Categoria: Escola Dominical

  • Lição 6 – O exercício do dom de profecia na igreja atual

    Lição 6 – O exercício do dom de profecia na igreja atual

    profeta

    O que é Dom?

    Para iniciar é  importante estudar a distinção entre Dom de Profecia e Ministério de Profeta, precisamos conceituar biblicamente o termo Dom. A palavra, de acordo com a raiz hebraica nathan e a grega dosis (derivado do verbo didomi), estabelece um significado de dar (ou dotes) no contexto veterotestamentário; e um sentido ativo de “dar” ou um sentido passivo de “dádiva” num contexto neotestamentário; respectivamente (2 Cr 9.15; Jo 3.16)   .
    Particularizando a análise do termo “Dom” na categoria dos “Dons Espirituais”, é factível que três palavras gregas apareçam em 1 Co 12 – 14: “ta pneumatika” (12.1); “ta pneumata” (14.12); “ta charismata” (12.4,9,28,30,31). Esses termos significam, respectivamente, “dons, poderes e manifestações espirituais”; “manifestações do Espírito”; “dons da graça ou dons carismáticos (carismas)”  .

    Dom de Profecia

    O Dom de Profecia, analisado a partir das conceituações citadas acima e de acordo com 1 Co 12.4-27, é um dom ou manifestação espiritual (carismática) que dá a capacidade transcedental ao crente para desempenhar uma função útil no “Corpo de Cristo”. Esse dom não pode ser confundido com os dons ministeriais (conforme os de Efésios 4.11) e, muito menos, com as posições espirituais da igreja primitiva (como Presbíteros [ou Bispos, Pastores] e Diáconos), porém, ambos [os dons] servem para edificar a Igreja e denotar o seu caráter de Unidade, diversidade, distribuitivo, ordeiro, motivador, permanente e valoroso no exercício do uso adequado dos Dons.

    Profecia

    A profecia é uma manifestação do Espírito de Deus e não da mente do homem, e é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso: 1 Co 12.7.

    Embora o dom da profecia nada tenha a ver com os poderes normais do raciocínio humano, pois é algo muito superior, isso não impede que qualquer crente possa exercitá-la: “Porque todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados”, 1 Co 14.31.

    Ainda que nalguns casos o dom da profecia possa ser exercido simultaneamente com a pregação da Palavra, é evidente que esse dom é dotado de um elemento sobrenatural, não devendo, portanto, ser confundido com a simples habilidade de pregar o Evangelho.

    Dada a importância desse dom em face dos demais dons espirituais, e dentro do contexto da doutrina pentecostal, necessário se faz uma análise cuidadosa, no sentido de conceituá-lo no seio da Igreja hoje.

    O apóstolo Paulo adverte os crentes a procurar “com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar” (1 Co 14.1); isto por razões que ele mesmo enumera:

    a. Porque “o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação… O que profetiza edifica a igreja”, 1 Co 14.3,4.

    “Edificação”, “exortação” e “consolação” são os três elementos básicos da profecia, são a razão de ser e de existir desse dom. É evidente que isto contraria a crença tão popular entre nós, de que o principal elemento da profecia é o preditivo (predição do futuro). Certamente, que tanto o Antigo quanto o  Novo Testamento contêm numerosas profecias preditivas, muitas das quais já se cumpriram, e outras estão se cumprindo, e outras ainda se hão de cumprir, No entanto, no conteúdo geral das Escrituras, o elemento preditivo da profecia é relativamente o menor.

    b. Porque ‘‘se todos profetizarem, e algum in-douto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós”, l Co 14.24,25.

    Há algo mais que precisamos ter em mente quanto ao dom de profecia e o seu uso na Igreja hodiemamente:

    a) O dom de profecia nunca deve exercer propósitos diretivos ou de governo sobre a Igreja. No Antigo Testamento, Israel era governado por reis e o culto era dirigido pelos sacerdotes, mas nunca por alguém que se tivesse distinguido por um ministério cem por cento profético. Os profetas eram apenas colaboradores na condução do povo. O mesmo aconteceu corn a Igreja dc Novo Testamento: o seu governo sempre esteve sob a responsabilidade dos presbíteros ou bispos, ou pastores, mas nunca sob a responsabilidade de profetas.

    Escreveu o missionário Eurico Bergstén, que “quando alguém, por meio de profecia, penetra na direção da igreja, mostra que é dominado por influências estranhas. Abre-se, então, uma porta para a perturbação… Quando alguém se faz ‘oráculo de profeta’, para responder a perguntas e orientar os crentes, está usando indevidamente o dom de profecia… O dom de profecia não atinge, nesta dispensação, a faixa de consulta, pois tem uma outra finalidade: a edificação da Igreja”.

    b) Devido a possíveis abusos quanto ao uso do dom da profecia, este dom está sujeito a análise e a conseqüente julgamento. Recomenda o apóstolo Paulo: “…falem dois ou três profetas, e os outros julguem”, 1 Co 14.29.

    Paulo arremata suas advertências quanto ao dom de profecia, dizendo: “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”, 1 Co 14.37.

    O dom de profecia não deve ser desprezado (1 Tm 4.14), mas despertado (2 Tm 2.16), a fim de que a Igreja seja enriquecida: 1 Co 1.57.

    Algumas perguntas sobre a questão:

    Onde vemos no Antigo testamento a promessa do dom de profecia e quando foi iniciado no Novo testamento?

    O Senhor DEUS, através do profeta Joel, prometeu derramar abundantemente do seu ESPÍRITO sobre os seus servos (Jl 2.28-32).

    Tal promessa, que iniciou o seu cumprimento a partir do Dia de Pentecostes e inclui especificamente o dom de profecia (Jl 2.28-32; At 2.16-21).

    Quem pode ter o Dom de Profecia, na Igreja?

    Qualquer crente salvo pode ter o dom de profecia na nova dispensação (1 Co 14.24).

    Independe de idade, sexo, status social e posição na igreja (At 2.17,18), tal como vemos nas quatro filhas de Filipe “que profetizavam” (At 21.9).

    Definição de Dom de Profecia:

    O dom de profecia, aqui abordado, é uma manifestação momentânea e sobrenatural do ESPÍRITO SANTO, como um dos dons espirituais prometidos, e não um ministério.

    O maior valor da profecia é que ela, sendo de DEUS, ao contrário das línguas estranhas (quando não têem a interpretação), uma vez proferida, exorta, edifica e consola a coletividade e não unicamente o que profetiza (1 Co 14.3-5).

    Características do Dom de Profecia:

    A Bíblia ensina que a profecia deve ser julgada na igreja e que o profeta deve obedecer ao ensino bíblico (1 Co 14.29-33).

    Não podemos esquecer que a profecia, nesse contexto, não se reveste da mesma autoridade da dos profetas e apóstolos das Sagradas Escrituras.

    O dom de profecia, na presente era, não é infalível e, portanto, é passível de correção.

    Pode acontecer de o profeta receber a revelação do ESPÍRITO SANTO e, por fraqueza, imaturidade e falta de temor de DEUS, falar além do que devia.

    Quem profetiza, portanto, deve ter o cuidado de falar apenas o que o ESPÍRITO SANTO mandar, não alegando estar “fora de si” ou “descontrolado”, pois “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14.32).

    O nosso DEUS nunca deixou de se comunicar com o seu povo. Ele continua a falar conosco, inclusive por meio do dom de profecia. O Senhor sempre cuida do progresso e edificação de sua Igreja. Por essa razão, JESUS deu à sua Noiva, apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores.

    A profecia, como dom, pode vir de 3 fontes: De DEUS, do homem e de satanás.

    Devem ser julgadas (1 Ts 5:21,22) e controladas para haver ordem no culto; um depois do outro e no máximo três em cada reunião (1 Co 14.31).

    Não devem ser desprezadas(1 Ts 5:20).

    Vêm para edificação, exortação e consolação(1 Co 14:3).

    Línguas + Interpretação = Profecia (1 Co 14:27,13).

    Diferente de profeta, todo profeta profetiza, nem todo que profetiza é profeta (1Co 14:31) e (Ef 4:11)

    Profeta é ministério dado por CRISTO, profecia é manifestação do ESPÍRITO SANTO.

    Profeta prediz alguma coisa que ainda vai acontecer, profecia não prediz nada.

    Todos podem profetizar (1 Co 14.31), mas poucos são chamados para serem profetas. 

    Exemplos de profecias:

    JESUS: “Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas eu vos tornarei a ver, e alegrar-se-á o vosso coração, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará.”(Jo 16:22).

    Paulo: “disse Paulo ao centurião e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos. Então os soldados cortaram os cabos do batel e o deixaram cair. Enquanto amanhecia, Paulo rogava a todos que comessem alguma coisa, dizendo: É já hoje o décimo quarto dia que esperais e permaneceis em jejum, não havendo provado coisa alguma. Rogo-vos, portanto, que comais alguma coisa, porque disso depende a vossa segurança; porque nem um cabelo cairá da cabeça de qualquer de vós.”(At 27:31-34).

     

     

     

     

  • Lição 5 – Liderança em tempo de reforma

    Lição 5 – Liderança em tempo de reforma

    neemias

    As atitudes de Neemias na sua chegada a Jerusalém mostram que estava capacitado para fazer a obra que Deus queria que fizesse em Judá.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo do livro de Neemias, estudaremos hoje o capítulo 2, que nos narra a ida de Neemias até Jerusalém.

    – As atitudes tomadas por Neemias mostram que estava devidamente capacitado pelo Senhor para empreender aquela grande obra que era a restauração da nação judaica.

    I – NEEMIAS PEDE AO REI PARA IR PARA JERUSALÉM

    – Neemias foi buscar a face do Senhor a fim de poder conhecer qual era a vontade divina no caso e, no mês de Nisã, no vigésimo ano do reinado de Artaxerxes, depois de quatro meses de oração, foi acometido de uma singular angústia, de uma tristeza que, ao contrário das outras vezes, não pôde disfarçar diante do rei. Artaxerxes notou que o semblante de Neemias era de tristeza e, como isto nunca antes havia acontecido, perguntou-lhe o que se passava (Ne.2:1,2).

    – Vemos desta afirmação do próprio Neemias que um servo de Deus, ainda que esteja a passar por tribulações, angústias e provações, não deve ser alguém que transmita tristeza ou melancolia aos que estão à sua volta. Muito pelo contrário, o servo do Senhor precisa expressar alegria, uma alegria diferente, pois é a alegria da salvação (Sl.51:12), uma das qualidades do fruto do Espírito Santo (Gl.5:22).

    – Não estamos aqui a dizer que o salvo não passa por tristezas e aflições. O Senhor Jesus só garantiu uma coisa para os Seus seguidores neste mundo – aflições (Jo.16:33). Assim, é evidente que o salvo sempre passará por momentos de dificuldades e de tristezas.

    – O que estamos a dizer é que o salvo, apesar das aflições e tristezas, não pode desanimar nem tampouco desanimar aqueles que estão à sua volta. O Senhor disse que, apesar das aflições, devemos ter “bom ânimo”, ou seja, não podemos perder a esperança da glória, nem tampouco fazer com que nossas dificuldades se transformem em pedra de tropeço para os outros seres humanos. Neemias, apesar de sua aflição, de seu choro contínuo, nunca havia se apresentado triste e abatido diante do rei Artaxerxes. Apresentava-se, sempre, com um semblante alegre, sendo um motivo de prazer e uma boa companhia para o rei.

    – No entanto, naquele dia, por mais que tentasse, Neemias não conseguiu se apresentar com semblante alegre. Aquela tristeza era, sem que ele soubesse, o meio pelo qual o Senhor começaria a responder as suas orações. Neemias, apesar de angustiado e triste (talvez se perguntasse o porquê daquela tristeza maior), não se queixou diante do rei, mas efetuou o seu serviço como costumava fazer.

    – O rei, no entanto, já acostumado com o semblante alegre de Neemias, percebeu aquela mudança de ambiente e, mais do que depressa, perguntou-lhe qual era o motivo daquilo, já que, como Neemias não estava doente, aquilo só podia ser tristeza de coração (Ne.2:2).

    – A indagação do rei era extremamente perigosa. Como sabemos, o copeiro real era aquele que provava tudo quanto seria consumido pelo rei, a fim de evitar que fosse ele envenenado. A demonstração de tristeza de coração por parte de Neemias poderia indicar que ele soubesse de alguma trama ou conspiração contra o rei e, como era um servo leal, sua tristeza poderia ser interpretada como um cumplicidade com os inimigos, mesmo uma impotência diante daquilo, que poderia custar-lhe a vida. Eis o motivo pelo qual Neemias “temeu muito em grande maneira”.

    – Apesar do perigo de vida que estava a correr, Neemias , naquele momento, sentiu da parte do Senhor que ali estava uma oportunidade para relatar ao rei o deplorável estado de seus compatriotas e, com coragem, disse ao rei que o motivo de sua tristeza era o fato de Jerusalém, a cidade de seus pais, estar assolada e as suas portas consumidas a fogo (Ne.2:3). O rei, então, vendo a sinceridade do seu copeiro, perguntou-lhe o que Neemias desejava diante daquele quadro.

    – Vemos, então, que Neemias, diante de tão grande oportunidade, não se precipitou, mostrando ser pessoa extremamente prudente, uma característica que deve ter todo líder. Indagado pelo rei o que queria, fez uma oração a Deus, esta, sim, uma “oração-relâmpago”, uma “oração repentina”, mas que, com muita propriedade, Charles Haddon Spurgeon, o príncipe dos pregadores britânicos do século XIX, denominou de “oração fervorosa”.

    – Nada podemos fazer sem a orientação, a direção e a ajuda do “Deus dos céus”. Neemias havia orado durante quatro meses mas, quando se lhe abriu a oportunidade de fazer seu pedido ao rei, não confiou no poder do rei, a maior autoridade mundial daquele tempo, mas, sim, no “Deus dos céus”. Temos agido da mesma maneira, amados irmãos? Mesmo quando aparentemente se abrem as portas para nós, temos, apesar de tanto tempo de oração, ainda feito uma “oração fervorosa” para o Senhor?

    – Ao término desta oração, com toda certeza o Espírito de Deus deu a Neemias a convicção inabalável de que era ele quem deveria restaurar Jerusalém e, diante disto, o copeiro pediu ao rei que fosse autorizado a ir até Jerusalém e, em nome do rei, reedificasse Jerusalém.

    – No pedido de Neemias, verificamos que, embora reconhecesse a Deus como o Senhor de todas as coisas, o copeiro não menosprezou a autoridade de Artaxerxes, bem sabendo lidar com as leis e costumes vigentes na Pérsia. Ao fazer o pedido, nem sequer mencionou o nome do Senhor, pedindo que o rei, se quisesse e lhe fosse agradável, autorizasse sua ida até Jerusalém para a reedificação da cidade.

    – Que importante lição temos com este gesto de Neemias! Ainda que dirigidos e orientados pelo Senhor, ainda que chamados para mudar uma situação secular de injustiça e de desmando, não podemos nos apresentar como rebeldes, insubordinados ou arrogantes diante das autoridades, pois elas foram constituídas por Deus (Rm.13:1) e resistir-lhes no campo de sua competência é resistir a Deus (Rm.13:2).

    – Vemos com tristeza, na atualidade, que muitos dos servos de Deus não sabem se relacionar convenientemente com as autoridades. Alguns resolvem se submeter cegamente a elas, inclusive naquilo que fazem em contrariedade à Palavra do Senhor, fazendo-o, não raras vezes, em virtude de interesses escusos e reprováveis. Outros, pelo contrário, afrontam-nas, resistindo-lhes naquilo em que estão a fazer precisamente o que lhes é permitido inclusive pela lei de Deus e, nesta afronta, além de resistirem ao próprio Deus, também servem de escândalo na obra de Deus. Saibamos os verdadeiros limites das autoridades e, naquilo para o que foram elas constituídas, sejamos submissos e obedientes, como foi Neemias.

    – O rei Artaxerxes demonstrou ter interesse em atender ao pedido de seu copeiro, mas perguntou a Neemias quando tempo pretendia se ausentar da corte (Ne.2:6). Este, foi, sem dúvida, um importante teste para Neemias. O rei mostrou-se favorável, prova de que estava o Senhor abrindo as portas para que a obra de reedificação de Jerusalém se realizasse, mas, também, o rei mostrou que não pretendia “abrir mão” de seu servidor. Nesta pergunta, também, o rei quis verificar duas coisas muito importantes: se Neemias tinha desejo de se tornar “senhor” de Jerusalém, ou seja, se havia alguma ambição de poder por parte do copeiro e, também, se Neemias tinha ideia do que iria fazer, daí porque ter pedido para que o seu copeiro indicasse um período de ausência.

    – Neemias mostra, claramente, ao apontar um certo tempo para o rei, de que não havia apenas se dedicado à oração ao Senhor, mas que, também, procurara se informar a respeito da situação de Jerusalém e do que seria necessário fazer. Neemias não demonstrou uma “fé cega”, não se deixou levar apenas pelos desejos, mas quis se informar a respeito do que seria necessário para reedificar a cidade, como isso se daria.

    – Agir por fé, amados irmãos, não é deixar tudo aos cuidados do Senhor e não se preparar para aquilo que sente ter sido chamado a fazer. Neemias, em suas orações, recebeu a convicção de que era o homem escolhido por Deus para restaurar a sua nação, por mais que isto fosse algo irrazoável aos olhos humanos, uma vez que era o copeiro do rei e nem sequer tivera contato com os seus compatriotas, embora nem sequer conhecesse ou tivesse estado em Jerusalém alguma vez em sua vida.

    – É neste ponto que vemos o exercício da fé, quando vemos algo que é invisível, quando esperamos algo que não tem a mínima condição de se nos mostrar ou de acontecer (Hb.11:1). No entanto, exatamente por vermos o invisível e esperarmos o que, natural e racionalmente, não pode vir a ocorrer, não podemos ficar de braços cruzados, sem nada fazer. Pelo contrário, Neemias, tomado desta convicção, procurou informar-se do estado de coisas e, mais do que isto, a planejar como se daria a reedificação. Tanto assim é que, quando o rei pede que lhe aponte um tempo, Neemias pôde fazê-lo sem titubeio nem mesmo pedindo “um tempo para pensar”.

    – O planejamento é algo que é indispensável para quem quer exercer um papel de liderança, como, aliás, é algo indispensável para toda e qualquer ação inteligente que se queira fazer. Deus dá-nos o exemplo pois Ele mesmo planejou a salvação da humanidade ainda antes da fundação do mundo (Mt.25:34; Ef.1:4; Ap.13:8; 17:8).

    – Neemias, instado pelo rei, como já tinha um planejamento, apontou, de imediato, um certo tempo e obteve dele a autorização para partir.

    II – NEEMIAS OBTÉM RECURSOS E MEIOS PARA EMPREENDER A OBRA DE REEDIFICAÇÃO PARA JERUSALÉM

    – Após a autorização real para partir para Jerusalém, numa clara demonstração de que havia planejado o que iria fazer, Neemias pediu ao rei que lhe fossem dadas cartas para os governadores dalém do rio para que lhe dessem passagem até Judá (Ne.2:7). Vemos, aqui, mais uma vez, como Neemias tinha plena consciência de se submeter a todas as regras e costumes existentes em seu tempo, apesar de ter a convicção de que estava a fazer a vontade do Senhor e de que tinha, agora, a autorização da autoridade máxima da Pérsia, o próprio rei Artaxerxes.

    – Entretanto, Neemias sabia que não se pode realizar a obra de Deus de qualquer maneira e de modo irresponsável. Embora tivesse a autorização do rei, esta autorização deveria ser bem documentada e Neemias haveria de ter um relacionamento correto e legal para com todos os governadores das terras ao longo das terras que separavam a Pérsia (região que hoje corresponde ao Irã) da Palestina.

    – O Império Persa é conhecido na história por ser um dos primeiros impérios mundiais que se dotou de uma razoável estrutura administrativa. O império era dividido em satrapias, governadas por um sátrapa, que era o governador, aquele que, em nome do rei, administrava uma determinada região do império (cfr. Et.1:1). Assim, Neemias quis se cercar de todos os cuidados para, ao longo da jornada, não ser molestado por qualquer governador e, desta maneira, poder chegar em paz e sem qualquer problema até Jerusalém.

    – Como é importante que o servo de Deus se mostre, diante dos homens, de forma correta e insuspeita. Embora tenhamos um relacionamento íntimo com o Senhor, que conhece o nosso coração, nem por isso devemos nos descuidar de nos mostrar, diante dos homens, como pessoas de bem, como pessoas bem-intencionadas, como portadoras de um bom testemunho. Os homens sem Deus nem salvação não conhecem as realidades espirituais e, por isso, devemos nos mostrar a eles como pessoas de boa índole, como pessoas de bem.

    – Muitos, na atualidade, apesar de terem tido real encontro com o Senhor Jesus, apesar de estarem agindo na direção do Senhor, prejudicam-se a si mesmos e à obra do Senhor quando não tomam o cuidado que tomou Neemias de se precaver, diante das instituições existentes na sua sociedade, de modo a se mostrar a todos, a começar das autoridades, como pessoa de bem, como alguém que estava perfeitamente dentro dos limites da lei e da ordem.

    – Quantos, na atualidade, em nome de um “chamado de Deus”, causam escândalos, descumprindo normas legais, afrontando autoridades e dando lugar ao diabo para que a obra de Deus seja prejudicada. As Escrituras são claras ao afirmar que não podemos dar lugar ao diabo (Ef.4:27) e isto significa, entre outras coisas, que não podemos, em nome de um voluntarismo, de uma indevida “espiritualidade”, nos descuidarmos de cumprir tudo quanto nos é exigido na sociedade e perante o Estado quando formos fazer a obra de Deus. Neemias tinha autorização do rei para ir até Jerusalém, mas, por isso mesmo, não ousou sair de Susã sem portar as devidas cartas para apresentar a todos os governadores que encontraria pelo caminho, em especial os “governadores dalém do rio”, i.e., os governadores que tivessem autoridade do lado de lá do rio Eufrates, quando já se iniciava a Palestina.

    – Isto nos mostra que Neemias, durante o seu tempo de oração, procurou todas as informações que fossem necessárias para levar a efeito a obra de reedificação de Jerusalém. Ciente de seu chamado, Neemias não ficou aguardando as coisas acontecerem, mas, desde o primeiro instante em que sabia que Deus o queria nesta empreitada, tratou de obter todas as informações necessárias para que planejasse aquilo que deveria fazer.

    – Temos nos comportado desta maneira, ou temos aderido a falsas concepções de que basta apenas “orar” que Deus tudo fará por nós. Não resta dúvida de que sem Cristo nada pode ser feito, como já dissemos supra, mas, em momento algum, o Senhor Jesus disse que faria tudo sozinho. Nada podemos fazer sem Ele, mas Ele não é nosso servo para tudo fazer. Lembremo-nos de que aquilo que não podemos fazer, Ele fará, mas aquilo que podemos (e devemos) fazer, cabe a nós fazê-lo. Ninguém poderia ressuscitar Lázaro, mas tirar a pedra alguém poderia fazer e é por isso que Jesus ressuscitou Seu amigo, mas, antes, mandou que os que ali estavam tirassem a pedra. Façamos sempre o que está ao nosso alcance fazer, amados irmãos!

    OBS: Esta ideia de que devemos sempre agir, trabalhar, além de orar, ficou conhecida na máxima de Bento de Núrsia (480-547), o criador da ordem dos beneditinos, cujo lema era “ora et labora”, ou seja, “ora e trabalha”.

    – Além dos cuidados relativos à própria liberdade de locomoção e da demonstração de sua boa índole em sua viagem, perante as autoridades, Neemias também se preocupou em obter do rei os materiais necessários para a construção. Pediu, então, a Artaxerxes que lhe fosse dada uma carta para Asafe, o guarda do jardim do rei, para que lhe fosse fornecida madeira para cobrir as portas do paço da casa e para o muro da cidade e para a causa em que ele houvesse de entrar (Ne.2:8).

    – Por primeiro, não confundamos este Asafe, guarda do jardim do rei, com o salmista de mesmo nome e autor de vários salmos (como os salmos 73 a 83), que viveu na época de Davi, ou seja, centenas de anos antes. Seu nome pode dar a entender que se tratava, também, de um judeu com uma alta posição na corte de Artaxerxes e, assim, pessoa próxima de Neemias, mas que, nem por isso, deveria ajudar o copeiro real sem que o rei mandasse fazê-lo.

    – Temos aqui uma demonstração de que Neemias sabia bem diferenciar amizade de responsabilidades, algo que, infelizmente, muitos salvos não compreendem. O fato de Asafe ser judeu e amigo de Neemias nada tinha que ver com a missão que o Senhor estava a dar a Neemias. Neemias, a despeito de estar a caminho de Jerusalém para reedificar a cidade e de isto ser algo que seria muito caro a seu compatriota Asafe, sabia muito bem que somente poderia retirar madeira para a obra se houvesse uma ordem do rei a respeito. Não havia meios para que Asafe “desse um jeitinho” e o ajudasse. Como seria bom se todos os salvos agissem desta maneira…

    – Ao fazer seu pedido ao rei para que Asafe lhe arrumasse a madeira necessária para a obra, vemos, mais uma vez, que Neemias tinha buscado obter informações do estado das coisas em Jerusalém e do que seria necessário para fazer a reedificação. Neemias não deixou de confiar em Deus e de Lhe atribuir a abertura da oportunidade, tanto que, em suas “memórias”, faz questão de dizer que tudo foi obtido “segundo a boa mão de Deus sobre mim” (Ne.2:8 “in fine”), mas isto não o impediu de ir atrás das informações e de saber que material e onde poderia obter para realizar a obra.

    – Esta precaução, este cuidado em bem planejar, algo que veio antes mesmo de receber a autorização do rei para fazer a viagem, é uma demonstração eloquente da fé de Neemias e a prova de que ter fé não é ser descuidado nem preguiçoso. Como é diferente o proceder de tantos que dizem ter sido chamados por Deus em nossos dias…

    – Devidamente recomendado por cartas do rei, com o material suficiente, Neemias iniciou sua viagem, tendo se apresentado aos governadores dalém do rio. Além disso, também, foi acompanhado de chefes do exército e cavaleiros que lhe foram fornecidos pelo rei Artaxerxes.

    – É interessante aqui fazermos um paralelo entre Esdras e Neemias. Esdras havia deixado Susã treze anos antes e, nos diz o relato do capítulo 8 do livro de Esdras, que o escriba não quis pedir tropas nem soldados ao rei, porque teve vergonha de pedi-lo diante do testemunho que dera a respeito do Senhor (Ed.8:21-23). Por que Neemias aceitou a soldadesca fornecida pelo mesmo Artaxerxes? Teria Esdras fé e Neemias, não?

    – Tanto Esdras quanto Neemias agiram com fé. Por primeiro, é interessante notar que Neemias também não pediu soldados para o rei. Seu pedido foi para ir reedificar Jerusalém, como também cartas para apresentar aos governadores e madeira do jardim do rei. Neemias não pediu soldados. Assim, não podemos dizer que, ao contrário de Esdras, Neemias tivesse pedido soldadesca para Artaxerxes, pois não há registro de que o tenha pedido.

    – Mas, alguém dirá, ainda que não tivesse pedido, quando o rei as ofereceu, não deveria ter ele recusado para mostrar a mesma fé que teve Esdras? Não necessariamente. Esdras havia se notabilizado na corte de Artaxerxes como “escriba da lei do Deus do céu” (Ed.7:12). Assim, Esdras era conhecido como alguém que tinha ensinado a respeito do poder de Deus, das maravilhas que o Senhor havia feito em prol de Israel. Diante desta sua condição de mestre da lei e pregador, ficaria mesmo inconveniente para Esdras vir a pedir tropas para proteger a ele e aos que com ele iriam para Jerusalém. Certamente, poderia ser confrontado por Artaxerxes, que não era um judeu, a respeito daquilo que pregara durante anos na corte. Assim, para não dar escândalo, para não desacreditar o que havia pregado, Esdras preferiu o caminho da oração e do jejum, caminho este que foi aprovado por Deus, que Se moveu pelas orações do povo e realmente os guardou na sua ida a Jerusalém.

    – No caso de Neemias, porém, era diferente. Neemias não se notabilizara na corte do rei da Pérsia como um pregador nem como um ensinador da lei. Embora tivesse um bom testemunho e se apresentasse como um servo de Deus na corte, Neemias não tinha a posição de Esdras e, por isso, não lhe era inconveniente aceitar a soldadesca. Ademais, como era muito bem informado, sabia, de antemão, que haveria oposição à sua empreitada e a presença da soldadesca lhe seria assaz conveniente, não apenas para intimidar os adversários, para mostrar as suas boas intenções e a circunstância de que estava agindo plenamente dentro da lei. Por isso, ao lhe ser oferecida a ajuda militar, não a negou, pois tal aceitação em nada representaria um escândalo diante da obra que estava a realizar.

    – Esta situação diametralmente oposta entre Esdras e Neemias mostra-nos, com clarevidência, que não podemos entender que Deus deve agir da mesma maneira em todas as situações. Ao recusar soldados, Esdras agiu de forma a se dar glória a Deus; ao aceitar soldados, Neemias também agiu de forma a se dar glória a Deus. Isto nos prova de que, como não conhecemos os corações dos homens, não devemos ficar a julgar esta ou aquela situação, só porque difere de uma situação anterior. Deus tem muitas formas de agir e não cabe a nós o julgamento dos outros (Tg.4:11,12). Tomemos, pois, cuidado, amados irmãos!

    – Tanto foi prudente e divinamente orientada a aceitação da soldadesca por parte de Neemias que, em chegando diante dos governadores dalém do rio e apresentando suas cartas, logo surgiu a oposição, visto que, ao tomar conhecimento das intenções de Neemias, Sambalate, o horonita e Tobias, servo amonita, ficaram grandemente desagradados, já que surgira alguém que procurava o bem dos filhos de Israel (Ne.2:10).

    – Não se sabe se já nesta oportunidade, quando se apresentou aos governadores dalém do rio, Neemias tomou conhecimento do desagrado de Sambalate e de Tobias, mas isto nos serve de lição de que, sempre que buscarmos o bem dos filhos de Deus, sempre haverá quem se levante com grande desagrado, visto que o Senhor Jesus foi bem claro ao nos mostrar que as “portas do inferno” jamais deixarão de se levantar contra a Igreja. Pode ser que não percebamos tal oposição logo ao princípio de nossa atividade em prol dos bens dos filhos de Deus, mas não nos iludamos, sempre haverá a oposição do maligno.

    – Nesta palavra, aliás, entendemos qual era a motivação, qual era o objetivo de Neemias: o bem dos filhos de Israel.Tem sido esta a motivação e o objetivo das ações que temos feito na obra do Senhor? Queremos tão somente “o bem dos filhos de Deus”, ou estamos à procura de outros interesses? Somente poderemos trabalhar para o Senhor Jesus com este mesmo objetivo de Neemias: o bem dos filhos de Deus.

    – Há muitos que, hoje em dia, fazem o mesmo que já se fazia nos tempos do apóstolo Paulo, que nos revela que muitos estavam a pregar o Evangelho por inveja e porfia, por contenção, não puramente, mas apenas para acrescentar aflição ao apóstolo em suas prisões (Fp.2:15-17). Certa feita, aliás, vimos e ouvimos um ministro afirmar que estava a pregar o Evangelho numa determinada localidade “por retaliação”! Que situação lamentável. Devemos sempre agir como Neemias, trabalhar para o Senhor Jesus para que se tenha “o bem dos filhos de Israel”.

    – Devidamente credenciado, com os materiais necessários, Neemias se apresentou aos governadores dalém do rio e depois se dirigiu a Jerusalém, tendo ali ficado incógnito e sem qualquer alarde por três dias (Ne.2:11).

    IV – NEEMIAS TOMA CONHECIMENTO DA SITUAÇÃO DE JERUSALÉM E CONVOCA O POVO PARA A OBRA

    – Neemias chegou a Jerusalém sem qualquer estardalhaço. Discreto, ciente de que era escolhido de Deus para aquela obra, não quis se apresentar como “o tal”, como o “restaurador”. Todo servo de Deus deve ter humildade e aguardar o momento certo em que o Senhor o apresentará na posição de liderança. Muitos, infelizmente, ainda que chamados por Deus para serem líderes, querem “aparecer”, querem se sobressair, cuidando para que seu “marketing pessoal” seja estabelecido o quanto antes, esquecendo-se que, na obra do Senhor, a propaganda não é a alma do negócio.

    – Neemias ficou três dias em silêncio após ter chegado a Jerusalém. Não nos diz o que fez neste período, mas podemos deduzir que tenha buscado a Deus, como era seu costume, bem como que revisitara todo o seu planejamento. Findos os três dias, de noite, levantou-se e, na companhia de poucos homens, sem declarar a ninguém o que Deus havia posto em seu coração para fazer em Jerusalém, saiu para ver “in loco” a situação (Ne.2:12).

    – Neemias dá-nos aqui preciosas liçõesde que como devemos agir na obra do Senhor. Por primeiro, não se pode ficar a alardear aquilo que recebemos em nossa intimidade com o Senhor. Neemias havia recebido de Deus uma incumbência e havia recebido esta incumbência, esta tarefa em sua busca particular de Deus quando ainda estava em Susã. Ora, aquilo que é fruto de nossa intimidade com Deus não deve ser propalado aos quatro cantos da Terra.

    – Temos de ter um relacionamento íntimo com o Senhor e este relacionamento deve se manter particular, entre nós e Deus. Neemias bem sabia o que devia fazer, mas não foi proclamando em alto e bom som quando chegou a Jerusalém. Ele não conhecia as pessoas, nem tampouco a cidade, por isso, antes que pudesse divulgar parte daquilo que o Senhor lhe dissera (pois nem tudo era para ser revelado), precisava “tomar pé da situação”.

    – Neemias tinha feito um planejamento em Susã, dentro daquilo que Deus pusera em seu coração, mas ainda não havia tido uma experiência seja com o povo seja com o próprio local em Jerusalém. Umlíder não pode ser apenas um teórico, alguém que trabalha única e exclusivamente com a sua mente e seu homem interior, mas precisa ter contato com a situação real e com o povo que irá liderar. Não é por outro motivo que a Bíblia denomina de “pastores” aos líderes do povo de Deus (Jr.2:8; 3:15; 10:21; 23:1; Ez.34:7-10; Ef.4:11; Hb.13:7,17). O pastor não tem apenas uma liderança mental e contemplativa, mas é necessário que ele “apascente as ovelhas”, ou seja, que se mantenha em constante contato com seus liderados, que as conheça particularmente, que conviva com elas.

    OBS: Um querido irmão que conosco acompanha as aulas do Estudo Preparatório dos Professores de EBD costuma dizer que ser pastor não é ser “almofadinha”, alguém que fica apenas em seu gabinete e que, com sua “malinha 007” passa sem nem sequer cumprimentar as pessoas que alega apascentar, como, infelizmente, temos visto muito por aí…

    – Neemias, então, precisava fazer um “levantamento de campo”, saber o real estado dos muros e das portas de Jerusalém, a fim de que, só então, com a devida verificação do seu planejamento, feito com as informações obtidas em Susã, pudesse revelar seus intentos ao povo de Jerusalém, povo que havia observado durante estes três dias.

    – Como é importante ouvir e observar antes de falar. Já vimos, na lição anterior, que Neemias era um bom ouvinte e, uma vez mais aqui, demonstra esta importante qualidade, indispensável para quem quer liderar. O líder não é aquele que manda, mas, sim, “aquele que leva os demais” a uma direção: “…a função do verdadeiro líder é identificar-se com o que está para fazê-lo cada vez melhor.(…). O líder não deve apenas estudar os assuntos que se lhe apresentam, mas vivê-los para com eles vibrar e poder falar a ponto de suscitar a inteligência em seus mais rudes liderados. Assim, a obra poderá ser vivenciada e desejada em seus corações…” (CARVALHO, Ailton Muniz de. Os dez mandamentos de um líder idôneo para o século XXI, p.18).

    – Neemias, então, na companhia de poucas pessoas, pessoas de sua mais estrita confiança, de noite, para que ninguém o visse, nem mesmo de animais, tendo apenas utilizado um para sua própria montaria, foi até os muros e portas de Jerusalém, para verificar o estado em que se encontravam.

    – É fundamental que, antes de iniciarmos a fazer a obra que o Senhor pôs em nosso coração, tenhamos um amplo conhecimento da situação que iremos enfrentar. Apesar de todas as informações que angariemos, é imperioso que nós mesmos vivenciemos a situação, para que, diante de nossa experiência, possamos bem realizar a tarefa que nos foi dada pelo Senhor. É certo que Deus, na Sua infinita misericórdia, sempre há de revelar aquilo que não formos capazes de descobrir, mas aquilo que pudermos levantar e experimentar, o Senhor não o fará por nós.

    – Saindo pela porta do vale, para a banda da fonte do dragão e para a ponta do monturo, Neemias contemplou os muros de Jerusalém e pôde verificar que estavam fendidos e que suas portas tinham sido consumidas pelo fogo (Ne.2:13). Interessante verificarmos que ele foi em direção à porta do monturo, ou seja, à porta do lixo (a Tradução Brasileira fala em “entrada do esterco”), certamente o lugar mais fétido e pior de toda aquela deplorável situação, numa demonstração de que, quando queremos conhecer a situação real, temos de ir ao pior lugar. Trata-se de uma verdadeira experiência, de uma real vivência da situação, não uma “amostragem” que busque tão somente uma “meia verificação” do que está a ocorrer.

    – Mas Neemias não ficou apenas na “porta do monturo”. Também foi até a porta da fonte e ao viveiro do rei, que eram, presumivelmente, lugares mais aprazíveis, lugar da água, onde se encontrava o “açude do rei” (como nos fala a Versão Almeida Revista e Atualizada). Não se pode fugir do pior ponto da situação para se conhecer a realidade, mas não se pode ficar apenas neste local, é preciso também ver os lugares melhores. É preciso ter uma visão global, total, não baseada em estimativas, mas em reais experiências.

    – Uma boa administração, um bom exercício de liderança não pode dispensar esta experiência da realidade. Se somos chamados por Deus a realizar uma tarefa, uma missão, não podemos nos precipitar. Temos de confiar em Deus e, sem medo de demorar, devemos calmamente, na direção do Senhor, “tomar pé da situação”. Quantos acham que, por terem sido mandados por Deus, podem tudo modificar e tudo mudar de uma hora para a outra. Tenhamos calma, amados irmãos! Sejamos prudentes. Antes é preciso “tomarmos pé da situação”, conhecermos a realidade que se nos apresenta, algo que o Senhor não fará por nós, pois nos dotou de conhecimento e inteligência para tanto. Lembremo-nos disto!

    – A porta da fonte e o viveiro do rei, que eram os “melhores” lugares daquela caótica situação, estavam em estado tão precário, tão ruim que não havia lugar por onde pudesse passar a cavalgadura que estava debaixo de Neemias. Observemos: o que seria o melhor lugar não tinha sequer espaço para que um animal ali passasse, tamanha era a presença de monturo e de ruínas no local.

    – Como não podia passar por ali, Neemias subiu pelo ribeiro e contemplou o muro, tendo, então, voltado e entrado pela porta do vale, a mesma porta por onde havia saído (Ne.2:15).

    – Neemias fez esta inspeção “in loco” sem qualquer comentário, sem abrir a sua boca. Não só os poucos homens que o acompanhavam não puderam saber o que estava a fazer e o que significava aquilo, como também não contou Neemias o que fizera a ninguém, nem aos magistrados, nem os nobres, nem aos judeus em geral (Ne.2:16). Neemias mantinha silêncio total, porque não era hora de falar, mas, sim, de ver e ouvir tudo quanto estava a ocorrer.

    – Voltamos a insistir na importância de deixarmos o falar para um momento subsequente do exercício da liderança. A situação era difícil e não devem ter sido poucas as manifestações de desânimo e de tristeza que Neemias observara naqueles três dias em que estava em Jerusalém. Mas o momento não era de falar e, sim, de ver e ouvir.

    – Salomão ensina-nos que “o homem de entendimento se cala” (Pv.11:12) e que “até o tolo, quando se cala, será reputado por sábio; e o que cerrar os seus lábios, por sábio” (Pv.17:28). Saibamos calar no momento necessário para isto, entre os quais se encontra o do planejamento e do conhecimento da situação real em que nos encontramos para dar início àquilo que Deus nos pôs em seu coração.

    Verificada a situação, devidamente reajustado o planejamento que havia sido feito anteriormente, ante a contemplação da realidade, Neemias, então, chamou os magistrados, os nobres, os judeus e os que faziam a obra para uma reunião. Notemos que Neemias chamou todos os interessados, sem fazer acepção de pessoas. Para que tivesse êxito, Neemias tinha de ter o consentimento de todos.

    – Em nossos dias, na Igreja, que é um corpo (I Co.12:12-27), muito mais do que Neemias, devemos todos buscar o consentimento e a participação de todos os interessados para que possamos bem realizar a obra de Deus. O fato é que, ultimamente, em nome de uma “teocracia”, tem-se alijado boa parte dos salvos das deliberações e das decisões, o que não é correto. Neemias tinha autorização da máxima autoridade daquele tempo para reedificar Jerusalém e estava na direção de Deus, que era quem o escolhera para a realização daquela grande obra, mas não ousou usar de sua “autoridade”, tendo preferido antes obter o consenso de todo o povo, sem o que, sabia ele, nada poderia ser realizado

    – Deus, apesar de ser o Criador de todas as coisas e Senhor de tudo (Sl.19:1), não é um ditador. Muito pelo contrário, tem prazer em compartilhar a existência com o homem e, por isso, convida o homem a esta parceria. Este gesto divino é a demonstração indelével do Seu amor para conosco e tem de ser, necessariamente, imitado pelos Seus servos. Por isso, uma das características da Igreja é a “perseverança na comunhão e no partir do pão”, ou seja, a mantença de uma vida de compartilhamento entre os irmãos, de colaboração mútua, de exercício do amor desinteressado.

    Neemias não impôs coisa alguma ao povo judeu, embora tivesse poder e autoridade, tanto da parte de Deus quanto da dos homens, para fazê-lo. Preferiu obter o apoio e a adesão dos judeus e, por isso, convocou esta reunião, onde, na presença de todos, desde os magistrados, passando pelos nobres, até os judeus em geral, fez uma análise da situação e conclamou o povo à obra.

    OBS: “…Um dos meios, e o mais apropriado para o líder conseguir esse objetivo, é promover reuniões producentes com os seus liderados. Essas reuniões dão a oportunidade aos subordinados de apresentar suas queixas e suas dificuldades, além de fazer sugestões e ouvir as opiniões de seus colegas, em relação aos problemas gerais enfrentados e resolvidos pelo grupo. Tem ainda a vantagem de colocar a liderança, democraticamente, diante de seus subordinados, para colocá-los a par dos planos emergentes da obra e integrá-los. Passarão, assim, a cooperar com convicção no projeto do superior, deixando de ser, apenas, cumpridores de ordens.…” (CARVALHO, Ailton Muniz de. op.cit., p.41).

    Neemias não “dourou a pílula”. Foi bem enfático: “bem vedes a miséria em que estamos” (Ne.2:17). Uma das características do líder é o de dizer necessariamente a verdade. Na obra de Deus, então, que é a própria Verdade (Jr.10:10), não há como sermos bem sucedidos se não falarmos e mostrarmos a verdade.

    – Neemias foi direto ao ponto: o povo judeu vivia um estado de miséria. Se não reconhecermos a nossa situação real, se não assumirmos a nossa integral e total dependência de Deus, jamais poderemos triunfar na obra do Senhor. Aliás, se não assumirmos a nossa maldade e depravação, nem sequer conseguiremos ser salvos. Não nos esqueçamos de que uma das poucas pessoas que saiu da presença de Cristo Jesus sem a salvação foi o mancebo de qualidade, precisamente porque ele se achava bom (Mt.19:16-22; Mc.10:17-22; Lc.18:18-23).

    – Hoje em dia, falta este “choque de realidade” na Igreja. Após termos completado o centenário das Assembleias de Deus, precisamos refletir a respeito do atual estado em que nos encontramos. Sem dúvida, devemos ser gratos a Deus pela extraordinária operação do Espírito Santo em nosso país durante estes cem anos, mas não podemos negar que estamos muito, mas muito distantes do fervor dos primeiros dias. Pesquisa recente indicou que, nos anos 1950, a proporção de crescimento da Igreja era de que um crente ganhava, em média, doze outros para Cristo, por ano, enquanto que, na atualidade, são necessários 144 crentes para ganhar um por ano em média em nosso país. Deixamos de crescer como antes e nosso crescimento tem sido pífio, como mostrou recente pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, que indica que, somados pentecostais e neopentecostais, tivemos, nos últimos dez anos, a mantença de 12% (doze por cento) da população, ou seja, pela primeira vez, não houve crescimento real dos pentecostais. Enquanto isso, o número de evangélicos que “não têm igreja” alcança 14% (quatorze por cento) dos evangélicos, um número estarrecedor, que indica como tem crescido a apostasia no meio do povo.

    – Ao mesmo tempo em que isto acontece, vemos rarear a manifestação dos dons do Espírito Santo em nossas igrejas locais, sem falar que muitos já não são batizados com o Espírito Santo. Enquanto isto, o ingresso do mundanismo em nossas igrejas é visível, além da subversão dos cultos a Deus, levando cada vez mais a um distanciamento de uma espiritualidade sadia em todos os segmentos da Igreja. Por fim, o “analfabetismo bíblico” é assustador, com o total desconhecimento das Escrituras por parte da esmagadora maioria dos crentes que, há muito, não frequentam reuniões de ensino nem Escolas Bíblicas Dominicais.

    – Diante de tal quadro, torna-se urgente que as lideranças façam como Neemias, parem de ficar se digladiando por posições seja na igreja local, seja na sociedade e, bnuscando a direção do Senhor, contemplem a realidade que está a lhes escapar dos olhos e, depois de devidamente orientados pelo Espírito Santo e terem “tomado pé da situação”, venham ao encontro do povo e os reúna para que, juntos, saiamos desta situação de miséria espiritual em que estamos nos envolvendo. Não temos muito tempo, amados irmãos!

    OBS: “…A pergunta que vem agora é: Por que os evangélicos perderam o fôlego? Parafraseando o apóstolo Paulo: Corríeis tão bem, quem vos impediu de continuar a carreira no mesmo ritmo? Isso mesmo: o que aconteceu para uma queda de 40% – de 98 para 40%? Tendo dito isto, gostaria de fazer uma análise do que está acontecendo nesses últimos nove anos com a Igreja Evangélica. Direto ao ponto: O Evangelho da ‘prosperidade’, a novidade introduzida pelas Igrejas Neo-pentecostais na década de 1991-2000 perdeu o encanto e se revelou descartável. A inovação eficiente nos anos 90 trouxe um componente estranho para os primeiros nove anos do nosso século: as pessoas perderam o entusiasmo por ele e aguardam uma outra novidade que agrade aos seus ouvidos. Para mim, o Espírito Santo foi trocado pela “novidade” dos anos 90, mas a energia daquela “prosperidade” minguou, assim como o azeite das lamparinas da Parábola das dez virgens, do Evangelho. Como bem criticou alguns blogueiros da comunidade, a quantidade não trouxe qualidade. Para não ser prolixo, vou concluir. O método que Jesus Cristo usou há 2000 anos ainda se mostra o mais eficiente para nortear a Igreja. Quando ele concluiu seu ministério, estima-se que tivesse 500 discípulos. Discipulado. A TV mostra-se eficiente para evangelizar, mas ela tem um ponto falho: não produz discipulado! Não, porque trata-se de um veículo de entretenimento descartável na sua essência. E, discipulado significa um novo convertido aprendendo com um cristão maduro – em comunhão com o Espírito Santo. Para por isto em prática não é necessário um mega-projeto nem recursos financeiros astronômicos, basta implantar em cada Igreja a volta do discipulado. Ainda não inventaram nada melhor para a prosperidade da Igreja.…” (CRUZUÉ, João. Projeções da população evangélica para 2010. Disponível em: http://olharcristao.blogspot.com/2011/02/projecoes-da-populacao-evangelica-para.html Acesso em 25 ago. 2011).

    – Neemias disse que Jerusalém estava assolada e suas portas queimadas a fogo. Bem mostrou, pois, o quadro de caos que vigorava, mas não se limitou a dar o correto diagnóstico da situação. Muitos até se saem bem quando o assunto é falar da situação real. Bem investigam (como deve fazer todo justo, pois quem não investiga é o ímpio – Sl.10:4), mas se limitam a dar a imagem do caos. Neemias, porém, não viera para desanimar ou simplesmente engrossar o lamento dos judeus. Após ter falado francamente a respeito da situação, traz a mensagem de esperança: “vinde, pois, reedifiquemos o muro de Jerusalém e não estejamos mais em opróbrio” (Ne.2:17).

    Neemias, então, revela parte do que Deus havia posto em seu coração e convida o povo a se juntar a ele para reedificar o muro de Jerusalém e mudar a situação de opróbrio que estavam a viver. Notemos que Neemias usa apropriadamente a primeira pessoa do plural: “reedifiquemos” e “não estejamos em opróbrio”. Neemias não veio dar ordens, mas chamar o povo para que, com ele, mudasse a situação. Neemias põe-se, desde já, como um dos envolvidos na obra que era proposta, o que, certamente, representou uma surpresa e um nítido incentivo para os judeus, pois, afinal de contas, Neemias, que nem sequer morava ou conhecia Jerusalém, tudo deixara em Susã para se irmanar com os seus compatriotas.

    – É muito fácil dar ordens, ainda mais quando autorizado por quem de direito, como é o caso de Neemias. Mas o homem de Deus não deve estar disposto a simplesmente mandar fazer, mas a convidar os demais a que venham fazer juntamente com ele. Temos de ser imitadores de Cristo (I Co.11:1) e, como tal, temos de também trabalhar, pois foi assim que procedeu o Senhor Jesus (Jo.5:17). Temos agido desta maneira?

    – Após ter se identificado com todos os judeus, Neemias, então, dá o seu testemunho diante do povo, mostrando que ali estava não por vontade própria, mas por determinação divina (Ne.2:18). É necessário que o líder dê o seu testemunho de chamada, que mostre aos que estão à sua volta que é o escolhido para estar à frente do povo (e isto que significa “presidir”, ou seja, “estar à frente”), mas tal declaração, sabiamente, foi feita por Neemias depois que tinha já tomado conhecimento da situação real, tanto do povo quanto da cidade desolada.

    – Esta declaração foi feita a todo o povo, pois Neemias reconhecia que estava diante do povo de Deus, do povo tão amado pelo Senhor que o trouxera de Susã para a realização daquela obra. Também devemos, enquanto líderes, falar aos nossos liderados em conjunto, pois, se fomos chamados por Deus, não podemos nos esquecer que o mesmo Espírito Santo que habita em nós, também habita naqueles que serão liderados. Não pode haver “segredos” quanto a este assunto, pois o Espírito hoje habita em todos os salvos. Por isso, duvidemos daqueles que respaldam sua liderança em “visões”, “revelações” que são inalcançáveis aos demais crentes.

    Neemias, apesar de se apresentar como chamado pelo Senhor para esta obra, não tirou a devida glória ao Senhor. Disse que o Senhor lhe fora favorável, reconhecendo que dependia de Deus para a execução daquela tarefa. Neemias era o líder chamado por Deus, mas não se portava como um “super-homem”, pois, efetivamente, não o era. O líder está à frente do povo, mas não está acima do povo, pois acima do povo só pode estar um: o Senhor.

    – Além de se apresentar como chamado por Deus, Neemias também teve a preocupação de mostrar ao povo que ali estava com expressa autorização do rei Artaxerxes. Neemias, em momento algum, queria dar a mínima suspeita de rebelião ao domínio persa. Tinha consciência de que o Senhor havia posto o povo debaixo do jugo da Pérsia e que não havia qualquer demonstração, da parte do Senhor, de alterar esta situação política. Por isso, bem disse para o que tinha vindo: reedificar os muros de Jerusalém e tirar o povo judeu daquela miséria. Era isto e nada mais! Jamais percamos o foco da chamada que Deus nos deu e da tarefa que deveremos desempenhar junto com os demais irmãos.

    O povo judeu reconheceu a integridade e a coragem daquele homem e, a uma só voz, animou-se e aderiu ao projeto: “Levantemo-nos e ediquemos”. Não temos porque, diante do chamado do Senhor, acharmos que não seremos correspondidos pelos autênticos e genuínos servos de Cristo Jesus. Se fomos chamados, o mesmo Espírito que nos chamou também irá agir naqueles que serão os liderados e todos, juntos, faremos a obra do Senhor.

    – Neemias, em sua fala, também demonstrou que estava a querer o bem dos filhos de Israel, como já havia mencionado quando comparecera diante dos governadores dalém do rio e que motivou o desagrado de Sambalate e de Tobias. Sabemos disto porque o texto sagrado nos fala que os judeus “esforçaram as suas mãos para o bem” (Ne.2:18 “in fine”).

    – É fundamental que o líder mostre, com objetividade e transparência, quais os objetivos que pretende na realização da obra que irá fazer. Esta clareza e transparência é fundamental para que haja a união de esforços e a obra se realize. Onde há união, ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre (Sl.133:3) e não há como se obter esta união de forma duradoura sem que se saiba precisamente qual a finalidade que se busca alcançar.

    – O próprio Jesus, diz-nos a Bíblia, tudo suportou pelo gozo que Lhe estava proposto (Hb.12:2). Também os crentes tudo suportam nesta vida de aflições porque sabem que lhes está reservada uma glória que não dá para comparar com as aflições do tempo presente (Rm.8:18). Se assim vive o salvo, como podemos ter a sua colaboração sem que ele tenha consciência dos objetivos que se pretendem atingir?

    – Todos resolveram aderir à proposta de Neemias, porque sabiam que aquele esforço era “para o bem”. Também, neste mundo, nós, como servos do Senhor Jesus, devemos, como Ele, “andar fazendo bem” (At.10:38). Devemos deixar bem claro a todos que nos cercam que nosso esforço é “para o bem”, sem qualquer outro interesse. Temos agido desta maneira?

    – Observemos, ainda, que este bem, ainda que querido por Deus, que, inclusive, criara todas as condições para que a obra fosse possível, dependia do esforço de todos. Bem ao contrário do que dizem os triunfalistas e os teólogos da prosperidade, nada viria “de mão beijada” para o povo judeu. Eles teriam de se esforçar, de fazer aquela grandiosa obra. Deus não estava pronto a num passe imediato fazer os muros de Jerusalém se levantarem, assim como haviam caído os muros de Jericó. Não nos iludamos, amados irmãos: Deus não é nosso empregado, não é nosso serviçal. Ele faz o que ninguém poderia fazer (como capacitar alguém como Neemias e tirá-lo de Susã para liderar o povo em Jerusalém), mas não faz aquilo que podemos fazer (reedificar os muros e as portas de Jerusalém).

    – Assim que todos se comprometeram a reedificar os muros de Jerusalém e a mudar a situação de miséria do povo, não demorou muito para que os inimigos se levantassem.

    – É sempre assim, como já tivemos ocasião de dizer neste estudo. Tendo sabido do comprometimento do povo, ainda que só por informações, Sambalate, Tobias e Gesem, o arábio (percebem como já aumentou o número de inimigos, de dois passamos para três), zombaram dos judeus e os desprezaram, acusando-os de querer rebelar-se contra o rei da Pérsia (Ne.2:19).

    – Não nos deteremos aqui na atuação dos inimigos de Neemias, pois analisaremos minudentemente esta oposição em duas lições (lições 4 e 5), mas, desde já, podemos verificar que a oposição do inimigo não tarda quando há disposição do povo de Deus para realizar uma obra querida pelo Senhor. Não podemos, portanto, nos assustar e nos intimidar quando vêm as zombarias, os desprezos e as calúnias do adversário de nossas almas.

    Nossa reação deve ser a mesma de Neemias que, sem se importar com a oposição, deu testemunho de que “o Deus dos céus é que nos fará prosperar” e que os judeus, que eram servos do Senhor, se levantariam e edificariam Jerusalém uma vez mais (Ne.2:20).

    – Além disto, Neemias foi bem claro ao mandar dizer aos inimigos que “eles não tinham parte, nem justiça, nem memória em Jerusalém”. Neemias continuou sendo fiel à verdade e não teve preocupação alguma em agradar aos homens. Aqueles homens eram de nações inimigas de Israel, não queriam o seu bem, nunca o tinham querido e, inclusive, tinham prazer em contemplar a situação deplorável em que se encontrava o povo judeu. Por isso, não tinham “parte, nem justiça, nem memória em Jerusalém” e, desta maneira, não poderiam cooperar com aquela obra.

    Precisamos ter o mesmo discernimento de Neemias. A obra que ele haveria de realizar é “para o bem dos filhos de Israel” e, deste modo, somente poderia contar com a colaboração e participação dos filhos de Israel. Era uma obra que Deus estava a fazer com o Seu povo e, portanto, não podia, de forma alguma, ter a participação de quem não pertencia ao povo de Deus.

    – Precisamos ter esta compreensão quando começamos a realizar a obra de Deus. Nela não tem parte, nem justiça nem memória aqueles que não pertencem ao povo do Senhor. Quanto prejuízo temos causado ao Senhor quando permitimos que inimigos de Deus venham a cerrar fileira ao nosso lado? Não nos esqueçamos dos malefícios causados pelo “vulgo”, pela “mistura de gente” que saiu do Egito juntamente com Israel (Ex.12:38; Nm.11:4), bem como os povos que habitavam em Canaã e que foram poupados pelos israelitas na conquista da terra (Jz.2:3).

    – Neemias não os amaldiçoou, nem tampouco lhes declarou guerra, mas simplesmente disse que aquela obra era uma obra exclusiva para o povo de Deus. Que assim também procedamos para que tudo seja feito conforme a vontade do Senhor

     

    Ev. Profº Dr. Caramuru Afonso Francisco

     

     

     

  • Lição 4 – João Batista, um homem resignado

    Lição 4 – João Batista, um homem resignado

    Joao batista

    Texto Áureo

    “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; mas aquele que é o menor no Reino dos céus é maior do que ele”. Mt 1.11

    Verdade Aplicada

    João Batista é um gigante da fé que se resignou para preparar o caminho daquele que viria depois dele.

    Esboço

    1. Caracterização Geral
    2. Família e Começo de Vida
    3. Fontes Informativas
    4. Ministério e Mensagem de João Batista
    5. Elias Redivivo
    6. João Batista e Jesus
    7. Seguidores de João Batista
    8. Morte de João Batista

    Bibliografia

    1. Caracterização Geral

    a. O Precursor. João, filho de Zacarias (que era sacerdote) e de Isabel (igualmente de ascendência sacerdotal), foi o precursor de Jesus, o Cristo. As datas de seu nascimento e da inauguração de seu ministério público não podem ser determinadas com precisão. As sugestões variam de 8 a 4 A.C., quanto ao seu nascimento, e de 26 a 28 D.C., quanto ao início de seu ministério público. Lucas informa-nos que João Batista nasceu quando seus pais eram ambos de avançada idade. No evangelho de Lucas temos a bela visão de Zacarias, que mostrou que João seria um vaso especial para servir ao Senhor. Ele nasceu na região montanhosa da Judéia, – onde também passou os primeiros anos de sua vida. Isabel, sua mãe, era parenta (talvez prima) de Maria, mãe de Jesus. João vivia como um asceta, segundo se vê em Mat. 3:4. Vestia-se de maneira similar à de Elias (11 Reis 1:18).

    Alguns estudiosos pensam que João Batista era: a reencarnação de Elias; mas outros, mais acertadamente, dizem que ele meramente cumpriu um ministério como o de Elias. Ou alguém que ministrava no poder e espírito de Elias. João Batista era uma voz no deserto, que conclamava os homens ao  arrependimento, para que eles se voltassem para o Cristo, o Cordeiro de Deus (João 1:23,29). Foi o Batista quem preparou o núcleo inicial dos discípulos de Jesus, os quais, finalmente, se tornaram seus seguidores, quando chegou o tempo aprazado para isso.

    b. A Mensagem de João Batista. Essa mensagem tinha como ênfase principal a necessidade de arrependimento, a breve inauguração do Reino de Deus à face da terra, e o iminente aparecimento do Messias, que haveria de julgar, purificar e unificar o povo de Deus. João Batista identificou Jesus como o Messias prometido, embora pareça ter hesitado quanto a essa identificação, pelo menos durante algum tempo, quando, sofrendo no cárcere, e sob forte desapontamento, chegou a duvidar (Mar. 11:3).

    c. O Batismo de Jesus por João. Entre os que vieram receber o batismo de João, achava-se o próprio Jesus, que quis assim identificar-se com o grupo separado daqueles que buscavam fervorosamente o reino de Deus . Foi nessa oportunidade que João declarou enfaticamente que Jesus era o Messias. Ver Mat. 3: 13-15.

    d. Um Extenso Ministério. Sabemos que o ministério de João Batista não se confinou ao vale do Jordão, O trecho de João 3:23 mostra-nos que ele deixou aquele local e, por algum tempo, pregou batismo de arrependimento em Enom, perto de Salim, onde havia muita água para imergir os penitentes. W.F. Albright (The Archeology of Palestina) diz que esse lugar ficava a sudeste de Nablus, perto das cabeceiras do wadi Far’ah, em território samaritano. Depois disso, João retornou ao território governado por Herodes Ântipas, provavelmente a Peréia. Acabou despertando a hostilidade de Herodes Ântipas, e mais ainda de sua segunda esposa, Herodias, ao denunciar que o casamento deles era ilícito, porquanto ela era esposa de um irmão dele. Por esse motivo, João foi encarcerado na fortaleza de Maquero, na Peréia; e, poucos meses mais tarde, foi executado. Ver Mat. 14:1-12 quanto a essa narrativa.

    e. João Batista e os Essênios. Os eruditos comumente têm-feito a ligação entre João Batista e os essênios. Os seus hábitos ascéticos e os locais onde ele costumava pregar, perto de onde os membros daquela seita se localizavam, bem como as afinidades entre João Batista e os manuscritos do mar Morto, encontrados em Qumran, chegam quase a confirmar essa pura especulação. Um grupo de ascetas essênios residia na margem noroeste do mar Morto; e tanto João Batista como os membros dessa seita residiam no deserto da Judéia; ambos tinham um caráter nitidamente sacerdotal; ambos davam ênfase ao batismo em água como sinal de purificação interna; ambos ensinavam um iminente juizo divino; ambos apelavam para Isaias 40:3 como a autoridade para suas missões. Os eruditos, pois, até hoje continuam a debater essa possível conexão entre o Batista e os essênios. Mas, se porventura João em algum tempo fez parte do grupo, então é certo que ele ultrapassou em muito as limitações do ..,grupo e tornou-se líder de um movimento distinto. E mesmo possível que, bem antes de iniciar- seu ministério, o Batista tivesse tido ligações com eles; o fato, porém, é que o movimento de João Batista nada tinha a ver com os essênios. Em Qumran, o batismo era um rito de iniciação; mas João universalizou a imersão, tornando o sinal daquele movimento que em breve acolheria ao Messias. A mensagem do Batista dirigia-se à nação inteira de Israel. Ele não falava em nenhuma seita separatista e exclusivista. O batismo de João tornou-se uma espécie de ato escatológico, a declaração em favor da crença em um apocalipse que em breve se manifestaria.

    f. João, o Imersor, Tanto o Novo Testamento (no grego), quanto Josefo, chamam João Batista por esse nome. A imersão em água era um elemento essencial e básico em seu ministério. Essa imersão ou batismo era o sinal de arrependimento e de aceitação da mensagem de João como precursor do Messias. Preparava as pessoas para um discipulado sério e especial. Ver Josefo (Anti. 18.5,2).

    g.O Movimento de João Batista. João era homem dotado de grande poder e influência. Os evangelhos acharam por bem mostrar que ele mesmo não era o Messias, e que ele não tinha quaisquer ambições messiânicas. Ver João 1:19-28. E o trecho de Atos 18:25 mostra-nos que o movimento de João Batista teve prosseguimento mesmo após a formação da Igreja cristã. Ver também Atos 19:1-7. A obra intitulada Reconhecimentos Clementinos sugere que o movimento continuou e que chegou a entrar em conflito com grupos cristãos. Alguns estudiosos têmafirmado que a comunidade dos mandeanos  que até hoje sobrevive, teve suas origens nomovimento de João Batista; porém, nada de certo se pode afirmar quanto a esse respeito.

    h. Reconhecimentos Clementinos, Entre a literatura que alegadamente procedeu da pena de Clemente de Roma (embora isso não seja verdade), temos as Homilias que, presumivelmente, preservam os ensinos e os sermões de Clemente de Roma. Também existem dez livros chamados Reconhecimentos Clementinos. Esses volumes, alegadamente, oferecem-nos informes históricos associados a Clemente, com grande abundância de ensinamentos. Entretanto, ambas  essas obras parecem mais ter-se originado entre os gnósticos judeus, datando de algum periodo da porção final do século li D.C. Mas, embora esse material não seja genuinamente clementino, não há razão alguma para duvidarmos que contém alguns informes históricos genuínos, como aquele que diz que o movimento gerado por João Batista continuou até o fim do século II D.C.

    2. Família e Começo de Vida

    João Batista era filho do sacerdote Zacarias, que pertencia ao turno de Abias (I Cr(J. 24:10). Sua mãe, Isabel, também era de familia sacerdotal, pois é até chamada de «das filhas de Arão» (Luc. 1:5). Seu nascimento foi miraculoso, visto que ambos os seus pais eram de idade avançada. Ele nasceu na região montanhosa da Judéia. Maria, mãe de Jesus, foi visitar Isabel, e permaneceu com ela por cerca de três meses. Ver Luc. 1:56. Elas eram parentas (Luc. 1:36).

    Alguns estudiosos pensam que elas eram «primas», conforme a palavra grega correspondente é traduzida; mas outros preferem pensar que o termo grego sungenes não demarca nenhum grau especifico de parentesco, e que pode ser melhor traduzido por «parenta». Esse termo grego é tão indefinido que pode até significar «compatriota». Ver Josefo (Guerras 7.262; Anti. 12.338). Talvez Jesus e João Batista fossem primos em algum grau desconhecido. Praticamente

    nada sabemos acerca da vida de João Batista, antes dele dar inicio a seu ministério público.

    Sabemos somente que ele residia na região montanhosa da Judéia, embora a cidade onde ele residia não seja mencionada nas páginas do Novo Testamento. É evidente que ele vivia sob o voto dos nazireus (vide), permitindo que seus cabelos crescessem e não aparando os cantos da barba. Evitava todo vinho e toda bebida alcoólica, e vivia como asceta. Por isso mesmo, alguns eruditos têm pensado que, pelo menos em algum tempo, antes de iniciar seu ministério. ele

    se tenha associado com os essênios, que habitavam em comunidades separadas, no deserto. Porêm, não há provas conclusivas quanto a essa especulação. O trecho de Lucas 1:80 meramente diz-nos que João cresceu e se tornou forte, habitando no deserto, até o tempo de sua manifestação a Israel.

    3. Fontes  Informativas

    Nossas fontes informativas sobre a vida de João Batista são os quatro evangelhos e algumas poucas citações das obras de Josefo. Há outras alusões, nos ensinos mandeanos e no Josefo Eslavônico. Porém, os informes ali contidos, de acordo com os estudiosos, revestem-se de pouco valor histórico.

    4. Ministério e Mensagem de João Batista

    a. O Precursor de Cristo. A vida de João Batista visava a preencher um propósito todo especial, ou seja, o de ser o precursor do Messias. Tal como se dá no caso do próprio Senhor Jesus, pouco se sabe acerca. do período de preparação de João Batista. João Batista deu inicio ao seu ministério público poucos meses antes do Senhor Jesus iniciar seu próprio ministério. Tal como se deu com o Filho de Deus, João Batista dispunha de curtíssimo prazo para cumprir o seu ministério. Josefo afiança que João Batista era pessoa dotada de grande magnetismo pessoal e força de atração. A vida dele foi como Um brilhante meteoro que apareceu subitamente, brilhou durante um breve período, e desapareceu. Alguns chegaram a pensar que ele seria o Messias prometido, e o primeiro capítulo do evangelho de João cuida em mostrar que essa opinião estava equivocada, porquanto João Batista mesmo nunca fizera tal reivindicação. Todavia, a vida de João Batista foi de tal modo poderosa que outros identificaram-no com Elias. E, em certo sentido, estavam com a razão. Foi o próprio Senhor Jesus quem declarou: «E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir» (Mat. 11:14).

    b. João Batista Foi uma Figura Profética. Ele se assemelhava aos profetas do Antigo Testamento, sobretudo com Elias (ver Mat. 5:4 com 11 Reis 1:8 e Zac. 13:4). Os autores do Novo Testamento ensinaram que ele cumpriu a profecia de Isa. 40:3 (ver Mat. 3:3; 17:10-12; ver também Mal. 3:1 e 4:5).

    Como um homem do destino, João Batista coube dentro dos tempos do cumprimento de promessas messiânicas e, durante um tempo breve mas crucial realizou o seu ministério terreno. Embora fosse grande, do ponto de vista espiritual, é deveras significativo que Jesus tenha afirmado que o menor no Reino de Deus será maior do que ele (Mat. 11:11). Isso nos revela algo sobre a grandiosidade espiritual que o Reino de Deus haverá de trazer.

    c. Um Profeta Asceta. João pode ter vivido ou não sob os votos do nazireado . Seja como for, ele vivia de modo extremamente ascético, vestido, como Elias, com pêlos de camelo e comendo gafanhotos e mel silvestre, e falando acerca de acontecimentos apocalípticos e sobre a necessidade dos homens se arrependerem. Tudo, em João Batista, fazia lembrar Elias. e as multidões vinham ouvi-lo.

    d. Retirada e Reforma. Embora, a exemplo dos essênios, João Batista se tivesse retirado do convívio social, de forma alguma ele se distanciou da sociedade de seus dias. Sua missão consistia em anunciar as condições, àquela sociedade, mediante as quais os homens de então deveriam acolher o Messias e o seu reino. O Batista engolfou Samaria em seu ministério (João 3:23). Se é que João Batista começou entre os essênios (um ponto muito disputado), então, por certo, ele não se limitou a essa «denominação», visto que a sua mensagem profética era universal, e ele não pregava a uma claque fechada, conforme faziam os essênios.

    e. O Messias Anunciado por João Batista. O Novo Testamento deixa claro que João Batista esperava que o Messias estabelecesse o seu reino, pela força, se necessário, e que isso constituiria um acontecimento apocalíptico. De fato, João referia-se a esse advento com termos idênticos àqueles em que os pregadores modernos aludem ao Segundo Advento de Cristo. O Novo Testamento não tenta esconder que o Batista, em certa medida, ficou desapontado diante do modo como Jesus se apresentou publicamente. Jesus não reuniu algum exército, nem se mostrou militante. Ao que parecia, não foi ao menos capaz de proteger o seu homem-chave, ou seja, ao próprio João Batista. Os adversários de Jesus pareciam estar ganhando todas as vitórias. Verdadeiramente, do ângulo de João, as coisas não estavam avançando nada bem. Foi por essa razão que ele enviou mensageiros a Jesus, para que indagassem se ele era, veramente, o Messias, Aquele pelo qual ele, João Batista estava esperando. Ver Mat. f 1:2 ss . João ouvia falar sobre os grandes prodígios de Jesus; mas ali estava ele mesmo, no cárcere. Como poderia ser isso?

    A resposta de Jesus… dificilmente  poderia tê-lo satisfeito. Jesus não foi capaz de anunciar qualquer progresso na revolução! Não tinha reunido nenhum exército; não obtivera qualquer poder político; não havia um numeroso grupo de seguidores dispostos a combater por ele. Tudo quanto Jesus pôde dizer é que os cegos estavam recebendo de volta a visão, que os aleijados estavam andando novamente, que os leprosos estavam sendo purificados, que os surdos estavam ouvindo, que os mortos estavam sendo ressuscitados dos mortos, e que aos pobres estava sendo anunciado o evangelho. Dificilmente esse era o Messias pelo qual João estava esperando! Ou, pelo menos, muitos pensam assim a respeito de João. Não obstante, naquela mesma ocasião, Jesus afirmou que João estava cumprindo a predição de Mal. 3:1: «Eis que eu envio o meu mensageiro que preparará o caminho diante de mim… » Sim, o caminho fora preparado por João; mas o caminho não parecia ser aquele pelo qual João esperava. Não é que o Batista tivesse perdido a fé em sua missão, mas ficou muito desanimado, indagando se Jesus realmente cumpria os requisitos da missão messiânica. Os profetas do Antigo Testamento não sabiam separar a primeira da segunda vindas de Cristo. Pedro alude a isso em I Pedro 1: 11: «•• .investigando atentamente qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias que os seguiriam». Eles não entendiam que, na primeira vinda haveria os «sofrimentos» de Cristo, e que só em sua segunda vinda haverá as «glórias». Esse era o motivo da perplexidade de João Batista.

    f. O Mistério da Cegueira de Israel. Paulo falou, profundamente admirado, sobre essa cegueira, em Rom. 11:2S ss. Ele explicou que a cegueira de Israel era uma necessidade, a fim de que o evangelho pudesse ser anunciado às nações gentílicas também, para que houvesse uma Igreja formada por judeus e gentios, igualmente. Mas, chegado o tempo certo, e removido o véu que agora tapa os olhos do povo judeu, eles haverão de reconhecer que o Senhor Jesus é o Messias prometido. Não obstante, Israel é responsável pelos seus atos. O poder predestinador do Senhor usa a vontade humana sem destrui-la, embora não saibamos precisar como. O décimo primeiro capítulo de Mateus mostra como a mensagem de João Batista e de Jesus caíram em ouvidos surdos, como eles tocaram para o povo, mas eles não dançaram; como eles lamentaram, mas o povo não chorou. João veio como um asceta; mas Jesus, ao contrário, não era asceta. Todavia, nem João Batista e nem Jesus tinham sido devidamente ouvidos. O povo judeu permaneceu na indiferença (Mat, 11:16-19). Nem mesmo os poderosos prodígios de Jesus levaram o povo judeu a arrepender-se (vs, 20 ss). No entanto, um pequeno remanescente acreditou, mediante o poder de Deus; e a esses foram revelados os mistérios do reino de Deus (vs. 25 ss). Ê significativo que dentre esse contexto de rejeição, emergiu aquele belo convite de Jesus, por tantas vezes citado: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. (Mateus 11:28,29).

    g. O Batismo de João. Sem dúvida a imersão aplicada por João Batista era muito mais que algum rito de iniciação, a fim de que membros fossem aceitos em alguma seita (como era o caso entre os essênios), Antes, era um sinal de conversão a Deus, um sinal requerido de que uma pessoa havia abandonado seus antigos caminhos pecaminosos, em preparação .para acolher ao Messias e ao seu reino. Todavia, o batismo de João não era um batismo cristão, com todo o seu simbolismo e significado. Para tanto, era mister que Jesus morresse e ressuscitasse. Mas, à semelhança do batismo cristão, apontava para o arrependimento, a renovação espiritual e a resolução de viver a vida de um piedoso discípulo da retidão. Também havia um intuito messiânico, pelo que estava aliado bem de perto com a fé cristã, que em breve Jesus haveria de trazer. Supomos que aqueles que foram batizados por João, ao se unirem ao movimento cristão, não eram rebatizados. No entanto, houve casos de pessoas, inteiramente ignorantes sobre Cristo e suas reivindicações, que, embora tivessem sido discípulos de João Batista, mais tarde foram novamente batizadas (ver Atos 19:1 ss). Os judeus costumavam batizar os gentios que se convertessem ao judaísmo, imergindo-Ihes totalmente o corpo, o que representava uma completa purificação. Não há que duvidar que esse precedente foi o que determinou o espírito e o modo da imersão aplicada pelo Batista. O evangelho de João destaca o ponto que .João batizava em Enom, perto de Salim. porque ali . havia muita água. Teria sido inteiramente fora de ordem, do ponto de vista dos judeus, se João se pusesse à beira de um rio, com algum candidato ao batismo, para então apanhar uma pequena quantidade de água e a derramar sobre a cabeça do candidato. Isso não seria imersão, mas aspersão.

    A seita de Qumnm (ver Sobre Khlrbet Qamran) praticava um batismo de arrependimento que assinalava os novos convertidos ao seu grupo, permitindo-lhes o ingresso na seita. Porém, isso era meramente uma adaptação da imersão de prosélitos ao judaísmo. O Manual de Disciplina, em seu quinto capítulo, descreve o batismo praticado entre os essênios. Se João Batista estivera, em algum tempo, associado aos essênios, então, naturalmente, teria continuado a prática de batismo, mas o batismo dos essênios não era o verdadeiro precedente de seu batismo, que ia buscar raízes ainda mais longe na história do povo judeu.

    5.Elias Redivivo

    Era doutrina comum entre os judeus do começo do cristianismo que grandes personagens proféticas do Antigo Testamento, teriam mais de uma missão espiritual terrena. Muitos rabinos pensavam que Jeremias fosse a reencarnação de Moisés. E eles esperavam que Elias voltasse a viver como o precursor do Messias. E do próprio Senhor Jesus chegaram a pensar que ele fosse Jeremias ou algum dos antigos profetas. Ver Mat. 16:14. E os discípulos de Jesus tinham consciência da tradição, promovida pelos fariseus, de que Elias deveria retomar à vida, antes da carreira do Messias, envolvendo-se no drama de sua aparição (Mat. 17:10 ss). Jesus, chegado o momento certo, ensinou que Elias já viera a este mundo, na pessoa de João Batista. Alguns intérpretes crêem que João Batista foi uma autêntica reencarnação de Elias; mas outros crêem que o Batista cumpriu o espirito daquela profecia, mas que ele não era o próprio Elias. João Batista declarou que ele mesmo não e-ra Elias (João 1:21). Porém, aqueles que acreditam que João Batista era. realmente, a reencarnação de Elias, salientam que a pessoa reencarnada (com algumas notáveis exceções) usualmente não tem consciência de sua anterior identidade (ou identidades). Eu mesmo não penso que podemos eliminar essa possibilidade sobre bases dogmáticas. Pois o próprio Novo Testamento ensina casos especiais de. reencarnação, com vistas a missões terrenas especiais. As duas testemunhas do Apocalipse (cap, 11) aparecem como quem já tinha outras histórias terrenas. – O anticristo, segundo se lê em Apo. 17:8,11, haverá de subir do hades a fim de cumprir ainda uma outra missão diabólica. Os cristãos antigos pensavam que o anticristo seria Nero redivivo. E muitos crentes ensinam, até hoje, que Elias terá uma outra missão na terra, antes do segundo advento de Cristo.

    João foi cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento (Luc. 1:15).

    Os autores neotestamentários também fazem de João uma figura profética, especificamente como o precursor do Messias. Ê muito significativo, e sem dúvida autêntico, que João, de certa feita, em um momento de desencorajamento, em seu cárcere, duvidou que Jesus teria cumprido os requisitos da missão messiânica, pela qual ele vinha procurando (Mat. 11:2 ss). Porém, não há razão alguma para supormos daí que nunca houve qualquer reversão nessa dúvida de João. Todos nós experimentamos instantes de dúvida e desencorajamento; e João Batista, afinal de contas, era apenas um homem. Seja como for, é significativo que João Batista e Jesus efetuaram ministérios paralelos, embora distintamente separados. Nunca houve uma completa unificação dos dois esforços, mesmo depois que o cristianismo já estava bem firmado. Porém, sabemos, com base nos registros históricos, que muitos seguidores de João Batista bandearam-se para Jesus, e que o próprio João encorajou isso. Tanto Jesus quanto João reivindicavam autoridade divina para suas respectivas missões, e afirmavam outro tanto um acerca do outro (Mat. 21:23-27).

    6. João Batista e Jesus

    Sabe-se que alguns dos primeiros discipulos de Jesus vieram do círculo dos discípulos do Batista (João 1:35 ss), embora o movimento resultante da missão de João Batista tivesse continuado por muito tempo depois dos primórdios do cristianismo. Alguns estudiosos crêem que tanto João Batista quanto Jesus
    estiveram ligados aos essênios, pelo que teriam conexão e amizade antes do ministério público de um e de outro. Como primos em algum grau. também
    pode ter havido alguma forma de contato doméstico social entre eles, antes de iniciarem seus respectivos ministérios públicos. A história tem ocultado essas
    coisas de nós;

    7. Seguidores de João Batista

    a.. João tinha seguidores que formavam um movimento espiritual crescente, antes mesmo do começo do ministério público de Jesus. O primeiro capítulo do evangelho de João mostra-nos isso.

    b. Quando Jesus iniciou o seu ministério público, pelo menos alguns dos principais discípulos de João vieram engrossar o movimento encabeçado por Jesus (João 1:35 ss).

    c. O movimento liderado por João continuou, paralelo ao de Jesus, havendo pontos de contato entre os dois movimentos (Mat. 11:2 ss).

    d. O movimento de João Batista continuou atuante, mesmo depois da morte dele, e entrou até bem dentro da era apostólica. Apolo fora discípulo de João Batista (Atos 18:24 ss). Outros discípulos de João converteram-se ao cristianismo, e assim uniram-se à Igreja primitiva (Atos 19:1-7).

    e. Os Reconhecimentos Clementinos (fim do século 11 D.e.) dão provas de algum conflito entre os posteriores seguidores de João Batista e o cristianismo. Todavia, que certeza se ‘poderia ter se as pessoas que continuaram o movimento Batista eram fiéis às suas idéias? João pode ter sido para elas uma espécie de santo patrono, e não uma figura histórica do movimento deles.

    8- Morte de João Batista

    O relato da morte do Batista é contado em Mar.6:17-29. Essa é a única crônica importante dos evangelhos que não gira especificamente em torno de Jesus. E isso mostra a importância que João Batista tinha para o cristianismo primitivo. E perfeitamente possível que o episódio tenha sido preservado tanto pelos discípulos de Jesus quanto pelos discípulos de João. Josefo fornece-nos outros detalhes sobre a questão, conforme observou-se acima. João, sem dúvida, foi tido como uma ameaça política para a autoridade de Herodes. A execução de João Batista, por ordem de Herodes, não se deveu meramente ao fato de que João objetava ao casamento de Herodes com sua própria cunhada, Herodias. Herodes havia encarcerado João no castelo de Marquero, na margem oriental do mar Morto. Foi então que João mandou indagar a Jesus acerca de suas reivindicações messiânicas (Mat. 11). Herodias, amargurada contra João, por achar que este interferia em sua vida particular, foi a mola que levou Herodes a mandar executar o Batista e, sem dúvida, ela ficou muito satisfeita em ver-se livre daquele empecilho. Herodes, por sua vez, sabia que João era homem reto (Mar. 6:20). Não fizera ainda qualquer violência contra ele, por saber que ele era tão estimado pelo povo comum, e não queria se arriscar a provocar qualquer revolta popular (Mar. 6:20). Porém, Herodias acabou ganhando a parada; e podemos ter a certeza de que Herodes não tentou entravar a vontade dela. Herodias exigiu a cabeça de João Batista como prêmio pela dança tão aplaudida de sua filha. A jovem muito agradara a Herodes e aos convivas meio a1coolizados, que participavam de sua festa de aniversário natalício. Herodes mandou um executor cortar a cabeça de João Batista. E a cabeça de João foi exposta ao público. Quando os discípulos de João souberam o que havia acontecido, obtiveram o seu cadáver e o sepultaram. Em seguida, foram informar Jesus e seus discípulos sobre o que acontecera (Mat, 14:3-12; Mar. 6:17-29). E a noticia teve um profundo efeito sobre o Senhor Jesus. Ao ouvir sobre o acontecido, ele se retirou para a Galiléia, talvez sentindo o perigo contra si mesmo e contra os seus discípulos (Mat. 4: 12). E, sabedor da execução de João, retirou-se para um lugar solitário (Mat. 14:3), sem dúvida a fim de orar e meditar, para meditar  sobre o que faria em seguida, sob aquelas novas circunstancias.

     

    Bibliografia: AM GEY KR KU ND RO(1912) UN.

     

     

     

     

  • Lição 3 – A ignorância de uma geração

    Texto Áureo

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    “E foi também congregada toda aquela geração a seus pais, e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco a obra que fizera a Israel”. Jz 2.10

    Verdade Aplicada

    Toda a geração que desprezar o ensino da vontade do Senhor estará escravizada por uma su­til vã maneira de viver, ficando a mercê do servilismo alheio como aconteceu aos filhos de Israel.

    ISRAEL NO PERÍODO DOS JUÍZES

    Introdução ao período (2:6 – 3:6)

    2:6-10. A morte de Josué. Estes versículos têm seu paralelo em Josué 24:28-31, o que vem fortalecer a opinião, de que 1:1-2:5 provém de fonte separada, que possivelmente foi uti­lizada pelo editor original como pano de fundo da principal porção deste livro. Esta seção, em Josué, conclui o livro, como também o relato da conquista; aqui, porém, esse material introduz o período dos juízes. Todas as pequenas diferenças são explicáveis mantendo-se este fato em mente. Por exemplo, no vers. 7, o adjetivo grandes qualifica as grandes obras feitas pelo Senhor, mas isto não é encontrado em Josué 24:31. A adição é significativa, visto que a apostasia do período dos juízes e muito mais repreensível quando vista através das grandes obras feitas pelo Senhor. Grandes privilégios envolvem grandes responsabilidades.

    O versículo 6 nos ajuda a entender a natureza da conquista. As campanhas unificadas sob o comando de Josué haviam quebrado a coluna dorsal da resistência cananéia, contudo, grande parte da obra de con­quista local havia sido atribuída às tribos individuais. Desse modo, após a cerimônia da renovação da aliança, em Siquém, as tribos des­pedidas por Josué trataram de completar a ocupação dos territórios que lhes haviam sido alocados. Josué 23, que data do período quando Josué era “já velho e entrado em dias” isto é, aproximadamente do mesmo período do capítulo 24, torna claro que as tribos tinham muita batalha pela frente, batalha ferrenha, antes que se pudesse dizer que a terra havia sido conquistada. Alguns problemas associados com a conquista tornam-se menos difíceis quando se mantém em mente que houve estas duas fases.

    Revela-se a influência de Josué na lealdade de Israel ao Senhor durante sua vida, bem como dos anciões ligados a ele. No registro bíblico dá-se ênfase às virtudes e façanhas militares de Josué. Sublinhando tudo isto, contudo, havia obviamente a profunda lealdade ao Senhor, e a integridade de conduta parecida com a de seu grande antecessor, Moisés. Josué, bem como todos os verdadeiros homens de Deus, de todas as eras, constituem o sal da terra, que evita a corrup­ção e assegura a pureza. Mas, cada nova geração deve empenhar-se em sua própria experiência religiosa; não pode continuar na força espiritual de seus heróis do passado. É bem claro que o paganismo nunca esteve longe do povo de Deus durante este período primitivo da história de Israel; e quando Josué e seus companheiros morreram, a nova geração não partilhou de sua fé, nem de sua lembrança dos grandes livramentos que Deus lhes trouxera (2:10).

    Na introdução, sugere-se que o período de Josué e dos anciões que lhe sobreviveram foi de 30 anos. Isto deve ser considerado como mínimo, porque Josué, que morreu aos 110 anos de idade, era jovem à época do êxodo (cf. Êx 33:11). Ele é descrito, aqui, como servo do Senhor (8), designação frequentemente atribuída a Moisés e aplicada, também, a outros importantes líderes da história de Israel, como Davi e os profetas. Implica em vocação para uma missão especial. Não há posição mais elevada, nem mais honrosa, do que a de fiel servo do Senhor (cf. Hb 3:5). Timnate-Heres (9) deve-se ler “Timnate-Sera”, como em Josué 19:50; 24:30; algum escriba obviamente inverteu as consoantes (no hebraico). O local do sepultamento de Josué foi iden­tificado com razoável segurança como sendo a moderna Tibne, a 16 quilômetros a noroeste de Betel.

    2:11-19. O julgamento de Deus sobre a apostasia de Israel. Sumariza-se aqui a história de quase dois séculos, indicando os princípios que regem o relacionamento de Deus com Israel. Durante este pe­ríodo houve um ciclo repetitivo de quatro fases: apostasia, servidão, súplica e livramento. Este é o padrão ilustrado nos capítulos seguin­tes. A nação abandonou o Senhor, crime que envolvia a deslealdade a seus antepassados e esquecimento voluntário das poderosas obras que o Senhor realizara em seu benefício, especialmente o livramento do Egito. Todas as comprovações de suas tradições deveriam ter asse­gurado a fidelidade do povo, mas, ao contrário, voltaram-se para os deuses dos povos no meio dos quais haviam chegado, cuja religião parecia estar mais diretamente voltada para a prosperidade do povo.

    13. Baal filho de El, no panteão cananeu, era o deus das tempestades e das chuvas, sendo, portanto, o controlador da vegetação. Ele era o grande deus ativo, sendo El uma figura um tanto nebulosa; o culto a Baal era largamente difundido no Antigo Oriente Próximo. Notam-se algumas variantes no Velho Testamento como, por exemplo, Baal-Berite (Jz 9:4), Baal-Peor (Nm 25:3), Baal-Gade (Js 11:17), e Baal-Zebube, ou mais provavelmente Baal-Zebul (2 Rs 1:2). Jezabel intro­duziu em Israel o culto a Baal-Melcarte, a variedade fenícia. Hadade era o nome sírio correspondente ao Baal cananita. É por essa razão que os escritores do Velho Testamento agrupam as várias entidades de Baal, um tanto desdenhosamente, sob o nome de Baalim, a forma do plural. O fato de que Baalim também pode significar “maridos”, “proprietários” ou “senhores” dá mais vida à metáfora do adultério (cf. vers. 17), empregada tão frequentemente pelos profetas (por ex.: Os 2:1ss.; 3:1s.; Jr 3:6ss., etc.).

    Astarote, consorte de Baal, é a forma do plural de Astarte, deusa da guerra e da fertilidade, que era adorada como Istar, na Babilônia, e como Anate, no norte da Síria. Nos textos ugaríticos, Anate, com frequência denominada de “virgem”, é irmã de Baal, e grande deusa ativa. Há uma certa fluidez no inter-relacionamento entre os deuses da natureza no Crescente Fértil. A religião destes deuses da fertili­dade era acompanhada por todos os tipos de práticas lascivas, espe­cialmente em Canaã, onde tal religião era tão degradada que incor­porava até sacrifícios de crianças.

    14, 15. O fracasso de Israel em exterminar os cananeus automatica­mente redundou na adoração contínua aos seus deuses. Assim, a na­ção que havia derrotado os soldados da terra, em batalha, sucumbiu às influências débeis dos deuses da terra. O historiador, entretanto, estava profundamente cônscio de que os deuses da terra não tinham existência real, exceto na imaginação de seus adoradores. Só Deus era deus, cuja tristeza soberana diante da infidelidade de Israel era demonstrada na maneira como usava as nações circunvizinhas como vara de punição para Seu próprio povo. Israel era oprimido, escra­vizado e enfraquecido e, mediante a operação da lei de causa e efeito (a exaustão de sua força espiritual pelo culto sensual a Baal se fazia acompanhar de um declínio correspondente em sua vitalidade física e moral), a nação afundava em profunda angústia. O abandono do Senhor da parte deles teve outra consequência: visto que os laços que uniam a nação eram, primordialmente, laços religiosos, derivados da aliança e expressos na adoração no santuário anfictiônico, o enfraque­cimento desses laços conduziu ao enfraquecimento de sua unidade na­cional, ficando o povo desorganizado e dividido.

    16. Não há menção categórica, aqui, de que em sua angústia, os israe­litas se voltaram para o Deus a quem haviam abandonado. Contudo, a regularidade com que isto é observado subsequentemente (3:9, etc.), permite-nos presumir que aqui houve esta volta. Quando a nação clamava ao Senhor, Ele, em Sua misericórdia e magnanimidade, levan­tava juízes para libertá-los de seus opressores. Já observamos que estes homens eram considerados como tendo recebido poderes sobrenaturais da parte de Deus, os quais eram manifestos no livramento do povo e subsequente governo que estabeleciam. Contu­do, até mesmo a influência desses juízes era de pouca duração. Os israelitas tinham memória curta e, quando a crise era debelada, esque­ciam-se tanto da miséria anterior como do estado de arrependimento temporário a que tinham sido induzidos por ela. A “volta ao Senhor” era, pois, um expediente superficial. É possível que todos nos lem­bremos de algo semelhante em nossa própria época, quer na vida da nação (lembremo-nos dos dias de oração nacional, durante as guerras mundiais deste século), quer em nossa própria vida pessoal. Como é fácil usar-se o Deus Todo-Poderoso como se fora corpo de bom­beiros, ou pronto-socorro! A gratidão pelo livramento, tanto do antigo Israel como do Israel espiritual de hoje, deve expressar-se em dedica­ção permanente da vida (cf. Rm 12:1 ss.).

    17. Havia obediência imperfeita até mesmo nos dias dos próprios juízes, atitude esta denominada adultério espiritual: “. . . antes se pros­tituíram após outros deuses, e os adoraram.” Israel, chamado para ser a noiva do Senhor, abandonou-O para seguir seus amantes, isto é, os deuses da fertilidade de Canaã. Esta vivida ilustração da aliança violada do casamento provê o pano de fundo para o livro inteiro do profeta do oitavo século, a Israel, Oséias, e é aplicada por Jeremias, também, quanto à situação desesperadora de Judá, um século e meio mais tarde (Jr 3:1ss.).

    18. Revela-se uma deterioração progressiva, em que cada ciclo suces­sivo se caracteriza por uma caída mais profunda na apostasia e cor­rupção, e por um arrependimento mais superficial do que no ciclo anterior. Tal processo está em harmonia consistente com nossa com­preensão moderna da psicologia do homem. A terminologia muda com o passar dos anos, contudo, os vislumbres profundos do interior da natureza humana, que o Velho Testamento nos proporciona, não podem ser negados. A voz da consciência pode ser abafada pelos su­cessivos atos pecaminosos, e o arrependimento pode tornar-se mais e mais superficial, até a pessoa ver-se enredada por um mau caráter, formado por uma enormidade de maus pensamentos e más ações, de tal forma que é necessário um milagre, para produzir-se um arrepen­dimento genuíno, e uma busca verdadeiramente sincera do Senhor, de todo o coração.

    2:20-23. Os resultados da apostasia contínua. A obrigação de Israel, dentro da aliança sinaítica, era a de prestar lealdade e obediência cegas ao Senhor, que havia feito maravilhas pelo Seu povo. Isto jamais poderia ser considerado oneroso, em vista de seu relacionamento singular com seu Deus-Salvador (Dt 4:32-40), que havia cumprido Sua parte do contrato, ao cumprir a promessa feita aos patriarcas com respeito à Terra Prometida. A desobediência de Israel, contudo, foi seguida pela inevitável punição divina. Para o leitor moderno pode parecer um tanto incongruente que Deus deixasse os povos estrangei­ros dentro das fronteiras de Israel, como punição pela apostasia, e para testar a fidelidade futura da nação, quando a razão mesma do fracasso da nação é atribuída à incapacidade de Israel em eliminar esta população alienígena.

    Esta dificuldade não existia para o historiador israelita, cuja visão da soberania do Senhor governava todas as causas secundárias, estan­do tudo subordinado, e atribuído, diretamente à Sua vontade determinadora. Na situação que mudara, por causa da desobediência de Israel, manifesta-se, ainda, esta soberania: Permitiu-se aos cananeus que permanecessem, a fim de que se testasse de modo adequado a lealdade do povo da aliança. Este foi um exame profundo em que a nação, em geral, não conseguiu aprovação.

    3:1-6, Israel e seus vizinhos. Introduz-se, aqui, mais uma razão suplementar para a presença de consideráveis elementos estrangeiros. Não era apenas uma punição, nem apenas uma oportunidade de testar a fidelidade da nação; eles ali estavam para prover ao povo de Deus experiência na arte marcial. Estas razões não devem ser consideradas como contraditórias entre si, visto que o que ocupava a atenção do historiador sacro era o resultado global, relacionado diretamente ao Senhor, ao invés de um propósito único, dominante de tudo. Israel deveria viver num ambiente hostil, na maior parte de sua história, devido às pressões dos pequenos reinados ao redor ou, num estágio posterior, devido à sua posição estratégica entre os sucessivos poderes mundiais da Assíria, da Babilônia, da Pérsia e da Grécia, de um lado, e do Egito, do outro. O poderio militar era uma necessidade, um objetivo a ser atingido, humanamente falando, se Israel pretendesse sobreviver. Entretanto, a consecução deste poderio militar apenas ra­ramente obscureceu o fato de que a vitória não foi o resultado da força de Israel, mas da obra de Deus a seu favor (por, ex.: 2 Sm 8:6, 14).

    É provável que o historiador original incluiu as listas dos ver s. 3 e 5, O primeiro relaciona quatro nações, enquanto este último re­laciona seis, sendo os cananeus e heveus comuns a ambos, o que sugere que as duas fontes estavam disponíveis ao redator sacro, que não as comparou. Os filisteus estavam estabelecidos em seu estado composto de cinco cidades: Gaza, Ascalom, Asdode, Ecrom e Gate. A seus governadores se dá sempre a designação de seren (senhor), palavra provavelmente relacionada com o grego koiranos, ou tyrannos, o fami­liar tirano da história grega clássica. Já observamos que a ascendên­cia dos filisteus provém da região do mar Egeu. O termo cananeu às vezes designa todos os habitantes originais daquela terra, às vezes aqueles que habitavam nos vales e áreas costeiras. Os sidônios eram cananeus que habitavam a área ao redor de Sidom. Seriam chamados de fenícios, posteriormente. Sidom, nesta época primitiva, tinha maior importância do que Tiro. Os heveus usualmente são identificados com os horeus (Gn 36:2; cf. 36:20, 29), os quais estabeleceram o flores­cente reinado de Mitanni, na Mesopotâmia Superior, na metade do segundo milênio a.C., invadiram terras na direção do sudoeste, até as cordilheiras do Hermom e do Líbano, e até a tetrápolis dos gibeonitas, a noroeste de Jerusalém (Js 9:7, 17). Foram feitas duas sugestões com respeito à entrada de Hamate. Poderia significar o ponto de aces­so entre as montanhas do Líbano ao grande vale sírio, no qual Ha­mate fica, ou, como sugerem alguns eruditos contemporâneos, “Labo de Hamate”, a moderna Lebwe, a 23 quilômetros ao norte-nordeste de Baalbek. Uma identificação menos viável relaciona os heveus com a palavra hebraica para “vila de tendas”, para considerá-los uma comunidade rural. Rodeado por todos estes ele­mentos diversos, Israel seria incapaz de manter sua pureza de raça e de religião; ao invés de permanecer fiel ao Senhor, houve uma rá­pida aceitação dos deuses da natureza, daquela terra, e aceitação também das práticas corruptas a eles associadas. As resoluções e de­clarações de lealdade da parte de Israel para com seu Deus da aliança, desapareciam rapidamente sempre que confrontadas com as forças do erro e da atração sensual.

    Bibliografia A. E. Cundall

  • Lição 7 –  Autoridade da Santificação

    Lição 7 – Autoridade da Santificação

    Santidade

    Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor; Hebreus 12:14

    Introdução

    A concepção que as pessoas, tem da expressão santo nos nossos dias e muito diferente do que a Bíblia ensina, a maioria das pessoas acha que ser santo é uma pessoa que não comete pecados e que possa realizar milagres, mesmo depois de morta.

    Já a Bíblia apresenta a expressão Santo, que no original Hebraico é qadosh que significa  separado, santidade, sacralidade, posto à parte, já no grego e usado o termo hagios separado por (ou para) Deus, santo e sagrado.

    Portando Santos ou santas são pessoas separadas, para Deus que compõe a Igreja.

    Santificação

    I. Idéias Gerais

    O termo grego aqui empregado é agiasmos, que significa “consagração”, “separação”, “santificação”. Refere-se ao processo que leva o crente a tomar-se uma pessoa dedicada, santa, baseada em um início implantado quando da conversão, reconhecido diante de Deus, mas também concretizado nele, através de sua transformação moral. O alvo final é a perfeita concretização dessa santidade no indivíduo, de modo que a própria santidade de Deus Pai seja plenamente absorvida (ver Mal. 5:48 e Rom. 3:21). Somente essa forma de santidade é aceitável por Deus; todos os seres que habitam nos lugares celestiais e, portanto, todos os seres que estão próximos de Deus, devem ser santos como Deus é santo.

    A conversão e a justificação são as sementes da santificação. Pode-se perceber que a justificação, conforme os termos paulinos, realmente inclui aquele processo que se chama santificação, ainda que os reformadores protestantes, sobretudo Lutero, tenham feito clara distinção entre uma e outra doutrina, provavelmente no zelo de procurar preservar a justificação isenta de qualquer pensamento de esforço humano. Todavia, essa distinção não é paulina, pois a justificação é para a vida, e nela há comunicação de vida santa, e não apenas um “decreto forense” de Deus, que declara que o crente está “posicionalmente” perfeito em Cristo. E verdade que essa declaração forense está envolvida, mas há mais ainda envolvido. Consiste em realmente aperfeiçoar o crente, mediante a influência do Espírito Santo; isso pode ser chamado de santificação “progressiva” ou “presente”. A linha divisória entre a justificação e a santificação é muito tênue, se é que realmente existe.

    A justificação, em seu sentido pleno, toma-se real e vital na santificação, que é a operação do Espírito Santo que toma o indivíduo dedicado e santo, e que assim, finalmente, vem a tomar-se o mais santo possível.

    A “santificação” tem um aspecto passado, obtido quando da conversão; há também a santidade presente (ver GáI. 5:22,23), que vai sendo paulatinamente implantada pela ação e poder do Espírito; e há também um aspecto futuro da santificação, quando todo o resquício de pecado será tirado, quando o indivíduo se tomar finalmente participante das qualidades morais positivas de Deus, e não meramente livre da presença do pecado. E isso significa que o homem tomar-se-á tão santo como Deus, perfeito na bondade, na justiça e no amor, e esse é o alvo na direção do qual estamos sendo levados pela santificação.

    Ora, é a transformação de nossa natureza moral que produz uma transformação correspondente da natureza metafísica, a qual nos tornará participantes da própria natureza e divindade de Cristo (ver Rom. 8:29; 11 Cor. 3: 18 e 11 Ped. I :4), a saber, da “total plenitude de Deus” (ver Efé. 3: 19). Esse é o alvo culminante da santificação.

    Elementos da Santificação

    1. Separação do crente para Deus e para o seu serviço (ver Sal. 4:3).

    2. É uma realização divina (ver Eze. 37:28; I Tes. 2:23 e Jud. I), por meio de Cristo (ver Heb. 2: 11 e 13: 12), e através do Espírito Santo (ver Rom. 15: 16; I Cor. 6: 11 e I Tes. 4:8).

    3. Consiste na comunhão mística com Cristo (ver I Cor.1:2).

    4. Depende do valor da expiação pelo sangue de Cristo (ver Heb. 10:10 e 13:12).

    5. Realiza-se mediante a energia da palavra de Deus (ver João 17: 17,19 e Efé. 5:26).

    6. Cristo é o nosso mais elevado exemplo de santidade, porquanto é a nossa santificação (ver I Cor. 1:30).

    7. A eleição leva a efeito esse alto objetivo, por meio da santificação, não podendo esse alvo deixar de ser concretizado na vida do crente regenerado, visto que é um dos elos da cadeia de ouro que nos leva à glorificação (ver 11 Tes. 2: 13 e I Ped. 1:2).

    8. A igreja se tomará gloriosa por meio da santificação (ver Efé. 5:26,27).

    9. Conduz o crente à presente mortificação da natureza pecaminosa (ver I Tes. 4:3,4).

    10. Conduz o crente àquela santidade no Intimo sem o que ninguém verá a Deus (ver Rom. 6:22; Efé. 5:7-9 e Heb. 12: 14).

    11. Toma aceitável para Deus a “oferta” dos santos (ver Rom.15:16).

    12. A vontade de Deus é que os crentes sejam santos (ver I Tes. 4:3).

    13. Também é mediante a santificação que os ministros de Deus são separados para o serviço divino (ver Jer, 1:5).

    14. Devemos orar insistentemente para que os crentes participem plenamente da santificação (ver I Tes. 5:23).

    15. Sem a santificação ninguém poderá herdar o reino de Deus (ver I Cor. 6:9-11).

    Santificação Completa

    1. Biblicamente falando, isto é declarado impossível para a vida atual. Ver I João 1:8.

    2. A experiência mostra que declarações de inteira santificação são falsas.

    3. As pessoas que declaram Ter alcançado a “perfeição” sempre reduzem a definição do pecador para ter a capacidade de viver (em algum grau) suas declarações.

    4. A santificação inclui a participação positiva nas virtudes morais de Deus (Gál. 5:22,23). Deste ponto de vista, a santificação deve ser um processo infinito, eterno. Ver Efé. 3: 19 sobre a nossa participação na plenitude de Deus. A perfeição atualmente é o alvo. A perfeição de Deus sempre será o alvo de nosso viver.

    Em termos gerais, tudo isso está envolvido no processo de separação ou dedicação a um ser santo, para seu uso, para seu serviço, tanto nesta terra como nos céus, tanto no tempo como na eternidade. Deus santifica. Cristo santifica e o Espírito Santo santifica (conforme declaramos anteriormente), mas o próprio crente também se santifica, cedendo à influência divina e aplicando os meios normais de adoração e purificação, como a oração, o estudo da Palavra e a meditação, além da inquirição pelo Espírito

    Santo. Esses são “meios” que compete ao crente aplicar a si mesmo, a fim de que o Espírito Santo, por sua vez, opere sua obra santificadora. (Ver os trechos de Lev. 11:44; Jos. 7:13 e 11 Cor. 6:14-18, onde a responsabilidade da santificação é imposta ao homem.)

    A santificação consiste na transformação moral do crente segundo a imagem de Cristo. Por isso mesmo torna-se necessária a comunhão com ele, para que haja essa realização (ver I Cor. 1:4 e 11 Cor. 3: 18). As experiências espirituais específicas podem intensificar a busca e ‘fornecer vitórias especiais no terreno da santificação; mas nenhuma experiência poderá entregar tudo para nós. De fato, na qualidade de seres mortais, não somos ainda o tipo de seres que possa ter a santidade em seu sentido mais completo, conforme explanado acima. É mister que o indivíduo receba a natureza divina e esteja habitando nos lugares celestiais, antes de poder dar os passos gigantescos na direção da perfeição moral que podemos intitular de “completa santificação”. Trata-se de uma inquirição eterna, e não meramente da terra ou dos céus, como se, por ocasião da partida do crente deste mundo e de sua entrada nos lugares celestiais, tudo pudesse ser atingido automática e repentinamente.

    Pelo contrário, esse exaltado alvo está sendo atingido; e nisso consiste a própria existência do crente, nisso consiste a própria natureza da vida terrena – tornarmo-nos cada vez mais semelhantes a Deus.

    A santificação tem sido reduzida a um “sacramento”, porquanto muitos estudiosos supõem que, na Igreja Católica Romana, a santificação é conferida através da graça supostamente inerente nos sacramentos. Pelo contrário, a santificação é e sempre será “espiritual”, ou seja,

    vem através da comunhão  com o Espírito de Deus, mediante sua presença habitadora contínua. Certamente que isso não envolve um processo legalista. Não pode a santificação ser atingida mediante a observância consciente de algum código legal.

    O Alvo da Santificação

    1. A santificação tem seus primórdios originários na eleição; e uma vez que se desenvolve em realidade, ela se torna um meio da eleição.

    2. O Espírito Santo é o agente da santificação, pois afinal de contas, trata-se de uma realização divina. Requer a cooperação humana e se concretiza mediante o uso dos meios de desenvolvimento espiritual, como o amor, bem como o emprego dos dons espirituais, no cumprimento de nossas respectivas missões e na santificação.

    3. O alvo é elevadíssimo: antes de mais nada, a própria natureza santa de Deus está sendo implantada em nós (ver Dan.3:21).

    4. A perfeição de Deus é o alvo da santificação (ver Mal. 5:48). Chegaremos a participar da natureza do Pai, porquanto somos filhos de Deus e estamos sendo conduzidos à glória (ver Heb. 2: 10).

    5. A participação na natureza metafísica de Deus é o resultado da inquirição após a perfeição (ver 11 Ped. 1:4). Isso nos conferirá a plenitude divina (a natureza e os atributos de Deus), conforme se aprende em Efé. 3:19. Essa transformação é levada a efeito em conformidade com a imagem do Filho, o qual é o arquétipo da nossa salvação (ver Cal. 2: I0 e Rom, 8:29).

    Santificação envolve todo o nosso ser

    Vemos que a santificação afeta nosso intelecto e inteligência quando Paulo diz que devemos colocar-se do novo “que está sendo renovado em conhecimento, à imagem de seu Criador” (Cl 3:10).Ele ora para que os filipenses para ver seu amor “abunde mais e mais no conhecimento e bom senso” (Fl 1:9). E exorta os cristãos romanos para “transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). Embora o nosso conhecimento de Deus é mais do que conhecimento intelectual, não é certamente um componente intelectual, e Paulo diz que esse conhecimento de Deus deve aumentar sobre as nossas vidas “viver de modo digno do Senhor para o seu inteiro agrado” ( Col 1:10). A santificação dos nossos intelectos envolvem o crescimento em sabedoria e conhecimento para ser gradualmente “[tendo] cativo todo pensamento para torná-lo obediente a Cristo” (2 Coríntios 10:5) e achar que os nossos pensamentos estão recebendo os pensamentos que Deus nos ensina através da Sua Palavra.

    Além disso, o crescimento na santificação afeta nossas emoções. Veremos cada vez mais em nossas emoções da vida como “amor, alegria, paz, paciência” (Gl 5:22). Nós vemos mais e mais capaz de obedecer o comando de Pedro de longe dos “desejos pecaminosos, que a guerra contra a sua alma” (1 Pedro 2:11). Cada vez mais achar que “ele [o amor] o mundo ou qualquer coisa nele» (1 Jo 2:15), mas que nós, como nosso Salvador, regozijamo-nos a vontade de Deus. Em uma medida cada vez maior que “[vontade subject] coração” (Romanos 6:17), e abandonar as emoções negativas da “amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, juntamente com toda a malícia” (Efésios 4: 31).

    Além disso, a santificação afetar nossa vontade, o poder de tomada de decisão, porque Deus está trabalhando em nós, “é Deus quem opera em vós o querer eo fazer para obter a sua boa vontade” (Fp 2:13 .)À medida que crescem na santificação, nossa que respeitar mais e mais à boa vontade de nosso Pai celestial.

    Santificação também afetam o nosso espírito, a parte não-física de nossos seres.Devemos “[purificar] de tudo o que contamina o corpo eo espírito, aperfeiçoando o temor de Deus na obra de nossa santificação” (2 Cor 7:1), e Paulo nos diz que a preocupação com “as coisas do Senhor “leva a” dedicar-se ao Senhor em corpo e espírito “(1 Coríntios 7:34).

    Finalmente, a santificação afeta nossos corpos físicos. Paulo diz: “Que o próprio Deus, o Deus da paz, vos santifique completamente, e manter todo o seu ser-espírito, alma e corpo – irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23).Além disso, Paulo incentivou os coríntios a limpar “tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando o temor de Deus na obra de nossa santificação” (2 Coríntios 7:1, cf.1 Coríntios 7:34). Para correr mais santificados em nossos corpos, eles estão se tornando servos mais úteis de Deus, mais receptivo à vontade de Deus e os desejos do Espírito Santo (cf. 1 Coríntios 9:27).

    Nós não vamos deixar o pecado reinar em nossos corpos (Romanos 6:12), nem participar em qualquer forma de imoralidade (1 Coríntios 6:13), mas tratar o corpo com cuidado e reconhecer que eles são meios pelos quais o Espírito Santo trabalha em nossas vidas. Portanto, não ser molestado ou abusado de qualquer jeito, mas vou tentar ser útil e sensível à vontade de Deus: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que está em vós e que tenham recebido Deus? Você não é sua; foram comprados por um preço. Portanto, honrar a Deus no vosso corpo “(1 Coríntios 6:19-20).

     

     

     

     

  • Lição 6 – Autoridade do Evangelho

    Lição 6 – Autoridade do Evangelho

    evangelho

    Texto Bíblico Básico

    Romanos  1.1-6,15-17

    1- Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus.

    2- O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras,

    3 – Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne,

    4- Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor,

    5- Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome,

    6- Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.

    15- E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma.

    16- Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.

    17- Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.

    Texto Áureo

    E bem sei que, indo ter convosco, chegarei com a plenitude da bênção do evangelho de Cristo. Romanos 15:29

    Introdução

    Hoje estudaremos sobre a autoridade do Evangelho, e primeiramente devemos definir o que é Evangelho.

    Segundo o dicionário Strong ευαγγελιον euaggelionrecompensa por boas notícias ou simplesmente Boas Novas

    Neste vocábu­lo, podemos encontrar pelo menos três significações. 1) Anúncio da salvação oferecida gratuitamente por Deus, atra­vés de Jesus Cristo, a todos os que crê­em. 2) Doutrina de Cristo como se en­contra nos quatro primeiros livros do Novo Testamento. 3) Os relatos da vida, do ministério e da paixão de Cristo, registrados por Mateus, Marcos, Lucas e João.

    No Novo Testamento, as boas novas falam do reino de Deus, da mensagem de Deus aos homens, do perdão de pecados, da esperança. Nos escritos de Paulo o termo significa boas novas, especialmente em relação às igrejas; o plano de Deus para a igreja, o destino e grande privilégio da mesma, incluindo os meios de salvação, o perdia de pecados, a justificação etc…

    Portanto os Evangelhos são uma autoridade em relação a vida, missão, obra de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

    1. A boa verdade

    O Apóstolo Paulo na primeira carta aos Coríntios, no capítulo 15, nos versos 1 a 4, ensina que o evangelho que ele tinha recebido é que Cristo morreu por nossos pecados; que foi sepultado, e ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Este era o evangelho que ele tinha recebido. Muito provavelmente tinha recebido de Ananias depois que foi para Damasco, quando da sua conversão, e depois por Barnabé e os apóstolos.

    Mas quando Paulo escreve a carta aos Romanos, provavelmente da própria cidade de Coríntios, ele fala que o evangelho, que chama ousadamente de seu evangelho, vai muito mais além. Ele diz que no evangelho é revelada de fé em fé a justiça de Deus (Rom. 1.17). E ele mesmo diz que os cristãos que estavam em Roma, necessitavam conhecer todo o evangelho em Cristo Jesus. Que eles também como Paulo só tinham recebido uma parte deste evangelho, e que todo o evangelho agora era dado a conhecer para a obediência da fé (Rom. 16.26).

    Até o capítulo 5 da carta aos Romanos, Paulo fala mais uma vez sobre aquilo que eles já tinham recebido: a justificação pela fé. Mas a justificação é para levar o homem à glorificação, isto é, ser conformado à imagem de seu Filho: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” Romanos 8.29-30.

    Este é o propósito eterno de Deus, de nos conformar à imagem do seu Filho. Mas da justificação para a glorificação existe a santificação. No capítulo 5 de Romanos o apóstolo Paulo usa por 4 vezes a expressão “muito mais”. Ele queria nos compartilhar que no evangelho em Cristo havia muito mais que apenas uma justiça através da fé no sangue. Que a graça tinha sido abundante no perdão dos nossos pecados, mas que ela tinha ido muito além do perdão, tinha sido superabundante.

    Tinha também alcançado uma libertação da escravidão do pecado. No capítulo 6 Paulo entra na santificação pelo sacrifício de Cristo na cruz. Até o capítulo 5 Paulo trata da justificação pela fé, mas a partir do capítulo 6, já não é somente fé, mas também virtude e conhecimento.

    A graça não se mostraria mais abundante se continuasse apenas perdoando pecados, mas ela se mostrou mais abundante nos libertando do pecado e de sua escravidão: “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado como escravos” Romanos 6.6. A Palavra da cruz é poder de Deus para os que já são salvos (I Cor. 1.18). Cristo morreu e ressuscitou e nós fomos unidos, plantados em sua morte e ressurreição (Rom. 6.5), para que mortos para os pecados pudéssemos viver para a justiça (I Pd. 2.24, Gál. 2.19).

    Paulo em Romanos 6 entra no evangelho no que diz respeito à santificação. Cremos que fomos perdoados dos nossos pecados pelo sangue, agora temos que crer que morremos para o pecado, que estamos livres do velho homem e da escravidão do pecado. Que agora libertos do pecado fomos feitos servos da justiça (Rom. 6.18). Que como Cristo morreu e ressuscitou, e já não morre mais, a morte não mais tem domínio sobre ele. Pois quanto a ter morrido, de uma vez por todas morreu para o pecado, mas quanto a viver, vive para Deus; assim também nós devemos nos considerar mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus. Agora devemos oferecer os nossos membros como instrumentos de justiça a Deus e não mais ao pecado. Portanto, devemos reinar sobre o pecado, e não o pecado reinar sobre nós, para obedecermos às suas concupiscências (Rom. 6.8-12). Reinar em vida por um só: Jesus Cristo (Rom. 5.17). Uma vez que morremos e ressuscitamos com Cristo, com Ele viveremos. Ainda que permanecemos num corpo de morte, o pecado não reina mais. Quem reina é Jesus Cristo.

    Agora libertos do pecado, e feitos servos de Deus, temos que ter o nosso fruto para a santificação e por fim a vida eterna. Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor (Rom. 6.22-23). Agora não é somente fé no sangue de Cristo para perdão, mas fé e obediência à forma de doutrina a que temos sido entregues, para a santificação (Rom. 6.17). Antes não tínhamos escolha porque éramos escravos do pecado. Mas agora crendo que estamos libertos do pecado por Cristo na cruz, devemos agora apresentar os nossos membros não mais ao pecado como instrumentos de iniquidade, mas como quem ressuscitou com Cristo em novidade de vida.

    Oferecer agora os nossos membros como instrumentos de justiça a Deus (Rom. 6.9-13). Paulo diz: “Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum” Romanos 6.1-2a. A graça é maravilhosa nos perdoando os pecados, mas ela só se mostra mais abundante libertando do pecado. Onde abundou o pecado, superabundou a graça, para que, assim como o pecado veio a reinar na morte, assim também viesse a reinar a graça pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.

    A morte reinou trazendo escravidão, mas agora a graça reina, trazendo perdão e libertação (Rom. 5.20-21). O perdão dos pecados já era dado no sacrifício dos animais na velha aliança, mas aqueles sacrifícios nunca podiam aperfeiçoar os que se achegavam a Deus (Heb. 10.1). Neste período a morte reinava e reinou até Cristo. Mas como os filhos são participantes de carne e sangue, Jesus também participou das mesmas coisas, para que pela morte, derrotasse aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e livrasse todos aqueles que com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão (Heb. 2.14-15).

    Jesus derrotou aquele que tinha o império da morte, e agora Deus nos transportou daquele império, para o reino do Filho do seu amor (Col.1.13). Agora não estamos mais debaixo daquele poder da morte, mas do poder de uma vida indissolúvel. Fomos de novos gerados não de semente corruptível, que se corrompe pelo poder do pecado, mas de incorruptível, pela Palavra de Deus que é viva e permanece para sempre. Se é que temos purificado as nossas almas na obediência à verdade (I Pd. 1.22-23). Uma vez justificados pela fé não podemos mais viver no pecado e esperar que a graça nos sustente. De modo nenhum. A graça é muito mais abundante. Ela não só nos perdoou, como também nos libertou do poder do pecado. Uma vez que estamos libertos do pecado, não podemos mais viver em suas concupiscências, mas como filhos amados, ser santos assim como Ele é santo (I Pd. 1.16). Seguindo a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Heb. 12.14).

    Uma vez justificados pela fé, e em paz com Deus, temos que crescer na santificação, porque esta é a vontade de Deus. Porque Deus não nos chamou para a imundícia, mas para a santificação. Portanto, quem rejeita isto não rejeita o homem, mas sim a Deus, que nos deu o seu Espírito Santo (I Tess. 4.3, 7-8). Temos recebido um reino que não pode ser abalado, por isso, devemos reter a graça, crescer e esperar inteiramente nela, e servir a Deus agradavelmente, com reverência e santo temor; pois o nosso Deus é um fogo consumidor(Heb., 12.28-29).

    A justificação e a santificação nos levarão a glorificação, porque Jesus tomará para si mesmo uma igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, mas santa e irrepreensível. Foi por isso que Ele morreu por ela e agora a está santificando pela lavagem da água pela Palavra. Tudo isto já temos em Cristo, porque Ele mesmo disse: Tudo está consumado.

    Mas para os que são santos, os que foram santificados em Cristo (I Cor. 1.2), é necessário ser santificado ainda (Apoc. 22.11); santificados na verdade (Jo. 17.17). Este é o mandamento do Deus eterno, dado a conhecer a todas as nações para obediência da fé (Rom. 16.26).

    O Evangelho nos dias de Hoje

    O evangelho que está em voga hoje em dia oferece uma falsa esperança aos pecadores. Promete-lhes que terão a vida eterna apesar de continuarem a viver em rebeldia contra Deus. Na verdade, encoraja as pessoas a reivindicarem Jesus como Salvador, mas podendo deixar para mais tarde o compromisso de obedecê-Lo como Senhor. Promete livramento do inferno mas não necessariamente libertação

    da iniquidade. Oferece uma  falsa segurança  às pessoas que folgam nos pecados da carne e desprezam o caminho da santidade. Ao fazer separação entre fé e fidelidade,deixa a impressão de que a aquiescência intelectual é tão válida quanto a obediência de todo coração à verdade. Dessa forma, as boas novas de Cr isto deram lugar às más novas  de uma  fé  fácil e  traiçoeira, que não faz  qualquer exigência moral para a vida dos pecadores. Não se trata da mesma mensagem proclamada por Jesus!

    Este novo evangelho tem  produzido uma  geração de  cristãos professos cujo comportamento raramente se distingue da rebeldia em que vive o não-regenerado. Estatísticas recentes revelam que 1.6 bilhão da população da terra são considerados cristãos. Uma bem conhecida pesquisa de opinião pública indicou que quase um terço de todos os norte-americanos  se declaram nascidos de  novo. Tais números, com  certeza, representam milhões de  pessoas  que  estão tragicamente enganadas. O que eles têm é uma falsa garantia, passível de condenação eterna.

    O testemunho da igreja para o mundo tem sido sacrificado no altar da graça barata. Formas chocantes de imoralidade aberta têm se tornado coisa trivial entre professos cristãos. E por que não? A promessa de vida eterna, sem uma rendição à autoridade divina, alimenta a mesquinhez do coração  não-regenerado.

    Os  entusiásticos convertidos a este novo evangelho crêem que o seu comportamento nada tem a ver com o seu status espiritual — mesmo que permaneçam libertinamente apegados aos tipos mais grosseiros de pecado e de formas de depravação humana.

    Parece que a igreja de nossa geração será lembrada principalmente por causa de uma série de escândalos horripilantes que trouxeram a público as mais indecentes exibições de depravação na vida de alguns dos mais populares televangelistas. E o pior de tudo é a dolorosa consciência de que muitos cristãos olham para esses homens como parte do rebanho,  e não  como  lobos e  falsos  profetas  que  se imiscuíram entre as ovelhas (Mt 7.15). Por que deveríamos crer que pessoas que vivem na prática do adultério, fornicação, homossexualismo, fraude, e todo tipo de intemperança são nascidas de novo?

    O  que  se  precisa  é  de  um  completo  reexame  do  que  seja  o evangelho. Temos de voltar ao fundamento de todo o ensino neotestamentário sobre a salvação — ao evangelho proclamado por Jesus. Penso que muitos ficarão  surpresos ao  descobrir como a mensagem de  Jesus é  radicalmente diferente daquela  que por ventura  tenham aprendido

    Esboço do Verdadeiro Evangelho

    1. Ele ensina a Adoração
    2. Ele salva Pecadores
    3. Ele cura os enfermos
    4. Ele desafia as Pessoa
    5. Ele Busca e Salva o Perdido
    6. Ele Condena um Coração Endurecido
    7. Ele Oferece um Jugo Suave
    8. Ele Chama ao Arrependimento
    9. Ele Mostra Natureza da Fé Verdadeira
    10. Ele Ensina o Caminho da Salvação
    11. Ele Dá a Certeza da Vida ou do Juizo Eterno
    12. Ele Auxilia no Discipulado
    13. Ele Mostra o Senhorio de Cristo

     

     

     

  • Lição 5 – Autoridade das Escrituras

    Lição 5 – Autoridade das Escrituras

    ensino cristão

    John R. Higgins – Historicamente, a Igreja Cristã tem reconhecido a auto­ridade das Escrituras nas questões de fé e prática. Isto não quer dizer que não tem havido, e não continua a haver, rivais quanto à reivindicação de plena autoridade feita pela Bíblia. Esses rivais tendem a subordinar, ou qualificar, a autoridade das Escrituras, ou mesmo igualar-se a ela. O primeiro rival foi a tradição oral. Lado a lado com a Palavra escrita, circulavam amplamente histórias e ensinos religio­sos. A transmissão oral, todavia, independentemente de qual seja o tópico, acha-se sujeita à alteração, ao desenvolvimen­to, às mudanças e à distorção. As Escrituras forneciam um padrão, um ponto de referência, para a palavra oral. Por isso, estando a tradição oral de acordo com as Escrituras, reflete a autoridade delas; quando, porém, se desvia da Palavra escri­ta, a sua autoridade desaparece.

    O segundo rival, quanto à autoridade religiosa, é a Igreja. Os católicos romanos sustentam essa autoridade por ter sido a Igreja divinamente estabelecida por Cristo; e por já procla­mar o Evangelho antes de este haver sido registrado por escrito. Os católicos romanos alegam, também, que a Igreja foi a instituição que produziu as Escrituras do Novo Testa­mento e que, em certo sentido, estabeleceu o cânon das Escrituras. Na prática, a Igreja Católica coloca-se acima das Escrituras. Embora originalmente sustentasse a supremacia das Escrituras, já nos tempos da Reforma, a Santa Sé tinha exaltado suas tradições até ao nível das Escrituras. De modo ainda mais significante, a Igreja Católica insistia poderem os ensinos da Bíblia ser mediados, corretamente, através da hierarquia eclesiástica. De modo sutil, a Igreja Romana ha­via usurpado a autoridade das Escrituras, atribuindo-a aos seus próprios ensinos internos. Como consequência, o lema dos reformadores protestantes passou a ser Sola Scriptura (Somente a Escritura). A Bíblia, outorgada por Deus, fala com a autoridade de Deus, diretamente ao indivíduo. “Não precisa de Papas nem de Concílios para informar-nos o seu real sentido, como se falassem em nome de Deus; a Bíblia pode até mesmo desafiar os pronunciamentos de Papas e Concílios, condená-los como ímpios e falsos, e exigir que os fiéis se apartem deles”. 60

    Os credos, as confissões e outros padrões esclesiásticos de doutrina, às vezes chegam, consciente ou inconscientemente, a rivalizar com a autoridade das Escrituras. No decurso da história, igrejas e líderes têm se pronunciado (e com razão) a respeito de questões importantes da vida e da doutrina cris­tãs. Pessoas piedosas, grandemente usadas por Deus, têm labutado para definir padrões de doutrina e comportamento cristãos, visando refletir a atitude e a vontade de Deus. Repetidas vezes, houve apelo a esses documentos na busca de orientação autorizada. Mas sem dúvida, os escritores seri­am os primeiros a reconhecer serem as obras falíveis e passí­veis de revisão, embora se reconheça facilmente a erudição bíblica relevante por detrás desses importantes escritos. Além disso, todos os grandes credos da Igreja reconhecem a plena autoridade da Escritura. Os esforços piedosos merecem a nossa estima. Deus os tem usado para a sua glória. Devem, contudo, ser conservados dentro do seu relacionamento apro­priado com as Escrituras. Permitir que se rivalizem com a autoridade bíblica destruirá seu próprio valor normativo, e rebaixará a Palavra de Deus que tanto desejam honrar. O reconhecimento da autoridade incomparável das Escrituras estabelece o valor dos credos e confissões.

    A autoridade da Escritura também tem sido desafiada por aquilo que alguns estimam como a autoridade do encon­tro pessoal que o indivíduo tem com Deus. Isto é: o encontro supremo entre a pessoa e o Verbo Vivo, e não com a Palavra Escrita. Os que sustentam tal opinião dizem que a Bíblia pode ser usada para ajudar a levar a efeito semelhante en­contro; a Bíblia, porém, “não tem autoridade por si só mas, sim, em virtude do Deus de quem dá testemunho e fala nas suas páginas”.61 Os teólogos existencialistas acreditam que, mediante um encontro com Deus, “a Bíblia deve tornar-se repetidas vezes a sua Palavra para nós”.62

    É verdade que a autoridade do cristão é mais do que papel e tinta, mas “a revelação proposicional de Deus não pode ser distinguida da auto-revelação divina”.63 Nenhum encontro autoritativo com Deus supera a autoridade de sua Palavra escrita. Doutra forma: a “experiência de Deus” dos místicos hindus, ou de quem usa drogas psicotrópicas, poderia reivindicar igual autoridade. A validez de nosso encontro com Deus é determinada pela autoridade das Escrituras que o revelam. Todas as experiências pessoais devem ser averi­guadas e avaliadas pelas Escrituras.

    Até mesmo o Espírito Santo tem sido considerado por alguns como um rival da autoridade bíblica. O Dr. Martyn Lloyd-Jones entende que o pentecostalismo e o catolicis­mo romano ficam em extremos opostos nas áreas tais como a estrutura e a hierarquia, mas são muito semelhan­tes na ênfase que dão à autoridade. O catolicismo enfatiza a autoridade da Igreja, ao passo que alguns pentecostais parecem realçar a autoridade do Espírito acima da autori­dade da Palavra.64 Erickson cita uma pesquisa de opinião pública feita pela Gallup, em 1979, que revelou que não eram poucas as pessoas que, entre 18 e 29 anos de idade, haviam escolhido o Espírito Santo, ao invés da Bíblia, como sua autoridade religiosa principal.65 Alguns enaltecem uma “impressão direta” do Espírito Santo, ou uma mani­festação do Espírito, tal como a profecia, acima da Pala­vra escrita.66 O Espírito Santo é aquele que inspirou a Palavra e que lhe concede autoridade. Ele nada falará contrário àquilo que a Palavra inspirada declara, e nada além disso.

    As reivindicações quanto à autoridade religiosa são en­grossadas pelas fileiras das religiões e seitas. Deve-se crer em Jesus mais do que em Sun Myung Moon? O Corão tem autoridade igual à da Bíblia? Uma palavra profética, hoje, tem a mesma autoridade das Escrituras? Essas e outras per­guntas fazem com que seja essencial considerarmos as evi­dências da autoridade bíblica. Virtualmente todas as religi­ões têm suas escrituras sagradas. Embora muitas delas conte­nham ensinamentos morais dignos, o Cristianismo tem sus­tentado historicamente ser a Bíblia a única e exclusiva Pala­vra de Deus.

     

    Evidências da Autenticidade das Escrituras

    Os parágrafos que se seguem, apresentam algumas das evidências em favor da identidade da Bíblia como a Palavra de Deus.

    Apoio interno. É legítimo procurar a origem e o caráter de uma obra escrita por meio do exame de seu conteúdo. A Bíblia fornece um testemunho interno convincente de sua autoridade incomparável como a mensagem da parte de Deus. “E a evidência interna positiva de sua origem divina que dá poder e autoridade às reivindicações da Bíblia”. 67

    A Bíblia revela unidade e consistência espantosas quanto ao seu conteúdo, levando-se em conta a grande diversidade havida na sua composição. Foi escrita no decurso de um período de quinze séculos por mais de quarenta autores provenientes de várias classes sociais – políticos, pescadores, agricultores, médicos, reis, soldados e outro. Escreveram eles em diferentes locais (no deserto, no palácio, na prisão) e em várias circunstâncias (na guerra, no exílio, nas viagens). Alguns escreveram história; outros, leis; e ainda outros, poe­sia. Os gêneros literários variam entre alegoria, biografia e correspondência pessoal. Todos tinham os seus antecedente, experiências, virtudes e fraquezas pessoais. Escreveram em continentes diferentes, em três idiomas distintos, e trataram de centenas de temas. Mesmo assim, os seus escritos combi­nam-se entre si para formar um todo consistente que desdo­bra, de modo belíssimo, na história do relacionamento entre Deus e a humanidade. “Não é uma unidade superficial, mas profunda… Quanto mais profundamente a estudamos, mais completa essa unidade se nos revela”. 68

    Josh McDowell conta interessante história que compara a Bíblia com os Grandes Livros do Mundo Ocidental. Posto que o conjunto de livros consista na obra de muitos autores diferentes, o vendedor da coletânea reconhece que não ofe­rece nenhuma “unidade”, mas uma mera “conglomeração”. 69 “A Bíblia não é simplesmente uma antologia; há nela uma unidade que harmoniza todo o conjunto. Uma antologia é compilada por um antólogo, mas nenhum antólogo compi­lou a Bíblia”.70 Semelhante unidade extraordinária pode ser mais plausivelmente explicada como o resultado da revela­ção outorgada por um só Deus.71

    A Bíblia, correlacionada com a natureza complexa do ser humano, lida com todas as áreas essenciais de nossa vida. À medida que uma pessoa lê a Bíblia, esta, por sua vez, lê a pessoa. Embora escrita há muitos séculos, fala dinamicamen-

    te às necessidades de cada geração. É a voz de Deus que a penetra até ao próprio âmago de nosso ser, e oferece respos­tas plausíveis às perguntas mais importantes (Hb 4.12,13). A Palavra de Deus dirige continuamente o leitor em direção a Deus como a fonte originária da relevância e do propósito para si mesmo e para o seu mundo. Para quem acolhe a sua mensagem, a Palavra tem poder de transformação. Cria fé no coração, e leva-nos a um encontro dinâmico com o Deus vivo (Rm 10.17).

    As Escrituras expõem um padrão de ética que supera em muito o que seria esperado de homens e mulheres comuns. Conclama a pessoa a uma moralidade que supera a nossa medida de justiça. “Cada um desses escritos… apresenta ideias morais e religiosas muito adiantadas para a época em que surgiram, e tais ideias continuam orientando o mun­do”.72 A Bíblia lida, com franqueza, com os fracassos huma­nos e com o problema do pecado. Seu sistema ético é com­preensivo, pois inclui todas as áreas da vida. O alvo da ética bíblica não é meramente o que a pessoa faz, mas o que a pessoa é. Aderir a um código exterior está aquém da exigên­cia que a Bíblia faz: a bondade no íntimo (1 Sm 16.7; Mt 5; 15.8). Mas tanto o nosso fracasso moral quanto a nossa redenção são entendidos somente em termos de nosso rela­cionamento com um Deus santo. Através da Bíblia, Deus — nos chama, não a uma simples melhoria, mas à transforma­ção, para nos tornarmos novas criaturas em Cristo (2 Co 5.17; Ef 4.20-24).

    As profecias que falam dos eventos futuros (em vários casos, muitos séculos antes) permeiam as Escrituras. A exa­tidão dessas predições, conforme o demonstra seus respecti­vos cumprimentos, é realmente notável. Dezenas de profeci­as dizem respeito a Israel e às nações em seu redor. Por exemplo: Jerusalém e o seu templo seriam reedificados (Is 44-28); e Judá, embora salva dos assírios, cairia nas mãos de Babilônia (Is 39.6; Jr 25.9-12). O restaurador de Judá, Ciro da Pérsia, é mencionado pelo nome mais de cem anos antes de seu nascimento (Is 44.28).73 A Bíblia contém centenas de profecias feitas séculos antes dos próprios eventos.74 Entre elas, há predições acerca do nascimento virginal de Cristo (Is 7.14; Mt 1.23), do local de seu nascimento (Mq 5.2; Mt 2.6), da maneira de sua morte (SI 22.16; Jo 19.36), e do local de seu sepultamento (Is 53.9; Mt 25.57-60). 75

    Alguns críticos têm procurado, através da atribuição de novas datas aos livros do Antigo Testamento, minimizar o milagre preditivo das profecias bíblicas. Mesmo se concor­dássemos com as datas menos antigas, as profecias ainda teriam sido escritas centenas de anos antes do nascimento de Cristo. (Posto que a tradução da Septuaginta [LXX] das Escrituras Hebraicas foi completada cerca de 250 a.C, as profecias nela contidas teriam sido, forçosamente, compos­tas antes dessa data).

    Alguns têm sugerido que as profecias não predisseram a atividades de Jesus, mas que o próprio Jesus agiu deliberada­mente para cumprir o que fora dito no Antigo Testamento. Muitas das predições específicas, porém, estavam além do controle ou manipulação humanos. E os cumprimentos das predições não eram meras coincidências, levando-se em conta o número significativo das pessoas e eventos envolvidos. Peter Stoner examinou oito das predições a respeito de Je­sus, concluindo que, na vida de uma só pessoa, a probabili­dade de elas se coincidirem era de 1 e 1017 (1 em 100.000.000.000.000.000).76 A única explicação racional de tantas predições exatas, específicas, a longo prazo, é que o Deus onisciente, soberano sobre a história, haja revelado tais conhecimentos aos escritores sagrados.

    Apoio externo. A Bíblia também tem áreas de apoio externo à sua asseveração de que é a revelação divina. Quem negaria sua tremenda influência sobre a sociedade humana? Impressa, no todo, ou em parte, em mais de dois mil idiomas, é o livro mais lido de toda a história. 77 Reconhecendo-lhe a sabedoria e o valor, cristãos e incrédulos, indistintamente, citam-na em apoio aos seus pontos de vistas. Tem se dito que se a Bíblia fosse perdida, poderia ela ser reconstruída em suas partes base a partir das citações tiradas dos livros que se acham nas prateleiras das bibliotecas públicas. Seus princípi­os têm servido como o alicerce das leis das nações modernas, e como o ímpeto maior para as grandes reformas sociais da história. “A Bíblia… produziu os resultados supremos em todas as profissões existentes na vida humana. Tem inspira­do sublimemente as artes, a arquitetura, a literatura e a música… Não há livro que se compare a ela na sua influência   benéfica sobre a raça humana.” 78

    Deus atua na sociedade através das vidas das pessoas transformadas, e que seguem os ensinamentos de sua Pala­vra (SI 33.12).

    A exatidão da Bíblia em todas as áreas, incluindo pesso­as, locais, costumes, eventos e ciência, tem sido mostrada pela história e pela arqueologia. Ás vezes, pensa-se que a Bíblia está historicamente errada, mas as descobertas têm dado testemunho de sua veracidade. Por exemplo: há algum tempo, pensava-se que a escrita não havia sido inventada senão depois dos tempos de Moisés. Mas agora, sabemos que essa ciência remonta até antes de 3000 a.C. Houve tempos quando os críticos negavam a existência de Belsázar. As escavações, contudo, identificam-no com seu nome babiló­nico: Bel-shar-usur. Os críticos diziam que os heteus, menci­onados 22 vezes na Bíblia, nunca existiram. Agora sabemos que eles foram uma grande potência no Oriente Médio. 79

    A história bíblica é confirmada pelas respectivas histórias das nações envolvidas com Israel. As descobertas arqueoló­gicas continuam a apoiar e a ajudar a interpretar o texto bíblico. McDowell compartilha com seus leitores uma cita­ção interessante de uma conversa entre Earl Radmacher, presidente do Seminário Batista Conservador do Oeste, e Nelson Glueck, arqueólogo e ex-presidente de um seminário teológico judaico:

    Tenho sido acusado de ensinar a inspiração verbal e plenária das Escrituras…

    Mas só cheguei a dizer que, em todas as minhas investigações arqueológicas, nunca descobri um único artefato da antiguidade que contradissesse qualquer declaração da Palavra de Deus. 80

     

    O mesmo juízo foi pronunciado pelo renomado arqueó­logo William F. Albright:

    O ceticismo excessivo dirigido contra a Bíblia por escolas históricas importantes dos séculos XVIII e XIX… vem sendo progressivamente desacreditado. Uma descoberta após outra tem confirmado a exatidão de pormenores, e tem aumentado cada vez mais o reconhecimento do valor da Bíblia como fonte de informações exatas para a história. 81

    Mesmo os estudiosos que negam a exatidão total da i Bíblia por motivos filosóficos, sentem grandes dificuldades em defender a alegação de que há inexatidões no texto bíblico. Kenneth Kantzer comenta: “Embora Barth continu­asse a asseverar a presença de erros nas Escrituras, é muitís­simo difícil localizar qualquer exemplo nos seus escritos de que realmente tais erros existem”.82 Considerando o grande número de pormenores na Bíblia, espera-se uma coletânea considerável de tais erros. No entanto, a exatidão espantosa da Bíblia indica que ela é, realmente, a revelação do Deus verdadeiro.

    A capacidade notável da sobrevivência da Bíblia tam­bém dá testemunho de sua autoridade divina. Comparativa­mente, poucos livros sobrevivem aos estragos produzidos pelo tempo. Quantas obras literárias de mil anos de idade podemos mencionar pelo nome? Um livro que sobrevive um século é um livro raro. A Bíblia, porém, além de sobreviver, tem se multiplicado. Existem literalmente milhares de ma­nuscritos bíblicos; mais do que todos os manuscritos reuni­dos das demais obras literárias. 83

    O que torna mais notável a sobrevivência da Bíblia é o fato de ela haver passado por incontáveis períodos, quando sua leitura era proibida pelas autoridades eclesiásticas (du­rante a Idade Média) e das tentativas de vários governantes em se eliminá-la. Desde o Edito de Diocleciano em 303, que ordenou a destruição de todos os exemplares da Bíblia, até o presente, houve esforços organizados para se destruir a Bí­blia. “A Bíblia não somente tem recebido mais veneração e adoração do que qualquer outro livro, como também tem sido objeto da mais implacável perseguição e oposição”. 84 Considerando que durante os primeiros séculos do Cristia­nismo, as Escrituras eram copiadas manualmente, a extinção total da Bíblia não teria sido humanamente impossível. O célebre deísta francês Voltaire predisse que dentro de cem anos, o Cristianismo desapareceria. Cinquenta anos depois da sua morte ocorrida em 1778, a Sociedade Bíblica de Genebra estava usando o seu prelo e a sua casa para produzir grandes pilhas de Bíblias!85‘ Se, porém, a Bíblia realmente for a mensagem da redenção divina à humanidade, sua indestrutibilidade não seria tão espantosa. Deus, com a sua mão onipotente, tem protegido a sua obra!

    Tanto a autenticidade quanto a historicidade dos do­cumentos do Novo Testamento estão confirmadas de modo sólido. Norman Geisler indica que as evidências documentárias em favor da autenticidade do Novo Testa­mento são esmagadoras, e fornecem uma base, igualmen­te sólida, para a reconstrução do texto grego original. 86 Bruce Metzger, especialista em crítica textual, informa que, no século III a.G, os estudiosos em Alexandria indi­cavam que as cópias que possuíam da Ilíada de Homero apresentavam cerca de 95% de fidedignidade. Indica, tam­bém, que os textos setentrional e meridional da Mahabharata da índia diferem entre si numa extensão de 26.000 linhas. 87 Isto se contrasta com “mais de 99,5% de exatidão para as cópias manuscritas do Novo Testamen­to”.88 Esse meio-porcento de diferença consiste principal­mente nos erros de ortografia dos copistas e, mesmo as­sim, passíveis de correção. Nenhuma doutrina da Bíblia depende de algum texto cuja forma original não possa ser determinada com exatidão.

     

    Jesus e seu Conceito das Escrituras

    No fim do século I (no mais tardar) os escritos do Novo Testamento já haviam sido completados; muitos destes, en­tre 20 e 30 anos apenas após a morte e ressurreição de Jesus. / Temos ainda a garantia de que até mesmo a narração dos eventos foi orientada pelo Espírito Santo a fim de que fossem evitados os erros ocasionados por eventuais esquecimentos (Jo 14.26). Os evangelhos, que contam detalhadamente a vida de Jesus, foram escritos por contemporâneos e testemu­nhas oculares. Tais escritos, fartamente corroborados, forne­cem informações fidedignas a respeito de Cristo e de seus ensinos. A autoridade da Palavra escrita está ancorada na autoridade de Jesus. Posto que Ele nos é apresentado como o Deus encarnado, seus ensinos são verdadeiros e plenos de autoridade. Por isso, o que Jesus ensina a respeito das Escri­turas, determina sua justa reivindicação à autoridade divina. Jesus dá testemunho consistente e enfático de que elas são, de fato, a Palavra de Deus.

    Em especial, Jesus dirigia a sua atenção ao Antigo Testa­mento. Quando falava de Adão, de Moisés, de Abraão ou de , Jonas, Ele os tratava como a pessoas reais e históricas. Às vezes, correlacionava situações que lhe diziam respeito com um evento histórico do Antigo Testamento (Mt 12.39,40). Noutras ocasiões, buscava num determinado fato do Antigo Testamento apoio, ou reforço, para alguma coisa que estava ensinando (Mt 19.4,5). Jesus honrava as Escrituras do Anti­go Testamento, e enfatizava que Ele não viera abolir a Lei e os Profetas, mas cumpri-los (Mt 5.17). As vezes, fustigava os líderes religiosos por haverem elevado as próprias tradições acima das Escrituras (Mt 15.3; 22.29).

    Jesus, nos seus ensinos, citou pelo menos quinze livros do Antigo Testamento, e fez alusão a muitos outros. Tanto no modo de falar quanto nas declarações específicas, demons­trava com clareza a sua estima pelas Escrituras do Antigo Testamento como a Palavra de Deus. Era a palavra e o mandamento de Deus (Mc 7.6-13). Citando Gênesis 2.24, Jesus declarou: “O Criador [não Moisés]… disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe” (Mt 19.4,5). Disse que Davi fez uma declaração “pelo Espírito Santo” (Mc 12.36). A respei­to de uma declaração registrada em Êxodo 3.6, Ele pergun­tou: “Não tendes lido o que Deus vos declarou?” (Mt 22.31). Repetidas vezes, Jesus apelou à autoridade do Antigo Testa­mento, citando a fórmula: “Está escrito” (Lc 4.4). John W. Wenham assevera que Jesus entendia essa fórmula no senti­do de “Deus diz!”

    “Há uma objetividade grandiosa e sólida no uso do tem­po pretérito perfeito gegraptai, ‘permanece escrito’: ‘aqui está o testemunho eterno e imutável do Deus Eterno, regis­trado por escrito para a nossa instrução’.”89 O modo decisivo de Jesus utilizar essa fórmula revela de modo enfático como ele considerava a autoridade das Escrituras. “A Palavra es­crita, portanto, é a autoridade de Deus para solucionar todas as disputas a respeito da doutrina ou da prática. E a Palavra de Deus nas palavras humanas; é a verdade divina em lin­guagem humana”.90 Os que gostariam de alegar que Jesus simplesmente se acomodava ao modo judaico de entender as Escrituras, acompanhando passivamente as supostas falsas crenças dos judeus nesse assunto, deixam totalmente desapercebidos o seu tom enfático de plena aceitação e autoridade. Em vez de acomodar-se às opiniões religiosas dos seus dias, Ele as corrigia, e colocava as Escrituras de volta à sua suprema posição. Além disso, a acomodação à mentira não é moralmente possível para o Deus que é a mesma verdade (Nm 23.19; Hb 6.18).

    Jesus reivindicava a autoridade divina, não somente para as Escrituras do Antigo Testamento, como também para seus próprios ensinos. O que ouve as suas palavras e as pratica é sábio (Mt 7.24), porque os seus ensinos pro­vêm de Deus (Jo 7.15-17; 8.26-28; 12.48-50; 14.10). Jesus é o semeador que semeia a boa semente da Palavra de Deus (Lc 8.1-13). Sua expressão frequente: “Eu, porém, vos digo” (Mt 5.22), usada lado a lado com a total com­preensão do Antigo Testamento, demonstrava que “suas palavras levam toda a autoridade das palavras de Deus”.91 “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24.35).

    Jesus indicou, também, que haveria uma característica divina e especial no testemunho que seus seguidores dari­am dEle. O Senhor os havia treinado mediante suas pala­vras e seu exemplo, e os comissionara para serem teste­munhas até aos confins da terra, ensinando as pessoas a guardar todas as coisas que Ele lhes mandara (Mt 28.18-20). Ele lhes ordenara ainda que esperassem, em Jerusa­lém, a vinda do Espírito Santo, a quem o Pai enviaria em seu nome, para que tivessem poder a fim de lhe servirem como testemunhas (Lc 24.49; Jo 14.26; At 1.8). O Espíri­to Santo faria os discípulos lembrar-se de tudo quanto Jesus lhes dissera (Jo 14.26). O Espírito lhes ensinaria todas as coisas, guia-los-ia em toda a verdade, contar-lhes-ia o que havia de acontecer, lançaria mão das coisas de Cristo e as faria conhecidas aos discípulos (Jo 14.26; 15.26,27; 16.13-15).

    Foram cumpridas as promessas que Jesus fizera aos seus discípulos. O Espírito Santo inspirou alguns deles a escreve­rem a respeito do seu Senhor. Consequentemente, tanto os escritos do Antigo, quanto os do Novo Testamento; enfim, a Bíblia toda reivindica, de modo específico e direto, que é a revelação especial da parte de Deus. 92

     

    A Extensão da Autoridade Bíblica

    A Bíblia trata de assuntos pertencentes a várias áreas: ciências econômicas, geografia, cultura, biologia, política, astronomia etc. Todavia, não se declara livro-texto exausti­vo sobre tais assuntos, nem deve ser considerada como tal. Os modos de vestir, os meios de transporte, as estruturas políticas, os costumes e outras coisas correlatas, não são colocados como modelos a serem seguidos pelo simples fato de haverem sido mencionados nas Escrituras. Embora tudo quanto foi escrito nessas áreas seja fidedigno, não é necessa­riamente normativo. A Escritura não pretende ser normativa nessas áreas, a não ser que impliquem em questões teológi­cas ou éticas. (Por exemplo: do ponto de vista bíblico, não faz diferença se montamos um camelo ou se andamos de automóvel, mas se estes meios de transporte foram adquiri­dos de maneira honesta. Isto sim, faz toda a diferença).

    Os sessenta e seis livros da Bíblia reivindicam autoridade plena e total no tocante à auto-revelação de Deus e a todas as implicações quanto à fé e à prática. Embora a autoridade da Bíblia seja histórica, porque Deus se revelou em eventos históricos, sua autoridade é primariamente teológica. A Bí­blia revela Deus à humanidade, e explica o seu relaciona­mento com a sua criação. Pelo fato de Deus ter de ser conhecido através deste livro, suas palavras têm de ser igual­mente autorizadas. A autoridade da Palavra é absoluta – as palavras do próprio Deus a respeito dEle mesmo.

    A autoridade ética da Bíblia provém de sua autoridade teológica. Não fala de tudo quanto deve ser feito em todas as épocas, nem de tudo quanto era feito nos tempos em que foi escrita. Mesmo assim, os princípios que ela apresenta, seu padrão de retidão, suas informações a respeito de Deus, sua mensagem de redenção e suas lições para a vidas, são obriga­tórios em todos os tempos e épocas.

    Certos trechos bíblicos não nos impõem determinada conduta, hoje, mas têm autoridade por nos revelarem um aspecto do relacionamento de Deus com a humanidade. Por exemplo: as cerimônias do Antigo Testamento cumpridas em Cristo. “No caso de uma promessa (ou prefiguração) e seu cumprimento, a figura só tem um propósito temporário, e cessa de ter autoridade obrigatória depois de cumprida”.93 Embora Cristo seja o cumprimento, as cerimônias são uma apresentação autorizada de um aspecto da obra divina da redenção. O relacionamento entre Deus e os seres humanos, e a condição destes diante de Deus, têm implicações para todos os aspectos da vida. Por isso, a Palavra tem aplicação autorizada a todas as esferas de nossa vida.

    O escopo da autoridade das Escrituras é tão extensivo como a própria autoridade de Deus em relação a todas as áreas da existência humana. Deus está acima de todas as áreas de nossa vida, e fala a todas elas mediante a sua Palavra. A autoridade da Palavra escrita é a autoridade do próprio Deus. A Bíblia não é meramente um registro da autoridade de Deus no passado, mas continua sendo a auto­ridade de Deus, hoje. Mediante a Palavra escrita, o Espírito Santo continua a confrontar os homens e mulheres, em nossos dias, com as reivindicações de Deus. Trata-se ainda de: ‘Assim diz o Senhor!”

     

    A Inspiração das Escrituras

    Deus se revelou à sua criação. A inspiração diz respeito ao registro, ou à escrita, dessa revelação divina. Posto que a Bíblia foi escrita por autores humanos, devemos perguntar: “Em que sentido seus escritos poderão (ou não) ser chama­dos a Palavra de Deus?” Uma questão correlata diz respeito ao grau (ou extensão) em que seus escritos podem ser consi­derados revelação de Deus.

     

    A Base Bíblica para a Inspiração

    Considerando que toda testemunha tem o direito de se expressar por si mesma, será examinada, em primeiro lugar, a reivindicação que os próprios escritores bíblicos fazem à inspiração divina. Muitos dos que compuseram as Escrituras eram participantes, ou testemunhas oculares, dos eventos a respeito dos quais escreveram.

    O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada), o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos (1 Jo 1.1-3).

     

    Cada um deles, seja Moisés, Davi, Jeremias, Mateus, João, Pedro, ou Paulo, escreveu com base em suas próprias experiências à medida que Deus se revelava a eles (Ex 4.1-17; SI 32; Jr 12; At 1.1-3; 1 Co 15.6-8; 2 Co 1.3-11; 2 Pe 1.14-18). Mas seus escritos eram mais que relatos de pessoas envolvidas. Declaravam que escreviam não somente a res­peito de Deus, mas também em prol de Deus. A sua palavra era a Palavra de Deus; a sua mensagem era a mensagem de Deus.

    Em todo o Antigo Testamento, deparamo-nos com ex­pressões tais como: “Falou o SENHOR a Moisés, dizendo” (Ex 14.1); “A palavra que veio a Jeremias, da parte do SENHOR, dizendo” (Jr 11.1); “Tu, pois, ó filho do homem, profetiza… e dize: Assim diz o SENHOR Deus” (Ez 39.1); “Assim diz o SENHOR” (Am 2.1). Tais declarações são usadas mais de 3.800 vezes, e demonstram com clareza que os escritores tinham consciência de estar entregando uma mensagem autorizada da parte de Deus.94

    Os escritores do Novo Testamento não tinham, também, a menor dúvida de estarem falando em nome de Deus. Jesus não somente ordenou que os discípulos pregassem, mas tam­bém lhes disse o que deviam pregar (At 10.41-43). Suas palavras não eram “palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espiri­tuais com as espirituais” (1 Co 2.13). Esperavam que as pessoas reconhecessem que, por escrito, estavam elas rece­bendo “mandamentos do Senhor” (cf. 1 Co 14.37). Paulo podia garantir aos gálatas que, “acerca do que vos escrevo, eis que diante de Deus testifico que não minto” (Gl 1.20), porque o tinha recebido da parte de Deus (Gl 1.6-20). Os tessalonicenses foram elogiados por terem recebido a mensa­gem “não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade) como palavra de Deus” (1 Ts 2.13). Preceitos e mandamentos eram escritos à comunidade em nome de Je­sus, e deixar de observá-los podia ocasionar motivo para a exclusão do desobediente (2 Ts 3.6-14). Assim como Deus tinha falado através dos santos profetas, agora o Senhor dava mandamentos através dos seus apóstolos (2 Pe 3.2). Receber , a vida eterna está vinculado com o ato de crer no testemu­nho de Deus (registrado pelos discípulos) a respeito do seu Filho (ljo 5.10-12).

    Nestes trechos, e em outros semelhantes, fica evidente que os escritores do Novo Testamento estavam convictos de estarem declarando “todo o conselho de Deus” em obediên­cia ao mandamento de Cristo e sob a orientação do Espírito Santo (At 20.27). Os escritores do Novo Testamento tam­bém reconheciam a autoridade total das Escrituras do Anti­go Testamento, porque Deus “falou pelo Espírito Santo” através dos autores humanos (At 4.24,25; Hb 3.7; 10.15,16).

    Paulo escreveu a Timóteo, asseverando que as Escrituras podiam fazê-lo “sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (2 Tm 3.15). O valor das Escrituras deriva-se de sua origem. Paulo indica que o mérito das Escrituras não está no escritor humano, mas no próprio Deus. Ele afirma: “Toda Escritura é inspirada por Deus” (2 Tm 3.16). O termo “inspiração” é derivado desse versículo, e aplicado à escrita da Bíblia. A palavra grega empregada aqui é theopneustos que, literalmente, significa “soprada por Deus”. As versões mais recentes dizem com razão: “Toda Escritura é inspirada [soprada] por Deus” (NVI). Paulo não está dizendo que Deus soprou alguma característica divina nos escritos huma­nos das Escrituras, ou que toda a Escritura respira um ambi­ente de Deus, que fala dEle. O adjetivo grego (theopneustos) é claramente predicativo, e é usado para identificar a fonte originária de todas as Escrituras.95 Deus é o Autor, em última análise. Logo, toda a Escritura é a voz de Deus, a Palavra de Deus (At 4.25; Hb 1.5-13).

    O contexto de 2 Timóteo 3.16 tem em vista as Escrituras do Antigo Testamento. A declaração de Paulo é que a totalidade do Antigo Testamento é a revelação inspirada da parte de Deus. O fato de que o Novo Testamento ainda estava sendo escrito, exclui a mesma reivindicação interna e explícita para ele. Mesmo assim, algumas declarações especí­ficas feitas pelos escritores do Novo Testamento subenten­dem que a inspiração das Escrituras estende-se à Bíblia intei­ra. Por exemplo, em 1 Timóteo 5.18 Paulo escreve: “Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário”. Paulo está citando Deute-ronômio 25.4 e Lucas 10.7, considerando “Escritura” as cita- , ções tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Além disso, Pedro refere-se a todas as epístolas de Paulo que, embora tratassem a respeito da salvação divina, contêm “pontos difíceis de entender”. Por isso, algumas pessoas as “torcem e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pe 3.16, grifos nossos). Note que Pedro coloca todas as Epístolas de Paulo na categoria de Escritura. Torcê-las é torcer a Palavra de Deus, resultando na destruição do transgressor. Os escritores do Novo Testamento comunicam “com as palavras que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” (1 Co 2.13), assim como Jesus prometera (Jo 14.26; 16.13-15).

    Na sua segunda epístola, Pedro fala de sua morte iminen­te e do seu desejo de que seus leitores se mantenham na verdade que ele já lhes havia compartilhado. Mostra-lhes que a fé em Cristo não é nenhuma invenção, e lembra-lhes de que ele mesmo era testemunha ocular daqueles eventos. Pedro estava com Cristo, vendo-o e ouvindo-o pessoalmente (2 Pe 1.12-18). O apóstolo passa, então, a escrever de algo mais firme que seu testemunho pessoal (2Pe 1.19). Falando das Escrituras, afirma que os autores humanos eram “levados adiante” (pheromenoi) pelo Espírito Santo ao comunicarem as coisas de Deus. O resultado disso era uma mensagem não iniciada pelos desígnios humanos nem produzida pelo mero raciocínio e pesquisa humanos (sem serem excluídas tais coisas). Pedro afiança: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação; porque a profecia nunca foi produzida por vontade de ho­mem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspira­dos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.20,21).

    O emprego que Pedro faz da expressão “profecia da Es­critura” é um caso de pars pro tota. Ou seja: uma parte da Escritura representa a totalidade desta. “O ímpeto que levou à escrita provinha do Espírito Santo. Por essa razão, os leitores de Pedro devem prestar atenção… pois não é simplesmente a palavra dos homens, mas a Palavra de Deus”. 96

    Em virtude de sua inspiração pelo Espírito Santo, toda a Escritura é fonte de autoridade. Jesus garante que até o menor dos mandamentos bíblicos é importante e obrigatório:

    “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens será chamado o menor no Reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no Reino dos céus” (Mt 5.18,19).

     

    A recompensa, ou o castigo, depende de nosso relaciona­mento com todos os mandamentos, incluindo-se o menor deles. Acusado de blasfêmia por haver reivindicado a própria divindade, Jesus apelou à expressão “sois ‘deuses”, que se acha no Salmo 82.6. Contra essa acusação, edificou a sua defesa na verdade, já bem aceita, de que até mesmo uma frase relativamente obscura das Escrituras não pode ser anu­lada (Jo 10.34,35). A razão por que não podia ser anulada era que, mesmo como fragmento da Escritura, não deixava de ser a Palavra de Deus.

     

    Modos de Inspiração

    Uma vez aceito o testemunho que as Escrituras dão acerca de si mesmas, fica mais que clara a sua divina inspira­ção. A medida que os autores humanos da Bíblia a compunham, o próprio Deus dava mostras inequívocas de achar-se envolvido neste processo de comunicação. E posto que na maioria dos casos a Bíblia não revela a forma de sua inspiração, várias teorias têm surgido a respeito. Cinco opi­niões básicas são consideradas resumidamente nesta seção.

    Intuição natural. A inspiração é meramente uma perspi­cácia natural nos assuntos espirituais, exercida por pessoas bem dotadas. Assim como alguns têm aptidão para a mate­mática ou para a ciência, os escritores bíblicos teriam apti­dão para as ideias religiosas. Não se vê nisso qualquer envol­vimento especial de Deus. A pessoa poderia ter a mesma inspiração natural para escrever uma poesia ou para compor um hino.

    Iluminação especial. A inspiração seria uma intensifica­ção, ou exaltação, divina das percepções religiosas que todos os cristãos têm em comum. Os dons naturais dos escritores bíblicos teriam sido aguçados de alguma maneira pelo Espíri­to Santo, mas sem nenhuma orientação especial, ou comu­nicação da verdade divina.

    Orientação dinâmica. A inspiração é a orientação espe­cial pelo Espírito Santo, dada aos escritores bíblicos, para garantir toda mensagem divina que trata de matérias concernentes à fé religiosa e ao viver piedoso. A ênfase recai nos pensamentos ou conceitos que Deus, querendo fossem comunicados, fornecia aos escritores humanos, aos quais dava plena liberdade quanto à expressão natural. Os ele­mentos da fé e da prática religiosas eram assim orientados, mas as chamadas matérias não-essenciais dependiam total­mente (segundo essa opinião) dos conhecimentos, experiên­cias, e escolhas dos próprios autores humanos.

    Plenária verbal. A inspiração é a combinação entre a expressão natural dos escritores e a iniciação e orientação especiais dos seus escritos concedidas pelo Espírito Santo. Mas o Espírito Santo não somente dirigia os pensamentos, ou conceitos dos escritores, como também supervisionava a seleção das palavras para a totalidade do texto (e não so­mente para as questões de fé e prática). O Espírito Santo garantia a exatidão e a suficiência de tudo quanto era escrito como a revelação da parte de Deus.

    Ditado divino. A inspiração é a superintendência infalí­vel da reprodução mecânica das palavras divinas à medida que o Espírito Santo as ditava aos autores bíblicos. Estes, como obedientes estenógrafos, tudo registravam segundo as ordens especiais do Espírito Santo quanto ao conteúdo, vo­cabulário e estilo.

    Formulando um Conceito da Inspiração

    O conceito de inspiração deve levar em conta tudo quanto é necessário para a revelação divina ser comunicada com exatidão. O modo correto de inspiração deve incluir todos os elementos que a Bíblia postula tanto no ato de inspirar quanto nos efeitos desse ato. Deve também reservar um lugar apropriado à atividade de Deus e à atividade humana.

    Ao examinarmos os dados fornecidos nas Escrituras, vá­rios elementos envolvidos no ato de inspirar são apresentados com clareza. (1) Toda a Escritura é respirada por Deus; , procede da boca de Deus (2 Tm 3.16). (2) Os autores da Escritura falaram inspirados pelo Espírito Santo (2 Pe 1.21). (3) Os escritores sagrados não falavam segundo a própria vontade, mas de acordo com a vontade divina. (4) Todavia, eles tomavam parte ativa e dinâmica na produção das Escrituras. Não eram meros robôs (Lc 20.42; Jo 12.39; At 3.22).

    Semelhantemente, a Escritura fornece soluções quanto ao ato de inspirar. (1) Toda a Escritura é respirada por Deus e, portanto, toda a Escritura é a Palavra de Deus (1 Co 14.37; 2 Tm 3.16). (2) Toda a Escritura é proveitosa; é uma regra completa e suficiente para a fé e prática (2 Tm 3.16,17). (3) Nenhuma linha da Escritura pode ser deixada de lado, anulada ou destruída; a totalidade da Escritura tem de ser aceita em sua integridade e plenitude (Jo 10.35). (4) A Escritura é mais fidedigna que qualquer observação mera­mente humana, seja empírica, seja científica, seja filosófica (2 Pe 1.12-19). (5) Nenhuma parte da Escritura é condicio­nada, quanto à sua veracidade, por nenhuma limitação de seu autor humano (2 Pe 1.20). O condicionamento histórico normal, bem como a pecaminosidade e finitude humanas, são contrabalançados pela supervisão do Espírito Santo.

    À luz dessas observações, extraídas da própria Escritura, pode-se fazer uma avaliação dos cinco modos de inspiração sugeridos. Tais conceitos, por considerarem a inspiração meramente um dom natural de iluminação, não prestam a devida atenção ao fato de Deus haver “soprado”‘a Escritura. O conceito da orientação dinâmica, que entende serem as questões de fé e práticas devidamente inspiradas, em con­traste com os assuntos mais corriqueiros, não fornece ne­nhum método seguro para determinar o que é inspirado e o que não o é. Nem sequer leva em conta a declaração bíblica de que toda a Escritura é inspirada, inclusive os versículos tidos como obscuros.

    O conceito do ditado divino na inspiração não reconhe­ce devidamente o elemento humano – os estilos, expressões e ênfases específicos dos escritores de per si.

    O conceito da inspiração verbal e plenária evita os exa­geros de se enfatizar a atividade de Deus a ponto de negligenciar a participação humana, ou de enfatizar a contribui­ção humana a ponto de desprezar o envolvimento divino na produção da Escritura. A totalidade da Escritura Sagrada é inspirada, pois seus autores a escreviam sob a supervisão e orientação do Espírito Santo. Isto permite variedades de estilo literário, gramática, vocabulário e outras peculiarida­des humanas. Afinal, alguns escritores bíblicos tinham, sob o apanágio da providência de Deus, passado por longos anos de experiência e preparo incomparáveis. Eis por que foram usados por Deus para comunicar a sua mensagem (Moisés, Paulo).

    Os conceitos da orientação dinâmica e os da inspiração verbal e plenária são sustentados por muito eruditos; tais conceitos reconhecem a obra do Espírito Santo, bem como as diferenças óbvias nos vocabulários e estilos dos escritores. Uma diferença importante entre as duas opiniões envolve a extensão da inspiração. Reconhecendo ter havido orienta­ção do Espírito Santo, até onde esta se estende? No tocante aos escritos bíblicos, os defensores das várias opiniões dinâ­micas sugeriram que a orientação do Espírito estendeu-se aos mistérios além do alcance da razão humana, ou somente até à mensagem da salvação, ou ainda até as palavras de Cristo, ou talvez até certos assuntos (tais como as seções didáticas ou proféticas, ou talvez a todas as matérias que se relacionam com a fé e prática cristãs). A inspiração plenária e verbal sustenta, porém, que a orientação do Espírito Santo estendia-se a todas as palavras dos documentos originais (os autógrafos).

    No tocante à orientação do escritor pelo Espírito, tem-se sugerido que a influência do Espírito estendeu-se somente ao impulso original para se escrever, ou somente à seleção dos tópicos, ou apenas aos pensamentos ou ideias do autor, conforme este achasse melhor. Na inspiração plenária e ver­bal, todavia, a orientação do Espírito estendia-se até às pró­prias palavras que o escritor selecionava para expressar os seus pensamentos. O Espírito Santo não ditava as palavras, mas guiava o escritor para que este, livremente, escolhesse as palavras que realmente expressavam a mensagem de Deus. (Por exemplo, o escritor poderia ter escolhido “casa” ou “construção”, segundo a sua preferência, mas não poderia ter escolhido “campo”, pois isso teria mudado o conteúdo da mensagem.) 97

    Qualquer combinação das sugestões no conceito da ori­entação dinâmica coloca-nos numa posição de relatividade quanto à extensão da inspiração das Escrituras. Esse posicionamento relativo requer seja aplicado algum princí­pio para diferenciar as partes inspiradas das não-inspiradas (ou mais inspiradas e menos inspiradas) da Bíblia. Vários princípios têm sido sugeridos: tudo quanto é razoável; tudo quanto é necessário para a salvação; tudo quanto é valioso para a fé e a prática; tudo quanto traz o Verbo; tudo quanto é querigma genuíno, ou tudo aquilo sobre o qual o Espírito dá testemunho especial. Todos os princípios desse tipo são subjetivos e centralizam-se no homem. Além disso, há o problema de quem aplicará o princípio de modo decisivo. A hierarquia eclesiástica, os estudiosos bíblicos e os teólogos, os cristãos individuais, todos desejariam o poder de escolha. Em última análise, o conceito da orientação dinâmica acaba derivando do homem a autoridade da Bíblia, em vez de derivá-la de Deus. Somente o conceito da inspiração plená­ria e verbal evita o problema da relatividade teológica, sem deixar de levar em conta a variedade humana ao reconhecer que a inspiração estende-se à totalidade das Escrituras.

    A inspiração plenária e verbal contém uma definição essencial no próprio nome. E a crença de que a Bíblia é inspirada nas próprias palavras (verbal) escolhidas pelos es­critores. É inspiração plenária (plena, total, inteira) porque todas as palavras-, em todos os escritos originais (autógrafos), são inspiradas. Uma definição mais técnica da inspiração segundo a perspectiva plenária e verbal poderia ser esta: A inspiração é o ato especial do Espírito Santo mediante o qual motivou os escritores bíblicos a escrever, orientando-os até mesmo no emprego das palavras, preservando-os de igual modo de todos os erros ou omissões.

    Apesar de cada palavra da Bíblia ser inspirada por Deus, a sua veracidade depende do contexto, isto é: ela pode registrar autoritativamente o conteúdo inspirado e verídico de uma mentira. Quando, por exemplo, a serpente disse a Eva que esta não morreria se comesse do fruto proibido, estava, sem dúvida alguma, mentindo – pois Eva morreria! (Gn 3.4,5). No entanto, posto que a totalidade da Bíblia seja inspirada, as palavras do tentador, embora falsas, foram registradas com exatidão.

    A inspiração verbal e plenária era a opinião da Igreja Primitiva. Durante os oito primeiros séculos da Igreja, ne­nhum líder eclesiástico, de vulto, ousou sustentar outra opi­nião. Procedimento similar foi adotado pelas igrejas cristãs ortodoxas até ao século XVIII. 98 A inspiração plenária e verbal continua sendo o conceito sustentado pelo evangelicalismo.

    A inspiração verbal e plenária eleva o conceito da inspi­ração até à plena infalibilidade, posto que todas as palavras são, em última análise, palavras de Deus. A Escritura é infalível porque é a Palavra de Deus, e Deus é infalível. Nas últimas décadas do século XX, alguns procuraram apoiar o conceito da inspiração plenária e verbal sem o corolário da infalibilidade. Como resposta, livros foram escritos, confe­rências, realizadas, e organizações formadas na tentativa de firmar o modo histórico de se entender a inspiração das Escrituras Sagradas. Uma fileira de fortes adjetivos tem sido acrescentada à expressão “plenária e verbal” até ao ponto de alguns insistirem que esta opinião teológica seja chamada “inspiração verbal plenária, infalível, inerrante, ilimitada”. Quando investigamos o significado de tantos qualificativos, constatamos que é exatamente isto o que significa a “inspira­ção plenária e verbal”!

     

    A Inerrância Bíblica

    Uma mudança notável da terminologia que resultou dos debates na área da inspiração das Escrituras foi a preferência pelo termo “inerrância” ao invés de “infalibilidade”. Isso tem a ver com a insistência de alguns no sentido de que podemos ter uma mensagem infalível com um texto bíblico errante.

    “Infalibilidade” e “inerrância” são termos empregados para se aludir à veracidade das Escrituras. A Bíblia não falha; não erra; é a verdade em tudo quanto afirma (Mt 5.17,18; Jo 10.35). Embora tais termos nem sempre hajam sido empre­gados, os teólogos católicos, os reformadores protestantes, os evangélicos da atualidade (e, portanto, os pentecostais “clás­sicos”), têm afirmado ser a Bíblia inteiramente a verdade; nenhuma falsidade ou mentira lhe pode ser atribuída. 99 Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Gregório Nazianso, Justino, o Mártir, Irineu, Tertuliano, Origenes, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, e um número incontável de outros gigantes da história da Igreja, reconhecem que a Bíblia foi, de fato, inspirada por Deus, e que é inteiramente a verdade. Preste atenção à afirmação enfática de alguns destes notáveis:

    Agostinho: “Creio com toda a firmeza que os autores sagrados estavam totalmente isentos de erros”. 100

    Martinho Lutero: “As Escrituras nunca erram”.101 “… onde as Sagradas Escrituras estabelecem algo que deve ser crido, ali não devemos desviar-nos de suas palavras”.102

    João Calvino: “O registro seguro e infalível”. “A regra certa e inerrante”. “A Palavra infalível de Deus”. “Isenta de toda mancha ou defeito”. 103

    Provavelmente, os dois acontecimentos mais significati­vos no tocante à doutrina da infalibilidade e da inerrância foram a declaração sobre as Escrituras na Aliança de Lausanne (1974) e a Declaração de Chicago (1978) do Concílio Inter­nacional da Inerrância Bíblica. A declaração de Lausanne oferece (segundo alguns) flexibilidade em demasia ao afir­mar que a Bíblia é inerrante em tudo quanto afirma”. (Isto é: pode haver coisas que não foram “afirmadas” na Bíblia.) Como resposta, a Declaração de Chicago afirmou: “A Escri­tura na sua inteireza é inerrante, e está livre de toda a falsidade, fraude ou logro. Negamos que a infalibilidade e inerrância da Bíblia limitam-se aos temas espirituais, religio­sos ou redentores, excluindo-se as asseverações nos campos da história e das ciências”. 104

    A Declaração de Chicago foi adotada por uma conven­ção de quase trezentos estudiosos no seu esforço para escla­recer e fortalecer a posição evangélica a respeito da doutrina da inerrância. Consiste em dezenove Artigos de Afirmação e de Negação, e tem uma prolongada exposição final, que se propõe a descrever e explicar a inerrância de tal modo que não deixa nenhuma possibilidade de existir nenhum tipo de erro em qualquer parte da Bíblia.

    Embora seja possível questionar se a inerrância é ensina­da de modo dedutível nas Escrituras, conclui-se que o exame indutivo das Escrituras foi ensinado por Jesus e pelos escritores bíblicos. Deve ficar claro, porém, que a autoridade da Bíblia depende da veracidade da inspiração, e não da É doutrina de inerrância. Esta é uma inferência natural que segue a inspiração e é “tirada dos ensinos bíblicos, e tem o pleno, poio da atitude do próprio Jesus”.105 Alguns têm sugerido que abrir mão da doutrina da inerrância é o primei­ro passo para se abrir mão da autoridade da Bíblia.

    A inerrância reconhece contradições, ou inconsistênci­as, no texto, não como erros propriamente ditos, mas como dificuldades que poderão ser resolvidas ao serem conhecidos todos os seus dados relevantes. A possibilidade de se harmo­nizar trechos aparentemente contraditórios vem sendo de­monstrada frequentemente pelos estudiosos evangélicos que têm dedicado tempo e paciência, revendo dificuldades tex­tuais à luz das novas descobertas históricas, arqueológicas e linguísticas. (Devemos, no entanto, evitar harmonizações forçadas ou altamente especulativas).

    A doutrina da inerrância é derivada mais da própria natureza da Bíblia do que de um mero exame dos seus fenômenos. “Se alguém crê que a Escritura é a Palavra de Deus, não pode deixar de crer que seja ela inerrante”.106 Deus “soprou” as palavras que foram escritas, e Deus não pode mentir. A Escritura não falha porque Deus não pode mentir. Consequentemente, a inerrância é a qualidade que se espera da Escritura inspirada. O crítico que insiste em haver erros na Bíblia (em algumas passagens difíceis) parece ter outorgado para si mesmo a infalibilidade que negou às Escrituras. Um padrão passível de erros não oferece nenhu­ma medida segura da verdade e do erro. O resultado de negar a inerrância é a perda de uma Bíblia fidedigna. Se for admitida a existência de algum erro nas Sagradas Escrituras, estaremos alijando a veracidade divina, fazendo a certeza desaparecer.

     

    A Definição de Inerrância

    Embora os termos “infalibilidade” e “inerrância” tenha sido, historicamente, quase que sinônimos do ponto de vista da doutrina cristã, muitos evangélicos têm preferido ora um termo, ora outro. Alguns preferem “inerrância” para se dis­tinguirem dos que sustentam poder a “infalibilidade” referir­se à veracidade da mensagem da Bíblia, sem necessariamen­te indicar que a Bíblia não contém erros. Outros preferem “infalibilidade” a fim de evitar possíveis mal-entendimentos em virtude de uma definição demasiadamente limitada da “inerrância”. Atualmente, o termo “inerrância” parece estar mais em voga que “infalibilidade”. A série de declarações que se segue, portanto, é uma tentativa de se delimitar a definição de inerrância verbal que teria ampla aceitação na comunidade evangélica.

    1. A verdade de Deus é expressada com exatidão, e sem quaisquer erros, nas próprias palavras da Escritura ao serem usadas na construção de frases inteligíveis.

    2. A verdade de Deus é expressada com exatidão através de todas as palavras da totalidade da Escritura, e não mera­mente através das palavras de conteúdo religioso ou teo­lógico.

    3. A verdade de Deus é expressada de modo inerrante somente nos autógrafos (escritos originais), e de modo indi­reto, nos apógrafos (cópias dos escritos originais).

    4. A inerrância dá lugar à “linguagem de aparência”, aproximações e várias descrições não-contraditórias, feitas a partir de perspectivas diferentes. (Por exemplo, dizer que o sol se levanta não é um erro, mas uma descrição perceptiva e reconhecida).

    5. A inerrância reconhece o uso de linguagem simbólica e figurada, e uma variedade de formas literárias para se transmitir a verdade.

    6. A inerrância entende que as citações no Novo Testa­mento de declarações do Antigo Testamento podem ser paráfrases, sem a intenção de serem traduções literais.

    7. A inerrância considera válidos os métodos culturais e históricos de se relatar coisas tais como genealogias, medidas e estatísticas ao invés de exigir os métodos de precisão da moderna tecnologia.

    Esperamos que, com base dessas declarações, poderemos construir um conceito de inerrância que evite os extremos, sem deixar de levar em conta o testemunho que a própria Escritura oferece no tocante à sua própria exatidão e veraci­dade. Mesmo assim, nossas tentativas de definir a inerrância não são inerrantes em si mesmas. Por isso, embora nos esfor­cemos para influenciar os outros para que aceitem a doutrina, da inerrância, seria bom respeitarmos o conselho sábio e amoroso do acatado defensor da doutrina da inerrância, Kenneth Kantzer: “Os evangélicos conservadores, principal­mente, devem ser mui cuidadosos e evitar a confrontação direta com o erudito, ou seminarista hesitante, que se sente perturbado por problemas no texto bíblico, ou por algumas das conotações comuns à palavra inerrante”.107

    Semelhantemente, deve-se compreender que “a inerrância bíblica não subentende que a ortodoxia evangélica se segue como consequência necessária da aceitação dessa doutri­na”. 108 Deve se seguir a interpretação correta e a verdadeira dedicação espiritual.

     

    Revelação Proposicional

    Uma questão filosófica de vulto, que se relaciona com a questão da infalibilidade e da inerrância, diz respeito a se Deus, na verdade, pode revelar a si mesmo. Aqui, verdade refere-se a declarações, ou asseverações, proposicionais que se correspondam com exatidão com o objeto, ou objetos, por elas referidos. Deus pode revelar verdades a respeito de si mesmo? Ele tem condições de revelar à humanidade, de modo proposicional, algo a respeito de quem Ele realmente é?

    Não é provável que Deus haja deliberadamente feito uma revelação enganosa acerca de si mesmo. Nenhuma evidência de semelhante erro é indicada na Bíblia. Além disso, uma revelação deliberadamente errada é contrária à natureza divina, pois Deus é a própria verdade. Ele sempre age segundo a sua própria natureza.

    Dizer que Deus não tinha capacidade de evitar erros na revelação de si mesmo é lançar dúvidas contra sua onisciência e onipotência. Dizer, à parte de uma revelação divina direta, o que Deus pode ou não pode fazer, é presunção. Revelar corretamente a si mesmo não é uma das coisas que a Bíblia diz que Deus não possa fazer (e isto não seria incapa­cidade dEle, mas uma imposição de sua natureza moral). Se Deus, que criou todas as coisas (inclusive a mente humana), pode comunicar à pessoa humana alguma verdade isolada, não há impedimento lógico para que Ele não comunique toda e qualquer verdade que desejar.

    Depois de reconhecermos que Deus tem capacidade de fazer uma revelação verdadeira de si mesmo, perguntemos: Ele também ordenou que sua revelação fosse registrada (por escrito) de modo verdadeiro. Negar isso nos reduziria ao agnosticismo ou ao ceticismo quanto à existência de alguma verdade absoluta, na espera da comprovação empírica (mes­mo supondo que todos os assuntos são passíveis da verifica­ção empírica). Pelo contrário, se é para confiarmos na Bíblia como a Palavra de Deus, devemos aceitar o próprio testemu­nho da Escritura como norma na definição da verdadeira doutrina da inspiração. Conforme já verificamos acima, Je­sus e os escritores bíblicos proclamam, a uma só voz, que a revelação que Deus fez da verdade foi registrada de modo inerrante. Não pode ser anulada e jamais passará!

     

    Preservação da Verdade das Escrituras

    Deus ordenou fosse sua revelação preservada com pure­za? Se “preservada com pureza” significa “preservada com inerrância”, a resposta é “não”. Conforme mencionada aci­ma, a inerrância pertence tão-somente aos autógrafos. Nos muitos manuscritos bíblicos preservados, há milhares de va­riações. A maioria destas foi causada pela negligência (orto­grafia, gramática, transposição de palavras etc). Todavia, nenhuma doutrina sequer tem por base textos questionáveis em qualquer manuscrito.

    Se, porém, “preservada com pureza” significa que os ensi­nos da Escritura foram “preservados de modo incorruptível”, a resposta é um “sim” de alto e bom som. Hoje, a Igreja tem várias versões modernas baseadas nos muitos manuscritos hebraicos e gregos existentes. Tais versões, traduzidas em centenas de idiomas, são comparadas cuidadosamente aos manuscritos antigos e às primeiras versões da Bíblia. E forne­cem ao leitor uma versão das Escrituras em linguagem (vo­cabulário e estilo) atualizada, sem deixar de manter a exati­dão quanto ao seu real significado.

    Embora haja um longo período de tempo entre os autó­grafos e as versões atuais da Bíblia, existe pouca distância entre eles no tocante à exatidão. Há uma longa corrente de testemunhas que remonta às pessoas que declararam ter visto os autógrafos (Policarpo, Clemente de Roma). Tinham tanto o motivo quanto a oportunidade de verificar por conta própria a fidedignidade das cópias feitas a partir dos origi­nais. Havia um desejo entre os cristãos de preservar os ensi­nos da Escritura, e muitos cuidados foram dedicados à sua transmissão de uma geração para outra. Mediante os esfor­ços da ciência da crítica textual, é possível se chegar a um texto bíblico que é a representação exata dos autógrafos. Em seguida, à medida que abordarmos o conteúdo e o significa­do da Escritura (conforme Deus mesmo quis fosse entendi­da) – com auxílio da crítica textual, da exegese e da interpretação – podemos dizer que nesta mesma medida estamos proclamando a Palavra de Deus.

    Isso só pode acontecer se tivermos certeza de que os autógrafos eram de fato a Palavra de Deus, e que foram escritos infalivelmente por meio da inspiração sobrenatural. E essencial a inerrância (seja em que ponto for) para saber­mos o que é a verdade. O valor dos autógrafos inerrantes é que sabemos que, o que os homens registraram, foi exata­mente o que Deus queria deixar por escrito. Os autógrafos derivam seu valor do fato de serem, em essência, a Palavra de Deus, e meramente as palavras de escritores humanos.

    Os apógrafos, por outro lado, derivam seu valor do fato de representarem com total exatidão os autógrafos. Não se pode dizer que as cópias, as versões e as traduções foram inspiradas na sua produção, mas seguramente (em algum sentido derivado e mediado) retêm a qualidade de inspiração que estava presente nos autógrafos. De outra forma, a Bíblia não seria fonte de autoridade. O ato da inspiração aconteceu uma só vez; a qualidade da inspiração continuou sendo mantida nos apógrafos. O ato original da inspiração produziu uma Palavra inspirada tanto nos autógrafos quanto nos apógrafos.

     

    O Cânon das Escrituras

    Nem toda a literatura religiosa, até a mais inspiradora e lida, é considerada Escritura. Essa verdade é válida hoje, como também o era nos dias em que o Antigo e o Novo Testamento foram escritos. Os apócrifos, os pseudepígrafos e outros escritos religiosos, tinham reconhecidamente seus vários graus de valor, mas não eram considerados dignos de serem chamados a Palavra de Deus. Somente os 66 livros contidos na Bíblia são chamados Escrituras. 109

    O termo “cânon” provém da palavra grega kanõn, que denota uma régua de carpinteiro ou algum tipo de vara de medir. No mundo grego, cânon veio a significar “padrão ou norma para julgar ou avaliar todas as coisas”.110 Foram desenvolvidos cânones para a arquitetura, a escultura, a literatura, a filosofia, e assim por diante. Os cristãos co­meçaram a empregar o termo de modo teológico para designar os escritos que tinham cumprido os requisitos para serem considerados Escrituras Sagradas. Os livros canónicos, pois, são considerados a revelação autorizada e infalível da parte de Deus.

    Compreende-se, pois, porque os judeus fiéis e os verda­deiros cristãos desejavam tanto um cânon de seus escritos tidos como inspirados por Deus. A perseguição religiosa, a expansão geográfica e a circulação cada vez maior de uma ampla gama de escritos religiosos, aumentaram o ímpeto para ser estabelecido o cânon. A tradição sugere que, em grande medida, Esdras foi o responsável pela reunião dos escritos sagrados dos judeus num cânon oficialmente reco­nhecido. No entanto, o reconhecimento do cânon do Anti­go Testamento usualmente deu-se num suposto Concílio de Jâmnia entre 90 e 100 d.C.111 A mais antiga lista cristã sobrevivente do cânon do Antigo Testamento provém de cerca de 170 d.C, compilado por Melito, bispo de Sardes.112 Nos primeiros séculos do Cristianismo, foram propostos vári­os cânones das Escrituras, desde o do herege Marcião, em 140 d.C, e o Cânon Muratoriano, de 180 d.C, até ao primeiro cânon completo do Novo Testamento feito por Atanásio em 367 d.C. O cânon do Novo Testamento, con­forme hoje o possuímos, foi oficialmente reconhecido no Terceiro Concílio de Cartago em 397 d.C. e pela Igreja Oriental até 500 d.C. 113

    Estabelecer o cânon da Bíblia não foi, porém, a decisão dos escritores, nem dos líderes religiosos, nem de um concí­lio eclesiástico. Pelo contrário: o processo da aceitação des­ses livros como Escritura deu-se mediante a influência providencial do Espírito Santo sobre o povo de Deus. O cânon foi formado por um consenso, e não por um decreto. A Igreja não resolveu quais livros deveriam estar no cânon sagrado, mas limitou-se a confirmar aqueles que o povo de Deus já reconhecia como a sua Palavra. Fica claro que a Igreja não era a autoridade; mas percebia a autoridade na Palavra inspi­rada.

    . No entanto, vários princípios orientadores, ou critérios, têm sido sugeridos para os escritos canónicos. Incluem a apostolicidade, a universalidade, o uso na igreja, a capacida­de de sobrevivência, a autoridade, a antiguidade, o conteú­do, a autoria, a autenticidade, e as qualidades dinâmicas. De interesse primário é saber se o escrito era considerado inspi­rado. Somente os escritos inspirados (ou “soprados”) por Deus cumprem os requisitos para serem tidos como a Palavra autorizada de Deus.

    O cânon bíblico está fechado. A revelação infalível que Deus fez de si mesmo já foi registrada. Hoje, Ele continua falando através dessa Palavra. Assim como Deus revelou a si mesmo, e inspirou os escritores a registrar essa revelação, Ele mesmo preservou esses escritos inspirados, e orientou o seu povo na escolha destes, a fim de garantir que a sua verdade viesse a ser conhecida. Não se deve acrescentar outros escri­tos às Escrituras canónicas, nem se deve tirar delas nenhum escrito. O cânon contém as raízes históricas da Igreja Cristã, e “o cânon não pode ser refeito assim como a história não pode ser mudada”.114

    O Espírito Santo e a Palavra

    A Inspiração

    As Escrituras eram sopradas por Deus a medida que o Espírito Santo inspirava seus autores a escrever em prol de Deus. Por causa de sua iniciação e superintendência, as palavras dos escritores eram verdadeiramente a Palavra de Deus. Pelo menos em alguns casos, os escritores bíblicos tinham consciência de que a sua mensagem não era mera­mente sabedoria humana, mas “as palavras que o Espírito Santo ensina” (1 Co 2.13).

    Os próprios autores sagrados tinham consciência da qualidade inspirada dos escritos que compunham a Palavra de Deus, conforme o demonstram expressões tais como: “O próprio Davi disse pelo Espírito Santo” (Mc 12.36); “O Espírito do SENHOR falou por mim” (2 Sm 23.2); “Varões irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi” (At 1.16); “Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías” (At 28.25); “Portanto, como diz o Espírito Santo, se ouvirdes hoje a sua voz” (Hb 3.7); “E também o Espírito Santo no-lo testifica, porque, depois de haver dito: Este é o concerto que farei” (Hb 10.15,16). Sendo assim, sejam quais forem os escritores – Moisés, Davi, Lucas, Paulo, ou desconhecidos (a nós) – escreveram eles “inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.21 ou “movidos pelo Espírito Santo” ARA).

    Alguns consideram (erroneamente) que a inspiração pelo Espírito envolvia um ditado mecânico da Escritura, apelan­do ao notável teólogo João Calvino. Várias vezes, Calvino realmente emprega o termo “ditado” em conjunção com a inspiração pelo Espírito. Por exemplo: “Seja quem for que serviu de escrevente dos Salmos, parece que o Espírito Santo ditou pela sua boca uma forma comum de oração para a Igreja na sua aflição”. 113 Mas Calvino emprega o termo “dita­do” num sentido menos rigoroso do que atualmente é enten­dido pela teoria da inspiração como ditado. Tinha consciên­cia da contribuição dos autores humanos em áreas tais como, por exemplo, o estilo. Observe o seu comentário a respeito do estilo de Ezequiel:

    Ezequiel é verboso nessa narrativa. Mas no começo do livro já falamos que, pelo fato de o professor ter sido enviado a homens de mente lerda e inculta, empregou para isso um estilo menos refinado… Adquirira-o parcialmente da região onde habitava. 116

     

    Calvino acreditava, portanto, que Deus preparava os escritores bíblicos através das várias experiências da vida, e que o Espírito Santo falava segundo o estilo do escritor conforme o requeriam as várias circunstâncias. Quer para alcançar as pessoas cultas ou as incultas, “o Espírito Santo tempera de tal maneira o seu estilo que a sublimidade das verdades que Ele ensina não pode ficar oculta”. 117

    O Espírito Santo, fazendo uso das respectivas personali­dades dos vários autores, e de suas experiências, capacidades e estilos, supervisionava-lhes os escritos a fim de garantir que a mensagem de Deus fosse comunicada integralmente e com toda a exatidão. Conforme Jesus prometera aos seus discípu­los, o Espírito os guiaria à verdade, trazendo-lhes à lembran­ça as suas palavras, e ensinar-lhes-ia tudo quanto era neces­sário à revelação divina (Jo 14-16).

     

    A Regeneração

    A obra do Espírito Santo complementa a obra de Cristo na regeneração. Cristo morreu na Cruz a fim de possibilitar ao pecador ser revivificado para Deus. Mediante o novo nascimento espiritual, entramos no Reino de Deus (Jo 3.3). 0 Espírito Santo aplica a obra salvífica de Cristo ao coração do homem. E opera no coração deste a fim de o convencer do pecado, e para induzi-lo à fé no sacrifício expiador que Cristo oferece. Ê essa fé que leva à regeneração mediante a união com Cristo.

    A fé regeneradora produzida pelo Espírito Santo não deve, entretanto, ser considerada de modo abstrato. Ela não existe no vazio, mas surge do relacionamento com a Palavra de Deus. A fé provém de ouvir a Palavra de Deus (Rm 10.17). Não somente foi o Espírito Santo responsável por registrar a mensagem da salvação que se acha nas Escrituras, mas também dá testemunho da veracidade destas. Posto que Deus haja falado na Bíblia ao gênero humano, agora o Espí­rito Santo tem de convencer as pessoas quanto a isso. O Espírito convence não apenas a respeito da veracidade geral das Escrituras, mas quanto a uma aplicação poderosamente pessoal dessa verdade (Jo 16.8-11). Cristo, como Salvador pessoal, é o objeto da fé produzida no coração pelo Espírito. Essa fé está inseparavelmente ligada às promessas da graça divina que se acham em todas as partes da Bíblia. “Precisa­mos do Espírito e da Palavra. O Espírito lança mão da Palavra e a aplica ao coração a fim de produzir o arrependi­mento e a fé e, por esse meio, a vida”.118 Por essa razão, a Bíblia fala na regeneração em termos de “nascer do Espírito” e de “sendo de novo gerados… pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre” (1 Pe 1.23; ver também Jo 3.5).

    Iluminação

    A doutrina da iluminação do Espírito envolve a obra do Espírito Santo na pessoa, levando-a a aceitar, entender e apropriar-se da Palavra de Deus. Anteriormente, já havía­mos considerado várias evidências internas e externas que confirmam ser a Bíblia a Palavra de Deus. No entanto, mais poderosa e mais convincente que todas elas é o testemunho interior do Espírito Santo. Embora as evidências sejam im­portantes, e o Espírito Santo possa fazer uso delas, em última análise é a voz autorizada do Espírito, no coração humano, que produz a convicção de que a Escritura é, de fato, a Palavra de Deus.119

    Sem o Espírito Santo, a humanidade nem aceita, nem entende as verdades oriundas de Deus. A rejeição da verda­de divina pelos incrédulos acha-se vinculada à sua falta de entendimento espiritual. As coisas de Deus são por eles consideradas loucuras (1 Co 1.22,23;2.14). Jesus descreveu os incrédulos como aqueles que ouvem mas não compreen­dem (Mt 13.13-15). Por causa do pecado “se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o cora­ção insensato” (Rm 1.21 – ARA). “O Deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho” (2 Co 4.4). Sua única espe­rança para receberem o entendimento espiritual, ou para perceberem a verdade da parte de Deus, é a iluminação do Espírito (Ef 1.18; 1 Jo 5.20). Essa percepção espiritual inicial resulta na regeneração, mas também abre a porta para uma nova vida de crescimento no conhecimento divino.

    Embora as promessas de João 14-16, a respeito da orientação e ensino a serem ministrados pelo Espírito Santo, façam referência especial aos discípulos de Jesus que seriam usados para escrever o Novo Testamento, há um sentido contínuo em que esse ministério do Espírito relaciona-se a todos os cristãos. “O mesmo Ensinador também continua a sua obra de ensino dentro de nós, não por meio de trazer uma nova revelação, mas por meio de trazer novo entendi­mento, nova compreensão, nova iluminação. Mas Ele faz mais do que nos mostrar a verdade. Ele nos coloca dentro da verdade, e ajuda-nos a pô-la em prática”. 120

    É importante manter juntas a Palavra escrita de Deus e a iluminação do Espírito Santo: O que o Espírito ilumina é a verdade da Palavra de Deus, e não algum conteúdo místico oculto nessa revelação. A mente humana não é deixada de lado, mas vivificada à medida que o Espírito Santo elucida a verdade. “A revelação é derivada da Bíblia, e não da experi­ência, nem do Espírito Santo como uma segunda fonte de informação paralela à Escritura e independente desta”.121 Nem sequer os dons de expressão vocal, dados pelo Espírito Santo, têm a mínima igualdade com as Escrituras, pois eles também devem ser julgados pelas Escrituras (1 Co 12.10; 14.29; 1 Jo 4.1). O Espírito Santo nem altera nem aumenta a verdade da revelação divina dada nas Escrituras. Estas ser­vem como padrão objetivo necessário e exclusivo através das quais a voz do Espírito Santo continua a ser ouvida.

    A iluminação do Espírito Santo não visa ser um atalho para se chegar ao conhecimento bíblico, nem um substituto do estudo sincero da Palavra de Deus. Pelo contrário: é à medida que estudamos as Escrituras que o Espírito Santo vai nos outorgando entendimento espiritual, que inclui tanto a crença quanto a persuasão. “As pesquisas filológicas e exegéticas não são usualmente “locais” para sua operação, pois é no coração do próprio intérprete que Ele opera, crian­do aquela receptividade interior pela qual a Palavra de Deus é realmente ‘ouvida’.” 122 O Espírito, fazendo como que a Palavra seja ouvida pelo coração, e não apenas pela cabeça, produz uma convicção a respeito da verdade que resulta numa apropriação zelosa desta mesma Palavra (Rm 10.17; Ef 3.19; 1 Ts 1.5; 2.13).

    A neo-ortodoxia tende a confundir a inspiração com a iluminação ao considerar que as Escrituras “se tornam” a Palavra de Deus quando o Espírito Santo aplica seus escritos aos corações humanos. Segundo a neo-ortodoxia, a Escritura é revelação somente quando e onde o Espírito Santo fala de modo existencial. O texto bíblico não tem nenhum significa­do objetivo específico. “Posto que não existem verdades reveladas, mas somente verdades da revelação, o modo de uma pessoa interpretar um encontro com Deus pode ser diferente da maneira como outra pessoa entende igual situação”.123

    Os evangélicos, contudo, consideram a Escritura como a B Palavra escrita e objetiva de Deus, inspirada pelo Espírito na ocasião em que foi escrita. A comunicação verdadeira a respeito de Deus está presente na forma proposicional, quer a reconheçamos, quer a rejeitemos. A autoridade da Escritu­ra é intrínseca devido à inspiração, e não depende da ilumi­nação. E independente do testemunho do Espírito Santo, e antecede a este. O Espírito Santo ilumina o que Ele já tem inspirado, e a sua iluminação encontra-se vinculada exclusi­vamente com a Palavra escrita.

     

    A Palavra Escrita e o Verbo Vivo

    A revelação que Deus fez de si mesmo centraliza-se em Jesus Cristo. Ele é o Logos de Deus. Ele é o Verbo Vivo, o Verbo encarnado, que revela o Deus eterno em termos hu­manos. O título Logos só pode ser encontrado nos escritos joaninos, embora o emprego do termo haja sido relevante na filosofia grega daqueles dias. Alguns têm procurado uma ligação entre a linguagem de João e a dos estóicos, dos primeiros gnósticos, ou dos escritos de Filo de Alexandria. Estudos mais recentes sugerem que João foi influenciado primariamente pelos seus alicerces no Antigo Testamento e na fé cristã. E provável, porém, que tivesse consciência das conotações mais amplas do termo, e que a tivesse empregado deliberadamente, com o propósito de transmitir um signifi­cado adicional e especial. 124

    O Logos é identificado com a Palavra de Deus na Criação e também com sua Palavra autorizada (a lei para toda a humanidade). João deixa nossa imaginação atônita quando introduz o Logos eterno, o Criador de todas as coisas, o próprio Deus, como o Verbo que se encarnou a fim de habitar entre a sua criação (Jo 1.1-3,14). “Deus nunca foi visto por alguém. O filho unigénito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer” (Jo 1.18). O Verbo Vivo tem sido visto, ouvido, tocado, e agora proclamado medi­ante a Palavra escrita (1 Jo 1.1-3). Quando do encerra­mento do cânon sagrado, o Logos vivo de Deus, o Fiel e Verdadeiro, está em estado de prontidão no Céu, prestes a voltar à Terra como Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.11-16).

    A suprema revelação de Deus acha-se no seu Filho. Durante muitos séculos, mediante as palavras dos escritores do Antigo Testamento, Deus havia se revelado progressiva­mente. Tipos, figuras, sombras e prefigurações desdobravam paulatinamente o plano de Deus para a redenção da huma­nidade (Cl 2.17). Depois, na plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho para revelar o Pai de forma mais perfeita e para executar aquele gracioso plano mediante a sua morte na Cruz (1 Co 1.17-25; Gl 4-4). Toda a revelação bíblica, antes e depois da Encarnação de Cristo, centraliza-se nEle. As muitas fontes originárias e maneiras da revelação anteri­or indicavam e prenunciavam a sua vinda à terra como homem. Toda a revelação subsequente engrandece e explica a sua vinda. A revelação que Deus fez de si mesmo começou pequena e misteriosa, progrediu no decurso do tempo, e chegou ao seu ponto culminante na Encarnação do seu Filho. Jesus é a revelação mais completa de Deus. Todos os escritos inspirados que se seguem após a sua vinda não acrescentam nenhuma revelação maior, mas engrandecem a importância de sua Encarnação. “[O Espírito] não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir” (Jo 16.13).

    Na Pessoa de Jesus Cristo, coincidem entre si a Fonte e o Conteúdo da revelação. Ele não era mais um meio de comu­nicar a revelação divina, conforme o foram os profetas e apóstolos. Ele mesmo é “o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3). Ele é “o caminho, e a verdade, e a vida”; conhecer a Ele é conhecer também o Pai (Jo 14-6-7). Os profetas diziam: “Veio a mim a Palavra do Senhor”, mas Jesus afirmava: “Eu vos digo”! Jesus inver­teu o uso do termo “amém”, começando assim as suas decla­rações: “Na verdade [hb. Amen], na verdade te digo” (Jo 3.3). Tendo Ele falado, a verdade foi declarada de modo imediato e inquestionável.

    Cristo é a chave que revela o significado das Escrituras (Lc 24.25-27; Jo 5.39,40; At 17.2,3; 28.23; 2 Tm 3.15). Elas testificam dEle e da salvação que Ele outorga mediante a sua morte. O enfoque que as Escrituras dedicam a Cristo não justifica, porém, o abandono irresponsável do texto bíblico nas áreas que parecem ter poucas informações abertamente

    cristológicas. Clark H. Pinnock lembra-nos, com toda a B sabedoria, que “Cristo é o Guia hermenêutico no significado das Escrituras, e não seu bisturi crítico”.125 A atitude do próprio Cristo para com a totalidade das Escrituras era de total confiança e de plena aceitação. A revelação especial em Cristo e nas Escrituras é consistente, coerente e conclu­siva. Encontramos Cristo através das Escrituras, e estas nos revelam a vida eterna em Cristo. “Estes, porém, foram escri­tos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

     

     

     

  • Lição 4 – Autoridade do Espirito Santo

    Lição 4 – Autoridade do Espirito Santo

    Adoração

    Introdução

    E importante antes de entrarmos na lição com relação a autoridade do Espirito Santo, para sabermos corretamente quem é o Espírito Santo.

    Em primeiro lugar o Espirito Santo é Deus, assim como o Pai e assim como Jesus, ambos possuem os mesmos atributos divinos, e como os demais ele é uma pessoa, e também é fonte de toda autoridade que existe.

    Ele não é simplesmente uma força, podemos dizer que o Espirito Santo, é o executivo da Divindade, operando tanto na esfera física como na moral. Por intermédio do Espírito, Deus criou e preserva o universo. Por meio do Espírito — “o dedo de Deus” (Luc. 11:20) — Deus opera na esfera espiritual, convertendo os pecadores, santificando e sustentando os crentes.

    A obra do Espirito Santo nos dias atuais vai muito além de batizar as pessoas no ou com Espírito Santo, e de a pessoa como evidência do batismo falar linguas estranhas.

    O Espirito Santo hoje é o que dá vida a igreja, e ele que salva, santifica, renova, revela, ajudanos a orar, reveste os crentes de poder e dirige a igreja.

    Jesus antes de subir aos céus prometeu enviar o Consolador o Espirito da Verdade, e ele iria ficar conosco no lugar de Jesus até a consumação dos séculos.

    1.       Autoridade para vivificar

    O Espírito Santo é o que dá a vida, só ele pode vivificar o que está morto, seja dar vida espiritual ao homem para que este tenha relacionamento com Deus.

    E a partir do momento que o homem decide entregar sua vida a Cristo, o Espirito Santo passa a viver dentro dele, e quando a pessoa começa a desenvolver e a crescer neste relacionamento, ela recebe o revestimento de poder, ou o transbordar do Espirito Santo, ou plenitude do Espirito Santo, onde a evidencia física é o magnificar e adorar a Deus em línguas estranhas. Estranha para os homens, mais totalmente entendida por Deus.

    1.1.  Vida física

    Além de atuar no espirito do homem no seu interior o Espirito Santo, também atua no exterior, no corpo pois o corpo é o templo do Espirito Santo.

    É ele que cura as enfermidades, que agirá na ressureição dos mortos e que pelo seu poder seremos arrebatados e teremos nossos corpo serão transformados.

    1.2.  Vida eterna

    O Espirito Santo tem uma atuação, eterna e não temporal ou passageira como alguns querem acreditar, mais ele sempre esteve, está e estará atuando plenamente e eternamente em nossas vidas.

    2.       Autoridade para convencer

    “Todavia, digo-vos a verdade: que vos convém que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviarei e, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo.” (João 16:7-8).

    2.1. Autoridade pela pregação

    Quando pregamos o Evangelho, nós não podemos convencer e muito menos converter ninguém quem age é o Espirito Santo.

    Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos.(Zacarias 4:6).

    A obra do Espírito Santo em nossa vida:

    Ele convence do pecado. Ele revela a natureza do pecado e seu castigo, e leva o homem a reconhecer que é culpado diante de Deus. Guia o pecador a ter fé em Jesus, como Salvador.

    O Espírito Santo veio ao mundo para convencer do pecado (João 16:9).3.2) O Espírito Santo convence o mundo da justiça (João 16:10). O Espírito Santo convence o mundo do juízo vindouro de Deus (João 16:11).

    E em Gálatas 5:22, 23, o apóstolo Paulo dá-nos uma lista de características que nos permitem identificar a presença do Espírito Santo na vida do indivíduo a passagem que geralmente denominamos O FRUTO DO ESPÍRITO.

    2.2. Conhecimento tríplice

    Em João 16.7-11 Jesus descreve a obra do Consolador em relação ao mundo.

    Leiamos: “Todavia, digo-vos a verdade: que vos convém que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviarei. E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para o meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado”.

    São três convencimentos que o Espirito Santo trás ao ser humano vejamos cada um individualmente.

    2.2.1.        Consciência do pecador

    “Do pecado, porque não creem em mim”. O homem tem rejeitado a Jesus. O mundo perverte a Palavra de Deus imputando a Jesus como apenas um profeta, ou como um espírito superior, ou como um filósofo que fala de amor, somente pura Heresia.

    O principal pecado que o ser humano pode, cometer é o de não crer em Jesus, porque para todos os outros pecados a perdão disponível, mais como é o sangue de Jesus é o preço a ser pago, só através dele e que temos a vida eterna.

    Mesmo se fosse possível um ser humano, viver em estado de perfeição e nunca pecar, mais não crer em Jesus, ele seria condenado por ter rejeitado a Cristo. E este é o maior dos pecados.

    E o Espirito Santo é que mostra sempre que há algo de errado em nós é que temos que acertar nossas contas com Deus.

    2.2.2.        Padrão da Justiça de Deus

    “Da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais”.

    O Espírito Santo também nos convence da justiça de Deus. Deus é amor, conforme I João 4 : 8 “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”, mas, Deus é justiça Gálatas 6-7  “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”.

    O amor de Deus não anula a sua Justiça, fiquemos tranquilos ninguém vai ser condenado ao inferno sem merecer e ninguém ira para o céu sem merecer a justiça de Deus e perfeita, muito diferente da justiça dos homens.

    2.2.3.        Juízo Vindouro

    “E do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado”. Satanás é o príncipe deste mundo e já está julgado. E com ele a todos que não creem na Palavra de Deus.

    Como se convencerão as pessoas na autoridade de que o crime será castigado? Pela descoberta do crime e subsequente castigo; em outras palavras, pela demonstração da justiça.

    A cruz foi uma demonstração da verdade de que o poder de Satanás sobre as vidas dos homens foi destruído, e que sua completa ruína foi decretada. Satanás tem sido julgado no sentido que perdeu a grande causa, de modo que já não tem mais direito de reter como escravos, os homens seus súditos. Pela Sua morte Cristo resgatou todos os homens do domínio de Satanás, devendo asses aceitarem sua libertação. Os homens são convencidos pelo Espírito Santo de que na verdade são livres (João 8.36). Já não súditos do tentador; já não são mais obrigados a obedecê-lo, mas, agora, são súditos leais de Cristo, servindo-O voluntariamente no dia do seu poder. Salmo 110.3

    Satanás alegou que lhe cabia o direito de possuir os homens que pecaram, e que o Justo Juiz devia deixá-los sujeitos a ele. O Mediador, Jesus Cristo, por outra parte, apelou para o fato de que Ele, havia levado o castigo do homem tomando assim o seu lugar, e que, portanto, a justiça bem como a misericórdia, exigiam que o direito de conquista de Satanás fosse anulado e que o mundo fosse dado a Ele, o Cristo, que era o seu segundo Adão e Senhor de todas as coisas. O veredito final divino foi contrário ao príncipe deste mundo – e ele foi julgado. Ele já não pode “guardar os seus bens” em paz sendo que Um mais poderoso o venceu (Lc 11.21,22), despojando-o de tudo que possuía. Cl 2.15.

    3.       Submissão à autoridade do Espírito hoje.

    O Espírito Santo é uma autoridade muito íntima que exige a experiência pessoal da Salvação em Jesus Cristo para que possamos entendê-lo e obedecer à sua vontade.

    Você tem permitido que o Espírito Santo te convença ou tem se rebelado à sua voz?

    A Bíblia nos exorta a não apagar o Espírito e aplica a mesma palavra usada para não apagar a fogueira. O Espírito Santo é como um fogo que além de iluminar queima as impurezas. Não apagueis o Espírito – 1 Ts 5.19.

    O Espírito Santo deseja queimar todas as impurezas e as palhas da vida. Cabe ao crente não apagar estas chamas purificadoras: Disse João a todos: Eu, na verdade, vos batizo com água, mas vem o que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. A sua pá, ele a tem na mão, para limpar completamente a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; porém queimará a palha em fogo inextinguível – Lucas 3.16-17.

    3.1.  Transformação necessária

    “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Cor. 3-18).

    É impossível alguém se submeter ao Espirito Santo e não ter uma vida de mudança.

    A transformação envolve a mudança da velha vida de pecado para uma nova vida de obediência a Jesus Cristo. “Pelo que, se alguém esta em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (II Cor. 5-17);

    Aquele que realmente é transformado pelo poder do Espírito Santo esta liberto da escravidão do pecado, e passa a ter uma nova vida, desejando obedecer a Deus e seguir a direção do Espírito Santo.  Quem tem sua vida transformada pelo poder do Espírito Santo, tem também sua mente renovada pelo mesmo poder, assim não vive mais uma vida de pecado e sim uma vida de retidão na presença de Deus.

    Assim podemos dizer que a transformação realizada pelo Espírito Santo, faz nascer uma nova pessoa, não mais com seus desejos carnais, mas sim espirituais, pois é nascida de Deus.

    3.2.  Fidelidade imprescindível

    Quando Paulo relaciona as marcas da vida no Espírito, o apóstolo usa uma palavra (pistis), que significa ao mesmo tempo fé e fidelidade, o que nos aproxima da comparação entre a corrida de velocidade e a corrida de resistência. No caso específico, ele está preocupado com a vida enquanto corrida de longa distância, que também é a vida cristã.

    Aliás, é bastante interessante que toda a lista de Paulo se refere à vida prática, no campo pessoal e no campo comunitário, sem uma conotação evidentemente religiosa. São todas virtudes indispensáveis para a vida que é sempre vida socialmente. Alegria, amor, benignidade, bondade, domínio próprio, longanimidade, mansidão e paz são essencialmente virtudes bidimensionais, realizando-se entre nós e os próximos.

    Fidelidade, também, mas ela vai além, alcançando a tridimensionalidade, pois nos envolve pessoalmente e em nossos relacionamentos com o Deus que nos chama e com os próximos com quem convivemos.

    Ser fiel é ser digno de confiança; leal e firme na devoção e no compromisso; constante na crença. Fiel é quem não duvida de Deus. Fiel é quem não começa com o Espírito e segue a procissão da carne. Fiel é quem começa com Deus e continua caminhando com Ele.

    Fidelidade, portanto, é uma vida marcada por algumas qualidades, das quais quero destacar quatro: exclusividade, verdade, regularidade e persistência.

    A exclusividade é um requerimento básico de Deus no nosso relacionamento com Ele

    Josué destaca a natureza desta exclusividade (Js 24.14-15). É este o tipo de fidelidade como exclusividade que Deus espera de nós. É esta a disposição que Deus espera de nós, a de servir somente a Ele.

    É desta exigência que o marketing contemporâneo derivou uma de suas palavras mais eficientes: fidelização. As marcas esperam que lhes sejamos fiéis. Quanto mais uma marca consegue reter a nossa fidelidade, mas ela vale. É por isto que a marca é mais importante que a empresa. A marca Coca Cola, por exemplo, vale mais que o produto. O segredo da marca não é o segredo da fórmula do seu xarope, mas o sucesso em se manter como a marca mais conhecida no mundo. A marca Bradesco vale mais que todo o dinheiro depositado no banco por seus milhões de correntistas e investidores.

    Fidelizar, portanto, é um neologismo que significa manter fiel o cliente, fiel no sentido de ser o primeiro na mente do consumidor, fiel no sentido de ser considerado o único a satisfazer o desejo do consumidor. As marcas, portanto, querem que nós as sirvamos, num novo tipo de idolatria, diferente daquela que Moisés e Josué enfrentaram.

    Ser fiel, portanto, é ter, no discurso e na prática, Deus e Seu reino como nossa primeira e única escolha. Queremos realmente seguir a Ele? Qual é a nossa resposta? Elias fez a mesma pergunta direta ao povo de Israel: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o”. O comentário do autor bíblico é muito revelador: “O povo nada respondeu” (1Rs 18.21) ao profeta.

    Sempre tendemos a pensar que é possível fazer uma média, achando que podemos servir a Deus e a nós mesmos.

    A verdade é a outra faceta da fidelidade

    Penso que nada ilustra melhor a idéia de fidelidade enquanto verdade do que uma balança. Quando você vai à feira, por exemplo, se pergunta se um quilo pesa mesmo um quilo. Quando você vai numa farmácia conferir seu peso, também se pergunta se a balança está falando a verdade (especialmente se você não concorda com o peso indicado no visor…).

    Um dos sinônimos para verdade é transparência. Com tudo às claras, não dá para enganar. Assim, ser fiel é ser transparente.

    O cristianismo padece com a falta de transparência. Por isto, a oração que todo cristão deve fazer diariamente é a do salmista. No Salmo 26.2, a disposição é: “examina-me, Senhor, e prova-me; sonda-me o coração e os pensamentos”. No Salmo 139.23, o convite é: “Sonda-me, oh Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos”. Em outras palavras, é pedir: ilumine, Senhor, todas áreas da minha vida, para que tudo fique transparente.

    Uma terceira dimensão da fidelidade é a regularidade

    Também na vida cristã há pessoas que oscilam entre a euforia e a apatia. É impressionante vermos estas demonstrações de infidelidade na igreja. Há pessoas que parecem uns vendavais de tão animados. De repente, somem. Há alguns que começam trabalhos a que nunca dão prosseguimento.

    Fidelidade é regularidade. Não adianta ler a Bíblia toda em um mês. Isto pode ser até uma prática para um tempo de euforia, mas o crescimento virá com a leitura constante, cuidadosa, meditativa, realizada anos após anos. É um investimento para a vida toda.

    Não adianta passar dias e noites orando. Isto pode ser próprio para um momento, mas o crescimento virá com aquela oração “sem cessar” (1Ts 5.17) ao longo de toda a vida, num prosseguimento constante para o alvo da perfeição.

    Os irregulares produzem pouco. Quando produzem, destroem o que fizeram. Eles são irregulares porque são motivados por razões erradas. Talvez busquem logo o prêmio por sua fidelidade e por sua disposição.

    Os fiéis colocam-se ao dispor do Espírito Santo e fazem o que Ele orienta. Os frutos surgirão natural e constantemente. Os fiéis são persistentes, persistência que os leva até a mudarem de métodos, nunca de ideais.

    Conclusão

    Não somos capazes de ser fiéis, mas Ele nos capacita. Busquemos viver e andar no Espírito. Neste caminho, segundo a linguagem do Apocalipse, sobrevirão coisas que nos farão sofrer e que nos porão à prova. No entanto, não devemos temer (Ap 2.10).

    Se não gastarmos tempo na presença de Deus, como iremos conhecê-lo? Sua revelação não é mágica; ela se dá pela educação. Paulo foi transformado de uma vez por todas no caminho de Damasco, como cada um de nós que também já experimentou a conversão, mas o apóstolo passou 13 anos meditando e estudando antes de começar seu ministério.

    Se quisermos ser cheios dos Espirito Santo, gastemos tempo com Deus, com o próximo, conosco mesmos. Invistas nesses relacionamentos sobre orientação sempre do Espirito Santo e você terá uma vida abençoada.

  • Lição 3 – Autoridade Redentora de Cristo

    Lição 3 – Autoridade Redentora de Cristo

    cross

    Filipenses 2.5-11

    De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,

    Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,

    Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;

    E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.

    Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;

    Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,

    E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

    1 Timóteo 2.5,6

    Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.

    O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.

    Texto Áureo

    Mateus 28.18

    E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra.

     

    A doutrina do auto-esvaziamento ou kenosis deriva do verbo ἐκένωσεν (aoristo do verbo κενóω = tornar vazio, privar de força, esvaziar, aniquilar), usado em Filipenses 2.7 pelo apóstolo Paulo para identificar a atitude de Cristo de não ter se valido da sua natureza divina, antes dela se auto-esvaziou, assumindo a forma de servo e, tornando-se semelhante aos homens, a si mesmo se humilhou, obedecendo até à morte na cruz.

    Conceituar, explicar a natureza, a extensão e as implicações do auto-esvaziamento não é tarefa fácil, especialmente por estar ligada a dois outros aspectos da Cristologia: a encarnação (o verbo que se fez carne) e a união hipostática (a dupla natureza, divina e humana). Tanto é, que os três assuntos (kenosis, encarnação e união hipostática) têm sido objeto de discussão durante toda a era cristã e, em conjunto, têm servido como base para a formulação de inúmeras teorias.

    Paulo exalta a humildade de Cristo de não ter lançado mão da sua condição de subsistência em forma de Deus, antes ter aberto mão dos direitos divinos que lhe eram implícitos. Cristo não desejou arrebatar ou apoderar-se da igualdade com Deus, mas recusou-se a auferir qualquer vantagem dela decorrente.

    Normalmente, o ser humano vive para satisfazer seus desejos, sonhos e planos e, para tanto, emprega com muito afinco e dedicação sua força, capacidade e talentos. Usar tais atributos para um propósito que exceda seu próprio interesse é muito difícil, mesmo que seja um propósito maior e mais nobre.

    Pensar a mesma coisa, ter o mesmo amor e sentir o mesmo, ser unido na alma, nada fazer por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerar o outro superior e não ter em vista o que é propriamente seu, senão também o que é do outro, tudo isto implica em renúncia, em abrir mão daquilo que muitas vezes reputamos ter de mais valor: ideologias, sentimentos, razão, status e bens.

    Olhando para o exemplo de Cristo, vemos que Ele não renunciou apenas algo que possuía. Ele não renunciou apenas seus interesses, direitos, planos, sonhos ou desejos. Ele renunciou tudo o que era. Ele renunciou seu próprio ser. Ele renunciou sua própria vida e passou a viver não mais para si mesmo, mas para os outros, que sequer mereciam isso.

    Abrir mão dos seus direitos divinos foi condição essencial para que Jesus pudesse desempenhar com sucesso sua missão na terra. Aliás, foi movido por uma astúcia impressionante que satanás tentou o Senhor a transformar pedras em pães (Mt. 4.3). Caso tivesse cedido à proposta maligna, o Senhor teria usado seu poder em benefício próprio, para atender seus interesses, comprometendo o resultado final da missão.

    Ao exortar os crentes a terem o mesmo sentimento de Cristo, Paulo quis mostrar que o cumprimento da missão de anunciar as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9) depende de uma vida que não objetive a satisfação dos interesses pessoais (Gl 2.20), mas os de Cristo.

    Ao esvaziar-se, Cristo assumiu a forma de homem. Ele, que antes era Deus, participante do ato da criação do homem, “rebaixou-se” para assumir a forma de homem.

    É interessante pensar que enquanto Adão, criado à imagem e semelhança de Deus, cedeu à tentação ilusória de tomar para si um direito que não lhe pertencia, que era a igualdade com Deus (Gn 3.1-5), o Deus-Filho abriu mão da sua natureza divina para tornar-se homem, se identificando com a humanidade não redimida. Enquanto Adão buscou a exaltação tentando se tornar divino, Cristo foi exaltado justamente por ter se tornado humano.

    Infelizmente, a humildade de considerar-se inferior aos demais ou de reconhecer a sua posição diante de Deus é uma virtude que tem sido desprezada em nossos dias, sendo cada vez mais rara de ser encontrada, mesmo dentro dos arraiais cristãos.

    É comum encontrarmos pessoas exigindo ou determinando a Deus a concessão de um direito que supostamente possuem. Talvez essas pessoas não tenham percebido que sua atitude pretende reduzir Deus à condição de servo, sempre pronto a atender os caprichos do seu amo.

    O fato de sermos o alvo das bênçãos celestiais conquistadas por Jesus na cruz (Ef. 1.3) não nos dá o direito de exigir algo de Deus. O fato de Deus ter nos amado sobremaneira (Jo 3.16) e seu Filho ter se tornado como um de nós não inverte a relação de senhorio, de modo que O Deus Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra, tenha se tornado um humilde servo da criatura!!

    Talvez muitas pessoas não tenham atentado para o fato de que sua atitude as lança exatamente no mesmo ponto em que Adão estava e que precedeu à queda, ou seja, o desejo de ser como Deus.

    Há ainda outro aspecto da humildade de Cristo e que diz respeito ao exercício de autoridade e poder, segundo o padrão deixado por Cristo. Como a carta aos Filipenses também foi dirigida aos líderes da igreja (1.1), podemos aplicar o exemplo de humildade de Jesus a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, exercem influência sobre a vida de outros no ambiente eclesiástico.

    Conforme registra Mateus 20.25-28, após o pedido da mãe de Tiago e João para que seus filhos se assentassem, um à direita e o outro à esquerda de Jesus em seu Reino, o Mestre ensinou que entre os seus o padrão a ser seguido é: quem quiser tornar-se grande, seja o servo dos demais; e quem quiser ser o primeiro, seja o último.

    Jesus explica que o padrão por Ele adotado em sua missão redentora: Ele veio ao mundo para servir e não para ser servido e, por isso mesmo, Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome que está acima de todo o nome. Um padrão completamente oposto do que temos visto ultimamente, segundo o qual homens autodenominados líderes se valem do poder e autoridade em benefício próprio, almejando serem servidos pelos liderados, enquanto deveriam se dedicar a servi-los.

    Se o próprio Deus deixou a sua glória e se humilhou para se tornar homem, que direito tem o homem de se considerar superior aos seus semelhantes, mesmo que tenha recebido do próprio Deus uma posição proeminente de liderança e autoridade?

    No Reino, não há um homem no centro do poder, mas unicamente o Senhor Jesus, a quem todos devem desejar servir. Qualquer ação diferente é abuso de autoridade e poder e desprezo ao exemplo de humildade deixado por Cristo.

    Filipenses 2.5-11 também fala da humildade de Cristo demonstrada do ato de obedecer até à morte, e morte de cruz. Aliás, a ênfase na morte de cruz revela que ela constituiu um dos pontos mais baixos da humilhação de Jesus. Segundo os padrões da época, não havia experiência mais repugnante e degradante (Dt. 21.22-23 e Gl. 3.13).

    Aqui cabe um alerta: precisamos também compreender que a sujeição à vontade do Pai pode trazer consequências terríveis e grande sofrimento. Basta ver o exemplo de Cristo: humilhação, dor e morte. Estamos prontos a obedecer como Cristo obedeceu? Será que se Deus nos revelar que nosso futuro será de sofrimento, continuaremos dispostos a obedecê-lo? Eis a verdade, que nada tem a ver com a prosperidade e o triunfalismo que vem sendo pregados por aí.

    A vontade do Pai prevaleceu sobre a vontade do Filho (Lc 22.42). Cristo, conhecedor da vontade de Deus, mas sem imposição ou coerção, decidiu se humilhar e obedecer. Ele assim sentiu, assim decidiu e assim o fez e plenamente consciente de que ao fazê-lo, sofreria um castigo que não era seu (Is. 53.5), suportaria a totalidade da ira do Pai (Rm. 5.18) e por Ele seria abandonado (Mt 27.46).

    Com a humilhação, Jesus foi exaltado e recebeu um nome que está sobre todo o nome, diante do qual todos os seres, nos céus e na terra, se dobrarão e toda língua confessará que Ele é o Senhor.

    Interessante pensar que, apesar do texto dizer que Cristo foi sobremaneira exaltado por Deus, a sua obediência não estava condicionada à recompensa da exaltação, embora o próprio Senhor tenha afirmado que os humilhados serão um dia exaltados (Lc. 14.11). Ele simplesmente obedeceu, sem almejar recompensa alguma.

    Entretanto, até mesma a exaltação final e universal de Cristo tem um objetivo bem definido: a glória de Deus Pai (v. 11). Segundo o exemplo e ensino de Cristo, a exaltação pela humilhação é uma consequência natural, mas ela não pode servir como incentivo para a obediência. Esta, pelo contrário, deve ter sempre como objetivo final a glória de Deus.

    Aquele que obedece a Deus pensando em uma recompensa final, aquele que se humilha diante da vontade do Pai almejando ser alvo de exaltação, delas não é digno.

    Humildade que leva à renúncia e à obediência servil: eis o padrão requerido por Deus, o modelo deixado por Cristo Jesus para todos aqueles que o professam como Senhor e Salvador, em todos os lugares e em todos os tempos.

     

     

     

  • Lição 2 – Autoridade Soberana de Deus

    Lição 2 – Autoridade Soberana de Deus

    Deus

    INTRODUÇÃO

    Em parte alguma as Escrituras tratam de provar a existência de Deus mediante provas formais.

    Hebreus   1 1:6   “…   é   necessário   que aquele   que   se   aproxima   de   Deus  creia   que   ele   existe  e   que   se   torna   galardoador   dos   que   o buscam”

    O que se chega a Deus, creia que há Deus”, é o ponto inicial na relação entre o homem e Deus.

    Resposta ao Ateismo – “Eu quero crer em Deus; mostra-me que seja razoável crer nele.”

    1) O universo deve ter uma Primeira Causa ou um Criador. (Argumento cosmológico, da palavra grega “cosmos”, que significa “mundo”.)

    2) O desígnio evidente no universo aponta para uma Mente Suprema. (Argumento teleológico, de “Teleos”, que significa “desígnio ou propósito”.)

    3) A natureza do homem, com seus impulsos e aspirações, assinala a existência de um Governador pessoal. (Argumento antropológico, da palavra grega “anthropos”, que significa “homem”.)

    4) A história humana dá evidências duma providência que governa sobre tudo. (Argumento histórico.)

    5) A crença é universal. (Argumento do consenso comum.)

    1. AUTORIDADE REVELADA NOS SEUS NOMES

    Quem é, e que é Deus? A melhor definição é a que se encontra no Catecismo de Westminster:

    “Deus é Espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade.” A definição bíblica pode formular-se pelo estudo dos nomes de Deus. O “nome” de Deus, nas Escrituras, significa mais do que uma combinação de sons; representa seu caráter revelado. Deus revela-se a si mesmo fazendo-se conhecer ou proclamando o seu nome. (Êxo. 6:3; 33:19; 34:5, 6.) Adorar a Deus é invocar seu nome (Gên. 12:8); temê-lo (Deut. 28:58); louvá-lo (2 Sam. 22:50); glorificá-lo (Sal. 86:9); é sacrilégio tomar seu nome em vão. (Êxo. 20:7), ou profaná-lo ou blasfemá-lo (Lev. 18:21; 24:16). Reverenciar a Deus é santificar ou bendizer seu nome (Mat. 6:9). O nome do Senhor defende o seu povo (Sal. 20:1), e por amor do seu nome não os abandonará (1 Sam. 12:22).

    Os seguintes nomes de Deus são os mais comuns que encontramos nas Escrituras:

    Y AHWEH   e   Y AHWEH   TSEBHAOTH.   É   especialmente   no   nome  Yahweh,  que gradativamente  superou  os  nomes  anteriores,  que  Deus  se   revela   o  Deus  da  graça.   Sempre  foi tido   como   o  mais  sagrado  e  o  mais  distintivo  nome  de  Deus,  o   nome   incomunicável.   Os  judeus temiam supersticiosamente usá-lo, visto que liam Lv 24.16 como segue: “Aquele que mencionar o nome   de  Yahweh  será   morto”.   Daí,   ao   lerem   as   Escrituras,   substituíram-no   por  ‘Adonai  ou   por ‘Elohim;

    Elohim (traduzido “Deus”.) Esta palavra emprega-se sempre que sejam descritos ou implícitos o poder criativo e a onipotência de Deus. Elohim é o Deus-Criador. A forma plural significa a plenitude de poder e representa a trindade.

    Jeová (traduzido “Senhor” na versão de Almeida.) Elohim, o Deus-Criador, não permanece alheio às suas criaturas. Observando Deus a necessidade entre os homens, desceu para ajudá-los e salvá-los; ao assumir esta relação, ele revela-se a si mesmo como Jeová , o Deus da Aliança. O nome JEOVÁ tem sua origem no verbo SER e inclui os três tempos desse verbo — passado, presente e futuro. O nome, portanto significa: Ele que era, que é e que há de ser; em outras palavras, o Eterno. Visto que Jeová é o Deus que se revela a si mesmo ao homem, o nome significa: Eu me manifestei, me manifesto, e ainda me manifestarei.

    O que Deus opera a favor de seu povo acha expressão nos seus nomes, e ao experimentar o povo a sua graça, desse povo então pode dizer-se: “conhecem o seu nome.” A relação entre Jeová e Israel resume-se no uso dos nomes encontrados nos concertos entre Jeová e seu povo. Aos que jazem em leitos de doença manifesta-se-lhes como JEOVÁ-RAFA, “o Senhor que cura” (Êxo. 15:26). Os oprimidos pelo inimigo invocam a JEOVÁ-NISSI, “o Senhor nossa bandeira” Êxo. 17:8-15). Os carregados de cuidados aprendem que ele é JEOVÁ-SHALOM, “o Senhor nossa paz” (Jui. 6:24). Os peregrinos na terra sentem a necessidade de JEOVÁ-RA’AH, “o Senhor meu pastor” (Sal. 23:1). Aqueles que se sentem sob condenação e necessitados da justificação, esperançosamente invocam a JEOVÁ-TSIDKENU, “o Senhor nossa justiça” (Jer. 23:6). Aqueles que se sentem desamparados aprendem que ele é JEOVÁ-JIREH, “o Senhor que provê” (Gên. 22:14). E quando o reino de Deus se houver concretizado na terra, será ele conhecido como JEOVÁ-SHAMMAH, “o Senhor está ali” (Ezeq. 48:35).

    El (Deus) é usado em certas combinações: EL-ELYON (Gên. 14:18-20), o “Deus altíssimo”, o Deus que é exaltado sobre tudo o que se chama deus ou deuses. EL-SHADDAI, “o Deus que é suficiente para as necessidades do seu povo” (Êxo. 6:3). EL-OLAM, “o eterno Deus” (Gên. 21:33).

    Adonai significa literalmente “Senhor” ou “Mestre” e dá a idéia de governo e domínio. (Êxo. 23:17; Isa. 10:16, 33.) Por causa do que Deus é e do que tem feito, ele exige o serviço e a lealdade do seu povo.Este nome no Novo Testamento aplica-se ao Cristo glorificado.

    Pai, emprega-se tanto no Antigo como no Novo Testamento. Em significado mais amplo o nome descreve a Deus como sendo a Fonte de todas as coisas e Criador do homem; de maneira que, no sentido criativo, todos podem considerar-se geração de Deus. (Atos 17:28.) Todavia, esta relação não garante a salvação. Somente aqueles que foram vivificados e receberam nova vida pelo seu Espírito são seus filhos no sentido intimo da salvação. (João 1:12, 13.).

    1. A AUTORIDADE REVELADA EM SEUS ATRIBUTOS

    Sendo Deus um ser infinito, é impossível que qualquer criatura o conheça exatamente como ele é. No entanto, ele bondosamente revelou-se mediante linguagem compreensível a nós. São as Escrituras essa revelação. Por exemplo, Deus diz acerca de si mesmo: “Eu sou Santo”; portanto, podemos afirmar: Deus é Santo. A santidade, então, é um atributo de Deus, porque a santidade é uma qualidade que podemos atribuir ou aplicar a ele. Dessa forma, com a ajuda da revelação que Deus deu de si mesmo, podemos regular os nossos pensamentos acerca de Deus. Qual a diferença entre os nomes de Deus e os seus atributos? Os nomes de Deus expressam as qualidades do seu ser inteiro, enquanto os seus atributos indicam vários aspectos do seu caráter. Muito se pode dizer de um ser tão grande como Deus, mas facilitaremos a nossa tarefa se classificar os seus atributos.

    Compreender a Deus em sua plenitude seria tão difícil como encerrar o Oceano Atlântico numa xícara; mas ele se tem revelado a si mesmo o suficiente para esgotar a nossa capacidade. A classificação seguinte talvez nos facilite a compreensão: 1. Atributos sem relação entre si, ou seja, o que Deus é em si próprio, à parte da criação. Estes respondem à pergunta: quais são as qualidades que caracterizavam a Deus antes que alguma coisa existisse? 2. Atributos ativos, ou seja, o que Deus é em relação ao universo. 3. Atributos morais, ou seja, o que Deus é em relação aos seres morais por ele criados.

    1. Atributos não relacionados (a natureza íntima de Deus).

    Espiritualidade. Deus é Espírito. (João 4:24). Deus é Espírito com personalidade; ele pensa, sente e fala; portanto, pode ter comunhão direta com suas criaturas feitas à sua imagem.

    Sendo Espírito, Deus não está sujeito as limitações às quais estão sujeitos os seres humanos dotados de corpo físico. Ele não possui partes corporais nem está sujeito às paixões; sua pessoa não se compõe de nenhum elemento material, e não está sujeito às condições de existência natural. Portanto, não pode ser visto com os olhos naturais nem apreendido pelos sentidos naturais. Isto não implica que Deus leve uma existência sombria e irreal, pois Jesus se referiu à “forma” de Deus. (João 5:37; vide Fil. 2:6.) Deus é uma Pessoa real, mas de natureza tão infinita que não se pode apreendê-lo plenamente pelo conhecimento humano, nem tampouco satisfatoriamente descrevê-lo em linguagem humana. “Ninguém jamais viu a Deus”, declara o apóstolo João (João 1:18; vide Êxo. 33:20); no entanto, em Êxo. 24:9,10 lemos que Moisés, e certos anciãos, “viram a Deus”. Nisto não há contradição; João quer dizer que nenhum homem jamais viu a Deus como ele é. Mas sabemos que o Espírito pode manifestar-se em forma corpórea (Mat. 3:16); portanto, Deus pode manifestar-se duma maneira perceptível ao homem. Deus também descreve a sua personalidade infinita em linguagem compreensível às mentes finitas; portanto, a Bíblia fala de Deus como ser que tem mãos, braços, olhos e ouvidos, e descreve-o como vendo, sentindo, ouvindo, arrependendo-se, etc. Mas Deus também é insondável e inescrutável. “Porventura… chegarás à perfeição do Todo-poderoso?” (Jo 11:7) — e nossa resposta só pode ser: “não temos com que tirar, e o poço é fundo” (João 4:11), usando a expressão da mulher samaritana.

    Infinitude. Deus é Infinito, isto é, não está sujeito às limitações naturais e humanas. A sua infinitude é vista de duas maneiras: (1) em relação ao espaço. Deus caracteriza-se pela imensidade (1 Reis 8:27); isto é, a natureza da Divindade está presente de modo igual em todo o espaço infinito e em todas as suas partes. Nenhuma parte existente está separada da sua presença ou de sua energia, e nenhum ponto do espaço escapa à sua influência. “Seu centro está em toda parte e sua circunferência em parte nenhuma.” Mas, ao mesmo tempo, não devemos esquecer que existe um lugar especial onde sua presença e glória são reveladas duma maneira extraordinária; esse lugar é o céu. (2) Em relação ao tempo, Deus é eterno. (Êxo. 15:18; Deut. 33:27; Nee. 5:5; Sal. 90:2; Jer. 10:10; Apoc. 4:8-10.) Ele existe desde a eternidade e existirá por toda a eternidade. O passado, o presente e o futuro são todos como o presente à sua compreensão. Sendo eterno, ele é imutável — “o mesmo ontem, hoje, e eternamente”. Esta é para o crente uma verdade confortadora, podendo assim descansar na confiança de que “O Deus da antiguidade é uma morada, e por baixo estão os braços eternos” (Deut. 33:27).

    Unidade. Deus é o único Deus. (Êxo. 20:3; Deut. 4:35,39; 6:4; 1 Sam. 2:2; 2 Sam. 7:22; 1 Reis 8:60; 2 Reis 19:15; Nee. 9:6; Isa. 44:6-8; 1 Tim. 1:17.) “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.” Era esse um dos fundamentos da religião do Antigo Testamento, sendo também essa a mensagem especial a um mundo que adorava a muitos deuses falsos. Haverá contradição entre este ensino da unidade de Deus e o ensino da Trindade do Novo Testamento? É necessário distinguir entre duas qualidades de unidade — unidade absoluta e unidade composta. A expressão “um homem” traz a idéia de unidade absoluta, porque se refere a uma só pessoa. Mas quando lemos que homem e mulher serão “uma só carne” (Gên. 2:24), essa é uma unidade composta, visto que se refere à união de duas pessoas. Vide também Esd. 3:1; Ezeq. 37:17; estas referências bíblicas empregam a mesma palavra para significar “um só” (“echad” na língua hebraica) como se usa em Deut. 6:4. Existe outra palavra (“yachidh” no hebraico) que se usa para exprimir a idéia de unidade absoluta. (Gên. 22:2, 12; Amós 8:10; Jer. 6:26; Zac. 12:10; Prov. 4:3; Jui. 11:34.) A qual classe de unidade se refere Deut. 6:4? Pelo fato de a palavra “nosso Deus” estar no plural (ELOHIM no hebraico), concluímos que se refere à unidade composta. A doutrina da Trindade ensina a unidade de Deus como unidade composta, inclusive de três Pessoas Divinas unidas na essencial unidade eterna.

    2. Atributos ativos (Deus e o universo).

    Onipotência. Deus é onipotente. (Gên. 1:1; 17:1; 18:14; Êxo. 15:7; Deut. 3:24; 32:39; 1 Crôn. 16:25; Jo 40:2; Isa. 40:12-15; Jer. 32:17; Ezeq. 10:5; Dan. 3:17;4:35; Amós 4:13; 5:8; Zac. 12:1; Mat. 19:26; Apoc. 15:3; 19:6.) A onipotência de Deus significa duas coisas:

    1) Sua liberdade e poder para fazer tudo que esteja em harmonia com a sua natureza. “Pois para Deus nada será impossível.” Isto naturalmente não significa que ele possa ou queira fazer alguma coisa contrária à sua própria natureza — por exemplo, mentir ou roubar; ou que faria alguma coisa absurda ou contraditória em si mesma, tal como fazer um circulo triangular, ou fazer água seca.

    2) Seu controle e sabedoria sobre tudo que existe ou que pode existir. Mas sendo assim, por que se pratica o mal neste mundo? É porque Deus dotou o homem de livre arbítrio, cujo arbítrio Deus não violará; portanto, ele permite os atos maus, mas com um sábio propósito de, finalmente, dominar todo o mal. Somente Deus é Todo-poderoso e até mesmo Satanás nada pode fazer sem a sua permissão. (Vide Jó caps. 1 e 2.) Toda a vida é sustentada por Deus. (Heb. 1:3; Atos 17:25, 28; Dan. 5:23.) A existência do homem é qual som de nota de harmônio que soa enquanto os dedos comprimem as teclas. Assim, sempre que a pessoa peca, está usando o poder do próprio Criador para ultrajá-lo. Todo pecado é um insulto contra Deus.

    Onipresença. Deus é onipresente, isto é, o espaço material não o limita em ponto algum. (Gên. 28:15, 16; Deut. 4:39; Jos. 2:11; Sal. 139:7-10; Prov. 15:3,11; Isa. 66:1; Jer. 23:23,24; Amós 9:2-4,6; Atos 7:48,49; Efés. 1:23.)

    Qual a diferença entre imensidade e onipresença? Imensidade é a presença de Deus em relação ao espaço, enquanto onipresença é sua presença considerada em relação às criaturas. Para suas criaturas ele está presente nas seguintes maneiras:

    1) Em glória, para as hostes adoradoras do céu. (Isa. 6:1-3.)

    2) Eficazmente, na ordem natural. (Naúm 1:3.)

    3) Providencialmente, nos assuntos relacionados com os homens. (Sal. 68:7, 8.)

    4) Atentamente, àqueles que o buscam. (Mat. 18:19, 20; Atos 17:27.)

    5) Judicialmente, às consciências dos ímpios. ( Gên. 3:8; Sal. 68:1, 2.) O homem não deve iludir-se com o pensamento de que existe um cantinho no universo onde possa escapar à lei do seu Criador. “Se o seu Deus está em toda parte, então deve estar também no inferno”, disse um chinês a um cristão na China. “Sua ira sim está no inferno”, foi a pronta resposta.

    6) Corporalmente em seu Filho. “Deus conosco” (Col. 2:9).

    7) Misticamente na igreja. (Efés. 2:12-22.)

    8) Oficialmente, com seus obreiros. (Mat. 28:19, 20.) Embora Deus esteja em todo lugar, ele não habita em todo lugar. Somente ao entrar em relação pessoal com um grupo ou com um indivíduo se diz que ele habita com eles.

    Onisciência. Deus é onisciente, porque conhece todas as coisas. (Gên. 18:18,19; 2 Reis 8:10,13; 1 Crôn. 28:9; Sal. 94:9; 139:1-16; 147:4-5; Prov. 15:3; Isa. 29:15,16; 40:28; Jer. 1:4-5; Ezeq. 11:5; Dan.2:22,28; Amós 4:13; Luc. 16:15; Atos 15:8, 18; Rom. 8:27, 29; 1 Cor. 3:20; 2 Tim. 2:19; Heb. 4:13; 1 Ped. 1:2; 1 João 3:20.) O conhecimento de Deus é perfeito, ele não precisa arrazoar, ou pesquisar as coisas, nem aprender gradualmente — seu conhecimento do passado, do presente e do futuro é instantâneo.

    Há grande conforto na consideração deste atributo. Em todas as provas da vida o crente tem a certeza de que “vosso Pai celestial sabe” (Mat. 6:8). A seguinte dificuldade se apresenta a alguns: sendo Deus conhecedor de todas as coisas, ele sabe quem se perderá; portanto, como pode essa pessoa evitar o perder-se? Mas a presciência de Deus sobre o uso que a pessoa fará do livre arbítrio não obriga a escolher este ou aquele destino. Deus prevê sem intervir.

    Sabedoria. Deus é sábio. (Sal. 104:24; Prov. 3:19; Jer. 10:12; Dan. 2:20,21; Rom. 11:33; 1 Cor. 1:24, 25, 30; 2:6, 7; Efés. 3:10; Col. 2:2, 3.) A sabedoria de Deus reúne a sua onisciência e sua onipotência. Ele tem poder para levar a efeito seu conhecimento de tal maneira que se realizem os melhores propósitos possíveis pelos melhores meios possíveis. Deus sempre faz o bem de maneira certa e no tempo certo. “Ele fez tudo bem.” Esta ação da parte de Deus, de organizar todas as coisas e executar a sua vontade no curso dos eventos com a finalidade de realizar o seu bom propósito, chama-se Providência. A divina providência geral relaciona-se com o universo como um todo; sua providência particular relaciona-se com os detalhes da vida do homem.

    Soberania. Deus é soberano, isto é, ele tem o direito absoluto de governar suas criaturas e delas dispor como lhe apraz. (Dan. 4:35; Mat. 20:15; Rom. 9:21.) Ele possui esse direito em virtude de sua infinita superioridade, de sua posse absoluta de todas as coisas, e da absoluta dependência delas perante ele para que continuem a existir. Desta maneira, tanto é insensatez, como transgressão, censurar os seus caminhos. Observa D. S. Clarke: A doutrina da soberania de Deus é uma doutrina muito útil e animadora. Se fosse para escolher, qual seria preferível — ser governado pelo fatalismo cego, pela sorte caprichosa, pela lei natural irrevogável, pelo “eu” pervertido e de curta visão, ou ser governado por um Deus sábio, santo, amoroso e poderoso? Quem rejeita a soberania de Deus, pode escolher ser governado dentre o que sobra.

    3. Atributos morais (Deus e as criaturas morais).

    Passando em revista o registro das obras de Deus para com os homens, aprendemos que:

    Santidade. Deus é santo. (Êxo. 15:11; Lev. 11:44, 45; 20:26; Jos. 24:19; l Sam. 2:2; Sal. 5:4; 111:9; 145:17; Isa. 6:3; 43:14,15; Jer. 23:9; Luc. 1:49; Tia. 1:13; 1 Ped. 1:15, 16; Apoc. 4:8; 15:3, 4.) A santidade de Deus significa a sua absoluta pureza moral; ele não pode pecar nem tolerar o pecado. O sentido original da palavra “santo” é “separado”. Em que sentido está Deus separado? Ele está separado do homem no espaço — ele está no céu, o homem na terra. Ele está separado do homem quanto à natureza e caráter — ele é perfeito, o homem é imperfeito; ele é divino, o homem é humano; ele é moralmente perfeito, o homem é pecaminoso. Vemos, então, que a santidade é o atributo que mantém a distinção entre Deus e a criatura. não denota apenas um atributo de Deus, mas a própria natureza divina. Portanto, quando Deus se revela a si mesmo de modo a impressionar o homem com a sua Divindade, diz-se que ele se santificou (Ezeq. 36:23; 38:23), isto é, “revela-se a si mesmo como o Santo”. Quando os serafins descrevem o resplendor divino que emana daquele que está sentado sobre o trono, exclamam: “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos” (Isa. 6:3). Diz-se que os homens santificam a Deus quando o honram e o reverenciam como Divino. (Num. 20:12; Lev. 10:3; Isa. 8:13.) Quando o desonram, pela violação de seus mandamentos, se diz que “profanam” seu nome — que é o contrário de santificar seu nome. (Mat. 6:9.) Somente Deus é santo em si mesmo. Descrevem-se desta maneira o povo, os edifícios, e objetos santos porque Deus os fez santos e os tem santificado. A palavra “santo”, quando se aplica a pessoas ou a objetos, é termo que expressa relação com Jeová — pelo fato de estar separado para o seu serviço. Sendo separados, os objetos precisam estar limpos; e as pessoas devem consagrar-se e viver de acordo com a lei da santidade. Esses fatos constituem a base da doutrina da santificação.

    Justiça. Deus é justo. Qual a diferença entre a santidade e a justiça? “A justiça é santidade em ação”, esta é uma das respostas. A justiça é a santidade de Deus manifesta no tratar retamente com suas criaturas. “não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gên. 18:25). A justiça é obediência a uma norma reta; é conduta reta em relação a outrem. Quando é que Deus manifesta este atributo?

    1) Quando livra o inocente, condena o ímpio e exige que se faça justiça. Deus julga, não como o fazem os juízes modernos, que baseiam seu julgamento sobre a evidência apresentada perante eles por outrem. Deus mesmo descobre a evidência. Desta maneira o Messias, cheio do Espírito Divino, não julgará “segundo a vista dos seus olhos, nem reprovar segundo o ouvir dos seus ouvidos”, mas julgará com justiça. (Isa. 11:3.)

    2) Quando perdoa o penitente. (Sal. 51:14; 1 João 1:9; Heb. 6:10.)

    3) Quando castiga e julga seu povo. (Isa. 8:17; Amós 3:2.)

    4) Quando salva seu povo. A interposição de Deus a favor do seu povo se chama sua justiça. (Isa. 46:13; 45:24,25.) A salvação é o lado negativo, a justiça é o positivo. Ele livra seu povo dos seus pecados e de seus inimigos, e o resultado é a retidão de coração. (Isa. 51:6; 54:13; 60:21; 61:10.)

    5) Quando dá vitória à causa de seus servos fiéis. (Isa. 50:4-9.) Depois de Deus haver libertado seu povo e julgado os ímpios então teremos “novos céus e uma nova terra, em que habita a justiça” (2 Pedro 3:13). Deus não somente trata justamente como também requer justiça. Mas que sucederá no caso de o homem haver pecado? Então ele graciosamente justifica o penitente. (Rom. 4:5.) Esta é a base da doutrina da justificação.Notar-se-á que a natureza divina é a base das relações de Deus para com os homens. Como ele é, assim ele opera. O Santo santifica, o Justo justifica.

    Fidelidade. Deus é fiel. Ele é absolutamente digno de confiança; as suas palavras não falharão. Portanto, seu povo pode descansar em suas promessas. (Êxo. 34:6; Num. 23:19; Deut. 4:31; Jos. 21:43-45; 23:14; 1 Sam. 15:29; Jer. 4:28; Isa. 25:1; Ezeq. 12:25; Dan. 9:4; Miq. 7:20; Luc. 18:7,8; Rom. 3:4; 15:8; 1 Cor. 1:9; 10:13; 2 Cor. 1:20; 1Tess. 5:24; 2 Tess. 3:3; 2 Tim. 2:13; Heb. 6:18; 10:23; 1 Ped. 4:19; Apoc. 15:3.)

    Misericórdia. Deus é misericordioso. “A misericórdia de Deus é a divina bondade em ação com respeito às misérias de suas criaturas, bondade que se comove a favor deles, provendo o seu alivio, e, no caso de pecadores impenitentes, demonstrando paciência longânima” (Hodges). (Tito 3:5; Lam. 3:22; Dan. 9:9; Jer. 3:12; Sal. 32:5; Isa. 49:13; 54:7.) Uma das mais belas descrições da misericórdia de Deus encontra-se no Salmo 103:8-18. O conhecimento de sua misericórdia toma-se a base da esperança (Sal. 130:7) como também da confiança (Sal. 52:8). A misericórdia de Deus manifestou-se de maneira eloqüente ao enviar Cristo ao mundo. (Luc. 1:78.)

    Amor. Deus é amor. O amor é o atributo de Deus em razão do qual ele deseja relação pessoal com aqueles que possuem a sua imagem e, mui especialmente, com aqueles que foram santificados em caráter, feitos semelhantes a ele. Notamos a descrição do amor de Deus (Deut. 7:8; Efés. 2:4; Sof. 3:17; Isa. 49:15, 16; Rom. 8:39; Osé. 11:4; Jer. 31:3); notamos a quem é manifestado (João 3:16; 16:27; 17:23; Deut. 10:18); notamos como foi demonstrado (João 3:16; 1 João 3:1; 4:9, 10; Rom. 9:11-13; Isa. 38:17; 43:3, 4; 63:9; Tito 3:4-7; Efés. 2:4, 5; Osé. 11:4; Deut. 7:13; Rom. 5:5).

    Bondade. Deus é bom. A bondade de Deus é o atributo em razão do qual ele concede vida e outras bênçãos às suas criaturas. (Sal. 25:8; Naúm 1:7; Sal. 145:9;Rom. 2:4; Mat. 5:45; Sal. 31:19; Atos 14:17; Sal. 68:10; 85:5.)