto, ensinar que se deve desconsiderar a vontade de Deus em nossas atitudes sobre a face da Terra nada mais é que ensinar que não devemos andar como Jesus andou, que não devemos andar em Seus caminhos, em outras palavras, trata-se de um ensino que visa nos distanciar de Deus, tornarmo-nos desagradáveis a Ele!

    – O quarto ponto que observamos é que o terceiro pedido do Senhor ao Seu povo é que O amassem. Ora, amar a Deus, explicou-nos o Senhor Jesus, é guardar a Palavra de Deus (Jo.14:23,24). “Vós sereis Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando” (Jo.15:14), disse o Senhor. Somente demonstraremos amor para com Deus se Lhe formos obedientes e, para tanto, precisamos ouvir a Sua voz, não endurecendo os nossos corações, tentando ao Senhor (Sl.95:7,8; Hb.3:15).

    – Os “teólogos da prosperidade”, entretanto, ensinam exatamente o oposto. Vivem insuflando seus ouvintes a “pôr Deus contra a parede”, a “se revoltarem”, “não aceitarem”, “reivindicarem seus direitos diante de Deus”, ou seja, conclamam o povo a falar diante de Deus, apresentar suas queixas, sem se importar com o que Deus está a dizer. Não é isto, precisamente, fazer como fez Israel em Massá e Meribá, lugares onde os israelitas tentaram a Deus, provocaram-n’O e com Ele contenderam (Ex.17:7), episódio que os fez perder o desfrute da promessa de Abraão e terem de se submeter à lei, que não propicia salvação a homem algum (Gl.3:11)?

    – Quando o homem sai de sua posição de servo e beneficiário da graça de Deus para tentar “conversar de igual para igual” com o Senhor, “exigindo-Lhe direitos”, entra num caminho extremamente perigoso, pois assume uma postura de rebeldia e de dureza de coração diante do Senhor e o resultado é que assina a sua própria sentença de morte, visto que, se formos raciocinar em “termos legais”, estaremos irremediavelmente perdidos, vez que não temos quaisquer “direitos” diante do Senhor.

    – A aliança que o Senhor firmou conosco é uma aliança em que recebemos, imerecidamente, o Seu favor, temos nossos pecados perdoados e a garantia da vida eterna, mas na qual devemos nos submeter à Sua vontade, “amando-O porque Ele nos amou primeiro” (I Jo.4:19). Se existe alguma reciprocidade no relacionamento entre Deus e o homem, esta reciprocidade é o amor e, como Deus nos amou, e prova isto quando Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores (Rm.5:8), também devemos amá-l’O e amar a Deus é guardar a Sua Palavra.

    – Ora, se amar a Deus é guardar a Palavra de Deus, é esconder a Sua Palavra em nossos corações para que não pequemos contra Ele (Sl.119:11), não há qualquer lugar para que nossa vontade produza “palavras inspiradas” aos quais vinculemos o Senhor, como ensinam os “teólogos da confissão positiva”. A Palavra de Deus está dada, não pode ser diminuída nem ampliada (Ap.22:18,19), é a testemunha de Cristo Jesus (Jo.5:39), as Escrituras que nos foram reveladas e que devem ser cridas em sua inteireza, sem quaisquer artifícios hermenêuticos, pois são o próprio Jesus, a completa revelação divina ao homem (Hb.1:1-3).

    – O quinto ponto que observamos neste pedido do Senhor ao Seu povo é que eles deveriam servi-l’O, com toda a sua alma e com todo o seu coração, para guardar os mandamentos do Senhor e os Seus estatutos ordenados para o bem do próprio povo. Vemos, de pronto, aqui que o Senhor deixa bem claro que os israelitas permaneciam servos, apesar de serem o povo de Deus.

    – Tal situação não se alterou com a graça. Muitos gostam de mencionar a expressão de Jesus aos Seus discípulos, segundo a qual não os chamaria mais de servos, mas, sim, de amigos, pois tudo quanto de Seu Pai havia ouvido, tinha-os feito conhecer (Jo.15:15). O fato de termos nos tornado amigos de Cristo, não significa que deixemos de ser Seus servos, porém.

    – A primeira pessoa que é chamada de amigo de Deus nas Escrituras é Abraão (Is.41:8), assim chamado precisamente porque Deus não quis ocultar dele o que faria com as cidades da planície (Gn.18:19). No entanto, o fato de Abraão ser amigo de Deus não fez com que deixasse de ser servo de Deus e o diálogo mantido com o Senhor na intercessão pelos habitantes daquelas cidades mostra como Abraão não deixou da sua condição de servo, apesar de ser amigo do Senhor (Gn.18:23-33). Como se não bastasse isso, o episódio do sacrifício de Isaque mostra claramente como Abraão era temente a Deus e pronto a obedecer-Lhe (Gn.22:12).

    – Na própria passagem em que Jesus disse que passaria a chamar os Seus discípulos de amigos, vemos que o Senhor não deixou de considerá-los Seus servos, pois, em seguida, diz que os havia escolhido e nomeado para que fossem e dessem fruto permanente (Jo.15:16), tendo ainda lhes mandado que se amassem uns aos outros (Jo.15:17), bem como os lembrado que, como servos, não poderiam pretender sofrer menos que o Senhor no mundo (Jo.15:18-20), a confirmar, pois, que eles se mantinham servos, apesar da intimidade de serem chamados de amigos.

    – Os escritores do Novo Testamento, mesmo, fazem questão de mostrar que são servos de Cristo Jesus em seus escritos (Rm.1:1; Fp.1:1; Tt.1:1; Tg.1:1; II Pe.1:1; Jd.1:1; Ap.1:1), tendo o apóstolo Paulo mostrado, mais de uma vez, que o salvo em Cristo Jesus deve, antes de mais nada, ser servo de Deus (I Co.7:22; Gl.1:10; Cl.4:12; II Tm.2:24), tendo o próprio Pedro nos ensinado que, se somos vencidos por Deus, somos servos d’Ele, mas, se formos vencidos pela corrupção, dela seremos servos (II Pe.2:19).

    – Ora, se somos servos, e a palavra grega para “servo” é “doulos” (??????), cujo significado é “escravo”, temos a conclusão de que quem é salvo por Cristo Jesus não tem vontade própria, faz apenas o que lhe for mandado pelo Senhor, é “propriedade de Cristo”, a Ele pertence, não é de si mesmo (I Co.6:19,20).

    – Diante de um tal quadro, vemos que o relacionamento entre Deus e o homem não elimina, em absoluto, a circunstância de que Deus é o Senhor e que o homem, Seu servo; que Deus manda, e o homem, obedece; que Deus determina, e o homem, acata; que Deus abençoa porque quer e o homem é abençoado, sem merecer e na medida que Deus o quiser.

    – Por isso o serviço desejado por Deus a Israel e que se estende à Igreja, que também é formada de servos, é um serviço “com toda a alma e com todo o coração”, ou seja, trata-se de um serviço que envolve todo o homem interior, pois “alma e coração” são expressões que indicam a alma e o espírito, ou seja, toda a sensibilidade, vontade, intelecto, fé e consciência do ser humano.

    – Desta maneira, não há como o homem querer relacionar-se com Deus impondo ao Senhor os seus sentimentos, a sua vontade, o seu intelecto, a sua fé e a sua consciência. Tudo deve ser exercido segundo os parâmetros e as ordens estabelecidas pelo Senhor, uma verdadeira submissão.

    – Estaria, pois, o Senhor escravizando ao homem? Não se teria, pois, uma situação igual àquela que o homem que vive no pecado? Não, não e não! Por primeiro, o homem se submete a Deus voluntariamente, não há qualquer imposição, tudo decorre da vontade humana em se render a Deus. “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mc.8:34b), bem ao contrário do que ocorre na vida pecaminosa, que se manifesta à revelia da vontade do homem: “…eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço, não o aprovo, pois o que quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso faço” (Rm.7:14b,15).

    – Por segundo, este serviço voluntário, livre, com toda alma e coração, para guardar os mandamentos do Senhor e Seus estatutos, traz o bem ao homem, é “para teu bem”, ao contrário do pecado, que é “para morte”: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.

    Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim(…).Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:18-20,24).

    – Portanto, quando passamos a servir a Deus com toda a alma e com todo o coração, fazemo-lo para o nosso bem. E que bem é este? Paulo responde: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm.6:23). Este bem é a “vida eterna”.

    – Deus assume um compromisso com todos os que recebem a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador: a vida eterna. Tudo, pois, que acontece na vida dos salvos nesta Terra contribui para este bem (Rm.8:28). Assim, ainda que haja tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo ou espada, nada disto poderá nos separar do amor de Cristo (Rm.8:35).

    – Destarte, o que vincula Deus ao homem é o compromisso de dar a vida eterna a todos quantos receberem a Cristo Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador, vida eterna esta que será alcançada por todos aqueles que atenderem ao pedido do Senhor e, deste modo, forem tementes a Deus, andarem em todos os Seus caminhos, O amarem e O servirem com todo o seu coração e com toda a sua alma. Em outras palavras: a vida eterna será dada a todos quantos se arrependerem de seus pecados, se converterem de seus maus caminhos e se santificarem até o fim.

    – Como a relação com Deus se mantém assimétrica, mesmo diante da salvação, estamos diante de um verdadeiro “contrato de adesão”, cujas principais características, segundo o grande jurista brasileiro Orlando Gomes (1909-1988) são três: a) a uniformidade, que consiste no intento do predisponente de obter, de número indeterminado de aderentes, a aceitação passiva das mesmas condições, de sorte que seja invariável o conteúdo de todas as relações contratuais; b) a predeterminação, por uma das partes, das cláusulas dos contratos a serem estipulados em série; c) a rigidez das cláusulas, impossibilitando a flexibilidade no cumprimento das avenças (Contratos, 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1996. pp.118/9).

    – Se as grandes empresas neste mundo, devido a seu poderio econômico, impõem aos consumidores a sua vontade, estabelecendo “contratos” conforme a sua vontade, por que Deus, que é onipotente, haveria de Se diminuir diante do homem quando com Ele firmasse uma aliança, aliança esta estabelecida por obra exclusiva do próprio Deus, que propiciou a salvação ao homem sem que o homem merecesse ou sequer fizesse algo além de arrepender-se, converter-se e se manter separado do pecado?

    – Este é o grande equívoco da chamada “lei da reciprocidade”, segundo a qual, uma vez que Deus prometeu bênçãos para o homem ao estabelecer com ele uma aliança, tem de cumprir o que prometeu. Como diz Edir Macedo: “…O ditado popular de que ‘promessa é dívida’ se aplica também para Deus. Tudo aquilo que Ele promete em Sua palavra é uma dívida que tem para com você(…)” (Vida com abundância, p.36 apud GONÇALVES, Edson Poujeaux. A teologia da prosperidade, p.10. Disponível em: http://www.slideshare.net/goiano/teolprosperidade Acesso em 04 jan. 2012).

    – Nesta ideia de reciprocidade, Deus e o homem estão no mesmo nível, o que, evidentemente, não é a realidade. Deus está muito acima do homem e as promessas que faz ao homem são resultado da Sua graça, ou seja, são favores imerecidos que são dados ao homem. Mas, sendo Deus fiel, uma vez tendo prometido, não terá inevitavelmente de cumprir o que prometeu?

    – Sem dúvida alguma, já vimos inclusive neste estudo, que um dos atributos de Deus no Seu relacionamento com a criação é a Sua fidelidade, que faz com que Ele cumpra o que prometeu. Este cumprimento, porém, independe do homem, decorre da própria natureza divina e, portanto, o homem não precisa “cobrar” ou “exigir” tal cumprimento, visto que ele virá inevitavelmente.

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, está demonstrando falta de confiança em Deus, ou seja, mostra que não tem mais fé em Deus e, sem fé, é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus, creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam (Hb.11:6).

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, está deixando de ser um mero servo, que não tem vontade própria, mas que passa a querer questionar o Criador, como se um caco pudesse interpelar o oleiro! Deus é fiel e assim Se revelou aos homens, de modo que devemos, ante Suas promessas, tão somente “esperar com paciência no Senhor” (Sl.40:1), mantendo com o Senhor um relacionamento contínuo, um diálogo aberto, próprio de quem tem intimidade com Deus, por meio da chamada “oração incessante”, que foi aconselhada pelo Senhor Jesus e por Seus apóstolos (Mt.7:7; Lc.11:9; 18:1-8; Ef.6:18; I Ts.5:17), oração que nunca pode desconsiderar que a vontade a ser seguida é sempre a de Deus, não a nossa (Mt.6:10; 26:42; Lc.22:42).

    – Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, esquece-se de que existe para servir a Deus e não o contrário. Deus não é como os deuses dos gentios que, sendo portadores das mesmas paixões e pecados humanos, apenas têm mais poder e podem, a seu bel-prazer, trazer benefícios a este ou aquele que reclama a sua “proteção”, o seu “poder”.

    OBS: Como dizia o filósofo grego Xenófanes (±570-528 a.C.): “Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm” (apud CLEMENTE de Alexandria. Tapeçarias, V, 110. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural. 5.ed., p.36). Neste pensamento, o filósofo grego mostra que os deuses dos gentios eram projeções dos homens, eram seres humanos a quem se dava o poder da imortalidade, mas havia uma essência igual entre homens e deuses, a refletir que o pensamento gentílico era o de igualar homens e deuses, precisamente o que faz a “teologia da prosperidade”.

    – A chamada “lei da reciprocidade” é completamente alheia à verdade bíblica, visto que, se Deus nos tratasse conforme nós O tratamos, estaríamos irremediavelmente perdidos, visto que apenas mereceríamos a condenação eterna. Por Deus ser amor, Ele manifestou tanto a Sua graça como a Sua misericórdia e, assim, recebemos a salvação, precisamente porque Deus não nos tratou segundo o que merecíamos. Como diz o salmista: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos retribuiu segundo as nossas iniquidades” (Sl.103:10).

    – Não é à toa que, como já vimos supra, o apóstolo Paulo, no início de suas epístolas, fazia questão de frisar aos salvos em Cristo Jesus que o relacionamento com Deus era decorrente da graça, da paz e da misericórdia que vinham da parte de Deus e de Cristo. Não há como falarmos em o nosso relacionamento com o Senhor, por Cristo Jesus, se não for a partir da graça, pelo qual nós recebemos de Deus o que não merecemos; da paz, pela qual nós temos comunhão com Deus e pela misericórdia, pela qual nós não recebemos o que merecemos.

    OBS: “…Irmãos, fará mal qualquer um de nós que usar a linguagem do mérito diante de Deus, pois mérito algum temos e, se tivéssemos algum, não precisaríamos orar. Foi bem observado por um antigo teólogo, que o homem que pleiteia seu próprio mérito não ora, mas cobra o seu crédito. Se eu peço a alguém que me pague sua dívida, eu não sou alguém que pede, mas alguém que está a exigir os seus direitos. A oração de um homem que pensa que tem méritos é como se estivesse a entregar uma letra ao Senhor: ele não está apresentando um pedido, mas emitindo uma cobrança. O mérito, com efeito, diz: “Pague-me  o que você deve”. Pouco um homem deste obterá de Deus, pois se o Senhor apenas pagar para nós o que Ele nos deve, o lugar além de tormento será nossa rápida herança. Se durante a vida aqui nós recebermos não mais do que nós merecemos, nós seremos rejeitados e abandonados. O mais vil dos mendicantes obterá mais do que estes banidos. Até mesmo a vida, ela própria, é um presente do Criador, ‘De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um da punição dos seus pecados’. Vamos nos manter numa posição de inferioridade tanto quanto podemos, pois nós ainda temos de reconhecer que ‘As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as Suas misericórdias não têm fim’. Qualquer outra atitude que não a de humildade seria muito mal-vinda e presunçosa na presença do Altíssimo.…” (SPURGEON, Charles Haddon. Humildade: a amiga do orante. Disponível em: http://bible.org/seriespage/humility-friend-prayer-no-1787 Acesso em 11 set. 2010) (tradução nossa de texto original em inglês) (destaque original).

    – Nosso relacionamento com Deus é pautado por estes três parâmetros: a graça, a paz e a misericórdia. Se formos invocar uma “lei de reciprocidade”, se formos “exigir” “direitos legais” junto a Deus, como ensinam os “teólogos da prosperidade”, estaremos abrindo mão destes três elementos dentro dos quais Deus Se relaciona conosco.

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar “favores imerecidos”, o que poderemos receber d’Ele? Nada, absolutamente coisa alguma, pois nada merecemos!

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar a Sua paz, obtida pela fé que Ele gratuitamente nos deu, o que poderemos receber d’Ele? Nada, absolutamente coisa alguma, pois sem a fé que nos é dada pela Palavra, jamais poderemos ser justificados e não teremos como ter comunhão com Deus e Deus não ouve a pecadores (Is.59:2; Jo.9:31).

    – Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar a Sua misericórdia, o que poderemos receber d’Ele? A sentença de morte, pois o que merecemos é isto. Sem a misericórdia divina, seremos consumidos (Lm.3:22,23)! Se alguém tiver alguma dúvida, é só contemplar os juízos divinos ao longo da história da humanidade, como o dilúvio e a destruição das cidades da planície (Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim).

    – Então, como podemos deixar de lado a graça, a paz e a misericórdia do Senhor para entabularmos com Ele um relacionamento baseado na “lei da reciprocidade”, num “toma-lá-dá-cá”, numa barganha, como defendem os “teólogos da prosperidade”? Isto não é senão jogar fora a oferta salvadora do Senhor?

    – A palavra “barganha” significa “fazer troca de mercadorias”, “comerciar”. Assim, para que se possa barganhar algo, é preciso que ambas as partes tenham algo a oferecer, tenham “mercadorias”.

    – Todavia, quando vemos o que a Bíblia diz a respeito de Deus, afirma-nos que tudo é d’Ele (Sl.24:1), inclusive os seres humanos. Assim, o que pode o homem oferecer a Deus. Mas, quando olhamos a Bíblia Sagrada, podemos perguntar, como o salmista: “Que darei eu ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?” (Sl.116:12).

    – O próprio salmista responde: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Pagarei os meus votos ao Senhor, agora, na presença de todo o Seu povo” (Sl.116:13,14). Ou seja: o salmista chegou à conclusão de que nada tinha a oferecer a Deus, já que tudo é d’Ele e, por isso, se contentaria em servir ao Senhor, apropriando-se da salvação (o que, como já vimos, é se arrepender dos pecados, converter-se e se manter em santidade até o fim) e cumprindo tudo quanto houvesse se comprometido a fazer diante do povo de Deus, de forma incondicional e sem esperar qualquer retribuição.

    – Segundo a “teologia da prosperidade”, Deus, ao ter feito promessas aos homens, é “obrigado” a cumpri-las, pois tais promessas teriam gerado “direitos”, que poderiam ser “cobrados” junto a Deus. Assim, segundo estes falsos ensinadores, o homem teria algo, sim, a saber: as “promessas de Deus”.

    – Entretanto, é princípio basilar do direito que só se podem exigir direitos da outra parte quando não se tem cumprido os seus. Então, como pode o homem cobrar algo de Deus se não tem cumprido a sua parte na aliança? O homem jamais cumpriu os pactos celebrados com Deus, não tem condição de fazê-lo por si só. Como, pois, poderia cobrar algo de Deus?

    – Mas, dizem os “teólogos da prosperidade”, que, quando o homem dá dízimos, ofertas, cumpre votos financeiros, está em condições de “exigir” aspromessas de Deus. MS, perguntemos: de quem é o ouro e a prata? De Deus ou dos homens? A Bíblia nos responde: de Deus (Ag.2:8). Se damos algo a Deus, isto, como nos ensina Davi, só é possível porque, antes, Deus no-lo deu (I Cr.29:10-14). Então, quando alguém faz estas coisas, não está dando coisa alguma a Deus, porque não lhe pertence, mais, sim, ao Senhor e, por isso, como poderá cobrar algo em troca?

    – Mas, há ainda uma outra coisa, já analisada no estudo deste trimestre: muitas das propaladas “promessas de Deus” simplesmente inexistem para os que são salvos em Cristo Jesus. O bem prometido pelo Senhor, como já tivemos ocasião de ver neste próprio estudo, é a vida eterna, dom que é gratuito, ou seja, que não exige coisa alguma em troca. As riquezas, a imunidade às doenças não fazem parte destas “promessas” de que seriam os crentes titulares.

    – Pelo que se observa, portanto, o raciocínio da “lei da reciprocidade” e da “teologia da barganha” é completamente antibíblico. Parte-se de uma inexistente situação de igualdade entre Deus e o homem; de uma inexistente situação de “legalidade”, abrindo-se mão da graça, paz e misericórdia de Deus; da inexistente condição de o homem poder cumprir, por si só, a sua parte na aliança firmada com o Senhor e de inexistentes promessas de riquezas materiais e imunidade a doenças para se defender um “toma-lá-dá-cá”. Um verdadeiro “imbroglio” “sem pé nem cabeça”, cuja única finalidade é enriquecer alguns que, esperta e malandramente, têm amealhado fortunas com estes falsos ensinos.

    – Jamais nos esqueçamos de que o nosso relacionamento com Deus é fruto da Sua graça, paz e misericórdia e de que o que Deus nos promete é o “nosso bem”, ou seja, a “vida eterna”. Isto Ele certamente cumprirá, devendo nós, ante a nossa total impotência, tão somente nos apropriar da fé que Ele nos deu pela Sua Palavra, crermos em Cristo Jesus, arrependermo-nos de nossos pecados, convertermo-nos de nossos maus caminhos e nos mantermos em santidade, temendo ao Senhor, até o dia em que Ele nos levará para os céus, pois, quem perseverar até o fim será salvo (Mt.24:13). Esta é a nossa parte na aliança. Estamos dispostos a permanecer fiéis até o fim?

    Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

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  • Ofertando da Substância

    A alegria de ofertar sacrificialmente é um dos valores perdidos no meio da prosperidade. Eu freqüentemente vi meus pais dando além daquilo que era confortável para eles. E não sei com quanto freqüência meus filhos me vêem contribuindo de forma sacrifical ao Reino de Deus. Provérbios 3:9 nos ensina a honrar o Senhor com os nossos bens, com a essência daquilo que possuímos. Normalmente, ofertamos da sobra, mas ele deseja da substância. Há uma diferença.


    – Larry L. Kiser em Fundamentalist Journal (March 1989) (“Jornal Fundamentalista”). Christianity Today, Vol. 33, no. 8.

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