Quando mencionamos o ministério da pregação, essas mesmas pessoas não apelam para o ceticismo e avisam: “Você sabia que Satanás também prega?” Sim, ele realmente prega, e no texto que estamos vendo, as palavras dele estão em total concordância com a fé cristã. Que tal agora? O ministério da pregação é muito mais normal e comum do que o ministério de milagres. Por isso, como é que essa gente não levanta o assunto de pregação demoníaca, fazendo de um jeito que desvalorize e mine o ministério da pregação? Como é que eles não fazem objeções às pregações? Não basta testar o conteúdo para ver se há doutrina falsa, pois o que a jovem vidente disse estava em total acordo com os apóstolos. Então por que é que essa gente não rejeita as pregações, nem fica paranoica sobre como testar as pregações, inclusive sobre pregações que estejam em total acordo com a fé cristã? É porque eles têm suas próprias agendas pessoais e teológicas. Eles não estão interessados em preservar a integridade de um ministério de milagres, mas em minar todos os milagres porque eles mesmos não têm o poder para ter e viver tal ministério. Eles são uma raça de hipócritas sem fé.
Categoria: Pentecostal
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O diabo também prega
Vincent Cheung“E aconteceu que, indo nós para o lugar de oração, nos saiu ao encontro uma jovem escrava que estava tomada por um espírito que a usava para prognosticar eventos futuros. Dessa forma, ela arrecadava muito dinheiro para seus senhores, por meio de advinhações. Seguindo a Paulo e a nós, vinha essa moça gritando diante de todos: ‘Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação!’ E ela insistiu em agir assim por vários dias. Finalmente, Paulo irritou-se com aquela atitude e dirigindo-se ao espírito o repreendeu, exclamando: ‘Ordeno a ti em Nome de Jesus Cristo, retira-te dela!’ E ele, naquele mesmo instante, saiu.” (Atos 16:16-18 KJA)A jovem fala por um espírito maligno, mas suas palavras estão de acordo com a fé cristã: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação!” Alguns cristãos têm prazer em nos fazer recordar que Satanás também realiza milagres para distrair e enganar as pessoas, afastando-as da verdade de Jesus Cristo. Essa é uma questão legítima quando é discutida entre cristãos que continuam a crer e agir no poder de Deus, e essa questão já foi resolvida. Contudo, os que têm muito entusiasmo de fazer declarações sobre a capacidade de Satanás muitas vezes mencionam isso para desvalorizar ou minar as manifestações do Espírito Santo que continuam, ou até mesmo como uma objeção a essas manifestações. Quando o assunto é iniciado a partir dessa perspectiva, parece muito absurdo, e leva-nos a suspeitar da motivação e inteligência dos que fazem tais objeções.Não se pode usar a ideia de que Satanás pode realizar alguns milagres para promover o cessacionismo ou desvalorizar ou minar um ministério cristão de milagres de forma alguma. O próprio Jesus era atacado a partir desse ponto de vista. Os inimigos dele diziam que ele estava possesso de demônios, e que ele expulsava demônios pelo príncipe dos demônios. Há alguns hoje que em vez de admitirem que o cessacionismo é uma doutrina falsa, preferem insistir, com prazer e sem demora alguma, que um milagre de cura foi realizado por Satanás. Jesus respondeu que Satanás não expulsa Satanás, e os avisou com relação à blasfêmia contra o Espírito Santo. Em outra parte, muitas pessoas disseram de Jesus: “Ele tem um demônio e enlouqueceu. Por que vós o escutais?” (João 10:19-20 KJA), mas outros tinham conhecimento muito melhor e responderam: “Essas palavras não são de alguém que tem um demônio. Pode, porventura, um demônio abrir os olhos dos cegos?” (v. 21).A ideia de que Satanás pode realizar milagres não tem nenhuma relevância para a questão de se os dons miraculosos do Espírito continuam ou não hoje, mas é uma questão a ser discutida depois que essa outra questão tiver sido presumida ou resolvida. Se presumem que não existe mais um ministério de milagres, isso significa que todos os milagres modernos realizados por meio de homens são de Satanás, que não existe nenhuma defesa miraculosa contra esses milagres, e que nossa principal resposta é condenar verbalmente e, onde for apropriado, aplicar disciplina eclesiástica. Mas se presumem que existe ainda um ministério de milagres hoje, então o fato de que Satanás pode realizar alguns milagres, mesmo por meio de homens, é uma questão a ser tratada sob a concepção de que o Espírito Santo continua a realizar milagres por meio dos discípulos de Jesus Cristo.Por isso, nossa resposta deve incluir ensinos sólidos sobre o assunto de dons espirituais, normas sobre o uso desses dons e testes nas manifestações espirituais, e também a possibilidade de defesas miraculosas contra poderes demoníacos. A resposta ao poder sobrenatural demoníaco é maior poder sobrenatural divino. A Bíblia descreve muitos encontros de poder, onde o poder miraculoso de Deus esmagou o poder de Satanás. Considere o confronto entre Moisés e os mágicos, entre Elias e os falsos profetas, entre Jesus e os possessos de demônios, entre Felipe e Simão, entre Paulo e Elimas, e entre Paulo e essa jovem com o espírito maligno no texto que estamos lendo. Paulo expulsou o espírito de adivinhação, e a moça perdeu sua capacidade. Essa é a resposta bíblica aos milagres de Satanás. A solução não é negação, mas discernimento e controle.Se a ideia de que Satanás pode realizar milagres for de alguma maneira levantada contra o próprio ministério cristão de milagres, então a ideia de que Satanás pode pregar deve do mesmo jeito ser levantada contra o ministério cristão da pregação. Isto é, se disserem “Satanás também realiza milagres” de um jeito que desvaloriza ou mina o ministério cristão de milagres, então eles têm também a obrigação de dizer “Satanás também prega” de um jeito que desvalorize ou mine o ministério da pregação. Se não dá para de alguma forma contestar o ministério da pregação, então não dá também para de alguma forma contestar o ministério de milagres. E se confessarem que a intenção não é minar a pregação, mas apenas tratar da necessidade de discernimento, então o mesmo princípio tem de se aplicar ao ministério de milagres.A Bíblia é completa, suficiente e definitiva, e declara que há uma manifestação do Espírito Santo que capacita o cristão a discernir ou distinguir entre espíritos. Portanto, em face das pregações e milagres demoníacos, a resposta completa, suficiente e definitiva é que há um dom sobrenatural de Deus que capacita o cristão a perceber a verdade, a expor o falso, e expulsar os poderes malignos. O cessacionismo é uma ameaça muito maior do que o demônio que possuiu e falou por meio da jovem que fazia adivinhação, pois o cessacionismo rejeita a resposta completa, suficiente e definitiva de Deus sobre o assunto. Pelo Espírito Santo, temos o poder de lidar com os demônios, mas o cessacionismo tenta neutralizar a solução de Deus.A moça que fazia adivinhações falava palavras que estavam de acordo com a fé cristã, mas ela falava por um espírito demoníaco; da mesma forma, os cessacionistas afirmam que defendem a sã doutrina, mas falam por um espírito de incredulidade e tradição, e muitas vezes um espírito de ódio e assassinato. Eles afirmam que a Bíblia é completa, suficiente e definitiva, mas quando afirmam que o ministério de milagres cessou, eles introduzem uma nova doutrina, pois a Bíblia não ensina o cessacionismo. Aliás, os cessacionistas afirmam que têm uma nova revelação que revoga a revelação que já existe.Quando Paulo escreve que “o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz” (2 Coríntios 11:14, KJA), ele está alertando seus leitores acerca de falsos apóstolos. Entretanto, com sua declaração ele não está minando os ministérios dos apóstolos ou as manifestações de anjos. Pelo contrário, pelo fato de que Satanás assim se disfarça, precisamos exercer o discernimento quando nos encontrarmos com aqueles que afirmam ser apóstolos ou quando experimentarmos visões de anjos.Mas preste atenção! Ele escreve que os agentes de Satanás também se disfarçam de servos de justiça (v. 15). Cristãos, tomem cuidado, pois aí vem Satanás como teólogo cessacionista!Traduzido do inglês por Julio Severo do capítulo 7 do livro “Sermonettes” (volume 7), de Vincent Cheung.Fonte: www.juliosevero.com -

Os Dons cessaram, veja a incoerência dos cessacionistas
Você crê que os dons espirituais ainda existem na Igreja? Saiba, porém, que há Teólogos que não acreditam assim. O que eles entendem é que, principalmente, os dons sobrenaturais não são mais distribuídos, pelo Espírito Santo, aos crentes. Por isso, esses teólogos são chamados de cessacionistas e a teologia que eles defendem é conhecida por cessacionismo.Boa parte desses cessacionistas são calvinistas, que são os teólogos pertencentes à Igreja Presbiteriana. Os calvinistas são conhecidos por defenderem o princípio da Sola Scriptura, que é aquela doutrina que ensina que as verdades referentes ao cristianismo apenas podem ser extraídas da Bíblia. Por isso a expressão, que significa “apenas as Escrituras”.Ora, de teólogos que defendem que a Bíblia é a única fonte confiável para conhecermos as verdades da fé, o mínimo que se espera é que seus ensinamentos sejam baseados única e exclusivamente na Palavra de Deus.Porém, o que vamos observar é que no caso de decidir se os dons sobrenaturais ainda existem na Igreja, esses teólogos se baseiam muito mais em suas próprias formas de ver as coisas do que no que está escrito na Palavra de Deus.Dito de uma maneira bem simples, podemos afirmar que os cessacionistas ensinam que aqueles dons sobrenaturais listados pelos apóstolo Paulo em I Coríntios 12 não são mais distribuídos, pelo Espírito Santo, aos crentes, porque esses dons eram apenas importantes para aquele momento histórico, não mais para hoje. Isso porque, segundo esses teólogos, os dons sobrenaturais tinham a função de autenticar a mensagem do Novo Testamento, mostrando para as pessoas o poder de Deus por meio deles. O que esses doutrinadores querem dizer é que os dons sobrenaturais serviam como uma forma de Deus provar que a palavra que estava sendo pregada pelos apóstolos era verdadeira.A conclusão óbvia desse raciocínio é que se os dons sobrenaturais serviam apenas para autenticar a mensagem do Novo Testamento, e se este já está fechado em seu cânone, então aqueles dons não são mais necessários para a Igreja.O problema desse raciocínio é que não há, em toda a Bíblia, qualquer passagem que afirme que os dons serviam para autenticar a mensagem pregada pelos apóstolos. De forma bem diferente, em I Coríntios 14.12 está escrito que, em relação aos dons, os crentes devem “abundar neles, para edificação da igreja”.É importante observar que, nessa passagem, Paulo está pregando para uma igreja gentia, localizada fora do ambiente judaico e distante dos apóstolos. Por isso, quando ele fala dos dons, é óbvio que não pode estar se referindo a algo ligado à pregação apostólica, mas a algo ligado ao dia-a-dia da própria Igreja. O texto de Coríntios não faz relação alguma entre os dons e a mensagem apostólica, nem deixa sequer subentendido que eles existem para autenticar a pregação da revelação do Novo Testamento.Então, como os cessacionistas chegam à conclusão de que os dons sobrenaturais não são para a Igreja de hoje?É nesse ponto que enxergo a incoerência deles, pois, ao mesmo tempo que, sendo calvinistas, eles têm como uma de suas maiores bandeiras a exclusividade da Bíblia como fonte de doutrina, nesse caso específico do cessacionismo, a principal razão para eles não crerem que os dons espirituais ainda existem na Igreja não são as Escrituras, mas algo muito mais subjetivo: a própria experiência deles.O pastor presbiteriano Misael Nascimento, por exemplo, em seu artigo Porque sou cessacionista, já, logo de início, confessa que seu texto não é resultado “de cogitações teóricas de gabinete, mas de prática pastoral”. Isso quer dizer que sua negação à atualidade da existência dos dons sobrenaturais está baseada mais em sua própria experiência do que em um raciocínio fundamentado nas Escrituras.O problema é que se for para seguir esse método escolhido por ele, o que impediria qualquer pessoa de, também com base em sua própria experiência, chegar à conclusão do contrário, ou seja, de que os dons permanecem, sim, no meio da Igreja? Se alguém pode se filiar à convicção do pastor Misael, que é cessacionista, baseando-se tão somente em sua experiência pastoral, da mesma maneira pode aceitar a conviccão do pastor Jack Deere, autor do livro “Surpreendido pela voz de Deus”, que crê, também sustentado por sua experiência pastoral, que os dons permenecem, sim, sendo distribuídos aos crentes, no cotidiano da Igreja.O que eu quero dizer é que, com base nas experiências pessoais, é possível chegar a todo tipo de conclusão. Só que isso torna a doutrina cristã muito incerta. Se cada pessoa criar doutrinas baseadas em suas próprias experiências, imagine quantas teologias existirão por aí!O mais irônico disso tudo é que são eles, os calvinistas cessacionistas, os que mais defendem uma teologia rígida, fundamentada em uma interpretação restrita da Bíblia. Esses mesmos, que no caso dos dons sobrenaturais, concluem pela sua não existência na igreja de hoje, alicerçados não na Palavra, mas naquilo que eles próprios dizem observar.O próprio pastor Misael, para justificar a doutrina que defende, faz uso de tudo: de documentos presbiterianos, como a Confissão de Westminster e decisões conciliares e até da experiência prática de outros ministros de sua denominação. Na verdade, do que ele menos faz uso, neste caso, é da Bíblia, o que não combina muito com a tradição calvinista.Essa postura que observei no pastor Misael poderia ser apenas uma exceção se eu também não a tivesse observado em outro grande nome da Igreja Presbiteriana brasileira, que é o pastor Augustus Nicodemus. Este, através de uma entrevista fictícia sobre o tema do cessacionismo, justifica sua convicção de que os dons sobrenaturais não são para a Igreja da atualidade com base muito mais em suas interpretações teológicas livres, do que naquilo que está escrito na Palavra de Deus.Em síntese, o pastor afirma que alguns dons espirituais cessaram de ser distribuídos, pelo Espírito Santo, porque eles serviram para atender aos própositos de Deus somente para aquela época da pregação dos apóstolos. Para justificar essa ideia, afirma que Deus age de maneiras diferentes em tempos diferentes.Para falar a verdade, é surpeendente tal afirmação do pastor presbiteriano. Os calvinistas são conhecidos por defenderem que toda doutrina deve ser extraída da Bíblia, por meio de uma interpretação objetiva e literal de seus textos. Porém, o que faz o reverendo nesse caso? Defende uma doutrina fundamentada em uma interpretação meramente especulativa.A Bíblia não afirma, em nenhum lugar, que os dons sobrenaturais ficaram restritos ao período apostólico. Quando o pastor Augustus diz que aqueles dons não são para hoje, não é de algum texto específico que ele tira essa conclusão, mas de um processo lógico, que parte de uma premissa bem duvidosa: a de que os dons existiam meramente para autenticar a mensagem dos apóstolos.De uma falsa premissa se extrai, obviamente, uma falsa conclusão. E a premissa que sustenta a tese do pastor Augustus se não é falsa à primeira vista, no mínimo não possui nenhuma base bíblica.O reverendo calvinista, sem meias palavras, afirma que os dons de cura, de milagres, de profecia e até de línguas estão relacionados somente com aquele período. Mas seu argumento não se baseia em algum texto específico, e sim no fato de não haver nenhum trecho do Novo Testamento que narre o uso de algum desses dons por alguém que não fosse apóstolo.Portanto, entre a lista, clara e objetiva, de dons apresentada por Paulo, dirigida à igreja de Corinto, e o fato irrelevante de que a Bíblia não narra o uso de nenhum desses dons por alguém que não era apóstolo, o pastor Augustus abre mão da certeza da primeira para se abraçar à fragilidade da segunda.A pergunta que deveria ser feita tanto ao pastor Augustus, como ao pastor Misael, é: mas o que fazemos com o texto de I Coríntios 12 sobre os dons? Ali Paulo faz uma lista deles sem qualquer ressalva. Pelo contrário, o apóstolo se dirige à igreja de Corinto, formada por cidadãos gentios, que nada tinham a ver com os apóstolos. O pior é que era uma igreja problemática, que se confundia no uso desses dons. Como defender, então, que esses dons serviam para a autenticação da pregação apostólica se, além de não serem manifestados diretamente na vida dos apóstolos, ainda causavam, algumas vezes, confusão no seio da comunidade?Considerando que muitos presbiterianos não aceitam a continuidade dos dons baseados tão somente em suas experiências pessoais, se Paulo fosse um calvinista, a solução que talvez ele desse para esse problema da igreja de Corinto fosse a ordem para pararem de usar esses dons; como, porém, obviamente, ele não era, mesmo com as dificuldades enfrentadas pela Igreja, seu conselho foi: “procurai com zelo os melhores dons…”Há outros pontos que eu poderia levantar aqui em oposição à ideia cessacionista, como, por exemplo, a mudança do significado dos termos relativos aos dons para que eles possam ser aceitos ainda hoje na igreja tradicional ou ainda a confusão que muitos deles fazem entre o que é a revelação bíblica e o que é revelação de fatos específicos. Porém, deixo estes pontos para serem desenvolvidos em outros artigos.Por ora, me parece evidente que, seja pelas conclusões extraídas de meras experiências pessoais, como as do pastor Misael, seja pela preferência por uma doutrina baseada em hipóteses, em detrimento do texto puro e simples da Palavra de Deus, como faz o pastor Augustus, ambos, sendo presbiterianos, neste caso não honram o melhor da tradição calvinista, que é a de colocar as Escrituras acima de tudo. -

A Importância do Quebrantamento
Watchman Nee
Qualquer pessoa que serve a Deus descobrirá, mais cedo ou mais tarde, que o grande impedimento para a sua obra não são outras pessoas mas, sim, ela mesma. Descobrirá que seu homem exterior e seu homem interior não estão em harmonia, pois os dois tendem para direções opostas. Sentirá, também, a incapacidade do seu homem exterior submeter-se ao controle do espírito, tornando-o, assim, incapaz de obedecer aos mandamentos mais sublimes de Deus. Perceberá rapidamente que a maior dificuldade acha-se no seu homem exterior, pois este o impede de fazer uso do seu espírito.
Muitos dos servos de Deus nem sequer conseguem fazer as obras mais elementares. Normalmente, devem ser capacitados pelo exercício do seu espírito a conhecer a palavra de Deus, a discernir a condição espiritual doutra pessoa, entregar as mensagens de Deus com unção e receber as revelações de Deus. Mesmo assim, devido às distrações do homem exterior, parece que seu espírito não funciona apropriadamente. É basicamente porque seu homem exterior nunca foi tratado. Por esta razão, o reavivamento, o zelo, o implorar e as atividades não passam de um desperdício de tempo. Conforme veremos, há apenas um só tratamento que pode capacitar o homem a ser útil diante de Deus: o quebrantamento.
O Homem Interior e o Homem Exterior
Note como a Bíblia divide o homem em duas partes: “Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus” (Rm 7: 22). Nosso homem interior deleita-se na Lei de Deus. “. . . que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef 3:16). E Paulo também nos informa: “Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia” (2 Co 4:16).
Quando Deus vem habitar em nós mediante o Seu Espirito, a Sua vida e o Seu poder, entra em nosso espírito, que estamos chamando de “homem interior.” Fora deste homem interior há a alma, na qual funcionam nossos pensamentos, nossas emoções e nossa vontade. O homem periférico é nosso corpo físico. Assim, falaremos do homem interior como sendo o espírito, do homem exterior como sendo a alma, e do homem periférico como sendo o corpo. Nunca devemos nos esquecer de que nosso homem interior é o espírito humano onde Deus habita, onde Seu Espírito Se combina com nosso espírito. Assim como nós vestimos roupas, assim também nosso homem interior “veste” um homem exterior: o espírito “veste” a alma. E, de modo semelhante, o espírito e a alma “vestem” o corpo. Está bem evidente que os homens geralmente estão mais conscientes do homem exterior e do periférico, e dificilmente reconhecem ou entendem seu espírito, de modo algum.
Devemos saber que aquele que pode trabalhar para Deus, é aquele cujo homem interior pode ser liberado. A dificuldade básica de um servo de Deus acha-se no fracasso do homem interior de irromper pelo homem exterior. Logo, devemos reconhecer diante de Deus que a primeira dificuldade que enfrentamos na obra não está nos outros mas, sim, em nós mesmos. Nosso espírito parece estar embrulhado num invólucro de modo que não pode facilmente irromper de lá. Se nunca aprendemos como liberar nosso homem interior por meio de irromper pelo homem exterior, não temos capacidade de servir. Nada pode estorvar-nos tanto quanto este homem exterior. Se nossas obras são frutíferas ou não, depende de se nosso homem exterior foi quebrantado pelo Senhor de modo que o homem interior possa passar pelo quebrantamento e se manifestar. Este é o problema básico. O Senhor deseja quebrar nosso homem exterior a fim de que o homem interior possa ter uma via de saída. Quando o homem interior for liberado, tanto os descrentes quanto os cristãos serão abençoados.
A Natureza Tem Sua Maneira de Quebrar
O Senhor Jesus conta-nos em João 12: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto.” A vida está no grão de trigo, mas há uma casca, uma casca muito dura, no lado de fora. Enquanto aquela casca não for rachada e aberta, o trigo não pode brotar nem crescer. “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer . . .” Que morte é essa? É o arrombar da casca mediante a cooperação da temperatura e da umidade no solo. Uma vez que a casca é fendida e aberta, o trigo começa a crescer. Então, a questão aqui não é se há vida dentro, mas, sim, se a casca externa foi rachada.
A Escritura continua, dizendo: “Quem ama a sua vida (Grego, alma) perde-a; mas aquele que odeia a sua vida (Grego, alma) neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna” (v. 25). O Senhor nos mostra aqui que a casca externa é nossa própria vida (a vida da nossa alma), ao passo que a vida interior é a vida eterna que Ele nos deu. Para permitir que a vida interior se manifeste, é imperativo que a vida exterior seja substituída. Se o exterior permanecer intato, o interior nunca poderá aparecer.
É necessário (neste escrito) que dirijamos estas palavras para aquele grupo de pessoas que possuem a vida do Senhor. Entre aqueles que possuem a vida do Senhor podem ser achadas duas condições distintas: uma inclui aqueles em que a vida é confinada, restringida, aprisionada e incapaz de se manifestar; a outra inclui aqueles em que o Senhor forjou um caminho, e a vida deles, portanto, é liberada.
A pergunta, pois, não é como obter a vida, mas, sim, como permitir que esta vida apareça. Quando dizemos que temos necessidade de que o Senhor nos quebrante, não é meramente um modo de falar, nem é apenas uma doutrina. É vital que sejamos quebrantados pelo Senhor. Não é que a vida do Senhor não possa cobrir a terra, mas, sim, que Sua vida está sendo aprisionada por nós. Não é que o Senhor não possa abençoar a igreja, mas, sim, que a vida do Senhor está tão confinada dentro de nós que não se manifesta. Se o homem exterior permanecer intato, nunca poderemos ser uma bênção para a Sua igreja, e não podemos esperar que a palavra de Deus seja abençoada através de nós!
O Vaso de Alabastro Deve Ser Quebrado
A Bíblia conta acerca do nardo puro. Deus, deliberadamente usou este termo “puro” na Sua palavra para mostrar que é verdadeiramente espiritual. Mas se o vaso de alabastro não for quebrado, o nardo puro não fluirá. Por estranho que pareça, muitos ainda estão valorizando demasiadamente o vaso de alabastro, pensando que seu valor excede o do unguento. Muitos pensam que seu homem exterior é mais precioso do que seu homem interior. Este fica sendo o problema na igreja. Uma pessoa tem em grande estima sua habilidade, pensando que é bem importante; outra valoriza suas próprias emoções, e se estima como pessoa importante; outras têm alta consideração por si mesmas, e sentem que são melhores do que as demais, que sua eloquência ultrapassa a das demais, que sua rapidez de ação e exatidão de julgamento são superiores, e assim por diante. Nós, porém, não somos colecionadores de antiguidades; somos aqueles que desejamos cheirar somente a fragrância do unguento. Sem quebrar o exterior, o interior não surgirá. Deste modo, individualmente não temos qualquer fluir, como também a igreja não tem um caminho vivo. Por que, pois, devemos considerar-nos tão preciosos, se nosso interior retém a fragrância, ao invés de liberá-la?
O Espírito Santo não cessou de operar. Um evento após outro, uma coisa após outra, vem a nós. Cada operação disciplinar tem um só propósito: quebrar nosso homem exterior a fim de que nosso homem interior possa se manifestar. Aqui, porém, está nossa dificuldade: ficamos impacientes por causa de ninharias, murmuramos diante de perdas de pequena monta. O Senhor está preparando um modo de usar-nos, mas, mal Sua mão nos tocou, sentimo-nos infelizes, até ao ponto de contendermos com Deus e de nos tornarmos negativos em nossas atitudes. Desde que fomos salvos, fomos tocados várias vezes e de várias maneiras pelo Senhor, e tudo com o propósito de quebrar nosso homem exterior. Quer tenhamos consciência disto, quer não, o alvo do Senhor é quebrar este homem exterior.
Desta maneira, o Tesouro está no vaso de barro, mas se o vaso de barro não for quebrado, quem poderá ver o Tesouro que está dentro? Qual é o objetivo final da operação do Senhor em nossas vidas? É quebrar este vaso de barro, é quebrar nosso vaso de alabastro, é arrombar nossa casca. O Senhor anseia por achar um meio de abençoar o mundo através daqueles que pertencem a Ele. O quebrantamento é o caminho da benção, o caminho da fragrância, o caminho da frutificação, mas também é um caminho salpicado de sangue. Sim, há sangue de muitas feridas. Quando nos oferecemos ao Senhor para fazer a Sua obra não podemos nos dar ao luxo da morosidade de nos pouparmos. Devemos deixar que o Senhor rache totalmente nosso homem exterior, de modo que Ele possa achar um caminho para Suas operações.
Cada um de nós deve descobrir para si mesmo qual é a mente do Senhor para sua vida. É um fato muitíssimo lamentável, que muitos não sabem qual é a mente ou intenção do Senhor para suas vidas. Quanto mais precisam de que Ele abra os seus olhos, para ver que tudo quanto entra nas suas vidas pode ler significado. Entender o propósito do Senhor é ver muito claramente que Ele visa um único objetivo: o quebrantamento do homem exterior.
Muitas pessoas, no entanto, antes mesmo que o Senhor erga Sua mão, já estão aflitas. Oh! devemos reconhecer que todas as experiências, problemas e provações que o Senhor nos envia são para nosso bem supremo. Não podemos esperar que o Senhor nos dê coisas melhores, pois estas são as melhores. Se alguém se aproximasse do Senhor, e orasse, dizendo: “Ó Senhor, por favor, deixa-me escolher o melhor,” creio que Ele lhe diria: “Aquilo que Eu te dei é o melhor; tuas provações diárias são para teu máximo proveito.” Assim, o motivo por detrás de toda a providência de Deus é quebrantar nosso homem exterior. Uma vez que isto ocorre e o espírito pode fluir, então, começamos a exercitá-lo.
A Cronologia em Nosso Quebrantamento
O Senhor emprega dois meios diferentes para quebrar nosso homem exterior; um é paulatino, o outro é repentino. Para alguns, o Senhor dá um quebrantamento súbito seguido por um paulatino. Com outros, o Senhor dispõe para que tenham provações diárias constantes, até que, um dia, leva a efeito um quebrantamento em grande escala. Se não for o repentino primeiro, e depois o paulatino, então, é o paulatino seguido pelo repentino. Parece que o Senhor normalmente trabalha conosco durante vários anos antes de poder realizar esta obra de quebrantamento.
A cronologia está na mão dEle. Não podemos encurtar o tempo, embora certamente o possamos prolongar. Em algumas vidas, o Senhor pode realizar esta obra depois de uns poucos anos de trato; noutras, é evidente que depois de dez ou vinte anos a obra ainda está incompleta. Isto é muito sério! Nada é mais lastimável do que desperdiçar o tempo de Deus. Quão frequentemente a igreja é atrapalhada! Podemos pregar com o uso da nossa mente, podemos comover os outros com o uso das nossas emoções; mas se não sabemos usar nosso espírito, o Espírito de Deus não poderá tocar as pessoas através de nós. A perda será grande, se prolongarmos desnecessariamente o tempo.
Logo, se nunca antes nos consagramos de modo total e inteligente ao Senhor, façamo-lo agora, dizendo: “Senhor, para o futuro da igreja, para o futuro do evangelho, para o Teu caminho, e também para minha própria vida, ofereço-me sem condições, sem reservas, nas Tuas mãos. Senhor, deleito-me em oferecer-me a Ti e estou disposto a deixar-Te fazer toda a Tua vontade através de mim.”
O Significado da Cruz
Ouvimos falar frequentemente acerca da cruz. Talvez estejamos por demais familiarizado com o termo. Mas o que é a cruz, afinal das contas? Quando realmente compreendermos a cruz, veremos que significa o quebrantamento do homem exterior. A cruz reduz o homem exterior à morte; racha a casca humana e a abre. A cruz deve quebrar tudo quanto pertence ao nosso homem exterior — nossas opiniões, nossos modos, nossa habilidade, nosso amor-próprio, nosso tudo. O caminho está claro, claro mesmo como o cristal.
Tão logo que nosso homem exterior é destruído, nosso espírito pode sair facilmente para fora. Considere certo irmão, como exemplo. Todos quantos o conhecem reconhecem que tem uma mente aguçada, uma vontade dinâmica, e profundas emoções. Mas, ao invés de ficarem impressionados por estas características naturais da sua alma, reconhecem que se encontraram com seu espírito. Sempre que as pessoas estão tendo comunhão com ele, encontram um espírito, um espírito limpo. Por que? Porque tudo quanto é da sua alma foi destruído.
Tomemos como outro exemplo certa irmã. Todos aqueles que a conhecem reconhecem que ela tem uma disposição pronta — rápida para pensar, rápida para falar, rápida para confessar, rápida para escrever cartas, e rápida para rasgar o que escreveu. Apesar disto, os que se encontram com ela não se encontram com sua rapidez, mas sim, com seu espírito. Ela é uma pessoa que foi totalmente destruída e que se tornou transparente.
Esta destruição do homem exterior é uma questão fundamental. Não devemos apegar-nos às fracas características da nossa alma, ainda emitindo a mesma fragrância, mesmo depois de o Senhor lidar conosco durante cinco ou dez anos. Não: devemos deixar o Senhor forjar um caminho em nossas vidas.
Duas Razões para Não Ser Quebrantado
Por que é que, depois de muitos anos de trato, algumas pessoas permanecem inalteradas? Alguns indivíduos têm uma vontade forte; alguns têm emoções fortes; e outros têm uma mente forte. Visto que o Senhor pode quebrantá-los, por que depois de muitos anos, alguns ficam sem transformação? Cremos que há duas razões principais.
A primeira é que muitos que vivem nas trevas não estão vendo a mão de Deus. Enquanto Deus está operando, enquanto Deus está destruindo, não reconhecem que é da parte dEle. Estão destituídos de luz, e, somente veem homens que se opõem a eles. Imaginam que se o meio-ambiente é realmente difícil demais, que as circunstâncias são as culpadas. Assim, continuam nas trevas e no desespero.
Que Deus nos dê uma revelação para ver o que é da mão dEle, a fim de que nos ajoelhemos e Lhe digamos: “És Tu; visto que és Tu, eu aceitarei.” Pelo menos, devemos reconhecer de Quem é a mão que trata conosco. Não é mão humana, nem a mão da nossa família, nem a dos irmãos e irmãs na igreja, mas, sim, a de Deus. Precisamos aprender como nos ajoelhar e beijar a mão, amar a mão que lida conosco, assim como fazia Madame Guyon. Precisamos ter esta luz para ver, seja o que o Senhor fez, aceitamos e cremos; o Senhor nada pode fazer de errado.
A segunda razão, outro grande impedimento à obra de quebrar o homem exterior é o amor-próprio. Devemos pedir que Deus remova o coração do amor-próprio. À medida em que Ele lida conosco em reposta à nossa oração, devemos adorar e dizer: “Ó Senhor, se isto for da Tua mão, que eu o aceite do meu coração.” Lembremo-nos de que a única razão para todo mal entendido, toda a irritação, todo o descontentamento, é que secretamente amamos a nós mesmos. Assim, planejamos um modo mediante o qual podemos livrar a nós mesmos. Muitas vezes, os problemas surgem porque procuramos uma via de escape — uma fuga da operação da cruz.
Aquele que subiu à cruz e que se recusa a beber o vinho com fel é aquele que conhece o Senhor. Muitos sobem à cruz com certa relutância, ainda pensando em beber o vinho com fel para aliviar suas dores. Todos aqueles que dizem: “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” não beberá do cálice do vinho com fel. Somente podem beber um cálice, não dois. Estas pessoas não têm qualquer amor-próprio. O amor-próprio é uma dificuldade básica. Que o Senhor nos fale hoje de tal maneira que possamos orar: “Ó meu Deus, vi que todas as coisas vêm de Ti. Todos os meus caminhos estes cinco anos, dez anos, ou vinte anos, são de Ti. Operastes de tal maneira que atingistes Teu propósito, que não é outro senão que Tua vida seja vivida através de mim. Mas eu fui tolo. Não vi. Fiz muitas coisas para escapar, e assim adiei o Teu tempo. Hoje, vejo Tua mão. Estou disposto a me oferecer a Ti. Mais uma vez coloco-me nas Tuas mãos.”
Espere que Verá Feridas
Ninguém é mais belo do que alguém que está quebrantado! A teimosia e o amor-próprio cedem lugar à beleza na pessoa que foi quebrantada por Deus. Vemos Jacó no Antigo Testamento, como mesmo no ventre da sua mãe, lutava com seu irmão. Era sutil, enganoso, traiçoeiro. Por isso, sua vida estava cheia de tristezas e mágoas. Ainda jovem, fugiu do seu lar. Durante vinte anos foi logrado por Labão. A esposa do amor de seu coração, Raquel, morreu prematuramente. O filho do seu amor, José, foi vendido. Anos mais tarde, Benjamin foi preso no Egito. Deus tratou com ele sucessivamente, e Jacó encontrou infortúnio após infortúnio. Deus o feriu uma vez, duas vezes; na realidade, sua história inteira pode ser descrita como sendo uma história de ser ferido por Deus. Finalmente, depois de muitos tratamentos deste tipo, o homem Jacó foi transformado. Durante seus últimos poucos anos, era bem transparente. Quão nobre era sua resposta a Faraó! Quão belo foi seu fim, quando adorou a Deus, apoiado no seu bordão! Quão claras eram suas bênçãos pronunciadas sobre seus descendentes! Depois de ler a última página da sua história, queremos curvar a cabeça e adorar a Deus. Aqui temos alguém que está amadurecido, que conhece a Deus. Várias décadas de tratos tiveram como resultado que o homem exterior de Jacó foi quebrantado. Na sua velhice, o quadro é belo.
Cada um de nós tem boa parte da mesma natureza de Jacó em nós. Nossa única esperança é que o Senhor marque um caminho para fora, quebrando o homem exterior de tal maneira que o homem interior possa surgir e ser visto. Isto é precioso, e é o caminho daqueles que servem ao Senhor. Somente assim podemos servir; somente assim podemos levar os homens ao Senhor. Tudo o mais está limitado quanto ao seu valor. A doutrina não tem muita utilidade, nem a teologia. Qual é a utilidade do mero conhecimento teórico da Bíblia se o homem exterior permanecer sem ser quebrantado? Somente a pessoa através de quem Deus pode aparecer, é útil.
Depois de nosso homem exterior ter sido ferido, tratado, e levado por várias provas, temos feridas em nós, e assim deixamos o espírito emergir- Temos receio de encontrar alguns irmãos e irmãs cujo ser total permanece intato, nunca tendo sido tratado e transformado. Que Deus tenha misericórdia de nós, mostrando-nos claramente este caminho, e revelando-nos que é o único caminho. Que Ele também nos mostre que nisto é visto o propósito de todos os Seus tratos durante estes poucos anos, sejam dez ou vinte. Que ninguém menospreze os tratos do Senhor. Que Ele nos revele verdadeiramente o que significa o quebrantamento do homem exterior. Se o homem exterior permanecesse integral, tudo estaria meramente em nossa mente, totalmente inútil. Tenhamos esperança de que o Senhor venha a tratar de nós de modo completo.
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Pentecostes
Antes de Cristo subir aos céus, ele ordenou que seus discípulos retornassem a Jerusalém, depois de Sua Ascensão e permanecer lá até que eles fossem capacitados com poder . E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder. Lucas 24:49Eles fizeram o que Ele ordenou e permaneceu em Jerusalém. E estavam sempre no templo, louvando e bendizendo a Deus. Amém. Lucas 24:53
Esta promessa foi realizado 50 dias após a Páscoa e 10 dias depois de Sua Ascensão.
Este evento é o que celebramos como Pentecostes.
Por que esse evento é tão significativo?
A encarnação de Cristo tinha como destino a vitória sobre a morte e a vinda do Espírito Santo aos corações dos homens. Neste dia os Apóstolos receberam o revestimento do Espírito Santo em seus corações e foram habilitadas a proceder a Boa Nova a todas as nações, sem medo. Este e o batismo de Cristo diferente do batismo de João Batista pois Cristo disse logo após a sua ressurreição: “Pois João batizou com água, mas em poucos dias vós sereis batizados com o Espírito Santo” (Atos 1:5)
E o próprio João Batista declarou:. Respondeu João a todos, dizendo: Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das alparcas; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Lucas 3:16 ver também Mateus 3:11
Quando o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos, eles foram batizados com o Espírito Santo e foram revestidos de poder para pregar as boas novas.
Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Tessalonicenses 1:5Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós. 1 Tessalonicenses 1:5
O Espírito Santo no nosso coração e o revestimento de poder nos torna semelhante a Deus e unidos em união com ele.
E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um.
João 17:22Por que é chamado de Pentecostes?
O Espírito Santo foi enviado para o Apóstolo em um domingo e durante a festa judaica de Pentecostes. Pentecostes era uma festa judaica que comemora o recebimento por Moisés da Lei de Deus no Monte. Sinai. Era 40 dias após a páscoa judaica, quando Moisés subiu no Monte. Sinai e receberam a lei. Para os judeus, Pentecostes era também uma expressão de sua gratidão para a primeira colheita do ano. Foi quando ofereceram os frutos “primeira” de suas colheitas no templo. Era chamado de Festa das Semanas (Êxodo 34,22, Lev 23, 15, 16,17, Num. 28, 26,31, Deut 16, 9-19) no Antigo Testamento.
Pentecostes judaico se tornou para os cristãos, o Pentecostes do Novo Testamento. Moisés recebeu a Lei e os discípulos receberam o Espírito Santo. Em vez de os primeiros frutos da colheita a ser oferecido como sacrifício, os discípulos de Cristo eram oferecidos a Deus como “primícias” da Encarnação.
O evento do Novo Testamento é bem diferente do Antigo Testamento um. Quando Moisés recebeu as Tábuas com os Dez Mandamentos, a montanha era “completamente na fumaça, porque o Senhor descera sobre ele em fogo. Sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o povo tremia grandemente “(Ex 19, 18) Também eles receberam o mandamento de que ninguém deve tocar na montanha ou então morreria. (Ex. 19,12)
A experiência dos discípulos tinha era bastante diferente. Eles estavam cheios de alegria e foram transformados de homens medrosos e covardes que vimos no momento da crucificação, para homens carismáticos, corajoso e destemido e destinados a converter o mundo para honrar o Deus trino; Pai, Filho e Espírito Santo. Eles agora foram dados os dons para continuar a obra de Cristo para a salvação de todos os povos.
A lei do Antigo Testamento foi dado em tábuas de pedra. A nova lei do Novo Testamento foi gravada no coração dos apóstolos pelo Espírito Santo. Paulo diz: “é evidente que você é uma carta de Cristo, ministrada por nós, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, do coração.” (2 Cor 3:3) Ele cumpriu a profecia do profeta Jeremias como Paulo nos diz: “Porque esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis em sua mente e escrevê-los em seus corações, e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo “(Hb 8:10, Jeremias 31:33)..
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Panorama Histórico do Pentecostalismo
Por: Gary B. Mc GeeAlguém comentou, certa vez, que o Pentecostalismo é um movimento à procura de uma teologia, como se não estivesse ele radicado à interpretação bíblica e à doutrina cristã. As pesquisas sobre o desenvolvimento histórico e teológico das crenças pentecostais têm revelado, contudo, uma tradição teológica bem elaborada. O Pentecostalismo, conquanto possua muita coisa em comum com as outras denominações evangélicas, apresenta um vívido testemunho da obra do Espírito Santo na vida e na missão da Igreja.
Tendo como ponto de partida o panorama histórico do Pentecostalismo, este capítulo focaliza o crescimento da teologia das Assembleias de Deus desde a sua fundação e organização em 1914, nos EUA. Os fatores considerados, neste estudo, incluem os alvos principais, as pessoas que mais influenciaram na elaboração da doutrina, a literatura e os vários meios empregados na preservação da teologia.
A Continuidade dos Dons Espirituais
No decurso da história do Cristianismo, sempre houve pessoas que buscaram “algo mais” em sua peregrinação espiritual, e que, ocasionalmente, eram levadas a indagar acerca do significado do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais. A erudição recente tem lançado mais luz sobre os movimentos carismáticos, demonstrando que o interesse pela obra do Espírito Santo tem perdurado através da história da Igreja.
Pelo menos dois reavivamentos no século XIX podem ser considerados precursores do moderno pentecostalismo. O primeiro ocorreu na Inglaterra, em torno de 1830, durante o ministério de Edward Irving; o segundo, no extremo sul da índia, por volta de 1860, mediante a influência da teologia dos Irmãos de Plymouth e sob a liderança do leigo indiano J. C. Aroolappen. Documentos contemporâneos a respeito de ambos os movimentos incluíam referências ao falar noutras línguas e à profecia.
As conclusões dessa pesquisa corrigem, em parte, a crença existente em alguns círculos teológicos de que os dons espirituais cessaram na Era Apostólica. Opinião esta, aliás, proposta enfaticamente por Benjamin B. Warfield em Counterfeit Miracles (1918). Warfield argumentava que a autoridade escrita e objetiva das Escrituras, que são inspiradas pelo Espírito Santo, seria inevitavelmente subvertida por aqueles que ensinassem um conceito subjetivo do mesmo Espírito. Nos últimos anos, essa perspectiva vem perdendo terreno nos círculos evangélicos.
Com a chegada do reavivalismo, no fim do século XVII e início do século XVIII, na Europa e na América do Norte, os pregadores calvinistas, luteranos e arminianos passaram a enfatizar o arrependimento e a piedade na vida cristã. Qualquer estudo do Pentecostalismo tem de se ater aos eventos desse período, especialmente à doutrina da perfeição cristã ensinada por João Wesley, o pai do Metodismo, e pelo seu assistente, João Fletcher. A publicação por Wesley de A Short Account of Christian Perfection (1760) conclama seus seguidores a buscarem uma nova dimensão espiritual. Essa segunda obra da graça, posterior à conversão, libertaria os crentes de sua natureza moral imperfeita, que os tem induzido ao comportamento pecaminoso.
Essa doutrina chegou à América do Norte, e inspirou o crescimento do Movimento da Santidade. A ênfase voltada à vida santificada, mas sem mencionar o falar noutras línguas, registrado nas Escrituras (“derramamento do Espírito”, “batismo no Espírito Santo”, “línguas de fogo”), tornou-se “marca registrada” da literatura e hinódia do Movimento da Santidade. Uma das principais líderes da ala metodista do movimento, Phoebe Palmer, editou o Guide to Holiness e escreveu, entre outros livros, The Promise of the Father (1859). Outro escritor popular, William Arthur, escreveu Tongue ofFire (1856), um grande sucesso literário.
Aos que procuravam receber a “segunda bênção” era ensinado que cada cristão precisa “esperar” (Lc 24-49) pela promessa do batismo no Espírito Santo. E, assim, seria quebrado o poder do pecado que domina a pessoa desde o seu nascimento, levando-a a viver cheia do Espírito. Além disso, Joel profetizou que, como resultado do derramamento do Espírito de Deus, “vossos filhos e vossas filhas profetizarão” nos últimos dias (Jl 2.28).
A crença numa segunda obra da graça não ficou confinada ao círculo metodista. Charles G. Finney, por exemplo, acreditava que o batismo no Espírito Santo provesse o revestimento do poder divino para se obter a perfeição cristã. Sua teologia, porém, não se encaixava nem na categoria wesleyana, nem na reformada. Embora a teologia da Reforma haja identificado o batismo no Espírito com a conversão, alguns reavivalistas, dentro dessa tradição, aceitavam o conceito de uma segunda obra da graça para revestir os cristãos do poder do alto. Entre eles se encontravam Dwight L. Moody e R, A. Torrey. Apesar desse revestimento de poder, acreditavam, a santificação mantinha-se em sua obra progressiva. Outro personagem-chave, um ex-presbiteriano, A. B. Simpson, fundador da Aliança Cristã e Missionária, cuja forma de pensar teve grande impacto na formação doutrinária das Assembleias de Deus, enfatizava nitidamente o batismo no Espírito Santo.
Semelhantemente, as conferências em Keswick, na Grã-Bretanha (que tiveram início em 1875), também influenciaram grandemente o Movimento da Santidade na América do Norte. Os conferencistas em Keswick acreditavam que o batismo no Espírito Santo produzia uma vida de contínua vitória (a vida “mais sublime” ou “mais profunda”), caracterizada pela “plenitude do Espírito”. Esta veio a ser a interpretação preferida ao conceito wesleyano, que sustentava que o batismo no Espírito produzia a perfeição cristã.
No século XIX, a ciência médica avançava lentamente e pouca ajuda oferecia aos que se achavam gravemente enfermos. A fé no poder miraculoso de Deus para a cura física era acolhida em alguns círculos. Na Alemanha do século XIX, os ministérios que ressaltavam a oração pelos enfermos (especialmente os de Dorothea Trudel, Johann Cristoph Blumhardt e Otto Stockmayer) chamavam a atenção dos norte-americanos. A teologia da Santidade, com sua crença na purificação instantânea do pecado ou no revestimento de poder do Espírito Santo, produziu um ambiente receptivo aos ensinos da cura imediata através da fé.
Para muitos cristãos, o batismo no Espírito restaura plenamente o relacionamento espiritual que Adão e Eva tinham com Deus no jardim do Eden. De modo significante, a vida mais sublime em Cristo podia, também, inverter os efeitos físicos da queda, capacitando os cristãos a adquirir autoridade sobre as enfermidades do corpo. Os defensores da cura divina, tais como Charles C. Cullis, A. B. Simpson, A. J. Gordon, Carrie Judd Montgomery, Maria B. Woodworth-Etter e John Alexander Dowie, baseavam boa parte dessa crença em Isaías 53.4,5, bem como nas promessas neotestamentárias de cura divina. Posto que Cristo não somente perdoava os pecados, mas também curava as enfermidades, os que viviam pela fé na promessa de Deus (Ex 15.26) já não precisavam de assistência médica. Caso lançassem mão desta, estariam demonstrando falta de fé.
As características cada vez mais “pentecostais” do movimento da Santidade deixavam seus adeptos dispostos a considerar os dons do Espírito na vida da Igreja. Embora a maioria deles cresse que o falar noutras línguas tivesse cessado na Igreja primitiva, os demais dons, inclusive a cura miraculosa, estavam à disposição dos cristãos. A partir daí, somente a incredulidade poderia impedir fosse a Igreja do Novo Testamento restabelecida em santidade e poder.
Quando, porém, o pregador wesleyano radical da Santidade, Benjamin Hardin Irwin, começou, em 1895, a ensinar sobre as três obras da graça, os problemas começaram a surgir. Segundo Irwin, a segunda bênção iniciava a santificação, e a terceira trazia o “batismo do amor ardente” (o batismo no Espírito Santo). A maior parte do movimento da Santidade condenava essa “terceira bênção”, classificando-a como heresia (a qual, entre outras coisas, criava o problema das evidências distintivas entre a segunda e a terceira bênçãos). Não obstante, a noção que Irwin possuía de uma terceira obra da graça – o revestimento do poder no serviço cristão – firmou-se como alicerce do Movimento Pentecostal.
A Teologia Pentecostal e as Missões
Embora os evangélicos do século XIX adotassem, em sua grande maioria, conceitos amilenistas ou pós-milenistas, era este que captava o espírito daqueles tempos. Escritores de todas as tendências, desde Charles Darwin até John Henry Newman e Charles Hodge, utilizaram-se das descobertas e do progresso da ciência na formação da doutrina e da escatologia, respectivamente. Outros, porém, chegaram à conclusão de que a condição da raça humana haveria de piorar ainda mais até a volta iminente de Cristo.
O modo sombrio como os pré-milenistas avaliaram o futuro imediato gerou enormes preocupações entre os que haviam assumido o compromisso com a evangelização mundial. A maior parte do movimento missionário dedicara muito tempo e energia à construção de escolas, orfanatos e ambulatórios médicos, com a finalidade de aproximar as populações indígenas da cultura ocidental, procurando induzi-las à conversão. Devido a essa ênfase secundária dada ao evangelismo, o número real de convertidos revelou ser tão pequeno, que chegava a ser preocupante. As interpretações pré-milenares de Daniel, Zacarias e Apocalipse; o aparecimento do movimento sionista; a corrida armamentista de 1890; e o fim do século que se aproximava, levaram muitos a perguntar angustiadamente como os milhões não alcançados ouviriam a mensagem do Evangelho a fim de se salvarem da destruição eterna.
A soma dos títulos de Cristo como Salvador, Batizador. (Santificador), Médico e Rei Vindouro, descrita como o “evangelho integral” ou o “evangelho pleno”, refletia o desejo de se restaurar o cristianismo do Novo Testamento nestes últimos dias. O interesse generalizado pelo batismo e dons do Espírito Santo convenceu alguns de que Deus concederia o dom de línguas a fim de equipá-los com idiomas humanos identificáveis (xenolalia) para que pudessem anunciar o Evan-, gelho noutros países, agilizando assim a obra missionária. Em certa ocasião, o reavivamento na ACM em Topeka, Estado de Kansas, em 1889-1890, deu origem à organização da Missão Kansas-Sudão, cujos membros não demoraram a partir para o campo missionário, na África Ocidental. Passando pela cidade de Nova York, visitaram os escritórios de A. B. Simpson, onde ouviram as suas opiniões sobre a cura divina. E, assim, tornaram-se confiantes: a vida singela na fé e no poder do Espírito Santo os capacitaria a enfrentar qualquer acontecimento futuro. Leiamos este relato: “Dois dos seus princípios supremos eram a cura pela fé e os dons pentecostais de línguas; nenhum remédio devia ser tomado, e nenhum dicionário ou gramática consultado. O grupo foi acometido pela febre maligna; dois morreram, recusando a quinina”.17 Embora a expedição terminasse em tragédia, o ideal continuou vivo.
Em 1895, o autor e líder do Movimento da Santidade, W.B. Godbey, disse que o “dom de línguas” era “destinado a desempenhar um papel de destaque na evangelização do mundo pagão e no cumprimento profético glorioso dos últimos dias. Todos os missionários nos países pagãos deviam buscar e esperar esse dom que os capacitaria a pregar fluentemente no vernáculo. Eles, porém, não deveriam descurar em seus esforços”. Esta esperança era compartilhada por muitos outros.
Outro defensor desse emprego missionário do dom de línguas era Frank W. Sandford, fundador da Escola Bíblica O Espírito Santo e Nós, em Shiloh, Estado de Maine, em 1895. Através dos seus esforços didáticos e missionários (publicados em Tongues ofFiré), Sandford também esperava que o mundo fosse rapidamente evangelizado. Não somente orava para receber o dom de “poder e eloquência” para o evangelismo, como também induzia os outros a fazerem-no.
Na virada do século, o Movimento da Santidade passava a preocupar-se com a “reforma pentecostal da doutrina wesleyana”, bem como com os quatro temas do evangelho integral. Mas quando do início do Movimento Pentecostal, poucos anos mais tarde, a prioridade foi dada ao dom de línguas, distinguindo-o teologicamente do Movimento da, Santidade. Daniel W. Kerr, o teólogo mais influente nos primeiros anos das Assembleias de Deus, observou em 1922:
Durante esses últimos anos, Deus tem nos capacitado a descobrir e a recuperar a verdade maravilhosa do batismo no Espírito a exemplo do que era concedido no início. Temos, portanto, tudo quanto os outros receberam [Lutero, Wesley, Blumhardt, Trudel e A. B. Simpson], e recebemos mais essa outra verdade. Vemos tudo quanto eles vêem, mas eles não vêem o que nós vemos.
Sem muita dificuldade, os pentecostais continuavam a ler a literatura do Movimento da Santidade, e a cantar os seus hinos prediletos, tais como “A Onda Purificadora”, “Chegou o Consolador”, “A Terra de Beulá” e “O Poder dos Tempos Antigos”. Vinho novo tinha sido derramado em odres velhos.
Entre os que esperavam o recebimento do poder do Espírito para evangelizar rapidamente o mundo, achava-se o pregador da Santidade, em Kansas, Charles Fox Parham e seus seguidores. Convencido pelos seus próprios estudos de Atos dos Apóstolos, e influenciado por Irwin e Sandford, testemunhou Parham um reavivamento notável na Escola Bíblica Bethel, em Topeka, Kansas, em janeiro de 1901. A maioria dos alunos, bem como o próprio Parham, regozijaram-se por terem sido batizados no Espírito e de haverem falado noutras línguas (xenolalia). Assim como Deus concedera a plenitude do Espírito Santo aos 120 no Dia do Pentecoste, eles também haviam recebido a promessa (At 2.39). E, na realidade, a “fé apostólica” da Igreja do Novo Testamento foi, finalmente, restaurada de forma plena. Era lógico, portanto, que Bennett Freeman Lawrence, ao escrever a primeira história do Movimento Pentecostal o denominasse de The Apostolic Faith Restored (1916).
A distintiva contribuição teológica de Parham ao movimento acha-se na sua insistência de que o falar noutras línguas representa a “evidência bíblica” vital da terceira obra da graça: o batismo no Espírito Santo, claramente ilustrado nos capítulos 2, 10 e 19 de Atos dos Apóstolos. Em Voice Cryingin the Wilderness (1902, 1910), Parham escreveu que, os que recebiam o batismo no Espírito San-a to, eram selados como a “noiva de Cristo” (2 Co 1.21,22; Ap 7. 21). Santificados e preparados como grupo de escol de missionários nos tempos do fim, somente estes seriam levados por Cristo no arrebatamento (antes da Tribulação) da Igreja, depois de haverem completado a tarefa estipulada na Grande Comissão. Outros cristãos teriam de enfrentar a ordália da sobrevivência durante os sete anos da tribulação que se seguiria. Embora tal doutrina acabasse por ser relegada aos grupos marginais do Movimento Pentecostal, realmente levantou uma questão que ainda perdura: a singularidade da obra do Espírito naqueles que falaram noutras línguas em contraste com os que ainda não as falaram.
Topeka contribuiu para o reavivamento (que passou a ter importância internacional) da Rua Azusa, em Los Angeles, Califórnia (1906-1909). Seu líder principal era o afro-americano William J. Seymour. As notícias das “chuvas serôdias” (cf. Jl 2.23) espalharam-se rapidamente por outros países através do jornal de Seymour, Apostolíc Faith, e mediante os esforços dos que saíram das reuniões da Rua Azusa às várias partes da América do Norte e ao estrangeiro.
Embora tivessem ocorrido outros reavivamentos pen-tecostais importantes (Zion, 111.; Toronto; Dunn, N.C.), a complexidade e a importância do reavivamento de Los Angeles continua a ser um desafio aos historiadores. Os temas da iminência escatológica e do poder evangelístico (o legado de Parham) traçaram o caminho seguido pelos pentecostais americanos nos seus esforços agressivos para pregar o evangelho “até aos confins da terra” (At 1.8). Os pentecostais afro-americanos, por outro lado, ressaltaram a reconciliação entre as raças e o derramamento do poder sobre os tiranizados em Azusa. Reconciliação essa evidenciada pela composição inter-racial dos cultos, catalisada pelo fruto do Espírito (o legado de Seymour).Embora o zelo espiritual pelo evangelismo tenha inspirado a obra missionária, os pentecostais podem também aprender muitas coisas da mensagem de reconcilação, um dos pontos altos do reavivamento.
Divisões por Causa de Diferenças Teológicas
As diferenças teológicas não evaporaram em meio à emoção de proclamar a chegada das “chuvas serôdias”. O novo movimento viu-se diante de três grandes controvérsias, nos primeiros 16 anos da sua existência.
A primeira questão que dividiu os pentecostais entre si surgiu em fins de 1906. Centralizava-se no valor teológico da literatura narrativa (Atos e os últimos versículos de Marcos 16) para fundamentar a doutrina do falar noutras línguas como a “evidência inicial” do batismo no Espírito Santo. Os que seguiam os passos de Parham consideravam as línguas como a evidência palpável do batismo no Espírito Santo. Quanto às evidências encontradas em Atos, possuem tanta autoridade quanto qualquer outro texto das Escrituras. Ou seja: as línguas, em Atos, têm a função de ser a evidência do batismo no Espírito Santo; em 1 Coríntios, as línguas possuem outras funções: ajudar na vida de oração do crente (14.4,14,28), visando a edificação da congregação (14.5,27). Mas para os que examinavam Atos dos Apóstolos do ponto de vista tido como paulino, o falar em línguas em nada diferia do dom de línguas em 1 Coríntios.
Os que acreditam serem as línguas a evidência inicial do batismo no Espírito, seguem o padrão hermenêutico de outros restauracionistas: elevam certos costumes da Igreja Primitiva à condição de doutrina. Afinal, quem poderia negar ser a obra do Espírito Santo o tema central de Atos, posto que os discípulos foram enviados a pregar o Evangelho até aos confins da terra, tendo como reforço os “sinais e prodígios” (At 4.29,30)? Nesse caso e em outros, como na doutrina do lava-pés, por exemplo, os pentecostais trinitarianos apelam a um padrão doutrinário, tendo como base a literatura narrativa.
Depois de 1906, os pentecostais passaram a reconhecer, cada vez mais, que, na maioria das ocorrências do falar em línguas, os cristãos realmente estavam orando em línguas não-identificáveis e não em idiomas identificáveis (glossolalia ao invés de xenolalià). Embora Parham mantivesse sua opinião a respeito da finalidade das línguas na pregação transcultural, os pentecostais chegaram finalmente à conclusão: as línguas representavam a oração no Espírito, a intercessão e o louvor.
O outro debate girava em torno da segunda obra da graça: a santificação. E instantânea ou progressiva? Conforme se podia prever, a linha divisória foi traçada entre os pentecostais com tendências wesleyanas (três obras da graça) e os pentecostais com tendências reformadas (duas obras). No sermão “A Obra Acabada no Calvário” (pregado em 1910 na Convenção Pentecostal da Igreja de Pedra, em Chicago, Michigan), William H. Durham, um batista que se tornara pentecostal, declarou que o problema do pecado original (hereditário) recebera o golpe fatal quando da crucificação de Cristo. A fé na eficácia desse evento continuava a frutificar espiritualmente, tendo por fundamento a justiça de Cristo imputada a todo o que crê.
A terceira controvérsia entre os pentecostais resultou do impulso restauracionista e da forte ênfase cristológica do evangelho integral. Perguntas a respeito da natureza da Divindade surgiram nas reuniões do Acampamento Pentecostal Internacional em Arroyo Seco (perto de Los Angeles). R. E. McAlistér, num sermão batismal, observou que os apóstolos batizavam usando o nome de Jesus (At 2.38) ao invés da fórmula trinitariana (Mt 28.19). Os que achavam ter descoberto as características que lançavam luz sobre a restauração da Igreja do Novo Testamento, foram rebatizados em o nome de Jesus, seguindo mais um padrão de Atos dos Apóstolos (segundo seu modo de ver). Vários crentes, inclusive Frank J. Ewart, continuaram o estudo do batismo nas águas. Daí surgiu outro agrupamento de igrejas.
Esses cristãos enfatizavam a “unicidade”, ou unidade, da Divindade em contraste com o conceito cristão ortodoxo de um só Deus em Três Pessoas. Além disso, os teólogos da “unicidade” sustentavam: posto ser Jesus Cristo o nome redentor de Deus, é mediante o seu nome que são concedidas a salvação e as demais bênçãos divinas. Desde o início formaram-se dois grupos dentro do movimento da “unicidade”: os que acreditam que a conversão e o batismo nas águas em o nome de Jesus são seguidos por uma segunda experiência de revestimento de poder, e os que sustentam que os três elementos de Atos 2.38 (o arrependimento, o batismo em o nome de Jesus e o recebimento do Espírito Santo (falar , noutras línguas) convergem num só ato da graça – o novo nascimento.
Condenando a teoria da unicidade, os fundadores das Assembleias de Deus tinham como certo que a fé apostólica havia sido protegida da falsa doutrina. Nos anos que se seguiram, concentraram sua atenção na conservação das verdades do reavivamento.
Desenvolvimento da Teologia das Assembleias de Deus
Quando o Concílio Geral (título abreviado do Concílio Geral das Assembleias de Deus) veio a existir, em Hot Springs, Estado de Arkansas, em abril de 1914, já havia entre os participantes um consenso doutrinário, edificado nas verdades históricas da fé, juntamente com os temas da santidade wesleyana e de Keswick. Diante de uma pergunta sobre as crenças desses pentecostais, E. N. Bell, membro do Executivo e primeiro presidente geral (posteriormente chamado superintendente geral), assim começou sua resposta:
Essas assembleias opõem-se a toda Alta Crítica radical da Bíblia, a todo o modernismo, a toda a incredulidade na igreja e a filiação a ela de pessoas não-salvas, cheias de pecado e de mundanismo. Acreditam em todas as verdades bíblicas genuínas sustentadas por todas as igrejas verdadeiramente evangélicas.
Mesmo assim, o primeiro Concílio Geral ainda não tinha sido convocado para escrever um novo credo, ou a deitar os alicerces da nova denominação. Pelo contrário: os delegados meramente adotaram o “Preâmbulo e Resolução sobre a Constituição” proposto, retratando seus interesses, e que continha o teor de vários artigos de fé importantes.
Da mesma forma que outros pentecostais, os membros das Assembleias de Deus foram caracterizados por cinco valores implícitos: a experiência pessoal, a comunicação oral (também refletida nos testemunhos, revistas e livretes da igreja, na literatura da Escola Dominical, nos panfletos e nos folhetos evangelísticos), a espontaneidade, o repú- dio ao mundanismo e a autoridade das Escrituras. Todos m esses valores podem ser observados nos conceitos da liderança, do modo de vida, da adoração e da literatura religiosa. Tais valores definem, em boa parte, a natureza incomparável do Pentecostalismo, e explicam por que pouca ênfase tem sido empregada no tratamento acadêmico da teologia.
Editores e escritores vêm produzindo revistas, livros, opúsculos, folhetos e currículos da Escola Dominical, para ajudarem no amadurecimento dos cristãos. Eles têm ilustrado, também, a vida vitoriosa da comunidade pentecostal através do registro de milhares de testemunhos, orações atendidas, curas físicas, expulsões de demônios etc. Desde o início, o desafio de conservar a obra do Espírito tem consumido energias substanciais. Sua literatura, por esse motivo, exibe uma orientação leiga, mas orientada por autores que estudaram em faculdades e institutos bíblicos.
A Preservação da Doutrina até 1950
Quando a questão da “unicidade” ameaçou dividir o Concílio Geral na sua convenção de 1916, os líderes da igreja dispuseram-se a deixar de lado as opiniões definidas em Hot Springs. E, assim, estabeleceram limites doutrinários para proteger a integridade da igreja e o bem estar dos santos. Vários ministros de destaque, dirigidos por Daniel W. Kerr, esboçaram a Declaração das Verdades Fundamentais que contém uma longa seção sustentando o conceito ortodoxo da Trindade.
A Declaração das Verdades Fundamentais não pretende ser um credo para a Igreja, nem uma base para a comunhão entre os cristãos, mas somente uma base de união para o ministério… A fraseologia, empregada numa declaração como esta, não é inspirada, nem reivindica tal. Mas a verdade exposta é considerada indispensável para o ministério do Evangelho Integral. Embora não contenha toda a verdade bíblica, atende ela as nossas necessidades no tocante às doutrinas fundamentais.
Subsequentemente, os ministros da “unicidade” deixaram o Concílio de uma só vez.
Ao contrário da explanação exaustiva da Trindade, outros temas (“Cura Divina”, “Batismo no Espírito Santo”) são, notavelmente sucintos, a despeito do seu caráter distinto. Tal fato coaduna-se com o ímpeto que está por trás de documentos desse tipo. Todas as declarações, em forma de credo, surgem’ da controvérsia, e ressaltam usualmente os ensinos específicos, assuntos de contenda.
A Declaração das Verdades Fundamentais, portanto, serve como arcabouço doutrinário para o crescimento da vida e do ministério cristãos. Não pretendia, originalmente, ser um esboço para uma teologia sistemática coesiva. Haja vista que a seção intitulada “A Queda do Homem” menciona, naturalmente, que toda a raça humana caiu no pecado. Ao mesmo tempo, porém, permite ao leitor certa liberdade para determinar o significado do pecado original e a forma da sua transmissão de geração em geração.
Nos anos que se seguiram, várias abordagens ajudaram na preservação da doutrina. Várias razões motivaram tais esforços. Primeiro: os cristãos devem progredir no viver cheio do Espírito Santo a fim de valorizar sua eficácia como testemunhas de Cristo. Quando a Comissão Executiva reconheceu o perigo das anotações antipentecostais da Bíblia de Referências de Scofield, proibiu-se a sua propaganda no Pentecostal Evangel durante dois anos (1924-1926), antes que os seus membros se deixassem convencer de que os comentários edificantes da obra pesavam mais que aqueles.
Não é de admirar que a Casa Publicadora da denominação, em Springfield, Missouri, haja produzido uma variedade considerável de livros populares com temas doutrinários, além de materiais para a Escola Dominical. Exemplos: The Phenomenon of Pentecost (1931), de Donald Gee, Rivers of Living Water (sem data), de Stanley H. Frodsham, e Healing from Heaven (1926), de Lilian B. Yeomans. Alice Reynolds Flower, uma das fundadoras das Assembleias de Deus, começou a escrever lições para a Escola Dominical nas páginas do Christian Evangel (posteriormente chamado Pentecostal Evangel) No decorrer do tempo, as valiosas oportunidades para o treinamento de obreiros, oferecidas pelas Escolas Dominicais, começaram a chamar atenção. Um livro-texto sobre os princípios da interpretação bíblica surgiu, em 1938, na forma de uma tradução feita por P. C. Nelson. Intitulada Hermenêutica, a obra de autoria de Eric Lund, fora publicada originalmente pela Southwestern Press, afiliada ao Instituto Bíblico das Assembleias de Deus em Enid, Oklahoma.
Os que não podiam frequentar institutos bíblicos, estudavam o Plano da Salvação por meio do ministério de evangelistas itinerantes, que traziam seus enormes (às vezes com 10 metros de largura) gráficos dispensacionais e os dependuravam na parede, atravessando a plataforma da igreja, para que o assunto fosse devidamente explanado. O evangelista, segurando um indicador, guiava o auditório através dos sete períodos dispensacionais da redenção divina, explicando as verdades bíblicas desde a Era da Inocência, no Jardim do Eden, até ao Milênio.45 Entre os que produziram tais materiais, Finis Jennings Dake era provavelmente o pentecostal mais conhecido. De fato, suas muitas publicações, inclusive apostilas, livros e, posteriormente, Dake’s Annotated Reference Bible (1963), vêm ajudando a moldar a teologia de muitos pentecostais.46
Relatos romanceados foram escritos por Elizabeth V. Baker entre outros autores: Chronicles of a Faith Life (2ª. edição de 1926); H. A. Baker: Visions Beyond the Veil (1938); Robert W. Cummings: Gethsemane (1944); e Alice Reynolds Flower: Love Overüowing (1928). A poesia também foi adotada como meio de comunicação para se compartilhar as verdades espirituais. Entre os poetas mais conhecidos achavam-se Alice Reynolds Flower e John Wright Follette.
Os compositores de hinos e cânticos ajudaram, como sói acontecer, a transmitir as doutrinas pentecostais. Entre os muitos favoritos, as congregações eram abençoadas pelos cânticos de Herbert Buffum, tais como “A Beleza de Cristo” e “Vou Até ao Fim”.47 Os cânticos dos pentecostais affo-americanos da “unicidade” também fizeram-se bastante apreciados, especialmente os de Thoro Harris (“Tudo que Emociona a Minha Alma E Jesus”, “Com Mais Abundância” e “Ele Breve Virá”) e do Bispo Garfield T. Haywood (“Jesus, o Filho de Deus” e “Vejo Fluir o Sangue Carmesim”).
Uma segunda razão que ajudou na preservação da doutrina foi o “gato” usado pelos cristãos para exigirem respostas sólidas diante das doutrinas errôneas. Após 1916, sempre que surgiam ameaças à fé, o Concílio Geral agia m com rapidez para resolver as questões e pendências doutrinárias. Em 1917, adaptou-se o Artigo 6, da Declaração das Verdades Fundamentais, a fim de se referir às línguas como o “sinal físico inicial” (grifos nossos). Quando o problema voltou à tona, em 1918, a questão hermenêutica do falar noutras línguas, como evidência necessária do batismo no Espírito Santo, foi declarada pelo Concílio Geral como o “nosso testemunho distintivo”. Nos anos que se seguiram, vários artigos de relevância, escritos por Kerr, foram publicados no Pentecostal Evangel, como respostas às diversas questões doutrinárias.
Sem emendar a Declaração, o Concílio aprovou regulamentos internos para se lidar doutra forma com as questões problemáticas. Na categoria de “Erros Escatológicos”, que aparece no Artigo VIII da Constituição e dos Regulamentos Internos, várias doutrinas condenadas encontram-se alistadas. Haja vista a doutrina da “retribuição de todas as coisas”, que teve origem fora das Assembleias de Deus. Charles Hamilton Pridgeon, conhecido ministro em Pittsburgh, Pennsylvania, propôs no seu livro Is Hell Eternal; or Will God’s Plan Fail? (1918), que o inferno seria de duração limitada, visando a purificação dos pecados e que, depois disso, toda a raça humana experimentaria o amor de Deus. Pridgeon, que antes era presbiteriano, e defendia a cura divina, tornou-se pentecostal no começo da década de 20, e continuou a ensinar essa forma de universalismo. A doutrina era chamada a “reconciliação” de todas as coisas, ou simplesmente “pridgeonismo”. O Concílio Geral condenou-a como heresia em 1925. Embora não se saiba quantos pentecostais aceitaram o universalismo de Pridgeon, a ameaça parecia suficientemente grave para merecer a condenação oficial.
Outra questão tinha a ver com a volta iminente de Cristo. Um pastor podia aceitar a doutrina do Arrebatamento após a Tribulação? Quando Benjamim A. Baur requisitou sua carteira de pastor ao Distrito do Leste, em meados de 1930, os presbíteros indeferiram o pedido, alegando que a sua doutrina diminuía a iminência da volta do Senhor. De acordo com a opinião de Baur, os cristãos teriam de suportar na forma de uma tradução feita por P. C. Nelson. Intitulada, Hermenêutica, a obra de autoria de Eric Lund, fora publicada originalmente pela Southwestern Press, afiliada ao Instituto Bíblico das Assembleias de Deus em Enid, Oklahoma.
Os que não podiam frequentar institutos bíblicos, estudavam o Plano da Salvação por meio do ministério de evangelistas itinerantes, que traziam seus enormes (às vezes com 10 metros de largura) gráficos dispensacionais e os dependuravam na parede, atravessando a plataforma da igreja, para que o assunto fosse devidamente explanado. O evangelista, segurando um indicador, guiava o auditório através dos sete períodos dispensacionais da redenção divina, explicando as verdades bíblicas desde a Era da Inocência, no Jardim do Eden, até ao Milênio. Entre os que produziram tais materiais, Finis Jennings Dake era provavelmente o pentecostal mais conhecido. De fato, suas muitas publicações, inclusive apostilas, livros e, posteriormente, Dake’s Annotated Reference Bíble (1963), vêm ajudando a moldar a teologia de muitos pentecostais.
Relatos romanceados foram escritos por Elizabeth V. Baker entre outros autores: Chronicles of a Faith Life (2a. edição de 1926); H. A. Baker: Visions Beyond the Veil (1938); Robert W. Cummings: Gethsemane (1944); e Alice Reynolds Flower: Love Overâowing (1928). A poesia também foi adotada como meio de comunicação para se compartilhar as verdades espirituais. Entre os poetas mais conhecidos achavam-se Alice Reynolds Flower e John Wright Follette.
Os compositores de hinos e cânticos ajudaram, como sói acontecer, a transmitir as doutrinas pentecostais. Entre os muitos favoritos, as congregações eram abençoadas pelos cânticos de Herbert Buffum, tais como “A Beleza de Cristo” e “Vou Até ao Fim”. Os cânticos dos pentecostais afro-americanos da “unicidade” também fizeram-se bastante apreciados, especialmente os de Thoro Harris (“Tudo que Emociona a Minha Alma E Jesus”, “Com Mais Abundância” e “Ele Breve Virá”) e do Bispo Garfield T. Haywood (“Jesus, o Filho de Deus” e “Vejo Fluir o Sangue Carmesim”).
Uma segunda razão que ajudou na preservação da doutrina foi o “gato” usado pelos cristãos para exigirem respostas sólidas diante das doutrinas errôneas. Após 1916, sempre que surgiam ameaças à fé, o Concílio Geral agia com rapidez para resolver as questões e pendências doutrinárias. Em 1917, adaptou-se o Artigo 6, da Declaração das Verdades Fundamentais, a fim de se referir às línguas como o “sinal físico inicial” (grifos nossos).
Quando o problema voltou à tona, em 1918, a questão hermenêutica do falar noutras línguas, como evidência necessária do batismo no Espírito Santo, foi declarada pelo Concílio Geral como o “nosso testemunho distintivo”. Nos anos que se seguiram, vários artigos de relevância, escritos por Kerr, foram publicados no Pentecostal Evangel, como respostas às diversas questões doutrinárias.
Sem emendar a Declaração, o Concílio aprovou regulamentos internos para se lidar doutra forma com as questões problemáticas. Na categoria de “Erros Escatológicos”, que aparece no Artigo VIII da Constituição e dos Regulamentos Internos, várias doutrinas condenadas encontram-se alistadas. Haja vista a doutrina da “retribuição de todas as coisas”, que teve origem fora das Assembleias de Deus. Charles Hamilton Pridgeon, conhecido ministro em Pittsburgh, Pennsylvania, propôs no seu livro Is Hell Eternal; or Will God’s Plan Fail? (1918), que o inferno seria de duração limitada, visando a purificação dos pecados e que, depois disso, toda a raça humana experimentaria o amor de Deus. Pridgeon, que antes era presbiteriano, e defendia a cura divina, tornou-se pentecostal no começo da década de 20, e continuou a ensinar essa forma de universalismo. A doutrina era chamada a “reconciliação” de todas as coisas, ou simplesmente “pridgeonismo”. O Concílio Geral condenou-a como heresia em 1925. Embora não se saiba quantos pentecostais aceitaram o universalismo de Pridgeon, a ameaça parecia suficientemente grave para merecer a condenação oficial.
Outra questão tinha a ver com a volta iminente de Cristo. Um pastor podia aceitar a doutrina do Arrebatamento após a Tribulação? Quando Benjamim A. Baur requisitou sua carteira de pastor ao Distrito do Leste, em meados de 1930, os presbíteros indeferiram o pedido, alegando que a sua doutrina diminuía a iminência da volta do Senhor. De acordo com a opinião de Baur, os cristãos teriam de suportar a totalidade dos sete anos do período da Grande Tribulação, especialmente os três anos e meio finais – o tempo da “Grande Ira” antes de Cristo voltar para buscar a sua Igreja. Embora alguns dos presbíteros regionais aceitassem o Arrebatamento no meio da Tribulação, a opinião de Baur foi mantida sub judice apesar de sua volumosa defesa por escrito. O Concílio Geral, em 1937, aprovou uma proposta, notificando o problema aos fiéis. Pois estes poderiam cair no indiferentismo espiritual se lhes fosse dito que a volta de Cristo não era iminente. Mesmo assim, em consonância com os interesses dos primeiros pentecostais, no sentido de se evitar divisões e dissensões por causa de pontos delicados da doutrina, o novo regulamento interno permitia que os pastores cressem num arrebatamento após a Tribulação. Todavia, não deveriam pregar ou ensinar semelhante doutrina. No fim, Baur não recebeu sua carteira pastoral, permanecendo fora do Concílio Geral.
Uma terceira razão que ajudou na preservação da doutrina é que os pentecostais tiveram de fazer certo esforço para manter o equilíbrio entre os ensinos bíblicos e a experiência religiosa. Apesar de haverem assumido um compromisso baseado no princípio da autoridade bíblica, segundo a Reforma Protestante (“as Escrituras somente”), como a única regra de fé e prática, experimentavam a tentação de elevar as revelações pessoais e outras manifestações místicas ao mesmo nível. A luta é refletida numa reportagem antiga no Pentecostal Evangel, que descreve as expectativas de Frank M. Boyd como um educador e instrutor, no Instituto Bíblico Central (Faculdade a partir de 1965).
Ele esperava que todos os alunos, ao partirem de lá, estivessem mais cheios de amor e zelo do Espírito Santo do que quando haviam chegado. Segundo ensinava, quando o homem tem a Palavra sem o Espírito, é frequentemente desinteressante como se estivesse seco e morto. E quando têm o Espírito sem a Palavra, há sempre a tendência ao fanatismo. Mas quando o homem possui a Palavra e o Espírito, acha-se equipado como o deseja o Mestre.
O desafio para se instruir os cristãos a respeito de uma vida madura no Espírito, ajuda explicar a grande prioridade atribuída às publicações pentecostais.
Manuais pormenorizados de doutrinas, no entanto, não apareceram antes das décadas de 20 e de 30. Um dos mais popularizados: Conhecendo as Doutrinas da Bíblia (1937), foi compilado das apostilas de Myer Pearlman, professor do Instituto Bíblico Central. O teólogo Russell P. Spittler sugere que essa obra é “a jóia teológica do período mediano do Pentecostalismo clássico”. Outros livros, com conteúdos semelhantes, foram publicados, inclusive o de S. A. Jamieson: Colunas da Verdade (1926), as Doutrinas Bíblicas (1934) de P. C. Nelson, e a Systematic Theology (1953), de Ernest S. Williams, em três volumes. Embora organizada como teologia sistemática, é mais um manual de doutrina; consiste dos esboços das aulas ministradas no Instituto Bíblico Central, entre 1929 e 1949. Estudos especiais sobre o Espírito Santo incluíam, Que Quer Isso Dizer/ (1947), de Carl Brumback, e O Próprio Espírito (1949), de Ralph M. Riggs. Numa atividade correlata, Boyd preparou livros sobre a instrução doutrinária para cursos de correspondência, e assim fundou o que agora é chamado Colégio Bereano das Assembleias de Deus.
Noutra frente, Alice E. Luce, missionária na índia e posteriormente aos hispanos na América do Norte, orientou o Concílio Geral na articulação da sua teologia e estratégia no tocante às missões mundiais. Ela era a primeira grande missiologista nas Assembleias de Deus. Seus três artigos a respeito dos métodos missionários de Paulo, no Evangel Pentecostal, publicados no começo de 1921, prepararam o caminho para a aceitação, pelas Assembleias de Deus, de um compromisso detalhado com os princípios de uma igreja autóctone. A decisão oficial foi comunicada em setembro daquele ano durante a reunião do Concílio Geral. Luce, formada no Cheltenham Ladies’ College (na Inglaterra), também escreveu vários livros, numerosos artigos em inglês e espanhol, esboços de aulas e lições para a Escola Dominical.
A Preservação da Doutrina depois de 1950
Com a chegada de uma nova geração interessada na melhoria da qualidade de treinamento em faculdades bíblicas e seculares, os professores foram encorajados a prosseguir a nos seus estudos. Foi assim que começou uma transição paulatina dos responsáveis pelos departamentos de Bíblia e de teologia para instrutores com formação universitária no estudo da Bíblia, da Teologia Sistemática e da História Eclesiástica, já devidamente equipados com conhecimentos sobre Hermenêutica, Antigo e Novo Testamentos, Teologia e desenvolvimento histórico da doutrina e da prática.
Embora muitos tivessem tido, desde o início, preocupações com a intelectualização da fé, a nova estirpe de instrutores foi um exemplo de equilíbrio entre a espiritualidade pentecostal e os estudos acadêmicos. Um desses professores, Stanley M. Horton, havia se formado em línguas bíblicas e Antigo Testamento, no Seminário Teológico Gordon-Conwell, na Faculdade de Divindades de Harvard, e no Seminário Teológico Batista Central. No decorrer dos anos, Horton começou a demonstrar notável influência sobre a denominação mediante os seus ensinos, livros (O Que a Bíblia Diz Sobre o Espírito Santo [publicado pela CPAD]), artigos em revistas e jornais, e contribuições ao currículo da Escola Dominical para adultos.
Com perícia cada vez maior, os educadores começaram a explorar com mais profundidade as crenças distintivas das Assembleias de Deus. Muitos deles filiaram-se à Sociedade para Estudos Pentecostais, entidade acadêmica fundada em 1970, contribuindo com artigos para sua revista teológica Pneuma Paraclete (que começou a ser editada em 1967 e, posteriormente, oficializada pela denominação), oferecendo mais uma oportunidade para o estudo erudito, embora haja sido confinada, até 1992, ao estudo da pneumatologia. Outro espaço para a divulgação (mas por curto tempo) das opiniões teológicas dentro do Concílio Geral surgiu com a publicação de Agora (1977-1981), uma revista trimensal independente.
Os estudos eruditos relevantes sobre a Pessoa e obra do Espírito Santo incluem: Commentary on the First Epistle to the Corinthians (1987), de Gordon D. Fee; The Book of Acts (1981), de Stanley M. Horton; e The Charísmatic Theology of St. Luke (1948), de Roger Stronstad (pastor das Assembleias Pentecostais do Canadá). Estudos de questões específicas relacionadas com a tradição pentecostal acham-se em O Espírito nos Ajuda a Orar. Uma Teologia Bíblica da Oração (1993), de Robert L. Brandt e Zenas J. Bicket; Called and Empowered: Global Mission in Pentecostal Perspective (1991), de Murray Dempster, Byron D. Klaus e Douglas Peterson, editored; Initial Evidence: Historical and Biblical Perspectives on the Pentecostal Doctrine of Spirit Baptism (1991), de Gary B. McGee, editor; Power Encounter: A Pentecostal Perspective (1989), de Opal L. Reddin, editor; e The Liberating Spirit: Toward an Hispanic American Social Ethic (1992), de Eldin Villafane.
Mesmo assim, à parte da nova linha de manuais de estudo superior, publicada por Logion Press (Casa Publicadora das Assembleias de Deus dos Estados Unidos), ainda prevalece a prioridade à publicação de obras de cunho popular. O livro recém-publicado: Doutrinas Bíblicas: Uma Perspectiva Pentecostal (CPAD, 1995), de William W. Menzies e Stanley M. Horton, representa um novo panorama de doutrinas para as aulas da Escola Dominical para adultos ou para cursos universitários. A grande quantidade de livros das Assembleias de Deus, editados pela Casa Publicadora, ainda dedica especial atenção aos estudos bíblicos, ao discipulado e ao preparo da prática pastoral. O mesmo acontece com as publicações da ICI University (FAETAD no Brasil) e do Colégio Bereano. Ambas as organizações oferecem programas (com ou sem créditos válidos para um grau universitário) por correspondência aos leigos, bem como aos candidatos ao ministério eclesiático.
Outras publicações, oriundas de várias editoras, incluem formas mais acadêmicas de se estudar as doutrinas: An Introduction to Theology: A Classical Pentecostal Perspective (1991), de John R. Higgins, Michael L. Dusing e Frank D. Tallman; e os dois livros, escritos em linguagem popular, de Donald Gee: A Respeito dos Dons Espirituais (1928, ed. rev. 1972) e Trophimus I Left Sick (1952); dois livretes intitulados Living Your Christian Life Now in the Light of Eternity (1960), de H. B. Kelchner; Divine Healing and the Problem of Suffering (1968), de Henry H. Ness; e The Spirit: God in Action (1974), de Anthony D. Palma. Tratados menos didáticos a respeito da vida espiritual têm sido publicados, tais como Pentecost in My Soul (1989), de Edith L. Blumhofer. Semelhantemente, memórias pessoais, como Vai: Disse-me o Espírito (1961), de David J. du Plessis; Grace for Grace (1961), de Alice Reynolds Flower; e Although the Fig Tree Shall Not Blossom (1976), de Daena Cargnel, têm despertado interesse em virtude de sua ênfase à presença e orientação do Espírito Santo nos corações dos cristãos. Mais inspiração e ensino dessa natureza são fornecidos pelo semanário Pentecostal Evangel e por Advance, uma revista mensal para pastores.
Os compositores continuaram a compartilhar seus dons de adoração e instrução. Um dos mais conhecidos, Ira Stanphill, aqueceu os corações dos fiéis com cânticos como “A Mansão Além das Montanhas”, “Lugar Diante da Cruz” e “Sei Quem Segura o Amanhã nas Mãos”, oferecendo consolo e certeza da graça de Deus.Os compositores têm exercido uma influência tão grande desde o início do Movimento Pentecostal que, embora a maioria dos pentecostais nunca haja aprendido o Credo dos Apóstolos ou o Credo Niceno, consegue cantar de cor uma quantidade espantosa desses cânticos e corinhos, testemunho óbvio de que boa parte da teologia pentecostal vem sendo transmitida oralmente.
Já na década de 1970, as Assembleias de Deus tornaram-se numa das principais denominações dos Estados Unidos, vinculando-se a organizações fraternais ainda maiores no estrangeiro. Os líderes eclesiásticos, vendo-se diante de novos problemas, decidiram publicar declarações de tomada de posição acerca de questões que perturbavam a igreja. Dessa maneira, continuavam a responder às questões que surgiam, mas sem acrescentar regulamentos à constituição, nem emendar a Declaração das Verdades Fundamentais. A partir de 1970, com a publicação de “A Inerrância das Escrituras” (homologada pela Convenção Nacional), mais de vinte desses informes oficiais foram promulgados. Os temas abrangem a cura divina, a criação, a meditação transcendental, o divórcio e novo casamento, a evidência física e inicial do batismo no Espírito Santo, o aborto, o Reino de Deus e as mulheres no ministério. Recentemente, os membros da Comissão da Pureza Doutrinária (fundada em 1979 para o acompanhamento dos acontecimentos teológicos) redigiram esses informes oficiais.
Obviamente, o emprego das declarações de tomada de posição (os informes oficiais), começou a expandir a identidade confessional das Assembleias de Deus. Apelar a tais informes, porém, foi um método que não deixou de gerar algum desconforto. O peso de autoridade dos informes, em contraste com o da Declaração das Verdades Fundamentais, ainda é discutível. Pelo menos um desses informes pode ser interpretado como mudança de uma doutrina original da Declaração, quando o informe menciona que “alguns têm procurado colocar a cura divina em constraste com a prática médica, ou de concorrência com esta. Não é necessário que seja assim. Os médicos, com as suas perícias, têm socorrido a muitas pessoas”. Além disso, os cristãos não conseguem inverter os efeitos físicos da Queda, posto que “não importa o que fizermos em favor desse corpo; independentemente de quantas vezes formos curados, se Jesus demorar, todos morreremos”.
Já na década de 1940, muitos evangélicos conservadores reconheceram que as concordâncias teológicas com os pentecostais sobrepujavam as diferenças, e começaram a acolher a comunhão e a cooperação com eles. Quando as Assembleias de Deus filiaram-se à Associação Nacional de Evangélicos (NAE), organização fundada em 1942, passaram a ocupar posição de destaque na vida eclesiástica da América do Norte (essa participação foi reforçada pelas tendências de melhoria social e econômica depois da Segunda Guerra Mundial). Às vezes, o relacionamento ficava tênue, por causa das suspeitas que ainda perduravam quanto à pneumatologia das Assembleias de Deus, e quanto à natureza geralmente arminiana de sua teologia. Nem por isso o impacto do evangelicalismo sobre a teologia pentecostal deixou de ser considerável.
Depois da eleição de Thomas F. Zimmerman para presidente da NAE (1960-1962), o Concílio Geral, em 1961, fez algumas modificações na Declaração das Verdades Fundamentais. A revisão mais significava foi feita na seção “As Escrituras Inspiradas”. A versão de 1916 dizia: “A Bíblia é a palavra inspirada de Deus, a revelação de Deus ao homem, a regra infalível da fé e da conduta, e é superior à consciência a e à razão, mas não é contrária a esta”. O texto revisado aproximou-se mais do texto dos evangélicos na NAE: “As Escrituras, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, são verbalmente inspiradas por Deus, e são a revelação de Deus ao homem, a regra infalível e autorizada de fé e conduta”. Os membros das Assembleias de Deus, desde a fundação do Concílio Geral, crêem na inspiração e na inerrância das Escrituras. Mas ainda não se sabe precisar se os pentecostais contribuíram para o entendimento de que a inspiração das Escrituras é dada pelo “sopro por Deus” (gr. theopneustos).
Muitos teólogos, dentro e fora da NAE, levantaram objeções ao modo wesleyano e keswickiano de entender a obra da graça, recebida após a conversão – o alicerce teológico no qual os pentecostais clássicos têm edificado a sua doutrina do batismo no Espírito Santo. Como resposta, dois estudiosos carismáticos publicaram importantes contribuições à doutrina pentecostal clássica do batismo no Espírito: Howard Ervin (batista norte-americano): Conversion-Initiation and the Baptism in the Holy Spirit (1984) e J. Rodman Williams (presbiteriano), Renewal Theology, especialmente o volume 2 (1990). Estudos importantes também foram realizados por teólogos das Assembleias de Deus.
Os estudiosos evangélicos influenciaram substancialmente o ponto de vista pentecostal no tocante aos aspectos presente e futuro do Reino de Deus, conceito esse que havia recebido mera alusão na Declaração das Verdades Fundamentais. Durante muitos anos, o ensino das Assembleias de Deus a respeito dos eventos futuros havia tido forte orientação dispensacionalista (compartilhava da crença nas sete dispensações, no Arrebatamento antes da Tribulação e na interpretação pré-milenista das Escrituras, mas deixava de lado uma doutrina-chave do dispensacionalismo: a separação entre a Igreja e Israel). Essa doutrina foi popularizada e reforçada pelos escritos de Riggs, Boyd, Dake, Brumback, John G. Hall e T. J. Jones. As referências no Novo Testamento ao “Reino de Deus” (definido resumidamente como o senhorio ou governo de Deus) como realidade presente nos corações dos redimidos, passaram quase que desapercebidas, ao passo que seu futuro aparecimento milenar recebe consideração extensiva.
Segundo o dispensacionalismo histórico, a promessa do reino restaurado de Davi havia sido adiado até ao Milênio, porque os judeus tinham rejeitado a oferta que Jesus lhes fizera do reino. A rejeição levou ao adiamento do cumprimento da profecia de Joel, da restauração de Israel e do derramamento do Espírito, para depois da segunda vinda de Jesus. Os eventos registrados em Atos 2, portanto, representavam apenas uma bênção inicial de poder para a Igreja Primitiva. Israel e a Igreja eram, logicamente, mantidos separados; daí surgiu a postura anti-pentecostal subjacente desse sistema da interpretação das Escrituras.
Para os pentecostais, porém, a profecia de Joel tinha sido cumprida no Dia de Pentecostes, conforme indica a declaração de Pedro: “Isto é o que foi dito…” (At 2.16). Infelizmente, a complacência dos pentecostais diante do dispensacionalismo impediu a busca das implicações de algumas das referências ao reino (presente) e das reivindicações ao poder apostólico nos últimos dias (ver Mt 9.35; 24.14; At 8.12; 1 Co 4.20, entre outros).
Certos teólogos, notavelmente, Ernest S. Williams e Stanley M. Horton, fizeram uma nítida identificação entre o reino de Deus e a Igreja (“o Israel espiritual”), reconhecendo a conexão de suas crenças com a atividade contemporânea do Espírito Santo na Igreja.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os evangélicos voltaram à atenção para o estudo das implicações teológicas e missiológicas do Reino de Deus, sendo que esse interesse, por parte dos pentecostais, chegou a formar um paralelo com o dos evangélicos. O conhecido missiólogo das Assembleias de Deus, Melvin L. Hodges, reconhecia a importância do reino para a compreensão de uma teologia neotestamentária de missões. Discursando no Congresso da Missão Mundial da Igreja, em Wheaton College, em abril de 1966, declarou que a Igreja é “a manifestação presente do Reino de Deus na terra, ou no mínimo, a agência que prepara o caminho para a manifestação futura do reino. Sua missão, portanto, é a expansão da Igreja pelo mundo inteiro… E o Espírito Santo que vivifica a Igreja e lhe concede dons, ministérios e poder para a realização da sua obra”. Embora Hodges não entrasse em muitos pormenores, já era uma indicativa do surgimento de uma importante tendência. A conexão entre os “sinais e prodígios” e o reino que avançava (as manifestações do poder do Espírito, associadas com a pregação do Evangelho) aguardava maiores esclarecimentos.
Uns vinte anos mais tarde, a missionária aposentada Ruth A. Breusch, definiu as implicações para o ministério pentecostal em Mountain Movers, a revista de missões estrangeiras das Assembleias de Deus (demonstrando, mais uma vez, a prioridade de discipular os membros da igreja). Numa série de dez artigos, sob o tema “O Reino, o Poder e a Glória”, Breusch, formada pelo Hartford Seminay Foundation, apresentou uma cuidadosa interpretação neotestamentária, demonstrando familiaridade com a literatura missiológica. Definiu o reino como o domínio de Deus que abrange “a Igreja como centro das bênçãos de Deus, que abarca todo o seu povo. A Igreja consiste daqueles que foram resgatados do reino das trevas e transportados para o reino do Filho de Deus”. Logo, “essa Igreja é o Novo Israel, o povo de Deus segundo a nova aliança. ‘Nova’ porque os cristãos gentios agora estão incluídos”. A Igreja é o meio escolhido por Deus para a expansão do seu reino em toda terra. Para Breusch, a vinda do Espírito reflete sua natureza redentora, revestindo a Igreja de poder para a evangelização do mundo.
Essa atenção dedicada ao estudo do conceito bíblico do Reino de Deus, contribuiu para uma melhor compreensão dos ensinos éticos dos Evangelhos, da natureza e missão da Igreja, da relevância dos sinais e prodígios no evangelismo e do papel do cristão na sociedade.
Outros escritores, num âmbito mais acadêmico, celebraram a importância do Reino de Deus no estudo das Escrituras. Peter Kuzmic, por exemplo, observou:
Os pentecostais e os carismáticos estão convictos… de que “o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em virtude [poder]” (1 Co 4.20), e esperam que a pregação da Palavra de Deus seja acompanhada pelos atos poderosos do Espírito Santo… Para os seguidores de Jesus que acreditam no “evangelho pleno/integral”, a comissão para pregar as boas-novas do Reino de Deus está vinculada ao poder do Espírito Santo que nos capacita a vencer as forças do mal…
… Numa época de racionalismo, de liberalismo teológico, de pluralismo religioso, os pentecostais e os carismáticos acreditam que a ação sobrenatural do Espírito Santo corrobora o testemunho cristão. Da mesma forma que nos dias dos apóstolos, o Espírito Santo é a própria vida da Igreja e da sua missão, e não substitui Cristo, o Senhor, mas o exalta. Essa é a missão primária do Espírito, e a forma de o Reino de Deus se tornar realidade na comunidade cristã. Cristo reina onde o Espírito opera!
Além disso, Kuzmic e Murray W. Dempster, entre outros, lidam de modo franco e aberto com as implicações do Reino para a ética social cristã.
Recentemente, alguns pentecostais e carismáticos defenderam várias formas da teologia do “Reino Agora”, que, em alguns casos, têm representado um afastamento do conceito do Arrebatamento antes da Tribulação e/ou da interpretação pré-milenista da Bíblia. Focalizando a sociedade cristã da atualidade, e desconsiderando ou minimizando a ênfase sobre o arrebatamento da Igreja (mas não necessariamente a segunda Vinda de Cristo), esse ensino tem gerado graves controvérsias. O simples fato do surgimento dessas perspectivas demonstra que os pentecostais estão preocupados em descobrir suas responsabilidades como cristãos na sociedade.
Hoje, abundam as referências ao Reino de Deus nas publicações das Assembleias de Deus. O valor para o estudo contínuo das doutrinas mais queridas talvez seja profundo e de amplo alcance, conservando diante da memória dos pentecostais as riquezas da Palavra de Deus.
O Pentecostalismo surgiu do Movimento da Santidade do século XIX. A formulação do evangelho integral, o zelo pela evangelização do mundo nos últimos dias e a oração intensiva pelo derramamento do Espírito Santo precipitaram os reavivamentos em Topeka, Los Angeles, e os muitos que se seguiram.
Os movimentos pentecostais e carismáticos, neste século, indicam que algo de significância incomum ocorreu na história da Igreja: Deus derramou, em todos os lugares, o Espírito Santo sobre os cristãos que buscam ter uma vida cheia do Espírito, caracterizada pela santidade e pelo poder espiritual. O revestimento divino de poder, concedido pelo batismo no Espírito, outorga a compreensão da sua atividade no mundo, maior sensibilidade diante da sua orientação, uma nova dimensão de oração e poder espiritual para realizar as tarefas missionárias.
Quando os pentecostais independentes organizaram o Concílio Geral, em 1914, fizeram-no com o propósito de ganhar o mundo para Cristo. A urgência e os problemas daqueles tempos exigiam a cooperação entre os batizados no Espírito. Os líderes eclesiásticos reconheceram a importância do estudo da Bíblia e da doutrina para proteger as congregações da heresia, mas, de modo mais significante, para equipar os cristãos “para a obra do ministério” (Ef 4.12).
O desenvolvimento doutrinário na denominação assumiu várias formas: o Preâmbulo, a Declaração das Verdades Fundamentais, o regulamento interno, os informes de tomada de posição, artigos e editoriais nas revistas, folhetos, livros, currículos da Escola Dominical, cânticos e poesias. Os professores da Escola Dominical, os dirigentes do louvor, os pastores, os líderes denominacionais – todos são chamados para proclamar as boas-novas da salvação, para compartilhar a compaixão de Jesus Cristo e para discipular os convertidos.
A demora na volta do Senhor e o contexto cultural em mudança, oferecem cada vez mais desafios à fé, e por isso, as questões teológicas merecem, cada vez mais, atenção e respostas convincentes. Da mesma forma, a crescente identificação com o evangelicalismo tem levado a reflexões cada vez mais profundas sobre a qualidade distintiva das crenças pentecostais. Desde a Segunda Guerra Mundial, o interesse evangélico pelo ensino bíblico sobre o Reino de Deus, enriqueceu o estudo das doutrinas dentro das Assembleias de Deus.
O cenário contemporâneo conclama a Igreja a reexaminar a sua fidelidade a Deus e a sua missão no mundo. O estudo sério das Escrituras, em espírito de oração, da teologia, da missiologia e da história eclesiástica, portanto, constitui-se num dom importante do Cristo ressurreto à sua Igreja.
O Desenvolvimento do Ensino Teológico Pentecostal no Brasil
O movimento pentecostal no Brasil teve início em 1911 através dos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, alcançados pelo avivamento que varreu os Estados Unidos no começo do século. Ele deu origem a Assembleia de Deus, que, em suas primeiras décadas de existência, não teve o ensino teológico formal como a sua prioridade básica. Sendo um movimento essencialmente apostólico, concentrou todos os seus recursos na evangelização de um país cujo território é várias vezes maior que a Europa Ocidental.
Mas isto não significa que a Assembleia de Deus brasileira haja descurado do estudo das doutrinas cristãs. Gunnar Vingren era um pastor com formação teológica, e muito se preocupou em instruir os primeiros crentes, com ênfase para as doutrinas pentecostais. Logo na primeira página do primeiro número da Voz da Verdade, o primeiro jornal editado pela Assembleia de Deus, aparece o artigo intitulado “Jesus é quem batiza no Espírito Santo”. A imprensa pentecostal mostra, dessa maneira, que o seu principal intento não é propriamente a notícia, e sim a divulgação doutrinária.
Em 1919 surge a Boa Semente. Em 1929, o Som Alegre. Já no primeiro número deste periódico, Gunnar Vingren mais uma vez deixava bem clara a preocupação do movimento pentecostal com o ensino teológico: “Em o Som Alegre anunciaremos as promessas gloriosas incluídas no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, a salvação completa e perfeita de todos os pecadores e tudo o que pertence à nova vida do cristão: o batismo no Espírito Santo, os dons espirituais, e a próxima e gloriosa vinda do Senhor”. Nota-se aí que, além da ênfase nas doutrinas pentecostais, principalmente o batismo com o Espírito Santo e as línguas estranhas como sua evidência inicial, outra característica predominante do movimento pentecostal no Brasil foi a crença na vinda do Senhor como algo prestes a acontecer, o que implicava também na busca da santidade. Esta era um alvo daqueles que ansiavam subir ao encontro do Senhor.
A mesma linha doutrinária seria adotada pelo Mensageiro da Paz que, fundado em 1930, viria a substituir os periódicos anteriores. Nessa época, a Assembleia de Deus já era a principal denominação evangélica do Brasil. E apesar de a grande maioria de seus obreiros ser composta de homens leigos e quase sem instrução, ela podia contar com o Mensageiro da Paz que, a rigor, não era apenas o evangelista silencioso, mas o professor silencioso e domiciliar que chegava onde nenhum seminário poderia ser instalado. Embora informal, o Mensageiro da Paz vem proporcionando aos seus leitores, desde a sua fundação, uma ampla gama de estudos bíblicos, devocionais e notas homiléticas. Ele tem sido o instituto bíblico à distância de várias gerações de pentecostais.
Outro fator de progresso do ensino teológico no meio pentecostal brasileiro foram as escolas bíblicas dominicais. Realizadas com o apoio de literatura fornecida pela CPAD, constituiu-se no principal instrumento de divulgação entre os crentes das doutrinas que caracterizam o movimento, ensejando-lhes a oportunidade de apregoar com segurança a sua fé.
Ressalte-se, ainda, a importância da literatura na consolidação da teologia pentecostal. Além das lições bíblicas para a Escola Dominical, não só os obreiros mas os crentes em geral puderam contar com o concurso de boas obras para consolidar as suas raízes. Dois grandes nomes foram os pioneiros da literatura pentecostal no Brasil: Orlando Boyer e Emílio Conde, este considerado o apóstolo da imprensa evangélica no país.
No entanto, o que mais influenciou a formação teológica dos obreiros pentecostais no Brasil foi a criação das escolas bíblicas para a divulgação do ensino teológico. Conquanto não se tenha uma data precisa de quando elas tiveram início, pode-se dizer que as escolas bíblicas desempenharam papel decisivo na estruturação teológica do movimento pentecostal no Brasil. Duravam geralmente de 15 dias a um mês e contavam com professores especialmente convidados a ministrar matérias bíblicas, teológicas ou eclesiásticas, segundo o currículo mínimo estabelecido. Via de regra, concedia-se aos alunos um certificado de conclusão do curso. Foram expoentes dessa época, como sistematizadores das doutrinas esposadas pelo movimento pentecostal, Samuel Nystrõm,
J. P. Kolenda, Eurico Bergstén, Lawrence Olson, João de Oliveira, José Menezes e mais recentemente, Alcebíades Pereira Vasconcelos e Estevam Ângelo de Souza.
O passo seguinte foi o estabelecimento do ensino teológico formal, que encontrou, inicialmente, algumas resistências. Havia a preocupação de que os estudantes priorizassem o academicismo teológico em detrimento da ação do Espírito Santo em suas vidas. Todavia, isto não impediu que em 23 de março de 1959 fosse fundado em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus. Tendo como fundadores o casal de missionários João Kolenda Lemos e Ruth Dóris Lemos, o IBAD foi o responsável pela formação teológica e cultural de muitas lideranças expressivas do Brasil e até de obreiros de outros países. Em 1962, o missionário Lawrence Olson estabelece no Rio de Janeiro o Instituto Bíblico Pentecostal. E, à semelhança do IBAD, em São Paulo, o IBP marcou toda uma geração de evangelistas, pastores, missionários e professores. Desponta, nessa época, outro expoente do pensamento teológico pentecostal brasileiro: pastor Antonio Gilberto, editor da Bíblia de Estudo Pentecostal em português.
Paralelamente, começaram a surgir outras vertentes do movimento pentecostal no Brasil, “incentivadas pelas cruzadas nacionais de evangelização que percorreram o país usando tendas como templos improvisados”. Esta expansão alcançou também as denominações tradicionais, e foi marcada pela ênfase na contemporaneidade dos dons espirituais, principalmente da cura divina. Considerado o pai da renovação pentecostal entre as igrejas tradicionais, Enéas Tognini muito contribuiu para a sistematização teológica nesta nova fase do pentecostalismo, seguindo basicamente as linhas históricas do movimento. E a partir desse momento que duas grandes vertentes teológicas passam a predominar no movimento pentecostal brasileiro: os históricos, que creem nas línguas estranhas como evidência inicial do batismo no Espírito Santo, e os neopentecostais, que creem no batismo no Espírito Santo sem que, necessariamente, as línguas estranhas sejam a evidência inicial, assunto que será discutido com todos os seus desdobramentos no capítulo que trata sobre o batismo no Espírito Santo.
Como se vê, os pentecostais brasileiros, ainda que empiricamente, sempre se preocuparam com o ensino teológico. Hoje, com milhões de membros em todo o país, conta com institutos bíblicos, seminários e faculdades teológicas devidamente estabelecidos em todas as regiões. Eles passam a desfrutar agora do inestimável concurso desta teologia sistemática que, através do prisma do Movimento Pentecostal, apresenta as grandes doutrinas bíblicas.
Fonte: Teologia Sistemática Stanley Horton

