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  • Lição 9 – Autoridade do Fruto do Espírito

    Lição 9 – Autoridade do Fruto do Espírito

    Fruto do espirito

    INTRODUÇÃO

    A Bíblia chama de “fruto do Espírito Santo” ao conjunto de ações que fazem o homem que aceita Cristo como seu Senhor e Salvador diferente dos que não tomaram esta decisão.

    A salvação é um processo que traz o homem à comunhão com Deus, pois retira o pecado do homem, que era o que fazia separação entre ele e Deus (Is.59:2). Este processo é uma verdadeira transformação, que muda o homem completamente, atingindo o homem como um todo: corpo, alma e espírito. “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”(II Co.5:17).

    A transformação radical que alcança uma pessoa que é salva foi bem ilustrada pelo Senhor Jesus, que afirmou que quem nEle crer passa da morte para a vida (Jo.5:24), das trevas para a luz (Jo.3:21). Assim sendo, a salvação, necessariamente, vem acompanhada de uma mudança de atitudes, de uma mudança de hábitos, de uma mudança de práticas. O homem que alcança a salvação passa a ter um novo conjunto de qualidades, um novo conjunto de atitudes, “não anda mais segunda a carne, mas, segundo e Espírito”(Rm 8:1).Este novo conjunto de ações, que estão de acordo com a vontade de Deus, é o que o apóstolo Paulo denominou de “o fruto do Espírito” (Gl.5:22) e que será o assunto de todo este trimestre.

    CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

    Sabemos que cada ser humano é diferente do outro, que não existe um indivíduo idêntico a outro, porque Deus não produz homens em série, como costumamos ver nas indústrias, mas, sim, dentro de seu supremo poder, cria cada homem individualmente. Esta individualidade do homem, conhecida como personalidade, deve ser dividida, basicamente, em dois elementos básicos: o temperamento e o caráter. O caráter define uma forma definida de conduta, que não é inata, mas constituída pela história de vida de cada sujeito, considerando a condição social, ambiente familiar, educação e todos os aspectos importantes para a construção das características de cada um. O caráter é influenciado pelo ambiente. O caráter é construído ao decorrer da vida do indivíduo e pode ser modificado. O temperamento define atitudes e atividades espontâneas, sendo inato. As influências do temperamento dos seres humanos são do sistema nervoso, composição bioquímica, hereditariedade. Estas características definem o temperamento como algo imutável, embora possa ser controlado e dominado.

    As pessoas quando aceitam a Cristo, não deixam de ser indivíduos, não perdem a sua individualidade: o caráter muda, mas não o temperamento, que passa a ser controlado pelo Espírito Santo.

    I – O PRINCÍPIO DO FRUTO DO ESPÍRITO

    Sabemos que, para nos ensinar as realidades espirituais, que só podem ser discernidas espiritualmente (I Co.2:12-15), Deus, através da sua Palavra, usou de figuras naturais, de realidades terrestres, a fim de que nossa mente pudesse bem entender a sua revelação (Jo.3:12).Uma destas figuras foi a do fruto, conceito que foi amplamente utilizado nas Escrituras Sagradas e que é o objeto de nossa lição presente, pois se trata da base do conceito de ” fruto do Espírito Santo”. A primeira vez que a palavra “fruto” é utilizada na Bíblia foi em Gn.1:11, na narrativa da criação dos vegetais terrestres, no terceiro dia da criação. Naquela oportunidade, Deus mandou que surgissem na terra ervas verdes que dessem semente, como também árvores frutíferas que dessem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela sobre a terra.

    Podemos dizer que Fruto é o órgão dos vegetais cuja função é fornecer nutrição para as sementes, que são resultado da fecundação das células reprodutoras dos vegetais.

    Lições espirituais do conceito de fruto:

    Em primeiro lugar, o fruto forma-se após a fecundação – ou seja, o fruto é resultante da transformação do ovário da flor. Em termos espirituais, a fecundação, ou geração, ocorre no momento do novo nascimento. Somente poderemos falar em fruto do Espírito Santo se tiver havido o novo nascimento. O Novo Nascimento significa uma mudança completa, total, absoluta –“…se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”(2 Co 5:17). No exato momento da Conversão o “velho homem” é transformado num “novo homem”. O homem carnal, ou natural, é transformado num homem espiritual, e de forma simultânea, recebe a Regeneração, ou seja, é gerado de novo; a Justificação, pela qual é declarado como se nunca tivesse pecado; é galardoado com a Adoção, tornando-se filho de Deus, recebendo, ainda, a Santificação. Este processo denomina-se Salvação. É por isso que Jesus dá tanto valor à frutificação, porque ela é uma demonstração de que houve o novo nascimento, que lhe antecede necessariamente.

    Em segundo lugar, o fruto é uma estrutura que tem a finalidade de guardar(proteger) a semente até que ela tenha condições de se desenvolver dando origem a um novo ser –Espiritualmente falando, como o fruto guarda a semente para que ela possa se tornar uma nova planta, da mesma maneira o fruto doEspírito Santo permite que o crente possa crescer espiritualmente, pois os hábitos e qualidades que irá ter, a partir de então, são instrumentos para a contínua aproximação do crente a Deus, fazendo-o refletir, cada vez mais, a glória do Senhor (II Co.3:17,18). Não é, aliás, por outro motivo que nosso Senhor afirmou que, através das nossas boas obras, os homens glorificam a Deus (Mt.5:16).

    Em terceiro lugar, o fruto tem uma função de nutrição, ou seja, o fruto foi feito para alimentar não só a semente, que é um novo ser em desenvolvimento, como também os outros seres, entre os quais o homem, como Deus deixou bem claro na parte final da criação (Gn.1:29,30). Espiritualmente falando, o fruto do Espírito Santo em nossas vidas tem esta função de proporcionar alimento espiritual para a humanidade. É através do fruto do Espírito por nós produzido que o mundo poderá reconhecer Jesus, o pão da vida (Jo.6:35,48), que é o único alimento que pode sustentar o homem espiritual. Por este motivo, Jesus disse que nos escolheu, para que tenhamos fruto e um fruto permanente (Jo.15:16).

    Em quarto lugar, o fruto é uma demonstração de que existe vida depois da fecundação – O fato de ter surgido um novo ser, que está na semente, não significa que a planta-mãe tenha morrido, mas, bem ao contrário, porque ela está viva, o ovário da flor transforma-se em fruto, para guardar e alimentar a semente até que ela tenha condições de germinar.Espiritualmente falando, a frutificação do crente é, também, a demonstração de que nele há vida, de que ele está vivo, de que ele está em comunhão com o Senhor. Jesus deixou-nos bem claro que Ele é a vida (Jo.1:4;11:25) e que, se não estivermos em comunhão com Ele, não poderemos dar fruto (Jo.15:2-6).

    Em quinto lugar, o fruto tem como centro a semente, ou seja, existe em função da semente, para guardá-la e alimentá-la, até que ela tenha condições de germinar e dar origem a um novo ser.Espiritualmente falando,o fruto do Espírito Santo tem como centro a Palavra de Deus (a semente também simboliza a Palavra do Senhor, como vemos em Mc.4:14). Todas as ações e atitudes que caracterizam o fruto do Espírito estão em plena consonância com as Escrituras, são o cumprimento da Bíblia Sagrada na vida de cada crente. Não é possível que alguém produza o fruto do Espírito e não seja um cumpridor da Palavra de Deus, pois o fruto existe em função da semente.

    Em sexto lugar, o fruto é o resultado de uma transformação. O ovário da flor transforma-se em fruto.Espiritualmente falando, o fruto do Espírito Santo é conseqüência de uma transformação, que é a salvação do homem que aceita a Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador. O fruto do Espírito Santo não é o resultado de uma reforma, de uma deformação, nem de uma formação, mas é produto de uma transformação, de um novo nascimento, nascimento da água e do Espírito.

    II – A VIDA CONTROLADA PELO ESPÍRITO

    1) Vida Frutífera – Quando o crente não se submete em tudo ao controle do Espírito Santo, ele não consegue resistir e neutralizar os desejos da natureza pecaminosa. Mas quando o Espírito tem esse controle, o crente torna-se igual um solo fértil para o Espírito produzir o seu bendito fruto descrito no versículo 22(vide item “a”). Somente pelo poder do Espírito o crente consegue sempre vencer os desejos, a cobiça e as inclinações da carne e viver uma vida frutífera. Um aspecto importante que observamos na botânica é que o fruto é o fim, o término de todo um processo fisiológico, é o resultado de todo um ciclo vital. Desde o momento que a semente germina e passa a formar um novo ser (morrendo, como nos fala Jesus), há somente um objetivo, uma finalidade: a formação do fruto. O fruto, como se vê, portanto, é o fim, o propósito, o objetivo de todo o processo. Espiritualmente falando, também vemos que o fim último da vida cristã é a produção do fruto do Espírito Santo. Todo o processo de concessão da vida espiritual tem como finalidade a formação deste fruto. Jesus foi claro ao afirmar que nos escolheu para que vamos, demos fruto e o nosso fruto permaneça (Jo.15:16).

    Somos de Cristo para que demos frutos para Deus(Rm 7:4). Quem não dá fruto do Espírito Santo não pode ser mantido no meio do povo de Deus e, por isso, é extirpado dele(Jo 15:2). Jesus deixou isto bem claro tanto na parábola da vinha(Lc 13:6-9), quanto no episódio da figueira infrutífera, que secou mediante a maldição do Senhor(Mt 21:18-22;Mc 11:12-14). Aliás, é esta a única oportunidade do ministério de Jesus Cristo em que O vemos lançando uma maldição, a demonstrar o quanto desagrada ao Senhor a existência de vidas infrutíferas no meio do seu povo. Para agradar a Deus em tudo é indispensável que frutifiquemos em toda a boa obra(Cl 1:10).

    a) Segredo da batalha espiritual – Para o cristão ser vencedor nesta batalha espiritual, o segredo éandar no Espírito –“Andais em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne”(Gl 5:16) – “Mas se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis”(Rm 8:13). Não se trata, pois, da extinção da “carne” na vida do crente, mas da sua mortificação; de torna-la inoperante, inativa, sem ação, sem capacidade de agir, crucificada juntamente com as suas paixões, como está escrito em Gl 5:24. Somente em Cristo e mediante o “andar no Espírito”o crente vive vitoriosamente quanto às obras da carne, descritas como estão em Gl 5:24(vide item b), e daí viver uma vida cristã abundante e frutífera. Mas, como se dá isso na vida do crente? Ouvindo a voz do Espírito atentamente; seguindo-O inseparavelmente; Obedecendo às suas ordens; Não O entristecendo com rebeldia, mundanismo, irreverência e descaso com as coisas do Senhor; Confiando nEle continuamente.

    b) Fruto e Obras – O apóstolo Paulo põe o paradoxo das possibilidades de vida em duas expressões: o cristão na deve produzir as obras da carne, mas, o fruto do Espírito Santo.

    Ao colocar as manifestações da carne no plural, o escritor bíblico quis deixar claro que elas são múltiplas. Além disso, ele termina a frase, acrescentando um “e coisas semelhantes a estas”, o que mostra a amplitude das possibilidades no erro, diante das quais devemos estar vigilantes. A lista não poderia mesmo ser limitada porque a criatividade humana é ilimitada.

    Quando o apóstolo passa a recomendar como o cristão deve viver, ele usa a expressão “fruto do Espírito” no singular. Cada arvore só dá um tipo de fruto, segundo a sua espécie. Esta ênfase paulina indica que essas virtudes não são para ser escolhidas no balcão do Espírito Santo, mas que devem compor a bagagem de todo cristão.A árvore de quem vive no Espírito Santo deve dar este fruto: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. É um fruto só. Observe que Paulo não coloca um “e” na última parte do fruto, o que vem a reforçar a unidade deste fruto.

    Gl 5.19-23 “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra essas coisas não há lei.”

    Nenhum trecho da Bíblia apresenta um mais nítido contraste entre o modo de vida do crente cheio do Espírito e aquele controlado pela natureza humana pecaminosa do que estes versículos.

    OBRAS DA CARNE –“Carne”, é a natureza pecaminosa com seus desejos corruptos, a qual continua no cristão após a sua conversão, sendo seu inimigo mortal(Leia Rm 8:6-8, 13; Gl 5:17,21). Aqueles que praticam as obras da carne não poderão herdar o reino de Deus(Gl 5:21). Por isso, essa natureza carnal pecaminosa precisa ser resistida e modificada numa guerra espiritual contínua, que o crente trava através do poder do Espírito Santo(ver Rm 8:4-14).

    1) “Prostituição” – significa imoralidade sexual de todas as formas. Isto inclui, também, gostar de filmes ou publicações pornográficas(cf Mt 5:32; 19:9, At 15:20,29; 21:25; 1Co 5:1).

    2) “Impureza” – significa pecados sexuais, atos pecaminosos e vícios, inclusive maus pensamentos e desejos do coração(Ef 5:3; Gl 3:6).

    3) “Lascívia” – significa sensualidade. É a pessoa seguir suas próprias paixões e maus desejos a ponto de perder a vergonha e decência(2 Co 12:21).

    4) “Idolatria” – significa adorar espíritos, pessoas ou ídolos, e também a confiança numa pessoa, instituição ou objeto como se tivesse autoridade igual ou maior que Deus e sua Palavra(Cl 3:5).

    5) “Feitiçarias” – significa praticar o espiritismo, magia negra, adoração de demônios e o uso de drogas e outros materiais, na prática da feitiçaria(Ex 7:11,22; 8:18; Ap 9:21; 18:23).

    6) “Inimizades” – significa intenções e ações fortemente hostis; antipatia e inimizade extremas.

    7) “Porfias” – significa brigas, oposição, luta por superioridade(Rm 1:29; 1Co 1:11; 3:3).

    8) “Emulações” – significa ressentimento, inveja amarga do sucesso dos outros(Rm 13:13; 1Co 3:3).

    9) “Iras” – significa ira ou fúria explosiva que brota através de palavras e ações violentas( Cl 3:8).

    10) “Pelejas” – significa ambição egoísta e a cobiça do poder(2Co 12:20; Fp 1:16,17).

    11) “Dissensões” –significa grupos divididos dentro da congregação, formando conluios egoístas que destroem a unidade da Igreja (Rm 16:17).

    12) “Heresias” – significa introduzir ensinos cismáticos na congregação sem qualquer respaldo na Palavra de Deus (1Co 11:19).

    13) “Invejas” – significa antipatia ressentida contra outra pessoa que possui algo que não temos e queremos.

    14) “ Homicídios” – significa matar o próximo por perversidade.

    15) “Bebedices” – significa descontrole das faculdades físicas e mentais por meio de bebida embriagante.

    16) “ Glutonarias” – significa diversões, festas com comida e bebida de modo extravagante e desenfreado, envolvendo drogas, sexo e coisas semelhantes.

    As palavras finais de Paulo sobre as obras da carne são severas e enérgicas: quem se diz crente em Jesus e participa dessas atividades iníquas exclui-se do reino de Deus, isto é, não terá salvação(5:21; ver 1Co 6:9,10).

    FRUTO DO ESPÍRITO – Os dons representam a capacidade ou poder no crente, e o fruto é a representação do caráter: os dois se completam. O fruto do Espírito Santo é um só, mas se manifesta em cada vida, de nove formas diferentes. Imagine uma laranja com nove gomos- o Fruto do Espírito Santo é um só(uma laranja), como nove qualidades(gomos).

    Em contraste com as obras da carne, temos o modo de viver integro e honesto que a Bíblia chama “O Fruto do Espírito”. Esta maneira de viver se realiza no crente à medida que ele permite que o Espírito dirija e influencie sua vida de tal maneira que ele(o crente) subjugue o poder do pecado, especialmente as obras da carne, e ande em comunhão com Deus(ver Rm 8:5-14).

    1) “Caridade”(gr. Ágape) – significa o interesse e a busca do bem maior de outra pessoa sem nada quer em troca(1Co 13).

    2) “Gozo” – significa a sensação de alegria baseada no amor, na graça, nas bênçãos, nas promessas e na presença de Deus, bênçãos estas que pertencem àqueles que crêem em Cristo(2Co 12:9).

    3) “Paz” – significa a quietude de coração e mente, baseada na convicção de que tudo vai bem entre o crente e seu Pai celestial(1Ts 5:23).

    4) “Longanimidade” – significa perseverança, paciência, ser tardio para irar-se ou para o desespero(Ef 4:2).

    5) “Benignidade” – significa não querer magoar ninguém, nem lhe provocar dor(Ef 4:32).

    6) “Bondade” – <significa zelo pela verdade e pela retidão, e repulsa ao mal; pode ser expressa em atos de bondade(veja a história da mulher pecadora – Lc 7:37-50) ou na presença e na correção do mal(Mt 21:12,13 – quando Jesus expulsou os vendedores do Templo).

    7) “Fé” – significa lealdade constante e inabalável a alguém com quem estamos unidos por promessa, compromisso, fidelidade e honestidade(Tt 2:10; 1Tm 6:12; 2Tm 2:2).

    8) “Mansidão” – significa moderação, associada à força e à coragem; descreve alguém que pode irar-se com equidade quando for necessário, e também humildemente submeter-se quando for preciso(1Pe 3:15; para a mansidão de Jesus, confira Mt 11:29 com 23 e Mc 3:5; para a de Paulo, confira 2Co 10:1 com 10:4-6; Gl 1:9; a de Moisés, confira Nm 12:3 com Ex 32:19,20).

    9) “Temperança” – significa o controle ou domínio sobre nossos próprios desejos e paixões, inclusive a fidelidade aos votos conjugais; também a pureza(Tt 1:8; 2:5).

    O ensino final de Paulo sobre o fruto do Espírito é que não há qualquer restrição quanto ao modo de viver aqui indicado. O crente pode — e realmente deve — praticar essas virtudes continuamente. Nunca haverá uma lei que lhes impeça de viver segundo os princípios aqui descritos.

    c) Fruto conforme a espécie – Não é apenas na sua função que o fruto nos traz preciosas lições espirituais. Também na sua estrutura, o fruto apresenta-se como uma figura das mais eloqüentes das ilustrações bíblicas das realidades eternas. A botânica ensina-nos que o fruto possui uma cobertura, denominada pericarpo, constituída por três camadas. Esta cobertura pode ser seca e fina, o que faz com que o fruto seja seco (o que ocorre com o trigo, a noz, a avelã e a semente de girassol), como também pode ser suculenta, o que faz com que o fruto seja carnoso. São muitas as variedades de frutos carnosos: as bagas (tomate, uva), as drupas (pêssego, ameixa, azeitona) e os pomos (pêra, maçã, marmelo). Espiritualmente falando, temos que o fruto do Espírito Santo tem a mesma natureza da sua cobertura, ou seja, o fruto é de acordo com a sua espécie. O Espírito Santo somente produz fruto digno de arrependimento, fruto consonante com a sua natureza, com as qualidades evidenciadas em Gl.5:22. Já se a cobertura do fruto não for o Espírito Santo, não adianta querer enganar os homens, pois se saberá, claramente, através da qualidade, que o fruto não é o do Espírito, mas, sim, teremos evidentes frutos pecaminosos e ruins.

    2) Maturidade e equilíbrio cristãos – A Palavra de Deus fala claramente da recompensa que o crente tem ao dar liberdade ao Espírito Santo para que produza as características de Cristo no seu interior. Em 2Pedro 1, a Bíblia nos fala da necessidade de o crente desenvolver as dimensões espirituais da sua nova vida em Cristo. Com este desenvolvimento vem a maturidade, a firmeza e a perseverança, que permitem ao crente viver vitoriosamente no tocante à velha e pecaminosa natureza adâmica – “ Porque fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”(2Pe 1:10,11).

    III – A SINGULARIDADE DO CARATER CRISTÃO

    1) A pessoa é identificada pelo seu fruto – O Caráter é o traço distintivo de uma pessoa; é a sua marca. Por mais que seja melhorada pelos processos educacionais e éticos, ele será a marca distintiva da natureza do homem.

    Do ponto de vista humano, Nicodemos era um homem de bom caráter, um homem de bem. Contudo, do ponto de vista de Jesus, como homem natural, ele não estava habilitado a produzir bons frutos. Ele continuava sendo um “espinheiro”. Para produzir “uvas”, precisava de uma mudança em sua natureza. Esta mudança só é possível através do Novo Nascimento. Depois disto, então, o homem poderá produzir “frutos bons”.

    É preciso mudar a natureza do fruto, e, não apenas a sua qualidade – “… toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar frutos bons”(Mt 7:17-18). O Senhor Jesus afirmou que “ O que é nascido da carne é carne…”(Jo 3:6). Nesta condição só poderá produzir “…as obras da carne…”(Gl 5:19). Nele terá que ser formado “… o Fruto do Espírito…”(Gl 5:22). Assim, segundo Jesus, é pela qualidade dos frutos produzidos que se conhece a árvore: “Por seus frutos os conhecereis…”(Mt 7:6).

    Pelos frutos é possível saber se o homem mudou de vida, se é, agora, um novo homem, ou se apenas mudou de religião, e continua sendo o velho homem, envolto com as obras da carne. “Porque cada árvore se conhece pelo seu fruto…”, segundo afirmou Jesus.

    2) Os sinais contestados – O crente tem um comportamento, uma conduta diferente dos demais homens, porque tem uma natureza diferente, é de uma espécie diferente. Enquanto o crente é filho de Deus, o ímpio é filho do diabo (Jo.8:44); enquanto o crente é luz, o ímpio é treva; enquanto o crente tem vida, o ímpio está morto. Portanto, não pode, mesmo, haver comunhão entre o crente e o descrente. Assim, não podemos admitir o discurso de que o crente deve assumir a forma do descrente, até para “ter maior facilidade na evangelização”. Não temos, em absoluto, que tomar a forma do mundo. A Bíblia diz que não devemos nos conformar com o mundo (Rm.12:2), mas buscar transformá-lo.

    Não devemos nos impressionar com a aparência, mas, sim, com a reta justiça (Jo.7:24). Devemos analisar as pessoas pelos frutos que produzem, ou seja, devemos verificar quais são as suas atitudes, qual é o seu caráter, não simplesmente o que está aparecendo em torno delas. Não nos preocupemos com os sinais, prodígios e maravilhas que alguém venha a fazer, mas, sim, com a presença do caráter cristão na sua vida. Não nos preocupemos com a vestimenta que alguém está usando, mas com a presença do caráter cristão na sua vida. É pelos frutos que reconheceremos quem é crente e quem não o é, pois Jesus disse que aquele que não produzisse fruto seria lançado fora da videira verdadeira. O caráter cristão permite-nos vislumbrar quem tem, ou não, comunhão com o Senhor e isto é que é importante, pois a comunhão com Deus representa a libertação do pecado e a conseqüente aceitação por Deus.

    IV – OS PROPÓSITOS DA FRUTIFICAÇÃO ESPIRITUAL

    1) Expressar o caráter de Cristo -A partir do novo nascimento, o homem passa a ter um novo ambiente, que é o ambiente da comunhão com o Senhor, pois o próprio Senhor vem habitar no crente (Rm.8:9, Jo.14:23) e isto fará com que seja modificado o seu caráter. Ao adquirimos um novo caráter, o caráter cristão, que é o que Paulo denomina de “o fruto do Espírito”, que é idêntico a todos os crentes,pois resultado da atuação do mesmo Espírito que habita em cada um deles, não devemos nos esquecer de que cada crente tem seu temperamento, que o faz diferente um do outro, mas que, necessariamente,tem de estar sob o controle do Espírito Santo. Assim, cada crente é diferente um do outro, pois tem um temperamento distinto do de cada irmão em Cristo.

    O segredo, portanto, de apresentarmos um caráter cristão e de controlarmos o nosso temperamento para que este caráter se forme e, portanto, que produzamos o fruto do Espírito, é o de nascermos de novo, de realmente crermos em Jesus e deixarmos que o Espírito Santo domine a nossa vida, que submetamos o nosso espírito ao Espírito Santo e, desta forma, apesar de nosso temperamento, produziremos o fruto do Espírito. Por isso, não podemos concordar com pessoas que querem servir a Deus “do jeito que são”, que “Deus respeita o meu modo de ser”, pois não é isto que dizem as Escrituras. Embora reconheçamos a individualidade de cada um e de que ninguém é igual a ninguém, não podemos concordar com a teoria de que “ninguém é de ninguém”. Somos de Cristo e a Ele pertencemos, se é que realmente cremos nEle como nosso Salvador. Somos sua propriedade, porque fomos comprados por Ele por bom preço (I Co.6:20a).

    2) Evidenciar o discipulado – O Senhor Jesus Cristo afirmou: “Nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos”(Jo 15:8). Dar “muito fruto” é uma condição imposta por Jesus para aquele que quiser ser seu discípulo. Deus não pede o que não temos para dar e que Deus não exige o que não podemos fazer. Assim, se o Senhor Jesus exigiu como condição o dar muito frutopara poder ser seu discípulo é porque ele sabia que o homem podia cumprir esta condição. É claro que o homem natural não pode ser seu discípulo, porque não pode, por sis só, cumprir suas condições. Para ser discípulo de Jesus, o homem natural precisa, primeiro, aceita-lo como seu Salvador, precisa nascer de novo, precisa tornar-se um homem espiritual. Todavia, mesmo o homem nascido de novo, não poderia, por si só, fazer a vontade de Deus e cumprir a sua Palavra. Sabendo disto, Deus Pai, por intermédio de Jesus, enviou para estar com o homem o Espírito Santo, sobre o qual o Senhor Jesus declarou: “ Mas, quando vier aquele Espírito de Verdade , ele vos guiará em toda a verdade…”(Jo 16:13). Paulo complementou dizendo: “ E da mesma maneira também o Espírito Santo ajuda as nossas fraquezas…”(Ro 8:26).

    Podemos afirmar, com absoluta convicção, que, se não nos deixarmos guiar e se não formos ajudados pelo Espírito Santo, não daremos fruto, nem muito, nem pouco! Quem não dá fruto não pode dizer que é discípulo de Jesus.

    3) Abençoar outras pessoas – Na medida em que praticamos boas obras, na medida em que passamos a demonstrar o caráter cristão, estaremos, também, trazendo o bem às pessoas que nos cercam. O crente é sal da terra e luz do mundo e, portanto, iluminará os ambientes que freqüenta, como também conservará a pureza ou curará os males do lugar onde está. A Bíblia diz que o crente é a nascente de um rio de água viva (Jo.7:38) e, como nos ensina a geografia, o rio é um elemento primordial para que se constitua um núcleo humano de habitação, para que se construa uma sociedade, uma comunidade. O crente, portanto, é um elemento que traz a vida para as pessoas, que permite com que as pessoas possam ser despertadas para a realidade da necessidade da comunhão com Deus e com o próximo, mas isto tudo somente pode ocorrer se houver a produção do fruto do Espírito, sem o que este rio não nascerá, sem o que este rio não será água corrente, mas apenas uma cisterna rota, de água parada, mal cheirosa e produtora de doenças (Jr.2:13).

    4) Glorificar a Deus(Jo 15:8) – Por fim, como diz o próprio Jesus, vemos que a presença de crentes frutíferos leva os ímpios a glorificarem a Deus (Mt.5:16). A Igreja, aqui, em perfeita consonância com o Espírito Santo, faz com que os homens glorifiquem ao Pai que está nos céus. O trabalho do Espírito Santo é o de glorificar a Jesus (Jo.16:14), assim como o trabalho de Cristo na Terra foi o de glorificar o Pai (Jo.17:4). Nós, como corpo de Cristo, temos de prosseguir neste trabalho de glorificação do Pai e isto só será possível através das nossas boas obras.

     

     

    Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof. EBD/Assembléia de Deus –Ministério Bela Vista/Fortaleza-CE.

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    Bibliografia: Comentário Bíblico do Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco, Roberto José da Silva e Profº Antonio Sebastião da Silva;O Fruto do Espírito – Antonio Gilberto.

  • Lição 8 – Autoridade da Igreja

    Lição 8 – Autoridade da Igreja

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    Introdução

    O significado básico da palavra igreja (gr.ekklesia) é “chamado para fora”. Em grego clássico, ekklesia se referia a uma assembleia de qualquer tipo, religiosa ou secular, legal ou ilegal. As palavras hebraicas qahal e edhah, frequentemente traduzidas como ekklesia no Antigo Testamento grego significavam uma reunião ou assembleia, como as que o judaísmo tinha na sinagoga. No NT, ekklesia veio significar uma assembleia de crentes, especificamente seguidores de Cristo.

    Embora, terrena mente, a igreja tenha começado depois do tempo de Cristo, o Antigo Testamento fez preparativos para ela. A igreja, ordenada por Deus desde a eternidade, também começou de maneira pré-determinada (Gl.4.4,5).

    Várias interpretações foram propostas sobre quando se originou a igreja. No entanto, inúmeras linhas de evidencia sustentam que a igreja de Cristo teve inicio no dia de Pentecostes, diversas semanas depois que Cristo morreu e ressuscitou, e não no AT, com Adão, Abrão, Moises, nem mesmo durante a vida terrena de Jesus. A Igreja não começou até depois que Jesus veio, morreu, ressuscitou e a estabeleceu sobre o fundamento dos apóstolos.

    1- O Embasamento da Fé

    Toda a vida do cristão está baseada na sua fé ou seja naquilo que ele acredita, portanto temos que desenvolver uma fé sadia, e para tal devemos manter a simplicidade contida nos evangelhos como nossa prática de vida diária.

    “ Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos e se apartem da simplicidade que há em Cristo”. 2 Co 11:3

    1.1   – A Confissão de Pedro

    A base sobre a qual a igreja está firmada, é uma declaração de fé dada pelo Espirito Santo a Pedro conforme lemos em Mateus 16:16-18 –  16 E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. 17 E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. 18 Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;

    A igreja católica romana usa esse texto para afirmar, que Pedro é a pedra ou fundamento para criação e manutenção da igreja e logo ele e o representante da igreja. Isso é um ledo engano pois uma análise cuidadosa do texto revela que o fundamento da igreja e de nossa fé foi a declaração de Pedro que Jesus é o Cristo o Filho do Deus Vivo.

    E Jesus faz apenas um trocadilho dizendo que Pedro que no original é  πετρος Petros  que significa Pedra ou uma pedra, e que sobre a outra pedra que no original quer disser πετρα petrarocha, penhasco ou cordilheira de pedra , rocha projetada (angular), penhasco, solo rochoso ,rocha, grande pedra.

    Logo significa que Pedro é uma pedra e sua declaração é uma rocha.

    Então a nossa fé está fundamentada em Cristo Jesus e nos Evangelhos.

    1.2 – A confirmação do Espírito.

    Tudo que o evangelho ensina, o Espirito confirma e dirige aqueles que se submetem a ele. É o Espirito que matem a igreja viva e atuante, realizando as mesmas obras que Jesus realizou aqui na terra, curando, libertando, batizando, salvando e levando pro céu.

    Portanto devemos estar dispostos a oferecer nossa vida como sacrifício vivo no altar do Senhor para que através do Espírito Santo ele opere tanto no nosso querer como no efetuar.

    Nesses últimos dias mais do que nunca o mundo deve reconhecer que o que nós fazemos pelo Reino não vem de nós mais do Espírito de Deus.

    2. Ministérios Eclesiásticos

    Dons Ministeriais

    Muitos dizem que os dons ministeriais de Efésios 4.11 cessaram, mas o versículo catorze desse mesmo capítulo diz que eles existem “até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo”, e isso ainda não ocorreu.

    Sobre o assunto, duas coisas básicas devem ser ditas de antemão. A primeira é que é Deus quem concede os dons ministeriais (Ef 4.11; Nm 18.7). A segunda é que é o dom ministerial recebido de Deus que determina o ministério ou o ofício do ministro. Em 1 Timóteo 4.14 e 2 Timóteo 1.6, vemos o dom ministerial. Em 2 Timóteo 4.5, o ministério resultante do dom. Os dons e seus ministérios podem ser vistos em 1 Coríntios 12.8-10, 27-30.

    Esses dois pontos básicos acerca do ministério podem ser vistos em Atos 13.1-4. No primeiro versículo, vemos que os candidatos à ordenação já tinham o dom ministerial concedido por Deus: “E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé e Simeão, chamado Níger, e Lúcio cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes o tetrarca, e Saulo”. Nos dois versículos seguintes, vemos que foi a igreja, sob a orientação do Espírito Santo, que ordenou esses irmãos para exercerem o ministério: “E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram”. No versículo quatro, fica claro que foi o Espírito Santo que os enviou: “E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre”.

    A igreja ordena o obreiro como ministro do Evangelho, e não como apóstolo, profeta, evangelista, pastor ou mestre. Esses são ministérios dados por Deus. A igreja convencionou por si mesma chamar todos os ministros ora como pastores, ora como evangelistas, mas precisamos encarar o assunto dos dons ministeriais apresentados em Efésios 4.11 à luz da doutrina bíblica do ministério.

    A soberania de Deus na distribuição dos dons ministeriais

    Os dons do ministério são recebidos de Deus, segundo a sua soberania e no seu tempo. A uns Deus chama e capacita quando ainda estão no ventre de suas mães: “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre te santifiquei: às nações te dei por profeta”, Jr 1.5. “E tu, ó menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque hás de ir a face do Senhor, a preparar os seus caminhos”, Lc 1.76. “Mas quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue”, Gl 1.15-16. Outros Deus chama na infância: “O Senhor chamou a Samuel, e disse ele: Eis-me aqui”, 1Sm 3.4. Samuel ainda era uma criança quando Deus o chamou.

    Há alguns a quem Deus chama e capacita na idade adulta: “E subiu ao monte, e chamou para si os que ele quis; e vieram a ele. E nomeou doze para que estivessem com ele e os mandasse a pregar”, Mc 3.13-14. “também a Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei de Israel; e também a Eliseu, filho de Safate de Abel-Meola, ungirás profeta em teu lugar”, 1Rs 19.16. “Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim”, Is 6.8.

    Há também aqueles recebem o dom por imposição de mãos, por profecia: “Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério”, 1Tm 4.14. “Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos”, 2Tm 1.6.

    Deus é soberano quanto ao exercício dos dons ministeriais na vida do obreiro. Timóteo era evangelista (2Tm 4.5), mas cuidou de igrejas por algum tempo (1Tm 1.3; 4.13). João Batista era profeta e cheio do Espírito Santo, mas não operava milagres (Jo 10.41).

    2.1 Autoridade Apostólica

    O termo apóstolo significa literalmente enviado. No original, o verbo e o substantivo aparecem em passagens como Hebreus 3.1, João 20.21, Mateus 10.15, Lucas 6.13, Atos 13.4 e 14.14, Gálatas 1.1,19, Romanos 16.7, 2 Coríntios 8.23 e Filipenses 2.25. Nos dois últimos textos, o termo não aparece no sentido ministerial.

    O apóstolo é a mais alta ordem na escala de ofícios do ministério no Novo Testamento (1Co 12.28; Ef 3.5 e 4.11). A diferença de ministério entre o apóstolo e o evangelista está bem definida em Atos 8, na evangelização de Samaria. No ministério de Felipe como evangelista, destaca-se a pregação e a conversão dos pecadores (At 8.5-13). No ministério de Pedro e João como apóstolos, destacam-se o estabelecimento firme da obra e a consolidação dos resultados da evangelização (At 8.14,25). De fato, em Gálatas 2.9, Pedro e João (apóstolos) são tidos como colunas.

    Os apóstolos têm sua liderança espiritual confirmada por provas e sinais (2 Co 12.12). Eles lançam os fundamentos iniciais de uma obra através da doutrina e da liderança (1Co 3.10; Ef 2.20). São eles que estabelecem, no início do trabalho, os fundamentos da doutrina (At 2.42) e provêem a adequada liderança espiritual.

    O apóstolo vela com cuidado pela obra, no sentido geral e coletivo (2Co 11.28 e At 15.16). Esse cuidado geral e coletivo inclui viagens e comunicação constante com a obra. Vemos isso no livro de Atos, nas epístolas e através da História da Igreja. Os apóstolos, em virtude de sua missão, eram móveis. Não se fixavam em um lugar. Eram embaixadores de Deus.

    O ministério apostólico também é caracterizado pela elevada autoridade conferida pelo Senhor (At 1.2 e 2Pe 3.2). A autoridade apostólica está sobre todos os demais ministérios (1Co 12.28). Nesse sentido, os apóstolos são “livres” para executarem serviços especiais de grande importância na igreja (1Co 9.11).

    Os doze apóstolos do Cordeiro formam um grupo distinto (Jd 17). Eles colocaram o alicerce da Igreja (Ef 2.20 e Ap 21.14). São apóstolos num sentido único. Alguns exemplos de apóstolos da Igreja independentes do grupo dos doze chamados apóstolos do Senhor são Paulo e Barnabé (At 14.14), Andrônico e Júnias (Rm 16.7), e Tiago, irmão do Senhor (Gl 1.19). O próprio Paulo se declara apóstolo em Romanos 1.1 e 1 Coríntios 1.1.

    2.2. Pastores, bispos e presbíteros.

    O verdadeiro pastorado é um dom de Deus para ser exercido, e não primeiramente um cargo para ser ocupado. O pastor pode também vir a exercer o cargo de presidente da igreja. Se realmente o Senhor lhe concedeu o dom ministerial de pastor, e ele também for colocado por Deus para presidir a igreja, o seu ministério vem do Dom e o seu cargo através da sua eleição.

    As atividades do pastor englobam as funções de pastoreio, pregador, mestre, administrador e conselheiro.

    Como pastor, entendesse que esse ministério é um encargo ligado às ovelhas. O termo pastor, no original, significa aquele que cuida e guarda as ovelhas. Esse é o ministério que está mais relacionado a elas. O profeta “traz” Deus ao povo; o pastor “leva” o povo a Deus (Ex 19.17).

    A função do pastor, como ministério recebido de Deus, compreende:

    a) Dirigir, presidir e administrar o rebanho do Senhor: Sem isso, as ovelhas se desviarão.

    b) Doutrinar: Para isso, o pastor precisa ser um estudante dedicado da Palavra de Deus, especialmente no que concerne à Teologia Sistemática. Um grande segredo do progresso no ministério pastoral está em doutrinar. Aqui, é preciso cuidado para não instituir “doutrinas de homens” (Cl 2.22). O pastor, pela natureza do seu trabalho, está muito ligado ao ensino bíblico (At 21.15-17).

    c) Proteger: Se o pastor não fizer essa parte, muitas ovelhas cairão vítimas de todo tipo de males.

    d) Tratar das ovelhas: Muitas caem doentes espiritualmente.

    e) Alimentar as ovelhas: Uma ovelha faminta segue qualquer outro líder, além de outros males que lhe atingem.

    f) Visitar: É outra função, exercida diretamente ou através de comissões.

    g) Disciplinar: O termo disciplina envolve primeiramente o sentido de instrução, admoestação e correção, e não o de castigo e punição. Para fazer tudo isso, o pastor precisa estar sempre cheio do amor de Deus pelas ovelhas, pelos perdidos, pelos fracos e faltosos, por todos.

    Como pregador, entendesse que o ministério pastoral também está ligado aos pecadores. Pregar é um encargo do pastor relacionado aos pecadores. Como mestre, compreendesse que o ministério pastoral inclui o encargo de educador, doutrinador e ensinador. Como administrador, o pastor tem o encargo de dirigir e presidir. Como conselheiro, um encargo de ordem pessoal.

    Um exemplo de pastor no Novo Testamento é Tiago (At 15.13 e 21.18). Diz a tradição que seus joelhos eram calejados como os de um camelo, de tanto orar ajoelhado.

    As necessidades do pastor estão bem resumidas em Jeremias 3.15: “E vos darei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com ciência e com inteligência”. Jesus foi o maior exemplo de pastor. Sobre esse seu ministério, Isaías profetizou: “Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço: as que amamentam, ele guiará mansamente”, Is 40.11. Jesus afirmou: “Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas”, Jo 10.11.

    2.3 – Profetas e Evangelistas

    Profetas

    O termo profeta significa literalmente porta-voz (Lc 1.70 e Ex 7.2-3). Se quisermos entender esse ministério, é preciso antes compreendermos a diferença entre o dom de profecia e o ofício ou ministério profético.

    O dom de profecia é para todos: “Todos podereis profetizar”, 1Co 14.31. O ministério profético, não: “São todos profetas?”, 1Co 12.29.

    O ministério profético é exercido através de um ministro dado por Deus à Igreja. O dom de profecia é uma capacitação sobrenatural do Espírito Santo concedida a uma pessoa do povo para transmitir a mensagem divina. No ministério profético, Deus usa principalmente a mente do profeta; no dom de profecia, Deus usa principalmente o aparelho fonador da pessoa.

    O profeta é um pregador especial, com mensagem especial. Sua mensagem apela à consciência da pessoa em relação a Deus, a si própria, ao pecado e à santidade. Vemos isso nos profetas do Antigo Testamento. É só conferirmos as mensagens dos livros proféticos. No Novo Testamento, podemos ver isso em profetas como Silas (At 15.32) e Ágabo (At 21.10).

    O profeta de Deus é também um intercessor diante de Deus pelos homens, pela obra etc (Gn 20.7). O forte do profeta de Deus é expor os padrões da justiça divina para o povo. Ele é um arauto da santidade de Deus. Com autoridade e unção divinas, está sempre a condenar o pecado (Is 58.1). Seu espírito ferve com isso e ele geme por isso, pois para isso foi chamado. A Igreja precisa muito desse ministério para os dias atuais.

    A Palavra de Deus sai da boca do profeta como flechas de fogo divino! João 5.35 diz de João Batista, o profeta: “Ele era a candeia que ardia”. O profeta de Deus faz o homem carnal estremecer, parar e considerar o seu mau caminho.

    A profecia, como estamos tratando aqui, é uma mensagem sobrenaturalmente inspirada ou revelada da parte de Deus. A mensagem profética vem do Espírito Santo através das fé (Rm 12.6). Portanto, o ministério profético é um ministério de fé.

    Duas curiosidades sobre os profetas de Deus na Bíblia: dois deles no Novo Testamento eram também apóstolos: Barnabé e Saulo (At 13.1); e há um alerta de Deus para o povo a respeito deles: “Não toqueis nos meus ungidos, e não maltrateis os meus profetas”, Sl 105.15.

    Nos tempos bíblicos havia falsos profetas: “E veio a mim a Palavra do Senhor, dizendo: Filho do homem, profetiza contra os profetas de Israel que são profetizadores, e dize aos que só profetizam o que vê o seu coração: Ouvi a Palavra do Senhor: Assim diz o Senhor Jeová: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e coisas que não viram”, Ez 13.1-3. Como naqueles tempos, ainda há falsos profetas.

    Evangelistas

     O vocábulo evangelista significa no original mensageiro de boas-novas. O autêntico ministro evangelista, chamado por Deus e colocado por Ele no ministério, não deve exercer o apostolado. Seu ministério deve ser itinerante. É só atentarmos para Felipe em Atos 8, principalmente para o último versículo: “E Felipe se achou em Azoto, e, indo passando, anunciava o Evangelho em todas as cidades, até que chegou a Cesaréia”, v40.

    O professor de Escola Dominical tem a visão de uma classe de alunos; o pastor tem a visão de sua congregação, seu campo; o evangelista tem a visão regional e mundial. Sua paixão é o mundo para Cristo!

    A mensagem do evangelista é “Vinde ao Senhor”; a do profeta é “Permanecei no Senhor”. Veja o exemplo de Barnabé como profeta: “O qual, quando chegou, e viu a graça de Deus, se alegrou, e exortou a todos a que permanecessem no Senhor com propósito do coração”, At 11.23.

    Em síntese, as diferenças entre profeta, evangelista e mestre são as seguintes: O profeta move o coração, a consciência do povo. Ele apela ao sentimento. O evangelista leva o povo a uma decisão diante de Deus. Ele apela à vontade. O mestre instrui o povo, a congregação, no caminho do Senhor, na Palavra de Deus, na doutrina bíblica. Ele apela à mente. Deus pode conceder a um mesmo ministro mais de um ministério ou dom ministerial.

    O evangelista não deve ser um obreiro neófito, como se o ministério de evangelista fosse um início de “carreira”. Veja o exemplo de Felipe mais uma vez. Em Atos 8.5-8,13-40, no começo de seu ministério, o encontramos em pleno exercício. Em Atos 21.8, encontramos Felipe em plena atividade ainda.

    O evangelista deve ter um conhecimento sistemático das doutrinas da Bíblia, especialmente aquelas ligadas ao exercício do seu ministério. Algumas das doutrinas e ensinos que o evangelista precisa conhecer são a doutrina da salvação, que por sua vez abrange em si um grupo de doutrinas; a doutrina da fé; o discipulado cristão, começando com a integração dos novos convertidos; milagres, sinais e prodígios, como em Atos 2.22; o batismo no Espírito Santo; e os dons e o fruto do Espírito. Ele também deve estudar muito homilética, exegese e hermenêutica. Tanto o profeta como o evangelista, como mensageiros de Deus, usam muito a imaginação. Jeremias e Ezequiel são exemplos. Jeremias com o cinto (Jr 13) e Ezequiel com o tijolo e a panela (Ez 4.1 e 24.3).

    O tema principal do evangelista é a salvação dos perdidos e a volta dos desviados. Ele também promove o avivamento espiritual dos crentes. Onde não vemos nada na Bíblia sobre Salvação, o evangelista vê pelo Espírito, e ali prega! Para ele, parece que a Bíblia só contém a mensagem da Salvação. É interessante como o ministério evangelístico e a música são tão relacionados.

    O autêntico ministério de evangelista é concedido por Jesus, nunca imposto pelos homens. Pelo fato de certos “evangelistas” não terem esse ministério, os tais usam de malabarismos, trejeitos, mecanicismo, emocionalismo e até truques diante do povo. Se bem que pode haver muito disso em um evangelista imaturo.
    Paulo também era evangelista (1Co 1.17). Até a inscrição de uma placa serviu de tema de sermão para ele (At 17.23)!

    2.4 – Doutores e Mestres

    O termo mestre, como aparece em Efésios 4.11, significa literalmente ensinador. O próprio termo implica ensinar segundo os processos e métodos didáticos, apelando para as faculdades lógicas da mente, da razão.

    Deus usa a mente do mestre. O mestre bíblico ocupa-se da doutrina, do ensino bíblico, portanto necessita dos dons da ciência e da sabedoria. Outro detalhe sobre esse ministério é que ele é, biblicamente falando, itinerante como o de evangelista.

    É importante explicar aqui a má compreensão de 1 João 2.20,27, quanto ao ministério do mestre. Esses textos dizem: “E vós tendes a unção do Santo, e sabeis tudo(…) E a unção, que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis”. A explicação da suposta dificuldade está no versículo 26: “Estas coisas vos escrevi acerca dos que vos enganam”. O que João está querendo dizer é que o crente não precisa dos que ensinam doutrinas extrabíblicas. Esse “alguém que vos ensine” trata-se “dos que vos enganam”.

    A Bíblia é, acima de tudo, um livro de doutrinas que precisam ser estudadas, compreendidas e expostas sob a unção do Espírito Santo, que inspirou essas doutrinas.

    A doutrina bíblica trata-se de um ensino bíblico sistematizado. Nenhuma só doutrina aparece sistematizada na Bíblia. Isto é, organizada, desdobrada, esboçada. Nem aparece isolada em um só lugar. Essa sistematização vem por catalogação textual e conceptual desse ensino ou princípio bíblico. Quanto mais completa for essa sistematização, mais completo será o estudo dessa doutrina.

    O mestre deve aprofundar-se nas ciências bíblicas da exegese e da hermenêutica, sem jamais deixar de depender do Espírito Santo para capacitá-lo e dirigi-lo no preparo de estudos e sermões, e na exposição da Palavra.

    Não se conhece entre nós uma igreja que sustente um mestre para exercer o ministério de ensino, assim como sustentam seus pastores, se bem que todo pastor também tem que ensinar pela natureza do seu cargo. O resultado disso é crise, pobreza e problemas na área do ensino da Palavra.

    O estudo bíblico

    O mestre deve enfatizar em seu modo de ministrar o estudo temático da Bíblia. Agora, há vários tipos de estudo bíblico conforme a necessidade da ocasião. Há o devocional, o doutrinário, o auxiliar, o de treinamento e o de orientação.

    Vejamos alguns passos no preparo de um estudo bíblico. Mas, antes, é importante atentarmos para o que diz Lucas na introdução de seu Evangelho: “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da Palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio, para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado”, Lc 1.1-4. Lucas fala que consultou fontes e que preocupou-se em transmitir o que ouvira com exatidão e em ordem.

    Os passos de preparação de um estudo bíblico são:
    a) Orar, orar e orar!
    b) Estudar o assunto na Bíblia, fazendo apontamentos pessoais.
    c) Consultar fontes auxiliares (de confiança), como os próprios apontamentos pessoais.
    d) Ordenar o material de estudo coletado.
    e) Esboçar o estudo. Para isso é preciso saber fazer esboços.
    f) Preparar finalmente o estudo. É dar-lhe sua redação final.
    g) Conferir cuidadosamente o estudo, tanto o texto com as referências bíblicas. Saber mesmo a diferença entre uma referência real e uma referência verbal.

    Dois alertas aos mestres

    Agora, é importante darmos dois alertas para os que ensinam na Igreja. O primeiro está em 1 Coríntios 8.1: “A ciência incha, mas o amor edifica”. É preciso que o mestre seja humildade. Apolo era mestre erudito, mas humilde: “E chegou a Éfeso um certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, varão eloqüente e poderoso nas Escrituras. Este era instruído no caminho do Senhor; e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João. Ele começou a falar ousadamente na sinagoga. Quando o ouviram Priscila e Áquila, o levaram consigo e lhe declararam mais pontualmente o caminho de Deus”. Apolo, mesmo sendo erudito, se dispôs a aprender.

    O segundo alerta diz respeito aos cismas. Os cismas que vêm dividindo a cristandade desde a fundação da Igreja são quase sempre originados pelos mestres, teólogos, escritores e professores. A Palavra de Deus adverte que o julgamento do trabalho do mestre perante o tribunal de Cristo será mais rigoroso e mais exigente: “Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo”, Tg 3.1.

    Concluindo

    Os dons ministeriais operando em Jesus

    Jesus é o maior exemplo de obreiro em toda a Bíblia Sagrada e em todos os tempos. Ele deve ser o nosso modelo, o padrão a ser seguido.
    Jesus como apóstolo: Hb 3.1; Jo 12.3).
    Jesus como profeta: Lc 24.19; At 3.22.
    Jesus como evangelista: Lc 4.18-19; Lc 20.1; Is 61.1.
    Jesus como pastor: Jo 10.10; Hb 13.20; 1Pe 5.4.
    Jesus como mestre: Jo 13.13; Mt 26.55.

  • Lição 9 – A teologia da Prosperidade e o Evangelho puro e simples

    Lição 9 – A teologia da Prosperidade e o Evangelho puro e simples

    mamon

    INTRODUÇÃO

    Testemunhamos, nessas últimas décadas, a expansão de um movimento teológico denominado de Teologia da Prosperidade.

    1. O que é Teologia da Prosperidade

    Nascida nos Estados Unidos, a Teologia da Prosperidade espalhou-se com extrema rapidez pelo Brasil. Seus defensores não se encontram apenas entre os neopentecostais. Tem conquistado adeptos também entre os evangélicos tradicionais seu alastramento representam sérios desafios à Igreja Evangélica Brasileira. Com ênfase nas “bênçãos” e indisfarçável aversão à Cruz (metáfora do sofrimento, dor e perseguição que acompanham os verdadeiros seguidores de Cristo), a Teologia da Prosperidade coloca em xeque a herança protestante.

    1.1.    Seu conteúdo

    Uma fórmula pregada com exagerada ênfase por esse novo credo afirma ser o crente uma pessoa “especial”, subtraída quase às leis da vida e para quem não existiria pobreza e doença. Experimentá-las seria sinal de falta de fé. Saúde e riqueza tornam-se, por assim dizer, sinais genuínos da salvação, do estado de graça do fiel. Daí esse movimento também ser conhecido como Wealth and Health Gospel(Evangelho da Riqueza e Saúde)

    Numa inversão de valores, os profetas da prosperidade colocam a conquista da felicidade no plano terreno como  um super bônus da bem-aventurança cristã, quando a Bíblia exorta-nos a buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça (Mt 6.33). A posse das bênçãos deixa de ser uma promessa dada por Deus para ser um direito, exigido pelo fiel com quem pleiteia uma herança ou reclama um bem.

    Além de apresentar ensinos questionáveis sobre a fé, a oração, e as prioridades da vida cristã, e de relativizar a importância das Escrituras por meio de novas revelações, a teologia da prosperidade, através dos escritos de seus expoentes, apresenta outras ênfases preocupantes no seu entendimento de Deus, Jesus, ser humano e salvação.

    1.2 O Seu Espirito

    O Espirito de Mamon , e o espirito que está por trás da teologia da prosperidade.

    A nota da Bíblia King James (Mt 6.24) comenta o que segue sobre o termo Mamom: “Jesus escolhe uma palavra aramaica Mamom para personificar um dos mais poderosos deuses de todos os tempos: o Dinheiro. O adjetivo Mamom, deriva do verbo aramaico aman (sustentar) e significa amor às riquezas e dedicação avarenta aos interesses mundanos.

    Jesus orienta seus seguidores a investir suas vidas na conquista de bens espirituais agradáveis ao Senhor e adverte para a impossibilidade de servir com lealdade a Deus e ao mesmo tempo amar o deus Dinheiro. Isso não quer dizer que Jesus seja contra os ricos e prósperos, mas sim que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. O dinheiro é para ser usado e as pessoas,  amadas. A inversão desses valores tem sido a razão de muitas desgraças.

    1.3 A mentira da confissão positiva

    Confissão Positiva é como funciona a teologia que prega prosperidade e saúde através do poder da palavra.
    A confissão positiva nos leva aos princípios esotéricos que norteiam todas as seitas holísticas. Baseados em textos bíblicos isolados, esses teólogos afirmam que há poder em nossas palavras pra tudo.

    Veja o que eles pregam:

    1-Deus criou as coisas pela fé
    2-O homem é um deus um pouco menor
    3-Deus perdeu o controle do mundo na queda do homem
    4-O homem assumiu a natureza satânica na queda
    5-Jesus assumiu a natureza satânica na cruz
    6-Jesus precisou morrer espiritualmente
    7-Deus não pode agir sem que autorizemos
    8-A fé nas palavras traz as coisas à existência
    9-Voltamos a natureza divina quando nascemos de novo
    10-Como pequenos deuses, devemos ter do bom e do melhor nesta Terra

    2.A Ignorância, dinheiro e Consumismo.

    “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. “Uma vez que vocês rejeitaram o conhecimento, eu também os rejeito como meus sacerdotes; uma vez que vocês ignoraram a lei do seu Deus, eu também ignorarei seus filhos.” Oséias 4:6
    As pessoas têm sido e estão sendo destruídas, não só por falta de conhecimento, mas porque rejeitam conhecimento. Portanto, o que estava acontecendo com Israel está acontecendo com o mundo inteiro hoje também.
    Precisamos entender que a falta de conhecimento da Palavra de Deus com relação a qualquer assunto pode nos fazer viver na mais profunda ignorância, e é triste ver cristãos que não apreendem as noções e princípios de economia bíblia.
    A Bíblia ensina-nos como enfrentar muitas situações diferentes na vida, incluindo como lidar com o dinheiro. Jesus falou muito sobre esse assunto e a Bíblia refere-se muitas vezes às riquezas (Ec 10.19). O dinheiro pode ser bênção ou maldição, dependendo do uso que dele fazemos. Como administramos o dinheiro afeta a nossa comunhão com o Senhor. O dinheiro é um rival de Cristo pelo senhorio da nossa vida (Lc 16.13,14), além de moldar o nosso caráter.
    Como devemos agir com as finanças?
    Devemos evitar:

    • Dívidas fora do seu alcance (Rm 13.8). O crente não deve fazer dívida. Devemos fazer uma previsão de gastos para não perder o controle. Não devemos nos comparar com os outros, nem cairmos no consumismo desenfreado (1 Tm 6.8-10). Evitar a todo custo, contrair mais dívidas para pagar dívidas; Não aceitar propostas de credores fora de suas reais possibilidades de pagamento; Não dever a agiotas. Dicas: gastar menos, ganhar mais, vender algo que não seja essencial.
    • Ficar por fiador (Pv 17.18; 11.15; 6.1-5; 22.26)
    • Desonestidade. A pessoa que promete pagar é obrigada cumprir a promessa. Aquele que promete e não paga está pecando. (Lc 16.12; Sl 15.4,5; Hb 2.9; Ef 4.1,25; Mt 5.37). A honestidade é parte do caráter cristão (2 Co 8.21; Tt 2.5; Pv 11.1; Jr 17.11). O nome de Deus é blasfemado, quando somos desonestos (Rm 2.21-24).
    • Fazer do objetivo da vida o enriquecimento (1 Tm 6.9; Pv 23.4)

    O que fazer com o dinheiro?

    • Seja “rico para com Deus” (Mt 6.33).
    • Viva dentro dos limites de seu orçamento (Pv 22.7)
    • Pague os impostos e obedeça às leis do governo (Mt 22.17-21).
    • Não ser ganancioso, nem oprimir outros (Tg 2.6-7).
    • Ore pedindo ajuda a Deus (Tg 4.2). Deus supre a necessidade (Mt 5.45). É preciso distinguir entre necessidade e cobiça (Tg 4.3)
    • Procure orientação (Cl 3.16).
    • Não invejar a prosperidade do ímpio (Sl 73).
    • Desfrute sem comprar (Praia, biblioteca, museu, parques públicos).

    Existem coisas que o dinheiro não pode comprar, como uma espiritualidade genuína (At 8.18-20)

    Muitos crêem que a riqueza é um sinal de benção e a pobreza de falta de fé ou pecado.

    Os fariseus escarneciam de Jesus por causa da sua pobreza (Lc 16.14). Essa idéia falsa é desmentida por Cristo (Lc 6.20).

    3.    O Evangelho puro e Simples

    O evangelho que está em voga hoje em dia oferece uma falsa esperança aos pecadores. Promete-lhes que terão a vida eterna apesar de continuarem a viver em rebeldia contra Deus. Na verdade, encoraja as pessoas a reivindicarem Jesus como Salvador, mas podendo deixar para mais tarde o compromisso de obedecê-Lo como Senhor. Promete livramento do inferno mas não necessariamente libertação da iniquidade. Oferece uma  falsa segurança  às pessoas que folgam nos pecados da carne e desprezam o caminho da santidade. Ao fazer separação entre fé e fidelidade, deixa a impressão de que a aquiescência intelectual é tão válida quanto a obediência de todo coração à verdade. Dessa forma, as boas novas de Cristo deram lugar às más novas  de uma  fé  fácil e  traiçoeira, que não faz  qualquer exigência moral para a vida dos pecadores. Não se trata da mesma mensagem proclamada por Jesus!
    Este novo evangelho tem  produzido uma  geração de  cristãos professos cujo comportamento raramente se distingue da rebeldia em que vive o não-regenerado.

    Estatísticas recentes revelam que 1.6 bilhão da população da terra são considerados cristãos. Uma bem conhecida pesquisa de opinião pública indicou que quase um terço de todos os norte-americanos  se declaram nascidos de  novo. Tais números, com  certeza, representam milhões de  pessoas  que  estão tragicamente enganadas. O que eles têm é uma falsa garantia, passível de condenação eterna.

    O testemunho da igreja para o mundo tem sido sacrificado no altar da graça barata. Formas chocantes de imoralidade aberta têm se tornado coisa trivial entre professos cristãos. E por que não? A promessa de vida eterna, sem uma rendição à autoridade divina, alimenta a mesquinhez do coração  não-regenerado.

    Os  entusiásticos convertidos a este novo evangelho crêem que o seu comportamento nada tem a ver com o seu status espiritual — mesmo que permaneçam libertinamente apegados aos tipos mais grosseiros de pecado e de formas de depravação humana.

    Parece que a igreja de nossa geração será lembrada principalmente por causa de uma série de escândalos horripilantes que trouxeram a público as mais indecentes exibições de depravação na vida de alguns dos mais populares televangelistas. E o pior de tudo é a dolorosa consciência de que muitos cristãos olham para esses homens como parte do rebanho,  e não  como  lobos e  falsos  profetas  que  se imiscuíram entre as ovelhas (Mt 7.15). Por que deveríamos crer que pessoas que vivem na prática do adultério, fornicação, homossexualismo, fraude, e todo tipo de intemperança são nascidas de novo?

    O  que  se  precisa  é  de  um  completo  reexame  do  que  seja  o evangelho. Temos de voltar ao fundamento de todo o ensino neotestamentário sobre a salvação — ao evangelho proclamado por Jesus. Penso que muitos ficarão  surpresos ao  descobrir como a mensagem de  Jesus é  radicalmente diferente daquela  que por ventura  tenham aprendido.

    Esboço do Verdadeiro Evangelho

    Ele ensina a Adoração
    Ele salva Pecadores
    Ele cura os enfermos
    Ele desafia as Pessoa
    Ele Busca e Salva o Perdido
    Ele Condena um Coração Endurecido
    Ele Oferece um Jugo Suave
    Ele Chama ao Arrependimento
    Ele Mostra Natureza da Fé Verdadeira
    Ele Ensina o Caminho da Salvação
    Ele Dá a Certeza da Vida ou do Juizo Eterno
    Ele Auxilia no Discipulado
    Ele Mostra o Senhorio de Cristo

  • Lição 8 – O legado de Jesus Cristo para a sua Igreja

    Introdução

    A palavra legado vem do (latim legatum, -i, doação por testamento)

    1. Aquilo que se deixa por testamento a quem não é herdeiro forçoso ou principal.
    2. O que é transmitido a outrem que vem a seguir.

    Estudaremos qual o legado o que Jesus Cristo, o que ele deixou para sua igreja. E que marcas a igreja deve transmitir hoje ao mundo.

    1. O legado histórico

    Visite qualquer parte do mundo hoje em dia. Fale com pessoas de qualquer religião. Não importa o quão comprometidas estejam com a sua religião em particular, se elas conhecem alguma coisa sobre a história terão de admitir que nunca houve um homem como Jesus de Nazaré.

    Ele é a personalidade mais singular de todos os tempos. Jesus Cristo mudou a direção da história.

    Em sua curta existência, apenas 33 anos de idade, foi um homem que mudou os paradigmas da humanidade. Hoje, a história se conta a partir do ano de seu nascimento. E se divide em antes de Cristo (a. C.) e depois de Cristo (d. C).. Reconhecimento inegável do seu papel histórico, independente de crenças e religiões.

    Cristo mudou a história, com seu comportamento manso e amoroso, bem como com suas mensagens de esperança numa vida eterna plena da presença de Deus, para aqueles que o aceitarem como sendo o Filho de Deus.

    Pode-se estudar a personalidade de grandes homens e pensadores da história, através de suas obras, biografias, da vida e fruto de seus discípulos, mas, ninguém teve uma personalidade tão complexa, misteriosa e difícil de ser compreendida, como a de Jesus Cristo. Ele não apenas causou perplexidade nos homens mais cultos de sua época, mas, ainda hoje, suas mensagens são capazes de perturbar a mente de qualquer um que queira estudá-lo livre de dogmas e julgamentos preconcebidos.

    1.1 A história de Jesus nos Evangelhos

    As principais fontes de informação sobre a vida de Jesus são os quatro Evangelhos Canônicos, pertencentes ao Novo Testamento. Escritos originalmente em grego, em diferentes épocas, pelos discípulos  Mateus, Marcos, João e Lucas. Mateus : O intuito de Mateus e apresentar o Senhor Jesus Cristo como sendo o Messias. Jesus Cristo e o cumprimento das profecias do AT no que concerne ao Messias. Marcos: Marcos teve o intuito de apresentar o sofrimento do Homem que na verdade era o Filho de Deus o Senhor Jesus Cristo.  Lucas teve o intuito de apresentar o Senhor Jesus Cristo como o salvador do mundo, ou seja aquele que veio trazer as boas novas da salvação a toda a humanidade.  E João teve a intenção de apresentar o Senhor Jesus Cristo como aquele que veio trazer o conhecimento de Deus através da fé no Senhor Jesus Cristo.

    1.2. A doutrina de Jesus no Novo Testamento

    Nos evangelhos encontramos a doutrina de Jesus, que é superior ao ensinos judaicos orais, tradições ou leis, a doutrina de Cristo pode ser vista no sermão do monte que é bem didático e explicativo daquilo que o Mestre nos ensinou, o padrão do Reino de Deus.

    1.3. A tradição evangélica herdada

    Sera que hoje estamos vivendo os ensinos de Jesus, vivendo como Jesus, falando como Jesus, agindo como Jesus. Todo cristão devia se fazer esta pergunta diariamente, pois se formos honestos nas respostas veremos o quão distante estamos dos ensinos de Cristo.

    2. O legado espiritual

    O legado espiritual que Jesus nos despertou para as coisas espirituais, pois até antes do seu nascimento, o homem estava distanciado de Deus, e Jesus veio para reconciliarmo-nos com Deus, e com Cristo hoje estamos assentados nas regiões celestiais e temos todas as bênçãos espirituais em Cristo a nosso dispor.

    Paulo diz, “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo” (Efésios 1:3). Paulo está nos dizendo, em essência, “Todos os que seguem a Jesus são bem–aventurados, com bênçãos nos lugares celestiais, onde Cristo está”. Que promessa incrível para o povo de Deus.Entretanto, esta promessa torna–se meras palavras se não soubermos o que são estas bênçãos espirituais. Como podemos gozar destas bênçãos que Deus nos promete se não as compreendermos.

    2.1. A justificação pela fé

     

    Visto que a lei não pode justificá-lo, a única esperança do homem é receber “justiça sem lei” (isto, entretanto, não significa injustiça ilegal, nem tampouco religião que permita o pecado; significa sim, uma mudança de posição e condição). Essa é a “justiça de Deus”, isto é, a justiça que Deus concede, sendo também um dom, pois o homem é incapaz de operar a justiça. (Efés. 2:8-10.)

    Mas um dom tem que ser aceito. Como, então, será aceito o dom da justiça? Ou, usando a linguagem teológica: qual é o instrumento que se apropria da justiça de Cristo? A resposta é: “pela fé em Jesus Cristo.” A fé é a mão, por assim dizer, que recebe o que Deus oferece. Que essa fé é a causa instrumental da justificação prova-se pelas seguintes referências: Rom. 3:22; 4: 11; 9:30; Heb. 11:7; Fil. 3:9.

    Os méritos de Cristo são comunicados e seu interesse salvador é assegurado por certos meios. Esses meios necessariamente são estabelecidos por Deus e somente ele os distribui. Esses meios são a fé — o princípio único que a graça de Deus usa para restaurar-nos à sua imagem e ao seu favor. Nascida, como é, no pecado, herdeira da miséria, a alma carece duma transformação radical, tanto por dentro como por fora; tanto diante de Deus como diante de si própria. A transformação diante de Deus denomina-se justificação; a transformação interna espiritual que se segue, chama-se regeneração pelo Espírito Santo. Esta fé é despertada no homem pela influência do Espírito Santo, geralmente em

    conexão com a Palavra. A fé lança mão da promessa divina e apropria-se da salvação. Ela conduz a alma ao descanso em Cristo como Salvador e Sacrifício pelos pecados; concede paz à consciência e dá esperança consoladora do céu. Sendo essa fé viva e de natureza espiritual, e cheia de gratidão para com Cristo, ela é rica em boas obras de toda espécie.

    “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efés. 2:8,9). O homem nenhuma coisa possuía com que comprar sua justificação. Deus não podia condescender em aceitar o que o homem oferecia; o homem também não tinha capacidade para cumprir a exigência divina. Então Deus graciosamente salvou o homem, sem pagar este coisa alguma —”gratuitamente pela sua graça” (Rom. 3:24). Essa graça gratuita é recebida pela fé. Não existe mérito nessa fé, como não cabem elogios ao mendigo que estende a mão para receber uma esmola. Esse método fere a dignidade do homem, mas perante Deus, o homem decaído não tem mais dignidade; o homem não tem possibilidades de acumular bondade suficiente para adquirir a sua salvação. “Nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei” (Rom. 3:20).

    A doutrina da justificação pela graça de Deus, mediante a fé do homem, remove dois perigos: primeiro, o orgulho de autojustiça e de auto-esforço; segundo, o medo de que a pessoa seja fraca demais para conseguir a salvação.

    Se a fé em si não é meritória, representando apenas a mão que se estende para receber a livre graça de Deus, que é então que lhe dá poder, e que garantia oferece ela à pessoa que recebeu esse dom gratuito, de que viverá uma vida de justiça? Importante e poderosa é a fé porque ela une a alma a Cristo, e é justamente nessa união que se descobre o motivo e o poder para a vida de justiça. “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo”(Gál. 3:27). “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gál. 5:24).

    A fé não só recebe passivamente mas também usa de modo ativo aquilo que Deus concede. É assunto próprio do coração (Rom. 10:9,10; vide Mat. 15:19; Prov. 4:23), e quem crê com o coração, crê também com suas emoções, afeições e seus desejos, ao aceitar a oferta divina da salvação. Pela fé, Cristo mora no coração (Efés. 3:17). A fé opera pelo amor (a “obra da fé”… 1Tess. 1:3), isto é, representa um princípio enérgico, bem como uma atitude receptiva. A fé, por conseguinte, é poderoso motivo para a obediência e para todas as boas obras. A fé envolve a vontade e está ligada a todas as boas escolhas e ações, pois “tudo que não é de fé é pecado” (Rom. 14:23).Ela inclui a escolha e a busca da verdade (2 Tess. 2:12) e implica sujeição à justiça de Deus (Rom. 10:3).

    O que se segue representa o ensino bíblico concernente à relação entre fé e obras. A fé se opõe às obras quando por obras entendemos boas obras que a pessoa faz com o intuito de merecer a salvação. (Gál. 3:11.) Entretanto, uma fé viva produzirá obras (Tia. 2:26), tal qual uma árvore viva produzirá frutos. A fé é justificada e aprovada pelas obras (Tia. 2:18), assim como o estado de saúde das raízes duma boa árvore é indicado pelos frutos. A fé se aperfeiçoa pelas obras (Tia. 2:22), assim como a flor se completa ao desabrochar. Em breves palavras, as obras são o resultado da fé, a prova da fé, e a consumação da fé.

    Imagina-se que haja contradição entre os ensinos de Paulo e de Tiago. O primeiro, aparentemente, teria ensinado que a pessoa é justificada pela fé, o último que ela é justificada pelas obras. (Vide Rom. 3:20 e Tia. 2:14-16.) Contudo, uma compreensão do sentido em que eles empregaram os termos, rapidamente fará desvanecer a suposta dificuldade. Paulo está recomendando uma fé viva que confia somente no Senhor; Tiago está denunciado uma fé morta e formal que representa, apenas, um consentimento mental. Paulo está rejeitando as obras mortas da lei, ou obras sem fé; Tiago está louvando as obras vivas que demonstram a vitalidade da fé. A justificação mencionada por Paulo refere-se ao início da vida cristã; Tiago usa a palavra com o significado de vida de obediência e santidade como evidência exterior da salvação. Paulo está combatendo o legalismo, ou a confiança nas obras como meio de salvação; Tiago está combatendo antinomianismo, ou seja, o ensino de que não importa qual seja a conduta da pessoa, uma vez que creia. Paulo e Tiago não são soldados lutando entre si; são soldados da mesma linha de combate, cada qual enfrentando inimigos que os atacam de direções opostas.

    2.2. Bênçãos da salvação
    A primeira benção é a salvação seguida do recebimento do espírito santo.

    Vejamos outras bênçãos:

    1.    Vitória sobre o pecado
    2.    Vitória sobre o diabo e vida abundante
    3.    Viver em santidade.
    4.    Ter comunhão com Deus
    5.    Acesso ao Pai através da Oração.
    6.    Somos habilitados a fazer parte da obra de Deus (Igreja)

    E muitas outra que nós possamos aproveitarmos as bênçãos que estão a nossa disposição, trabalhemos na seara do mestre, a recompensa será maravilhosa e a veremos na posteridade de glória, junto ao Senhor.

    2.3. Um novo padrão ético-moral

    Toda a moral de Jesus, assim, se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os seus ensinos, ele aponta essas duas virtudes como sendo as que conduzem à eterna felicidade.

    3. O legado de autoridade

    Conforme registra Mateus 20.25-28, após o pedido da mãe de Tiago e João para que seus filhos se assentassem, um à direita e o outro à esquerda de Jesus em seu Reino, o Mestre ensinou que entre os seus o padrão a ser seguido é: quem quiser tornar-se grande, seja o servo dos demais; e quem quiser ser o primeiro, seja o último.

    Jesus explica que o padrão por Ele adotado em sua missão redentora: Ele veio ao mundo para servir e não para ser servido e, por isso mesmo, Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome que está acima de todo o nome. Um padrão completamente oposto do que temos visto ultimamente, segundo o qual homens autodenominados líderes se valem do poder e autoridade em benefício próprio, almejando serem servidos pelos liderados, enquanto deveriam se dedicar a servi-los.

    Se o próprio Deus deixou a sua glória e se humilhou para se tornar homem, que direito tem o homem de se considerar superior aos seus semelhantes, mesmo que tenha recebido do próprio Deus uma posição proeminente de liderança e autoridade?

    No Reino, não há um homem no centro do poder, mas unicamente o Senhor Jesus, a quem todos devem desejar servir. Qualquer ação diferente é abuso de autoridade e poder e desprezo ao exemplo de humildade deixado por Cristo.

  • Lição 7 – A intituição do discípulado

    Lição 7 – A intituição do discípulado

    DISCIPULADO

    INTRODUÇÃO

    A “missão educadora” da Igreja, o discipulado, é, ao lado da evangelização, um dos dois pilares fundamentais da Igreja. São duas tarefas indissociáveis, impostas por ordem de nosso Senhor Jesus e que está exarado na passagem de Mateus 28:19,20. O Senhor Jesus disse aos seus discípulos que eles deveriam ir e “ensinar todas as nações”, expressão esta que, em algumas versões, é traduzida por “fazei discípulos”.

    A Igreja deve pregar o Evangelho, mas é preciso, também, que ela “ensine às nações”, “faça discípulos”, cuidado este que era patente nos tempos apostólicos, a ponto de os apóstolos terem chamado para si esta tarefa, considerando, inclusive, não ser razoável deixar de se dedicar à oração e ao ensino da Palavra (At.6:2,4), sem falar no zelo de Barnabé com relação à primeira igreja gentílica, a de Antioquia (At.11:25,26) e dos conselhos que Paulo dá a Timóteo no sentido de jamais se descuidar com o ensino junto aos crentes (I Tm.4:12-16).

    Quando alguém se converte a Cristo e nasce de novo, é um recém-nascido, é uma pessoa que não tem conhecimento algum a respeito das coisas de Deus, a respeito da vida com o Senhor Jesus. Embora tenha recebido uma nova natureza, embora seu espírito tenha se ligado novamente a Deus, ante a remoção dos pecados, é um ser humano e, como tal, precisa ser ensinado a respeito do Senhor, ensino este que deve ser proporcionado pela Igreja, que é a quem o Senhor cometeu esta tarefa sobre a face da Terra. Jesus é quem salva, mas é a Igreja quem deve “fazer discípulos”, quem deve “ensinar”.

    I. A TAREFA DA IGREJA NO DISCIPULADO

    1. A visão da igreja quanto ao discipulado. Criada para ser a agência do reino de Deus aqui na Terra, a Igreja, ao mesmo tempo em que, para os que se encontram fora do reino de Deus, precisa ser a anunciadora da salvação, pregando o Evangelho, deve, para os que já viram e entraram no reino de Deus (Jo.3:3,5), ser a instruidora, aquela que ensina a Palavra de Deus aos que se converteram, a fim de que possam eles crescer espiritualmente e alcançar a unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef.4:13).

    A evangelização (o ato de semear o evangelho) e o discipulado (integração do novo crente) requerem tempo, pelo fato de que ambas as atividades envolvem um processo contínuo e, não apenas, um ato isolado. Além disso, demandam muita oração, esforço, paciência, fé e perseverança para alcançar os resultados desejados.

    A maturidade espiritual do cristão não ocorre de modo rápido e instantâneo, mas progressivamente em Cristo (Cl 1.28, 29). Para que conservemos em nossas igrejas os novos convertidos em Cristo, precisamos trabalhar com amor, dedicação e objetividade. Muito da imaturidade espiritual dos membros da igreja local é resultado da ignorância destes em relação às doutrinas básicas da Bíblia. É o que se denota nos destinatários da carta aos Hebreus -“Porque, devendo já ser mestres em razão do tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar os princípios elementares dos oráculos de Deus, e vos haveis feito tais que precisais de leite, e não de alimento sólido. Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal”(Hb 5.12-14).

    2. O quadriforme método de Jesus.  Mateus 28:19,20 – “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. Observe que neste texto é apresentado o método quadriforme, ordenado por Jesus: indo, fazendo discípulo, batizando e ensinando.  O texto sagrado destaca os verbos em sua forma imperativa. Nota-se que não é uma recomendação ou um conselho, mas uma ordem do nosso Senhor. Assim se destaca o método quadriforme imperativo:

    a) Ide. No sentido de mover-se ao encontro das pessoas, a fim de comunicar a mensagem salvífica do evangelho. Esta determinação verbal está combinada com a do texto de Marcos 16:15: “…Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura”.

    A ordem do Senhor é que devemos ir por todo o mundo. Ir ao encontro do mundo, ir ao encontro dos pecadores, levar-lhes a mensagem da salvação em Cristo Jesus. O homem não tem condições de salvar-se a si próprio e, mais, o deus deste século lhe cegou o entendimento para que não tenha condições de ver a luz do evangelho da glória de Cristo(II Co.4:4). Portanto, é tarefa da Igreja ir ao encontro de judeus e de gentios para lhes anunciar as boas-novas da salvação.

    A ordem do Senhor é para que se pregue a toda criatura, mesmo aquela que, pela sua conduta, pela sua forma de proceder, é alvo de todo ódio, de toda repugnância, de todo o desprezo da sociedade e do mundo. Deve-se pregar a toda a criatura, mesmo que seja a pior pessoa que exista sobre a face da Terra. Não cabe à Igreja julgar os homens e dizer a quem deve, ou não, ser pregada a Palavra. O Senhor foi enfático em dizer que toda criatura deve ouvir a mensagem do Evangelho, seja esta pessoa quem for. É interessante observarmos que, nos dias do profeta Jonas, o Senhor mandou que fosse feita a pregação a todos os ninivitas, sem exceção alguma, ainda que eles fossem os homens mais cruéis que existiam no mundo naquele tempo. Jonas teve de pregar para todos, sem exceção, ainda que muitos, pela sua extrema crueldade e maldade, fossem, na verdade, verdadeiras “bestas-feras”, verdadeiros “animais” (Jn.3:8), que, mesmo sendo o que eram, foram alcançados pela misericórdia divina. Observe o exemplo de Jesus – Ele ia ao encontro dos publicanos e das meretrizes, considerados a escória da sociedade de seu tempo, e nós, o que estamos a fazer?

    b) Fazer discípulos. Este imperativo tem o sentido de “estar com” as pessoas e torná-las seguidoras de Cristo; a tarefa exige que o discipulador acompanhe e conviva com o aprendiz.

    c) Batizar. É o ato físico que confirma o novo discípulo pela sua confissão pública de que Jesus Cristo é o seu Salvador e Senhor.

    O batismo nas águas é uma ordem a ser cumprida por quem se arrependeu dos seus pecados – “Pedro então lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”(At.2:38. Deste modo, não podem ser batizadas crianças recém-nascidas, vez que não têm o discernimento do que é, ou não, pecado e, portanto, não podem se arrepender dos seus pecados, como também não podem ser batizadas pessoas que não tenham demonstrado que, efetivamente, creram no Evangelho e nasceram de novo. Só é lícito o batismo daquele que realmente creu de todo o seu coração – “E indo eles caminhando, chegaram a um lugar onde havia água, e disse o eunuco:Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?; E disse Felipe: é lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus”. (At.8:36,37).

    d) Ensinar as doutrinas da Bíblia. Este imperativo denota o objetivo de aperfeiçoar e preparar o discípulo para a sua jornada na vida cristã. Ensinar aos homens e ensinar-lhes a Palavra de Deus foi o que o Senhor Jesus ordenou aos seus discípulos, quando lhes disse: “… ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado..”(Mt 28:20).

    O pastor Oséas Macedo, na obra Manual de Missões (CPAD, 1997:13), afirma que a tarefa de salvar o mundo não pode ser desassociada do enviar crentes para alcançá-lo. O processo de salvar o mundo começa com enviar. Enviar pessoas capacitadas por Deus para pregar, a fim de que todos possam ouvir, crer e invocar o nome de Jesus para serem salvos. No entanto, a tarefa da igreja não estará completa enquanto o novo crente não for integrado à vida da igreja e tornar-se capaz de ganhar outros para Cristo.

     

    II. DISCIPULADO E DISCÍPULO

    1. Que é discipulado? – O discipulado nada mais é que ensinar a Palavra de Deus aos novos convertidos, àqueles que aceitaram a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador de suas vidas e fazer com que eles, que foram escolhidos por Deus, possam viver de tal maneira que dêem o fruto do Espírito, ou seja, tenham um novo caráter, uma nova maneira de viver que leve as pessoas a glorificar ao nosso Pai que está nos céus, ou seja, vivam de tal maneira que suas ações os transformem em testemunhas de Jesus, em prova de que Jesus salva e, por isso, outras pessoas reconheçam o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, ou seja, o Evangelho (Rm.1:16).

    Quando uma pessoa nasce de novo, encontra-se na mesma posição de Lázaro ressuscitado. Jesus, depois de quatro dias, quando o corpo de Lázaro já estava em decomposição, mostrou o seu poder sobre a morte, fazendo-o ressurgir dos mortos. Milagrosamente, Lázaro saiu da sepultura com vida. Entretanto, é interessante notar que Lázaro foi para fora da sepultura, mas se encontrava ainda todo enfaixado, conforme os costumes judaicos de preparação do cadáver. Jesus não determinou que Lázaro fosse daquele jeito para casa nem tampouco se incumbiu de desligar o ex-defunto. Mandou que aquelas pessoas que estavam ali vendo o milagre tratassem de tirar as faixas de Lázaro, de modo que ele próprio (Lázaro) fosse para a sua casa (Jo.11:44). Assim ocorre com o novo convertido: só Jesus poderia trazê-lo à vida, ou seja, salvá-lo; mas cabe a nós que estamos com Jesus neste mundo tomar as providências necessárias para que o novo crente se desligue de tudo aquilo que estava relacionado com a vida sem Cristo, ou seja, com a morte espiritual, para que ele, individualmente, siga em direção à sua casa, onde já o aguarda o Salvador.

    Foi exatamente isto que Barnabé e Paulo fizeram na igreja de Antioquia, a primeira igreja formada por gentios na história da Cristandade. Barnabé, ao verificar que havia conversão autêntica, tratou de buscar a Paulo e, durante todo um ano, houve o discipulado, ou seja, o ensino da Palavra àqueles novos crentes. O resultado daquele ano de ensino não poderia ser melhor: os novos convertidos passaram a ter uma vida muito semelhante à de Jesus, passaram a ser diferentes dos demais moradores de Antioquia, passaram a ser provas vivas da transformação que o Evangelho produz nas pessoas. Após terem sido ensinados na Palavra e terem mudado de vida, os moradores de Antioquia passaram a notar a diferença e, cumprindo o que disse Jesus a respeito do efeito das boas obras dos seus discípulos, passaram a chamar os discípulos de “cristãos”, isto é, “parecidos com Cristo”, “semelhantes a Cristo”(At.11:26). Eram os homens glorificando ao Pai que está nos céus (Mt.5:16). Era o resultado do ensino da Palavra.

    O “discipulado” não é uma tarefa somente dos novos convertidos, não. Embora muitos considerem que o “discipulado” seja uma tarefa destinada somente aos novos convertidos, ou seja, um período de ensino da Palavra de Deus até o batismo nas águas, temos que a realidade bíblica é bem diferente. Não resta dúvida de que é necessário um discipulado específico para o novo convertido, como, aliás, vimos no episódio da igreja em Antioquia. Entretanto, o discipulado não se encerra com o batismo nas águas do novo convertido que, tendo dado frutos dignos de arrependimento, desce às águas e é inserido na igreja local. O discipulado tem como finalidade o de nos fazer cada vez mais parecidos com o Senhor Jesus; é uma tarefa incessante, que não tem fim.

    Discipular é ensinar a Palavra, é aperfeiçoar os santos, é disciplinar em um caminho. É colocar o Caráter de Cristo em outra pessoa, através do ensino e do exemplo. Assim, somente pode ser considerada encerrada quando alguém tiver atingido a perfeição, pois só alguém perfeito não necessita ser aperfeiçoado. Tanto assim é que o apóstolo Paulo afirma que os dons ministeriais devem ser exercidos até que cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef.4:13). Quem, porventura, chegou a este estágio durante os quase dois mil anos de Igreja? Alguém já chegou à estatura completa de Cristo? Alguém já atingiu a perfeição? Evidentemente que não! Se formos para a história dos grandes homens de Deus, sem dúvida que diríamos que, nos tempos apostólicos, o apóstolo Paulo se encontrava entre aqueles que poderiam ter chegado a este nível. No entanto, o próprio Paulo afirmou que não havia chegado a tal condição (Fp.3:12). Se Paulo que foi mero imitador de Cristo(1 Co 11:1), com recomendação para imitá-lo(Fp 3:17), que  teve uma revelação especial de Jesus, não chegou a esta estatura, quem somos nós para dizer que o fizemos? Por isso, indubitavelmente, o discipulado é uma tarefa que nunca há de terminar na Igreja, visto que seu alvo é inatingível. Podemos, mesmo, afirmar que, ao dizer que o objetivo do discipulado é nos levar à estatura completa de Cristo, estamos aqui diante de uma expressão bíblica cujo significado é um só: “devemos aprender sempre”.

    2. Que significa ser discípulo?  – “Discípulo” significa “aluno”, “aquele que aprende”. A palavra “discípulo”, do grego mathetés, é usada 269 vezes nos Evangelhos e em Atos.  Jesus, a exemplo dos mestres judeus do seu tempo (os chamados “rabis”, hoje denominados de “rabinos”), era seguido pelos seus “alunos”, ou seja, por aqueles que queriam aprender as lições do mestre, por aqueles que esperavam aprender do mestre o conteúdo das Escrituras. João tinha os seus discípulos (Mt.9:14), assim como Jesus. Estes “discípulos” eram pessoas que, fundamentalmente, queria aprender com Jesus, tinham interesse em tomar conhecimento daquilo que Jesus lhes queria transmitir e, por causa deste interesse, recebiam a revelação daquilo que estava oculto às demais pessoas (Mt.13:10,11).

    Ser “discípulo” de Jesus é querer aprender de Jesus e o próprio Jesus enfatizou que é necessário que aprendamos dEle se quisermos encontrar descanso para as nossas almas (Mt.11:29). Somente sendo “discípulo”, ou seja, querendo aprender a respeito de Jesus, que nada mais é que aprender a respeito das Escrituras (Mt.22:29; Jo.5:39), é que teremos acesso à verdade e, por isso, seremos santificados (Jo.17:17), daremos fruto a ponto de sermos reconhecidos como filhos de Deus (At.11:26) e, por causa disto, desfrutaremos da vida eterna com o Senhor(Mt.13:23,43).

    “O discípulo não é mero aprendiz, mas alguém que segue as pisadas de seu Mestre e possui íntimo relacionamento com Ele”.

    Nos Evangelhos, Jesus define a palavra discípulo de cinco maneiras:

    1) Discípulo é um crente que está envolvido com a Palavra de Deus de maneira contínua – “Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos” (Jo 8.31).

    2) Discípulo é aquele que ama sacrificialmente, sem medir esforços – “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35); “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e nós devemos dar a vida pelos irmãos”(1 Jo 3.16).

    3) Discípulo é alguém que permanece diariamente em união frutífera com Cristo – “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” (Jo 15.8).

    4) Discípulo é aquele que assume a sua cruz e segue a Cristo –“ Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.27).

    5) Discípulo é aquele que renuncia tudo que tem – “Assim, pois, todo aquele dentre vós que não renuncia a tudo quanto possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33).

    III. A IGREJA REALIZANDO O DISCIPULADO

    O discipulado, ou seja, o ensino da Palavra de Deus, é uma tarefa fundamental e ininterrupta da Igreja. Observe que “fazer discípulos”, “ensinar as nações” é uma ordem de Jesus, exarada no mesmo texto que diz respeito ao batismo nas águas (que estudamos na lição anterior).

    O ensino da Palavra de Deus, portanto, é uma necessidade, necessidade esta de que deve a igreja local estar sempre consciente, assim  como a de evangelizar. Entretanto, é com tristeza que vemos que, assim como a Igreja está dispersa com respeito à evangelização, como vimos na lição 02, também o está, e até com maior intensidade ainda, com respeito ao ensino da Palavra de Deus.

    1. A Igreja deve selecionar pessoas para o discipulado. Para cumprir a tarefa do ensino da Palavra, é preciso, em primeiro lugar, que a Igreja se veja dotada de homens e mulheres preparados para ensinar. Na igreja de Antioquia, Barnabé ao notar a salvação daqueles crentes, imediatamente viajou para Tarso, para trazer a Paulo, pessoa que ele sabia ser preparada e capaz de ensinar aqueles novos convertidos(At 11:25,26).

    Um dos grandes problemas que temos visto nas igrejas locais da atualidade é o despreparo das pessoas para ensinarem a Palavra de Deus. Quando falamos em preparo, não estamos nos referindo a escolaridade ou a conhecimento secular de alguém, mas, sobretudo, a seu conhecimento bíblico, a sua capacidade de manejar bem a Palavra da Verdade (I Tm.2:15).

    Infelizmente, as atividades de ensino são, quase sempre, as mais desprezadas nas igrejas locais na atualidade. O termômetro desta situação é a Escola Bíblica Dominical, que, segundo pesquisa, apenas 10% dos membros da igreja tem interesse em aprender a Palavra de Deus. Isto é lamentável! Esta situação leva-nos a inferir que é uma das principais razões da frieza espiritual, da influencia mundana e da total desinformação que tem tomado conta do nosso povo nos últimos anos, sem falar nas milhares de vidas que se encontram completamente aprisionados por heresias e falsos ensinos, que têm tomado conta dos nossos púlpitos.

    O descaso com a Escola Bíblica Dominical por parte de muitos pastores e dirigentes de igrejas locais, eles próprios eternos ausentes destas reuniões, leva, muitas vezes, à entrega das classes a pessoas despreparadas, que mal sabem para si, que dirá para os outros. Estamos muito longe do modelo bíblico, em que os apóstolos, apesar de serem os principais nomes da igreja, tomavam para si a responsabilidade do ensino da Palavra, ensino este que era prioritário, tanto que a primeira coisa que Lucas faz notar na igreja primitiva é de que eles “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At.2:42).

    O ensino da Palavra deve ser a atividade interna prioritária, primordial na igreja local. Depois da evangelização, que é voltada para ganhar almas para o Senhor, que é voltada para os que estão fora da igreja local, para a comunidade, a igreja local deve se preocupar é com o aprendizado de seus membros, com o ensino da Palavra. Assim, as reuniões voltadas para os salvos devem ser, prioritariamente, de ensino da Palavra, de ensino doutrinário. Entretanto, o que se tem visto é uma simples leitura da Palavra de Deus em algumas reuniões, quando o é, sem qualquer exposição ou ensino a respeito dela. Não são poucos, aliás, os crentes que nem mesmo levam suas Bíblias para tais reuniões, pois sabem que nem sequer tais Bíblias serão lidas ou abertas. Estamos, lamentavelmente, a viver os tempos tristes anunciados pelo profeta Amós, tempos de fome e de sede da Palavra de Deus (Am.8:11).

    2. A igreja deve concentrar sua atenção sobre os discipuladores. Na força do Senhor, a igreja precisa investir o máximo na preparação de discipuladores, a fim de fazer mais discípulos, e o pastor da igreja é o ponto de partida para a dinâmica do ministério do discipulado.

    O progresso do trabalho do discipulador depende muito da visão do pastor da igreja local. Deve partir dele a tarefa do discipulado; ele deve ser o primeiro a ter prazer em ensinar e a se esmerar no ensino da Palavra. Deve ser alguém sempre pronto a elucidar dúvidas doutrinárias dos irmãos, um assíduo freqüentador da Escola Bíblica Dominical, alguém que demonstra esforço e profundidade doutrinária nos cultos de ensino, como também na pregação da Palavra nas reuniões públicas. Não precisa ser um “doutor em Divindade”, um “erudito”, mas precisa, isto sim, demonstrar conhecimento bíblico, intimidade com as Escrituras, precisa ser um obreiro aprovado, que maneja bem a palavra da verdade, e deve exigir de seus auxiliares este mesmo perfil.

    O dirigente deve incentivar os seus auxiliares no estudo da Bíblia, inclusive, se necessário, fazendo reuniões de estudos bíblicos com eles, a fim de estimulá-los a manejar bem a palavra da verdade. Deve dar atenção especial ao superintendente da Escola Bíblica Dominical e aos professores da EBD, participando das reuniões preparatórias deles sempre que possível, além de assistir às aulas da EBD, verificando, assim, como está sendo ensinada a Palavra na igreja local.

    Com relação aos novos convertidos, é preciso haver um segmento especial da igreja local para deles cuidar. Eles devem ser acompanhados de perto pelos evangelistas da igreja local, que deverão lhes tirar todas as dúvidas que tenham e dar prioridade a que eles aprendam os fundamentos doutrinários, as bases da doutrina cristã. Tais bases estão elencadas pelo escritor aos Hebreus, a saber: arrependimento de obras mortas, fé em Deus, doutrina dos batismos, da imposição das mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno (Hb.6:1,2). Tais ensinamentos devem ser dados, de forma sistemática, preferencialmente na Escola Bíblica Dominical, em classe específica para os novos convertidos, a fim de que eles possam, a um só tempo, ter conhecimento das verdades bíblicas essenciais, como também se acostumar a freqüentar a EBD.

    3. A igreja deve treinar os seus membros para a tarefa do discipulado. A igreja precisa, no discipulado cristão, de uma visão celestial multiplicadora, selecionando e treinando homens e mulheres para que, por suas vidas santas e ungidas e, pelo ensino das verdades cristãs, possam educar os novos discípulos e torná-los aptos para fazer outros. Mas, para se fazer o discipulado, é indispensável que demos o devido valor à Palavra de Deus, Palavra que o próprio Deus engrandeceu a tal ponto de a pôr acima de Si mesmo (Sl.138:2). Sem esta atitude, de nada adiantará desenvolver “cursos teológicos”, “cursos bíblicos”, “cursos de preparação de obreiros” e tantas outras coisas que têm sido inventadas e postas em prática na atualidade. Se as pessoas não se conscientizarem de que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a Palavra que procede da boca de Deus (Mt.4:4), um discipulado não terá êxito em qualquer igreja local. Foi isto que os apóstolos sempre fizeram, a ponto de terem arrogado para si esta tarefa e tê-la posto como prioridade absoluta em seus ministérios.

    O ministério de Jesus é o exemplo para a Igreja, que é o seu corpo: Ele pregou o evangelho às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt.10:6;15:24), como também preparou homens e mulheres que pudessem prosseguir a sua obra (Mt.11:1). Se seu ministério se resumisse tão somente na pregação, ante a rejeição de Israel (Jo.1:11), teria havido um fracasso. Entretanto, o Senhor formou um grupo de discípulos que, revestidos de poder, seriam suas testemunhas até os confins da terra (At.1:8).

    CONCLUSÃO

    A Igreja que não ensinar a Palavra de Deus aos seus integrantes, a começar dos novos convertidos, não estará cumprindo a sua tarefa sobre a face da Terra. Não basta pregar o Evangelho, também é necessário que os novos convertidos a Cristo sejam  devidamente instruídas na Palavra do Senhor, tenham conhecimento das Escrituras, sem o que não se tornarão discípulos de Jesus e quem não for discípulo de Jesus não entrará no céu, pois só aqueles que assim se comportarem poderão dar fruto e, portanto, ser considerados como justos e resplandecerem no reino do Senhor, como o Senhor deixou claro na interpretação que deu da parábola do joio e do trigo.

    “Centenas de pecadores convertem-se anualmente, experimentam o novo nascimento, mas não chegam à maturidade espiritual, pois lhes faltam pais espirituais. Muitos daqueles que permanecem se desenvolvem com anomalias e atrofias éticas e doutrinárias.  Onde estão os discipuladores? Você está disposto a “fazer discípulos”?

    Assim como o recém-nascido necessita de cuidados para desenvolver-se de modo saudável, o novo convertido precisa de cuidados espirituais para chegar à maturidade na fé. Isso só é possível se cada crente assumir o inalienável compromisso de ser um discipulador cristão.

    Alguém em certo lugar afirmou que a igreja é um hospital. Mas perguntamos: “Será que é uma geriatria?” — uma vez que não há renovação de seus membros. “Será que é uma ortopedia?” — uma vez que o corpo está atrofiado. “Será que é uma pediatria?” — pois todos os que nascem recebem os cuidados espirituais necessários. Façamos de nossas igrejas um hospital geral, que trate do ser humano em todas as suas necessidades espirituais”

     

     

  • Lição 6 – O exercício do dom de profecia na igreja atual

    Lição 6 – O exercício do dom de profecia na igreja atual

    profeta

    O que é Dom?

    Para iniciar é  importante estudar a distinção entre Dom de Profecia e Ministério de Profeta, precisamos conceituar biblicamente o termo Dom. A palavra, de acordo com a raiz hebraica nathan e a grega dosis (derivado do verbo didomi), estabelece um significado de dar (ou dotes) no contexto veterotestamentário; e um sentido ativo de “dar” ou um sentido passivo de “dádiva” num contexto neotestamentário; respectivamente (2 Cr 9.15; Jo 3.16)   .
    Particularizando a análise do termo “Dom” na categoria dos “Dons Espirituais”, é factível que três palavras gregas apareçam em 1 Co 12 – 14: “ta pneumatika” (12.1); “ta pneumata” (14.12); “ta charismata” (12.4,9,28,30,31). Esses termos significam, respectivamente, “dons, poderes e manifestações espirituais”; “manifestações do Espírito”; “dons da graça ou dons carismáticos (carismas)”  .

    Dom de Profecia

    O Dom de Profecia, analisado a partir das conceituações citadas acima e de acordo com 1 Co 12.4-27, é um dom ou manifestação espiritual (carismática) que dá a capacidade transcedental ao crente para desempenhar uma função útil no “Corpo de Cristo”. Esse dom não pode ser confundido com os dons ministeriais (conforme os de Efésios 4.11) e, muito menos, com as posições espirituais da igreja primitiva (como Presbíteros [ou Bispos, Pastores] e Diáconos), porém, ambos [os dons] servem para edificar a Igreja e denotar o seu caráter de Unidade, diversidade, distribuitivo, ordeiro, motivador, permanente e valoroso no exercício do uso adequado dos Dons.

    Profecia

    A profecia é uma manifestação do Espírito de Deus e não da mente do homem, e é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso: 1 Co 12.7.

    Embora o dom da profecia nada tenha a ver com os poderes normais do raciocínio humano, pois é algo muito superior, isso não impede que qualquer crente possa exercitá-la: “Porque todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados”, 1 Co 14.31.

    Ainda que nalguns casos o dom da profecia possa ser exercido simultaneamente com a pregação da Palavra, é evidente que esse dom é dotado de um elemento sobrenatural, não devendo, portanto, ser confundido com a simples habilidade de pregar o Evangelho.

    Dada a importância desse dom em face dos demais dons espirituais, e dentro do contexto da doutrina pentecostal, necessário se faz uma análise cuidadosa, no sentido de conceituá-lo no seio da Igreja hoje.

    O apóstolo Paulo adverte os crentes a procurar “com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar” (1 Co 14.1); isto por razões que ele mesmo enumera:

    a. Porque “o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação… O que profetiza edifica a igreja”, 1 Co 14.3,4.

    “Edificação”, “exortação” e “consolação” são os três elementos básicos da profecia, são a razão de ser e de existir desse dom. É evidente que isto contraria a crença tão popular entre nós, de que o principal elemento da profecia é o preditivo (predição do futuro). Certamente, que tanto o Antigo quanto o  Novo Testamento contêm numerosas profecias preditivas, muitas das quais já se cumpriram, e outras estão se cumprindo, e outras ainda se hão de cumprir, No entanto, no conteúdo geral das Escrituras, o elemento preditivo da profecia é relativamente o menor.

    b. Porque ‘‘se todos profetizarem, e algum in-douto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós”, l Co 14.24,25.

    Há algo mais que precisamos ter em mente quanto ao dom de profecia e o seu uso na Igreja hodiemamente:

    a) O dom de profecia nunca deve exercer propósitos diretivos ou de governo sobre a Igreja. No Antigo Testamento, Israel era governado por reis e o culto era dirigido pelos sacerdotes, mas nunca por alguém que se tivesse distinguido por um ministério cem por cento profético. Os profetas eram apenas colaboradores na condução do povo. O mesmo aconteceu corn a Igreja dc Novo Testamento: o seu governo sempre esteve sob a responsabilidade dos presbíteros ou bispos, ou pastores, mas nunca sob a responsabilidade de profetas.

    Escreveu o missionário Eurico Bergstén, que “quando alguém, por meio de profecia, penetra na direção da igreja, mostra que é dominado por influências estranhas. Abre-se, então, uma porta para a perturbação… Quando alguém se faz ‘oráculo de profeta’, para responder a perguntas e orientar os crentes, está usando indevidamente o dom de profecia… O dom de profecia não atinge, nesta dispensação, a faixa de consulta, pois tem uma outra finalidade: a edificação da Igreja”.

    b) Devido a possíveis abusos quanto ao uso do dom da profecia, este dom está sujeito a análise e a conseqüente julgamento. Recomenda o apóstolo Paulo: “…falem dois ou três profetas, e os outros julguem”, 1 Co 14.29.

    Paulo arremata suas advertências quanto ao dom de profecia, dizendo: “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”, 1 Co 14.37.

    O dom de profecia não deve ser desprezado (1 Tm 4.14), mas despertado (2 Tm 2.16), a fim de que a Igreja seja enriquecida: 1 Co 1.57.

    Algumas perguntas sobre a questão:

    Onde vemos no Antigo testamento a promessa do dom de profecia e quando foi iniciado no Novo testamento?

    O Senhor DEUS, através do profeta Joel, prometeu derramar abundantemente do seu ESPÍRITO sobre os seus servos (Jl 2.28-32).

    Tal promessa, que iniciou o seu cumprimento a partir do Dia de Pentecostes e inclui especificamente o dom de profecia (Jl 2.28-32; At 2.16-21).

    Quem pode ter o Dom de Profecia, na Igreja?

    Qualquer crente salvo pode ter o dom de profecia na nova dispensação (1 Co 14.24).

    Independe de idade, sexo, status social e posição na igreja (At 2.17,18), tal como vemos nas quatro filhas de Filipe “que profetizavam” (At 21.9).

    Definição de Dom de Profecia:

    O dom de profecia, aqui abordado, é uma manifestação momentânea e sobrenatural do ESPÍRITO SANTO, como um dos dons espirituais prometidos, e não um ministério.

    O maior valor da profecia é que ela, sendo de DEUS, ao contrário das línguas estranhas (quando não têem a interpretação), uma vez proferida, exorta, edifica e consola a coletividade e não unicamente o que profetiza (1 Co 14.3-5).

    Características do Dom de Profecia:

    A Bíblia ensina que a profecia deve ser julgada na igreja e que o profeta deve obedecer ao ensino bíblico (1 Co 14.29-33).

    Não podemos esquecer que a profecia, nesse contexto, não se reveste da mesma autoridade da dos profetas e apóstolos das Sagradas Escrituras.

    O dom de profecia, na presente era, não é infalível e, portanto, é passível de correção.

    Pode acontecer de o profeta receber a revelação do ESPÍRITO SANTO e, por fraqueza, imaturidade e falta de temor de DEUS, falar além do que devia.

    Quem profetiza, portanto, deve ter o cuidado de falar apenas o que o ESPÍRITO SANTO mandar, não alegando estar “fora de si” ou “descontrolado”, pois “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14.32).

    O nosso DEUS nunca deixou de se comunicar com o seu povo. Ele continua a falar conosco, inclusive por meio do dom de profecia. O Senhor sempre cuida do progresso e edificação de sua Igreja. Por essa razão, JESUS deu à sua Noiva, apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores.

    A profecia, como dom, pode vir de 3 fontes: De DEUS, do homem e de satanás.

    Devem ser julgadas (1 Ts 5:21,22) e controladas para haver ordem no culto; um depois do outro e no máximo três em cada reunião (1 Co 14.31).

    Não devem ser desprezadas(1 Ts 5:20).

    Vêm para edificação, exortação e consolação(1 Co 14:3).

    Línguas + Interpretação = Profecia (1 Co 14:27,13).

    Diferente de profeta, todo profeta profetiza, nem todo que profetiza é profeta (1Co 14:31) e (Ef 4:11)

    Profeta é ministério dado por CRISTO, profecia é manifestação do ESPÍRITO SANTO.

    Profeta prediz alguma coisa que ainda vai acontecer, profecia não prediz nada.

    Todos podem profetizar (1 Co 14.31), mas poucos são chamados para serem profetas. 

    Exemplos de profecias:

    JESUS: “Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas eu vos tornarei a ver, e alegrar-se-á o vosso coração, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará.”(Jo 16:22).

    Paulo: “disse Paulo ao centurião e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos. Então os soldados cortaram os cabos do batel e o deixaram cair. Enquanto amanhecia, Paulo rogava a todos que comessem alguma coisa, dizendo: É já hoje o décimo quarto dia que esperais e permaneceis em jejum, não havendo provado coisa alguma. Rogo-vos, portanto, que comais alguma coisa, porque disso depende a vossa segurança; porque nem um cabelo cairá da cabeça de qualquer de vós.”(At 27:31-34).

     

     

     

     

  • Lição 5 – Liderança em tempo de reforma

    Lição 5 – Liderança em tempo de reforma

    neemias

    As atitudes de Neemias na sua chegada a Jerusalém mostram que estava capacitado para fazer a obra que Deus queria que fizesse em Judá.

    INTRODUÇÃO

    – Na sequência do estudo do livro de Neemias, estudaremos hoje o capítulo 2, que nos narra a ida de Neemias até Jerusalém.

    – As atitudes tomadas por Neemias mostram que estava devidamente capacitado pelo Senhor para empreender aquela grande obra que era a restauração da nação judaica.

    I – NEEMIAS PEDE AO REI PARA IR PARA JERUSALÉM

    – Neemias foi buscar a face do Senhor a fim de poder conhecer qual era a vontade divina no caso e, no mês de Nisã, no vigésimo ano do reinado de Artaxerxes, depois de quatro meses de oração, foi acometido de uma singular angústia, de uma tristeza que, ao contrário das outras vezes, não pôde disfarçar diante do rei. Artaxerxes notou que o semblante de Neemias era de tristeza e, como isto nunca antes havia acontecido, perguntou-lhe o que se passava (Ne.2:1,2).

    – Vemos desta afirmação do próprio Neemias que um servo de Deus, ainda que esteja a passar por tribulações, angústias e provações, não deve ser alguém que transmita tristeza ou melancolia aos que estão à sua volta. Muito pelo contrário, o servo do Senhor precisa expressar alegria, uma alegria diferente, pois é a alegria da salvação (Sl.51:12), uma das qualidades do fruto do Espírito Santo (Gl.5:22).

    – Não estamos aqui a dizer que o salvo não passa por tristezas e aflições. O Senhor Jesus só garantiu uma coisa para os Seus seguidores neste mundo – aflições (Jo.16:33). Assim, é evidente que o salvo sempre passará por momentos de dificuldades e de tristezas.

    – O que estamos a dizer é que o salvo, apesar das aflições e tristezas, não pode desanimar nem tampouco desanimar aqueles que estão à sua volta. O Senhor disse que, apesar das aflições, devemos ter “bom ânimo”, ou seja, não podemos perder a esperança da glória, nem tampouco fazer com que nossas dificuldades se transformem em pedra de tropeço para os outros seres humanos. Neemias, apesar de sua aflição, de seu choro contínuo, nunca havia se apresentado triste e abatido diante do rei Artaxerxes. Apresentava-se, sempre, com um semblante alegre, sendo um motivo de prazer e uma boa companhia para o rei.

    – No entanto, naquele dia, por mais que tentasse, Neemias não conseguiu se apresentar com semblante alegre. Aquela tristeza era, sem que ele soubesse, o meio pelo qual o Senhor começaria a responder as suas orações. Neemias, apesar de angustiado e triste (talvez se perguntasse o porquê daquela tristeza maior), não se queixou diante do rei, mas efetuou o seu serviço como costumava fazer.

    – O rei, no entanto, já acostumado com o semblante alegre de Neemias, percebeu aquela mudança de ambiente e, mais do que depressa, perguntou-lhe qual era o motivo daquilo, já que, como Neemias não estava doente, aquilo só podia ser tristeza de coração (Ne.2:2).

    – A indagação do rei era extremamente perigosa. Como sabemos, o copeiro real era aquele que provava tudo quanto seria consumido pelo rei, a fim de evitar que fosse ele envenenado. A demonstração de tristeza de coração por parte de Neemias poderia indicar que ele soubesse de alguma trama ou conspiração contra o rei e, como era um servo leal, sua tristeza poderia ser interpretada como um cumplicidade com os inimigos, mesmo uma impotência diante daquilo, que poderia custar-lhe a vida. Eis o motivo pelo qual Neemias “temeu muito em grande maneira”.

    – Apesar do perigo de vida que estava a correr, Neemias , naquele momento, sentiu da parte do Senhor que ali estava uma oportunidade para relatar ao rei o deplorável estado de seus compatriotas e, com coragem, disse ao rei que o motivo de sua tristeza era o fato de Jerusalém, a cidade de seus pais, estar assolada e as suas portas consumidas a fogo (Ne.2:3). O rei, então, vendo a sinceridade do seu copeiro, perguntou-lhe o que Neemias desejava diante daquele quadro.

    – Vemos, então, que Neemias, diante de tão grande oportunidade, não se precipitou, mostrando ser pessoa extremamente prudente, uma característica que deve ter todo líder. Indagado pelo rei o que queria, fez uma oração a Deus, esta, sim, uma “oração-relâmpago”, uma “oração repentina”, mas que, com muita propriedade, Charles Haddon Spurgeon, o príncipe dos pregadores britânicos do século XIX, denominou de “oração fervorosa”.

    – Nada podemos fazer sem a orientação, a direção e a ajuda do “Deus dos céus”. Neemias havia orado durante quatro meses mas, quando se lhe abriu a oportunidade de fazer seu pedido ao rei, não confiou no poder do rei, a maior autoridade mundial daquele tempo, mas, sim, no “Deus dos céus”. Temos agido da mesma maneira, amados irmãos? Mesmo quando aparentemente se abrem as portas para nós, temos, apesar de tanto tempo de oração, ainda feito uma “oração fervorosa” para o Senhor?

    – Ao término desta oração, com toda certeza o Espírito de Deus deu a Neemias a convicção inabalável de que era ele quem deveria restaurar Jerusalém e, diante disto, o copeiro pediu ao rei que fosse autorizado a ir até Jerusalém e, em nome do rei, reedificasse Jerusalém.

    – No pedido de Neemias, verificamos que, embora reconhecesse a Deus como o Senhor de todas as coisas, o copeiro não menosprezou a autoridade de Artaxerxes, bem sabendo lidar com as leis e costumes vigentes na Pérsia. Ao fazer o pedido, nem sequer mencionou o nome do Senhor, pedindo que o rei, se quisesse e lhe fosse agradável, autorizasse sua ida até Jerusalém para a reedificação da cidade.

    – Que importante lição temos com este gesto de Neemias! Ainda que dirigidos e orientados pelo Senhor, ainda que chamados para mudar uma situação secular de injustiça e de desmando, não podemos nos apresentar como rebeldes, insubordinados ou arrogantes diante das autoridades, pois elas foram constituídas por Deus (Rm.13:1) e resistir-lhes no campo de sua competência é resistir a Deus (Rm.13:2).

    – Vemos com tristeza, na atualidade, que muitos dos servos de Deus não sabem se relacionar convenientemente com as autoridades. Alguns resolvem se submeter cegamente a elas, inclusive naquilo que fazem em contrariedade à Palavra do Senhor, fazendo-o, não raras vezes, em virtude de interesses escusos e reprováveis. Outros, pelo contrário, afrontam-nas, resistindo-lhes naquilo em que estão a fazer precisamente o que lhes é permitido inclusive pela lei de Deus e, nesta afronta, além de resistirem ao próprio Deus, também servem de escândalo na obra de Deus. Saibamos os verdadeiros limites das autoridades e, naquilo para o que foram elas constituídas, sejamos submissos e obedientes, como foi Neemias.

    – O rei Artaxerxes demonstrou ter interesse em atender ao pedido de seu copeiro, mas perguntou a Neemias quando tempo pretendia se ausentar da corte (Ne.2:6). Este, foi, sem dúvida, um importante teste para Neemias. O rei mostrou-se favorável, prova de que estava o Senhor abrindo as portas para que a obra de reedificação de Jerusalém se realizasse, mas, também, o rei mostrou que não pretendia “abrir mão” de seu servidor. Nesta pergunta, também, o rei quis verificar duas coisas muito importantes: se Neemias tinha desejo de se tornar “senhor” de Jerusalém, ou seja, se havia alguma ambição de poder por parte do copeiro e, também, se Neemias tinha ideia do que iria fazer, daí porque ter pedido para que o seu copeiro indicasse um período de ausência.

    – Neemias mostra, claramente, ao apontar um certo tempo para o rei, de que não havia apenas se dedicado à oração ao Senhor, mas que, também, procurara se informar a respeito da situação de Jerusalém e do que seria necessário fazer. Neemias não demonstrou uma “fé cega”, não se deixou levar apenas pelos desejos, mas quis se informar a respeito do que seria necessário para reedificar a cidade, como isso se daria.

    – Agir por fé, amados irmãos, não é deixar tudo aos cuidados do Senhor e não se preparar para aquilo que sente ter sido chamado a fazer. Neemias, em suas orações, recebeu a convicção de que era o homem escolhido por Deus para restaurar a sua nação, por mais que isto fosse algo irrazoável aos olhos humanos, uma vez que era o copeiro do rei e nem sequer tivera contato com os seus compatriotas, embora nem sequer conhecesse ou tivesse estado em Jerusalém alguma vez em sua vida.

    – É neste ponto que vemos o exercício da fé, quando vemos algo que é invisível, quando esperamos algo que não tem a mínima condição de se nos mostrar ou de acontecer (Hb.11:1). No entanto, exatamente por vermos o invisível e esperarmos o que, natural e racionalmente, não pode vir a ocorrer, não podemos ficar de braços cruzados, sem nada fazer. Pelo contrário, Neemias, tomado desta convicção, procurou informar-se do estado de coisas e, mais do que isto, a planejar como se daria a reedificação. Tanto assim é que, quando o rei pede que lhe aponte um tempo, Neemias pôde fazê-lo sem titubeio nem mesmo pedindo “um tempo para pensar”.

    – O planejamento é algo que é indispensável para quem quer exercer um papel de liderança, como, aliás, é algo indispensável para toda e qualquer ação inteligente que se queira fazer. Deus dá-nos o exemplo pois Ele mesmo planejou a salvação da humanidade ainda antes da fundação do mundo (Mt.25:34; Ef.1:4; Ap.13:8; 17:8).

    – Neemias, instado pelo rei, como já tinha um planejamento, apontou, de imediato, um certo tempo e obteve dele a autorização para partir.

    II – NEEMIAS OBTÉM RECURSOS E MEIOS PARA EMPREENDER A OBRA DE REEDIFICAÇÃO PARA JERUSALÉM

    – Após a autorização real para partir para Jerusalém, numa clara demonstração de que havia planejado o que iria fazer, Neemias pediu ao rei que lhe fossem dadas cartas para os governadores dalém do rio para que lhe dessem passagem até Judá (Ne.2:7). Vemos, aqui, mais uma vez, como Neemias tinha plena consciência de se submeter a todas as regras e costumes existentes em seu tempo, apesar de ter a convicção de que estava a fazer a vontade do Senhor e de que tinha, agora, a autorização da autoridade máxima da Pérsia, o próprio rei Artaxerxes.

    – Entretanto, Neemias sabia que não se pode realizar a obra de Deus de qualquer maneira e de modo irresponsável. Embora tivesse a autorização do rei, esta autorização deveria ser bem documentada e Neemias haveria de ter um relacionamento correto e legal para com todos os governadores das terras ao longo das terras que separavam a Pérsia (região que hoje corresponde ao Irã) da Palestina.

    – O Império Persa é conhecido na história por ser um dos primeiros impérios mundiais que se dotou de uma razoável estrutura administrativa. O império era dividido em satrapias, governadas por um sátrapa, que era o governador, aquele que, em nome do rei, administrava uma determinada região do império (cfr. Et.1:1). Assim, Neemias quis se cercar de todos os cuidados para, ao longo da jornada, não ser molestado por qualquer governador e, desta maneira, poder chegar em paz e sem qualquer problema até Jerusalém.

    – Como é importante que o servo de Deus se mostre, diante dos homens, de forma correta e insuspeita. Embora tenhamos um relacionamento íntimo com o Senhor, que conhece o nosso coração, nem por isso devemos nos descuidar de nos mostrar, diante dos homens, como pessoas de bem, como pessoas bem-intencionadas, como portadoras de um bom testemunho. Os homens sem Deus nem salvação não conhecem as realidades espirituais e, por isso, devemos nos mostrar a eles como pessoas de boa índole, como pessoas de bem.

    – Muitos, na atualidade, apesar de terem tido real encontro com o Senhor Jesus, apesar de estarem agindo na direção do Senhor, prejudicam-se a si mesmos e à obra do Senhor quando não tomam o cuidado que tomou Neemias de se precaver, diante das instituições existentes na sua sociedade, de modo a se mostrar a todos, a começar das autoridades, como pessoa de bem, como alguém que estava perfeitamente dentro dos limites da lei e da ordem.

    – Quantos, na atualidade, em nome de um “chamado de Deus”, causam escândalos, descumprindo normas legais, afrontando autoridades e dando lugar ao diabo para que a obra de Deus seja prejudicada. As Escrituras são claras ao afirmar que não podemos dar lugar ao diabo (Ef.4:27) e isto significa, entre outras coisas, que não podemos, em nome de um voluntarismo, de uma indevida “espiritualidade”, nos descuidarmos de cumprir tudo quanto nos é exigido na sociedade e perante o Estado quando formos fazer a obra de Deus. Neemias tinha autorização do rei para ir até Jerusalém, mas, por isso mesmo, não ousou sair de Susã sem portar as devidas cartas para apresentar a todos os governadores que encontraria pelo caminho, em especial os “governadores dalém do rio”, i.e., os governadores que tivessem autoridade do lado de lá do rio Eufrates, quando já se iniciava a Palestina.

    – Isto nos mostra que Neemias, durante o seu tempo de oração, procurou todas as informações que fossem necessárias para levar a efeito a obra de reedificação de Jerusalém. Ciente de seu chamado, Neemias não ficou aguardando as coisas acontecerem, mas, desde o primeiro instante em que sabia que Deus o queria nesta empreitada, tratou de obter todas as informações necessárias para que planejasse aquilo que deveria fazer.

    – Temos nos comportado desta maneira, ou temos aderido a falsas concepções de que basta apenas “orar” que Deus tudo fará por nós. Não resta dúvida de que sem Cristo nada pode ser feito, como já dissemos supra, mas, em momento algum, o Senhor Jesus disse que faria tudo sozinho. Nada podemos fazer sem Ele, mas Ele não é nosso servo para tudo fazer. Lembremo-nos de que aquilo que não podemos fazer, Ele fará, mas aquilo que podemos (e devemos) fazer, cabe a nós fazê-lo. Ninguém poderia ressuscitar Lázaro, mas tirar a pedra alguém poderia fazer e é por isso que Jesus ressuscitou Seu amigo, mas, antes, mandou que os que ali estavam tirassem a pedra. Façamos sempre o que está ao nosso alcance fazer, amados irmãos!

    OBS: Esta ideia de que devemos sempre agir, trabalhar, além de orar, ficou conhecida na máxima de Bento de Núrsia (480-547), o criador da ordem dos beneditinos, cujo lema era “ora et labora”, ou seja, “ora e trabalha”.

    – Além dos cuidados relativos à própria liberdade de locomoção e da demonstração de sua boa índole em sua viagem, perante as autoridades, Neemias também se preocupou em obter do rei os materiais necessários para a construção. Pediu, então, a Artaxerxes que lhe fosse dada uma carta para Asafe, o guarda do jardim do rei, para que lhe fosse fornecida madeira para cobrir as portas do paço da casa e para o muro da cidade e para a causa em que ele houvesse de entrar (Ne.2:8).

    – Por primeiro, não confundamos este Asafe, guarda do jardim do rei, com o salmista de mesmo nome e autor de vários salmos (como os salmos 73 a 83), que viveu na época de Davi, ou seja, centenas de anos antes. Seu nome pode dar a entender que se tratava, também, de um judeu com uma alta posição na corte de Artaxerxes e, assim, pessoa próxima de Neemias, mas que, nem por isso, deveria ajudar o copeiro real sem que o rei mandasse fazê-lo.

    – Temos aqui uma demonstração de que Neemias sabia bem diferenciar amizade de responsabilidades, algo que, infelizmente, muitos salvos não compreendem. O fato de Asafe ser judeu e amigo de Neemias nada tinha que ver com a missão que o Senhor estava a dar a Neemias. Neemias, a despeito de estar a caminho de Jerusalém para reedificar a cidade e de isto ser algo que seria muito caro a seu compatriota Asafe, sabia muito bem que somente poderia retirar madeira para a obra se houvesse uma ordem do rei a respeito. Não havia meios para que Asafe “desse um jeitinho” e o ajudasse. Como seria bom se todos os salvos agissem desta maneira…

    – Ao fazer seu pedido ao rei para que Asafe lhe arrumasse a madeira necessária para a obra, vemos, mais uma vez, que Neemias tinha buscado obter informações do estado das coisas em Jerusalém e do que seria necessário para fazer a reedificação. Neemias não deixou de confiar em Deus e de Lhe atribuir a abertura da oportunidade, tanto que, em suas “memórias”, faz questão de dizer que tudo foi obtido “segundo a boa mão de Deus sobre mim” (Ne.2:8 “in fine”), mas isto não o impediu de ir atrás das informações e de saber que material e onde poderia obter para realizar a obra.

    – Esta precaução, este cuidado em bem planejar, algo que veio antes mesmo de receber a autorização do rei para fazer a viagem, é uma demonstração eloquente da fé de Neemias e a prova de que ter fé não é ser descuidado nem preguiçoso. Como é diferente o proceder de tantos que dizem ter sido chamados por Deus em nossos dias…

    – Devidamente recomendado por cartas do rei, com o material suficiente, Neemias iniciou sua viagem, tendo se apresentado aos governadores dalém do rio. Além disso, também, foi acompanhado de chefes do exército e cavaleiros que lhe foram fornecidos pelo rei Artaxerxes.

    – É interessante aqui fazermos um paralelo entre Esdras e Neemias. Esdras havia deixado Susã treze anos antes e, nos diz o relato do capítulo 8 do livro de Esdras, que o escriba não quis pedir tropas nem soldados ao rei, porque teve vergonha de pedi-lo diante do testemunho que dera a respeito do Senhor (Ed.8:21-23). Por que Neemias aceitou a soldadesca fornecida pelo mesmo Artaxerxes? Teria Esdras fé e Neemias, não?

    – Tanto Esdras quanto Neemias agiram com fé. Por primeiro, é interessante notar que Neemias também não pediu soldados para o rei. Seu pedido foi para ir reedificar Jerusalém, como também cartas para apresentar aos governadores e madeira do jardim do rei. Neemias não pediu soldados. Assim, não podemos dizer que, ao contrário de Esdras, Neemias tivesse pedido soldadesca para Artaxerxes, pois não há registro de que o tenha pedido.

    – Mas, alguém dirá, ainda que não tivesse pedido, quando o rei as ofereceu, não deveria ter ele recusado para mostrar a mesma fé que teve Esdras? Não necessariamente. Esdras havia se notabilizado na corte de Artaxerxes como “escriba da lei do Deus do céu” (Ed.7:12). Assim, Esdras era conhecido como alguém que tinha ensinado a respeito do poder de Deus, das maravilhas que o Senhor havia feito em prol de Israel. Diante desta sua condição de mestre da lei e pregador, ficaria mesmo inconveniente para Esdras vir a pedir tropas para proteger a ele e aos que com ele iriam para Jerusalém. Certamente, poderia ser confrontado por Artaxerxes, que não era um judeu, a respeito daquilo que pregara durante anos na corte. Assim, para não dar escândalo, para não desacreditar o que havia pregado, Esdras preferiu o caminho da oração e do jejum, caminho este que foi aprovado por Deus, que Se moveu pelas orações do povo e realmente os guardou na sua ida a Jerusalém.

    – No caso de Neemias, porém, era diferente. Neemias não se notabilizara na corte do rei da Pérsia como um pregador nem como um ensinador da lei. Embora tivesse um bom testemunho e se apresentasse como um servo de Deus na corte, Neemias não tinha a posição de Esdras e, por isso, não lhe era inconveniente aceitar a soldadesca. Ademais, como era muito bem informado, sabia, de antemão, que haveria oposição à sua empreitada e a presença da soldadesca lhe seria assaz conveniente, não apenas para intimidar os adversários, para mostrar as suas boas intenções e a circunstância de que estava agindo plenamente dentro da lei. Por isso, ao lhe ser oferecida a ajuda militar, não a negou, pois tal aceitação em nada representaria um escândalo diante da obra que estava a realizar.

    – Esta situação diametralmente oposta entre Esdras e Neemias mostra-nos, com clarevidência, que não podemos entender que Deus deve agir da mesma maneira em todas as situações. Ao recusar soldados, Esdras agiu de forma a se dar glória a Deus; ao aceitar soldados, Neemias também agiu de forma a se dar glória a Deus. Isto nos prova de que, como não conhecemos os corações dos homens, não devemos ficar a julgar esta ou aquela situação, só porque difere de uma situação anterior. Deus tem muitas formas de agir e não cabe a nós o julgamento dos outros (Tg.4:11,12). Tomemos, pois, cuidado, amados irmãos!

    – Tanto foi prudente e divinamente orientada a aceitação da soldadesca por parte de Neemias que, em chegando diante dos governadores dalém do rio e apresentando suas cartas, logo surgiu a oposição, visto que, ao tomar conhecimento das intenções de Neemias, Sambalate, o horonita e Tobias, servo amonita, ficaram grandemente desagradados, já que surgira alguém que procurava o bem dos filhos de Israel (Ne.2:10).

    – Não se sabe se já nesta oportunidade, quando se apresentou aos governadores dalém do rio, Neemias tomou conhecimento do desagrado de Sambalate e de Tobias, mas isto nos serve de lição de que, sempre que buscarmos o bem dos filhos de Deus, sempre haverá quem se levante com grande desagrado, visto que o Senhor Jesus foi bem claro ao nos mostrar que as “portas do inferno” jamais deixarão de se levantar contra a Igreja. Pode ser que não percebamos tal oposição logo ao princípio de nossa atividade em prol dos bens dos filhos de Deus, mas não nos iludamos, sempre haverá a oposição do maligno.

    – Nesta palavra, aliás, entendemos qual era a motivação, qual era o objetivo de Neemias: o bem dos filhos de Israel.Tem sido esta a motivação e o objetivo das ações que temos feito na obra do Senhor? Queremos tão somente “o bem dos filhos de Deus”, ou estamos à procura de outros interesses? Somente poderemos trabalhar para o Senhor Jesus com este mesmo objetivo de Neemias: o bem dos filhos de Deus.

    – Há muitos que, hoje em dia, fazem o mesmo que já se fazia nos tempos do apóstolo Paulo, que nos revela que muitos estavam a pregar o Evangelho por inveja e porfia, por contenção, não puramente, mas apenas para acrescentar aflição ao apóstolo em suas prisões (Fp.2:15-17). Certa feita, aliás, vimos e ouvimos um ministro afirmar que estava a pregar o Evangelho numa determinada localidade “por retaliação”! Que situação lamentável. Devemos sempre agir como Neemias, trabalhar para o Senhor Jesus para que se tenha “o bem dos filhos de Israel”.

    – Devidamente credenciado, com os materiais necessários, Neemias se apresentou aos governadores dalém do rio e depois se dirigiu a Jerusalém, tendo ali ficado incógnito e sem qualquer alarde por três dias (Ne.2:11).

    IV – NEEMIAS TOMA CONHECIMENTO DA SITUAÇÃO DE JERUSALÉM E CONVOCA O POVO PARA A OBRA

    – Neemias chegou a Jerusalém sem qualquer estardalhaço. Discreto, ciente de que era escolhido de Deus para aquela obra, não quis se apresentar como “o tal”, como o “restaurador”. Todo servo de Deus deve ter humildade e aguardar o momento certo em que o Senhor o apresentará na posição de liderança. Muitos, infelizmente, ainda que chamados por Deus para serem líderes, querem “aparecer”, querem se sobressair, cuidando para que seu “marketing pessoal” seja estabelecido o quanto antes, esquecendo-se que, na obra do Senhor, a propaganda não é a alma do negócio.

    – Neemias ficou três dias em silêncio após ter chegado a Jerusalém. Não nos diz o que fez neste período, mas podemos deduzir que tenha buscado a Deus, como era seu costume, bem como que revisitara todo o seu planejamento. Findos os três dias, de noite, levantou-se e, na companhia de poucos homens, sem declarar a ninguém o que Deus havia posto em seu coração para fazer em Jerusalém, saiu para ver “in loco” a situação (Ne.2:12).

    – Neemias dá-nos aqui preciosas liçõesde que como devemos agir na obra do Senhor. Por primeiro, não se pode ficar a alardear aquilo que recebemos em nossa intimidade com o Senhor. Neemias havia recebido de Deus uma incumbência e havia recebido esta incumbência, esta tarefa em sua busca particular de Deus quando ainda estava em Susã. Ora, aquilo que é fruto de nossa intimidade com Deus não deve ser propalado aos quatro cantos da Terra.

    – Temos de ter um relacionamento íntimo com o Senhor e este relacionamento deve se manter particular, entre nós e Deus. Neemias bem sabia o que devia fazer, mas não foi proclamando em alto e bom som quando chegou a Jerusalém. Ele não conhecia as pessoas, nem tampouco a cidade, por isso, antes que pudesse divulgar parte daquilo que o Senhor lhe dissera (pois nem tudo era para ser revelado), precisava “tomar pé da situação”.

    – Neemias tinha feito um planejamento em Susã, dentro daquilo que Deus pusera em seu coração, mas ainda não havia tido uma experiência seja com o povo seja com o próprio local em Jerusalém. Umlíder não pode ser apenas um teórico, alguém que trabalha única e exclusivamente com a sua mente e seu homem interior, mas precisa ter contato com a situação real e com o povo que irá liderar. Não é por outro motivo que a Bíblia denomina de “pastores” aos líderes do povo de Deus (Jr.2:8; 3:15; 10:21; 23:1; Ez.34:7-10; Ef.4:11; Hb.13:7,17). O pastor não tem apenas uma liderança mental e contemplativa, mas é necessário que ele “apascente as ovelhas”, ou seja, que se mantenha em constante contato com seus liderados, que as conheça particularmente, que conviva com elas.

    OBS: Um querido irmão que conosco acompanha as aulas do Estudo Preparatório dos Professores de EBD costuma dizer que ser pastor não é ser “almofadinha”, alguém que fica apenas em seu gabinete e que, com sua “malinha 007” passa sem nem sequer cumprimentar as pessoas que alega apascentar, como, infelizmente, temos visto muito por aí…

    – Neemias, então, precisava fazer um “levantamento de campo”, saber o real estado dos muros e das portas de Jerusalém, a fim de que, só então, com a devida verificação do seu planejamento, feito com as informações obtidas em Susã, pudesse revelar seus intentos ao povo de Jerusalém, povo que havia observado durante estes três dias.

    – Como é importante ouvir e observar antes de falar. Já vimos, na lição anterior, que Neemias era um bom ouvinte e, uma vez mais aqui, demonstra esta importante qualidade, indispensável para quem quer liderar. O líder não é aquele que manda, mas, sim, “aquele que leva os demais” a uma direção: “…a função do verdadeiro líder é identificar-se com o que está para fazê-lo cada vez melhor.(…). O líder não deve apenas estudar os assuntos que se lhe apresentam, mas vivê-los para com eles vibrar e poder falar a ponto de suscitar a inteligência em seus mais rudes liderados. Assim, a obra poderá ser vivenciada e desejada em seus corações…” (CARVALHO, Ailton Muniz de. Os dez mandamentos de um líder idôneo para o século XXI, p.18).

    – Neemias, então, na companhia de poucas pessoas, pessoas de sua mais estrita confiança, de noite, para que ninguém o visse, nem mesmo de animais, tendo apenas utilizado um para sua própria montaria, foi até os muros e portas de Jerusalém, para verificar o estado em que se encontravam.

    – É fundamental que, antes de iniciarmos a fazer a obra que o Senhor pôs em nosso coração, tenhamos um amplo conhecimento da situação que iremos enfrentar. Apesar de todas as informações que angariemos, é imperioso que nós mesmos vivenciemos a situação, para que, diante de nossa experiência, possamos bem realizar a tarefa que nos foi dada pelo Senhor. É certo que Deus, na Sua infinita misericórdia, sempre há de revelar aquilo que não formos capazes de descobrir, mas aquilo que pudermos levantar e experimentar, o Senhor não o fará por nós.

    – Saindo pela porta do vale, para a banda da fonte do dragão e para a ponta do monturo, Neemias contemplou os muros de Jerusalém e pôde verificar que estavam fendidos e que suas portas tinham sido consumidas pelo fogo (Ne.2:13). Interessante verificarmos que ele foi em direção à porta do monturo, ou seja, à porta do lixo (a Tradução Brasileira fala em “entrada do esterco”), certamente o lugar mais fétido e pior de toda aquela deplorável situação, numa demonstração de que, quando queremos conhecer a situação real, temos de ir ao pior lugar. Trata-se de uma verdadeira experiência, de uma real vivência da situação, não uma “amostragem” que busque tão somente uma “meia verificação” do que está a ocorrer.

    – Mas Neemias não ficou apenas na “porta do monturo”. Também foi até a porta da fonte e ao viveiro do rei, que eram, presumivelmente, lugares mais aprazíveis, lugar da água, onde se encontrava o “açude do rei” (como nos fala a Versão Almeida Revista e Atualizada). Não se pode fugir do pior ponto da situação para se conhecer a realidade, mas não se pode ficar apenas neste local, é preciso também ver os lugares melhores. É preciso ter uma visão global, total, não baseada em estimativas, mas em reais experiências.

    – Uma boa administração, um bom exercício de liderança não pode dispensar esta experiência da realidade. Se somos chamados por Deus a realizar uma tarefa, uma missão, não podemos nos precipitar. Temos de confiar em Deus e, sem medo de demorar, devemos calmamente, na direção do Senhor, “tomar pé da situação”. Quantos acham que, por terem sido mandados por Deus, podem tudo modificar e tudo mudar de uma hora para a outra. Tenhamos calma, amados irmãos! Sejamos prudentes. Antes é preciso “tomarmos pé da situação”, conhecermos a realidade que se nos apresenta, algo que o Senhor não fará por nós, pois nos dotou de conhecimento e inteligência para tanto. Lembremo-nos disto!

    – A porta da fonte e o viveiro do rei, que eram os “melhores” lugares daquela caótica situação, estavam em estado tão precário, tão ruim que não havia lugar por onde pudesse passar a cavalgadura que estava debaixo de Neemias. Observemos: o que seria o melhor lugar não tinha sequer espaço para que um animal ali passasse, tamanha era a presença de monturo e de ruínas no local.

    – Como não podia passar por ali, Neemias subiu pelo ribeiro e contemplou o muro, tendo, então, voltado e entrado pela porta do vale, a mesma porta por onde havia saído (Ne.2:15).

    – Neemias fez esta inspeção “in loco” sem qualquer comentário, sem abrir a sua boca. Não só os poucos homens que o acompanhavam não puderam saber o que estava a fazer e o que significava aquilo, como também não contou Neemias o que fizera a ninguém, nem aos magistrados, nem os nobres, nem aos judeus em geral (Ne.2:16). Neemias mantinha silêncio total, porque não era hora de falar, mas, sim, de ver e ouvir tudo quanto estava a ocorrer.

    – Voltamos a insistir na importância de deixarmos o falar para um momento subsequente do exercício da liderança. A situação era difícil e não devem ter sido poucas as manifestações de desânimo e de tristeza que Neemias observara naqueles três dias em que estava em Jerusalém. Mas o momento não era de falar e, sim, de ver e ouvir.

    – Salomão ensina-nos que “o homem de entendimento se cala” (Pv.11:12) e que “até o tolo, quando se cala, será reputado por sábio; e o que cerrar os seus lábios, por sábio” (Pv.17:28). Saibamos calar no momento necessário para isto, entre os quais se encontra o do planejamento e do conhecimento da situação real em que nos encontramos para dar início àquilo que Deus nos pôs em seu coração.

    Verificada a situação, devidamente reajustado o planejamento que havia sido feito anteriormente, ante a contemplação da realidade, Neemias, então, chamou os magistrados, os nobres, os judeus e os que faziam a obra para uma reunião. Notemos que Neemias chamou todos os interessados, sem fazer acepção de pessoas. Para que tivesse êxito, Neemias tinha de ter o consentimento de todos.

    – Em nossos dias, na Igreja, que é um corpo (I Co.12:12-27), muito mais do que Neemias, devemos todos buscar o consentimento e a participação de todos os interessados para que possamos bem realizar a obra de Deus. O fato é que, ultimamente, em nome de uma “teocracia”, tem-se alijado boa parte dos salvos das deliberações e das decisões, o que não é correto. Neemias tinha autorização da máxima autoridade daquele tempo para reedificar Jerusalém e estava na direção de Deus, que era quem o escolhera para a realização daquela grande obra, mas não ousou usar de sua “autoridade”, tendo preferido antes obter o consenso de todo o povo, sem o que, sabia ele, nada poderia ser realizado

    – Deus, apesar de ser o Criador de todas as coisas e Senhor de tudo (Sl.19:1), não é um ditador. Muito pelo contrário, tem prazer em compartilhar a existência com o homem e, por isso, convida o homem a esta parceria. Este gesto divino é a demonstração indelével do Seu amor para conosco e tem de ser, necessariamente, imitado pelos Seus servos. Por isso, uma das características da Igreja é a “perseverança na comunhão e no partir do pão”, ou seja, a mantença de uma vida de compartilhamento entre os irmãos, de colaboração mútua, de exercício do amor desinteressado.

    Neemias não impôs coisa alguma ao povo judeu, embora tivesse poder e autoridade, tanto da parte de Deus quanto da dos homens, para fazê-lo. Preferiu obter o apoio e a adesão dos judeus e, por isso, convocou esta reunião, onde, na presença de todos, desde os magistrados, passando pelos nobres, até os judeus em geral, fez uma análise da situação e conclamou o povo à obra.

    OBS: “…Um dos meios, e o mais apropriado para o líder conseguir esse objetivo, é promover reuniões producentes com os seus liderados. Essas reuniões dão a oportunidade aos subordinados de apresentar suas queixas e suas dificuldades, além de fazer sugestões e ouvir as opiniões de seus colegas, em relação aos problemas gerais enfrentados e resolvidos pelo grupo. Tem ainda a vantagem de colocar a liderança, democraticamente, diante de seus subordinados, para colocá-los a par dos planos emergentes da obra e integrá-los. Passarão, assim, a cooperar com convicção no projeto do superior, deixando de ser, apenas, cumpridores de ordens.…” (CARVALHO, Ailton Muniz de. op.cit., p.41).

    Neemias não “dourou a pílula”. Foi bem enfático: “bem vedes a miséria em que estamos” (Ne.2:17). Uma das características do líder é o de dizer necessariamente a verdade. Na obra de Deus, então, que é a própria Verdade (Jr.10:10), não há como sermos bem sucedidos se não falarmos e mostrarmos a verdade.

    – Neemias foi direto ao ponto: o povo judeu vivia um estado de miséria. Se não reconhecermos a nossa situação real, se não assumirmos a nossa integral e total dependência de Deus, jamais poderemos triunfar na obra do Senhor. Aliás, se não assumirmos a nossa maldade e depravação, nem sequer conseguiremos ser salvos. Não nos esqueçamos de que uma das poucas pessoas que saiu da presença de Cristo Jesus sem a salvação foi o mancebo de qualidade, precisamente porque ele se achava bom (Mt.19:16-22; Mc.10:17-22; Lc.18:18-23).

    – Hoje em dia, falta este “choque de realidade” na Igreja. Após termos completado o centenário das Assembleias de Deus, precisamos refletir a respeito do atual estado em que nos encontramos. Sem dúvida, devemos ser gratos a Deus pela extraordinária operação do Espírito Santo em nosso país durante estes cem anos, mas não podemos negar que estamos muito, mas muito distantes do fervor dos primeiros dias. Pesquisa recente indicou que, nos anos 1950, a proporção de crescimento da Igreja era de que um crente ganhava, em média, doze outros para Cristo, por ano, enquanto que, na atualidade, são necessários 144 crentes para ganhar um por ano em média em nosso país. Deixamos de crescer como antes e nosso crescimento tem sido pífio, como mostrou recente pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, que indica que, somados pentecostais e neopentecostais, tivemos, nos últimos dez anos, a mantença de 12% (doze por cento) da população, ou seja, pela primeira vez, não houve crescimento real dos pentecostais. Enquanto isso, o número de evangélicos que “não têm igreja” alcança 14% (quatorze por cento) dos evangélicos, um número estarrecedor, que indica como tem crescido a apostasia no meio do povo.

    – Ao mesmo tempo em que isto acontece, vemos rarear a manifestação dos dons do Espírito Santo em nossas igrejas locais, sem falar que muitos já não são batizados com o Espírito Santo. Enquanto isto, o ingresso do mundanismo em nossas igrejas é visível, além da subversão dos cultos a Deus, levando cada vez mais a um distanciamento de uma espiritualidade sadia em todos os segmentos da Igreja. Por fim, o “analfabetismo bíblico” é assustador, com o total desconhecimento das Escrituras por parte da esmagadora maioria dos crentes que, há muito, não frequentam reuniões de ensino nem Escolas Bíblicas Dominicais.

    – Diante de tal quadro, torna-se urgente que as lideranças façam como Neemias, parem de ficar se digladiando por posições seja na igreja local, seja na sociedade e, bnuscando a direção do Senhor, contemplem a realidade que está a lhes escapar dos olhos e, depois de devidamente orientados pelo Espírito Santo e terem “tomado pé da situação”, venham ao encontro do povo e os reúna para que, juntos, saiamos desta situação de miséria espiritual em que estamos nos envolvendo. Não temos muito tempo, amados irmãos!

    OBS: “…A pergunta que vem agora é: Por que os evangélicos perderam o fôlego? Parafraseando o apóstolo Paulo: Corríeis tão bem, quem vos impediu de continuar a carreira no mesmo ritmo? Isso mesmo: o que aconteceu para uma queda de 40% – de 98 para 40%? Tendo dito isto, gostaria de fazer uma análise do que está acontecendo nesses últimos nove anos com a Igreja Evangélica. Direto ao ponto: O Evangelho da ‘prosperidade’, a novidade introduzida pelas Igrejas Neo-pentecostais na década de 1991-2000 perdeu o encanto e se revelou descartável. A inovação eficiente nos anos 90 trouxe um componente estranho para os primeiros nove anos do nosso século: as pessoas perderam o entusiasmo por ele e aguardam uma outra novidade que agrade aos seus ouvidos. Para mim, o Espírito Santo foi trocado pela “novidade” dos anos 90, mas a energia daquela “prosperidade” minguou, assim como o azeite das lamparinas da Parábola das dez virgens, do Evangelho. Como bem criticou alguns blogueiros da comunidade, a quantidade não trouxe qualidade. Para não ser prolixo, vou concluir. O método que Jesus Cristo usou há 2000 anos ainda se mostra o mais eficiente para nortear a Igreja. Quando ele concluiu seu ministério, estima-se que tivesse 500 discípulos. Discipulado. A TV mostra-se eficiente para evangelizar, mas ela tem um ponto falho: não produz discipulado! Não, porque trata-se de um veículo de entretenimento descartável na sua essência. E, discipulado significa um novo convertido aprendendo com um cristão maduro – em comunhão com o Espírito Santo. Para por isto em prática não é necessário um mega-projeto nem recursos financeiros astronômicos, basta implantar em cada Igreja a volta do discipulado. Ainda não inventaram nada melhor para a prosperidade da Igreja.…” (CRUZUÉ, João. Projeções da população evangélica para 2010. Disponível em: http://olharcristao.blogspot.com/2011/02/projecoes-da-populacao-evangelica-para.html Acesso em 25 ago. 2011).

    – Neemias disse que Jerusalém estava assolada e suas portas queimadas a fogo. Bem mostrou, pois, o quadro de caos que vigorava, mas não se limitou a dar o correto diagnóstico da situação. Muitos até se saem bem quando o assunto é falar da situação real. Bem investigam (como deve fazer todo justo, pois quem não investiga é o ímpio – Sl.10:4), mas se limitam a dar a imagem do caos. Neemias, porém, não viera para desanimar ou simplesmente engrossar o lamento dos judeus. Após ter falado francamente a respeito da situação, traz a mensagem de esperança: “vinde, pois, reedifiquemos o muro de Jerusalém e não estejamos mais em opróbrio” (Ne.2:17).

    Neemias, então, revela parte do que Deus havia posto em seu coração e convida o povo a se juntar a ele para reedificar o muro de Jerusalém e mudar a situação de opróbrio que estavam a viver. Notemos que Neemias usa apropriadamente a primeira pessoa do plural: “reedifiquemos” e “não estejamos em opróbrio”. Neemias não veio dar ordens, mas chamar o povo para que, com ele, mudasse a situação. Neemias põe-se, desde já, como um dos envolvidos na obra que era proposta, o que, certamente, representou uma surpresa e um nítido incentivo para os judeus, pois, afinal de contas, Neemias, que nem sequer morava ou conhecia Jerusalém, tudo deixara em Susã para se irmanar com os seus compatriotas.

    – É muito fácil dar ordens, ainda mais quando autorizado por quem de direito, como é o caso de Neemias. Mas o homem de Deus não deve estar disposto a simplesmente mandar fazer, mas a convidar os demais a que venham fazer juntamente com ele. Temos de ser imitadores de Cristo (I Co.11:1) e, como tal, temos de também trabalhar, pois foi assim que procedeu o Senhor Jesus (Jo.5:17). Temos agido desta maneira?

    – Após ter se identificado com todos os judeus, Neemias, então, dá o seu testemunho diante do povo, mostrando que ali estava não por vontade própria, mas por determinação divina (Ne.2:18). É necessário que o líder dê o seu testemunho de chamada, que mostre aos que estão à sua volta que é o escolhido para estar à frente do povo (e isto que significa “presidir”, ou seja, “estar à frente”), mas tal declaração, sabiamente, foi feita por Neemias depois que tinha já tomado conhecimento da situação real, tanto do povo quanto da cidade desolada.

    – Esta declaração foi feita a todo o povo, pois Neemias reconhecia que estava diante do povo de Deus, do povo tão amado pelo Senhor que o trouxera de Susã para a realização daquela obra. Também devemos, enquanto líderes, falar aos nossos liderados em conjunto, pois, se fomos chamados por Deus, não podemos nos esquecer que o mesmo Espírito Santo que habita em nós, também habita naqueles que serão liderados. Não pode haver “segredos” quanto a este assunto, pois o Espírito hoje habita em todos os salvos. Por isso, duvidemos daqueles que respaldam sua liderança em “visões”, “revelações” que são inalcançáveis aos demais crentes.

    Neemias, apesar de se apresentar como chamado pelo Senhor para esta obra, não tirou a devida glória ao Senhor. Disse que o Senhor lhe fora favorável, reconhecendo que dependia de Deus para a execução daquela tarefa. Neemias era o líder chamado por Deus, mas não se portava como um “super-homem”, pois, efetivamente, não o era. O líder está à frente do povo, mas não está acima do povo, pois acima do povo só pode estar um: o Senhor.

    – Além de se apresentar como chamado por Deus, Neemias também teve a preocupação de mostrar ao povo que ali estava com expressa autorização do rei Artaxerxes. Neemias, em momento algum, queria dar a mínima suspeita de rebelião ao domínio persa. Tinha consciência de que o Senhor havia posto o povo debaixo do jugo da Pérsia e que não havia qualquer demonstração, da parte do Senhor, de alterar esta situação política. Por isso, bem disse para o que tinha vindo: reedificar os muros de Jerusalém e tirar o povo judeu daquela miséria. Era isto e nada mais! Jamais percamos o foco da chamada que Deus nos deu e da tarefa que deveremos desempenhar junto com os demais irmãos.

    O povo judeu reconheceu a integridade e a coragem daquele homem e, a uma só voz, animou-se e aderiu ao projeto: “Levantemo-nos e ediquemos”. Não temos porque, diante do chamado do Senhor, acharmos que não seremos correspondidos pelos autênticos e genuínos servos de Cristo Jesus. Se fomos chamados, o mesmo Espírito que nos chamou também irá agir naqueles que serão os liderados e todos, juntos, faremos a obra do Senhor.

    – Neemias, em sua fala, também demonstrou que estava a querer o bem dos filhos de Israel, como já havia mencionado quando comparecera diante dos governadores dalém do rio e que motivou o desagrado de Sambalate e de Tobias. Sabemos disto porque o texto sagrado nos fala que os judeus “esforçaram as suas mãos para o bem” (Ne.2:18 “in fine”).

    – É fundamental que o líder mostre, com objetividade e transparência, quais os objetivos que pretende na realização da obra que irá fazer. Esta clareza e transparência é fundamental para que haja a união de esforços e a obra se realize. Onde há união, ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre (Sl.133:3) e não há como se obter esta união de forma duradoura sem que se saiba precisamente qual a finalidade que se busca alcançar.

    – O próprio Jesus, diz-nos a Bíblia, tudo suportou pelo gozo que Lhe estava proposto (Hb.12:2). Também os crentes tudo suportam nesta vida de aflições porque sabem que lhes está reservada uma glória que não dá para comparar com as aflições do tempo presente (Rm.8:18). Se assim vive o salvo, como podemos ter a sua colaboração sem que ele tenha consciência dos objetivos que se pretendem atingir?

    – Todos resolveram aderir à proposta de Neemias, porque sabiam que aquele esforço era “para o bem”. Também, neste mundo, nós, como servos do Senhor Jesus, devemos, como Ele, “andar fazendo bem” (At.10:38). Devemos deixar bem claro a todos que nos cercam que nosso esforço é “para o bem”, sem qualquer outro interesse. Temos agido desta maneira?

    – Observemos, ainda, que este bem, ainda que querido por Deus, que, inclusive, criara todas as condições para que a obra fosse possível, dependia do esforço de todos. Bem ao contrário do que dizem os triunfalistas e os teólogos da prosperidade, nada viria “de mão beijada” para o povo judeu. Eles teriam de se esforçar, de fazer aquela grandiosa obra. Deus não estava pronto a num passe imediato fazer os muros de Jerusalém se levantarem, assim como haviam caído os muros de Jericó. Não nos iludamos, amados irmãos: Deus não é nosso empregado, não é nosso serviçal. Ele faz o que ninguém poderia fazer (como capacitar alguém como Neemias e tirá-lo de Susã para liderar o povo em Jerusalém), mas não faz aquilo que podemos fazer (reedificar os muros e as portas de Jerusalém).

    – Assim que todos se comprometeram a reedificar os muros de Jerusalém e a mudar a situação de miséria do povo, não demorou muito para que os inimigos se levantassem.

    – É sempre assim, como já tivemos ocasião de dizer neste estudo. Tendo sabido do comprometimento do povo, ainda que só por informações, Sambalate, Tobias e Gesem, o arábio (percebem como já aumentou o número de inimigos, de dois passamos para três), zombaram dos judeus e os desprezaram, acusando-os de querer rebelar-se contra o rei da Pérsia (Ne.2:19).

    – Não nos deteremos aqui na atuação dos inimigos de Neemias, pois analisaremos minudentemente esta oposição em duas lições (lições 4 e 5), mas, desde já, podemos verificar que a oposição do inimigo não tarda quando há disposição do povo de Deus para realizar uma obra querida pelo Senhor. Não podemos, portanto, nos assustar e nos intimidar quando vêm as zombarias, os desprezos e as calúnias do adversário de nossas almas.

    Nossa reação deve ser a mesma de Neemias que, sem se importar com a oposição, deu testemunho de que “o Deus dos céus é que nos fará prosperar” e que os judeus, que eram servos do Senhor, se levantariam e edificariam Jerusalém uma vez mais (Ne.2:20).

    – Além disto, Neemias foi bem claro ao mandar dizer aos inimigos que “eles não tinham parte, nem justiça, nem memória em Jerusalém”. Neemias continuou sendo fiel à verdade e não teve preocupação alguma em agradar aos homens. Aqueles homens eram de nações inimigas de Israel, não queriam o seu bem, nunca o tinham querido e, inclusive, tinham prazer em contemplar a situação deplorável em que se encontrava o povo judeu. Por isso, não tinham “parte, nem justiça, nem memória em Jerusalém” e, desta maneira, não poderiam cooperar com aquela obra.

    Precisamos ter o mesmo discernimento de Neemias. A obra que ele haveria de realizar é “para o bem dos filhos de Israel” e, deste modo, somente poderia contar com a colaboração e participação dos filhos de Israel. Era uma obra que Deus estava a fazer com o Seu povo e, portanto, não podia, de forma alguma, ter a participação de quem não pertencia ao povo de Deus.

    – Precisamos ter esta compreensão quando começamos a realizar a obra de Deus. Nela não tem parte, nem justiça nem memória aqueles que não pertencem ao povo do Senhor. Quanto prejuízo temos causado ao Senhor quando permitimos que inimigos de Deus venham a cerrar fileira ao nosso lado? Não nos esqueçamos dos malefícios causados pelo “vulgo”, pela “mistura de gente” que saiu do Egito juntamente com Israel (Ex.12:38; Nm.11:4), bem como os povos que habitavam em Canaã e que foram poupados pelos israelitas na conquista da terra (Jz.2:3).

    – Neemias não os amaldiçoou, nem tampouco lhes declarou guerra, mas simplesmente disse que aquela obra era uma obra exclusiva para o povo de Deus. Que assim também procedamos para que tudo seja feito conforme a vontade do Senhor

     

    Ev. Profº Dr. Caramuru Afonso Francisco

     

     

     

  • Lição 4 – João Batista, um homem resignado

    Lição 4 – João Batista, um homem resignado

    Joao batista

    Texto Áureo

    “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; mas aquele que é o menor no Reino dos céus é maior do que ele”. Mt 1.11

    Verdade Aplicada

    João Batista é um gigante da fé que se resignou para preparar o caminho daquele que viria depois dele.

    Esboço

    1. Caracterização Geral
    2. Família e Começo de Vida
    3. Fontes Informativas
    4. Ministério e Mensagem de João Batista
    5. Elias Redivivo
    6. João Batista e Jesus
    7. Seguidores de João Batista
    8. Morte de João Batista

    Bibliografia

    1. Caracterização Geral

    a. O Precursor. João, filho de Zacarias (que era sacerdote) e de Isabel (igualmente de ascendência sacerdotal), foi o precursor de Jesus, o Cristo. As datas de seu nascimento e da inauguração de seu ministério público não podem ser determinadas com precisão. As sugestões variam de 8 a 4 A.C., quanto ao seu nascimento, e de 26 a 28 D.C., quanto ao início de seu ministério público. Lucas informa-nos que João Batista nasceu quando seus pais eram ambos de avançada idade. No evangelho de Lucas temos a bela visão de Zacarias, que mostrou que João seria um vaso especial para servir ao Senhor. Ele nasceu na região montanhosa da Judéia, – onde também passou os primeiros anos de sua vida. Isabel, sua mãe, era parenta (talvez prima) de Maria, mãe de Jesus. João vivia como um asceta, segundo se vê em Mat. 3:4. Vestia-se de maneira similar à de Elias (11 Reis 1:18).

    Alguns estudiosos pensam que João Batista era: a reencarnação de Elias; mas outros, mais acertadamente, dizem que ele meramente cumpriu um ministério como o de Elias. Ou alguém que ministrava no poder e espírito de Elias. João Batista era uma voz no deserto, que conclamava os homens ao  arrependimento, para que eles se voltassem para o Cristo, o Cordeiro de Deus (João 1:23,29). Foi o Batista quem preparou o núcleo inicial dos discípulos de Jesus, os quais, finalmente, se tornaram seus seguidores, quando chegou o tempo aprazado para isso.

    b. A Mensagem de João Batista. Essa mensagem tinha como ênfase principal a necessidade de arrependimento, a breve inauguração do Reino de Deus à face da terra, e o iminente aparecimento do Messias, que haveria de julgar, purificar e unificar o povo de Deus. João Batista identificou Jesus como o Messias prometido, embora pareça ter hesitado quanto a essa identificação, pelo menos durante algum tempo, quando, sofrendo no cárcere, e sob forte desapontamento, chegou a duvidar (Mar. 11:3).

    c. O Batismo de Jesus por João. Entre os que vieram receber o batismo de João, achava-se o próprio Jesus, que quis assim identificar-se com o grupo separado daqueles que buscavam fervorosamente o reino de Deus . Foi nessa oportunidade que João declarou enfaticamente que Jesus era o Messias. Ver Mat. 3: 13-15.

    d. Um Extenso Ministério. Sabemos que o ministério de João Batista não se confinou ao vale do Jordão, O trecho de João 3:23 mostra-nos que ele deixou aquele local e, por algum tempo, pregou batismo de arrependimento em Enom, perto de Salim, onde havia muita água para imergir os penitentes. W.F. Albright (The Archeology of Palestina) diz que esse lugar ficava a sudeste de Nablus, perto das cabeceiras do wadi Far’ah, em território samaritano. Depois disso, João retornou ao território governado por Herodes Ântipas, provavelmente a Peréia. Acabou despertando a hostilidade de Herodes Ântipas, e mais ainda de sua segunda esposa, Herodias, ao denunciar que o casamento deles era ilícito, porquanto ela era esposa de um irmão dele. Por esse motivo, João foi encarcerado na fortaleza de Maquero, na Peréia; e, poucos meses mais tarde, foi executado. Ver Mat. 14:1-12 quanto a essa narrativa.

    e. João Batista e os Essênios. Os eruditos comumente têm-feito a ligação entre João Batista e os essênios. Os seus hábitos ascéticos e os locais onde ele costumava pregar, perto de onde os membros daquela seita se localizavam, bem como as afinidades entre João Batista e os manuscritos do mar Morto, encontrados em Qumran, chegam quase a confirmar essa pura especulação. Um grupo de ascetas essênios residia na margem noroeste do mar Morto; e tanto João Batista como os membros dessa seita residiam no deserto da Judéia; ambos tinham um caráter nitidamente sacerdotal; ambos davam ênfase ao batismo em água como sinal de purificação interna; ambos ensinavam um iminente juizo divino; ambos apelavam para Isaias 40:3 como a autoridade para suas missões. Os eruditos, pois, até hoje continuam a debater essa possível conexão entre o Batista e os essênios. Mas, se porventura João em algum tempo fez parte do grupo, então é certo que ele ultrapassou em muito as limitações do ..,grupo e tornou-se líder de um movimento distinto. E mesmo possível que, bem antes de iniciar- seu ministério, o Batista tivesse tido ligações com eles; o fato, porém, é que o movimento de João Batista nada tinha a ver com os essênios. Em Qumran, o batismo era um rito de iniciação; mas João universalizou a imersão, tornando o sinal daquele movimento que em breve acolheria ao Messias. A mensagem do Batista dirigia-se à nação inteira de Israel. Ele não falava em nenhuma seita separatista e exclusivista. O batismo de João tornou-se uma espécie de ato escatológico, a declaração em favor da crença em um apocalipse que em breve se manifestaria.

    f. João, o Imersor, Tanto o Novo Testamento (no grego), quanto Josefo, chamam João Batista por esse nome. A imersão em água era um elemento essencial e básico em seu ministério. Essa imersão ou batismo era o sinal de arrependimento e de aceitação da mensagem de João como precursor do Messias. Preparava as pessoas para um discipulado sério e especial. Ver Josefo (Anti. 18.5,2).

    g.O Movimento de João Batista. João era homem dotado de grande poder e influência. Os evangelhos acharam por bem mostrar que ele mesmo não era o Messias, e que ele não tinha quaisquer ambições messiânicas. Ver João 1:19-28. E o trecho de Atos 18:25 mostra-nos que o movimento de João Batista teve prosseguimento mesmo após a formação da Igreja cristã. Ver também Atos 19:1-7. A obra intitulada Reconhecimentos Clementinos sugere que o movimento continuou e que chegou a entrar em conflito com grupos cristãos. Alguns estudiosos têmafirmado que a comunidade dos mandeanos  que até hoje sobrevive, teve suas origens nomovimento de João Batista; porém, nada de certo se pode afirmar quanto a esse respeito.

    h. Reconhecimentos Clementinos, Entre a literatura que alegadamente procedeu da pena de Clemente de Roma (embora isso não seja verdade), temos as Homilias que, presumivelmente, preservam os ensinos e os sermões de Clemente de Roma. Também existem dez livros chamados Reconhecimentos Clementinos. Esses volumes, alegadamente, oferecem-nos informes históricos associados a Clemente, com grande abundância de ensinamentos. Entretanto, ambas  essas obras parecem mais ter-se originado entre os gnósticos judeus, datando de algum periodo da porção final do século li D.C. Mas, embora esse material não seja genuinamente clementino, não há razão alguma para duvidarmos que contém alguns informes históricos genuínos, como aquele que diz que o movimento gerado por João Batista continuou até o fim do século II D.C.

    2. Família e Começo de Vida

    João Batista era filho do sacerdote Zacarias, que pertencia ao turno de Abias (I Cr(J. 24:10). Sua mãe, Isabel, também era de familia sacerdotal, pois é até chamada de «das filhas de Arão» (Luc. 1:5). Seu nascimento foi miraculoso, visto que ambos os seus pais eram de idade avançada. Ele nasceu na região montanhosa da Judéia. Maria, mãe de Jesus, foi visitar Isabel, e permaneceu com ela por cerca de três meses. Ver Luc. 1:56. Elas eram parentas (Luc. 1:36).

    Alguns estudiosos pensam que elas eram «primas», conforme a palavra grega correspondente é traduzida; mas outros preferem pensar que o termo grego sungenes não demarca nenhum grau especifico de parentesco, e que pode ser melhor traduzido por «parenta». Esse termo grego é tão indefinido que pode até significar «compatriota». Ver Josefo (Guerras 7.262; Anti. 12.338). Talvez Jesus e João Batista fossem primos em algum grau desconhecido. Praticamente

    nada sabemos acerca da vida de João Batista, antes dele dar inicio a seu ministério público.

    Sabemos somente que ele residia na região montanhosa da Judéia, embora a cidade onde ele residia não seja mencionada nas páginas do Novo Testamento. É evidente que ele vivia sob o voto dos nazireus (vide), permitindo que seus cabelos crescessem e não aparando os cantos da barba. Evitava todo vinho e toda bebida alcoólica, e vivia como asceta. Por isso mesmo, alguns eruditos têm pensado que, pelo menos em algum tempo, antes de iniciar seu ministério. ele

    se tenha associado com os essênios, que habitavam em comunidades separadas, no deserto. Porêm, não há provas conclusivas quanto a essa especulação. O trecho de Lucas 1:80 meramente diz-nos que João cresceu e se tornou forte, habitando no deserto, até o tempo de sua manifestação a Israel.

    3. Fontes  Informativas

    Nossas fontes informativas sobre a vida de João Batista são os quatro evangelhos e algumas poucas citações das obras de Josefo. Há outras alusões, nos ensinos mandeanos e no Josefo Eslavônico. Porém, os informes ali contidos, de acordo com os estudiosos, revestem-se de pouco valor histórico.

    4. Ministério e Mensagem de João Batista

    a. O Precursor de Cristo. A vida de João Batista visava a preencher um propósito todo especial, ou seja, o de ser o precursor do Messias. Tal como se dá no caso do próprio Senhor Jesus, pouco se sabe acerca. do período de preparação de João Batista. João Batista deu inicio ao seu ministério público poucos meses antes do Senhor Jesus iniciar seu próprio ministério. Tal como se deu com o Filho de Deus, João Batista dispunha de curtíssimo prazo para cumprir o seu ministério. Josefo afiança que João Batista era pessoa dotada de grande magnetismo pessoal e força de atração. A vida dele foi como Um brilhante meteoro que apareceu subitamente, brilhou durante um breve período, e desapareceu. Alguns chegaram a pensar que ele seria o Messias prometido, e o primeiro capítulo do evangelho de João cuida em mostrar que essa opinião estava equivocada, porquanto João Batista mesmo nunca fizera tal reivindicação. Todavia, a vida de João Batista foi de tal modo poderosa que outros identificaram-no com Elias. E, em certo sentido, estavam com a razão. Foi o próprio Senhor Jesus quem declarou: «E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir» (Mat. 11:14).

    b. João Batista Foi uma Figura Profética. Ele se assemelhava aos profetas do Antigo Testamento, sobretudo com Elias (ver Mat. 5:4 com 11 Reis 1:8 e Zac. 13:4). Os autores do Novo Testamento ensinaram que ele cumpriu a profecia de Isa. 40:3 (ver Mat. 3:3; 17:10-12; ver também Mal. 3:1 e 4:5).

    Como um homem do destino, João Batista coube dentro dos tempos do cumprimento de promessas messiânicas e, durante um tempo breve mas crucial realizou o seu ministério terreno. Embora fosse grande, do ponto de vista espiritual, é deveras significativo que Jesus tenha afirmado que o menor no Reino de Deus será maior do que ele (Mat. 11:11). Isso nos revela algo sobre a grandiosidade espiritual que o Reino de Deus haverá de trazer.

    c. Um Profeta Asceta. João pode ter vivido ou não sob os votos do nazireado . Seja como for, ele vivia de modo extremamente ascético, vestido, como Elias, com pêlos de camelo e comendo gafanhotos e mel silvestre, e falando acerca de acontecimentos apocalípticos e sobre a necessidade dos homens se arrependerem. Tudo, em João Batista, fazia lembrar Elias. e as multidões vinham ouvi-lo.

    d. Retirada e Reforma. Embora, a exemplo dos essênios, João Batista se tivesse retirado do convívio social, de forma alguma ele se distanciou da sociedade de seus dias. Sua missão consistia em anunciar as condições, àquela sociedade, mediante as quais os homens de então deveriam acolher o Messias e o seu reino. O Batista engolfou Samaria em seu ministério (João 3:23). Se é que João Batista começou entre os essênios (um ponto muito disputado), então, por certo, ele não se limitou a essa «denominação», visto que a sua mensagem profética era universal, e ele não pregava a uma claque fechada, conforme faziam os essênios.

    e. O Messias Anunciado por João Batista. O Novo Testamento deixa claro que João Batista esperava que o Messias estabelecesse o seu reino, pela força, se necessário, e que isso constituiria um acontecimento apocalíptico. De fato, João referia-se a esse advento com termos idênticos àqueles em que os pregadores modernos aludem ao Segundo Advento de Cristo. O Novo Testamento não tenta esconder que o Batista, em certa medida, ficou desapontado diante do modo como Jesus se apresentou publicamente. Jesus não reuniu algum exército, nem se mostrou militante. Ao que parecia, não foi ao menos capaz de proteger o seu homem-chave, ou seja, ao próprio João Batista. Os adversários de Jesus pareciam estar ganhando todas as vitórias. Verdadeiramente, do ângulo de João, as coisas não estavam avançando nada bem. Foi por essa razão que ele enviou mensageiros a Jesus, para que indagassem se ele era, veramente, o Messias, Aquele pelo qual ele, João Batista estava esperando. Ver Mat. f 1:2 ss . João ouvia falar sobre os grandes prodígios de Jesus; mas ali estava ele mesmo, no cárcere. Como poderia ser isso?

    A resposta de Jesus… dificilmente  poderia tê-lo satisfeito. Jesus não foi capaz de anunciar qualquer progresso na revolução! Não tinha reunido nenhum exército; não obtivera qualquer poder político; não havia um numeroso grupo de seguidores dispostos a combater por ele. Tudo quanto Jesus pôde dizer é que os cegos estavam recebendo de volta a visão, que os aleijados estavam andando novamente, que os leprosos estavam sendo purificados, que os surdos estavam ouvindo, que os mortos estavam sendo ressuscitados dos mortos, e que aos pobres estava sendo anunciado o evangelho. Dificilmente esse era o Messias pelo qual João estava esperando! Ou, pelo menos, muitos pensam assim a respeito de João. Não obstante, naquela mesma ocasião, Jesus afirmou que João estava cumprindo a predição de Mal. 3:1: «Eis que eu envio o meu mensageiro que preparará o caminho diante de mim… » Sim, o caminho fora preparado por João; mas o caminho não parecia ser aquele pelo qual João esperava. Não é que o Batista tivesse perdido a fé em sua missão, mas ficou muito desanimado, indagando se Jesus realmente cumpria os requisitos da missão messiânica. Os profetas do Antigo Testamento não sabiam separar a primeira da segunda vindas de Cristo. Pedro alude a isso em I Pedro 1: 11: «•• .investigando atentamente qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias que os seguiriam». Eles não entendiam que, na primeira vinda haveria os «sofrimentos» de Cristo, e que só em sua segunda vinda haverá as «glórias». Esse era o motivo da perplexidade de João Batista.

    f. O Mistério da Cegueira de Israel. Paulo falou, profundamente admirado, sobre essa cegueira, em Rom. 11:2S ss. Ele explicou que a cegueira de Israel era uma necessidade, a fim de que o evangelho pudesse ser anunciado às nações gentílicas também, para que houvesse uma Igreja formada por judeus e gentios, igualmente. Mas, chegado o tempo certo, e removido o véu que agora tapa os olhos do povo judeu, eles haverão de reconhecer que o Senhor Jesus é o Messias prometido. Não obstante, Israel é responsável pelos seus atos. O poder predestinador do Senhor usa a vontade humana sem destrui-la, embora não saibamos precisar como. O décimo primeiro capítulo de Mateus mostra como a mensagem de João Batista e de Jesus caíram em ouvidos surdos, como eles tocaram para o povo, mas eles não dançaram; como eles lamentaram, mas o povo não chorou. João veio como um asceta; mas Jesus, ao contrário, não era asceta. Todavia, nem João Batista e nem Jesus tinham sido devidamente ouvidos. O povo judeu permaneceu na indiferença (Mat, 11:16-19). Nem mesmo os poderosos prodígios de Jesus levaram o povo judeu a arrepender-se (vs, 20 ss). No entanto, um pequeno remanescente acreditou, mediante o poder de Deus; e a esses foram revelados os mistérios do reino de Deus (vs. 25 ss). Ê significativo que dentre esse contexto de rejeição, emergiu aquele belo convite de Jesus, por tantas vezes citado: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. (Mateus 11:28,29).

    g. O Batismo de João. Sem dúvida a imersão aplicada por João Batista era muito mais que algum rito de iniciação, a fim de que membros fossem aceitos em alguma seita (como era o caso entre os essênios), Antes, era um sinal de conversão a Deus, um sinal requerido de que uma pessoa havia abandonado seus antigos caminhos pecaminosos, em preparação .para acolher ao Messias e ao seu reino. Todavia, o batismo de João não era um batismo cristão, com todo o seu simbolismo e significado. Para tanto, era mister que Jesus morresse e ressuscitasse. Mas, à semelhança do batismo cristão, apontava para o arrependimento, a renovação espiritual e a resolução de viver a vida de um piedoso discípulo da retidão. Também havia um intuito messiânico, pelo que estava aliado bem de perto com a fé cristã, que em breve Jesus haveria de trazer. Supomos que aqueles que foram batizados por João, ao se unirem ao movimento cristão, não eram rebatizados. No entanto, houve casos de pessoas, inteiramente ignorantes sobre Cristo e suas reivindicações, que, embora tivessem sido discípulos de João Batista, mais tarde foram novamente batizadas (ver Atos 19:1 ss). Os judeus costumavam batizar os gentios que se convertessem ao judaísmo, imergindo-Ihes totalmente o corpo, o que representava uma completa purificação. Não há que duvidar que esse precedente foi o que determinou o espírito e o modo da imersão aplicada pelo Batista. O evangelho de João destaca o ponto que .João batizava em Enom, perto de Salim. porque ali . havia muita água. Teria sido inteiramente fora de ordem, do ponto de vista dos judeus, se João se pusesse à beira de um rio, com algum candidato ao batismo, para então apanhar uma pequena quantidade de água e a derramar sobre a cabeça do candidato. Isso não seria imersão, mas aspersão.

    A seita de Qumnm (ver Sobre Khlrbet Qamran) praticava um batismo de arrependimento que assinalava os novos convertidos ao seu grupo, permitindo-lhes o ingresso na seita. Porém, isso era meramente uma adaptação da imersão de prosélitos ao judaísmo. O Manual de Disciplina, em seu quinto capítulo, descreve o batismo praticado entre os essênios. Se João Batista estivera, em algum tempo, associado aos essênios, então, naturalmente, teria continuado a prática de batismo, mas o batismo dos essênios não era o verdadeiro precedente de seu batismo, que ia buscar raízes ainda mais longe na história do povo judeu.

    5.Elias Redivivo

    Era doutrina comum entre os judeus do começo do cristianismo que grandes personagens proféticas do Antigo Testamento, teriam mais de uma missão espiritual terrena. Muitos rabinos pensavam que Jeremias fosse a reencarnação de Moisés. E eles esperavam que Elias voltasse a viver como o precursor do Messias. E do próprio Senhor Jesus chegaram a pensar que ele fosse Jeremias ou algum dos antigos profetas. Ver Mat. 16:14. E os discípulos de Jesus tinham consciência da tradição, promovida pelos fariseus, de que Elias deveria retomar à vida, antes da carreira do Messias, envolvendo-se no drama de sua aparição (Mat. 17:10 ss). Jesus, chegado o momento certo, ensinou que Elias já viera a este mundo, na pessoa de João Batista. Alguns intérpretes crêem que João Batista foi uma autêntica reencarnação de Elias; mas outros crêem que o Batista cumpriu o espirito daquela profecia, mas que ele não era o próprio Elias. João Batista declarou que ele mesmo não e-ra Elias (João 1:21). Porém, aqueles que acreditam que João Batista era. realmente, a reencarnação de Elias, salientam que a pessoa reencarnada (com algumas notáveis exceções) usualmente não tem consciência de sua anterior identidade (ou identidades). Eu mesmo não penso que podemos eliminar essa possibilidade sobre bases dogmáticas. Pois o próprio Novo Testamento ensina casos especiais de. reencarnação, com vistas a missões terrenas especiais. As duas testemunhas do Apocalipse (cap, 11) aparecem como quem já tinha outras histórias terrenas. – O anticristo, segundo se lê em Apo. 17:8,11, haverá de subir do hades a fim de cumprir ainda uma outra missão diabólica. Os cristãos antigos pensavam que o anticristo seria Nero redivivo. E muitos crentes ensinam, até hoje, que Elias terá uma outra missão na terra, antes do segundo advento de Cristo.

    João foi cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento (Luc. 1:15).

    Os autores neotestamentários também fazem de João uma figura profética, especificamente como o precursor do Messias. Ê muito significativo, e sem dúvida autêntico, que João, de certa feita, em um momento de desencorajamento, em seu cárcere, duvidou que Jesus teria cumprido os requisitos da missão messiânica, pela qual ele vinha procurando (Mat. 11:2 ss). Porém, não há razão alguma para supormos daí que nunca houve qualquer reversão nessa dúvida de João. Todos nós experimentamos instantes de dúvida e desencorajamento; e João Batista, afinal de contas, era apenas um homem. Seja como for, é significativo que João Batista e Jesus efetuaram ministérios paralelos, embora distintamente separados. Nunca houve uma completa unificação dos dois esforços, mesmo depois que o cristianismo já estava bem firmado. Porém, sabemos, com base nos registros históricos, que muitos seguidores de João Batista bandearam-se para Jesus, e que o próprio João encorajou isso. Tanto Jesus quanto João reivindicavam autoridade divina para suas respectivas missões, e afirmavam outro tanto um acerca do outro (Mat. 21:23-27).

    6. João Batista e Jesus

    Sabe-se que alguns dos primeiros discipulos de Jesus vieram do círculo dos discípulos do Batista (João 1:35 ss), embora o movimento resultante da missão de João Batista tivesse continuado por muito tempo depois dos primórdios do cristianismo. Alguns estudiosos crêem que tanto João Batista quanto Jesus
    estiveram ligados aos essênios, pelo que teriam conexão e amizade antes do ministério público de um e de outro. Como primos em algum grau. também
    pode ter havido alguma forma de contato doméstico social entre eles, antes de iniciarem seus respectivos ministérios públicos. A história tem ocultado essas
    coisas de nós;

    7. Seguidores de João Batista

    a.. João tinha seguidores que formavam um movimento espiritual crescente, antes mesmo do começo do ministério público de Jesus. O primeiro capítulo do evangelho de João mostra-nos isso.

    b. Quando Jesus iniciou o seu ministério público, pelo menos alguns dos principais discípulos de João vieram engrossar o movimento encabeçado por Jesus (João 1:35 ss).

    c. O movimento liderado por João continuou, paralelo ao de Jesus, havendo pontos de contato entre os dois movimentos (Mat. 11:2 ss).

    d. O movimento de João Batista continuou atuante, mesmo depois da morte dele, e entrou até bem dentro da era apostólica. Apolo fora discípulo de João Batista (Atos 18:24 ss). Outros discípulos de João converteram-se ao cristianismo, e assim uniram-se à Igreja primitiva (Atos 19:1-7).

    e. Os Reconhecimentos Clementinos (fim do século 11 D.e.) dão provas de algum conflito entre os posteriores seguidores de João Batista e o cristianismo. Todavia, que certeza se ‘poderia ter se as pessoas que continuaram o movimento Batista eram fiéis às suas idéias? João pode ter sido para elas uma espécie de santo patrono, e não uma figura histórica do movimento deles.

    8- Morte de João Batista

    O relato da morte do Batista é contado em Mar.6:17-29. Essa é a única crônica importante dos evangelhos que não gira especificamente em torno de Jesus. E isso mostra a importância que João Batista tinha para o cristianismo primitivo. E perfeitamente possível que o episódio tenha sido preservado tanto pelos discípulos de Jesus quanto pelos discípulos de João. Josefo fornece-nos outros detalhes sobre a questão, conforme observou-se acima. João, sem dúvida, foi tido como uma ameaça política para a autoridade de Herodes. A execução de João Batista, por ordem de Herodes, não se deveu meramente ao fato de que João objetava ao casamento de Herodes com sua própria cunhada, Herodias. Herodes havia encarcerado João no castelo de Marquero, na margem oriental do mar Morto. Foi então que João mandou indagar a Jesus acerca de suas reivindicações messiânicas (Mat. 11). Herodias, amargurada contra João, por achar que este interferia em sua vida particular, foi a mola que levou Herodes a mandar executar o Batista e, sem dúvida, ela ficou muito satisfeita em ver-se livre daquele empecilho. Herodes, por sua vez, sabia que João era homem reto (Mar. 6:20). Não fizera ainda qualquer violência contra ele, por saber que ele era tão estimado pelo povo comum, e não queria se arriscar a provocar qualquer revolta popular (Mar. 6:20). Porém, Herodias acabou ganhando a parada; e podemos ter a certeza de que Herodes não tentou entravar a vontade dela. Herodias exigiu a cabeça de João Batista como prêmio pela dança tão aplaudida de sua filha. A jovem muito agradara a Herodes e aos convivas meio a1coolizados, que participavam de sua festa de aniversário natalício. Herodes mandou um executor cortar a cabeça de João Batista. E a cabeça de João foi exposta ao público. Quando os discípulos de João souberam o que havia acontecido, obtiveram o seu cadáver e o sepultaram. Em seguida, foram informar Jesus e seus discípulos sobre o que acontecera (Mat, 14:3-12; Mar. 6:17-29). E a noticia teve um profundo efeito sobre o Senhor Jesus. Ao ouvir sobre o acontecido, ele se retirou para a Galiléia, talvez sentindo o perigo contra si mesmo e contra os seus discípulos (Mat. 4: 12). E, sabedor da execução de João, retirou-se para um lugar solitário (Mat. 14:3), sem dúvida a fim de orar e meditar, para meditar  sobre o que faria em seguida, sob aquelas novas circunstancias.

     

    Bibliografia: AM GEY KR KU ND RO(1912) UN.

     

     

     

     

  • Lição 3 – A ignorância de uma geração

    Texto Áureo

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    “E foi também congregada toda aquela geração a seus pais, e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco a obra que fizera a Israel”. Jz 2.10

    Verdade Aplicada

    Toda a geração que desprezar o ensino da vontade do Senhor estará escravizada por uma su­til vã maneira de viver, ficando a mercê do servilismo alheio como aconteceu aos filhos de Israel.

    ISRAEL NO PERÍODO DOS JUÍZES

    Introdução ao período (2:6 – 3:6)

    2:6-10. A morte de Josué. Estes versículos têm seu paralelo em Josué 24:28-31, o que vem fortalecer a opinião, de que 1:1-2:5 provém de fonte separada, que possivelmente foi uti­lizada pelo editor original como pano de fundo da principal porção deste livro. Esta seção, em Josué, conclui o livro, como também o relato da conquista; aqui, porém, esse material introduz o período dos juízes. Todas as pequenas diferenças são explicáveis mantendo-se este fato em mente. Por exemplo, no vers. 7, o adjetivo grandes qualifica as grandes obras feitas pelo Senhor, mas isto não é encontrado em Josué 24:31. A adição é significativa, visto que a apostasia do período dos juízes e muito mais repreensível quando vista através das grandes obras feitas pelo Senhor. Grandes privilégios envolvem grandes responsabilidades.

    O versículo 6 nos ajuda a entender a natureza da conquista. As campanhas unificadas sob o comando de Josué haviam quebrado a coluna dorsal da resistência cananéia, contudo, grande parte da obra de con­quista local havia sido atribuída às tribos individuais. Desse modo, após a cerimônia da renovação da aliança, em Siquém, as tribos des­pedidas por Josué trataram de completar a ocupação dos territórios que lhes haviam sido alocados. Josué 23, que data do período quando Josué era “já velho e entrado em dias” isto é, aproximadamente do mesmo período do capítulo 24, torna claro que as tribos tinham muita batalha pela frente, batalha ferrenha, antes que se pudesse dizer que a terra havia sido conquistada. Alguns problemas associados com a conquista tornam-se menos difíceis quando se mantém em mente que houve estas duas fases.

    Revela-se a influência de Josué na lealdade de Israel ao Senhor durante sua vida, bem como dos anciões ligados a ele. No registro bíblico dá-se ênfase às virtudes e façanhas militares de Josué. Sublinhando tudo isto, contudo, havia obviamente a profunda lealdade ao Senhor, e a integridade de conduta parecida com a de seu grande antecessor, Moisés. Josué, bem como todos os verdadeiros homens de Deus, de todas as eras, constituem o sal da terra, que evita a corrup­ção e assegura a pureza. Mas, cada nova geração deve empenhar-se em sua própria experiência religiosa; não pode continuar na força espiritual de seus heróis do passado. É bem claro que o paganismo nunca esteve longe do povo de Deus durante este período primitivo da história de Israel; e quando Josué e seus companheiros morreram, a nova geração não partilhou de sua fé, nem de sua lembrança dos grandes livramentos que Deus lhes trouxera (2:10).

    Na introdução, sugere-se que o período de Josué e dos anciões que lhe sobreviveram foi de 30 anos. Isto deve ser considerado como mínimo, porque Josué, que morreu aos 110 anos de idade, era jovem à época do êxodo (cf. Êx 33:11). Ele é descrito, aqui, como servo do Senhor (8), designação frequentemente atribuída a Moisés e aplicada, também, a outros importantes líderes da história de Israel, como Davi e os profetas. Implica em vocação para uma missão especial. Não há posição mais elevada, nem mais honrosa, do que a de fiel servo do Senhor (cf. Hb 3:5). Timnate-Heres (9) deve-se ler “Timnate-Sera”, como em Josué 19:50; 24:30; algum escriba obviamente inverteu as consoantes (no hebraico). O local do sepultamento de Josué foi iden­tificado com razoável segurança como sendo a moderna Tibne, a 16 quilômetros a noroeste de Betel.

    2:11-19. O julgamento de Deus sobre a apostasia de Israel. Sumariza-se aqui a história de quase dois séculos, indicando os princípios que regem o relacionamento de Deus com Israel. Durante este pe­ríodo houve um ciclo repetitivo de quatro fases: apostasia, servidão, súplica e livramento. Este é o padrão ilustrado nos capítulos seguin­tes. A nação abandonou o Senhor, crime que envolvia a deslealdade a seus antepassados e esquecimento voluntário das poderosas obras que o Senhor realizara em seu benefício, especialmente o livramento do Egito. Todas as comprovações de suas tradições deveriam ter asse­gurado a fidelidade do povo, mas, ao contrário, voltaram-se para os deuses dos povos no meio dos quais haviam chegado, cuja religião parecia estar mais diretamente voltada para a prosperidade do povo.

    13. Baal filho de El, no panteão cananeu, era o deus das tempestades e das chuvas, sendo, portanto, o controlador da vegetação. Ele era o grande deus ativo, sendo El uma figura um tanto nebulosa; o culto a Baal era largamente difundido no Antigo Oriente Próximo. Notam-se algumas variantes no Velho Testamento como, por exemplo, Baal-Berite (Jz 9:4), Baal-Peor (Nm 25:3), Baal-Gade (Js 11:17), e Baal-Zebube, ou mais provavelmente Baal-Zebul (2 Rs 1:2). Jezabel intro­duziu em Israel o culto a Baal-Melcarte, a variedade fenícia. Hadade era o nome sírio correspondente ao Baal cananita. É por essa razão que os escritores do Velho Testamento agrupam as várias entidades de Baal, um tanto desdenhosamente, sob o nome de Baalim, a forma do plural. O fato de que Baalim também pode significar “maridos”, “proprietários” ou “senhores” dá mais vida à metáfora do adultério (cf. vers. 17), empregada tão frequentemente pelos profetas (por ex.: Os 2:1ss.; 3:1s.; Jr 3:6ss., etc.).

    Astarote, consorte de Baal, é a forma do plural de Astarte, deusa da guerra e da fertilidade, que era adorada como Istar, na Babilônia, e como Anate, no norte da Síria. Nos textos ugaríticos, Anate, com frequência denominada de “virgem”, é irmã de Baal, e grande deusa ativa. Há uma certa fluidez no inter-relacionamento entre os deuses da natureza no Crescente Fértil. A religião destes deuses da fertili­dade era acompanhada por todos os tipos de práticas lascivas, espe­cialmente em Canaã, onde tal religião era tão degradada que incor­porava até sacrifícios de crianças.

    14, 15. O fracasso de Israel em exterminar os cananeus automatica­mente redundou na adoração contínua aos seus deuses. Assim, a na­ção que havia derrotado os soldados da terra, em batalha, sucumbiu às influências débeis dos deuses da terra. O historiador, entretanto, estava profundamente cônscio de que os deuses da terra não tinham existência real, exceto na imaginação de seus adoradores. Só Deus era deus, cuja tristeza soberana diante da infidelidade de Israel era demonstrada na maneira como usava as nações circunvizinhas como vara de punição para Seu próprio povo. Israel era oprimido, escra­vizado e enfraquecido e, mediante a operação da lei de causa e efeito (a exaustão de sua força espiritual pelo culto sensual a Baal se fazia acompanhar de um declínio correspondente em sua vitalidade física e moral), a nação afundava em profunda angústia. O abandono do Senhor da parte deles teve outra consequência: visto que os laços que uniam a nação eram, primordialmente, laços religiosos, derivados da aliança e expressos na adoração no santuário anfictiônico, o enfraque­cimento desses laços conduziu ao enfraquecimento de sua unidade na­cional, ficando o povo desorganizado e dividido.

    16. Não há menção categórica, aqui, de que em sua angústia, os israe­litas se voltaram para o Deus a quem haviam abandonado. Contudo, a regularidade com que isto é observado subsequentemente (3:9, etc.), permite-nos presumir que aqui houve esta volta. Quando a nação clamava ao Senhor, Ele, em Sua misericórdia e magnanimidade, levan­tava juízes para libertá-los de seus opressores. Já observamos que estes homens eram considerados como tendo recebido poderes sobrenaturais da parte de Deus, os quais eram manifestos no livramento do povo e subsequente governo que estabeleciam. Contu­do, até mesmo a influência desses juízes era de pouca duração. Os israelitas tinham memória curta e, quando a crise era debelada, esque­ciam-se tanto da miséria anterior como do estado de arrependimento temporário a que tinham sido induzidos por ela. A “volta ao Senhor” era, pois, um expediente superficial. É possível que todos nos lem­bremos de algo semelhante em nossa própria época, quer na vida da nação (lembremo-nos dos dias de oração nacional, durante as guerras mundiais deste século), quer em nossa própria vida pessoal. Como é fácil usar-se o Deus Todo-Poderoso como se fora corpo de bom­beiros, ou pronto-socorro! A gratidão pelo livramento, tanto do antigo Israel como do Israel espiritual de hoje, deve expressar-se em dedica­ção permanente da vida (cf. Rm 12:1 ss.).

    17. Havia obediência imperfeita até mesmo nos dias dos próprios juízes, atitude esta denominada adultério espiritual: “. . . antes se pros­tituíram após outros deuses, e os adoraram.” Israel, chamado para ser a noiva do Senhor, abandonou-O para seguir seus amantes, isto é, os deuses da fertilidade de Canaã. Esta vivida ilustração da aliança violada do casamento provê o pano de fundo para o livro inteiro do profeta do oitavo século, a Israel, Oséias, e é aplicada por Jeremias, também, quanto à situação desesperadora de Judá, um século e meio mais tarde (Jr 3:1ss.).

    18. Revela-se uma deterioração progressiva, em que cada ciclo suces­sivo se caracteriza por uma caída mais profunda na apostasia e cor­rupção, e por um arrependimento mais superficial do que no ciclo anterior. Tal processo está em harmonia consistente com nossa com­preensão moderna da psicologia do homem. A terminologia muda com o passar dos anos, contudo, os vislumbres profundos do interior da natureza humana, que o Velho Testamento nos proporciona, não podem ser negados. A voz da consciência pode ser abafada pelos su­cessivos atos pecaminosos, e o arrependimento pode tornar-se mais e mais superficial, até a pessoa ver-se enredada por um mau caráter, formado por uma enormidade de maus pensamentos e más ações, de tal forma que é necessário um milagre, para produzir-se um arrepen­dimento genuíno, e uma busca verdadeiramente sincera do Senhor, de todo o coração.

    2:20-23. Os resultados da apostasia contínua. A obrigação de Israel, dentro da aliança sinaítica, era a de prestar lealdade e obediência cegas ao Senhor, que havia feito maravilhas pelo Seu povo. Isto jamais poderia ser considerado oneroso, em vista de seu relacionamento singular com seu Deus-Salvador (Dt 4:32-40), que havia cumprido Sua parte do contrato, ao cumprir a promessa feita aos patriarcas com respeito à Terra Prometida. A desobediência de Israel, contudo, foi seguida pela inevitável punição divina. Para o leitor moderno pode parecer um tanto incongruente que Deus deixasse os povos estrangei­ros dentro das fronteiras de Israel, como punição pela apostasia, e para testar a fidelidade futura da nação, quando a razão mesma do fracasso da nação é atribuída à incapacidade de Israel em eliminar esta população alienígena.

    Esta dificuldade não existia para o historiador israelita, cuja visão da soberania do Senhor governava todas as causas secundárias, estan­do tudo subordinado, e atribuído, diretamente à Sua vontade determinadora. Na situação que mudara, por causa da desobediência de Israel, manifesta-se, ainda, esta soberania: Permitiu-se aos cananeus que permanecessem, a fim de que se testasse de modo adequado a lealdade do povo da aliança. Este foi um exame profundo em que a nação, em geral, não conseguiu aprovação.

    3:1-6, Israel e seus vizinhos. Introduz-se, aqui, mais uma razão suplementar para a presença de consideráveis elementos estrangeiros. Não era apenas uma punição, nem apenas uma oportunidade de testar a fidelidade da nação; eles ali estavam para prover ao povo de Deus experiência na arte marcial. Estas razões não devem ser consideradas como contraditórias entre si, visto que o que ocupava a atenção do historiador sacro era o resultado global, relacionado diretamente ao Senhor, ao invés de um propósito único, dominante de tudo. Israel deveria viver num ambiente hostil, na maior parte de sua história, devido às pressões dos pequenos reinados ao redor ou, num estágio posterior, devido à sua posição estratégica entre os sucessivos poderes mundiais da Assíria, da Babilônia, da Pérsia e da Grécia, de um lado, e do Egito, do outro. O poderio militar era uma necessidade, um objetivo a ser atingido, humanamente falando, se Israel pretendesse sobreviver. Entretanto, a consecução deste poderio militar apenas ra­ramente obscureceu o fato de que a vitória não foi o resultado da força de Israel, mas da obra de Deus a seu favor (por, ex.: 2 Sm 8:6, 14).

    É provável que o historiador original incluiu as listas dos ver s. 3 e 5, O primeiro relaciona quatro nações, enquanto este último re­laciona seis, sendo os cananeus e heveus comuns a ambos, o que sugere que as duas fontes estavam disponíveis ao redator sacro, que não as comparou. Os filisteus estavam estabelecidos em seu estado composto de cinco cidades: Gaza, Ascalom, Asdode, Ecrom e Gate. A seus governadores se dá sempre a designação de seren (senhor), palavra provavelmente relacionada com o grego koiranos, ou tyrannos, o fami­liar tirano da história grega clássica. Já observamos que a ascendên­cia dos filisteus provém da região do mar Egeu. O termo cananeu às vezes designa todos os habitantes originais daquela terra, às vezes aqueles que habitavam nos vales e áreas costeiras. Os sidônios eram cananeus que habitavam a área ao redor de Sidom. Seriam chamados de fenícios, posteriormente. Sidom, nesta época primitiva, tinha maior importância do que Tiro. Os heveus usualmente são identificados com os horeus (Gn 36:2; cf. 36:20, 29), os quais estabeleceram o flores­cente reinado de Mitanni, na Mesopotâmia Superior, na metade do segundo milênio a.C., invadiram terras na direção do sudoeste, até as cordilheiras do Hermom e do Líbano, e até a tetrápolis dos gibeonitas, a noroeste de Jerusalém (Js 9:7, 17). Foram feitas duas sugestões com respeito à entrada de Hamate. Poderia significar o ponto de aces­so entre as montanhas do Líbano ao grande vale sírio, no qual Ha­mate fica, ou, como sugerem alguns eruditos contemporâneos, “Labo de Hamate”, a moderna Lebwe, a 23 quilômetros ao norte-nordeste de Baalbek. Uma identificação menos viável relaciona os heveus com a palavra hebraica para “vila de tendas”, para considerá-los uma comunidade rural. Rodeado por todos estes ele­mentos diversos, Israel seria incapaz de manter sua pureza de raça e de religião; ao invés de permanecer fiel ao Senhor, houve uma rá­pida aceitação dos deuses da natureza, daquela terra, e aceitação também das práticas corruptas a eles associadas. As resoluções e de­clarações de lealdade da parte de Israel para com seu Deus da aliança, desapareciam rapidamente sempre que confrontadas com as forças do erro e da atração sensual.

    Bibliografia A. E. Cundall

  • Lição 7 –  Autoridade da Santificação

    Lição 7 – Autoridade da Santificação

    Santidade

    Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor; Hebreus 12:14

    Introdução

    A concepção que as pessoas, tem da expressão santo nos nossos dias e muito diferente do que a Bíblia ensina, a maioria das pessoas acha que ser santo é uma pessoa que não comete pecados e que possa realizar milagres, mesmo depois de morta.

    Já a Bíblia apresenta a expressão Santo, que no original Hebraico é qadosh que significa  separado, santidade, sacralidade, posto à parte, já no grego e usado o termo hagios separado por (ou para) Deus, santo e sagrado.

    Portando Santos ou santas são pessoas separadas, para Deus que compõe a Igreja.

    Santificação

    I. Idéias Gerais

    O termo grego aqui empregado é agiasmos, que significa “consagração”, “separação”, “santificação”. Refere-se ao processo que leva o crente a tomar-se uma pessoa dedicada, santa, baseada em um início implantado quando da conversão, reconhecido diante de Deus, mas também concretizado nele, através de sua transformação moral. O alvo final é a perfeita concretização dessa santidade no indivíduo, de modo que a própria santidade de Deus Pai seja plenamente absorvida (ver Mal. 5:48 e Rom. 3:21). Somente essa forma de santidade é aceitável por Deus; todos os seres que habitam nos lugares celestiais e, portanto, todos os seres que estão próximos de Deus, devem ser santos como Deus é santo.

    A conversão e a justificação são as sementes da santificação. Pode-se perceber que a justificação, conforme os termos paulinos, realmente inclui aquele processo que se chama santificação, ainda que os reformadores protestantes, sobretudo Lutero, tenham feito clara distinção entre uma e outra doutrina, provavelmente no zelo de procurar preservar a justificação isenta de qualquer pensamento de esforço humano. Todavia, essa distinção não é paulina, pois a justificação é para a vida, e nela há comunicação de vida santa, e não apenas um “decreto forense” de Deus, que declara que o crente está “posicionalmente” perfeito em Cristo. E verdade que essa declaração forense está envolvida, mas há mais ainda envolvido. Consiste em realmente aperfeiçoar o crente, mediante a influência do Espírito Santo; isso pode ser chamado de santificação “progressiva” ou “presente”. A linha divisória entre a justificação e a santificação é muito tênue, se é que realmente existe.

    A justificação, em seu sentido pleno, toma-se real e vital na santificação, que é a operação do Espírito Santo que toma o indivíduo dedicado e santo, e que assim, finalmente, vem a tomar-se o mais santo possível.

    A “santificação” tem um aspecto passado, obtido quando da conversão; há também a santidade presente (ver GáI. 5:22,23), que vai sendo paulatinamente implantada pela ação e poder do Espírito; e há também um aspecto futuro da santificação, quando todo o resquício de pecado será tirado, quando o indivíduo se tomar finalmente participante das qualidades morais positivas de Deus, e não meramente livre da presença do pecado. E isso significa que o homem tomar-se-á tão santo como Deus, perfeito na bondade, na justiça e no amor, e esse é o alvo na direção do qual estamos sendo levados pela santificação.

    Ora, é a transformação de nossa natureza moral que produz uma transformação correspondente da natureza metafísica, a qual nos tornará participantes da própria natureza e divindade de Cristo (ver Rom. 8:29; 11 Cor. 3: 18 e 11 Ped. I :4), a saber, da “total plenitude de Deus” (ver Efé. 3: 19). Esse é o alvo culminante da santificação.

    Elementos da Santificação

    1. Separação do crente para Deus e para o seu serviço (ver Sal. 4:3).

    2. É uma realização divina (ver Eze. 37:28; I Tes. 2:23 e Jud. I), por meio de Cristo (ver Heb. 2: 11 e 13: 12), e através do Espírito Santo (ver Rom. 15: 16; I Cor. 6: 11 e I Tes. 4:8).

    3. Consiste na comunhão mística com Cristo (ver I Cor.1:2).

    4. Depende do valor da expiação pelo sangue de Cristo (ver Heb. 10:10 e 13:12).

    5. Realiza-se mediante a energia da palavra de Deus (ver João 17: 17,19 e Efé. 5:26).

    6. Cristo é o nosso mais elevado exemplo de santidade, porquanto é a nossa santificação (ver I Cor. 1:30).

    7. A eleição leva a efeito esse alto objetivo, por meio da santificação, não podendo esse alvo deixar de ser concretizado na vida do crente regenerado, visto que é um dos elos da cadeia de ouro que nos leva à glorificação (ver 11 Tes. 2: 13 e I Ped. 1:2).

    8. A igreja se tomará gloriosa por meio da santificação (ver Efé. 5:26,27).

    9. Conduz o crente à presente mortificação da natureza pecaminosa (ver I Tes. 4:3,4).

    10. Conduz o crente àquela santidade no Intimo sem o que ninguém verá a Deus (ver Rom. 6:22; Efé. 5:7-9 e Heb. 12: 14).

    11. Toma aceitável para Deus a “oferta” dos santos (ver Rom.15:16).

    12. A vontade de Deus é que os crentes sejam santos (ver I Tes. 4:3).

    13. Também é mediante a santificação que os ministros de Deus são separados para o serviço divino (ver Jer, 1:5).

    14. Devemos orar insistentemente para que os crentes participem plenamente da santificação (ver I Tes. 5:23).

    15. Sem a santificação ninguém poderá herdar o reino de Deus (ver I Cor. 6:9-11).

    Santificação Completa

    1. Biblicamente falando, isto é declarado impossível para a vida atual. Ver I João 1:8.

    2. A experiência mostra que declarações de inteira santificação são falsas.

    3. As pessoas que declaram Ter alcançado a “perfeição” sempre reduzem a definição do pecador para ter a capacidade de viver (em algum grau) suas declarações.

    4. A santificação inclui a participação positiva nas virtudes morais de Deus (Gál. 5:22,23). Deste ponto de vista, a santificação deve ser um processo infinito, eterno. Ver Efé. 3: 19 sobre a nossa participação na plenitude de Deus. A perfeição atualmente é o alvo. A perfeição de Deus sempre será o alvo de nosso viver.

    Em termos gerais, tudo isso está envolvido no processo de separação ou dedicação a um ser santo, para seu uso, para seu serviço, tanto nesta terra como nos céus, tanto no tempo como na eternidade. Deus santifica. Cristo santifica e o Espírito Santo santifica (conforme declaramos anteriormente), mas o próprio crente também se santifica, cedendo à influência divina e aplicando os meios normais de adoração e purificação, como a oração, o estudo da Palavra e a meditação, além da inquirição pelo Espírito

    Santo. Esses são “meios” que compete ao crente aplicar a si mesmo, a fim de que o Espírito Santo, por sua vez, opere sua obra santificadora. (Ver os trechos de Lev. 11:44; Jos. 7:13 e 11 Cor. 6:14-18, onde a responsabilidade da santificação é imposta ao homem.)

    A santificação consiste na transformação moral do crente segundo a imagem de Cristo. Por isso mesmo torna-se necessária a comunhão com ele, para que haja essa realização (ver I Cor. 1:4 e 11 Cor. 3: 18). As experiências espirituais específicas podem intensificar a busca e ‘fornecer vitórias especiais no terreno da santificação; mas nenhuma experiência poderá entregar tudo para nós. De fato, na qualidade de seres mortais, não somos ainda o tipo de seres que possa ter a santidade em seu sentido mais completo, conforme explanado acima. É mister que o indivíduo receba a natureza divina e esteja habitando nos lugares celestiais, antes de poder dar os passos gigantescos na direção da perfeição moral que podemos intitular de “completa santificação”. Trata-se de uma inquirição eterna, e não meramente da terra ou dos céus, como se, por ocasião da partida do crente deste mundo e de sua entrada nos lugares celestiais, tudo pudesse ser atingido automática e repentinamente.

    Pelo contrário, esse exaltado alvo está sendo atingido; e nisso consiste a própria existência do crente, nisso consiste a própria natureza da vida terrena – tornarmo-nos cada vez mais semelhantes a Deus.

    A santificação tem sido reduzida a um “sacramento”, porquanto muitos estudiosos supõem que, na Igreja Católica Romana, a santificação é conferida através da graça supostamente inerente nos sacramentos. Pelo contrário, a santificação é e sempre será “espiritual”, ou seja,

    vem através da comunhão  com o Espírito de Deus, mediante sua presença habitadora contínua. Certamente que isso não envolve um processo legalista. Não pode a santificação ser atingida mediante a observância consciente de algum código legal.

    O Alvo da Santificação

    1. A santificação tem seus primórdios originários na eleição; e uma vez que se desenvolve em realidade, ela se torna um meio da eleição.

    2. O Espírito Santo é o agente da santificação, pois afinal de contas, trata-se de uma realização divina. Requer a cooperação humana e se concretiza mediante o uso dos meios de desenvolvimento espiritual, como o amor, bem como o emprego dos dons espirituais, no cumprimento de nossas respectivas missões e na santificação.

    3. O alvo é elevadíssimo: antes de mais nada, a própria natureza santa de Deus está sendo implantada em nós (ver Dan.3:21).

    4. A perfeição de Deus é o alvo da santificação (ver Mal. 5:48). Chegaremos a participar da natureza do Pai, porquanto somos filhos de Deus e estamos sendo conduzidos à glória (ver Heb. 2: 10).

    5. A participação na natureza metafísica de Deus é o resultado da inquirição após a perfeição (ver 11 Ped. 1:4). Isso nos conferirá a plenitude divina (a natureza e os atributos de Deus), conforme se aprende em Efé. 3:19. Essa transformação é levada a efeito em conformidade com a imagem do Filho, o qual é o arquétipo da nossa salvação (ver Cal. 2: I0 e Rom, 8:29).

    Santificação envolve todo o nosso ser

    Vemos que a santificação afeta nosso intelecto e inteligência quando Paulo diz que devemos colocar-se do novo “que está sendo renovado em conhecimento, à imagem de seu Criador” (Cl 3:10).Ele ora para que os filipenses para ver seu amor “abunde mais e mais no conhecimento e bom senso” (Fl 1:9). E exorta os cristãos romanos para “transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). Embora o nosso conhecimento de Deus é mais do que conhecimento intelectual, não é certamente um componente intelectual, e Paulo diz que esse conhecimento de Deus deve aumentar sobre as nossas vidas “viver de modo digno do Senhor para o seu inteiro agrado” ( Col 1:10). A santificação dos nossos intelectos envolvem o crescimento em sabedoria e conhecimento para ser gradualmente “[tendo] cativo todo pensamento para torná-lo obediente a Cristo” (2 Coríntios 10:5) e achar que os nossos pensamentos estão recebendo os pensamentos que Deus nos ensina através da Sua Palavra.

    Além disso, o crescimento na santificação afeta nossas emoções. Veremos cada vez mais em nossas emoções da vida como “amor, alegria, paz, paciência” (Gl 5:22). Nós vemos mais e mais capaz de obedecer o comando de Pedro de longe dos “desejos pecaminosos, que a guerra contra a sua alma” (1 Pedro 2:11). Cada vez mais achar que “ele [o amor] o mundo ou qualquer coisa nele» (1 Jo 2:15), mas que nós, como nosso Salvador, regozijamo-nos a vontade de Deus. Em uma medida cada vez maior que “[vontade subject] coração” (Romanos 6:17), e abandonar as emoções negativas da “amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, juntamente com toda a malícia” (Efésios 4: 31).

    Além disso, a santificação afetar nossa vontade, o poder de tomada de decisão, porque Deus está trabalhando em nós, “é Deus quem opera em vós o querer eo fazer para obter a sua boa vontade” (Fp 2:13 .)À medida que crescem na santificação, nossa que respeitar mais e mais à boa vontade de nosso Pai celestial.

    Santificação também afetam o nosso espírito, a parte não-física de nossos seres.Devemos “[purificar] de tudo o que contamina o corpo eo espírito, aperfeiçoando o temor de Deus na obra de nossa santificação” (2 Cor 7:1), e Paulo nos diz que a preocupação com “as coisas do Senhor “leva a” dedicar-se ao Senhor em corpo e espírito “(1 Coríntios 7:34).

    Finalmente, a santificação afeta nossos corpos físicos. Paulo diz: “Que o próprio Deus, o Deus da paz, vos santifique completamente, e manter todo o seu ser-espírito, alma e corpo – irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23).Além disso, Paulo incentivou os coríntios a limpar “tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando o temor de Deus na obra de nossa santificação” (2 Coríntios 7:1, cf.1 Coríntios 7:34). Para correr mais santificados em nossos corpos, eles estão se tornando servos mais úteis de Deus, mais receptivo à vontade de Deus e os desejos do Espírito Santo (cf. 1 Coríntios 9:27).

    Nós não vamos deixar o pecado reinar em nossos corpos (Romanos 6:12), nem participar em qualquer forma de imoralidade (1 Coríntios 6:13), mas tratar o corpo com cuidado e reconhecer que eles são meios pelos quais o Espírito Santo trabalha em nossas vidas. Portanto, não ser molestado ou abusado de qualquer jeito, mas vou tentar ser útil e sensível à vontade de Deus: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que está em vós e que tenham recebido Deus? Você não é sua; foram comprados por um preço. Portanto, honrar a Deus no vosso corpo “(1 Coríntios 6:19-20).